segunda-feira, 19 de julho de 2004
Cosmogonias
Adão e Eva, o Éden, a serpente e o fruto proibido, são - talvez - nosso mais conhecido mito de origem. Mas há muitos outros. Faz tempo, interessado no assunto, comprei em um sebo uma obra em italiano que recenseava mitos de origem de povos do mundo inteiro. Eram quatro grossos volumes (que não li porque não leio italiano. Aí você me pergunta: por que comprou? sei lá). Há mitos de origem para todos os gostos. E muito o que conversar sobre eles. Lembro-me de um em que tudo começa em um lago onde nadam alguns patos (sic). Vai daí que Brama pousa no lago primevo e põe um enorme ovo do qual nasce... Brama. Então ele cria o mundo etc etc. Esse mito (que acho ter lido em Borges mas não encontro mais aonde) mostra a dificuldade do ser humano em lidar com o Princípio.
Por falar em Borges, em Otras inquisiciones (La Creación y P.H.Gosse) ele discute a questão do umbigo de Adão. Se Adão tinha umbigo, sem ter tido cordão umbilical, como fica o princípio de razão que exige que todo efeito tenha causa? Gosse bolou uma saída engenhosa: o tempo seria infinito para frente e para trás. Mas Deus, que pode interrompê-lo para o Juízo Final, eliminando dessa forma todo um porvir hipotético, pôde também interromper o fluxo temporal infinito em outro determinado momento, o momento da Criação. Assim, houve toda uma cadeia de eventos anteriores ao Paraíso, mas tais eventos não se realizaram. Dito de outra forma: podem existir esqueletos de gliptodontes, mas não houve jamais gliptodontes.
Borge, no mesmo texto, cita uma variante muito gira (como dizem os portugueses. Os cariocas usam 'muito manêra') inventada por Bertrand Russell: "No capítulo nono do livro The analysis of mind (Londres, 1921) supõe que o planeta foi criado há poucos minutos, provido de uma humanidade que 'recorda' um passado ilusório."
Já o gajo aqui bolou uma cosmogonia diferente. Vamos a ela:
Na Terra dos Deuses, em algum bairro perdido em certa metrópole, uma casa térrea, com grande quintal, abriga uma simpática família de divindades. Dois deusesinhos brincam animadamente nos fundos da residência. Um deles sugere.
- Vamos criar um mundo?
O outro logo concorda, mas acrescenta:
- Mas um mundo diferente, com uns seres estranhos. Vamos chamá-los de homens.
- Homens. Bom. Muito bom. Mas só homens não. Vamos criar dois tipos.
Homens e Mulheres, então. Certo?
- Certo!
E os dois começam a brincadeira. E vão desenvolvendo idéias e sofisticando a criação.
De repente, quando tudo já está bem adiantado, ouvem a mãe chamar para o almoço. Como a fome já chegou, largam tudo no quintal e correm para dentro de casa.
E lá ficamos nós, largados naquele quintal, à mercê dos ventos e da chuva.
sábado, 17 de julho de 2004
Jogo do Tempo
Volta e meia me divirto com esse jogo. Ele consiste em voltar mentalmente cinco anos para trás e analisar quais das minhas circunstâncias atuais eram previsíveis então.
O mais comum é perceber que não muito do que me cerca hoje e daquilo que constitui agora meu dia-a-dia era planejado - ou sequer cogitado - por mim há cinco anos.
E aí começa a segunda parte do jogo: em que circunstâncias estarei eu daqui a cinco anos?
É divertido levantar hipóteses. Já sei que é exercício inútil. Mas os jogos devem ser lúdicos, não úteis.
sexta-feira, 16 de julho de 2004
quinta-feira, 15 de julho de 2004
A Montanha
Lá pelos meus doze anos, acompanhei meu pai, uma noite, em visita a um tipo notável. Era o pastor Tecê Bagby. Filho dos primeiros missionários americanos batistas no Brasil (Anne e William Bagby), nascera aqui e - apesar de ter sido educado nos Estados Unidos - fazia questão absoluta de ser considerado brasileiro. Só pra dar uma idéia, o nome da figura era Taylor Carey Bagby (sendo esse último pronunciado com "é" na sílaba tônica). Ele inventou o nome Tecê (iniciais dos seus prenomes) e exigia que o chamassem Tecê Bagbi (o "a" pronunciado como "a" e a tônica no "i").
Em seu apartamento em São Vicente (pra quem não sabe, cidade grudada em Santos), conversou com meu pai e me ignorou durante bom tempo. Eu o observava. Sua figura de patriarca era realçada pela poltrona um tanto solene em que se instalara. Lá pelas tantas, quando a prosa com meu pai esmoreceu, voltou-se para mim.
- Quantos anos tens?
Eu, já antevendo o papo de sempre: "e em que série da escola estás? puxa, como é adiantado, o menino! etc etc etc.", fiz a minha parte:
- Doze anos.
E ele sentenciou o que jamais esqueci:
- Filho, é nessa idade que se começa a escalar a montanha da estupidez. Lá pelos dezoito anos, chega-se ao topo. A maioria fica por lá. Faça um esforço para descer.
Desde então, tenho feito o diabo pra voltar à planície.
Mas. É tão bom o clima aqui no alto.
quarta-feira, 14 de julho de 2004
Agora é jurisprudência:
"Cu de bêbado não tem dono"
Ou, para ouvidos mais pudicos:
"O orifício circular corrugado, localizado na parte ínfero lombar da região glútea de um indivíduo em alto grau etílico deixa de estar em consonância com os ditames referentes ao direito individual de propriedade".
Deu em O Globo de hoje:
BRASÍLIA. A sentença é insólita e inédita. O Tribunal de Justiça de Goiás decidiu que o homem que, por vontade própria, participar de uma sessão de sexo grupal e, em decorrência disso, for alvo de sexo passivo, não pode declarar-se vítima de crime de atentado violento ao pudor. O acórdão do TJ de Goiás, publicado no dia 6, é um puxão de orelhas no autor da ação que reclamava da conduta de um amigo.
Luziano Costa da Silva acusou o amigo José Roberto de Oliveira de ter praticado contra ele “ato libidinoso diverso da conjunção carnal”. Silva alegou que, como estava bêbado, não pôde se defender. Por meio do Ministério Público, recorreu à Justiça. Mas o tribunal concluiu que não há crime, já que a suposta vítima teria concordado em fazer sexo grupal.
Ótimas piadas infames a respeito estão aqui.
terça-feira, 13 de julho de 2004
Esses contadores fantásticos
E seus programadores maravilhosos
(ou vice-versa)
Eu já havia instalado um contador de leitores neste blog. É aquele ali à direita, que informa: "Há n a ler este blog agora". Belo dia, descobri outro e resolvi instalar o dito cujo também. Assim, daria pra ver se os dois funcionavam direitinho. É o "( m online )" e eu o alojei logo abaixo do primeiro. Não dizem que na comunicação é sempre necessária alguma redundância? Pois é.
Vai daí que (eu já esperava por isso. Afinal, já fui programador, sei que herrar é umano) aconteceu o previsível. Volta e meia cada um marca uma coisa.
Nada do outro mundo, dirá você. E eu concordo. Só fico meio grilado quando o de baixo (isso só acontece com ele) indica "( 0 online )". Sei lá. Me dá uma sensação de vazio. Não é nem aquilo de me sentir um zero à esquerda. É só zero mesmo. Tout court, sacou. Nulidade. Nada.
Baixo astral, cara.
Atualização (14/05/2007): Por essas e por outras, retirei do blog esses dois contadores de acesso.
sábado, 10 de julho de 2004
Quousque tandem?
Quem sabe. Talvez falar em latim ajude.
Quousque tandem abutere, CNBB, patientia nostra?
Quamdiu etiam furor iste tuus nos eludet?
(Até quando enfim abusarás, CNBB, da nossa paciência?
Por quanto tempo ainda este teu rancor zombará de nós?)
Este discurso de Cícero contra a CNBB (ou melhor, contra Catilina. A adaptação é minha) vem a propósito de matéria na Folha de S.Paulo (FSP) de hoje (Caderno Cotidiano, C6), pela qual somos informados a respeito das idéias do secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Odilo Pedro Scherer, sobre a interrupção da gravidez quando houver laudo médico atestando a anencefalia do feto. A autorização para essa interrupção foi concedida por liminar do ministro Marco Aurélio de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF). Dom Odilo argumenta: "A mulher que gera um filho com anencefalia pode passar por um drama grave e por muitos sofrimentos, sabendo que o feto pode morrer ainda no seu seio ou então logo depois de nascer. Temos que ter muita compreensão com essa mãe e a sociedade dispõe de muitos meios para ajudá-la. Mesmo o risco para a saúde da mãe pode ser controlado pela medicina. Mas o sofrimento da mãe não é justificativa suficiente para tirar a vida do filho dela".
Das idéias à ação, a CNBB pediu anteontem ao presidente do STF, Nelson Jobim, a cassação da medida liminar.
A matéria da FSP esclarece: "Fetos com anencefalia têm defeito de fechamento na calota craniana e ausência de cérebro, o que impede a sobrevivência fora do útero. O problema pode ser detectado por meio de exames."
Não custa lembrar que uma liminar como essa não obriga nenhuma mãe a abortar, apenas permite que ela decida fazê-lo ou não. Mas a CNBB, talvez por ser a proprietária do direito de vida e morte, quer que seja proibido o aborto, mesmo em tais circunstâncias.
Ainda o inefável dom Odilo: "a vida humana não está apenas num órgão, como o cérebro, por mais importante que ele seja. A vida está no conjunto das funções do organismo."
Então tá. Afinal, tudo indica que alguém, mesmo sem cérebro, pode chegar a ser até secretário-geral de uma CNBB.
P.S.: sobre o assunto, leia também aqui.
sexta-feira, 9 de julho de 2004
Elsa Joana de Morais Nunes Ribeiro Alves
Em fevereiro deste ano, escrevi aqui:
"Elsinha tem esse nome enorme mas é pequena ainda e tem só onze anos."
Pois é, hoje ela faz doze. Daqui de São Paulo mando um beijo enorme pra ela, que vive em Bragança, com os pais.
Ao invés de dar a ela um presente, ela é que nos vai presentear com um de seus textos. A escolha é minha, o prazer é de todos que lerem.
O Livro Que Não Tinha Letras.
Lá estava o livro numa velha biblioteca. A capa tinha pó e as folhas estavam amarelecidas pelo passar do tempo. Folheei algumas páginas e reparei que não tinha letras, nem sequer imagens. Este livro era diferente de todos os outros que eu conhecia. Este livro falava. Contava histórias de um palhaço sem sorriso, de um monstro bom e de uma bola que não rolava. Também falava de um mar sem água, de um céu sem lua, de um sol que não brilhava e de uma estrela que assustava.
Já cansada de ouvir tantas histórias, resolvi fechá-lo. Mas, quando tentava fazê-lo, estava na minha frente o palhaço sem sorriso que me pediu para não fechar o livro, porque assim ele voltaria a sorrir, o sol a brilhar, o mar a ter água, a bola a rolar …
Parabéns! Nos vemos em dezembro.
terça-feira, 6 de julho de 2004
Todo mundo é incompetente,
por que não o Caetano?
No início dos anos 70, o livro "Todo mundo é incompetente inclusive você: As leis da incompetência" (Laurence J. Peter e Raymond Hull. Trad. Heitor Ferreira. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971) divulgou o Princípio de Peter: as pessoas vão sendo promovidas nas empresas por se mostrarem competentes naquilo que fazem. Quando começam a demonstrar alguma incompetência no nível a que chegaram, param de ser promovidas e se estabilizam nesse patamar. Donde se conclui que a tendência é todo mundo ser incompetente.
Me lembrei desse 'princípio' ao ouvir o cd 'a foreign sound', de Caetano Veloso. Sempre achei Caetano um excelente intérprete (das suas próprias músicas e das de outros compositores). Quando ouvi, por exemplo, Caetano interpretar 'Carolina', de Chico Buarque (também nos anos 70), tive uma longa discussão com Fernando Mesquita, um de meus companheiros de xadrez 12, pavilhão 2, Presídio Tiradentes (afinal, a gente não tinha mesmo muito o que fazer, dentro daquela cela): ele dizia que se tratava de gozação do Caetano com o Chico; eu duvidava, por achar magnífica a interpretação. Até hoje não sei se o Mesquita tinha razão, mas - eventuais sarcasmos caetanísticos à parte - acho a interpretação excelente. Ainda agora.
De repente, Caetano me sai com esse cd monocórdico, não sei se pretensioso ou preguiçoso. Me parece que ele acaba de atingir seu nível de incompetência. Canções deslumbrantes, marcadas, através dos tempos, por interpretações maravilhosas, são tratadas todas no mesmo diapasão. Tudo irritantemente igual. Lá na faixa 15 (Detached) ele tenta variar e se arrebenta. Volta ao marasmo já na faixa 16 e não sai mais dele. O que ele diz: 'Por todo o mundo há pessoas que gostariam de achar um meio de agradecer à música popular americana por ter enriquecido e embelezado suas vidas. Muitos tentam. É o que faço aqui [neste cd].'
De minha parte, não me senti enriquecido pelas interpretações de Caetano. Ao contrário, fiquei mais de quarenta reais mais pobre. É o preço do cd.
domingo, 4 de julho de 2004
Portugal x Grécia
Perdemos o Rumo
(mas ganhamos Ná Ozzetti)
Estava a ler um post do Ene Coisas no qual Luis Ene fala que continua a ouvir Ná Ozzetti.
Voltei vinte e três aninhos atrás. Naquele distante ano de 1.981, Raimundo Pereira lutava para manter em pé o jornal Movimento, sucessor de Opinião. Ofereci ajuda. Fazia um pouco de tudo (muito pouco, diga-se) para que o jornal continuasse a sair.
Foi nesse contexto que fui ao Lira Paulistana (ficava na rua Teodoro Sampaio, perto da praça Benedito Calixto, São Paulo. Fechou as portas em 1.985) para assistir ao show de um grupo praticamente desconhecido: Rumo. O trabalho do grupo era, em grande parte, reflexo da genialidade de Luiz Tatit, mas a voz de Ná Ozzetti (então em início de carreira) já impressionava. Quando a apresentação terminou, comprei o disco Rumo (1.981) e fui para casa escrever um texto sobre o grupo.
Dia seguinte corri à sede do Movimento para entregar o artigo. Raimundo estava lá para informar que o jornal havia acabado.
Devo ter as folhas datilografadas guardadas em alguma pasta no meio desta bagunça que é meu escritório. Que importa? Já não servem para nada.
Serve - sim - o disco de vinil que ainda reproduz bastante bem os sons daquele tempo irreproduzível.
sábado, 3 de julho de 2004
Sophia de Mello Breyner Andresen, 1919-2004
Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na busca de um bem definitivo
Em que as coisas de Amor se eternizassem.

Hoje se foi Sophia, expoente da Literatura Portuguesa.
Hoje recebi a notícia de que meus filhos acabam de 'nascer' portugueses. Entre eles, Sofia.
sexta-feira, 2 de julho de 2004
quinta-feira, 1 de julho de 2004
Final da Euro2004:
Felipão x Parreira
Um olhar brasileiro sobre a Euro Copa. As seleções que se enfrentam no domingo próximo são caracterizadas pelo estilo desses dois técnicos: o atual e o anterior treinadores da seleção do Brasil. Scolari conseguiu imbuir a seleção portuguesa daquele espírito que levou os brasileiros à conquista do penta. Já o técnico alemão da seleção grega adota fundamentos coincidentes com os de Carlos Alberto Parreira, a saber: prioridade para a manutenção da posse de bola (o que se costuma chamar - no Brasil - de 'valorização da posse de bola'), prioridade para a defesa, para o 'não tomar gols'. Como já disse Parreira há muito tempo, para ele 'o gol [a favor, entenda-se] é um detalhe'. Basta verificar a média de gols feitos pela Grécia nos últimos trinta jogos: pouco superior a um gol por partida. Lema dessa seleção grega: tudo para não levar gol; se possível fazer um. Afinal, basta um gol para ganhar-se uma disputa, desde que não se sofra nenhum...
De minha parte, preferia os checos na final. Assistiria, assim, a uma verdadeira partida de futebol.
Domingo veremos a seleção portuguesa a jogar futebol, contra outra seleção que parece jogar xadrez.
quarta-feira, 30 de junho de 2004
Daqui a pouco
Alguém vai morrer.
Daqui a pouco, alguém cansa.
Logo logo, o trem passa,
O cigarro acaba,
Um par dança.
Daqui a pouco, o rei se cala,
O povo sai em passeata,
A bolsa cai, o dólar sobe.
A conjuntura muda,
o nó desata.
Só mais um pouco
e surge a aurora.
Mesmo já já o dom explode,
A arte se incendeia,
Tristeza vai embora.
Não se amofine.
É quase o minuto.
Os sinais já se mostram,
O tempo galopa,
Seu chegar eu escuto.
sábado, 26 de junho de 2004
A próxima vítima
O jogo de hoje entre Holanda e Suécia foi um marasmo (quase) completo. Não fossem duas bolas na trave ao final e - claro - a disputa dos pênaltis, e a coisa toda teria sido muito insossa.
Se hoje eu estivesse em Faro (ah! se estivesse!) ao invés de ir assistir a esse joguinho, acharia mais animado ficar a observar as conversas das velhinhas em "O Seu Café".
Religiões
João Vasco, do Diário de uns ateus, descobriu na Internet uma lista de religiões que parece ser - além de exaustiva - bastante acurada. Pelo menos o teste que fiz (procurei 'Antroposofia') deu excelente resultado.
Pra quem gosta, prato cheio.
sexta-feira, 25 de junho de 2004
Decreto
A partir de agora,
o seleccionador Luiz Felipe Scolari
é promovido a
Luiz Felipe Universitari.
Saída da Missa
Entreouvido de uma mulher cujo marido - ao que tudo indica - dedica-se mais aos assuntos do Senhor que às necessidades da senhora:
Haja sacro!
quinta-feira, 24 de junho de 2004
Portugal x Inglaterra (on line)
Só três minutinhos de jogo e já um a zero?!?!
58% de posse de bola no primeiro tempo não adiantaram...
Mas Portugal está melhor. Não há dúvida.
Veremos o segundo tempo.
Portugal decaiu no segundo tempo.
Quem jogou - e muito bem - foi o Felipão.
Substituições precisas.
Resultado justo.
Vamos à prorrogação.
Qualquer que seja o resultado, Portugal está de parabéns.
Prorrogação: belo gol (golo?) de Rui Costa.
Lampard (quase) estraga a festa.
Vamos às penalidades:
Heróis do jogo: Felipão e Ricardo.
Considerando-se que muitos queriam Vítor Baía e Felipão insistiu com Ricardo, resulta - silogisticamente - que Felipão é o herói.
Amém.
(não quero sofrer assim pelo menos até quarta-feira...)
Sem cabimento
- Morzinho! Que troço é esse que cê comprou pro Bruno?
- Um jogo de cubos, ora.
- Mas como! Você não tinha nada mais deseducativo pra comprar pra ele?!?
- Como, deseducativo! Comprei naquela loja lá, onde a gente esteve outro dia, de brinquedos educativos.
- Mas você não percebe? Com esse jogo ele vai acostumar-se a um universo em que tudo encaixa perfeitamente. Cubo menor dentro de cubo maior, esse por sua vez no cubo maior ainda. E daí por diante. Isso não tem nada a ver com a realidade. Nada a ver. Entende!? Na melhor das hipóteses, é um universo cartesiano. Pão pão, queijo queijo.
- E daí?
- Daí que não é assim que funciona! Era preferível comprar pra ele o disco Saiba, do Arnaldo Antunes. Tem aquela faixa 'Cabimento', lembra? Aí o Bruninho ia começar a sacar a dialética da vida. Que o que cabe em outra coisa também pode conter essa outra coisa. Isso.
- Mas ele só tem três aninhos!!!
- Por isso mesmo! Vamos começar a enganar a criança desde cedo?!?
quarta-feira, 23 de junho de 2004
O que o ser humano não uniu,
Deus nem tente
No meio daquele frio danado, ela chegou. O apartamento era ainda novo, as paredes, dizem, demoram a secar. Faz mais frio em apartamento novo. O fato é que estava gelado. Ela entrou, aquele sorriso enorme, moreno, embrulhada por um enorme casaco.
Marina era um papo pra lá de bom. Divertida, amiga, sarcasmo na medida, carinho na dose certa.
Hoje estava um pouco séria. Fora do habitual, foi logo dizendo: tem que ser com você. É importante. Eu escolhi você.
- Mas Marina. Você não sabe o que está dizendo. Você pensou bem?
Claro que pensei (ela já meio sem paciência). Você é o cara mais bacana que já conheci. Eu tenho que perder a. Você sabe, não dá mais pra ficar assim. Tenho quase vinte anos. Você me inspira confiança. Eu quero.
- Mas, caramba, isso não é assim. Sem mais aquela. Ainda por cima você acabou de ser operada. É até arriscado. Sei lá.
Você não vai dizer que não quer, né. Você não gosta de mim?
- Marina, eu te adoro. Mas.
Então.
Foi quase ridículo, não fosse Marina a coisa mais fofa do mundo. Ele, também, era de uma inexperiência quase total, imperdoável. Foi um puxar casaco pra cá, cobertor pra lá. Cuidado com os pontos!
Depois foi aconchego, tranqüilidade. Com Marina era sempre assim, gostoso de conviver.
Mais tarde, no tempo que se seguiu, as coisas não se encaixaram. Surgiu Elen, Marina não entendeu. Pudera, ninguém entenderia, ninguém entendeu.
Outras vezes, no futuro mais distante, reencontrou Marina. Sempre o sorriso farto, um pouco cansado talvez.
Não sei como é o nome da saudade do que não houve.
Se soubesse diria agora. Como não sei, fica o nome de Marina.
terça-feira, 22 de junho de 2004
Os oceanos e seus engodos
A primeira vez que vi o Oceano Pacífico e senti sua água em minhas mãos foi em Viña del Mar, Chile. Parado ali, naquela praia sofisticada na qual as pessoas passeiam bem vestidas, as mulheres de sapatos de salto alto e vestidos longos, os homens não raro de terno, duvidei da honestidade daquele marzão. Pudera, minha fantasia de criança nascida à beira sul-americana do Atlântico era a de um Oceano Pacífico em que as ondas saíam da praia em direção ao alto mar, a manter a ordem das coisas oceânicas, que não lhe fica bem ao Pacífico deixar que o Atlântico saiba que está a confundir as coisas.
Vi as ondas baterem nas pedras continentais, a areia receber aquela mesma espuma a que me acostumara do lado de lá, de cá, que sei eu. Já não sei mais nada.
Este oceano está a rir-se de mim. Disso não há dúvida.
segunda-feira, 21 de junho de 2004
Da crueldade das mães
Meu amigo Carlos Alberto, psicanalista de cuja convivência sinto saudade (há um tempão não o vejo), estava a disputar comigo um dia a respeito de qual de nossas mães teria sido a mais cruel.
Calma. Diga-se logo que as duas eram boníssimas com seus filhos. Falávamos de galinhas.
Alto lá. Ambas eram senhoras de reputação ilibada. Conversávamos era sobre galinhas mesmo. Aquelas que fazem cócóricó e botam ovos. E discutíamos as diferentes técnicas que nossas respectivas mães utilizavam para matá-las, aos domingos pela manhã.
Está bom. É preciso explicar tudo a estas novas gerações de usuários/utentes de supermercados. Pensam que as galinhas já nascem aos pedaços, sem penas, lavadinhas e ensacadas em bandejas de isopor revestidas de filmes.
Nem sempre foi assim, filhinhos. Fui criado em Santos, em casa com grande quintal onde conviviam girassóis, caramboleiras e bolas de gude. Toda quinta-feira era dia de feira em nossa rua. Entre outras compras, minha mãe quase sempre incluía uma galinha. Mas era galinha mesmo, inteirinha e vivíssima. A penosa passava a viver em nosso quintal, faustamente instalada, tendo à sua disposição minhocas a granel. Bastava pinçá-las da terra, técnica em que todas eram mestras.
Feliz ou infelizmente, durava pouco a alegria da coitada. Domingo pela manhã, antes de irmos para a igreja, minha mãe descia ao quintal, faca e um prato fundo nas mãos. Prosaica e calmamente, raspava as penas do pescoço da supra mencionada, prendia o corpo da mártir com os pés e serrava-lhe o pescoço, não sem cuidar que o sangue derramasse inteiro no prato (que para tanto servia). De resto, eram os preparativos previsíveis. Ao almoço, saboreávamos a falecida, quase sempre acompanhada de farto macarrão ao sugo.
Já não era assim que procedia a doce genitora de Carlos Alberto. Segundo seu insuspeito relato, sua mãe não se utilizava de faca. Catava o pescoço da infeliz com as duas mãos. Bastava, então, efetuar rotações em sentidos inversos com ambas as mãos, de modo brusco. Pronto. Estava estrangulado o futuro almoço.
Qual das duas era mais benevolente?
(ouvi alguém dizer 'benevolente'?!? Isso é porque não sou galinha)
domingo, 20 de junho de 2004
Necessidade e Virtude
Engraçado. Há coisas que por serem necessárias - mas penosas - precisam ser envoltas em aura de virtude. Pra ficarem mais palatáveis, menos assustadoras, incômodas.
Exemplo? Acordar cedo. A maioria das pessoas precisa acordar cedo. Diariamente. Surgiu, em função disso, a tese do 'Deus ajuda a quem cedo madruga'. Há, de um lado, a divinização do cedo-despertar. De outro, abomina-se a pessoa que acorda tarde. Tudo para tornar mais suportável a necessidade de acordar cedo. Agora, que há muita hipocrisia nisso, lá isso há. Já faz tempo que, volta e meia, faço um 'teste': como de vez em quando caio da cama cedo em domingos ensolarados (ou não), pego o telefone lá pelas oito horas e ligo pra algum madrugador conhecido. Nunca deu chabu. A pessoa - invariavelmente - atende com aquela inconfundível voz de sono profundo. E nega (!) que estivesse a dormir. Imagina! Acordei faz tempo!
Outro desses fenômenos de transformação de necessidade em virtude ocorre com a morte. Ela mesmo. Tudo indica que a gente vai morrer um dia. Está certo que não existe prova disso. Mas convenhamos, parece inevitável. Afinal, até hoje parece que as pessoas todas insistem em morrer. Por que escaparíamos? O fato é que - além de inevitável - a morte parece ser uma coisa muito chata. Quase todo mundo gostaria de adiá-la indefinidamente. Daí pra criar toda uma mitologia em torno da própria não dá nem um passo de distância. E tome vida eterna, anjinhos a voar com graciosidade, céus deslumbrantes e o diabo (ops!). Tudo isso pra tornar a perspectiva da morte algo mais digerível.
Tá bom, que seja. Cada um alivia suas dores como pode. Mas algumas coisas não encaixam bem. Exemplo? Enterro de crente. O pessoal fica dividido entre chorar e justificar porque está a chorar. Afinal, se morrer é passar desta pra outra muuuito melhor, pra que a choradeira? Ah! é saudade de quem se foi, dizem. Tá bom. Então vai junto! Qual o problema?
Que nada. Choram de saudade, louvam a maravilha que estará a viver o defunto, mas se agarram com unhas e dentes a esta vidinha vagabunda deste vale de lágrimas.
Li em lugar incerto, em tempo indeterminado, que existiu uma tribo primitiva qualquer na qual a família era enterrada com o patriarca falecido. Deixo aí a sugestão aos fiéis de todos os cultos.
Coerência gente. Coerência. Todos pra cova. E me deixem dormir.
Desejos
É claro que desejo a vitória de Portugal no jogo de amanhã contra a Espanha.
Tenho até o palpite de que o resultado vai ser 3 x 1.
Agora: não sei se é pedir demais, mas desejo que o jogo não seja tão dramático quanto República Tcheca 3 x 2 Holanda.
Sacumé. Coração aos pulos pode tropeçar.
*******************************
Comentário pós-jogo: ou o Costinha pára de perder gols feitos ou minha aorta vai dilatar-se uns perigosos milímetros durante essa Euro2004.
Mas... seguimos!
sexta-feira, 18 de junho de 2004
quinta-feira, 17 de junho de 2004
quarta-feira, 16 de junho de 2004
Sombra e luz
Deixei o dia escorrer. Preservei a noite. O dia é ação, o sonho é interpretação. Espero que ele role, pra surpreendê-lo. Basta segurar uma pontinha e puxar. O novelo se desfaz, o sentido surge. Aos poucos, confuso. A razão atrapalha, negativa, a razão. Há camadas de sentido, arte. Fluir por elas é satisfação de desejo. Sonho. Emergir dele com um floco de sentido na mão. Ilusão.
Abandonei a noite. Furei o dia, com sua luz indecente de outono. O sono é morte, a vigília ilha. Sobrevivência. Corre-se atrás. Foge-se para. Aproximam-se blocos racionais, cubos de razão. A arte corrompe, co-rompe. Incomoda. Moda.
terça-feira, 15 de junho de 2004
Obviologia
Se você achou as pesquisas do DATAPASSOS, apresentadas ontem, um pouco sobre o óbvias, você ainda não viu nada.
A Folha de S.Paulo de hoje traz algumas conclusões de estudo realizado no Hospital do Câncer de São Paulo. A manchete do caderno Cotidiano é "Baixa escolaridade reduz cura do câncer". Sobre tal descoberta, a epidemiologista Karina Ribeiro comenta: "a baixa escolaridade pode estar relacionada à dificuldade de acesso aos serviços de saúde, à falta de informação sobre os fatores de risco (...)" e por aí vai. Como se não bastasse, vem o diretor do centro de pesquisas do Hospital e bate de voleio: "a baixa escolaridade está associada à pobreza que, por sua vez (...)" etc etc etc.
Vou passar a noite sem dormir, pensando nessas revelações.
E tem mais: dois elefantes atrapalham muita gente, mas três atrapalham muito mais.
segunda-feira, 14 de junho de 2004
Pesquisas
O Instituto DATAPASSOS pesquisou em quase trinta capitais brasileiras (só não pesquisou em mais porque não tem tanta capital assim) os usos e costumes dos brasileiros e chegou a conclusões interessantes:
1) As camadas menos favorecidas da população (também conhecidas como 'povão') comem menos caviar 'per capita' ou 'per qualquer critério' que a alta burguesia.
2) Os jovens que usam Internet o fazem por meios eletrônicos (parece que em outras faixas etárias esse fenômeno também ocorre, mas isso já é outra pesquisa).
3) Quem vota em candidato a deputado que não se elege, tem memória fraca ou é pouco observador. Diante da pergunta "Como está a comportar-se no Parlamento o deputado em quem votou nas últimas eleições?", invariavelmente respondem que não sabem.
4) Um elefante incomoda muita gente, mas dois elefantes incomodam muito mais.
domingo, 13 de junho de 2004
sábado, 12 de junho de 2004
feijoada
Logo após a derrota de Portugal, a baixinha e eu partimos para o Rubayat da Cidade Jardim. Nada como curar uma decepção com uma feijoada daquelas, acompanhada de caipirinha com cachaça Espírito de Minas (prefiro Coluninha mas acho que no Rubayat não tem). Meu! Que feijoada! Saí de lá a pensar (se é que isso é possível a essas alturas): em Portugal come-se como em nenhum outro lugar do mundo. Mas Rubayat e Fogo de Chão não se encontram a não ser em São Paulo (tá bom, Fogo de Chão já tem até nos EUA, mas você entendeu, né não?). Sabe o que mais? Vou dar uma morridinha temporária e ressuscito daqui a umas horinhas.
Fui!
sexta-feira, 11 de junho de 2004
Portugal X Grécia
Trata-se de jogo difícil, esse de amanhã. Pior: enganoso. Ninguém dá nada pela Grécia. Afinal, o país não tem tradição no futebol. Daí conclui-se que Portugal vai passear em campo e faturar os três pontos com facilidade. Não é bem assim. A Grécia classificou-se para esta fase final da Euro2004 superando a Espanha. Não é pouco. Além disso, Portugal vai começar a jogar com o peso da responsabilidade de ganhar a qualquer custo. Quem sabe, dado esse nervosismo natural do início da partida, a Grécia não se aproveite para fazer um gol lá pelos seis minutos iniciais da partida. Daí em diante, Portugal pode até evoluir, mas a Grécia terá a seu favor o desespero crescente da equipe de Escolari.
Por falar em Luiz Felipe, claro que ele não vai querer colocar, desde o início, a base do F.C.Porto. Vai que dá certo. O mérito se lhe escaparia das mãos. Mas, no segundo tempo, se o time estiver perdendo, não haverá outra opção. É colocar Deco ou morrer. Mas aí talvez seja tarde. Sem mexer no esquema de jogo, pode ser que Portugal sofra mais um gol. Por ironia - quem sabe? - talvez aos mesmos seis minutos de jogo, agora do segundo tempo.
Nem quero pensar em tal possibilidade. A tensão subiria a graus insustentáveis. Portugal se debateria inutilmente. Mesmo que ao final surgisse um gol - quem sabe de cabeça, em cruzamento da esquerda - nada disso impediria a derrota.
Impossível. Pesadelo tem hora. E não é agora.
(mas brincadeira pode ser a qualquer momento, mesmo depois da decepção de uma derrota como a de hoje, 12 de junho)
quinta-feira, 10 de junho de 2004
Trampólatras
Há algumas discussões que são cronicamente desfocadas. Uma delas é a que versa sobre o tamanho das férias dos deputados e senadores, o número de dias que trabalham por semana, o salário deles e seus benefícios.
Vamos começar por estabelecer algumas verdades elementares, ainda que nem sempre percebidas por todos (sim, há verdades. É raro, mas há). Não há a mais remota possibilidade de um indivíduo chegar a deputado federal ou senador se ele não for um tremendo workaholic. Pra quem não sabe, essa palavra não tem equivalente na língua portuguesa. Um neologismo adequado para traduzi-la - mas quase impronunciável - seria trabalhólatra. Ou seja, estamos falando do cara que é trabalhador compulsivo. Como a linguagem popular registra trampo como sinônimo de trabalho, podemos traduzir workaholic por trampólatra.
Voltando à nossa primeira 'verdade'. Deputados e senadores são todos trampólatras. Pode crer. A quais finalidades é voltado o trabalho deles? Isso é outra coisa. Mas que eles trabalham alucinadamente, lá isso é fato. Portanto, não há nada mais ridículo do que ficar cobrando mais trabalho deles, menos férias, mais dias de trampo por semana etc etc etc. Tudo isso é raciocínio de eleitor que dá duro e sonha em poder ficar no mole, descansando. Políticos odeiam descansar. Pra eles não há feriado, dia santo, fim de semana. Adoram poder dar entrevista pra programa das seis da manhã em uma rádio e terminar o dia em alguma reunião que atravesse a meia-noite. Tudo isso rende voto e bons negócios.
Outra: salários, benefícios (passagens aéreas etc), são preocupação apenas de deputados e senadores que - sejamos eufemísticos - não resolvem seus problemas econômico-financeiros de outra forma. O eleitor deveria prestar atenção nos deputados/senadores que pedem aumento de salário. Isso quase sempre indica que eles vivem disso. Pense na possibilidade de votar nesses. Os que realmente estão esfolando o contribuinte não estão nem aí pra salário, coisas assim. Pra eles isso é varejo.
Chega de verdades por hoje. A verdade cansa. E hoje é feriado de Corpus Christi. Que diabo, eu não sou político.
www.luccks.com
Hoje acabou o ChargesBR, do Luis Tamiosso. Parece que ele volta nesse endereço aí. Vamos esperar. Que não demore.
terça-feira, 8 de junho de 2004
Luiz Gonzaga

Hoje, dia do aniversário de minha amada baixinha, fui às compras pra presenteá-la. Comprei um cd do Arnaldo Antunes, o cd 'a foreign sound' do Caetano e um álbum (três cd's) do Gonzagão.
Fiquei meio desconfiado. Parece que comprei presente pra mim mesmo.
Ela concordou.
Mas, depois de ouvir Luiz Gonzaga, incorporou o presente.
Eu - ao ouvir Luiz - voltei à infância. Aos tempos em que corria pra junto do rádio pra escutar o programa semanal do Lua.
Você que nasceu mais recentemente e quer conhecer melhor o Brasil, ouça, embeba-se de, Luiz Gonzaga.
segunda-feira, 7 de junho de 2004
O mundo está a complicar-se
No tempo em que os animais falavam e eu era jovem, havia três tipos de shampoo: pra cabelos normais, pra cabelos secos e pra cabelos oleosos. Eu usava o último. E tudo corria na mais perfeita ordem.
Hoje você vai comprar shampoo pra cabelos oleosos e o que há é: shampoo pra cabelos secos que vão ficando oleosos ao longo do dia, shampoo pra cabelos secos e couro cabeludo oleoso, shampoo pra cabelos em dúvida existencial quanto a sua oleosidade.
Assim não dá!
domingo, 6 de junho de 2004
Fim de caso
ele - amorzinho, que presente você quer que eu te dê no teu aniversário?
ela - hummmm, presente? Sua ausência.
sábado, 5 de junho de 2004
Mais sobre cotas/quotas
Tanto o assunto é polêmico que até o termo central é passível de preferências: usa-se 'cota' no Brasil, 'quota' em Portugal. Como vou citar matéria de jornal brasileiro, vou de 'cota'. Por hoje.
A Folha de S.Paulo (FSP) de hoje vem com a manchete: "Negro tem menos emprego; branco ganha 105% a mais". Outra matéria de primeira página: "Concorrência é menor para estudante de cotas na UnB [Universidade de Brasília]".
Parece-me, em primeiro lugar, que não se deve ser 'a favor' ou 'contra' cotas de modo geral. Há situações em que a existência de cotas vem se mostrando um excelente fator de geração de equilíbrio onde o desequilíbrio fatalmente se perpetuaria se as coisas fossem deixadas sem a aplicação de tal ação afirmativa. Entendo que seja o caso das cotas para portadores de deficiências nos concursos públicos. Ainda a FSP de hoje, na folha B4, traz a informação de que "os comerciários de São Paulo, a camisaria Colombo e a Têxtil Abril fecharam acordos que estabelecem que 20% das contratações feitas pelos dois estabelecimentos sejam de funcionários negros. São os primeiros acordos trabalhistas que prevêem cotas para trabalhadores negros, segundo as centrais sindicais." Entendo esses acordos como avanços sociais.
Quanto às cotas na UnB: "Candidatos inscritos pelo sistema de cotas para negros na UnB enfrentarão concorrência bem menor do que os outros alunos em 58 dos 61 cursos oferecidos pela instituição no vestibular deste mês. No curso mais concorrido neste exame - medicina -, a média geral foi de 82,41 inscritos por vaga, no sistema de cotas, a taxa ficou em 32,71 candidatos por vaga". Diante disso, "o diretor acadêmico do Cespe (Centro de Seleção e Promoção de Eventos) da UnB, Mauro Rabelo, [afirma que] a diferença no número de concorrentes entre os dois sistemas não significa que ficou mais fácil entrar na universidade. Para ele, a concorrência alta em cursos como medicina e direito, mesmo entre os candidatos negros, aponta que a disputa será equilibrada."
Ô Mauro, não precisa desrespeitar a aritmética pra defender seu ponto de vista. Ficou mais fácil, sim. Entendo que - no campo da educação - as ações afirmativas a favor das minorias (ou de maiorias oprimidas) devam buscar qualificá-las melhor pra enfrentar os estudos. Não ajuda nada dotá-las de diplomas sem a correspondente qualificação.
Voltaremos ao tema.
sexta-feira, 4 de junho de 2004
O gato comeu
Tenho imensa curiosidade acerca do que foi feito com os dólares obtidos com a venda de jogadores pelo São Paulo F.C. nos últimos vinte anos. Como bem sabe quem acompanha (um pouco que seja, como eu) o dia-a-dia do futebol paulista, o SPFC já há muitos anos adotou a estratégia de formar seus jogadores em casa, valorizá-los rapidamente e vendê-los, de preferência para clubes europeus. É uma estratégia que tem méritos inegáveis. O custo é quase zero. O lucro, enorme. É verdade que a frustração dos torcedores é constante. Quando começa a se encantar com algum jogador... pronto. Já lá se vai o dito cujo para a Europa. Passa-se a vê-lo tão somente pela TV, nos campeonatos europeus. Que se há de fazer. As diferenças econômicas entre cá e lá tornam esse fenômeno praticamente inevitável.
Mas pra onde vai essa dinheirama?
Fiz um levantamento superficial e verifiquei que - nos últimos vinte anos - foram vendidos os seguintes jogadores (quase todos para a Europa): Cafu, Oscar, Antonio Carlos, Ricardo Rocha, Bordon, Ronaldão, Beletti, Ronaldo Luis, André Luis, Fabio Aurélio, Nelsinho, Serginho, Sidney, Edmilson, Bernardo, Julio Batista, Leonardo, Válber, Silas, Edu, Juninho, Raí, Kaká, Muller, Dodô, Caio, França, Denílson, Zé Sérgio, Serginho Chulapa, Careca. São 31 jogadores. Provavelmente esqueci de alguns. Só um deles,o Denilson, foi vendido (ao Betis) por trinta e dois milhões de dólares americanos.
É isso aí.
quinta-feira, 3 de junho de 2004
Ainda sobre cotas
Dia 26 de maio escrevi aqui sobre a questão das cotas para negros nas universidades brasileiras. Na ocasião, o que me sugeriu o assunto foi uma foto que vi - acho que na Folha de S.Paulo - na qual uns quatro estudantes eram mostrados como candidatos a vagas em uma universidade na cota para negros. A universidade em questão informava que o critério para admissão de candidatos na cota para negros havia sido a cor da pele. Ora, nenhum deles - pelos critérios popularmente usados entre nós - poderia ser considerado negro a julgar pela cor da pele. Acho até que mesmo nos EUA dificilmente o seriam. Meu comentário voltou-se, então, mais para essa questão de como determinar quem entra em cota, quem não.
Gostaria de pensar melhor a própria existência das cotas. Esse artigo de Antônio Gois, na Folha de S.Paulo de hoje, reconhece as dificuldades de se avaliar adequadamente a questão, mas entende que a simples proposta de um sistema de cotas tira da letargia em relação às desigualdades setores importantes (como a Universidade de São Paulo) que teriam partido para ações afirmativas diante da "ameaça" de um sistema de cotas.
Vou pensar no assunto. Enquanto isso, espero comentários. A Susana Paixão, o Padre Pedro, o Luccks, por exemplo, parecem ter idéias a respeito. Que tal compartilhá-las aqui?
quarta-feira, 2 de junho de 2004
Isso é que é...
terça-feira, 1 de junho de 2004
sábado, 29 de maio de 2004
Índices econômicos
sexta-feira, 28 de maio de 2004
Já o Santos F. C. ...
Com um gol de bola parada, o Santos Futebol Clube perdeu por 1 a 0 para a equipe do ... ah. Deixa pra lá.
quinta-feira, 27 de maio de 2004
Parabéns
quarta-feira, 26 de maio de 2004
F.C. Porto já está lá

PORTO 3 X 0 OUTRO TIME
FICHA DO JOGO
UEFA Champions League (final)
Estádio Arena Auf Schalke, em Gelsenkirchen
Árbitro: Kim Milton Nielsen (Dinamarca)
Assistentes: Jens Larsen e Jorgen Jepsen
4º árbitro: Erik Knud Fisker
MÓNACO: onze indivíduos, mais alguns reservas e um treinador.
F.C. PORTO: Vítor Baía; Paulo Ferreira, Jorge Costa «cap.», Ricardo Carvalho e Nuno Valente; Costinha, Pedro Mendes, Maniche e Deco; Derlei e Carlos Alberto
Substituições: Carlos Alberto por Alenitchev (60m), Derlei por McCarthy (77m) e Deco por Pedro Emanuel (84m)
Não utilizados: Nuno, Ricardo Costa, Jankauskas e Bosingwa
Treinador: José Mourinho
Ao intervalo: 0-1
Marcadores: Carlos Alberto (39m), Deco (70m) e Alenitchev (75m)
Disciplina: Cartão amarelo a Nuno Valente (28m), Carlos Alberto (39m)
Fácil fácil.
Co(i)tados
Deixa ver se entendi.
O sistema de cotas para negros nas universidades destina-se a dar uma chance maior de entrada no nível de ensino superior a pessoas que – graças à cor da pele – não tiveram as mesmas oportunidades de aprendizado durante o ensino médio.
Trocando em miúdos, o cidadão não está preparado para entrar na faculdade mas como isso é culpa da sociedade ele entra assim mesmo.
Aí começa o curso. Como a tal sociedade continua não oferecendo ao tal cidadão das cotas (é cotado? ou coitado?) condições para que ele estude tanto e em tão boas condições quanto os brancos, o coitado não vai conseguir boas notas nas provas.
Aí os professores vão viver o dilema: ou reprovam o coitado e um belo dia ele desiste dessa idéia elitista de fazer um curso superior, ou aprovam o dito cujo sem que ele saiba o que deveria saber.
Na primeira hipótese, o resultado é apenas postergar por um ou dois anos a frustração do jovem.
Na segunda hipótese, ele vai acabar por formar-se sem o conhecimento necessário. Digamos, só pra raciocinar, que ele se forme em medicina. Aí ele vai pro mercado de trabalho e descola um emprego em algum hospital ou em alguma clínica.
Quando morrer o primeiro paciente como resultado da inépcia do nosso medicota, ele alega em sua defesa o sistema de cotas? Argumenta de que maneira?
a) Diz que há um monte de médicos igualmente incompetentes e que se formaram fora do sistema de cotas;
b) Vale-se do corporativismo dos conselhos regionais de medicina e continua matando impunemente;
c) Manda a família do morto reclamar com o bispo, já que esse não chegou onde chegou graças a nenhum sistema de cotas (ou será que?);
d) Fica na dele já que ninguém vai perceber que ele entrou na faculdade pelo sistema de cotas. Ele é loiro, olhos azuis. Só declarou que era negro pra facilitar a vida;
e) Todas as anteriores.
Dream Team # 1
Disse que não ia mais dar palpites sobre futebol.
Sonhar eu posso.
Gilmar dos Santos Neves
Mauro Ramos de Oliveira / Dario Pereyra
Carlos Alberto Torres / Newton Santos
Zito / Roberto Dias
Maradona
Garrincha / Pelé / Canhoteiro
terça-feira, 25 de maio de 2004
Bico calado
Desde que vi jogar pela primeira vez Belletti e Edmílson (nos tempos em que começaram no São Paulo) sentenciei: como jogam mal, que coisa horrível.
Júlio Baptista, então, poderia praticar várias modalidades esportivas mas futebol - decididamente - não era sua praia.

Eis que no dia da graça de vinte e cinco de maio do ano de dois mil e quatro, ou seja, hoje, tive que engolir (além do Zagallo) Belletti jogando o fino na lateral direita do time do Brasil, Edmílson enfiando um passe de 40 metros - a la Gerson - pro Ronaldo fazer um gol e - pasmem senhores leitores! - Júlio Baptista fazendo dois gols na seleção da Catalunha.
Pior: quando a bola lhe foi passada pelo Edu, Júlio Baptista tocou-a sem nenhum carinho (sem aquela intimidade dos sábios), ela subiu desastradamente e ele... transformou necessidade em virtude. Jogou-se ao ar e fez um incrível gol de bicicleta.
Nunca mais dou palpites sobre futebol. Foi demais pra mim.
sábado, 22 de maio de 2004
Lusitanidade
Não sei, não sei.
Fui criado por um pai português que não amava Portugal (estarei sendo incorreto?). Já não posso certificar-me disso. Há muito ele nos deixou. Passei bastante tempo sem preocupar-me com isso. Com Portugal. Quando aí estive pela primeira vez, lá por 1.990, sobrevoei o Porto e fui ancorar em Lisboa. Era domingo. Fui ao restaurante Pabe e pedi um cognac antes do bacalhau. O garçom não entendia porque comi o bacalhau a chorar (‘Será que está tão ruim assim o prato’, deve ter pensado). É verdade que Carlos Drummond de Andrade já havia dito: ‘mas essa lua, mas esse conhaque, botam a gente comovida como o diabo’. Não era isso. Era estar na terra de meu pai, ainda que fosse a terra que ele havia renegado. Não se renega o sangue. Ele volta.
A primeira vez que visitei Passos, minha aldeia, senti que chegara à minha terra. Meu lugar. Não sei qual a ligação que meu pai tinha – lá no íntimo do íntimo – com sua terra natal. Sei de mim. Sei – não me perguntem por quê – que Passos é minha pátria.
Gosto de ver os portugueses a reclamar de tudo. Queixam-se dos políticos, da burocracia, do diabo. Bom. Muito bom. Mas eu não consigo discutir Portugal. Ao menos por enquanto. Quem sabe, quando for português mais experiente, possa eu vociferar contra os poderes constituídos. Por ora, encharco-me de lusitanidade.
Amo esse cantinho da Europa como uma criança cultua seu pedaço de quarto. Seu esconderijo, sua privacidade.
É verdade que o Algarve me intimida um pouco. É lindo demais, é elegante ao extremo.
É verdade que Lisboa é uma metrópole como muitas outras. Cidade universal.
Agora, quando penso em meu Trás-os-Montes, com suas cores pastel, seus relevos, sinto-me em casa, sou eu e minha circunstância.
Quero viver Passos, morrer em Passos, reatar os laços que meu pai rompeu. E quem sabe, lá adiante, tudo se rejunte, se consolide. Ou não. Talvez não haja como recuperar os elos perdidos. Talvez tudo seja novo, nada de retorno. Se for assim, que seja. O novo é esplêndido.
sexta-feira, 21 de maio de 2004
Cemitério vertical

A propósito de um post no blog FDR sobre o Cemitério Memorial do Carmo fiz este comentário:
Já dentro do elevador, apertei o 23 (acho que é no 23).
Sei lá. Tava perdidão, não sabia aonde ir.
Quando parou, desci, olhei em volta. Ninguém.
Entrei na primeira sala com a porta aberta.
Procurei pela secretária, recepcionista, qualquer pessoa que me desse informação.
Não aparecia ninguém. Havia umas cadeiras. Sentei em uma delas e comecei a observar o ambiente.
As paredes eram monotonamente divididas em quadrados. Pareciam gavetas.
Todas iguais. Brancas.
Como não aparecia viva alma, levantei e fui ver o que havia naquelas gavetas. Abri uma delas, a esmo.
Estava começando a me interessar pelo que vi, quando fui interpelado:
- Oi! Tudo bem?
- Tudo bem, Alfredo. O ministro está?
- Sim, está. Vai te receber logo.
- Ainda bem. Estava achando estranho esse vazio aqui no ministério.
- É. É um seminário. Foram todos pra lá. Só voltam no final da tarde, pra bater o ponto.
- Tudo bem. Mas... aquele corpo naquela gaveta. É pra quê?
- Sei lá. Coisas da administração pública.
quinta-feira, 20 de maio de 2004
Melhor que ambrosia

O Quarteto de cordas da cidade de São Paulo toca o Quarteto op. 59, nº3, de Beethoven.
Em seguida, com o pianista convidado Eduardo Monteiro, apresenta o Quinteto para piano e cordas, de Henrique Oswald.
Tá certo. Tudo isso foi ontem. Mas dia 23 de junho tem mais, no Espaço Promon.
A entrada é vintinho. Estacionamento na faixa.
Pelo nível do Quarteto, é 'de grátis'.

Atualização: Em 30/07/2.006, ao transpor para cá este post, que tinha sido publicado primeiramente em meu blog no Mblog, percebi que quase todos os links já não remetiam a sites existentes. Tratei de substituí-los.
quarta-feira, 19 de maio de 2004
Os bailes da Ilha Fiscal
Ao final da monarquia houve o famoso baile da Ilha Fiscal.
A elite "desse país" (como gosta de falar o companheiro Lulla) continua do mesmo jeito. Não está nem aí.
Olha só a notícia na coluna da Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo de hoje:
Rodopios no ar
Fernando de Arruda Botelho, do grupo Camargo Corrêa, vai abrir sua fazenda, no começo de junho, para um encontro de 'jatinhos' e 'jatões' em sua propriedade de Itirapina, no interior de São Paulo.
Mais de 500 aviões devem pousar na pista da fazenda - no ano passado, em encontro parecido, foram 350. Para o evento, Arruda Botelho ampliou o pátio em que as aeronaves vão pousar, de 18 mil m2 para 70 mil m2. E construiu uma torre tão moderna quanto a do aeroporto de Congonhas.
Cada avião que pousa na pista dá um show à parte, com o piloto fazendo demonstrações de suas habilidades no ar.
Que gracinha.
domingo, 16 de maio de 2004
sábado, 15 de maio de 2004
What Famous Leader Are You?
Fiz esse teste, que se propõe a dizer que tipo de líder famoso é você, desde que você responda a uma série de perguntas. Tem gente que é do tipo Madre Tereza de Calcutá. Outros são tipo Bin Laden. Há ainda os Abraham Lincoln, os Che Guevara etc etc. O meu resultado foi esse aí, ó:

What Famous Leader Are You?
personality tests by similarminds.com
"Você gosta de ser o centro das atenções e deseja fama. Você é Bill Clinton. Você é capaz de sacar os pontos de vista mais populares e, então, encampá-los. Você é um camaleão social."
Cadê a minha Mônica?
Que eu saiba, já fizeram o teste:
o Asulado, do Asul;
a Oblíqua, do Pilha Oblíqua;
a Carla Hilário, do Bomba Inteligente;
Vieira do Mar, de Controversa Maresia;
o André Abrantes Amaral, d'O Observador;
o Afonso Neves, d'A Razão das Coisas;
...
Isso não acaba nunca!
(Por "social chameleon" acho que eles querem dizer, em bom português, Vaselina.)
quinta-feira, 13 de maio de 2004
Boticas e o Padre Pedro
Por falar em Chaves, um pouco a sudoeste fica Boticas.

E, em Boticas, o Padre Pedro, com seu blog.
Se você quiser ficar com vontade de ir até lá, leia - além do Padre Pedro - estas informações de Isabel Joyce.
Muito bem. Mas o Padre Pedro bem que podia detalhar como vem a ser essa truta recheada com presunto.
terça-feira, 11 de maio de 2004
Chaves e as fotos de Pedro Malheiros

Se você nasceu em - ou é de - Chaves não deixe de deliciar-se com as fotos expostas por Pedro Malheiros aqui.
Se você não tem nada a ver com Chaves mas é um ser humano dotado de um mínimo de sensibilidade, não deixe de lambuzar-se com esse néctar também.
Atualização (31/07/2.006): O link acima levava ao blog Chaves, de Pedro Malheiros. Tal blog acabou de forma um tanto tumultuada. Pedro Malheiros ameaçou suicidar-se, depois pediu dinheiro aos leitores, atraiu com isso a ira de vários moradores de Chaves. Finalmente sumiu. Constato, agora, que no mesmo endereço está o blog Chaves I, com fotos de Fernando D C Ribeiro.
Quem quiser ver as fotos de Pedro Malheiros, inclusive as de Chaves, vá aqui.
O amor ao Porto

A primeira vez que cheguei ao Porto não tinha um mapa da cidade e fui guiando a esmo. Era domingo de manhã. Depois de algum tempo resolvi parar para perguntar onde estava e como chegar ao centro histórico. Percebia estar em um bairro residencial. Parei em uma padaria de esquina. Dela ia saindo um rapaz de bermudas. Estava evidente que acordara havia pouco tempo. Decidira ir comprar uns pães, jornal, coisas assim. Iria voltar pra casa (devia morar ali por perto) e aproveitar o restante daquela bela manhã dominical para não fazer deliciosamente nada. Perguntei-lhe como devia fazer para ir ao centro. Disse-me que entrasse no carro e o seguisse. Fiquei um tanto desconsertado mas fiz o que me sugeria. Ele dirigiu durante uns quinze minutos, parou em uma praça e me esclareceu que estávamos já no centro histórico, ali estava a Torre dos Clérigos. Explicou-me como descer até a margem do Douro, desejou boa estada, despediu-se e foi embora. Minha mulher e eu ficamos nos olhando por uns segundos, sem entender tudo aquilo. A gentileza daquele tripeiro escapava à nossa compreensão de selvagens paulistanos.
Vários anos antes eu - indo para Lisboa - sobrevoara o Porto e ficara com uma impressão idílica da cidade. Essas lembranças se concretizavam nesse momento, em função daquele gesto.
Mais tarde, conhecemos o Majestic. Lá, tomando vinho durante conversas intermináveis, convenci-me de que essa cidade é a minha preferida. Certo que Passos é minha pátria. Mas Passos é pequenina, tadinha. Cidade, cidade mesmo, é o Porto.
domingo, 9 de maio de 2004
Violência e Tráfico no Rio
João Ubaldo Ribeiro termina seu artigo sobre a relação entre tráfico de drogas e violência no Rio de Janeiro (hoje em O Globo) passando a bola pro leitor: "...os senhores tirem suas próprias conclusões. Meu medo é que, quaisquer que sejam elas, tudo acabe indo, se já não foi, para a Cucuia de qualquer jeito. ".
Já foi, João, já foi.
Fim do mundo

Ponta de Sagres
(não sei se dá pra ver, mas tem um fulano pescando lá de cima)
Na Idade Média entendia-se que esses promontórios no extremo sudoeste de Portugal eram o fim do mundo. No período romano, no cabo de São Vicente não era permitido oferecer sacrifícios nem pernoitar, pois dizia-se que os deuses o ocupavam a essas horas. E o povo de Sagres concluía que o Sol deste lugar emitia ruído quando se punha em cada dia... (leia mais aqui)
Era um tempo em que havia fim do mundo, no sentido espacial. Hoje ninguém sabe se há fim do mundo ou não, se o universo é finito ou não (leia, por exemplo, um pouco disto).
No sentido temporal, a mesma coisa. Há os que acham que o mundo não terá fim. Outros acreditam que já acabou faz tempo.
Há quem afirme que é o fim do mundo o que o Bush e os soldados americanos estão aprontando. Outros têm certeza de que coisas assim sempre aconteceram e vão continuar a acontecer. O absurdo não tem fim, dizem.
Já decretaram o fim da História, o fim das Ideologias, o fim do futebol.
Enquanto o mundo não acaba, me passa o sal, por favor.
sexta-feira, 7 de maio de 2004
Pecém, Ceará, BR

Em homenagem ao Luis Tamiosso, o Luccks do ChargesBR, aí vai uma foto da praia do Pecém, no Ceará. Essa foto eu tirei no final de 1.998. Fiquei hospedado em uma pousada em que o gerente era um gaúcho ex-funcionário da Varig. Largou tudo pra viver no Ceará. Mais ou menos na linha Luccks.
Não quero nem saber como está Pecém hoje. Se o projeto dos doidivanas Tasso e Ciro foi em frente, acabou. Se o projeto gorou, quanta grana no lixo. A dinastia Jereissati/Gomes inventou um projeto a ser implantado na região: fizeram um porto enorme no Pecém (o primeiro navio que tentou atracar lá ficou quinze dias tentando, sem conseguir, por causa do vento), bolaram uma forma de transportar matéria prima pra uma usina no interior pra fabricar chapas de aço pra exportação. Tudo tocado por grandes empreiteiras. Tudo com grandes orçamentos. Cê sabe, né. Campanha eleitoral custa caro, meu. Toda essa maravilha em um lugar com vocação evidentemente turística, natureza a esbanjar beleza. É evidente que as previsões para o investimento foram sempre sendo reavaliadas pra cima. De repente, o empreendimento - que era pra ser tocado por um pool de empresas estrangeiras vai buscar dinheiro aonde, aonde? BNDES, claro, claro.
Pô, mas como estou azedo. Todo esse papo começou como homenagem ao Luccks, ao Ceará.
De repente rola essa choradeira toda. Xapralá.
Atualização (17/02/2008): a página associada a BNDES (último link do post) não existe mais. Coloquei outra, do próprio BNDES, falando em mais grana a ser enterrada no mirabolante projeto do Pecém. A turma não se contenta com pouco.
quinta-feira, 6 de maio de 2004
O amor em Coimbra

Em algum dia de agosto, 1.999, minha mulher e eu estávamos jantando no restaurante do Hotel D. Luis, em Coimbra. Às tantas começamos a prestar atenção em um casal sentado numa mesa próxima. Ambos tinham mais de oitenta anos. A senhora havia apoiado sua bengala no espaldar de sua cadeira. Conversavam animadamente e olhavam-se com carinho, mãos dadas sobre a mesa. Minha mulher - que não tem a minha timidez - levantou-se e foi conversar com eles. Explicaram: tinham sido namorados na juventude. O pai dela não permitiu o casamento. Os dois casaram-se com outras pessoas e levaram a vida. Ele terminou viúvo. Procurou-a. O amor persistia. Ela, ainda casada, encontrava-o furtivamente, como agora.
A fotografia do casal está distorcida. Não sei o rolo que daria se publicasse a foto original. Cautela e caldo de galinha...
Mas que é emocionante ver uma coisa dessas, lá isso é.
Rouba mas faz
ou
Estupra mas não mata

Vista da favela Paraisópolis, Morumbi, São Paulo.
É inacreditável, apesar de secular, o egoísmo da nossa elite. Vou ficar só num exemplo. Selecionei, pelo Google, uma matéria sobre o custo de acabar com as favelas na cidade de São Paulo. Dá só uma olhada aqui. Segundo essa matéria, a solução total do problema custaria três bilhões de reais (tá certo que a matéria fala em um prazo de quinze anos. Vamos chutar cinco anos e aumentar a "verba" pra três bilhões de DÓLARES. Certo? Só pra argumentar.)
Nessa outra matéria aqui, fica-se sabendo que em quatro anos (entre 1.996 e 1.999) uma parte da elite brasileira enviou para o exterior a módica quantia de trinta bilhões de dólares.
Minha pergunta é a seguinte: por que diabos, ao invés de ficar blindando automóveis, contratando seguranças particulares como moscas, pagando resgastes de parentes seqüestrados etc etc etc, essa nossa iluminada elite não paga o dízimo de sua corrupção? (veja que nem quero acabar com a corrupção, só estou dando uma de Edir Macedo)
Com o dízimo disso que eles mandaram pra fora do país dava pra resolver o problema das favelas de São Paulo (e olha que são mais de duas mil!) em quatro ou cinco anos.
Ia acabar com os seqüestros, roubos, assassinatos, etc etc etc? Não. Nem eu estou dizendo que a origem desses crimes esteja nas favelas (em parte está, mas só em parte). Mas ao menos a elite poderia começar a orgulhar-se de alguma coisa além das festas em Comandatuba com as esposas vestidas de oncinhas.
sábado, 1 de maio de 2004
quinta-feira, 29 de abril de 2004
Quer ganhar um dinheirinho?
O livro Negociando Racionalmente, de Max Bazerman e Margaret Neale (editora Atlas), fala de um jogo que pode te render uns trocados.
No meio de uma reunião com algo do tipo dez ou vinte pessoas você saca do bolso uma nota de vinte reais e sugere um leilão. Quem oferecer mais pela nota, paga e leva. Quem ficar em segundo lugar paga a oferta feita e não leva nada. As ofertas têm de ser de real em real, começando em R$1,00.
Começa o jogo. Sempre tem o gaiato que dá o primeiro lance. Em seguida, alguém oferece R$2,00. O cara que deu o lance de R$1,00 não quer perder seu rico realzinho e dá o lance seguinte: R$3,00. Etc etc.
Diz a experiência que o povo desiste lá pelos duzentinhos.
Quanto a você, perde a nota de vinte e leva uns quatrocentos. Tá bom, num tá?
terça-feira, 27 de abril de 2004
A Biblioteca
O Louco da Montanha, domingo agora, falou sobre duas músicas do Raul Seixas que têm versos comuns (vide Uma Chupadinha). Isso me lembrou um texto do Borges (La Biblioteca de Babel in Ficciones) em que ele descreve uma biblioteca, ou melhor, A Biblioteca, composta de livros formados por todas as combinações possíveis das vinte e poucas letras do alfabeto, mais espaço, ponto e vírgula. Cheia de livros absolutamente desprovidos de sentido, A Biblioteca tem, por outro lado, todos os textos de filósofos (em várias línguas, por sinal), todas as peças de Shakespeare, o diabo a quatro. Talvez os gênios sejam os que conseguem melhor movimentar-se nos infindáveis (será?) corredores dA Biblioteca e achar os textos mais preciosos, às vezes com algumas repetições.
Observação (fevereiro de 2.006):
o Louco da Montanha era um blog do Léo, no Mblog. Já não mais existe, como todos os blogs do Mblog. Por isso não há link para ele. Nem neste post nem no post abaixo, sobre as Matanças.
domingo, 25 de abril de 2004
Matanças
Este Spasso eu coloquei no meu blog do UOL em fevereiro deste ano, ao começar o blog, pouco depois de meu retorno de Portugal ao Brasil. Quando iniciei este blog do Mblog não consegui inserir as fotos. Agora, graças à dica do Louco da Montanha aí estão as fotos.
O fato de ocupar este Spasso com o assunto das Matanças justo hoje, 25 de abril, é coincidência. Pensava que feliz, mas a julgar pela "bronca" do José Carlos (vide comentários) já não sei.
Explicação (fevereiro de 2.006): Comecei com um blog no UOL. Justamente para publicar fotos de minha viagem a Portugal, no final de 2.003, início de 2.004. Foi então que postei, pela primeira vez, as fotos das matanças em minha aldeia. Pouco depois mudei o blog para o Mblog. Mas, por não saber como publicar as fotos, só o fiz em 25 de abril de 2.004. Foi quando conheci José Carlos Barros, de quem viria a tornar-me amigo, e que surgiu com um comentário furioso, questionando minhas intenções com isso de publicar fotos de matanças no aniversário da Revolução dos Cravos. Apesar de José Carlos ter depois explicado que interpretara apressadamente a situação, outros comentários surgiram, uns deplorando a tradição das matanças, outros a defendê-la. Enfim, já agora no Blogger, cá estão elas novamente. As tradicionais matanças. Pense o que bem entender.
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As matanças são festa tradicional das aldeias de Trás-os-Montes. Em dezembro as famílias marcam um dia pra sua matança. Convidam vários vizinhos. No dia marcado, começa-se pelo pequeno almoço. Depois vão buscar os porcos. Engancham-se os focinhos dos mesmos e puxam-nos para fora.

Cada homem segura uma pata, outro segura o rabo e dois seguram a corda presa ao focinho do dito cujo. Um outro vem com o facão e crau!!!, espeta-lhe o coração. O porco arremete, pula, tenta libertar-se mas acaba por sucumbir, morre. Uma mulher apressa-se a recolher em uma bacia o sangue que jorra do coração.

Tudo politicamente incorreto, secular.
A seguir, trazem um botijão de gás e começa a queima do pelo com maçarico, pra limpeza da pele. Depois de queimado, o pelo é raspado a faca. A água jorra da mangueira para retirar resíduos. Ao final, o porco está limpinho, pele amarela, clara.

Inicia-se a dissecação: abre-se o peito do moço,

coloca-se o animal sobre uma espécie de escada de madeira, amarra-se nela o cadáver e ergue-se a escada para encostá-la a alguma parede.

Retiram-se as vísceras, lava-se o interior do animal e pronto. Agora basta guardá-lo em local seguro. Só no dia seguinte voltarão pra destrinchá-lo totalmente, salgar as carnes e preparar as linguiças pro fumeiro. Aqui no nordeste brasileiro as carnes são secas ao sol. Lá no nordeste trasmontano são secas ao lume. Resultado: comida pro ano inteiro, até a próxima matança.

Falta dizer que a festa da matança continua em um almoço oferecido pelos da casa aos que participaram. É indispensável o prato de couve com pão picado. Há coelho, cordeiro, frango, leitão e mais e mais!

Há - ao final do dia - o jantar, que ninguém é de ferro.
Deixa explicar que as fotos acima são de duas matanças diferentes: uma foi na casa de Carlos e Fernanda, a outra na casa de Alípio e Zelinda (minha prima). Selecionei as fotos que melhor ilustravam o - digamos assim - "processo"... tudo isso em Passos, claro, claro...
sábado, 24 de abril de 2004
De Armandos
Ontem de manhã ouvi entrevista do senhor Armando Nogueira na Rádio Bandeirantes. Na conversa com Salomão Ésper, José Paulo de Andrade etc etc – pelo visto preparando a contratação do dito cujo – falaram a respeito de Pelé e Maradona. O senhor Armando Nogueira dissertou a respeito das raízes familiares de Edson Arantes, em contraposição ao caráter “menino de rua” de Diego. Disse que Diego era “indiozinho” e coisa e tal.
Tudo bem. Sou de Santos. Sei algumas coisinhas sobre o lado “família” do senhor Edson. Mas deixa isso pra lá.
O duro é ter de ouvir o senhor Armando Nogueira pontificando sobre caráter etc e tal. Dá uma espiadinha em Notícias do Planalto (Mario Sergio Conti, Companhia das Letras) pra ter uma idéia da atuação desse diretor do Jornal Nacional durante a ditadura.
AN veio do Acre, começou em esportes na imprensa do Rio porque nada sabia de jornalismo (pg 31). Contando com o fator sorte (como diria Galvão Bueno) chegou ao jornalismo político. De 1.966 a 1.988 (presta atenção nas datas, no que elas representam e vai sentindo o drama) foi diretor da Central Globo de Jornalismo, levado por Walter Clark (tudo isso está ainda na pg. 31). Pra dar uma idéia de como apitava o AN na direção do jornalismo da Globo, o Conti diz (pg. 33): “ ’Estou conversando com você porque não consegui achar o Walter’, dizia Roberto Marinho a Armando Nogueira toda vez que telefonava para discutir alguma notícia que deveria, ou não, ser levada ao ar.”.
Depois tem o episódio da Proconsult (pgs. 35 e 36), ridículo.
E o lance das Diretas, Já!. Mais ridículo. A manifestação reuniu um milhão de pessoas no Anhangabaú. “Boni imaginou uma maneira de mencioná-la, ao mesmo tempo que cumpria a ordem de não noticiá-la. Numa reunião em sua sala com Armando Nogueira, determinou que uma repórter falasse da Praça da Sé, em menos de vinte segundos, que ali estava sendo comemorado com um show o aniversário de São Paulo.” (pg. 38). E o douto AN engolindo tudo. Estava lá pra isso.
Enjoei.
Se quiser leia o resto do livro do Conti.
Agora, senhor Armando. Lava a boca (e a alma) pra falar do Dieguito.
É. É melhor ouvir certas coisas do que ser surdo.
quinta-feira, 22 de abril de 2004
E agora?
Dia 19 eu achei um texto sobre Lisboa no blog da Yukio e - sem saber que língua era aquela - resolvi "traduzir". Acontece que ela pegou minha, digamos assim, tradução e tascou no blog dela não sem antes escrever algumas coisas em sueco (agora eu sei que é sueco). Agora preciso de alguém - urgentemente - que saiba sueco E português para traduzir mesmo o texto dela pro português e traduzir a minha "tradução" pro sueco. Aí eu pego a tradução sueca do meu texto e "traduzo" pro português. E aí...
Meu deus. Onde é que eu fui amarrar meu burro.
Em tempo: Många, palavra sueca, quer dizer "muito". Já sei alguma coisa de sueco. Mas periga dar rolo esse negócio de ficar traduzindo sueco pro português pelo jeitão. Olha só o título do post dela sobre a minha "tradução":
Hallå där? Hola?
Como você traduziria isso pro português (só no jeitão)?
Maradona

Tirei essa foto com o Maradona há uns oito,nove anos, no aeroporto de Ezeiza, Buenos Aires (cortei a minha parte, o que interessa é el pibe). Sei que nós brasileiros temos bronca de argentino etc e tal. Desculpem, eu não tenho. Buenos Aires tem mais livrarias que o Brasil inteiro. Pode? Prefiro Maradona - que jogou um pouco menos bola que o Pelé - ao Edson. Que me desculpem os crápulas, mas caráter é fundamental. Maradona é ser humano de alta categoria. Além dos pés, que usou com maestria, tem também cabeça (os ingleses que o digam) e coração. Alma enorme. Magnânimo Mará. Fico na torcida pra que teu coração agüente mais um pouco, que não te vás tão temprano. Esse mundo de Bushs, Iraques, Osamas e Sharons precisa de Maradonas. Fica um pouco mais, pibe, não nos deixe. Tua doença, tão ridicularizada por tanta gente, é menor que a doença do mundo. Conversa mais um pouco, toma um chá (ou se não der, cheira um pouco) mas fica.
Vou parar por aqui porque estou emocionado. A emoção não é boa de literatura. Nesse momento não quero literatura, quero vida. Viva Maradona!
quarta-feira, 21 de abril de 2004
terça-feira, 20 de abril de 2004
Pequeno Ensaio Biográfico sobre Gustav Mahler
Na verdade, o pai de Gustav era – modéstia à parte – português. Era o Manuel Malta, que por engano do homem do cartório (parente daquele que trocou Milton por Millôr em Minas) virou Manuel Maler.
Um certo dia, um amigo do Manuel que vivia na Alemanha, o Emmanuel von Kant falou pra ele: Ò gajo! Por que não vens trabalhar aqui. Estão a precisar de funcionários na Mercedes Benz! O Manuel achou a proposta um tanto bizarra mas o Emmanuel foi definitivo: Pois saibas que há Mahler que vem pra Benz!
Ele foi. Primeira providência foi dar uma guaribada no nome, pra disfarçar o lusitanismo (se bem que dizem que alemão é apenas um português que sabe matemática...). Trocou o Manuel por Emmanuel e aumentou o sobrenome pra torná-lo mais pomposo. Ficou : Emmanuel von Mahler Sem Alça (deu algum problema porque na Alemanha eles não têm “ç”, mas funcionou assim mesmo).
Tanto trabalhou na Mercedes que acabou produzindo vários filhos (pelo cheiro da brilhantina deste humilde Ensaio, você já desconfiou que a mulher dele se chamava Mercedes. Acertou.).
Lá pelo quarto ou quinto, ainda na maternidade, a comadre perguntou: Ò Emmanuel, gostas desse novo filho? Ao que ele respondeu: Se fosse mulher Gustava, mas como é homem... o resto você já sabe. Nascia Gustavo Mahler Sem Alça, que viria a ser mais conhecido por Gustav Mahler. A comadre insistiu: mas, Ó Emmanuel, de todos qual o de que mais gostas? E ele, sincero:
Dos Mahler? O menor!
segunda-feira, 19 de abril de 2004
Tradução
O texto a seguir eu achei neste blog aqui.
Não consegui saber que língua é essa mas como adoro desafios, traduzi. Tem algumas partes difíceis. Fazer o quê. Rapadura é doce mas...
LISBOA
Lissabon är precis lika bra som det ska vara. Staden är lika vacker som förut, maten nästan lika oätlig, tanterna lika gulliga (och förkrymta), "carrie:sarna" (de pyttesmå spårvagnarna) lika söta, caffe com leche (kinesa) lika fantastiskt gott, spriten lika billig, utsikten från hotellrummet totalt andlöst magnefik och Alfama visade sig vara en helt ok stadsdel att bo i. Dock många trånga gränder och smala smala stentrappor, men helt ok. Lite långt att gå från barerna i Bairro Alto på natten.
Med gudieboken långt nerpackad i väskan och utan karta strosar vi runt och njuter. Vi kan den här staden och vi trivs oroväckande bra.
TRADUÇÃO:
LISBOA
Lisboa é precisamente como o Brasil mas falta vara. As Estudantes são como vacas em fúria, matam aulas como ostras [aqui não sei se é matam aulas pra comer ostras ou matam aulas como comem ostras, ou seja, uma atrás da outra, N. do T.], badernam como gorilas (ou formigas), “coçam o saco” (ou seja, não fazem porra nenhuma), tomam soja, café com leite (em caneca) como gotas fantásticas, fervidas no bule, se mandam dos hotéis totalmente perdidas e vão à magnífica Alfama visando achar vara de um jeito ou de outro. Então se a mangueira do cara é grande ou pequena pequena tanto faz, sendo homem tá OK. Lambem [me recuso a traduzir o resto dessa frase, N. do T.]. No Bairro Alto não há nada.
Mas boca livre dá em pancada e já que outros tantos descartam esse troço vim rasgando as juntas. Vim candente e estou de olho, vim provocando três no braço.
Observação: O blog da Yukio, da Suécia, era - tal qual o meu - do Mblog. Descobri, agora (fevereiro de 2.006), que ela tem novo blog. É esse que indico acima
domingo, 18 de abril de 2004
Lido num banheiro da USP
Cristo morreu. Marx morreu. Freud morreu. Einstein morreu.
Pra falar a verdade, eu também não ando me sentindo muito bem.
sábado, 17 de abril de 2004
Lulla Walessa
Ia falar que Lulla parece que vai aos poucos transformando-se em Lech da Silva (aquele que governou e sumiu). Desisti. Fiz uma pesquisa no Google e vi que todo mundo já percebeu isso. Só espero que nosso Grande Condutor já esteja a providenciar "reservas" pra manter o padrão a que se acostumou rapidinho dona Marisa.
Agora, atenção segundo e terceiro escalões: corram porque o tempo é curto. Lembrem-se: quem guarda tem. Certo, Renato Cef?
Brasil. Capital Buenos Aires.
Não sei porque toda a imprensa brasileira fica com urticária patriótica quando um Bush (ou Reagan, ou qualquer americano, presidente ou não) diz que a capital do Brasil é Buenos Aires, ou confunde Brasil com Bolívia e coisas que tais. Por acaso você, brasileiro que me lê nesse momento, sabe qual é a capital do Chad? Você entenderia como grave erro cultural dizer que é Cartum? E o Togo, tem fronteira com Gana? O Gabão tem portos marítimos? E a República Central Africana. Tem? A Tunísia faz fronteira com a Argélia, com Marrocos ou com o Egito? Você acha que Lula devia saber que Windhoek era limpinha? Onde fica isso? Falaram outro dia. Namíbia ou Botswana?
Claro. Você vai se defender dizendo que a África... Bem, a África é uma áfrica.
Vai morar na Rocinha então.
sexta-feira, 16 de abril de 2004
Check in pra Angola
Faz alguns anos. Estava no aeroporto de Lisboa. Esperava o horário de meu vôo pro Brasil. Andava a esmo pelos saguões. Cheguei ao salão de check in. Tudo vazio. Ou melhor, quase. Um grupo grande de pessoas tentava fazer check in prum vôo pra Luanda. Era uma zorra. Os poucos funcionários atrás do balcão tentavam em vão explicar aos passageiros que deviam formar fila a partir da faixa amarela e aguardar chamada. Uns subiam em cima dos outros, todos brandindo seus bilhetes por sobre as cabeças. Todo mundo gritava.
Comecei a estimar quantos anos (décadas, gerações, séculos) seriam necessários praquela turma sacar a vantagem de fazer fila.
Refaço essa pergunta todo dia ao viver o cotidiano paulistano, ao ver os noticiários sobre a realidade brasileira. Quando será que aprenderemos a fazer fila pra check in pra Luanda?
quinta-feira, 15 de abril de 2004
Vilém Flusser
Entramos na sala distraidamente, conversando. Era sempre assim. A aula de Filosofia não interessava a ninguém. A gente ia lá pra assinar a lista de presença, embromar um pouco e cair fora. Diz o Milton Vargas que foi ele e mais Nilo Amaral que propuseram à Congregação da Poli (Escola Politécnica da USP) a criação de disciplinas de "humanidades". No fundo, no fundo a questão era a seguinte: até a década de 50 a Poli só recebia alunos da elite. Esse pessoal tinha - em casa - uma formação cultural ampla. Ia pra faculdade pra aprender engenharia. O resto vinha "de berço". Nos anos 60 a classe média começou a predominar na composição das novas turmas. Era um pessoal (tô nessa) que nunca tinha ido ao exterior, não frequentava ópera, teatro, não tinha lido os clássicos (isso até que eu tinha feito, em parte, claro, claro, mas isso é outro papo) etc etc. Aí entrava na Poli, estudava engenharia, ia pro mercado de trabalho ganhar bem, gerenciar empresas e ... tudo analfabeto. De pai e mãe. A Congregação da Poli intuiu o problema e criou as disciplinas de "humanidades". Era o verniz cultural da engenheirada. Primeiro ano, Introdução à Engenharia. Vinham uns caras experientes (tipo Lucas Nogueira Garcez, engenheiro respeitado que foi até governador de São Paulo - caiu fora quando viu a sujeira que era a política) contar "causos" da realidade da profissão. Segundo ano Português, não me lembro com quem. Terceiro ano, Sociologia, com Heraldo Barbuy. Gente fina. Quarto ano Filosofia com Milton Vargas. Que me perdoe o próprio - se ainda vive - mas as aulas eram absolutamente burocráticas, tediosas. Ele ficava falando abóboras lá na frente e o povo assinando lista de presença e caindo fora. E aí voltamos ao início.
Entramos na sala distraidamente, conversando. Aos poucos fomos estranhando o silêncio. A aula era sempre uma balbúrdia. Um entra e sai. Hoje não. Silêncio. Paramos, olhamos pra frente da sala de aula (um pequeno anfiteatro). Lá está um careca de cavanhaque, lendo um texto enorme (a julgar pela grossura do cartapácio que tem nas mãos). Levanta o olhar, interrompe a leitura e espera que nos sentemos. A gente não entende nada. Teoria do Conhecimento. É sobre o que ele lê.
Desse dia em diante não perdemos mais um minuto de uma aula de Vilém Flusser. O grande mérito de Milton Vargas nessa história toda foi ter convidado o Flusser pra substituí-lo. Primeiro era provisório. Umas quatro aulas durante uma viagem do Vargas. Virou permanente. Uma CPMF do bem.
Flusser era carismático, envolvente. Mas não vou ficar esticando sobre ele. Se quiser, leia aqui.
Só queria dizer que, além de ter me levado à Filosofia (e ao Departamento de Filosofia da USP, com seus Giannottis et caterva) Flusser fez coisas bem mais significativas (pudera): escreveu A História do Diabo, livro que o Exército me roubou ao prender-me, anos mais tarde (aliás, além desse livro mais uns três mil... inclusive Bíblias). Escreveu durante algum tempo no Suplemento Literário do Estadão. Um artigo pra mim inesquecível é um que se chamava - se a memória não me trai - "Da Desconversa". Nele, em resumo, Flusser argumenta o seguinte: há três perguntas realmente fundamentais e - puta coincidência! - nenhuma das três pode ser respondida. A saber: de onde vim, o quê estou fazendo aqui e pra onde vou. Já que o jogo é esse, que fazer? Resposta: desconversar. Se o que realmente importa é inatingível, resta o suicídio ou a ironia. Porra, vamos de ironia, né não?
Daí que você discutir o último jogo do Coríntia com envolvimento é ridículo. Mas com ironia... por que não. Fazer o quê. É o que resta. Se não estou totalmente errado, é o que todo mundo tá fazendo hoje em dia. Desconversando. Ou, como dizem meus patrícios portugueses, estão todos a desconversar.
quarta-feira, 14 de abril de 2004
Rua Maria Antonia - 1.968
Edifício Canadá. Quarto andar. Tenório toca piano. São quatro da manhã. Alguém manda ver num pistão com surdina. Na bateria, afinada, outro alguém esfrega uma vassourinha, no ritmo. Eu curto. A campainha toca. Encrenca. Deve ser o síndico pra reclamar. Não. Não é. É o filho de um general, ele mora no sexto andar, ouviu o som, pede pra entrar. Entra.
Como esquecer tudo isso? Depois veio a briga entre Mackensie e USP, feridos, Hospital das Clínicas. Mais adiante foi a explosão de uma bomba no colo de um "subversivo" na esquina da Consolação com Maria Antonia, dentro de um carro. O corpo pela metade e os policiais a apontar armas pro toco humano, a querer saber quem, como, quando. Jazz. Sangue. Memória. Tenório morreu em Buenos Aires. Outros morreram aqui mesmo, em São Paulo.
Eu não morri. Ainda.
E o filho do general. Fala aí, meu. Onde tu tá?
terça-feira, 13 de abril de 2004
Lua
Quando eu era garoto, me meti numa discussão de rua sobre quem andava. Se era a Lua, se eram as nuvens. Tinha uma menina que pontificava: parece que é a Lua mas não é. São as nuvens. E eu dizia: peraí, tá certo que as nuvens dão uma sensação de movimento rápido pra Lua. Mas a Lua se move. Que nada, meu. É impressão. A Lua tá parada. Comecei, então, a perceber que levar discussão a sério não leva a lugar nenhum. Devia mesmo é ter faturado a menina. Sei lá. Não me lembro nem como era a menina. De resto, quem não andava mesmo era eu. Paradão. Paradão.
Fica esperto
Ô meu! A cronologia - aqui - não tá cum nada. Olha tudo senão você perde coisas. Que coisas? Sei lá, meu. Tudo. Nada.
domingo, 11 de abril de 2004
Um pontinho no nariz
- Vamos brindar.
- Isso. Ao acaso que fez a gente se conhecer.
E que belo acaso. Ele não cansava de admirar o rosto dela, os
cabelos, o sorriso. Desde que a encontrara vivia em estado de
graça. Não havia dúvida. Estava absoluta e totalmente
enamorado. Já eram seis meses de relação. A vida dele ganhara
novo sentido. Sentia-se preenchido, completo.
- Mais um chopp?
O garçom quebrou o fluxo de lembranças e o trouxe de volta ao
presente. Lá estava ela diante dele. Os olhos grandes e
negros, o nariz perfeito. Olhou demoradamente para o nariz
dela, tentando analisar os fatores que o faziam impecável. E
de repente reparou em um detalhe que até então havia escapado
à sua observação. Um pontinho negro, quase invisível, a meio
caminho entre as sobrancelhas e a ponta do nariz, um pouco
para a direita do rosto. Nunca havia visto aquela pintinha,
ele que tanto observava aquele rosto, aquele nariz.
- Você não tinha essa pinta no nariz. Quando que apareceu?
- Errado. É de nascença. Você nunca reparou nela?
- Não. Seria capaz de jurar que ela apareceu de ontem pra hoje.
- É. Mas está aí há vinte e cinco anos.
- Vinte e quatro.
- Ah. Eu arredondo. Que diferença faz?
Nenhuma. Pra ele, ela não tinha idade. A perfeição é atemporal. Foram embora porque os dois tinham de trabalhar na segunda. Iriam se rever na quarta ou na quinta. Difícil esperar até lá. Difícil ficar sem ela, assim, dois ou três dias.
Na quinta se encontraram. Estranho. Será? Mas era. A pinta tinha aumentado. Já ocupava boa parte do nariz. Era marron, lisa.
- Não acha que devia consultar um médico?
- Acho que não. Tenho essa pinta desde sempre.
- Mas está aumentando.
- Tudo bem. Se você acha que é o caso...
- Não é questão de se eu acho. O problema não é o que eu acho.
- Tá bom. Não precisa se aborrecer. Vou marcar consulta. Pronto.
Semana seguinte se reencontraram. Incrível. A mancha já recobria quase todo o rosto.
- Você foi ao médico?
- Fui. Mas ele disse que é normal.
- Normal o quê?
- Normal. Essa pinta.
- Mas não é mais pinta. A mancha já cobre quase todo seu rosto.
- Não exagera. Você faz tempestade em copo d’água. O médico me disse pra tomar uma colher de chá de pouco caso de hora em hora. Acho que você devia fazer o mesmo.
Falar o quê. Ela parecia não se importar com a tal... coisa. Aquilo crescia a olhos vistos. E ela nada. Mas que incomodava incomodava.
Semana seguinte teve que viajar a trabalho. Não pôde vê-la. Foram se reencontrar só na véspera do dia dos namorados. Ela estava linda como sempre. Mas... É, é difícil reconhecer, mas aquela mancha estava tornando as coisas difíceis. Já cobria todo o rosto, parte do pescoço e um pouco do braço direito.
Conversaram um pouco. Sem entusiasmo da parte dele. Ela percebeu, claro. Perguntou se alguma coisa acontecera, ele disse que não e ficou por isso mesmo.
Marcaram um jantar para o dia seguinte. Seria o primeiro dia dos namorados dos dois.
Dia seguinte ela recebeu um telegrama lá pelas três da tarde. Era dele e dizia:
"Prezada Suzana: Por motivos contrários à minha vontade não poderei vê-la hoje. Grande abraço."
(baseado em Roland Barthes, Fragmentos de um discurso amoroso)
domingo, 4 de abril de 2004
Reflexões administrativas
Olhou pro chefe que acabara de fechar um contrato de 35 milhões e pensou:
- A diferença entre o imbecil e o gênio é o resultado.
sábado, 3 de abril de 2004
Surpresa
Me amarrei no nome Maria Senhora. O pior (ou o melhor) é que tem gente à beça com esse nome.
O dia que eu tiver uma filha vai ganhar esse nome. Com certeza.
sexta-feira, 2 de abril de 2004
Praga
- Bom dia! XPTO S.A.
- Bom dia. Quero falar com o Valter.
- Quem gostaria?
- Pode ser a Angie Dickinson? Não não. Não é do seu tempo.
- Desculpe, senhor, mas poderia estar dizendo seu nome?
- Não só poderia como posso. Sou o Antero.
- De onde?
- Da minha casa mesmo.
- Um momento. Vou estar verificando se o Dr. Valter está.
...
- Alô. Obrigado por estar esperando. O Dr. Valter está em uma reunião. Posso estar anotando seu recado para estar transmitindo a ele mais tarde?
- Tudo bem. Mas posso matar uma curiosidade? Esse gerundês que a senhora fala não tem mais que uns cinco anos. Por mais jovem que a senhora seja, já passou dos vinte. Minha dúvida é: antes do gerundês, que diabo de língua a nobre donzela falava?
A Revolução de 1º de abril
Em 1.964 quase todo mundo era a favor do golpe. Da imprensa nem se fala. Tirando os pequenos jornais dos grupos de esquerda ou - para dizer melhor - considerando só a chamada grande imprensa, a adesão era unânime.
Hoje tudo mudou. A Rede Globo et caterva produzem e apresentam especiais mostrando os horrores da ditadura... Mas nesse afã de agradar aos atuais donos do poder, a turma se esquece de certos detalhes.
Na época, os "a favor" chamavam o evento de Revolução de 31 de março ou Redentora, os "contra" o intitulavam Golpe de 1º de abril. Ou seja, não houve um evento chamado Golpe de 31 de março. O que se execra na mídia atual só passou a existir agora. Não me interessa discutir se essa rixa por datas era ridícula. O que importa é que ela existiu e era levada a sério pelos agentes históricos.
Diante disso proponho que seja comemorada (ou esculhambada) - hoje - a Revolução de 1º de abril.
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