segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

História serve pra alguma coisa.

Reinaldo Azevedo, o "esquisito", segundo alguns que não frequentam dicionários, enumerou em seu blog (veja excerto) cinco razões pelas quais ele entende que haverá - sim - desordem após o impeachment de Dilma. Provocada por "petistas e comunistas".
Eu desconfio que, se o novo governo for firme, não haverá desordem alguma. 1964 está aí para reforçar essa hipótese.
As Esquerdas, então, prometiam mundos e fundos e foi só um milico colocar as tropas na rua que elas enfiaram a viola no saco e foram amargar sua tibieza na cama, que é lugar quente.


terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Revelações da linguagem

O Brasil abusa dos gerúndios.
Um poeta amigo meu já dizia, há quase quarenta anos, que abominava o “Explode coração”, de Gonzaguinha. Um tsunami de gerúndios.

Como se não bastasse, criou-se, no país, o “gerundismo”.
Vamos estar avacalhando tudo, vamos estar acabando com a educação.
Os cuidados com a saúde vão estar sendo abandonados. E dá-lhe microcefalia.

Agora, na maratona do impeachment, surge uma comissão parlamentar alternativa.
Nome? : “Unindo o Brasil”.

Não poderia ser “Para limpar o Brasil” ?


segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Dicionário Brasil - Portugal

Os termos a seguir são conhecidos nos dois países. Apenas são predominantemente usados em um deles.
Há muitos mais na mesma condição.
Aqui vão alguns poucos:


Muito obrigado                                      Obrigadíssimo
O maior de todos os tempos                   O maior de sempre
Inclusive                                               Inclusivamente
Principalmente                                      Nomeadamente
Marrom                                                Castanho
Entretanto                                            Entretanto
(usado como “contudo”, “porém”)          (como “nesse ínterim”)
Top de linha                                         Topo de gama
Modo de atender ao telefone:
Alô!                                                     Tô! / Estou!

Antes que alguém proteste: não quer dizer que seja assim em todo Portugal. Muito menos em todo Brasil.

sábado, 28 de novembro de 2015

Cometem-se erros



Tentei ler editorial de hoje no Público.
Parei ao pisar nesta pedra:
"No Parlamento, ontem percebeu-se as dificuldades..."
E o que me doeu nem foi a colocação de vírgulas. 

Enquanto morei no Brasil, tropeçava com frequência nesse desprezo pelo valor apassivante do pronome Se.
Com algum espanto, percebo que em Portugal esse pouco caso é também corriqueiro.

Pergunto a meus amigos professores: consta de algum programa do ensino básico essa questão?

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Que máfia é essa?




O Senado brasileiro reuniu-se neste dia 25/11/2015 para decidir se mantinha preso o senador Delcídio do Amaral ou se mandava soltá-lo.
Como a audiência da sessão do Senado devia estar alta na TV, quase todos os senadores quiseram manifestar-se. Ou melhor: quiseram aparecer na transmissão.

A decisão acabou por ser a única possível: Delcídio vai continuar preso.

Mas o protagonismo ficou para a nota do Partido dos Trabalhadores (PT) a respeito de seu senador.
O PT, por meio de seu presidente, apressou-se em desvincular-se de seu membro. 

"1- Nenhuma das tratativas atribuídas ao senador têm qualquer relação com sua atividade partidária, seja como parlamentar ou como simples filiado;
2- Por isso mesmo, o PT não se julga obrigado a qualquer gesto de solidariedade;"
Pergunta-se: que se pode esperar de máfia que não socorre seus delinquentes?
A tendência inevitável é o desaparecimento.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Cartilha do Partido dos Trabalhadores (PT)

O PT lançou hoje um texto para orientar seus militantes na defesa do Partido.
De maneira um tanto surpreendente, o documento pretende também guiar seus leitores na defesa da Verdade e da Democracia.
Fiquei curioso para saber como é possível fazer a defesa de tudo isso ao mesmo tempo.
Se Verdade e Democracia nem sempre coincidem, conciliá-las com o PT já é tarefa para super-heróis.

Já na apresentação do trabalho, o Presidente Nacional da sigla me fez sentir um odor a ditadura militar.
Explico: os que já se consideravam gente nos tempos da ditadura militar brasileira hão de lembrar que era muito difícil encontrar manifestação de militar que não utilizasse o adjetivo "solerte".

Pelo que se vê, o PT pretende ressuscitar o termo. Aliás, diga-se, adjetivo de ambiguidade preciosa.
Os dicionários lhe reconhecem dois significados: dotado de sabedoria, iniciativa, por um lado. Mas que usa meios desonestos para conseguir algo, por outro.

Perfeito para quem defendia a mentira sob ditadura.
Perfeito para quem tenta defender-se da verdade em democracia.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Dói no orgulho

Sempre que utilizo o Google lembro de meu maior fracasso.
Trabalhava em uma grande e conceituada empresa de projetos de engenharia, no Brasil.
Formei uma equipe de excelentes analistas/programadores para desenvolver um programa de pesquisa de dados para a empresa. Éramos uns cinco profissionais.
Gastamos algo da ordem de dois anos para chegar a um produto final.
Em um fim de tarde, colocamos nele uma palavra para pesquisar no banco de dados da empresa e fomos descansar.
O sistema demorou a noite toda pra chegar a um resultado.
Ficou claro que nosso trabalho havia sido em vão.
Sim. O computador que usávamos, na época, não comportava um sistema desse porte.
Era o início dos anos 80.
Mas lembro sempre disso quando recordo os versos de Pessoa (Álvaro de Campos):

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
(...)
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

Hoje digito lá uma coisa qualquer e o Google me devolve logo centenas ou milhares de endereços.
Isso me dói em algum lugar de meu orgulho.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Governo esvaziado.

A Esquerda sempre lutou para transformar greves de reivindicações pontuais de uma ou várias categorias em greves políticas.
Agora, quando caminhoneiros (camionistas, em Portugal) brasileiros fazem paralisação de âmbito nacional e deixam claro que querem a derrubada de Dilma Rousseff, vem a público o ministro Edinho Silva a afirmar que greve deve tão somente buscar o atendimento de reivindicações da categoria.
Esse governo está com todos os pneus vazios.

domingo, 8 de novembro de 2015

Minha implicância com "implicar"

Depois de quase cinco anos de residência em Portugal, torna-se mais evidente para mim o quanto os jornalistas brasileiros (os de agora e os de pijama) torturam a língua portuguesa.
Claro. Nem todos. Mas a maioria deles.
Se o meu caro leitor-jornalista (se é que os há. Quase sempre eles só escrevem) costuma dizer que alguma coisa implica em..., saiba que implico com.

sábado, 7 de novembro de 2015

Apenas Outono

No inevitável Outono, as folhas caem,
a obedecer à lei da gravidade e 
ao ritmo das Estações.

Não se perguntam por que caem.
Não constroem explicações.

Apenas realizam o Outono.


sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Conversa de esquecer

O Bloco de Esquerda (BE) fechou acordo com o Partido Socialista (PS)..

Falta agora a António Costa um acordo com o Partido Comunista (PCP).

Meu stalinista de estimação, o Jerónimo de Souza, anda um bocadinho escondido.

Deve andar a escutar os conselhos de Vinícius de Moraes, em Canto de Ossanha:

Que eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Pé de pato, mangalô três vezes

Para comemorar meus setenta anos, redondinhos, comprei ingressos para o show de António Zambujo nas vésperas de meu aniversário. Coliseu do Porto, Fevereiro de 2015.

No dia anterior ao show recebo a notícia de que minha aposentadoria havia sido considerada ilegal pelo Tribunal de Contas da União (TCU), órgão do Legislativo brasileiro que eu imaginava ter algo mais importante com que se preocupar.

Lá se foi o show do Zambujo.

Só depois de me certificar de que a bobagem seria corrigida, corri a assistir ao Zambujo em Coimbra.

Eis que agora, com minha aposentadoria já legalizada (o TCU corrigiu a situação em Agosto), fico a saber que haverá novo show de Zambujo no mesmo Coliseu do Porto, no dia seguinte a meu aniversário, em 2016.

Como não sou supersticioso, comprei já os ingressos.
Como é mesmo? Pé de pato, mangalô três vezes.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Do Brasil caipira

O Brasil é um país tão caipira, tão dedicado a seu mundinho circundante, que para se assinar jornal ou revista brasileira estando fora do Brasil percorre-se uma via crucis.
O indivíduo informa que vive em Portugal, para citar meu caso, mas continua a ter de fornecer CPF, Estado da Federação em que reside (a selecionar em elenco dos Estados brasileiros) e código postal com o número de dígitos vigente no Brasil. Além de número de telefone com DDD brasileiro.
Até hoje não consegui fazer uma assinatura da revista Veja.
Assinatura do Estadão foi um parto complicado.
Renovação da Piauí fui impedido de fazer porque estão a reformular o atendimento ao exterior.

E depois reclamam que o mundo pensa que a capital do Brasil é Buenos Aires.
Ou Rio de Janeiro.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Dos mortos

Os vivos tornam vivos os mortos.
Nessa lida erigem religiões e crenças.
Matam e morrem por elas,
para se fazerem vivos.

domingo, 1 de novembro de 2015

Coligação delirante

Ao redor de um cozido à portuguesa na aldeia de Passos de Lomba conversamos. Eu, português de arribação, dois agricultores, um doutor que vive mergulhado em seu Instituto Politécnico e um homem da GNR.
Não sei o valor estatístico disso, mas concordamos todos a respeito da estupidez da delirante coligação à esquerda arquitetada por António Costa.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Nova trindade para Portugal


A entrevista a Jerónimo de Souza (Partido Comunista) na SIC/SIC Notícias leva à conclusão de que Portugal passará a ser governado por uma nova trindade.
O PS entra com seus Dez Mandamentos, o PCP limita-se a um "Passa de mim este cálice" e o Bloco de Esquerda, ungido em novo Espírito Santo, incita os portugueses a falar línguas estranhas.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Humor socrático

O jornal das oito da SIC, hoje (26/10/2015), resumiu as estranhezas relativas ao caso José Sócrates, o ex-Primeiro-Ministro português.
A mim, basta uma.
Era uma vez um grande amigo do ex-PM - Carlos Santos Silva.
Tão grande que lhe fornecia vultosas somas em dinheiro para que as torrasse como bem lhe aprouvesse.
Tendo tão chegado amigo adquirido obras de arte de elevado valor, descobriu-se que várias dessas obras foram parar nas paredes da residência do ex-PM.
Mais: algumas foram achadas na casa de empregada de Sócrates.
Questionado a respeito, este teria afirmado:
- Não me dei conta disso.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Novilíngua


Ao final das legislativas portuguesas de 2015 escrevi no Facebook que os comunistas estavam a afirmar que a coligação Portugal à Frente (PàF = PSD/CDS) perdera as eleições quando – de facto – ganharam.
Diziam isso ao comparar os resultados da coligação PàF agora com os resultados da mesma coligação nas legislativas de 2011. E é verdade que, em relação a 2011, essa coligação teve menos votos, elegeu menos deputados e perdeu a maioria absoluta.
Qualquer raciocínio vale quando se quer adoçar o dissabor de uma derrota.

O defeito dessa comparação é o de relevar os quatro anos que medeiam os dois eventos eleitorais.

Em 2011 Portugal afundara em profunda crise e o governo era socialista. Sem discutir se o Partido Socialista tenha sido em algum grau responsável por tal crise, é natural esperar-se que o eleitorado corresse em grande parte para os braços da centro-direita.
O governo da coligação PSD/CDS foi um período de aplicação de medidas de austeridade, medidas altamente impopulares, mesmo que as consideremos necessárias. Isso, é claro, elevou a cotação do PS na bolsa eleitoral.
Tanto que, ao vencerem as eleições europeias de 2014, os socialistas consideraram tal vitória insuficiente (quase 32% contra menos de 28% da coligação), uma “vitoriazinha”. E defenestraram seu secretário-geral António José Seguro. Colocaram em seu lugar o autarca de Lisboa, António Costa, fadado a mostrar ao mundo o que é uma vitória de bom tamanho.

Desde que começaram as campanhas eleitorais para esta últimas legislativas, o PS quase só experimentou descidas. Já a coligação PàF ainda perdeu intenções de voto durante algum tempo, mas nos últimos meses começou a crescer e suplantou os socialistas.

A observação do gráfico das sondagens nos mostra duas grandes disputas: PS versus coligação PàF, na parte alta do gráfico; CDU (comunistas e verdes) versus Bloco de Esquerda na parte de baixo.
No final, a coligação PàF venceu o PS e o Bloco derrotou a CDU.
É pura ironia que muitos sugiram a formação de um governo de coalizão PS/CDU.
Seria unir o roto ao esfarrapado.


De resto, considerar a vitória da coligação PàF como derrota, em face dos resultados de 2.011, é comparar laranjas com parafusos.


segunda-feira, 5 de outubro de 2015

O português estatístico

A coligação Portugal à Frente (PSD/CDS) ganhou as eleições com algo como 39% dos votos. O Partido Socialista (PS) ficou em segundo com qualquer coisa como 32%.
Não houve, portanto, maioria absoluta.
Os analistas, na TV, afirmam que os portugueses quiseram dizer, com isso, que querem uma continuidade governamental, mas com "humildade". Ou seja, com atenção às exigências do PS. 
Não consigo imaginar um português que tenha ido votar com essa ideia na cabeça. Pra mim, quem foi votar no PS queria que o PS vencesse, de preferência com maioria absoluta. Idem para o eleitor da coligação.
O eleitor que votou na coligação mas a exigir "humildade" é um mero português estatístico.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

A corrupção estética

A presidente Dilma, do país chamado Brasil, foi estes dias a NY para discursar na ONU.
Há pouco já lá esteve e ficou em uma suíte carézima de um hotel idem.
Voltou agora, com o dólar a beirar os cinco reais, e decidiu ficar na mesma suíte, do mesmo hotel.

Isso não é imoral.
Isso é feio. É kitsch. É cafona.

Tenho amigos que defendem Dilma e seu governo com unhas e dentes.
São pessoas de gostos refinados. Um adora e cria cavalos. Outro tem como passatempo dançar tango. Um terceiro cultiva a literatura inglesa. Etc.
Enfim, seres sofisticados.
Peço a eles que nos ajudem: digam a Dilma o quanto é cafona escolher o mais caro aposento do mais caro hotel para hospedar-se nele. Mormente quando quem paga é o Tesouro.

Imaginemos uma situação hipotética. Fico a saber, certo dia, que pessoa de minhas relações gostaria de rever familiares que moram em NY. Mas não dispõe de recursos para viajar até lá e lá ficar alguns dias. Eu, dispondo de recursos acima de minhas necessidades, ofereço a essa pessoa a viagem. E, confiando no discernimento dela, digo que faça suas escolhas e que vá visitar os parentes por minha conta.
Essa pessoa informa-se, então, em busca do hotel mais caro em NY. E reserva para si o aposento mais caro desse mais caro hotel.
Que juízo faria você, meu eventual leitor, do caráter de tal pessoa?
Você a taxaria de imoral? Não. Afinal, ela foi autorizada a escolher as acomodações que bem entendesse.
Seria difícil, contudo, não nutrir – em relação a tal pessoa – um certo desprezo.

A meu ver, um desprezo estético.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Notícias de uma viagem ao Brasil


No Rio de Janeiro, na Barra, durante almoço com parentes cariocas, converso com o único tio que me resta.
Tio que, diga-se logo, jamais sucumbiu à separação entre realidade e fantasia. Passeia por ambas sem perceber fronteiras, com a experiência que oitenta e sete anos de vida lhe outorgaram.

Disse-me, à guisa de introdução, que já nada o assombra, coisa alguma o abala.
Só enxerga o sem-sentido à sua volta.
Para ilustrar o que afirmava, contou-me o que presenciou há pouco :

Morreu-lhe um conhecido. Foi ao velório prestar a última homenagem ao amigo.
Estava sentado na sala em que se velava o corpo, quando chega um rapaz e aproxima-se do caixão. Começa a chorar, abraça-se ao falecido e clama que era seu desejo ser com ele enterrado, dele não queria separar-se.
O exagero da cena era tal que meu tio deixou a sala para não se emocionar demasiado.
Esperou que o enterro se realizasse e foi ao estacionamento buscar seu carro para voltar a casa.
Estava a abrir a porta do veículo quando viu o rapaz da cena do velório junto a um automóvel vizinho. Eis que o dramático rapaz, já recomposto, acena para outro indivíduo a pouca distância e com o polegar a fazer sinal de positivo:

- Não se esqueça! Amanhã, às oito, na academia, ok?

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Um voo fatídico


O comandante boceja, abre os braços em um longo espreguiçar-se.
O céu é de brigadeiro, com as commodities lá no alto.
Liga o piloto automático e, furtivamente, sorve uns goles do whisky que traz em uma garrafinha discretamente guardada no bolso do paletó.
A seu lado, a co-piloto prepara sofregamente apresentações gerenciais em powerpoint, não sem um certo ar estranho. Uma comissária de bordo, a Erenice, traz-lhe, de tempos em tempos, café quentinho.
Como tudo está mesmo muito tranquilo, o comandante resolve dar um pulinho ao Instituto Lula para fazer lobby.
Deixa o comando a cargo da co-piloto.
A tripulação comenta que a co-piloto parece ter obtido,  de maneira um tanto oblíqua, em uma universidade de Campinas, sua habilitação para voar. Verdade ou não, ela é mesmo um bocadinho esquisita. A ponto de exigir  - por ser mulher – que os comissários de bordo a tratem por ca-pilôta.

Ao se ver sozinha na cabine de comando, altera os controles e põe a aeronave em descida quase vertical.
O comandante volta e encontra a cabine trancada por dentro. Esmurra a porta. Nada.
Já desesperado, até porque os passageiros ameaçam inflá-lo, grita, grita, mas a co-piloto finge não ouvi-lo.
Alguns comissários de bordo e muitos passageiros sugerem que se use uma picareta para permitir que se entre na cabine de comando, mas o comandante alega que isso pode danificar a porta da cabine.
O avião continua seu trajeto rumo ao solo.


Acordei suado e ofegante.

sábado, 29 de agosto de 2015

Portugal e os que fogem para a Europa


Há momentos em que dois problemas podem combinar-se para uma solução.
A Europa está às voltas com a invasão de grandes contingentes de asiáticos e africanos.
Portugal, por seu turno, está às voltas com o fenômeno da desertificação do interior.
Para falar mais amplamente, com a drástica redução de sua população.

Por que não ligar os pontos e desenhar uma solução?
Por que não aceitar a entrada de largos grupos de sobreviventes de barbáries e dar-lhes a oportunidade de ocupar aldeias e trabalhar na agricultura?
Seria possível utilizar a experiência de agricultores portugueses reformados para ensinar aos recém chegados as técnicas agrícolas e pastoris.

Há problemas difíceis em um programa desses? Há.
Mas os políticos teriam, com isso, a oportunidade de não se ocuparem unicamente com os processos eleitorais, com a micropolítica.
Poderiam equacionar e resolver os problemas que surgiriam de tal projeto.


Onde estarão os líderes de um processo assim audacioso?

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Pais, mães, filhos


Meu pai costumava reagir assim: quando um dos filhos realizava algum brilhareco, virava-se para minha mãe e se vangloriava: "Viste minha filha? Viste meu filho?"
Quando algum filho fazia alguma bobagem, acusava:
"Olha o que teu filho fez! Como tua filha faz uma coisa dessas?"

Só agora, por estudar as características da poesia bíblica, me dou conta de que meu pai tinha - para tais atitudes - fundamento canónico.
Está em Provérbios 10:1:
O filho sábio alegra o pai
O filho insensato entristece a mãe.
A saber: a alegria é paterna. A tristeza, suporta-a a mãe.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Comemoração

Uma pequena digressão: no dia em que li na Internet que dois vinhos tintos portugueses tinham sido escolhidos - pela Wine Spectator - como o terceiro e quarto melhores vinhos do mundo em 2014, não resisti. Fui ao sítio da Garrafeira Nacional e comprei meia dúzia de cada um deles. Dia seguinte eles sumiram dos catálogos. 
Como sou um pequeno-burguês que se contenta plenamente com tintos portugueses lá pelos 6 ou 7 euros, ao pagar algo como 60 euros por garrafa do Chryseia 2011 e do Quinta do Vale Meão 2011, meti-os na garrafeira e não vislumbrava oportunidade de os consumir.

Acontece que hoje é o dia em que completamos - a Léa e eu - dezesseis anos de casamento. Concordamos em que era ora de deixar de lado nossos habituais Papa Figos e que tais e abrir um Chryseia 2011.
Sou incapaz de descrever tal perfeição.
Somado ao polvo com cebolas da aldeia e azeite de Macedo de Cavaleiros que a Léa preparou, fez jus ao clima de satisfação pelos anos já vividos.
Mas não dispenso um comentário miseravelmente calculista: a Garrafeira Nacional, hoje, vende o Chryseia 2011 tinto por 199,50 euros.
Shalom!

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Os extraterrestres e seus ensinamentos


O Livro de Enoc (o nº 1; há outros dois) não entrou na Bíblia tal como existe no cristianismo ocidental (mas compõe a Bíblia copta). Mesmo assim é citado em alguns livros da Bíblia que conhecemos no Ocidente. Por exemplo na epístola de Judas, versículos 14 e 15.
Além disso, os cristãos primitivos o tinham em alta conta e vários Pais da Igreja o consideravam de inspiração divina. A tradição o tinha como de autoria de Enoc, ancestral de Noé, mas nos dias de hoje se acredita que o texto tenha sido escrito por vários autores judeus entre os séculos III e I a.C.

Dito isso, vamos ao livro. Ele é um prato cheio para os que gostam do tema “extraterrestres”.
Enoc conta que os homens, antes do dilúvio, eram orientados por seres eternos, os Vigilantes, que haviam descido dos céus.
Por não conhecerem a morte, não havia motivo para que procriassem.
Mas começaram a encantar-se com as mulheres e resolveram casar com elas.
Tiveram então filhos gigantes. Esses começaram a destruição da terra
Quanto aos Vigilantes, dado que agora casados com seres humanos, passaram a contar-lhes os segredos que conheciam e aos quais os humanos ainda não tinham acesso.
São esses segredos que me surpreenderam. Ao menos alguns deles.

Os líderes dos Vigilantes eram vinte e tinham nomes curiosos, todos terminados em “el” (em hebraico, essa partícula “el” denota a divindade). Era mesmo de se esperar que eles ensinassem, como o fizeram, a fabricar espadas de ferro e couraças de cobre; como se extrai e se trabalha o ouro; a fazer da prata braceletes e outros adornos; como cortar raízes, os sinais da terra, os presságios do sol e os da lua. Ou seja, os segredos da agricultura.
Como até extraterrestres costumam ser supersticiosos, os Vigilantes ensinaram também aos humanos: encantamentos, feitiços, bruxarias, magia e habilidades afins.

O que mais me chamou a atenção: enquanto Baraq'el ensinou os sinais dos raios (em hebraico, “barak” é “raio”), Kokab'el os presságios das estrelas (em hebraico, você já adivinhou, “kokav” é “estrela”(o segundo "k" tem som de "rr" gutural)), há um líder dos Vigilantes de nome estranho - “-'el” (ou seja, antes do “el” há apenas um hífen) – que ensinou aos humanos “os significados”. Seria -'el um professor de filosofia?


Por fim, Asa'el ensinou às mulheres – entre outras coisas – a maquiagem dos olhos.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Pequena biografia de José Dirceu


No movimento estudantil, era um garotão bacana que logo percebeu que política estudantil era um jeito ótimo de papar as meninas.
Ajudou a montar o congresso da UNE em Ibiúna. Logística impecável. Lugarejo de poucos habitantes encheu-se de repente de um montão de jovens. A padaria não dava conta dos pedidos.
Descobertos pela repressão foram todos em cana.
Quando uns camaradas mais barra pesada sequestraram um embaixador e resolveram pedir a libertação de presos políticos, consta que estava difícil montar a lista. Para recheá-la tascaram nela o Zé.
E lá se foi Dirceu pelos ares. Aterrissou em Cuba. Lá o clima ficou um bocadinho mais pesado. Teve de passar por treinamento militar etc etc.
Disfarçado por uma cirurgia plástica voltou ao Brasil  Que se saiba, sentou praça em uma cidadezinha de interior, casou por lá e sobreviveu até a anistia.
Depois disso pegou carona na popularidade de Lula e mostrou-se um administrador eficaz no comando administrativo do PT.
Jogou fora o pacote ideológico desenvolvido pelos "culpados inúteis" da academia e partiu para o pragmatismo de tomar o poder a qualquer custo.
Como esse custo era alto, desenvolveu técnicas para cobri-lo.
Tudo com a aquiescência de Lula:
-Você toca a máquina que eu gasto a saliva. Só não esquece da minha parte.
Graças ao boquirroto Roberto Jefferson, teve de abandonar o vice protagonismo e partir para carreira solo.
Suportou uma prisãozinha light. Volta agora ao xilindró, ao que parece com os dias contados.
Não os dias de vida que só ao Altíssimo pertencem.
Mas os dias de tranca o juiz Moro vai contar. 
Logo, logo.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

O paralelismo na poesia bíblica (3)


Até que me convençam do contrário, penso que a melhor tradução para o paralelismo tipo Jano, de que falei antes, vem a ser a que utiliza os dois significados da “palavra Jano”, a palavra de duplo sentido que dificulta a versão do hebraico para outras línguas.

Assim, uma sugestão que dou para traduzir Gênesis 49:26 (parte) é a seguinte:

As bençãos de teu pai excedem as bençãos de meus pais
Tal como as montanhas eternas excedem o cume das colinas antigas.

Emprego nessa tradução tanto “meus pais” quanto “montanhas eternas”, os dois significados que a palavra hebraica “horái” tem. No texto original essa palavra aparece apenas uma vez, conferindo ao texto uma ambiguidade que não se deixa transportar para outra língua.
O “tal como” que usei como ligação entre as duas partes pode bem ser substituído por outro elo equivalente. Ou pode mesmo ser omitido, ficando a ligação implícita.
Por fim, usei a tradução “cume de” para o hebraico “taavát”. A melhor tradução é mesmo “desejo de”, “aspiração de”. Mas o dicionário BDB (hebraico-inglês) admite que se traduza “taavát” por “boundary”, ou seja “fronteira”, “limite”, "extremidade”. Já que se trata de colinas, preferi usar logo “cume de”.
A tradução deixa de lado a literalidade em prol da clareza.



domingo, 26 de julho de 2015

O paralelismo na poesia bíblica (2)

Ainda sobre o paralelismo Jano:
Este versículo de Gênesis 49, o 26 (parcial) é de difícil tradução.

ברכת אביך גברו על-ברכת
הורי
עד תאות גבעת עולם

Lê-se mais ou menos assim:

Birrôt avirrá gaveru al-birrôt

Horái

Ad taavát guiveôt olâm

Esses versos fazem parte do belíssimo poema que nos traz a benção de Jacó a seus filhos, pouco antes de morrer.

A "palavra Jano", nestes versos é "Horái".
Ela tanto significa "meus progenitores" quanto "montanhas eternas" ("everlasting mountains" segundo o BDB, dicionário hebraico - inglês do Velho Testamento de Brown, Driver e Briggs).

Diante disso, não se deve ter surpresa quando, depois de ler esse mesmo versículo na tradução para português "Almeida corrigida e revisada fiel":

 As bênçãos de teu pai excederão as bênçãos
 de meus pais, 
até à extremidade dos outeiros eternos

lermos na tradução "Almeida revisada Imprensa Bíblica":

As bênçãos de teu pai excedem as bênçãos
 dos montes eternos, 
as coisas desejadas dos eternos outeiros

Já a Bíblia de Jerusalém traduz assim:

Bençãos de teu pai te elevaram sobre bençãos
das montanhas antigas
sobre as aspirações das colinas eternas.

Difícil, não?


quinta-feira, 23 de julho de 2015

O paralelismo na poesia bíblica

Há poesia em muitos sítios da Bíblia.
O penúltimo capítulo de Gênesis é um deles. Jacó, antes de falecer, abençoa seus filhos.
Os Salmos, os Provérbios, Jó, os Cânticos dos Cânticos são poesia. Etc.

A poesia do Tanakh, o Velho Testamento, não possui rimas, nem métrica, no original hebraico.
Mas tem uma característica chamada de paralelismo.
Os versos guardam relações entre si que podem receber esse nome: paralelismo.
Há o paralelismo sinônimo:

"Perdoa todas as tuas faltas
Cura todos os teus males."

(Salmos 103:3)

O segundo verso é "sinônimo" do primeiro. 
De algum modo repete o primeiro.

Há outros tipos de paralelismo. 
Mas o que importa aqui é o paralelismo Jano.
Jano vem, aqui, do deus romano. O deus de duas caras.



Esse tipo de paralelismo é assim chamado porque  há uma palavra central que tem duas acepções diferentes. Uma serve à parte inicial do poema. A outra faz sentido em relação ao final da composição poética.

Exemplo?

Cântico dos Cânticos 2:12:
הנצנים נראו בארץ 
עת הזמיר הגיע
וקול התור נשמע בארצנו

Isto pode ser lido mais ou menos assim:

Hanitsanim nireú baárets, 
et hazamir higuiiá 
vekôl hatôr nishmá beartsênu.

Pois: a palavra "zamir" que segue o artigo "ha", significa tanto "poda" quanto "canto".

Os dois primeiros versos podem ser traduzidos por:

As flores aparecem na terra, 
o tempo da poda chegou.

Mas o segundo e o terceiro versos exigem outra tradução:

O tempo do canto chegou
e a voz da rola se escuta na nossa terra.

Essa não é, infelizmente, a tradução que temos para o português.

A Bíblia de Jerusalém, neste versículo, não se sai mal:

As flores florescem na terra,
o tempo da poda vem vindo,
e o canto da rola 
está-se ouvindo em nosso campo.

Já a "Almeida corrigida e revisada fiel" ignora a poda:

Aparecem as flores na terra, 
o tempo de cantar chega, 
e a voz da rola 
ouve-se em nossa terra.

Enfim, como melhor traduzir isso, de modo a levar em consideração os dois significados da palavra  "zamir" e, assim, ser fiel - o mais possível - ao texto hebraico?

domingo, 28 de junho de 2015

Raízes do "Estado Islâmico" (EI)

Como em blogues os textos devem ser curtos, vou resumir a historinha. Mas se alguém quiser lê-la na própria Bíblia, basta consultar 1º Reis 18:17-40.
Vamos ao resumo:
O profeta Elias andava muito chateado porque o povo de Israel passara a adorar o deus Baal.
Pediu que reunissem todo o povo no monte Carmelo e trouxessem os 450 profetas de Baal.
Desafiou-os a escolher dois bois, prepararem um deles para o colocar sobre a lenha mas sem atear fogo. O mesmo fez ele com o outro boi.
Disse, então, aos profetas de Baal que pedissem a seu deus que acendesse o lume.
Como era de se esperar, nada aconteceu.
Elias, por seu turno, pediu ao Eterno que ateasse fogo em sua lenha.
Isso depois de tê-la molhado abundantemente com água.
Não deu outra. O fogo pegou pra valer e queimou não só o boi e a lenha mas até mesmo as pedras à volta.
Diante dessa insuspeita prova de que o deus de Elias era o verdadeiro, o profeta passou uma carraspana no povão, ordenou que prendessem os 450 profetas de Baal, levou-os para as margens de um ribeiro e os matou, singelamente.


segunda-feira, 25 de maio de 2015

A gripe real e o orçamento imaginário

Em que planeta reside Joaquim Levy?

Quanto a mim, vivo no nordeste de Portugal. Perto de Vila Real e longe do Brasil Imaginário.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Burrice?


Jamais! Hoje em dia deve-se dizer "portador de necessidades especiais quanto ao conhecimento", ou - se o indivíduo é admirador da presidente Dilma - "portador de necessidades especiais no que se refere ao conhecimento".

Por incrível que seja, o assunto dominante em Portugal, na Internet e até mesmo nos telejornais das 20 horas, é a questão que apareceu em algum exame ou algo semelhante (não me peçam para procurar detalhes, se faz favor), a saber:

Se o estudante jogar de uma varanda a 5 metros do solo um gato que pesa 4 kg, qual a força que actua sobre o pobre gato durante a queda?




Mais incrível - a meu ver - é alguém pensar que o aluno vá deixar-se influenciar pela questão e resolver lançar um gato varanda abaixo.

Em tempos de antanho, quem era chamado de burro se ofendia.
Hoje quem se ofende é o burro.

Ainda minhas viagens pela A4.


Para quem vai de Bragança ao Porto, pouco antes de chegar-se a Vila Real há uma entrada para a freguesia de Palheiros, município de Murça.

Ainda não o realizei, mas tenho o sonho de desviar-me da A4 e visitar Palheiros. Caso encontre lá alguma loja dessas que vendem pequenos objectos de uso doméstico, comprarei agulhas.

Vou sempre poder vangloriar-me de ter encontrado agulhas em Palheiros.


Comunicação científica.


Viajo com frequência entre Bragança e Porto (mais exactamente, Matosinhos). Porta a porta são 215 km. Como gasto 1:50 hora, temos uma velocidade média de 117 km/h. Vamos arredondar para 120 km/h, que é a velocidade máxima permitida na autoestrada. Em dias não frios e sem chuva, o pára-brisas enche-se de marcas deixadas por insectos que nele se esborracham. Chega a perturbar a visibilidade.

Já quando vou de Bragança a Passos, via Vinhais, não obtenho velocidade média acima dos 65 km/h. Trata-se de estradas nacionais, cheias de curvas. Em raros momentos consigo andar pouco acima de 80 km/h. Ainda que as estradas nacionais nos deixem mais próximos da vegetação que margeia o leito carroçável do que as autoestradas, o pára-brisas da viatura fica praticamente limpo durante todo o percurso ( de 55 minutos).



Conclusão: os insectos - ao menos os que costumam habitar Trás-os-Montes - , durante seu voo, conseguem desviar-se de objectos que se desloquem em sua direcção, caso tais objectos estejam a mover-se a velocidades não muito superiores a 80 km/h (em relação ao referencial Terra). Não conseguem desviar-se deles caso tais objectos desenvolvam velocidades superiores a 120 km/h. 

Quanto a objectos que se movam de encontro a eles, insectos, a velocidades entre 80 e 120 km/h dependemos ainda de pesquisas ulteriores.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Imagens de Israel


Pode-se gostar mais das ideias e da atuação de Golda Meir.
Ou pode-se depositar mais esperança nas ideias de Ayelet Chaked.

Indiscutível é que a imagem de Israel melhorou muito de uma a outra.

domingo, 17 de maio de 2015

Ainda a falta de caráter de Jorge Jesus


A matéria do Público, a julgar pelo título, indica que Jorge Jesus fez o que qualquer treinador faria em tal circunstância. Mas o texto mostra que não foi assim. Ele quer o mérito para si.
Em entrevista após o jogo, mostrada pela SIC, ele chega a dizer que o Porto tem um plantel melhor. O ponta de lança do Porto, por exemplo, talvez seja - segundo Jesus - o melhor da Europa. No entanto, sua equipa, o Benfica, graças a sua organização etc e tal, conseguiu ser campeã.
Jorge Jesus costuma ser - vá lá - folclórico em suas entrevistas. Hoje foi - como em outras ocasiões - apenas desprezível.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Sou burro e isso me aborrece





Dia desses assisti a esse vídeo. Fiquei triste.
Gostava imenso dessa música. Ao ouvir Gil, um de seus compositores, a falar a respeito do processo criativo dela, me dei conta de que tais coisas prosperam graças ao nosso mau gosto. Eu incluidíssimo.
Não vou ficar aqui a comentar "o monstro da lagoa", surgido do facto de a composição ter sido feita do alto de uma cobertura na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. Nem falar da "bebida amarga" enquanto os compositores saboreavam um Fernet.
Nada posso dizer contra Chico e Gil. Eles se valeram de uma juventude ávida de liberdade e mergulhada em ditadura ferrenha. Ganharam muito dinheiro com isso.
Volto a lembrar-me de meu amigo Paulo Feofiloff. Levei-o - nos idos de 1973 - a minha casa e coloquei na "vitrola" o LP de Jorge Ben comemorativo de seus 10 anos de carreira. Ele ouviu calmamente até o fim. Depois me perguntou:
- Como você consegue gostar disso?!
Pois é. Graças a milhares como eu, esse pessoal encheu as burras.de grana.
Enquanto muitos morriam sob tortura, eles compunham musiquinhas no alto de suas coberturas milionárias e ganhavam muito dinheiro com isso. Estão todos ricos.
E eu fico triste. Por ser burro, por eles serem espertos, por tudo que rolou a partir daí.
O Brasil, agora, chegou lá.
Lama total.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Para conhecer o Brasil


Quando saí do Presídio Tiradentes, lá no distante ano de 1.973, me dei conta do absurdo: eu conhecia mais a história da União Soviética do que a do Brasil. Sabia mais sobre Lênin e Trotsky do que sobre José Bonifácio e Cipriano Barata.
Resolvi mudar isso. E comecei pela leitura de “O que se deve ler para conhecer o Brasil” de Nelson Werneck Sodré. Apesar de milico e marxista, Sodré foi um grande historiador.
Ainda tenho, entre as folhas de minha 4ª edição, de 1.973, o resumo de seis páginas datilografadas que fiz a partir da leitura do livro. Mas, como Sodré mesmo afirma, o essencial se resume a três obras: Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Jr. e Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda.
Quem não leu ao menos essas três nada sabe sobre Brasil.
Aliás, a coisa mais comum é lerem-se comentários sobre o brasileiro como “homem cordial” que deixam a nu o facto de que os respectivos comentaristas jamais passaram perto de Raízes do Brasil (obra que em algumas bibliotecas brasileiras é catalogada entre os livros de botânica).




Oh! tempos, oh! Costumes. Tudo isso é passado.
Para conhecer o Brasil, agora, faça o seguinte:
Vá ao You Tube, assista ao vídeo em que Rafinha Bastos entrevista Whindersson Nunes. São só oito minutos. Não sabe quem é Rafinha? Isso não faz diferença. O importante é conhecer Whindersson.
Depois que você já souber o básico sobre ele, faça uma pesquisa com o nome dele no próprio You Tube e assista a algum de seus vídeos.

Pronto. Você acaba de conhecer o Brasil.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Pra falar de coisas boas



Conheci a churrascaria Fogo de Chão de São Paulo em 1.986. Quase trinta anos.
Várias vezes escrevi sobre a excelência da casa. Das carnes, do buffet, do serviço, do ambiente.
Talvez não tenha tocado em um ponto fundamental: a política de recursos humanos que os proprietários originais nela implantaram.
Levavam do Rio Grande do Sul para São Paulo rapazes originários da agricultura gaúcha.
Davam-lhes moradia, treinamento e um excelente plano de carreira.
Vi muitos deles começarem a limpar mesas, depois a percorrer as mesas com os espetos.
Alguns tornaram-se gerentes. Outros de lá saíram para abrir seus próprios restaurantes.
Depois que o Fogo de Chão começou a abrir casas nos EUA, deram cursos de inglês para a moçada e muitos foram trabalhar no hemisfério norte.

Não me recordo do ano em que aconteceu. Estava a jantar com meu filho no Fogo de Chão da av. Santo Amaro. Um rapaz que estreava no espeto mais simples, o de frango e linguiça, veio servir-me. Nervoso, deixou cair a faca em minha mão.
O gerente veio ver o estrago em meu dedo e levou-me a um hospital que – feliz coincidência – ficava em frente ao restaurante. Recebi alguns pontos no dedo e voltei para terminar a refeição. Pedi ao gerente que não punisse o estreante.
Esse mesmo gerente apareceu bem mais recentemente na loja da Santo Amaro. Estava de terno. Veio conversar comigo, como sempre fazia. Contou-me que administrava, então, todas as casas de Fogo de Chão de São Paulo. E circulava entre elas, a cuidar que tudo funcionasse bem. Dei-lhe os parabéns pela evolução profissional.
Pouco antes de mudar-me para Portugal, fui despedir-me do restaurante.
Calhou de ele estar por lá. Contei a ele que passaria a residir em Portugal. E perguntei se não pretendiam abrir casas na península ibérica. Disse-me que acabava de voltar de viagem a Portugal e Espanha para avaliar a possibilidade de instalar a Fogo de Chão nesses países. Havia chegado à conclusão de que não era viável. Fiquei triste com a notícia mas mais uma vez elogiei sua ascensão profissional.

Hoje, ao ler a Folha de SPaulo, deparei-me com uma enorme propaganda de empresa de enchidos.
E lá estava, ao lado de Fátima Bernardes, da Globo, o Presidente do Fogo de Chão, Jandir Dalberto.
O gerente que me levou ao hospital. Que – disso não me lembro – deve ter começado por limpar mesas.

Gente assim me faz ainda acreditar um bocadinho na raça humana.



domingo, 26 de abril de 2015

Da liberdade


Pois. Contam-me as primas de Passos de Lomba, Vinhais, que meu saudoso primo Abílio tinha lá suas manias.
Quando o médico de família recomendava que fizesse tal ou qual exame, comparecia ao posto de saúde para o realizar.
Perguntado se estava em jejum havia ao menos oito horas, respondia que sim. Minutos antes de sair de casa comera à grande.
Valia também o inverso. Garantia estar empanturrado quando isso era exigido pelo exame. Estava em jejum.
Morreu, como todos nós o faremos.
Mas morreu livre.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

De vícios e virtudes


Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo?
(1º Coríntios 6:19)

Este versículo foi sempre base para proibições, particularmente nas igrejas evangélicas. Nomeadamente quanto ao comer e beber. Mas também em relação ao vestir etc. No texto em que está inserido, fala-se especialmente da relação sexual com prostitutas.
Decorre daí que devemos cuidar bem do nosso corpo, por ser ele o templo do Paráclito.
O problema é decidir o que é bom e o que não é bom para o corpo.
Certa vez, eu ainda menino, meu pai recebeu a visita de um pastor norte-americano de passagem por Santos. Convidou-o para fazer um sermão em nossa igreja. O problema é que ele fumava. E no ambiente dos batistas do Brasil naquela época, era proibido fumar. Meu pai teve de pedir a ele que não fumasse na igreja para não escandalizar os crentes...

O mais comum é criarem-se algumas regras e perpetuá-las. Em pouco tempo já não se sabe bem por que tal ou qual coisa é proibida.
Penso no caso das bebidas.
A maioria dos evangélicos repudia as bebidas alcoólicas.
Vai daí, tem sido comum eu ver, aqui mesmo no Facebook, fotos de famílias crentes reunidas em volta de uma mesa de refeição. Invariavelmente, além dos pratos, talheres e travessas com a comida, observam-se garrafas de refrigerantes.
Ora, atualmente é mais do que sabido que os refrigerantes fazem mal. Há até médicos que afirmam que quem dá refrigerantes aos filhos demonstra que não os ama.
Inversamente, é já de conhecimento geral que o vinho - particularmente o tinto - faz muito bem à saúde.

Mas os que aprenderam desde pequenos que não se deve consumir bebidas alcoólicas vão continuar aferrados a essa ideia e vão continuar a entupir-se de Coca-Cola...

O pior é que esse tipo de distorção manifesta-se em muitos outros campos dos usos e costumes.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Porvir



Hoje é banal fazer o que há algumas décadas era inimaginável. Por exemplo, posso ligar a TV agora e assistir ao programa apresentado anteontem ao qual eu gostaria de ter assistido.
Espero já não viver o dia em que for possível ligar a TV e assistir ao jogo de futebol que vai acontecer no dia seguinte.

domingo, 12 de abril de 2015

Ideias de um saloio


Este domingo, 12 de Abril de 2.015, é dia de manifestações contra o governo na terra em que nasci.
Como não posso ir às ruas em São Paulo pois vivo do outro lado do Atlântico e do outro lado do Equador, fico mesmo em Bragança, Portugal, neste dia que começou ensolarado como convém a um dia primaveril e já agora ameaça algum aguaceiro.
Também não faz sentido manifestar-me pelas ruas bragançanas. Pouca gente me veria, ninguém me entenderia. A não ser, talvez, os brasucas ocupados em servir um excelente rodízio de carne no Sabor Brasil à rua Amália Rodrigues.
Valho-me da tranquilidade deste vértice nordeste do retângulo Portugal para alinhavar ideias.
Já disse há algum tempo que a política brasileira tende a polarizar-se entre PT (e suas franjas) e os setores evangélicos. Ambos têm algo em comum: o desprezo pela sociedade em que vivem com a consequente falta de importância dada a valores morais que afetam a vida social; a justificativa de meios pelos fins.
A divergência entre eles situa-se na esfera dos costumes e dos valores morais individuais: questões como o aborto, a homossexualidade etc etc.
Não sei se Dilma será apeada do poder antes de 2.018. O que parece evidente é que ela será, no mínimo, relegada pelos fatos à condição de “rainha da Inglaterra”, no que isso tem de pejorativo.
Antigamente, no Brasil, um candidato deixado de lado por seu próprio partido ao longo do processo eleitoral era dito “cristianizado” (corram ao Google). Daqui por diante, dever-se-á chamar de “dilmizado” o presidente relegado ao esquecimento durante o mandato.
Conheci de perto o governo Sarney (1.985/1.989). Não foi à toa que José Sarney atravessou vários períodos diferentes da política brasileira sempre “por cima”. O típico político-rolha. Não afunda. Ele sabe dividir. E com isso multiplica sempre seu poder.
No Brasil é assim. Na religião, todos os caminhos levam a Deus. Na política, também, todos os rios correm para o mar. Sincretismo religioso. Sincretismo político. No Brasil é assim.
FHC e Lula, por exemplo, entenderam isso.
Collor e Dilma não.

Por hoje chega. Vou passear o cão.