quarta-feira, 22 de dezembro de 2004

Chaves


Em Chaves, outro almoço perfeito: Cozinha do Convento.

É no Hotel do Forte, se não me falha a memória
Ao sair de Viana, fomos para Vidago, um pouco ao sul de Chaves, para nos hospedarmos no Palace Hotel, dica do Pedro Malheiros, do blog "Chaves...cidade on line...".
O hotel é enorme, imponente. Ao chegarmos, entramos com o carro na alameda que conduz à porta principal do hotel. Fomos impedidos por uma cancela. Ao pararmos, um sentinela todo paramentado aproximou-se:
Seu nome?
Renato.
Santos Passos?
Sim.
Pode entrar. Está a ser aguardado.
Fiquei encantado. Sabiam quem era eu, naquela imensidão.
Logo descobrimos: éramos os únicos hóspedes, em um total de 84 ou 85 quartos.
Por isso, ficamos um dia a menos do previsto. Era muito hotel pra tão pouco hóspede.

Valença, ou de Faro a Faro


Valença fica às margens do rio Minho, na fronteira setentrional. Há lá uma fortaleza enorme, dentro da qual funciona um pequeno centro comercial muito visitado pelos espanhóis. Veja a fortaleza (ou melhor, pequena parte dela):

Quem se dispõe a invadir?
Depois de visitá-la, como queríamos almoçar, encontramos a subida para o Monte do Faro. Lá no alto, um restaurante de comida divina e serviço impecável. O rapaz que nos atendeu, de forma perfeita, tem um sonho: ir morar em Salvador e montar uma pousada no nordeste brasileiro. Vejam só. É por isso que a espécie humana é tão encantadora. Há gosto pra tudo.
Lá do alto, fotografamos o rio Minho:

Dizer o quê
Valença vista lá do alto do Monte do Faro é assim:

Aqui termina (ou começa) Portugal
Agora, além dessa surpresa de encontrar um Faro bem ao norte, quando o que conhecia era a cidade de Faro, lá no Algarve, bem ao sul, tive outra surpresa, que - pensando bem - já deixou de ser surpresa. É que a qualidade de vida desses habitantes do cantinho sudoeste da Europa parece que melhora quanto mais eles reclamam de tudo.
Ao subir ao Monte do Faro, passa-se por um lugarejo (digamos que deve ser um bairro de Valença, algo assim) chamado Picões. É cada casa mais linda que a outra. Fotografei uma, juro que absolutamente ao acaso, e um pedacinho da rua em que ela fica, só pra dar uma idéia.

É pouco?
Disseram-me serem casas, na maioria, de médicos do Porto

Viana do Castelo


Viana (para os íntimos) fica ao norte do Porto, junto ao Atlântico, na foz do rio Lima. Cidade deliciosa (mas não se deve comê-la), tem o Monte de Santa Luzia, no alto do qual fica a Pousada idem idem e uma igreja muito freqüentada. Vejam só:

Essa é a pousada
O mar visto de nosso quarto
Rio Lima visto da Igreja
Saca só a névoa sobre o rio Lima
Mas Viana não é só Monte de Santa Luzia. Olha só o pessoal a aproveitar o domingo de sol na Praça da República:

No stress
Uma igreja próxima à Praça da República, pra vocês poderem dizer que já conhecem Viana:

Mais, só indo lá

Ainda Braga


Aqui dentro da Catedral ainda não se vende BigMac.

Há muitos arcebispos enterrados aqui

Ainda Bussaco


Esta é outra vista do Hotel Palace, na Serra do Bussaco, junto a Mealhada.

Pra ficar lindo, tem que enfeiar um pouco

Vida Normal


Pronto. Parece que tudo volta à normalidade. O carro ficou pronto hoje pela manhã. No final da tarde devolvo o "carro de substituição" na Hertz. Ao meio-dia o funcionário lá não estava. Como já expliquei aqui, cada loja tem "no máximo" um funcionário. Se ele precisa deslocar-se por qualquer razão, coloca à porta um aviso "Volto já" e adeus.
Aproveitamos para vir ao CyberCentro de Bragança para postar umas fotos. Por enquanto, fiquem com a imagem de um pedacinho da Barragem de Gerez, no Minho. A baixinha estava com frio. Não era para menos.

Que friiio!

sábado, 18 de dezembro de 2004

Da dupla nacionalidade


Estamos hospedados em uma casinha de pedra, recuperada para turismo rural, em plena aldeia de Pinheiro Novo, Parque Natural de Montesinho, quinze minutos acima de Passos (de carro). Lá a Internet não entra de jeito nenhum. O sinal é muito fraquinho. Nem telemóvel/celular consegue-se utilizar. Preciso achar um lugar onde possa usar meu portátil/notebook. Viemos hoje a Bragança tentar consertar um vazamento de óleo no carro (e aproveitar para escrever este post em um centro de informática que há na cidade). Ainda não foi possível fazer o conserto do carro, mas fica a história do mecânico que me atendeu muito gentilmente em uma oficina Peugeot:
Perguntou-me ele:
És brasileiro ou português?
As duas coisas, disse eu.
Então, és português.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2004

Braga, capital religiosa de Portugal


Quer mostarda?
Vai um Big McHóstia Feliz?

O leitão de ouro


Quando Moisés subiu ao Sinai para receber as tábuas da lei, demorou o suficiente para que o povo judeu iniciasse a adoração do bezerro de ouro. No dia oito do mês da graça de dezembro de 2.004, em Mealhada, o povo esqueceu-se que era dia de nossa senhora da conceição. Encheu-se de leitões.

Que delícia!

A Voz do Seven


essa placa fica em Bussaco
Olá António Neves, do Voz do Seven. Não fui até lá, mas lembrei-me de ti.

Obs: não postei esta foto antes pelos problemas que tive com a placa Vodafone. Parece que os pacientes técnicos do Vodafone F. C. estavam com a razão. Faltava-me instalar vários anti-spywares e um firewall. Agora, aqui em Vidago, a coisa começou a funcionar.
Deus seja louvado.

sábado, 11 de dezembro de 2004

Como aprender a ser português em algumas lições


Desde que chegamos a Viana do Castelo não paramos de aprender coisas interessantes. Por exemplo: percebi que o carro estava com quase nada de óleo no motor. Fomos a uma concessionária Peugeot. Confirmou-se o que já havíamos reparado em lojas, restaurantes etc. Quase sempre há apenas um funcionário a atender ao público. Espera-se muito, portanto. Quando se é atendido, tratamento de rei (nem que seja para informar que o produto não existe, que o serviço não está disponível etc etc).
Veja-se o caso da oficina de veículos. Em São Paulo, chega-se com o carro a uma dessas oficinas (ditas "autorizadas"). Há sempre duas ou três mocinhas bonitinhas, atraentes e sorridentes para recebê-lo. Dão-lhe boas vindas e pedem que aguarde o atendente técnico. Em resumo, não fazem nada. A não ser agradar ao olhar. O técnico chega (há sempre vários deles por ali), faz perguntas, preenche uma enorme ficha e leva o carro lá pra dentro. Manda que telefone três ou quatro dias depois, para saber se o carro já está pronto.
Em Viana, entrei na oficina Peugeot. Havia lá um rapaz a atender outro cliente. Demorou uns quinze minutos até tomar conhecimento da minha existência. Disse que metesse o carro pra dentro da oficina (os portugueses usam o verbo "meter" com uma habitualidade surpreendente). Examinou o nível do óleo, disse que estava tudo em ordem no Universo, preencheu o reservatório com um pouco mais de óleo, desejou-me bons passeios e foi atender a um outro cliente que esperava pacientemente. Era o único ser vivo nas imediações.
E o telemóvel? Vida dura a de um brasileiro que adquire um telemóvel em Portugal. Primeiro, tem de aprender a não falar "celular". Depois, bom, depois há a questão do carregamento de créditos. Estamos hospedados lááá no alto do monte Santa Luzia. Como meus créditos do celular haviam terminado em meio a uma conversa técnica com um funcionário Vodafone que tentava explicar-me porque a placa pela qual paguei uma fortuna não funciona, lá fui ao centro comercial Estação Viana à busca de uma loja TMN para carregar mais créditos (comprei um celular TMN e uma placa para Internet da Vodafone. Percebi que essas empresas, cá em Portugal, são algo do tipo Benfica e F.C. do Porto. Como quero estar bem com todos...). Chego à loja, aguardo que a única funcionária existente (como já disse, é sempre assim)se livre do cliente anterior, e solicito um carregamento. E ela:
- Qual a referência? (na verdade, ela falou algo como "rifrênxia")
Olhei-a com cara de "I beg your pardon".
- A rifrênxia. Rifrênxia Multibanco.
????
- O senhor deve ter um número que lhe forneceram ao adquirir o telemóvel. É a referência Multibanco.
Lá vou eu, morro acima, buscar dois dígitos esquecidos no hotel.
Quanto à placa Vodafone, bem. Lembra um pouco a história do inferno brasileiro. Pra quem não sabe: sujeito chega ao inferno e é informado que pode escolher. Tem inferno suíço, inferno brasileiro etc etc.
Ele pergunta como é o suíço.
Olha, às terças e quintas come-se merda.
E no brasileiro?
Come-se merda todos os dias.
O indivíduo escolhe o suiço. Está a dirigir-se para lá, passa na frente do inferno brasileiro. Uma porção de gente a querer entrar.
- Mas por que todos querem o inferno brasileiro. Aí come-se merda todo santo dia. No suíço só terças e quintas.
Explica o guia: é que no suíço é inevitável comer-se merda às terças e quintas. No brasileiro, em tese, é todo dia. Mas num dia falta panela, no outro não tem prato, depois é a própria merda que falta...
Ao vir para Portugal, trouxe um "portátil" (é assim que se chama "notebook" aqui). Ao aqui chegar, comprei um telemóvel e a placa Vodafone para acessar (fala-se "aceder") a Internet. Adquiri também uma máquina fotográfica digital para entupir meu blog de fotos maravilhosas. Mas, como em todo bom inferno brasileiro, um dia é a placa que não funciona, em outro o portátil trava, volta e meia lá se vão os créditos de telemóvel e da placa etc etc etc. Ah. Já aconteceu de terminar a carga da bateria da máquina fotográfica no momento de uma linda foto.
Vamos em frente.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2004

quarta-feira, 8 de dezembro de 2004

Conímbriga


Claro que o dia começou por Coimbra. Consegui comprar uma placa Vodafone (viu, Asulado) para acessar a Internet sem fio e sem wi-fi e uma máquina digital. Meu Pai Natal está completo. Só não ponho aqui já uma foto porque fui meter o CD com fotos do Hotel Palace de Buçaco no drive de CD e ele sumiu dentro do notebook (mais problemas a resolver).
No almoço, leitão no Pedro dos Leitões, Mealhada. Isso sim, é algo que se pode sem receio de errar chamar de "o melhor do mundo". Quando comecei a comer, deixei escapar uma exclamação: "Huummmmmm!". A baixinha já caiu matando: "não começa a elogiar".
Ao contrário, fiz uma crítica: ao invés de mesas e cadeiras, o restaurante devia ser dotado de genuflexórios. Só deveria ser permitido comer esses leitões de joelhos, em atitude de adoração.
À tarde, fomos a Conímbriga, pouco ao sul de Coimbra, ver as ruínas lá existentes. É impressionante. Em Santiago de Compostela eu já ficara fascinado pelos degraus do século XI, gastos pelo uso. Os pés de milhares e milhares de seres humanos ao longo de quase dez séculos gastaram a parte central do mármore daqueles degraus.
Em Conímbriga, você se vê dentro de casas construídas entre os séculos I e IV. Quase é possível ver pessoas praticamente contemporâneas de Cristo a andar por salas, quartos, banheiros e cozinhas.
É um verdadeiro choque temporal. Saímos de lá em silêncio, reverentes.
Não sei se sabem, mas sou fã incondicional da espécie humana.

terça-feira, 7 de dezembro de 2004

Aveiro: ovos moles, farol rijo


Saímos do hotel lá pelas dez da manhã. Fazia um frio de quatro graus Celsius. Dia lindo, céu azul, tudo ensolarado. Ao descer a serra já se consegue uma "melhoria" de uns quatro a cinco graus na temperatura. De Buçaco passa-se por Luso (um lugarejo. Dirão os brasileiros: mas, por aí, tudo não é luso?), chega-se a Mealhada e, daí, à auto-estrada Lisboa-Porto, a A1. Fomos por ela até a entrada para Ílhavo. Cidadezinha encantadora, a de meu nascimento burocrático português. Quando entrei na Conservatória do Registro Civil para conhecer dona Zulmira, que tantas vezes aturou-me ao telefone para informar sobre o andamento dos processos de nacionalidade de meus filhos (e, antes, do meu próprio) ela já saíra a almoçar. Fomos, então, às praias. Pensei que fosse um pulinho, do centro de Ílhavo às praias. Ledo engano. É um labirinto guiado por placas. Finalmente chega-se à Barra, balneário bem ajeitado. Fica aí o Farol de Aveiro. Se tivesse já comprado minha máquina fotográfica digital, colocaria aqui a foto do farol. Grandão, imponente. Símbolo fálico evidente, que só pra isso serve. Parece que só os ovos é que são moles, nestas bandas.
Daí, fomos a Aveiro. Cidade grandinha (deve ter uns duzentos mil habitantes, por aí). Não nos demos muito bem. Sem termos feito a lição de casa, não sabíamos nada sobre restaurantes, nada sobre o que visitar, nada de nada. No posto turístico nos disseram que na região do Mercado do Peixe havia uma porção de restaurantes. Comemos em um sofrível. Depois, toca a procurar a loja da TMN pra comprar a placa que deverá fazer este notebook comunicar-se com o mundo depois que não existir mais wi-fi.
E aí aconteceu o que parece justificar o comentário irônico do José Carlos sobre a escassez de tecnologia ao norte de Portugal: ontem, domingo, em Figueira da Foz, o garotão da loja TMN me disse que em Aveiro sim. Sim, lá há uma loja verdadeira da TMN, com tudo à disposição.
Hoje, em Aveiro, primeiro no Forum (centro comercial super bonitinho): não, esta é uma loja contratada da TMN. Em tal lugar assim assim há a real loja TMN. Há lá uma assistência técnica que tudo resolverá etc etc etc. Com a ajuda das explicações de uma gaúcha que encontramos na rua e que mora há três anos em Aveiro (sem perder o pesado acento gaúcho) chegamos na loja verdadeira. Só uma atendente, um monte de gente para ser atendida. Espera que espera. Na minha vez peço a placa. Não, não a temos. Isso só em Lisboa, Porto ou Coimbra. Coimbra? Lá vou eu. Amanhã de manhã.
Ovos moles? São a gemada que minha mãe me preparava na infância, servida em uma casquinha chamada 'hóstia'. Milagre de marketing. Só perde pra Fátima. Pelo menos os ovos moles existem e são deliciosos. Já quanto a Fátima. Deixa pra lá.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2004

Figueira da Foz


Domingo, pede cachimbo. Assim rezava a tradição em minha infância. E, por isso, fomos a Figueira da Foz, a ver aquelas praias fantásticas.
Decepção: o Patinho Feio, do Largo da Má Língua, não havia programado nenhuma recepção. Não havia nenhuma faixa "Santos Passos, benvindo a Figueira". Aliás, acho que nem estava lá, o descuidado. Mesmo assim, foi tudo muito bom. Almoçamos num restaurante à beira mar, comemos santola, gambas consideradas pelo dono do restaurante como as melhores do MUNDO (simplesmente isso), mariscos e algo mais.
Fomos ao Jumbo, adquirimos um telemóvel e fomos a uma loja TMN tomar informações sobre placa de comunicação via internet, sem fio. Um garoto, daqueles fanáticos por informática, deu-nos todas as dicas possíveis e imagináveis. Mas não havia placa disponível para venda. Amanhã, em Aveiro, coloco uma em meu Baixinha-1 (meu sensacional Notebook).
Parêntesis para informação relevante: o Baixinha-1 é "1" não porque vá haver outras baixinhas no futuro. O que, presumo, venha a existir, talvez sejam outros Notebooks (baixinha-2 etc). Ficou claro? Ufa.
Finalmente, sentamos diante de um pôr de sol deslumbrante (brasileiro não está habituado a pôr de sol no mar, bem em frente à praia. Em Camboinhas, Niterói, é assim. Mas é coisa rara, no Brasil).
Tudo estava perfeito até à entrada no bar/restaurante de um trio que chegou em um BMW vermelhão, de gosto discutível. Era um ingênuo e alegre português, na faixa de uns trinta a quarenta anos, acompanhado de uma prostituta brasileira e de uma portuguesa que não sei bem que papel representava no contexto.
Preferia que viessem a Portugal brasileiros mais representativos de nosso país. Parece que não é bem isso que ocorre.
Pedimos a conta e voltamos à serra do Bussaco, que ainda não sei se é Bussaco ou Buçaco. Percebo que ainda não se chegou a acordo quanto a isso.
De qualquer modo, até amanhã. Aveiro nos espere.

Nese-nese fala sobre umbigos


O Eubozeno, lá da "minha" Bragança, mandou-me e-mail sobre o e-mail da minha amiga Lê, de Paris. Como ele mesmo me explica que tentou comentar o post sobre isso e o haloscan não permitiu, penso não ser inconveniente ao tornar público o comentário que ele fez:


- Todos têm direito à masturbação. A manual revela o
gozo por um bom orgasmo. A intelectual revela o gozo
pelas palavras. É tão humano gostar de palavras como
andar à chuva com quem se ama.
- Na internet tudo o que é privado é público pela
simples razão que tudo o que é humano não é estranho a
quem quer que seja. Aliás, a internet é o melhor
espaço de liberdade que jamais existiu.
- As boas relações humanas virtuais entre blogueiros
são possíveis porque também as sabem ter, com outras
pessoas, na realidade. Acusar a blogoesfera de
narcisismo ou de mecanismo de compensação perante as
dificuldades relacionais na vida real, é um exercício
de enlatado psicanalítico, ou para dizer coisas óbvias
ou para julgar implacavelmente os outros.
- As piores relações humanas unilaterais são as reais,
como por exemplo, pedófilo/criança, amo/escravo,
carcereiro algoz/prisioneiro político, marido
violento/mulher submissa; açambarcador/cliente e por
aí adiante.
- Recuso quem se assume, tacitamente, como
"exterminadora implacável" da mediocridade do mundo
moderno, porque lhe faltará uma condição essencial: a
compaixão perante todos, particularmente os medíocres,
se é que os há.
- O mais interessante do e-mail são os significantes
não os significados. É muito interessante aquele mudo
h fazendo o papel de acento em "eh" ...
- Caro SP, continua a escrever. A tua humanidade faz
bem à blogoesfera, ou seja, às pessoas.

Eubozeno, só lastimo que não estejas em Bragança lá pela altura de 16 a 29 de dezembro. Caso isso mude, não deixes de avisar-me. Gostaria imenso de encontrar-te.

domingo, 5 de dezembro de 2004

E deus criou Portugal


E o diabo o fez descobrir o Brasil. E é por isso que é tão bom ser brasileiro e português ao mesmo tempo. Deus e o diabo. Sai-se de sua terra e chega-se a ela. Atlântico no meio.
Aliás, talvez o melhor exemplo de mal necessário seja a viagem aérea transatlântica. Meu único consolo é pensar que no tempo das caravelas era um pouquinho pior.
Lá pelas sete da manhã, já no horário português, vê-se o azul do céu ao olhar para cima. O azul do mar ao olhar-se pra baixo. Só que um pouquinho mais escuro e salpicado de pequenos flocos de nuvens, deixados cair aleatoria e despreocupadamente por algum anjinho errante.
E finalmente: Lisboa, beleza envolta em recato.
Pela A8, vamos a Óbidos. O reencontro é prazeroso. Ao passear pelas vielas de dentro das muralhas, ouço um comentário de uma senhora portuguesa cuja família levou-a a conhecer Óbidos, certamente enchendo-lhe o espírito de expectativas: "Só o que vi até agora foram pedras. Pedras e mais pedras. Nada mais vi."
Almoçamos bem. Um licor de ginja em copinho de chocolate pra fechar a visita.
A8 até Leiria, depois A1.
De Mealhada, chega-se ao Palace Hotel de Buçaco. Deslumbramento.
Estou sentado no bar do hotel, salão imponente mas aconchegante. Meu notebook liga-se ao wi-fi do hotel sem mistérios.
Pra mim, é aterradoramente maravilhoso. Essa tecnologia não pára de me pregar peças. Quase sempre benvindas.
Hora dessas, vamos falar sobre essa construção que abriga o hotel. Melhor que rapadura mole.
Por enquanto, deixa que eu beba mais um Logan e vá dormir. Afinal, idosos recolhem-se cedo.

sábado, 4 de dezembro de 2004

Lá vamos nós


Depois de muita arrumação, centenas de pequenas providências, saímos de casa às 17 horas desta sexta-feira de bastante chuva em São Paulo. Foram "só" duas horas e meia dentro de um táxi e cá estamos: Aeroporto Internacional de Guarulhos, também conhecido como GRU. Pela primeira vez na vida estou a utilizar internet sem fio, wi-fi. E faço a estréia de meu notebook Acer TravelMate 2701WLCi.
Beleza.
(Certo que da primeira vez que escrevi este post, a conexão caiu e perdi tudo que havia escrito).
Mais uma hora e pouco e partimos pra cima do Atlântico. Ele que se cuide.
Lisboa nos espera.
Até mais.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2004

Do fundo do umbigo


Hoje estou deprimido. Talvez por isso tenha postado o e-mail da Lê aí abaixo. Mas confesso que não tenho muitas dúvidas sobre as questões que ela levanta. Já tive. Há uns quarenta anos atrás (pra frente é que não seria, né, seu estúpido), me perguntava sobre o sentido de escrever. Hoje, escrevo. E me divirto imenso com isso. Tenho profunda consciência da unicidade da vida (tomara esteja errado) e procuro usufruí-la ao máximo. Em menos de um ano de blog conheci pessoas maravilhosas, estabeleci relações que me alimentam a alma (seja lá o que seja isso). Pra mim, é justificativa mais do que suficiente pra manter um blog. Fico um pouco frustrado, é verdade, ao perceber que tenho mais facilidade de relacionar-me com portugueses que com brasileiros. Mas isso não ocorre só em blog. Em muito mais o Brasil me é adverso. Não posso reclamar da vida, sempre fui bem sucedido. Mas foi sempre a despeito de, apesar de. O Brasil me torturou, me prendeu, me proibiu durante dez anos o exercício dos direitos políticos. É, foi o Brasil. Não foram os militares, ou um punhado de policiais dementes e sádicos. Não. O Brasil fez isso. O grosso da população - até hoje - tem a mentalidade da ditadura militar, ninguém se iluda.
Mas, que bicho me mordeu? Vamos com calma. Há, no Brasil, milhares e milhares de coisas maravilhosas. Tom Jobim resumiu bem, com aquele forte sotaque carioca: "viver nos Estados Unidos é bom, mas é uma merrrda. Viver no Brasil é uma merrrda, mas é bom".
Sem discordar do mestre Jobim, prefiro morar em Portugal. E é pra lá que vou sexta-feira. Pena que pra ficar só um mês e meio. Um dia vou e não mais volto. Mas vou sempre amar esta terra. Fazer o quê. Sou fruto desta porcaria. Amo esta porcaria.

Blogs e umbigos


Tenho (ou tinha, já não sei) amiga brasileira residente em Paris que visitava meu blog com freqüência. Dia desses, mandou-me e-mail assim:


Retirei o e-mail daqui pois sua autora manifestou profundo desgosto por tê-lo visto publicado sem sua autorização. Eu havia achado desnecessário pedir tal autorização dado que em nenhum momento revelei a identidade da autora. Mas, seja feita sua vontade. Fica aqui meu pedido de desculpa.

domingo, 28 de novembro de 2004

Letícia:lat. laetitìa,ae 'alegria, ledice; fertilidade'


Minha filha mais velha faz hoje 29 anos. Não lhe dou parabéns, isso vai de si. Digo-lhe que aquele instante - onze horas e poucos minutos de vinte e oito de novembro de 1.975 - foi o momento mais significativo de minha vida.
E mais não digo. As palavras não chegariam lá, onde quero.

sábado, 27 de novembro de 2004

A fumaça de Lulla


Em Smoke, o personagem de William Hurt explica como é possível pesar a fumaça de um charuto: coloca-se o charuto no prato de uma balança. Anota-se o peso. Em seguida, acende-se o charuto e começa-se a fumá-lo. Toda cinza é depositada no prato da balança. Ao final, a diferença entre o peso inicial do charuto e o das cinzas restantes é o peso da fumaça.
Sugiro esse critério para pesarmos o conjunto de princípios e ideais do governo Lulla. Colocam-se no prato da balança, primeiro, todas as manifestações antigas dos petistas a favor do povo. Pesa-se, enfim, o conjunto de medidas que o governo tem tomado a favor da banca e das elites do país.
A diferença é o peso do ideário petista.
(Se o valor resultante der negativo, o peso a ser considerado é zero).

Do vagar


Calma. A vida vem pelo atravessado. Não é de frente. Os caminhos estão desenhados, seus contornos ali, prontos. Pelo certo há encruzilhadas. No que nelas, a alma ferve. Pudera. Escolha é perda. Vai-se por cá, ficam outros fios pendentes, sem experimentação. É assim, funciona do jeito.
Vê o amor. Escambo, dádiva mútua. Ganho. Perda. É jogar-se no inclinado.
Ninguém volta do pra onde foi. Tudo é sempre depois. Enviesado.
Não há escolha. É preciso escolher. Vai-se, não há outra possibilidade. O começo pôs em movimento a roda. É seguir. Sentir o vento no rosto. Única permissão. Parar não pode.
Isso é tempo. Que o lento, rápido, depressa, devagar, são sempre em frente. Na diagonal dos desejos. Não do que seria certo. Nem errado. Na direção da surpresa. Do que não era pra ser mas é.
Devagar. Não há um destino. Ninguém vai chegar a lugar algum. O devir não é trem de uma estação a outra. Desliza no incerto. Mora no agora. Atravessa em direção a nunca.

sexta-feira, 26 de novembro de 2004

Um de meus vícios


pior que cigarro
Confesso. Sou viciado em Civilization III. Mas não sou um viciado qualquer. Já jogo no nível máximo. Não é pra qualquer um.
Com o perdão, claro, claro, da mais deslavada imodéstia.

quarta-feira, 24 de novembro de 2004

Palavras que fazem sofrer


Dado meu estado de profunda consternação, terrível abatimento pelo simples imaginar da enorme gama de problemas que a vida reservou a esta senhora, vou ser suscinto. Já há palavras de sobra a atormentar a vida de certas pessoas. Não quero agravar a situação. Vamos, portanto, às instruções. Siga-as rigorosamente e depois me diga: não é uma tragédia?
1. Acesse a página da Receita Federal (Brasil).
2. No alto da página, bem ao centro, aponte o mouse para Pessoa Física.
3. No menu que se abre, vá à terceira linha, onde se lê CPF - Cadastro Pessoa Física.
4. No sub-menu que se abre, vá até a terceira linha: Situação Cadastral. Clique.
5. Na página que se abre, forneça o CPF 877.841.068-15, sem pontos nem traço.
6. Reproduza o texto da figura que aparece à direita da página e clique Consultar, mais abaixo.

Grave ameaça de colapso no turismo em Portugal


Já mencionei aqui meu intenso intercâmbio e-pistolar com Maria João, a propósito de reservas para a passagem do ano na Pousada de Manteigas.
Pois bem. Dia desses, lá fui eu solicitar reserva para a Pousada de Viana do Castelo. Respondeu-me a senhora Celeste Pereira. Perguntou algumas coisas. Respondi. Hoje chegou a confirmação de minha reserva.
Assina a confirmação a já agora ilustríssima Maria João Henriques.
Confesso que fiquei um tanto sobressaltado. E se Maria João ficar doente? Qualquer probleminha de saúde que a tire de circulação por alguns poucos dias? Quem cuidará do turismo em Portugal?
E - Deus nos livre!!! - se Maria João (bate na madeira três vezes) for vítima de algo mais grave? Se - vade retro Satanás!!! - vier a, digamos, passar desta para melhor. Falecer. Bater com as dez.
Como fica o turismo em Portugal?

terça-feira, 23 de novembro de 2004

Isso são outros quinhentos


Quem sabe o mundo blogueiro me resolve esse problema. Tive, hoje, a idéia de perguntar aqui.
É o seguinte: há muitos anos, usava-se, pelo menos no Brasil, a expressão "isso são outros quinhentos". Tinha o sentido de "isso é outra história".
Em algum momento de minha vida minha mãe contou-me a origem dessa expressão. Tratava-se de uma pequena cidade do interior. Havia a figura do prefeito, do padre, do delegado. Surgia na cidade um espertalhão vindo da cidade grande, viajado. Armava um rolo e, no final, alguém emprestava quinhentos mil réis ao maroto. O espertalhão, além de escapar de devolver os quinhentos mil réis, conseguia a cumplicidade do padre. Sabe-se lá porque, o padre, em uma conversa entre todos os personagens, defendia o forasteiro, afirmando que ele, padre, é que ficara a dever os quinhentos mil réis. De pronto, o sacana aproveita e tasca a expressão: "Esses são outros quinhentos". E ganha mil.
Quando, já nos anos últimos de minha mãe, pedi a ela que me repetisse a história, já ela também não a recordava.
Fiquei na curiosidade.
Alguém aí sabe recontar essa história?

segunda-feira, 22 de novembro de 2004

Viagem - 3


E vamos lá à conclusão (quase) definitiva deste planejamento de viagem. Caso contrário, o Asulado me esgana.
Sejamos objetivos (detesto isso):
03 dezembro 2.004: saída de São Paulo em direção a Lisboa. Vôo Varig.
(espero que a Varig não peça falência antes disso).
04: chegada a Lisboa. Pegamos o carro e vamos à Serra do Buçaco. Por mim, parava em Leiria e almoçava no Tromba Rija. Minha mulher - não sem razões - entende que o clima de decadência que constatámos lá ano passado não o recomenda. Só garanto uma coisa: em algum lugar eu almoço. Ah, isso não é dúvida.
de 04 a 07: instalados no Hotel Palace de Buçaco, vamos conhecer Figueira da Foz, comer uns leitõezitos em Mealhada, visitar Ílhavo e Aveiro, com seus ovos moles.
08: rumo a Viana do Castelo. Lá, ficaremos na Pousada Monte de Santa Luzia.
09 a 12: passeios à Espanha, a Braga e Guimarães. Enquanto a baixinha sobe pelo elevador, vou enfrentar os degraus do santuário de Bom Jesus do Monte. Ateu dos bons é assim.
13: para Vidago, no Palace Hotel. Essa dica eu obtive no blog do Pedro Malheiros.
14 e 15: visitas a Boticas e a Chaves.
16: toca pra Vinhais, encontrar o Armindo Alves. Ele vai nos levar a Pinheiro Novo, onde tem uma casinha de turismo rural. Lá vamos nos instalar e começar a procurar terreno pra nossa casa em Passos.
16 a 28: muitos passeios pelas aldeias da região da Lomba. Consoada na casa de Zelinda e Alípio. Natal idem ibidem. Com todos: Dora, Arnaldo, Abílio etc etc.
A baixinha já quer começar a construção de uma edícula, para lá nos instalarmos nos próximos anos, nas futuras visitas. Antes da mudança definitiva, quando então construiremos a casa.
29: despedidas, partida para Manteigas. A menos que Maria João me mande - antes disso - e-mail cancelando tudo. Caso essa catástrofe não ocorra, entraremos em 2.005 refestelados na Pousada de Manteigas.
30 a 02 janeiro: repimpados em Manteigas.
03: rumo a Évora.
Ainda não sei se ficaremos em Évora, Beja ou algo por ali. Só sei que serão dois dias inteiros alentejando.
06: e, antes que surja a África, Algarve.
Ainda não sei onde ficaremos. Mas vamos tentar encontro com Asulado, Susana e demais blogaholics. Talvez fundar, em Olhão, a Blogólicos Anônimos. Ficaremos no Algarve até 10 de janeiro.
10: vamos a Santiago do Cacém, visitar primo José Carlos, a Utília e a Sofia. De lá só saímos dia onze, em direção a Lisboa.
De 11 a 15, bundaremos em Lisbon City.
Dia 15, Varig novamente. Desta vez, com escala no Rio de Janeiro, pode?
Dia 16, domingo, rearranjo cerebral.
17: volta ao trabalho. Trabalho? Onde? Quando? E, principalmente, COMO?

domingo, 21 de novembro de 2004

Meus blogs preferidos - Portugal


eu também me inclui
Há, ainda, muitos blogs por conhecer. Mas fico feliz ao constatar que em menos de um ano consegui estabelecer relações (virtuais) com pessoas de grande parte do território português.
Claro que há nuances: não é com todos que tenho o mesmo grau de afinidade, de proximidade. Ali em Olhão estão os mais próximos (e eu tinha certo distanciamento do Algarve, vejam só). Acima de tudo o Asul e o Mitus. Mas os alfacinhas filosófico-etílicos do Saca, da Arca, do Antes, me são bastante afins.
Penso que o Manuel, do Gasolim, é o mais surpreendente. E adoro surpresas. Uma delas, foi saber que o Eubozeno, do nese-nese, é de Bragança. Maravilha.
Há os blogs temáticos, por exemplo o renas e o Diário. Magníficos. Por falar em magníficos, não incluí Os Animais Evangélicos porque não me responderam ainda.
Note-se, por fim, a diversidade de posturas (políticas, sociais, de visão de mundo). Adoro ver o circo pegar fogo. Fascina-me o confronto de idéias.

quarta-feira, 17 de novembro de 2004

Era uma vez - XVI
Teoria do Prazer Relativo

No Presídio Tiradentes, sábado era o dia de visitas. Qualquer hora falo sobre isso. Agora, quero contar detalhes de outra visita. A de terça-feira, a visita de casais. Eu era um dos poucos que tinha mulher presa também. No mesmo presídio. Esses bem ou mal aventurados que faziam parte de um casal-preso-no-mesmo-presídio podiam visitar-se às terças, das nove às onze da manhã.
Era uma maravilha. A gente acordava cedíssimo e se arrumava debaixo da inveja indisfarçável dos companheiros de cela (que não tinham o “privilégio” dessa visita). Fazíamos barba, púnhamos perfume, caprichávamos ao máximo. Até a roupa era caprichada, dentro dos limites do nosso parco guarda-roupas.
A já citada e malfadada ALN via com maus olhos essa coisa de visita de casal. Nada menos revolucionário. Nada mais pequeno-burguês.
Nós (Altino Dantas, o baiano Sarno, eu e alguns outros) adorávamos aquele momento inigualável, aquelas duas horas em que podíamos tocar nossas mulheres e com elas conversar de amor. Já o Alcides (ALN, futuro vereador em Campinas, pelo PT) e demais revolucionários iam a esses encontros constrangidos, divididos internamente. E racionalizavam: já que não é possível ter uma relação completa, adequada, nada de toque. Deve-se permanecer à distância da mulher, conversar (de preferência sobre temas de interesse da revolução etc etc, ad nauseam), trocar idéias.
Foi nesse contexto que o baiano Sarno, que já tinha uma “teoria da baianidade”, teoria que abarcava da rede ao acarajé, chegou com a “Teoria do Prazer Relativo”. Fácil de explicar, prazerosa de se pôr em prática: o que for possível, a gente faz. Deu chance, a gente avança. Melhor alguma coisa que nada.
E as meninas, as nossas, passaram a confeccionar ponchos, peças de lã que se encaixavam no pescoço e desciam, rodadas, abaixo da cintura. Sentávamos nos bancos do pátio feminino (no qual se dava a visita de casais) e “entrávamos” nos ponchos. Até que algum brucutu chamado “carcereira” viesse chamar nossa atenção, a ordenar moderação, já muito prazer tinha sido gerado e consumido.
Deus seja louvado.

terça-feira, 16 de novembro de 2004

A República e Maria João

Dia desses escrevi aqui sobre a reserva de quarto em pousada de Manteigas e os mil e um e-mails da minha Scheerazade portuguesa, a Maria João.
Pois bem. Este final de semana, no Brasil, foi prolongado pela comemoração da Proclamação da República na segunda-feira. Como é praxe no Brasil, as coisas são feitas sempre no chute e de modo enviesado. Não é à toa que o Roberto Carlos, do Real Madrid, cobra tão bem os tiros livres diretos. A República, no Brasil, foi proclamada (aqui as coisas são proclamadas. Não instauradas, implantadas ou estabelecidas) por um marechal monarquista. E eu, como genuíno brasileiro, fui passar a data em um sítio em Petrópolis, cidade na qual nossos Pedros, imperadores, repousavam seu cansaço. Meu cunhado e minha irmã têm lá um sítio de proporções - para mim - latifundiárias. Foram três dias de silêncio quase absoluto, não fora o canto das maritacas e poucos latidos de um cachorrinho que circula por lá.
Minha felicidade ficou completa quando, ao chegar de volta a casa, percebi que recebera mais um e-mail de Maria João. Diz ela que está prestes a debitar as diárias em meu cartão de crédito.

sexta-feira, 12 de novembro de 2004

About me

O texto se refere a esta foto, substituída em meu Perfil (atualização em 16/11/2009)
Hoje aconteceu algo engraçado. Curioso, intrigante. Edipiano, talvez.
O facto é que, ao olhar mais uma vez pra essa foto minha que fica aí no perfil (agora aí ao alto - atualização em 16/11/2009), percebi que gosto muito desse garoto. Mas muito, muito mesmo. Gostaria que ele fosse meu filho. E olha que tenho filhos maravilhosos, desses que deixam todo mundo babando. Mas gostaria de ter esse moleque como filho. Sinto enorme atração por ele. E sei que o pai dele não aproveitou o privilégio de tê-lo como filho. Talvez tenha aproveitado. Mas pouco. Se tivesse sido amigo, confidente, teria saído enriquecido dessa cumplicidade.
Vai saber.
Vou me aproximar dele. Conquistá-lo aos poucos. Seduzi-lo, mesmo. Quem sabe comigo ele estabeleça essa relação de cumplicidade que não teve com o pai.
Quem sabe.
(desconfio que Luiz Meyer, que teve o saco de me psicanalisar durante cinco anos, gostaria de ler este post)

Viagem - 2

Então. Chego a Lisboa dia quatro, sábado. Nem vamos parar lá. Vamos direto pra Figueira da Foz. Quer dizer. Íamos. Desde que a baixinha descobriu o hotel lá da Serra do Buçaco, ficou a vontade de desviar pra lá. Só não sei se ainda há quartos disponíveis. A ver. Certeza, mesmo, é ir a Mealhada comer um leitãozinho. Por falar em comida, ainda no sábado a idéia é almoçar em Leiria, adivinha aonde: Tromba Rija, claro, claro. O leitãozinho fica pra domingo.
Depois, seguir pra Aveiro. Quero conhecer também Ílhavo. Pela simples razão de que meu processo de cidadania portuguesa deu entrada pela Conservatória de lá. Por razões que não cabe agora explicar.
Dia nove, direto a Viana do Castelo. Talvez uma paradinha no Porto, sob pretexto de visitar o Museu da Moeda. Na verdade, pra dar uma chegadinha no Majestic.
Dia 12, Braga, Guimarães.
Dia 14, Chaves, Boticas.
Dia 16, finalmente, Passos. Vamos ficar, pra ser exacto, um pouco pra cima, em Pinheiro Novo, em uma casa de turismo rural do Armindo, de Vinhais. Mas, de carro, em dez, quinze minutos se chega a Passos.
Que venham as matanças, a consoada, o Natal.
Sei que muitos odeiam as matanças. Não é o meu caso. Mas discutir esse tipo de coisas é mais chato que tarde de sábado na casa da sogra. Então, ponto.
Dia 29, adeus a Passos. Rumo a Manteigas. Lá passaremos a entrada de ano, claro que depois da necessária saída deste atual.
Por falar em Manteigas. Todos sabem que, no Brasil, considera-se que português é burro. Muito bem. Começo a desconfiar que, em Portugal, pensa-se o mesmo em relação aos brasileiros (eu, então, devo ser burro ao quadrado).
Toda vez, em Portugal, que peço explicação a alguém sobre que caminho tomar para chegar a algum lugar, a pessoa a quem pergunto repete – digamos – umas dez vezes a explicação. Chega um momento em que tenho de agradecer e colocar o carro em movimento devagarzinho. O que se chama “sair de fininho”. Primeiro, achava que era mania de português, essa de explicar interminavelmente. Depois, comecei a desconfiar que isso era função de perceberem que falavam com brasileiro.
Pois bem. Mandei e-mail pra reservar quarto na pousada de Manteigas. Uma simpática senhora Maria João me respondeu. Fiz a reserva com bastante antecedência. Já faz uns dois ou três meses. Pois até hoje Maria João me manda e-mails a solicitar confirmação, concordância, assentimento, reafirmação, o diabo. Minha reserva já tem número, código, o scambau. Mas, hoje mesmo, Maria João mandou-me mais um e-mail. Já respondi. Maria João deve achar que com brasileiros é preciso ser redundante.
E bota redundância nisso.

quinta-feira, 11 de novembro de 2004

Memória da dor

Por razões profissionais, quase todo dia atravesso a ponte do Jaguaré, sobre o rio Pinheiros, em São Paulo. Não sou engenheiro civil, mas sei que as pontes e viadutos têm, nas extremidades, folgas pra dilatação, algo por aí. Por causa disso, há quase sempre pequenos desníveis na entrada e na saída do leito carroçável dessas estruturas.
Ao passar cotidianamente por esses desníveis da ponte do Jaguaré, lembro de quando - lá por 1.992 - levava freqüentemente minha mãe para fazer radioterapia em um hospital da cidade. O caminho incluía a ponte do Jaguaré. Minha mãe, já com metástase de um câncer, sofria muito com as dores que lhe percorriam todo o esqueleto. Eu ficava sem saber como passar por esses desníveis. Parecia que passar muito devagar aumentava o sofrimento de minha mãe. Mas ao passar rápido, a pancada a afetava bastante também. Enfim, não tinha jeito.
Era sempre um suplício passar pela ponte. Tanto na entrada quanto na saída, sabia que minha mãe sofreria dores agudas em algum ponto da ossatura.
Hoje, os pequenos solavancos dóem em mim. Em algum lugar que não é corpo.

Viagem - 1

Enquanto essa porcaria de blog não consegue receber imagens, vamos conversar um pouco sobre minha viagem. Pra falar a verdade (de vez em quando é bom, né), eu já estou em ritmo de viagem. É certo que estou a trabalhar feito um louco. Parece que quando as férias se aproximam o trabalho vai aumentando, aumentando. Além disso, estou nessa tentativa de fazer as imagens aparecerem aqui. É chato, porque bastava estudar um pouco e pronto. Mas eu já não tenho muito saco pra isso. Já programei em assembler, cobol, fortran, algol, pascal, basic, spl (você nem sabe o que é isso, nem precisa saber), já fiz compilador de linguagem que eu próprio desenvolvi, já fiz o diabo (principalmente). Agora, chega. Quero resolver problemas localizados e pronto. Nada de grandes estudos informáticos. Já me enchi.
Mas a viagem. Ah, a viagem. Isso sim, é bom. Desabo em Lisboa dia 4 de dezembro, sábado. Por falar nisso, lembrei da primeira vez em que cheguei a Lisboa. Do aeroporto tomei um táxi, não sem antes trocar dólares por uns escudos. Nunca tinha visto notas de escudos na minha vida. Cheguei ao hotel. Paguei o motorista do táxi com uma nota alta. Ele me deu um monte de notas de troco. Tinha várias de 200 escudos, 100 escudos, coisas assim. Registrei-me no hotel e um garoto de uns catorze, quinze anos me acompanhou até o quarto. Fiquei impressionado porque o menino trajava terno, com gravata e tudo. Super bonitinho. Colocou minha mala no lugar adequado, deu as dicas sobre o funcionamento do quarto e já ia embora. Dei-lhe uma nota de 200 escudos (naquela época isso devia ser algo tipo 2 ou 3 dólares). Ele olhou a nota, olhou-me e sentenciou:
- Esta nota já nada vale.
E eu:
- Mas acabo de recebê-la do motorista do táxi.
Com um sorriso meio zombeteiro e em voz cantada, ele completou:
- Então o senhor foi enganado.
E eu, justo eu, que me achava o rei da cocada preta. Sabia tudo de malandragem. Chego a Lisboa e já me passam a perna logo de cara?!?
Mas desta vez já não me enganam.
Será?

quarta-feira, 10 de novembro de 2004

DESCULPE.
BLOG EM OBRAS.


(A montagem acima é do Parreira, do blog PPC)(não, não é do Parreira. Ele recebeu por e-mail. Deve ser do Gianotti, ou da Marilena Chauí, sei lá. É de alguém. Isso pode ter certeza)
Estou a testar inserção de imagens. Um dia eu consigo. Ou enlouqueço antes. Algo assim.

Atualização (16/11/2009): A imagem que estava no alto deste post, a de Fernando Henrique Cardoso fazendo o famoso gesto top-top, estava sediada no Geocities do Parreira. Parece que o Geocities deixou de existir. As minhas fotos armazenadas lá eu as estou repondo aqui no blog. Esta, como não estava em minha área do Geocities, eu a perdi.

segunda-feira, 8 de novembro de 2004

O que realmente interessa


Deixa pra lá o Bush. Com mais razão, deixa pra lá também o Kerry.
Eles não apitam grande coisa.
O que realmente faz a diferença é a inclinação do eixo da Terra em relação ao plano da elipse que ela percorre em torno do Sol. Se esse eixo ficasse perpendicular à tal elipse, adeus estações do ano, adeus existência humana.
Mas, pra nossa sorte, por um monte de motivos que não vêm ao caso, o bendito eixo fica inclinadinho 23 graus e uns picos em relação ao eixo vertical.
E nascem as flores, os passarinhos cantam e o ser humano faz merda.
Só me assusto pra valer quando aparecer político que prometa endireitar o eixo da Terra.
Voto contra.

olha o eixo inclinadinho

sexta-feira, 5 de novembro de 2004

Criadores e Criaturas


Recebi ontem, pelo correio, o livro Contos, de vários autores, entre eles ela: Ane Walker (no livro com seu nome da vida real, Rosane Netto de Aguirre). À página 153, início de sua parcela do livro, ela – com bela caligrafia (devo dizer só “cali-grafia”?) – confessa: “Depois de tudo, peço licença para voltar a assinar o nome que escolhi. Ane Walker não se encaixa com perfeição em passos ensaiados... mas eu a prefiro mais livre”). Qualquer hora dessas vou falar sobre o livro aqui. Como não li ainda, só me refiro a ele pra comentar essa duplicidade/cumplicidade de nomes reais e virtuais:
Ao passar meu endereço pra Ane, por e-mail, esqueci de colocar meu nome verdadeiro. Ontem, em alguma hora da tarde, toca o interfone em casa. Minha mulher atende e o porteiro do prédio pergunta:
- Tem algum Renato Santos Passos aí?
E ela:
- De certa forma. Sim.
Ele não deve ter entendido nada.
Mas mandou entregar o livro em casa.

sábado, 30 de outubro de 2004

A dura vida de um blogueiro



Atendendo a sugestões, parti para o Haloscan. Espero que, agora, fique mais fácil comentar aqui. Já não sei se as Referências ("trackback") vão funcionar. Veremos.
Se me dão licença, vou trabalhar para repor os comentários que cá já estavam e sumiram. Tenho de acertar também os textos aí à direita. A mudança feita pelo Haloscan bagunçou um pouco as coisas.
Volto logo.
Adeusinho.

A solidão



Quando Serginho caiu no chão daquele estádio de futebol, eram dezenas de pessoas ali à sua volta, no campo, milhares nas arquibancadas, milhões a verem tudo pela TV.
Mas ele caiu só. Integralmente só.
Estava ligado no jogo. Sintonizado no curso da bola. Preocupado com idéias táticas. A quem marcar, como desmarcar-se. Estava em sociedade. Jogava um jogo de conjunto. Junto com outros. De repente, sentiu algo, dobrou-se para frente.
E ficou só. Só com sua dor. A dor que elimina o outro. Que se torna tudo.
Serginho era uma lateral esquerdo dos melhores que já vi jogar. E olha que vi Newton Santos, vi Junior, vi Serginho (do São Paulo, hoje no Milan), vi Roberto Carlos. Mas esse Serginho era muito bom. Jogador que jogava para a equipe. Que sabia decidir.
De repente, caiu. E, quando caiu, caiu só.
Sem comparações, sem paradigmas. Simplesmente caiu.
A gente vive a se socializar, passa a vida a relacionar-se. Disputa o amor dos pais. Corre atrás da aceitação dos amigos. Ama grandes amores. Procria. Trabalha. Cria. Desmancha-se pelos filhos. Eventualmente busca o Poder. Muitas vezes corre atrás de sua proteção. Sobrevive, enfim.
E um dia cai.
Só.

quarta-feira, 27 de outubro de 2004

Classificados RSP



Troco uma semana de trânsito congestionado em São Paulo por um pôr de sol em Passos. Aceito como parte do pagamento uns goles da bagaceira do Alípio.

domingo, 24 de outubro de 2004

Era uma vez - XV
Dra. Marlene e a anestesia ideológica



Dia desses, Fidel Castro caiu e fraturou o joelho. Tudo bem. Fizeram-se todas as metáforas possíveis e imagináveis sobre o episódio. Tudo bem. É justo que o pessoal tire sua casquinha em cima do velho.
Mas o que me chamou a atenção foi que ele pediu pra ser operado sem anestesia geral, pra continuar a liderar o país durante a cirurgia. Tascaram-lhe uma ráqui. Adormece as partes inferiores do corpo, não a cabeça.
Tenho cá minhas dúvidas. Será que o cérebro é melhor que as pernas pra liderar Cuba? Pelé, por exemplo, é o que é por causa – fundamentalmente – das pernas. Cérebro decididamente não é seu forte.
Tudo isso me trouxe à lembrança a doutora Marlene.
Estava eu enfurnado no Presídio Tiradentes quando soube da novidade. Havia um consultório dentário no presídio. E havia uma militante da ALN, a doutora Marlene, que era cirurgiã dentista. Como um mais um costuma dar dois, conseguimos que a “companheira” pudesse utilizar o dito cujo consultório para tratar os dentes dos presos políticos.
Pra mim, isso vinha a calhar. Apesar de – como transmontano – ter dentes de aço (isso é figurado, calma), estava com um molar aberto desde antes da prisão. O danado já me incomodava havia tempos. Volta e meia, pra conseguir dormir, tinha de enfiar um comprimido tipo AAS no buraco que se formara no dente. Logo pensei: “Chegou minha hora. Vou arrumar esta porra”.
Entrei na lista de espera pra consulta. No dia marcado, lá estava eu. A doutora Marlene examinou a cratera do meu molar e disse que teria de fazer tratamento de canal. Beleza. Era tudo que eu queria. Agendamos o dia do início do tratamento. Agradeci e voltei a minha cela.
Conversa vai, conversa vem, soube que doutora Marlene tinha lá seus critérios, digamos assim, ideológicos. Pra ser direto: ela entendia que anestesia era coisa de frouxo. Revolucionário que era revolucionário tinha que fazer tratamento de canal sem anestesia.
Desmarquei meu retorno e esperei pacientemente a liberdade pra procurar um dentista não ideológico.
O Fidel, que é o Fidel, aceitou a ráqui. Acho que ele devia ter feito a cirurgia no joelho sem anestesia nenhuma. Será que ele está a perder o fervor ideológico?

Difícil adaptação





Tanto no blogger UOL quanto no fatídico Mblog era bico colocar imagens no blog. Era só clicar uma vez e lá ia a foto ou o desenho. Cá no Blogspot tem um lindo botãozinho no qual - quando o mouse pára sobre ele - aparece a tranquilizadora mensagem: "Upload Image / File". Quando cliquei no dito cujo, surpresa: fui informado que deveria baixar um programa chamado Hello. Lá fui eu. Da primeira vez consegui mandar as imagens pro servidor numa boa. Ontem, ao pretender repetir a operação, ele (o Hello) empacou tal qual aqueles burricos das piadas. Diz que é preciso verificar meu e-mail. Clico em um botão "Verify e-mail", ele diz que vai me enviar uma mensagem. Não envia.
Hoje tive a idéia de criar outro usuário pra ver se o Hello desemburrava. Funcionou. Só que queria mandar minha foto (essa em que estou metido em meu primeiro terno) pro meu profile. Quando me dei conta, ela estava aqui, neste post.
A foto já está lá, no profile. Mas deixa que ela fique também aqui, como lembrança das surras que estou a levar deste Blogspot e seu temperamental Hello.

sábado, 23 de outubro de 2004

Era uma vez - Zero
Prefácio



É claro que sempre quis escrever sobre meus anos de militância e de prisão. No início, a emoção recente tornava a literatura impossível. Depois, outros empecilhos surgiram. Fui postergando. Passei a querer escrever sobre outras coisas. Por exemplo, pesquisei muito a respeito de Cipriano Barata, figura ímpar da independência brasileira (início do século 19). Talvez eu seja a pessoa que mais documentos tenha sobre esse personagem. Meu amigo Claudio Giordano - hoje um editor respeitável, vejam só - nunca se conformou por eu não ter dado conta dessa tarefa. Queria que eu escrevesse sobre Cipriano. Não consegui.
Com o surgimento dos blogs, resolvi criar o meu. Mas pra falar do cotidiano. Dia a dia. Nada mais amplo. Até que surgiu o dia 28 de julho. Lembrei-me de que era o aniversário de 33 anos de minha prisão. Afinal, blog não é pra falar do cotidiano? Falei.
E surgiram pessoas a perguntar se aquilo era verdade, se tinha ocorrido de facto.
Pus-me a contar episódios. E disso nasceu essa série de posts, espécie de folhetim. Mantive o título do primeiro post, o "Era uma vez".
Ocorre que - desde quando pensei em escrever memórias desse período de minha vida - o título delas saltou logo: "Topologia Trivial". Isso porque nunca vou esquecer de uma noite em que estava à janela da cela 12, pavilhão 2, Presídio Tiradentes e olhava o sentinela que andava sobre a murada do presídio, de um lado a outro. Ia e vinha. A lua brilhava cheia no céu. Pensei: esse camarada está aqui tão perto de mim e ao mesmo tempo tão longe quanto a lua. Não posso acercar-me nem de um nem da outra. E me veio à memória a topologia trivial, na qual todos guardam a mesma distância uns dos outros. Escrevi sobre isto aqui no blog, em tom de brincadeira.
Vou prosseguir com minhas memórias. Que sirvam pralguma coisa. Quando não, como catarse. Já nada espero do mundo a não ser um fim de vida em Passos, na felicidade do ninho. Amo meus filhos, minha mulher, meus netos e - acima de tudo - a vida. Prezo os amigos, reais e virtuais. Minhas lembranças confundem-se com meus sonhos. E me nutro de todos eles.

quarta-feira, 20 de outubro de 2004

Alguma coisa acontece no meu coração



Hoje almocei no tradicionalíssimo Brahma, na esquina de Ipiranga e São João. Pouca coisa mudou no ambiente. Até o pianista parece ser o mesmo de tempos atrás. Pelo menos toca tão sofrivelmente quanto.
Quando entrei, o recepcionista me deu um cartão magnético para o registro das despesas. Fazer o quê. Até o Brahma moderniza-se. Terrível foi receber, logo depois de paga a conta e sorvido o cafezinho, um cartão plástico vermelhão, com a inscrição em letras grandes e brancas: SAÍDA INDIVIDUAL.
É preciso entregá-lo ao armário humano que fica junto à saída.
Isso é o que chamo degradação dos costumes.

segunda-feira, 18 de outubro de 2004

Eleições municipais em São Paulo - 2º turno



Dia 31 deste mês, teremos de escolher entre José Serra (PSDB, tucano, disputou a eleição presidencial contra Lulla) e Marta Suplicy (atual prefeita, PT). Já começou a propaganda de ambos na TV. Marta (ou melhor, seu marqueteiro, Duda Mendonça) ataca o facto de Serra ter como candidato a vice um sujeito que foi Secretário de Planejamento de Pitta (um desastrado prefeito anterior a Marta, uma espécie de Fernando Collor municipal). Serra (ou seus marqueteiros) rebatem Marta acusando-a de ter assessores que trabalharam para Pitta.
Fico a pensar: se ambos têm tanta gente próxima a eles que foi auxiliar de Pitta, por que não deixar o próprio Pitta governar, utilizando todo esse potencial humano que ele - magnanimamente - 'distribuiu' pelos atuais candidatos?
Para prefeito, Pitta.

Falta de curiosidade dá nisso



Hoje é domingo e eu estou aqui, a refazer meu blog. Aliás vou parar. Já cansei. Mas só pra desabafar: por que não me perguntei antes sobre o que era aquele "M" de Mblog?
Era merda.
Beijinhos a todos e boa semana.

sexta-feira, 15 de outubro de 2004

Quais suas características notáveis?



Hoje almocei com minha filha caçula. O que sempre é um prazer. E divertido, também. Não só porque contamos histórias engraçadas de nossos cotidianos. Além disso, tenho a satisfação extra de entrar no restaurante com aquele "mulherão" de 25 anos e notar os olhares de homens e de mulheres. Eles, invejosos. Elas, com nojo. Todos a pensar que estou com minha amante. Velho atrevido, devem pensar as damas. Velho de sorte, suspiram os cavalheiros. E, é verdade, nos amamos.
Ela me contou detalhes de seu atual trabalho. Como hostess de restaurante GLSBT (qualquer dia botam o alfabeto inteiro nessa sigla).
Não é fácil. O restaurante é muito concorrido. A espera é sempre grande. O público A-Z (vamos simplificar) é exigente. Se ela informa que a espera é de 50 minutos, que seja. Minuto a mais, protestos na certa. Ah. E nada de chegar perto do grupo de espera e gritar pelo nome do próximo felizardo a ocupar mesa. É preciso saber que o Abelardo anotado na lista de espera é o jovem de camisa cinza e ligeiramente calvo. E aí surge o problema.
Sempre que chega um novo grupo, ela pede o nome do - digamos - líder e anota na seqüência. Daí, discretamente, dá aquela geral na pessoa e grava suas principais características. Logo em seguida, já fora do alcance da visão do grupo, anota tais sinais ao lado do nome do "líder". Na hora de chamar o grupo a ocupar mesa, é só procurar pelo tal dono das características e pronto. "Sr. Fulano, sua mesa."
O carro enguiça quando o cidadão não tem características marcantes. Ela olha, olha e nada.
É isso. Há pessoas que não têm nenhum sinal característico. Nenhuma verruga na ponta do nariz, nem um pouco de estrabismo, nada. Rigorosamente nada.
É o seu caso?

quinta-feira, 14 de outubro de 2004

A cavalo dado não se olham os dentes



Em fevereiro deste ano, resolvi começar um blog. Como meu provedor, UOL, oferecia essa possibilidade, fui eu.
Passado um tempinho, já conhecendo vários blogs, vi no Daniel Lima (um de meus blogs favoritos) que ele iria de mala e cuia para um tal de Mblog. Fui experimentar, gostei e mudei pra lá. O Mblog dava mais opções. O blog do UOL era meio limitado (ou era eu o limitado, sei lá). E foi com o blog no Mblog que passei a ser mais conhecido e a conhecer mais.
E aí foi o pecado mortal. Ontem, dia de nossa senhora no Brasil, eu ia escrever um post bastante crítico sobre a tal senhora e sua influência nefasta. Milagre. Meu blog sumiu. Só pode ter sido ela.
E tem mais. Eu, que trabalhei quase uma vida com computadores e sempre tive enorme preguiça de fazer backup, fui exigido em trinta e cinco dólares americanos para receber meus próprios textos de volta. É isso mesmo que leste, ó meu. O Mblog - pesaroso - disse que a brincadeira já era e quem quisesse um arquivo zipado com o conteúdo de seu blog tinha de morrer com essa pequena contribuição. Morri. Quem manda não fazer backup.
Agora, estou às voltas com um monte de arquivos com meus posts. Ainda preciso bolar como vou fazer a transposição. Palpites são benvindos, claro, claro.
Em meio a essa confusão, lembrei de um colega alemão (Fritz, óbvio) que tinha na Poli. Um dia disse a ele, durante conversa: "Cavalo dado não se olha o rabo". Ele, surpreso: "Engraçado, em alemão é cavalo dado não se olham os dentes." Pensei um pouco e entreguei os pontos: "Em português também."
De agora em diante é: "A cavalo dado não se olham os dentes, mas faz-se backup."

segunda-feira, 11 de outubro de 2004

Armadilhas



No banheiro masculino do escritório em que trabalho há vários mictórios. Junto ao registro de cada um deles afixaram uma recomendação:

ECONOMIZE ÁGUA
Acione somente este registro após o uso.


Eu, obediente, toda vez que uso um mictório desses só abro o registro daquele que usei. Nos outros, nem mexo.

sábado, 9 de outubro de 2004

Reflexões sexuais



Sexo oral ou sexo anal?
Nem um nem outro. De hora em hora é muito, pra mim. Agora, só uma vez ao ano, muito pouco.
(piada velhíssima, mas sempre tem alguém que ainda não sabe, né não?)
Definição de bordel:
Lugar no qual os meninos maus das famílias boas encontram as meninas boas das famílias más.
(Juca Chaves, show 'O Menestrel', décadas 50/60)
Sexo e Poder:
Sexo é coisa para amadores. Os profissionais preferem o Poder.
(Antonio Carlos Magalhães, senador baiano)
Problema? Eu?
Não tenho problema sexual. Tanto é assim, que faz seis meses que nem relação sexual eu tenho.
(personagem de filme de Woody Allen)

sexta-feira, 8 de outubro de 2004

Era uma vez - XIV
O Coletivo



Já falei no nº XIII sobre a organização do corró (presos comuns). Ele se estruturava mais ou menos como as hordas primitivas. Um chefe por cela – o leão – e a autoridade da força.Entre os presos políticos imperava a democracia direta, mais ou menos à moda da Grécia clássica. Os cidadãos atenienses reuniam-se na ágora – praça de debates e decisões – e resolviam tudo diretamente, sem a intermediação de representantes do povo. Não havia vereadores, deputados e senadores, funções de um mundo mais moderno, pelas quais há indivíduos dispostos a vender a mãe. Na Torre, lugar do presídio no qual ficavam as presas políticas, a tranca era só à noite. Isso quer dizer: durante o dia as celas ficavam abertas e as detentas podiam circular à vontade por todas as celas e mesmo pelo pátio. Ou seja, podiam discutir interminavelmente e decidir reunidas em assembléia.Nos dois pavilhões masculinos não. Era tranca brava. A gente só saía pra banho de sol uma vez por semana. Certo que mais tarde isso melhorou e – se não me falha a memória – chegamos a ter penso que três banhos de sol por semana. Mas nem entre as celas podia-se circular. Era cada grupo em sua cela. Claro que de vez em quando, mediante pequena contribuição para os minguados rendimentos dos carcereiros, a gente conseguia passar de uma cela a outra. Isso era o máximo de mobilidade possível.Resumo: nada de ágora. A discussão era feita valendo-se da Tereza. E aí, desculpem, mas é necessária pequena digressão.Não sei se até hoje é assim, mas no meu tempo de cadeia havia o costume de atribuir-se nome de mulher a coisas as mais variadas (meu deus, como faz falta mulher. É premente projetá-las em tudo). Pra não esticar muito: a já mencionada Torre, por exemplo, era “dona Júlia”. Agora, termo universal mesmo (nas cadeias brasileiras, claro, claro) era a Tereza. A Tereza é um meio de comunicação via cordas. Quem nunca esteve preso duvido que consiga imaginar quanta coisa se transporta por cordas. Talvez possa dizer que a Tereza era a nossa Internet, ou mais. Pequeno exemplo: você quer mandar uma caneca de café quentinho pro amigo de uma cela que fica um pouco afastada da sua. Você pega sua cordinha (pode ser um barbante grosso. Todo preso que se preze tem a sua), amarra um pãozinho adormecido (duro) numa ponta e o atira pro seu amigo, que a essas alturas está com os dois braços esticados pra fora do guichê da porta da cela. Ele recebe a corda, e fica a segurá-la, firme. Na caneca, você já colocou o café (até uma altura que permita a inclinação da caneca durante o percurso – há ciência e arte nisso). Você, então, enfia a corda por dentro da alça da caneca. Daí pra frente, meu caro, é malabarismo. Mas não se preocupe. No presídio você tem todo o tempo do mundo pra treinar isso exaustivamente. Você suspende levemente a sua ponta da corda e lá vai a caneca. Deu pra entender? Treine em casa. Quem sabe na próxima ditadura que vier por aí você não vai precisar saber fazer isso.Pois bem. A democracia direta, nos pavilhões masculinos, era exercida graças à Tereza. Alguém tinha uma proposta? Jogava no papel e punha pra circular pela Tereza. As celas tinham de discutir a tal proposta e todos votavam. Os votos podiam ser acompanhados de justificativas de votos. Assim, quando a coisa chegava nas últimas celas já tinha virado um calhamaço. E dá-lhe discussão. Discutia-se de um tudo. Tive a felicidade de esquecer tudo sobre os variados temas propostos. Mas dou um exemplo fictício que nada fica a dever aos que realmente eram postos em circulação: alguém lembrava que alguns dias depois era dia do soldado. A ditadura, por ser militar, iria comemorar efusivamente a data. Proposta: ficar sem falar com os carcereiros durante o dia do soldado pra manifestar nosso repúdio. Tipo assim, sacou?As decisões eram tomadas por maioria simples. Eram as Decisões do Coletivo. Tem de ser tudo em maiúsculas porque era sagrado, o troço. Uma vez tomada a decisão (o resultado era comunicado por outra viagem da Tereza), todo mundo tinha de cumprir o decidido. E todo mundo cumpria. Mesmo achando ridículo.Aos poucos, foi tornando-se nítida uma divisão dos presos em dois grupos. Havia os que pretendiam prosseguir a revolução mesmo presos. Era o pessoal da ALN, o frei Betto (não digo “os dominicanos”, porque nitidamente os outros dois – o Fernando e o Ivo - estavam em outra, mas eram dominados pelo Betto. Ainda vou falar sobre isso outro dia. Pode crer), a Ala Vermelha e avulsos variados. E havia nós, a maioria do POC, os mineiros do MRM, os velhos do Partidão e outros avulsos, que pouco a pouco fomos aceitando, muito a contragosto, é verdade, que tínhamos sido derrotados de modo definitivo. Era preciso, a nosso ver, aproveitar o tempo de prisão (que ainda não sabíamos qual seria) para pensar, estudar, refletir. Pra isso você precisa de condições de vida minimamente decentes. Queríamos obter condições carcerárias melhores. Negociar com a repressão essas melhorias. O primeiro grupo não: queria piorar as condições carcerárias pra poder denunciá-las na imprensa de Paris (no Brasil, é óbvio, nem pensar). Me lembro de um dia em que escorreguei uma grana pro carcereiro e fui à cela do frei Betto, a convite dele (acho que ele queria sondar quem era aquele sujeitinho) e constatei que havia uma goteira no teto da cela. Ingenuamente propus: chama o carcereiro e manda arrumar isso. E ele: não! Deixa assim. O Evaristo Arns (era o arcebispo de São Paulo na época e fazia visitas ao presídio. Tinha o privilégio, não concedido a outros mortais, de ir até a cela dos dominicanos) vem aqui qualquer dia desses e vamos pedir que fotografem essa goteira pra mostrar as péssimas condições de vida nesta cadeia. Percebi que falávamos línguas diversas.E a vida seguiu seu curso. O coletivo, decididamente, era um saco. O objetivo maior da turma do botar-pra-quebrar era fazer greve de fome. Nunca vi ninguém gostar tanto de uma greve de fome. Qualquer coisa (o carcereiro tal olhou esquisito pro companheiro qual) era motivo pra proposta de greve de fome. Aos poucos, conversa daqui, conversa dali, fomos ganhando adeptos pra nossa idéia de um presídio mais ameno, no qual fosse possível produzir alguma coisa proveitosa. Principalmente a Ala Vermelha mostrou-se receptiva a esse nosso papo. E como eles eram muitos, a relação de forças no Coletivo foi sendo alterada gradativamente. “Eles” já não conseguiam aprovar todas as besteiras que propunham. E chegou o dia em que se divulgou (pela Tereza, é claro) que alguns companheiros seriam transferidos, que isso era uma ameaça, que esses companheiros poderiam simplesmente sumir etc etc. Proposta: greve de fome pra evitar a transferência dos companheiros. Tereza vai, Tereza vem, “eles” – pela primeira vez em votação importante – perderam. E perderam feio. Só o pessoalzinho da ALN e os dominicanos (mais uns trotskistas que tinham acabado de chegar no presídio e não estavam entendendo nada) votaram a favor. Todo o resto foi contra. A gente só não deu festa porque não tinha como. Foi lavada. Claro que não lembro dos números, mas foi algo tipo 70% a 30%. Ou mais. Pensamos: daqui pra frente, vamos fazer as coisas do jeito certo. Chega de presepada.Ledo engano. Os caras – pros quais o Coletivo sempre fora o deus – disseram que não aceitavam o resultado e iam partir pra greve de fome sozinhos. É claro que tinham como perspectiva constranger todo mundo a seguir com eles. Deram-se mal. Todo mundo ficou firme (não foram eles que sempre insistiram na predominância do Coletivo?). Eles foram transferidos de presídio. Claro que pouquíssimos dias depois abandonaram a tal greve de fome e voltaram a conviver conosco. Mas a maioria estava consolidada. Fizeram biquinho mas pararam de encher o saco.Agora, vamos ver como o inefável frei Betto fala disso em um de seus inolvidáveis livros:
Sexta-feira, 12 de maio de 1972
Hoje às zero horas, iniciamos greve de fome, contra o isolamento de companheiros que desde ontem começaram a ser transferidos para a Penitenciária Estadual. Desconfiamos que esta medida porá em risco a vida dos companheiros transferidos. As condições na Penitenciária são bem piores que as do presídio Tiradentes. Por que um “gueto” de presos políticos?Ontem nos deixaram Mané Cirilo, Celso Horta, Chico Gomes, Altino Dantas e Alberto Becker. Hoje de manhã seguiram Gilberto Beloque, Manuel Porfírio, Antônio Espinosa e Vicente, o espanhol.Participam da greve as celas 16, 17, 21, 19, 3 e 1. Alguns companheiros da cela 2 e 6 aderiram e foram transferidos para uma daquelas celas. Boa parte dos presos políticos também participa. O resto do pessoal tem outra maneira de pensar...
(Cartas da Prisão, Editora Civilização Brasileira, 1977, página 39. Sabe que agora que reparei que o meu exemplar é o número 5? Será que vendeu mais de meia dúzia?)
Esse último parágrafo é brilhante. Depois de enumerar pormenorizadamente as celas participantes da greve, acrescenta: "boa parte dos presos TAMBÉM participa." Pensa bem. O que significa isso? Se as celas tais e quais participam, como “boa parte” “também” participa? Mais: conta só quantos números faltam na enumeração do moço (as celas iam de Zero a 21). Precisa mais? E a decisão do Coletivo? Nem sequer é mencionada. E as reticências finais. Repare o nojo a escorrer delas. “O resto do pessoal”, queridinho, era a esmagadora maioria. Essa maneira de fazer política é preservada pelos freis bettos da vida que hoje estão aboletados no poder. É isso.

quarta-feira, 6 de outubro de 2004

Cidão, eu aceito



(Antes de mais nada, o benefício da dúvida: se o candidato a vereador Alcides Fonseca, de Santos, não sabia o que faziam em seu nome, ele que me desculpe pelo que vou escrever em seguida. De qualquer forma, se não sabia, é preciso dizer que era de se esperar que tivesse mais controle sobre sua campanha, já que se oferecia para ser legislador de uma cidade.)
Vamos aos factos: recebi, no Orkut, antes das eleições, um spam, enviado por Everton São Pedro (e-mail: espc_ton@hotmail.com) com o seguinte teor:
Pessoal, em outubro temos eleições e precisamos fazer valer o nosso voto. Para vereador temos Alcides Fonseca, o Cidão, 45005. Vamos votar no Cidão e ter a certeza de uma boa política.
Antes, os candidatos emporcalhavam as ruas, praças, avenidas com cartazes, faixas e o scambau. Agora, claro, adotaram também o spam. O indivíduo quer ser legislador de uma cidade, propor e aprovar leis, fiscalizar o funcionamento do executivo, e pra conseguir seu voto pra chegar lá, começa por desrespeitar os mais elementares princípios do bom comportamento social, digamos assim.
Fiquei com raiva, confesso. Respondi ao tal “Everton” expressando toda minha revolta. Digamos que fui agressivo (adoro eufemismos). Terminava assim, minha resposta:
É o país dos espertos! Viva! E todos cada vez vivendo pior. Inclusive o Cidão, que não se vai eleger e vai ficar devendo até o rabo.Vai Brasil! Medalha de ouro em esperteza!
Pra minha surpresa, recebi réplica. Nela, o spammer Everton oscila entre a vontade de me mandar solenemente à merda e seu objetivo de cativar eleitores pro Cidão. Se ele soubesse que não voto em Santos, mas em São Paulo, teria detonado.
Final da história: o Cidão não chegou lá. Ironicamente, teve mais votos que o último dos dezessete eleitos. Mas como a eleição é proporcional, vai ter de ganhar a vida de outra maneira. Teve 1.442 votos. Dezesseis dos eleitos tiveram mais de 2.000 votos. O último, o Carabina (é, isso mesmo), teve 1.148. O Cidão é tucano. O Carabina é do PRP e disputou pela coligação PL/PRP. No PSDB, Cidão é apenas o quarto suplente. Vai ter que morrer muita gente pro Cidão emplacar. Pobre Cidão.
Pobres de nós. Além do Carabina, foram eleitos o Jama-Vereador-Sem-Salário (esse é o nome dele, fazer o quê), segundo mais votado e aquela filha do Pelé que ele só reconheceu judicialmente (Sandra Arantes, quinto candidato mais votado).

domingo, 3 de outubro de 2004

Dever cumprido



O presidente Lulla está faz ano e meio a tentar implantar o Fome Zero.
Eu, modéstia à parte, em dois minutos instituí o Voto Zero:

Prefeito : 00 CONFIRMA
Vereador: 00 CONFIRMA

sábado, 2 de outubro de 2004

Acertando os ponteiros com mamãe



Vem cá, mãe. Fica aqui, pertinho de mim, que eu quero dizer umas coisas. Sabe, hoje arrumei um tempinho pra gente conversar. Faz tempo que tenho essa vontade de fazer uma espécie de acerto de contas, de esclarecer alguns factos, ou não esclarecer mas tirar da frente, falar sobre eles por catarse, pra descarregar.
Não sei se a senhora sabe, mas tenho culpas que vêm lá do meu parto. A senhora era magra, rosto lindo adornado por esse cabelo preto, preto. Depois que nasci, ficou gordinha. Nunca mais voltou àquele ar de mocinha que os dois partos anteriores não lhe tinham roubado. Sei que não podia fazer nada, mas me culpo. De algum jeito, me culpo.
Mas deixa pra lá. Vamos falar de coisas boas. Sempre me vali de sua proteção em relação a papai. Ele era muito severo. Qualquer coisa, cinta. Já a senhora não. Só dava chinelada. E mesmo assim, lembra?, quando vinha de chinelo em punho tinha o cacoete de pôr a língua pra fora e mordê-la de raiva. E eu a imitava e a senhora punha-se a rir. Pronto, talvez uma chineladinha. Já a segunda se dissolvia em perdão.
Lembra do exame de admissão ao ginásio? Papai tinha certeza de que eu não entrava no Colégio Canadá nem matando. Achava que eu não estudava, não me esforçava, coisa e tal. Aí ele fez a besteira. Me prometeu uma bicicleta, se eu passasse no exame. Porra (desculpa aí, mãe, sei que a senhora não gosta de palavrão). Justo pra mim, cujo sonho maior era uma bicicleta. Lembra?, tinha o exame de Português, eliminatório. Quem passava, prestava os outros exames: matemática, história e geografia. Fiz o exame de Português, voltei pra casa e encontrei o pai ansioso. Queria saber tudo que tinha caído no exame e quais tinham sido minhas respostas. Fui explicando as questões, uma a uma. Me lembro de ter me referido a uma questão que, de tão fácil, eu não entendia porque tinha sido posta no exame. Perguntava-se, a propósito de algumas formas imperativas afirmativas, como seria a negação delas. Algo do tipo: “Pendura”. Qual a negativa? E eu não tive dúvida: “Não pendura”.
Meu pai queria me matar: eu sabia. Esse garoto está reprovado. Eu sabia. E disse cobras, talvez lagartos. Nem me lembro bem, claro.
Domingo seguinte, lembra? mãe, a senhora talvez não lembre. Eu, jamais vou esquecer. Fomos à banca de jornais comprar A Tribuna pra ver o resultado da prova. Puta que pariu (desculpa aí, mãe), eu tinha sido o primeiro colocado. Empatado com um garoto português, pode? Papai, óbvio, sentiu a vaca caminhar ao brejo. Bicicleta à vista. E veio querer negociar, o puto (porra, mãe, perdão, extrapolei). Não queres um relógio, ao invés da bicicleta? Foi a senhora, mãe, foi a senhora que me abriu os olhos. Não, filho. Fica com a bicicleta. Não troca por relógio não.
Aquela bicicleta foi uma das coisas mais significativas de minha vida. Será que é exagero dizer isso, mãe. Acho que não, sabe. Lembra?, um dia me roubaram a bicicleta. Caralho (desculpa, mãe), foi um sentimento de perda fudido (perdão aí). Mas o Luiz Carlos, meu amigo, lembra?, achou o cara com a minha bicicleta e fez o cara devolver. Lembra? Só naquele tempo essas coisas aconteciam.
E foi tanta coisa daí em diante, né mãe. A senhora me arranjou o primeiro aluno particular de matemática. Foi a primeira graninha que eu descolei com meu trabalho. Claro, não vale contar o que eu ganhava da senhora engraxando sapatos. Porra (perdão), o aluno era ótimo. Foi uma estréia profissional muito feliz.
Agora, quando a gente veio morar em São Paulo, durante o tempo em que fiz a Poli, essas a senhora tá me devendo. Era terrível. Eu chegava três, quatro da manhã, entrava na pontinha dos pés pra não acordá-la. Quando ia fechar a porta do meu quarto ouvia aquele suspiro profundo vindo de seu quarto. Aquilo rasgava o coração.
Descontei quando saí de casa. Final da Poli, resolvi morar sozinho. Afinal, já era um velho de quase vinte e dois longos anos. Lembra? mãe. Essa tenho certeza que a senhora lembra. Encostei o caminhão de mudança na porta de casa, os homens botaram minha cama e aquele sofá-cama vermelho (lembra?) em cima do dito cujo e tchau. Lá fui eu. Tão radical que nem quis lhe dar meu endereço novo.
Talvez tenha sido por isso que, alguns aninhos depois, quando fui morar num aparelho (lembra?, era como se chamavam as casas dos militantes clandestinos na época da barra pesada da repressão) e avisei a toda a família que não daria meu endereço a ninguém, porque era sigiloso, a senhora não quis saber: quis o endereço. E eu dei. Puta merda (desculpa aí, mãe), podia ter colocado a senhora numa tremenda fria.
Por falar nisso, e a época do presídio. Aí é claro que a senhora lembra, né não? Um ano e meio levando cigarro pra mim, a senhora, que considerava o tabaco um pecado. Pô mãe, fala sério, naquela fase a senhora se superou. Foi demais. Qualquer coisa que eu pudesse reclamar da senhora antes, morreu aí. A senhora foi foda (puta que pariu, desculpa).
Depois teve os netos. Aí eu retribui, certo? Cada neto. Caprichei, hein mãe. Concorda?
Porra (desculpa) já tá escurecendo Preciso ir. Um beijo, mãe.
Levantou, beijou a flor, inclinou-se e depositou-a no túmulo.
Depois, saiu caminhando, devagar.
O vigia tinha pressa.
O cemitério já ia fechar.


Só às vezes




Coincidências



E tem gente que não acredita em coincidências. ‘Magina...
Vê só:
Casei, pela última vez, quando já tinha três filhos (em português fica dúbio. Em inglês, escreveria ‘last’, que é a última pra valer. Fica pra ‘latest’ a função de ‘mais recente’, a saber, a ‘última até agora’. Ben/mal dita dubiedade). Minha mulher também tinha três filhos. Os dela nasceram em 74, 76 e 78. São duas mulheres e um homem. Os meus nasceram em 75, 77 e 79 e são duas mulheres e um homem.
O filho mais velho de minha mulher nos deu um neto.
Minha filha mais velha nos deu uma neta.
Minha mulher tem duas irmãs.
Você já adivinhou: tenho duas irmãs. Se fosse só isso, vá lá. Acontece que minha irmã mais velha recebeu um nome começando por A. Veio a minha sogra e colocou em uma das irmãs de minha mulher o mesmo nome, só que começando por E. Minha outra irmã recebeu, ela também, nome começando por A. Não satisfeita, minha sogra colocou em minha mulher o mesmo nome de minha segunda irmã, só que começando por? Certo: E.
E tem gente que não acredita em coincidências. ‘Magina.


quinta-feira, 30 de setembro de 2004

Eleições Municipais Brasileiras



Domingo agora, os brasileiros estão convocados a elegerem os prefeitos de suas cidades e os vereadores das Câmaras Municipais (executivo e legislativo municipais).
Dois partidos tendem a adquirir predominância nesse pleito: o PT, principal inquilino do Palácio do Planalto, e o PSDB, que se afirma como principal núcleo de oposição à situação federal e que comandou o governo do país durante os oito anos anteriores a Lula.
Até aí, nada. As dúvidas começam a surgir quando se percebe que PT e PSDB têm programas praticamente idênticos. Desde a questão macro econômica até as prioridades para tapar buracos nas ruas, nada difere significativamente de um para outro. Graças a essa semelhança, muitas pessoas reclamam dos políticos. São todos iguais, oportunistas, mudam de posição conforme as conveniências. Etc e tal.
Ocorre que o processo eleitoral é – cada vez mais – interativo. Os partidos fazem pesquisas qualitativas para definirem suas bandeiras de campanha. Ou seja, procuram saber o que a maioria das pessoas quer e – com isso em mente – definem o que propor aos eleitores. Não só as propostas são fruto dos desejos dos eleitores. As imagens dos candidatos são trabalhadas em função dessas mesmas pesquisas. Quem se elegeu em 2.002 para a presidência foi o Lulinha Paz e Amor. O combativo Lula de antes jamais se elegeria.
Resumo: os prefeitos e vereadores eleitos serão expressão muito fiel da feição da maioria da população. Nosso presidente, os governadores, senadores e deputados, todos são imagens especulares de nós mesmos.
Os poucos agrupamentos políticos que defendem idéias próprias (o dr. Enéas e seu PRONA, à direita, o PSTU e o PCO à esquerda, por exemplo) têm raros seguidores. Quase ninguém os leva a sério. Os grandes partidos perseguem o senso comum. Por isso são grandes. São como nós.
O desagradável é que olhamos pra todos eles e dizemos que são horríveis.
Não gostamos de nos olhar ao espelho.


De médicos, De loucos



Quando conheci o blog Asul, o que mais me atraiu – de início – foram as “dicas” gastronômicas do Asulado. Desconfio que ele está naquela fase da vida em que o assunto com os amigos são os restaurantes (sem esquecer as mulheres, claro. Os temas não se sucedem. Apenas se acumulam). Quanto a mim, passei já à etapa dos médicos. Então, puxa uma cadeira que vou falar disso.
Faz pouco tempo, procurei uma dermatologista em função de uma irritação na pele do rosto. É claro que ela não deu a mínima pra minha preocupação. Em compensação achou uma porção de queratoses e outros palavrões espalhados pelo meu corpo. Passei por uma solene sessão de esfoliação química: ela brinca de ir pingando ácido em cada ponto a ser “consertado” e vai perguntando se já está ardendo.
Até aí, tudo bem. Todo médico tem sua alta dose de sadismo no sangue. O problema foi ao final da consulta. A distinta senhora receitou-me um bloqueador solar, nº 45, para passar em todas as partes do corpo expostas à luz do sol, pela manhã, à hora do almoço e – ápice da desfaçatez – caso vá expor-me em demasia ao sol durante o dia, por exemplo andando prosaicamente por uma rua ensolarada, de duas em duas horas. Esqueci de perguntar a ela se pegava bem eu comprar uma bolsinha pra levar o bronzeador pendurado no ombro.
Já do meu reumatologista, esse sim, eu gosto. Primeiro porque deixa beber quando se está tomando antiinflamatório. Volta e meia vou almoçar com alguém e, na hora de pedir bebida, a pessoa me sai com essa. Não, vou tomar só água. Não posso beber. Estou tomando Arcoxia. E eu, descontraído e feliz:
- Coincidência. Também tô tomando Arcoxia. Garçom, um Balla duplo, copo baixo, três pedras.
Mas o melhor do meu reumatologista são as justificativas dele pra certas recomendações. Última vez que estive em seu consultório, me disse que estava tudo bem. Só precisava eu perder uns quilinhos. E explicou:
- Faz isso por mim. Pra algum amigo teu não dizer: porra, que merda de médico é esse que te deixa gordo assim?

terça-feira, 28 de setembro de 2004

Bendita Língua



AUTOMÓVEL – sujeito que se move por conta própria. Vai pro trabalho a pé, por exemplo.
ETIMOLOGISTA – médico especialista em étimo, aquele órgão que fica na base das cordas vocais, responsável, portanto, pela origem das palavras.
GRAGRAGRA – algo absolutamente insuportável (se uma só GRA já não dá pra agüentar, imagina três)
PÓ LÍTICO – poeira que emperra as engrenagens sociais.
PUDICO – pudinzinho recatado.
SEMITÉRIO – local onde é enterrada metade dos erros de ortografia.
SUMO PONTÍFICE – diferentemente do que o nome sugere, não é de beber. É papa.
VULCÃO – cachorro que não se presta a cão de guarda. Apesar de ter grande capacidade de destruição, dorme quase o tempo todo.


domingo, 26 de setembro de 2004

Tempo



Ao esbarrar neste post:

Ruy Belo

Antigamente escrevia poemas compridos
Hoje tenho quatro palavras para fazer um poema
São elas: desalento prostração desolação desânimo
E ainda me esquecia de uma: desistência
Ocorreu-me antes do fecho do poema
e em parte resume o que penso da vida
passado o dia oito de cada mês
Destas cinco palavras me rodeio
e delas vem a música precisa
para continuar. Recapitulo:
desistência desalento prostração desolação desânimo
antigamente quando os deuses eram grandes
eu sempre dispunha de muitos versos
Hoje só tenho cinco palavras cinco pedrinhas

"Cinco Palavras Cinco Pedras", Palavra[s] de Lugar, in Homem de Palavra[s]

Posted by subrosa at setembro 26, 2004 04:00 AM

lembrei-me de que - no tempo de escola - jurávamos assim:
Palavra de Homem.
Como sou antigo, deus meu.

Observação: Em meu antigo blog apenas havia linkado esse post que aqui reproduzo. É que ele era do blog subrosa, instalado no Mblog. Falecido, portanto, tanto quanto o meu. Espero que ressuscite em algum outro endereço. (17 outubro 2.004)

Preferências





Perdigão? Sadia? Escadinha?

sábado, 25 de setembro de 2004

O BOLO



Era um bolo. É. Um bolo. Daqueles simples, pra se comer acompanhado de uma chávena de chá ou uma xícara de café. Na verdade, era um pouco mais caprichado. Tinha maçã e canela. Talita chegara com ele, estagiária nova na empresa. Colocou-o na copa do andar em que trabalhava. O pessoal veio tomar o café das quatro da tarde e lá estava o bolo. Todo mundo elogiou.
- Que delícia, o bolo da Talita.
Ela, tímida, explicou que fora sua mãe a fazer o bolo.
- Sua mãe faz um bolo excelente, era a opinião unânime.
Foram fatiando o bolo e comendo.
- Ainda há mais bolo. Chama o pessoal. Está uma delícia.
Mais pessoas vieram, comeram, elogiaram.
E o bolo não acabava. Começaram por achar engraçado.
- Parece que esse bolo não acaba!
E vários repetiram. Comeram mais um pedaço.
O bolo não terminava.
- Pessoal! Há ainda bolo. Não é hoje o aniversário do António, lá do sexto andar? Chama lá a turma do sexto pra comemorar.
Veio o António. Veio a turma do sexto andar.
Aos poucos ficou claro que o bolo – digamos assim – se prolongava. Não acabava.
E alguém teve a idéia (sempre tem alguém com essa idéia):
- Escuta gente. Tem a favela aqui perto. Esse bolo está sobrando. Vamos levar uns pedaços pra distribuir lá.
Uns poucos toparam. Pegaram alguns nacos do bolo e lá se foram.
No caminho passaram por alguns mendigos que pediam esmolas no cruzamento de duas avenidas.
- Querem bolo?
Aceitaram.
- Pô! Nunca comi uma pizza de aliche tão gostosa! disse um pedinte.
Os que iam à favela estranharam o comentário, mas não deram maior importância.
Ao chegar aos muquifos, as crianças vieram correndo. Sabiam que gente bem vestida chega sempre trazendo alguma coisa interessante. Foram aceitando os pedaços de bolo e se refestelando.
- Que delícia de brigadeiro! dizia uma.
- Puta macarrão gostoso! era outro comentário.
Ficaram sem entender. O bolo parecia saber a coisas diversas. Maluquice.
Deixaram a garotada a deliciar-se com os pedaços de bolo e voltaram ao escritório.
Começaram a trocar idéias sobre todo o sucedido.
- E se a gente mandasse pedaços do bolo pras outras filiais e pra matriz da empresa?
Essa era a filial de Curitiba, no Paraná. Cidade estranha, na qual a torcida em campo de futebol aplaude, quando o jogador faz um gol. Onde se fala português correto. Tudo certinho.
Mandaram. Um pedaço pra cada estabelecimento da empresa. Via malote. Embrulhados, os pedaços, em papel alumínio.
É claro que todo mundo levou um pedaço pra casa. Óbvio.
Devagar a coisa ficou clara. Cada pedaço proliferava indefinidamente. Além disso, tinha o gosto daquilo que a pessoa quisesse comer. Você pensava em um bife acebolado? Pronto. Lá estava ele, contido no pedaço de bolo. Morango com chantili? É pra já.
Resumindo, a coisa alastrou-se. Não foi assim, de repente. De início, as pessoas tinham certo pudor em falar do bolo. Podia o interlocutor achar que estavam loucas. Mas foi irresistível. Correu mundo.
Quando chegou à África, por exemplo, acabou com a fome em várias regiões. Darfur foi uma delas. Em todos os continentes houve mudanças significativas. Mesmo nos Estados Unidos. Mesmo na Europa. É preciso dizer que o bolo não resolvia todos os problemas. É verdade que matava até a sede. Mas não substituía um bom vinho, por exemplo. Nem uma bagaceira, um whisky, um cognac. Em função disso, Portugal incrementou sua indústria do vinho. Mais se produzisse, mais se vendia.
A repercussão de tudo isso, percebe-se, foi imensa. Houve até uma edição especial do Saca-Mulas Oriental (especial porque deu-se numa terça-feira e não – como sempre – às quintas) a discutir a questão do bolo face à fenomenologia husserliana, face ao Tractatus. A playmate da edição foi, é evidente, Talita. Penso que deveria ter sido sua mãe, mas isso fica a questionar-se junto aos redatores do Saca.
Aliás, a esse tempo, já muitas dúvidas tinham sido suscitadas pelo Bolo. Havia quem duvidasse até da existência da mãe da Talita. Até mesmo da própria Talita, vejam só. Havia a teoria de que o Bolo teria sido gerado por Brahma, o Deus. Ou, diziam outros, o Bolo teria sido encontrado em um cesto às margens do rio Nilo. Dizia-se um de tudo.
Nem tudo eram flores, contudo.
A indústria de alimentação, principalmente nos países desenvolvidos, sofreu baque irrecuperável. Digamos com todas as letras: desapareceu. Com a honrosa exceção das bebidas, como já foi dito.
O Iraque não foi abandonado pelos Estados Unidos. Continuou ocupado. Mas já não houve mais tantos atentados, tantas mortes. Afinal, a comida sobejava. Fartavam-se as milícias. Bush bisneto quase não se reelege.
De uns tempos a esta parte, começaram a surgir alguns sinais de inquietação. Parece que satélites norte-americanos vislumbraram enormes pedaços do Bolo sobre a floresta amazônica. Os cientistas se desdobraram em esforços investigativos. O facto é: se o Bolo é partido, regenera-se. Se é deixado inerte, apodrece. Decompõe-se. E aí o problema. Como evitar a contaminação causada pelos pedaços apodrecidos?
Mesmo entre os animais a coisa agrava-se. Os predadores – eles também – preferem o Bolo. Afinal, tem o gosto que lhes apetece. Espécies multiplicam-se incontrolavelmente. O desequilíbrio ecológico (com perdão da má palavra) instala-se.
Está prevista, semana próxima, reunião do Conselho de Segurança da ONU para o debate da questão.
Quanto a mim, estou-me nas tintas para tudo isso (finalmente consegui usar essa expressão! - em brasileirês é 'estou cagando e andando pra isso tudo').
Estou é com fome.
Vou comer um pedaço de Bolo. Acompanhado de um Pera Manca, safra 2.045.