domingo, 12 de junho de 2005

Mexe mexe


Acabo de ver entrevista de Jorge Ben Jor a Chico Pinheiro, na Globonews. Me impressionou a informação de Jorge: diz ele que mora até hoje no mesmo lugar do Rio de Janeiro em que morava quando começou sua carreira. Não sei se foi força de expressão. De qualquer jeito, isso acionou em mim uma porção de lembranças. Primeiro, lembrei da entrevista a que assisti, no início dos anos 60. Um tal de Jorge Ben foi entrevistado por Silveira Sampaio. Era, salvo engano, a primeira aparição de Jorge em TV. Cantou Mais que nada e Chove chuva. De lá pra cá, não parou de produzir música. Chamou o síndico, aconselhou a tia Léa a não ir de helicóptero, inventou o Patropi, cantou os gols de um Fio ingrato, que o processou em busca de ‘direitos de imagem’, esquecido de que a imagem dele foi criada por Jorge (a música Fio maravilha teve de transformar-se em Filho maravilha), enalteceu Charles, o Anjo 45.
Agora, sua música ‘de trabalho’ é Mexe mexe.

Reactivus Amor Est (Turba Philosophorum)
Vale a pena? Não, não vale a pena porque não há pena. Há, como sempre, liberdade, alegria, deslumbramento. Propõe que você se mexa. Nada de parar. Quem pára, apodrece. Vê se te mexe.
E volto à questão de Jorge continuar a morar no mesmo lugar de sempre. É claro, no caso dele, que isso não diz muito. Jorge é cidadão do mundo (Mais que nada é a música brasileira com maior número de gravações no exterior, umas duzentas. E eu, que pensava que era Garota de Ipanema). Mas lembrei dos meus tempos de Santos. Tinha um amigo de infância – o Luiz Carlos. Éramos inseparáveis. Desde muito pequenos, tínhamos namoradas definidas. Quando brincávamos com nossos carrinhos, imaginávamos que íamos visitar as respectivas namoradas. A imaginação voava. Pois bem. Minha vida deu mil piruetas. Fui jogado pelo destino de lá pra cá, de cá pra lá. Luiz Carlos não. Ficou em Santos. Construiu sua vida lá. Casou-se com aquela namoradinha dos tempos de infância. Teve filhos com ela. Enfim, virou árvore, enraizou-se.
Por muito tempo, confesso que desprezei essa postura vegetal de certas pessoas. Achava que viviam de modo muito provinciano, acomodado.
Hoje, entendo que há árvores e pássaros. Todos necessários ao (perdão pela má palavra) equilíbrio ecológico.

sábado, 11 de junho de 2005

Gostas de dançar?


Pra este baile não precisa de convite.

Clique para entrar no salão

Torre de Babel


Ano: 1.961 (depois de C): entro no restaurante/bar da avenida Ipiranga, perto da esquina com a São João (esquina que já existia muito antes do Caetano Veloso). Almoço e, por fim, quero um sorvete. Peço um sândei. O garçom me olha com cara de I-beg-your-pardon. Olho em volta, à procura de ajuda. Vejo um adesivo na parede, foto do sundae.

Delícia
Aponto o adesivo. E o garçom:
- Ah. Você quer um sundái.
Algumas semanas depois, mesmo lugar. Quero sundae de sobremesa.
- Garçom, me vê um sundái, simplifico eu.
O cara me olha com total desprezo e pontifica:
- Ah, você quer um sândei.

***

Na empresa de engenharia em que trabalhava, anos 70, emprestam um desenhista pro meu setor. Ele estava sem serviço na área dele. Eu precisava alimentar o computador com uma série de números para calcular já-não-sei-mais-o-quê. Computador assim, em time sharing, com terminais espalhados pela empresa, era novidade absoluta.
O desenhista vem para me ajudar. Procuro explicar a ele que, logo que fizer o log in, preciso dar run no programa e, aí, poderemos entrar com os dados no data base. Passo a ele a tabela que ele deverá me ditar para que eu a digite. O primeiro número é 55.
Logo que ponho o programa a rodar, peço que ele me dite os números da tabela. E ele, não querendo ficar pra trás, com tanto inglês na jogada, diz, solene:
- Fifty five.
É claro que o apelido pegou. Não sei o nome dele. Era só o fifty five.

Sinais


Agora há pouco, vi na TV: o bispo Edir Macedo deixou crescer a barba.
Que será que isso significa?

sexta-feira, 10 de junho de 2005

Táticas diversionistas


Ontem foi aniversário da baixinha. Era o caso de um jantar fora, clima romântico, coisa e tal.
Acontece que tinha Brasil e Argentina. Pode?
Aí mandei flores pra ela (essas aí) com bilhetinho:

Fala verdade, pegou bem, né não?
O arranjo é vermelho como nosso amor: às vezes vermelho de paixão, umas poucas vezes vermelho de raiva. Mas sempre tudo intenso, vermelhão. Beijinhos vermelhinhos.

Cheguei pouco depois da entrega das flores. Ela estava feliz, sorridente.
Assisti ao jogo na boa.
Pena que acabei vermelho de vergonha, com o resultado do jogo.

quarta-feira, 8 de junho de 2005

Dica para os exportadores


Outro dia, em meu trajeto cotidiano São Paulo-Osasco-São Paulo, fiquei um tempão ouvindo no rádio do carro uma entrevista de um representante dos exportadores brasileiros. Ele vociferava contra a queda do dólar. Mostrava que não era possível um empresário obter redução de custos da ordem de 20% em um período tão curto quanto aquele em que o dólar desvalorizou-se frente ao real nessa ordem de grandeza.
Em resposta à chiadeira dos exportadores, o ministro Palófi saiu-se com uma tautologia: 'Câmbio flutuante é aquele que flutua'.
Já tenho a solução para o problema dos exportadores. Toda vez que o dólar descer a níveis desconfortáveis para nossos humildes exportadores, sugiro que contratem alguma das várias reservas morais da nacionalidade - que as há sempre em disponibilidade, vide Roberto Jefferson - para que revele à nação alguma maracutaia tamanho família. Pronto. O dólar sobe que é uma beleza.

segunda-feira, 6 de junho de 2005

Sou um cara de sorte


Pelo menos em matéria de futebol.
Joguei futebol nas areias da praia de Santos com Gilmar dos Santos Neves, Zito, Ipojucã etc etc.
Ouvi, pelo rádio, a vitória do Brasil sobre a Suécia (5 a 2) em 1.958.
Vi os 'teipes' das vitórias do Brasil no Chile, 1.962.
Assisti pela TV, certo que em preto e branco, mas ao vivo, às notáveis vitórias do Brasil em 1.970. no México.
Vi, ao vivo e em cores, o Brasil perder dando show em 1.982.
E ontem, sábado, vi Portugal jogar vinte ou vinte e cinco minutos impecáveis no segundo tempo do jogo contra a Eslováquia.
Hoje, a seleção brasileira está a mostrar, em Porto Alegre (estamos no intervalo), que ainda não é, mas virá a ser, uma bela mistura de seleções: a de 70 com a de 82.
E ainda vou assistir a uma final da Copa de 2.006, na Alemanha, entre Portugal e Brasil.

Final de jogo no Beira Rio, Porto Alegre
Ele, Robinho

domingo, 5 de junho de 2005

Briga de vizinhos


Neste momento, estão a jogar a final de Roland Garros o espanhol Nadal e o argentino Puerta.
Os argentinos são os vizinhos que os brasileiros mais adoram odiar. Os espanhóis, bem, os espanhóis não deixam escolha aos portugueses: são os únicos vizinhos.
Para acompanhar a índole de meus dois povos, talvez deva torcer para que ambos percam.

Atualização: todos ganharam. Principalmente quem assistiu a esse jogo memorável.
Nadal ficou com o título.

segunda-feira, 30 de maio de 2005

Santo Antonio do Bundar


Como quinta foi Corpus Christi , fui de corpo e alma bundar em Santo Antonio do Pinhal, pouco menos de 200 km de São Paulo, quase em Campos do Jordão. Serra da Mantiqueira.
Ficamos em uma pousada aconchegante. Com muito esforço, fomos até uma cachoeira ali perto. Pena que era proibido fazer despachos de macumba.

E eu, que tinha levado galinha preta e velas
A cachoeira não é nenhuma coisa tipo Foz do Iguaçu, mas dá pro gasto.

Diz que não há trutas nessas águas
Em compensação, a pousada em que ficamos (vê só o chalé amarelo. É o nosso)

Bonitinho, né
fica em um pequeno vale e oferece um visual aprazível.

Essa é a construção central da pousada, vista do nosso chalé
A água da piscina devia estar gelada. A cachaça não
Amanhã, trabalho.
Bundar, só semana que vem (segunda é feriado em Osasco, onde trabalho e é - vejam a coincidência - dia de Santo Antonio).

domingo, 29 de maio de 2005

[Informe Publicitário]


Já está disponível o número 9 da revista Engrenagem. Aliás, já está disponível, imagino, desde ontem, sábado. Quem não estava disponível era eu. Estava em Santo Antonio do Pinhal, 200 km da minha casa, onde fui bundar desde quinta-feira.

E tem Edith Piaf, interpretada por Cássia Eller, segundo corrigiu a chefinha
Uma porção de gente escreve sobre o tema "E agora, lembra de mim?".

E tem a letra com a tradução
Eu gostei mais do texto da Lilly Rowan. E você?

quarta-feira, 25 de maio de 2005

Não chego mais atrasado


Agora sim. Problema resolvido.
Acontece que detesto chegar atrasado a compromissos. Considero falta de respeito deixar alguém a me esperar, passada a hora do encontro.
Mas sabe, a coisa é complicada. São Paulo tem um trânsito caótico. Além disso, os relógios apresentam diferenças importantes. Nem todos coincidem. E por aí vai.
Tudo isso é passado. E graças ao Hidetoshi Katori, da Universidade de Tóquio. Ele e sua turma bolaram um novo relógio que tem uma precisão da ordem de 0,000000000000000001 do segundo. Antes, os relógios mais precisos não conseguiam (vejam só!) medir tempos menores que 0,000000000000001 segundos. Que porcaria. Coisa de camelô.

sábado, 21 de maio de 2005

As virtudes da Psicologia


Houve um tempo em que fui casado com uma psicóloga. Ninguém é perfeito (me refiro à psicóloga, claro)
Ela me ensinava coisas muito interessantes.
Por exemplo: quando você freqüenta um lugar com alguma assiduidade, lugar no qual é constrangido a dar gorjetas (propinas, como se diz em Portugal), digamos, o estacionamento (parque, como se diz... será que não dá pra termos uma língua única, pô) de um restaurante, faça o seguinte:
Dê a gorjeta de modo aleatório. Um dia alta, noutro dia quase nada, depois nada, na próxima visita alta de novo. E por aí adiante. É a melhor forma de manter-se em bom conceito com os agraciados (ou não) por suas gorjetas.
Se você dá sempre gorjeta baixa, claro: imediatamente classificado como sovina, tratado como tal.
Se você dá sempre gorjeta alta, claro: tratado como perdulário, não se dá ao respeito.
Se você dá sempre gorjeta média, claro: trata-se de um medíocre usuário (utente, como se diz... chega!).

Qualquer coisa


A vantagem de ter péssima memória é... qual é mesmo?

sexta-feira, 20 de maio de 2005

Cante e Dance


Laura, Laura. Que descoberta mais a calhar.
Você que gosta de tangos e boleros (viu, Che Caribe) não perca.

Cante também
Ponha som na caixa e bola pra frente.
Bora cantar e dançar.

e-Deus


Já inventaram várias formas de comunicação com a(s) divindade(s). Há as que passam por rituais ou por intermediários. Há as que são diretas, pela simples oração.
Mas tudo isso vai virar passado. Chegou a web religion.

Delete seus pecados
Passe seu e-mail pra Deus. Entre no Messenger e bata um papo com JCristo. Se quiser, ligue sua web cam e veja João Paulo II face a face.

O que? Querias Deus? Aí não. Ninguém pode ver Sua face. Quando muito, leia Seu blog.
É a e-Bíblia.

quinta-feira, 19 de maio de 2005

A merda nossa de cada dia


Um monte de gente se escandalizou, só porque o Branco Leone confessou que come merda, ou melhor, chinchulines.
Se você é desses, dá uma lida nesse texto que copiei desta simpática página sobre as abelhas e seu incansável trabalho de fabrico do mel:

“...perguntei para uma abelhinha como se fabrica o mel, e ela me disse: - A fábrica é no meu estômago! Acredita? O néctar que retiro das flores, engulo e lá dentro, passa por diversas transformações químicas enquanto vôo de volta à colméia. À porta de nossas casas esperam-me as minhas irmãzinhas mais novas a quem eu lanço o mel pronto, do meu estômago. Elas o recebem e engolem também e vão para dentro depositá-lo nos alvéolos dos favos, onde permanece até amadurecer.”


Pois é. Adoro mel e chinchulines.

terça-feira, 17 de maio de 2005

Manda bala


O José Pimentel Teixeira, do Ma-Schamba, de Moçambique, adora terçar lanças por Dulcinéia. Eu acho ótimo. Cá, no Brasil, ninguém mais briga por nada.
Locupletamo-nos todos.

O Google e o Bazar


Fico aflito com as pesquisas que trazem o pessoal até meu blog. Quase sempre, o que o cidadão procura não tem nada a ver com o que eu escrevo. Imagino a enorme frustração do indivíduo ao chegar a meu Bazar. Hoje, por exemplo. Um esforçado colegial (ou terá sido um renomado pesquisador acadêmico? Um autor de samba-enredo? Um ?) colocou no Google a seguinte interrogação:
qual é o coletivo de médicos?
Veio parar aqui. É justo, isso? Só porque eu já falei em coletivo (dos presos, no Presídio Tiradentes) e já falei de médicos.
Então resolvi colaborar. Afinal, qual é o coletivo de médicos?
Primeiro, depende. Se o médico tem seu consultório já montado, clientela estabelecida, coisa e tal, nada de coletivo. Ele anda é de carro próprio mesmo. Mas se é daqueles médicos em começo de carreira, trabalhando em cinco hospitais ao mesmo tempo, aí então, haja coletivo. É metrô, ônibus, o scambau. Só não anda de bonde porque não existe mais (escrevo em São Paulo, lembra?).
Alguém poderia conjecturar: o coletivo de médico é hospital. Errado. Hospital tem um monte de médicos, é verdade. Mas também tem fisioterapeutas, enfermeiros etc – os tais paramédicos – funcionários administrativos, esparadrapo e por aí vai.
Pronto. O coletivo de médicos pode ser estraga-prazeres.
Não, isso não é coletivo. Isso é definição.
Sei lá. Acho que vou pesquisar no Google.

segunda-feira, 16 de maio de 2005

Pode?


Já não chega a turma pegar no pé o tempo inteiro com piada de português?
Agora, Portugal resolveu virar, também, país da piada pronta.
Olha só o que descobri neste post do O Traque:
O piloto português na Fórmula 1, o Tiago Monteiro, na realidade é:

Confira na Wikipedia

Tiago Vagaroso da Costa Monteiro

domingo, 15 de maio de 2005

P-CHUVA


Mal começo.
A dissidência do PT que resolveu montar novo partido político pra nos livrar de todo o mal, amém, começa por enviar spam pros possíveis eleitores.

Rindo de quem, dona Heloísa
Sem comentários.

[Informe Publicitário]


A IMPORTÂNCIA DO " P "

E O MELHOR DO CORPO HUMANO


engrenagem # 8


Revista Engrenagem



Bom, sempre tem aquela piadinha que só tem graça pra americano: a professora pede pro garoto recitar o alfabeto. O guri vai em frente: A, B, C ...... M, N, O, Q, R, S .....
E a professora:
- E onde está o P?
(que, em inglês, é “pi” e significa também xixi)
E o garoto, envergonhado:
- Escorreu pela calça, professora.
Gracinha de piada, né não?
Mas evidencia a importância do “P”, pô.
Agora. Falando sério. Quer dizer, mais ou menos. Estou no número 8 da Revista Engrenagem, junto com uma turma pra lá de maluca. Mas malucos que escrevem coisas deliciosas.

sábado, 14 de maio de 2005

Ainda vai dar Porto


Pouco antes de Benfica x Sporting eu conversava pelo Messenger com o Asulado. Reclamei que só tenho aqui um canal português, a RTPi, que insiste em só transmitir ao vivo jogos secundários do campeonato português. Hoje, por exemplo, enquanto todo mundo em Portugal está de olho no jogo de Lisboa, a RTPi transmite Rio Ave x Porto.
Já estava conformado em assistir aos jogos do campeonato espanhol quando – quase sem querer – descobri que o BandSports iria transmitir Benfica x Sporting.
Beleza. Só assim pude ver o Luizão levar na conversa o Ricardo e jogar o Sporting pra fora da disputa.
Mas não se entusiasmem, benfiquistas.
Ainda vai dar Porto.

sexta-feira, 13 de maio de 2005

O último gesto de Celina


Minha mãe jamais admitiu que tivesse câncer. Eu era a favor de abrir o jogo com ela. Minhas duas irmãs, contra. Em pouco tempo, percebi que tinham razão. Afinal, Celina, que de boba não tinha nada, já tivera mil oportunidades para perceber do que se tratava, todo aquele sofrimento. Se não se dera conta era porque não queria. Ponto.
Por não saber, vivia a fazer planos para depois que ficasse boa. E assim atravessamos o ano da graça de 1.992. No início de dezembro, ela me confidenciou:
- Se não ficar boa até o Natal, quero ir embora. Estou cansada.
Sábado, 12 de dezembro, chamei minha irmã que mora no Rio.
- Vem que ela está no fim.
Ao longo do sábado ela foi definhando. Lá pelo meio da tarde já não conseguia falar. Eu, inconformado, peguei uma pequena prancheta, papéis, lápis e fiz várias tentativas de dialogar com ela por escrito.
Consegui alguma coisa, mas depressa isso também se tornou impossível.
Começo da noite, os três irmãos estávamos abraçados, em pé, junto à cama.
Celina ergueu com dificuldade a mão direita, juntou o polegar ao mindinho, e mostrou três dedos retos, irmanados. E sorriu.
Dormiu e nunca mais acordou.

quinta-feira, 12 de maio de 2005

Per capita


Foram uns dez meses de relacionamento. Trezentos dias. Vamos exagerar: teriam sido trezentas, como dizer, vá lá, trepadas, mesmo.
Quinze milhões divididos por trezentos costuma dar (ops!) cinqüenta mil reais. Ou se preferirem, algo do tipo quinze mil euros.
Caro, né.

Santos 6 X O Bolivar


Parecia as peladas que a molecada jogava na praia do Boqueirão, em Santos, nos idos tempos. Como ninguém tinha relógio, o critério de duração do jogo era:
Três vira, seis acaba.

terça-feira, 10 de maio de 2005

Ordinais


Primeiro foi a paixão. Segundo, o amor.
Só bem mais tarde surgiu o terceiro, já que no quarto reinava a indiferença.
A relação tornou-se um quinto dos infernos.
Lá pelo sexto ano, ficou claro para todos:
Aquilo estava longe de ser o sétimo céu.
Para eles, há muito já não era a oitava maravilha.

Cardinais


Um dia, dois amigos se desentenderam por causa de três vinténs. Trocaram quatro ou cinco sopapos, meia dúzia de palavrões e ficaram sete ou oito meses sem se falar. Depois de nove meses, tempo adequado para curar as mágoas e permitir a gestação do perdão, fizeram as pazes.
Hoje, a amizade deles é dez.

domingo, 8 de maio de 2005

Era uma vez - XXIV
Bilhetes a Celina (4)


Já, já, vai ser dia das mães. Então, transcrevo aqui mais um bilhetinho enviado a minha mãe de dentro do Presídio Tiradentes. Como em outros bilhetes, ela é que anotou a data: 2/6/72.
Só retirei, do final, as menções ao pessoal da família. O resto, vai do jeito que foi escrito (ortografia mantida):


Oi, manhê!
Estou escrevendo de manhãzinha. São 7 e pouco. Dormi muito cedo (umas sete da noite) e acordei de madrugada, sem sono. Ontem estava lendo sobre Platão. Esta madrugada comecei a ler sobre Aristóteles e já me sinto diferente de ontem. É gostoso sentir-se como os pensadores que se estuda. Dormi platônico e acordei aristotélico. Mas em tudo isso predomina a idéia grega de “justiça”. Ela não significa, para os gregos da Antigüidade, o mesmo que modernamente. Para êles, era uma noção de equilíbrio: o justo é não ultrapassar os limites eternamente fixados. Na moral aristotélica, isso significa a valorização do meio-têrmo. Algo como: “a virtude está no meio”. A coragem, por exemplo, é virtude porque é o meio-têrmo entre a covardia e a temeridade. E daí pra frente.
Tudo isso me lembra uma frase de um companheiro de cela: “Quem acende uma vela a Deus e outra ao Diabo, acaba ficando no escuro”. Frase que, como se vê, nada tem de aristotélica...
Com tudo isso, aprendo coisas curiosas. Platão era a favor da dissolução completa da família. Os filhos deviam ser retirados dos pais ao nascer, tomando-se cuidado para que não se conhecessem (os filhos aos pais e vice-versa). Além do mais, as mulheres deviam ser desfrutadas em comum pelos homens do grupo. As crianças deveriam ser educadas pelo Estado. Se os donos da moral de nossa Terra ficam sabendo disso, o pobre Platão vai passar por maus momentos... A ignorância em nossa Terra é tão grande que seria cômica, não fôsse trágica. Mas como diz um escritor argentino, ao dizer quase o mesmo de sua Pátria: “isso é algo que se deve reconhecer com todo carinho”...
Ah! Aristóteles recomenda que as crianças sejam concebidas no inverno, e justifica falando em ventos que sopram não sei como... Eu nasci com a fôrça do calor, como diria o humorista luso...
Quanto ao cotidiano: tudo bom, esperando com inesperada calma a liberdade. O estudo da Filosofia é um ótimo sedativo. Roupas sujas, vasilhas e quejandos serão devolvidos sábado, como de hábito (bonito, né!)
Quanto ao mais não há nada a dizer. Como diz Eurípides: “o sofrimento em demasia torna-se ridículo”. E eu não quero ser ridicularizado.
(...)
Na senhora, um beijão grandão.
Té manhã! Tchau!
Beto

sábado, 7 de maio de 2005

As bananas azuis


Meu interesse pelo assunto vem de longe. Quando criança, minha refeição preferida era banana-com-aveia. Mas era coisa de profissional, nada dessas papinhas ridículas que fazem pras crianças, misturando uma banana triturada a uma colher de aveia, não.
Pegava um prato fundo, amassava nele cinco ou seis bananas nanicas. Depois vinha a questão do como adoçar a coisa. Às vezes, muitas vezes, era com açúcar mesmo. Em outras fases foi mel. Mais tarde, leite condensado. Tive a época do açúcar mascavo, da qual me redimi com alguma rapidez. Mas o ponto alto do preparo era o despejar de quase uma caixa de Aveia Ferla (nada de Quacker) em cima do mingau. Mexer bem, fundamental. Até obter massa homogênea e consistente. Dependendo do humor, punha Toddy ou não. O que gerou duas categorias: a banana-com-aveia clara e a banana-com-aveia escura.
Na família, todos concordam que só sobrevivi graças à banana-com-aveia. Cheguei até a planejar abrir uma franquia de banana-com-aveia. O nome seria n’aveia. Desisti. Não por culpa da banana-com-aveia. Foi por falta de espírito empreendedor, mesmo.
Portanto, nada mais natural que o tema das bananas azuis tenha me seduzido com facilidade. Primeira referência que tive sobre isso foi na fase em que me dediquei a ler os clássicos. Foi depois que saí do presídio. Não tinha o menor apetite para os assuntos do dia a dia da política, da economia, mesmo das artes e espetáculos. Fechei-me em Homero, Aristófanes, Horacio, coisas assim. Mas foi em Heródoto que achei a ponta do fio da meada. Na edição da Pléiade (ou você acha que eu lia os caras em grego) esbarrei em menção a povos da região dos Bálcãs nos quais a elite mantinha sua ascendência sobre a plebe graças aos extraordinários predicados das bananas azuis, cultivadas em estufas resguardadas da curiosidade geral.
Algum tempo depois, quando me interessei pela Cabala, descobri que a tradição das bananas azuis atravessou a Idade Média graças a abnegados cultores dos mistérios cabalísticos. Desconfio que Shimon Bar Iojai (Rashbi), em seu Sefer HaZohar, insinua qualquer coisa sobre os poderes fantásticos das bananas azuis. Parece mesmo que há relação entre elas e a expressão sangue azul, dedicada à nobreza.
A Renascença não conseguiu romper os mistérios que sempre cercaram o tema. Mas há poucas divergências entre os historiadores: Descartes certamente provou do fruto. O mesmo não se pode dizer do provinciano Kant. Ele não ia sair do seu pequeno mundo rotineiro para correr atrás de bananas. Ainda que azuis.
No mundo moderno, quase não há referências ao enigma. O que não significa que ele tenha deixado de existir. Ao contrário. Há raros documentos que parecem indicar que Hitler perseguia os judeus na esperança de captar-lhes os segredos milenares das bananas azuis.
De facto, o holocausto tornou mais difícil seguir as pegadas dos fiéis guardiães dessa tradição.
Nos dias atuais, o mistério não faz senão aumentar. Mas não. Michael Jackson nada tem a ver com isso.
Se alguém tiver alguma dica, por favor, deixe nos comentários.

Thiaguinho não. Thiago de Mello.


O Wilton, do blog Quitanda do Chaves, reproduz, em um post, os Estatutos do Homem, de Thiago de Mello.
Lá por volta de 1.965 ou 66, montei uma peça teatral com texto que era uma colcha de retalhos de tudo que eu andava a ler na época, imitando os espetáculos tipo Opinião, Liberdade, Liberdade etc etc. Tinha Vinicius, Drummond, Bandeira, o diabo. E tinha Thiago de Mello. E seus Estatutos do Homem. Eram, aliás, o ponto apoteótico da coisa toda. Foram muitos ensaios e uma apresentação um tanto canhestra para um público errado, no auditório do Colégio Baptista Brasileiro, em São Paulo.
Depois do fim de tudo, minha mãe me contou que conhecia o tal de Thiago de Mello. Fiquei surpreso. Ela explicou:
Nos idos de 1.935, recém casada com meu pai, fora morar em Manaus, Amazonas, tudo porque meu pai não queria ser um pastor baptista qualquer, queria ser missionário em lugares inóspitos.
Pois bem. Na Igreja Baptista de Manaus minha mãe conheceu a mãe de Thiago de Mello, na época um garoto. Mais: ganhou dele uma pequena pintura, escolhida entre seus primeiros esboços de arte.
- Pois é, disse minha mãe, era um quadro do Thiaguinho.
E eu, já aflito:
- Mãe. E onde anda esse quadro.
- Ah, filho. Acabei jogando fora em alguma mudança.

sexta-feira, 6 de maio de 2005

Desamores & Filosofia
(ou seja, conversa fiada)


A Laura foi cobiçada pelo Drummond. A Helô Pinheiro pelo Tom. Eu mesmo namorei uma menina que tinha sido assediada pelo Sérgio Ricardo. Aquele mesmo, que quebrou o violão no palco da Record, num festival de música popular. Ato que propiciou a manchete fantástica de um jornal sensacionalista de São Paulo: Violada em pleno auditório.
São desencontros, desamores. Como tantos pela vida, como dizia Vinicius. Vinicius, o mesmo que – segundo meu ortopedista confidenciou – participou de um cruzeiro Brasil – Europa junto com Neruda. Bebiam tanto que, passado o meio-dia, ficavam imprestáveis. Em uma escala, Neruda desembarcou, carregado em maca, acometido de uma crise de gota.
Por falar em imprestáveis após o meio-dia, há uma história de Passos que não consigo não compartilhar:
Uma irmã de meu pai, Carolina, veio para o Brasil ainda jovem. Anos mais tarde visitou Passos, sua terra natal. Lá encontrou seu meio irmão Zindo (do qual conheço os filhos, que continuam lá). Era quase o “dono” da aldeia. Ele é que chamava o padre para rezar missa e tomava todas as providências que a pacata vida social do local exigia. Sua rotina de vida era simples: durante a manhã, aboletava-se na varanda de sua casa, munido de uma peça de presunto, de uma faca afiada e de um garrafão de vinho. Tudo artesanal, claro, claro.
Ao meio-dia, estava como Vinicius e Neruda no cruzeiro a que aludi acima. Imprestável.
Minha tia Carola (que adotou esse nome ao invés de Carolina, que achava horrível, vejam só), para provocá-lo, perguntou-lhe um dia (antes do meio-dia):
- Zindo, como podes viver dessa maneira e ao mesmo tempo trazeres cá padre a rezar missa e coisa e tal? Como concilias tudo isso?
E tio Zindo sem se apertar, enunciando o que considero assertiva importante da filosofia pós-socrática:
- Veja, lá em cima está Deus.
-Aqui embaixo, é tudo a mesma merda.

domingo, 1 de maio de 2005

NOJO


Hoje acordei disposto a viver um dia ameno. Domingo, 1º de maio, dia cinzento em São Paulo, um pouquinho de frio.
Peguei o jornal, a Folha de S.Paulo, comecei pela coluna do José Simão e pelos quadrinhos geniais do Angeli, do Laerte etc etc.
Não deu pra escapar. Primeira página: ex-militares que combateram a guerrilha do Araguaia querem indenização. E contam, sem pudor algum, como torturavam e matavam os guerrilheiros. Não coloco link nenhum. Não acho que valha a pena ler isso.
O Brasil está cada vez mais assim: uns caras sub-humanos empunham seus certificados de reservistas e querem ganhar dinheiro por terem sido excelentes em sua vilania.
Se olhar mais uma vez essa foto, vomito.

sexta-feira, 29 de abril de 2005

O avesso de um blog


Minha irmã mais velha sempre foi muito crítica de si mesma. Aos 25 anos já se achava uma velha. Lá pelos 40 já reclamava dos terríveis efeitos da lei da gravidade etc e tal.
Belo dia, foi ao médico. Revisão geral. Levou aquele monte de exames e aguardou as péssimas notícias que o médico certamente lhe daria. Pra surpresa dela, o médico disse que ela estava ótima. Tudo funcionando maravilhosamente bem.
Ela não se deu por achada:
- Doutor, se estou tão bem assim, por dentro, não dá pro senhor me virar do avesso?

Foi nisso que pensei, agora há pouco, ao ler os comentários aos posts anteriores. Afinal, os comentários são algo assim como o avesso de um blog. Ficam escondidos da primeira leitura mas determinam muito do caráter do blog. Quase se poderia dizer de um blog:
Dize-me quem (e como) te comenta e te direi quem és.
Se realmente isso é verdade, estou muito bem. Só quero que saibam que nem sempre respondo aos comentários não porque não tenha o impulso de fazê-lo. O problema é que muitas vezes eles me embasbacam.
Mas adoro meus comentadores, pode crer.
Será que dá pra virar este blog do avesso?

quinta-feira, 28 de abril de 2005

Que significa 25 de abril?


Vanessa, a menina do Sopa de Letrinhas, nascida com o dom da escrita, pergunta (comentário no post aí embaixo):
- Eu não sei o que se deve comemorar em 25 de abril...
É o seu aniversário?
Vanessa: de certa forma, sim. O 25 de abril (de 1.974, você nem era projeto de gente ainda) foi o dia em que os portugueses resolveram que já bastava de uma ditadura que ocupara boa parte do século 20. O primeiro ministro, Salazar, foi causa e efeito de um certo espírito português que demorou a superar-se.
Nessa época, eu mal completara um ano de liberdade. Tinha saído da prisão no início de 1.973. Fiquei feliz ao saber do desmoronamento da ditadura de Salazar. Aqui, no Brasil, teríamos de esperar mais uns onze anos pra alcançar o regime democrático.
Duas historinhas me vêm à lembrança:

Uma, meu pai contava quando eu era criança (e eu já a repeti em algum blog por aí). Durante a segunda guerra (1.939-1.945), Salazar colocou Portugal em posição de neutralidade entre o Eixo (Alemanha, Japão e Itália) e os Aliados. Suas preferências eram claramente pró-Eixo mas Portugal não estava com essa bola toda pra entrar na guerra ao lado dos nazistas. Mas – dizia meu pai – o povo português torcia pelos Aliados, em silêncio (penso que isso deve ser meia verdade, mas deixa pra lá). O facto é que um dia, em uma sessão de cinema na cidade do Porto, era projetado na tela um noticiário sobre a guerra, a mostrar vitórias dos Aliados. A platéia ansiosa para aplaudir. Mas silente, com medo das possíveis punições em caso de manifestação contrária ao Eixo. Até que um gaiato acabou com o impasse:
- Viva o Futebol Clube do Porto!, gritou no meio da platéia.
E o cinema em peso:
- Viva! Viva!

A outra eu soube de fonte mais próxima. O Estadão, na década de 60, tinha um editorialista português, Miguel Urbano Rodrigues, comunista notório. Aliás, sempre que alguém lhe perguntava como um comunista podia ser editorialista de um jornal conservador como o Estado de São Paulo, Urbano contestava:
- Sou um mero linotipista.
Pois vai daí, em 61 um certo capitão Galvão, em Portugal, rebelou-se contra a ditadura salazarista e acabou por tomar de assalto um navio – o Santa Maria – levando-o para perto de Recife, em águas brasileiras. O doutor Julinho, dono do Estadão, destacou Urbano pra cobrir o feito. Imaginou que, como português e super anti-Salazar, conseguiria boas matérias para o jornal.
Urbano foi para Recife, entrou em contato com o navio e conseguiu que Galvão o recebesse a bordo, para entrevista. Doutor Julinho, em São Paulo, não continha o entusiasmo e a ansiedade pela publicação do furo jornalístico.
Passado um breve período de alta ansiedade, chega um telegrama do Urbano:
- Aderi.

terça-feira, 26 de abril de 2005

Três microcontos pra comemorar o 25 de abril


Amou daquela vez como se fosse a última. E morreu antes do final de Construção.

**********



Precisava esquecê-la. Colocou as cartas em uma caixa. Trancou a caixa. Jogou a chave no rio.
Mas as cartas não eram as dela. A caixa que trancou era outra. O rio estava seco.

**********



O menino, ao tentar embocar a bolinha de gude no buraco, nem imaginava em quantos buracos a vida o meteria.



segunda-feira, 25 de abril de 2005

Destino


Começou a experimentar a vida com cuidado. Aos poucos. Esticava uma aventura aqui, outra audácia ali. Não ousava exageradamente.
A partir de um certo ponto, as coisas se precipitaram. Ele deslizou na correnteza. Tentou planejar. Deu com os burros n’água. Tudo saía pela culatra.
Percebeu que era mais prático adaptar-se ao ocorrido. Foi o que fez.
Funcionou. Mais ou menos.
Aproveitou os bons momentos. Reclamou, baixinho, dos instantes desagradáveis.
E seguiu.
Depois do sexto dia, olhou pra trás.
E viu que era bom.
Descansou, então.

sábado, 23 de abril de 2005

Trocas


Amamentou o filho por seis meses.
Nutriu-se dele por toda a vida.

Redundâncias


Uma senhora entra na farmácia e pede a pílula do dia seguinte.
O farmacêutico: Só amanhã, senhora.

(sugerido por este post do Pé de Meia)

sexta-feira, 22 de abril de 2005

Dicas da semana


Dê um pulinho à Rua da Judiaria e leia este post.
Depois de enxugar as lágrimas, leia o texto O primeiro dos óbvios no Querido Leitor, da Rosana Hermann. É um post do dia 20.04.2005. Mas você tem de rolar bem pra baixo, porque eu não sei como isolar o post e a menina escreve feito metralhadora. Mas vale o - digamos - esforço.

quinta-feira, 21 de abril de 2005

Notícias do céu


Nosso correspondente Fred Nietzsche traz uma notícia boa e uma ruim. Comecemos pela má:
Deus morreu.
A boa:
Não vai haver aquela chateação de conclave de papas defuntos (não confundir com papa-defuntos, que é outra coisa) pra escolher o novo deus. Nem fumacinha preta ou branca. Fumaça no céu é sinal de chuva ou neve.
Na realidade (ou seria na celestialidade?), ninguém sabe como será a escolha do próximo deus.
Os brasileiros acham que Fernando Henrique seria um luxo só. Pena que ainda não chegou lá.
Quanto aos portugueses, parece unânime o apoio à candidatura de Mourinho.
Já os americanos pensam que Bush deveria intervir no céu. Depois de instaurada a verdadeira democracia, aí os querubins, serafins, o diabo-a-quatro (epa!) escolheriam livremente o deus que o Bush recomendasse.
Tony Blair concorda.

Tiradentes


Hoje, no Brasil, é feriado. Comemora-se (!?!) o enforcamento de José Joaquim da Silva Xavier, o Tiradentes, ocorrido em 21 de abril de 1.792.
Se fosse hoje, considerando-se os avanços da odontologia, a alcunha dele seria algo do tipo Tratacanal.

Quase


Estava prestes a atingir a sabedoria quando morreu.

Notícias do Vaticano (extra)


Sem dúvida, essa receita de refeição infantil é abençoada:
Papa e água benta.
Ou será "Papa e água bentos".
Sei lá.
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O Zé Ratz disse alguma vez, em algum lugar, que as outras igrejas cristãs não podem ser consideradas irmãs da ICAR.
Isso porque a ICAR seria mãe das demais. Não irmã.
Fica a dúvida: e quem é o pai?
Se não foi Deus, pega mal. Passa imagem de uma ICAR um tanto promíscua.
Se foi Deus, fica provado que Deus f*@#% a ICAR para criar as seitas evangélicas. O que não deixa de ter lá seu sentido, em termos históricos.
**********
Obs: nosso cardeal infiltrado não agüenta mais esse negócio de conclave, urbi et orbi e o escambau.
Acho que ele vai cair fora e nós vamos ficar sem notícias. Enquanto rolou uma fumacinha ele estava na boa.

quarta-feira, 20 de abril de 2005

Notícias do Vaticano


(do nosso cardeal infiltrado)
Até que enfim! Desde a minha mais tenra infância (sempre quis usar essa expressão. Aliás, "tenra" é adjetivo que só serve pra qualificar certas infâncias e o baby beef do Rubaiyat). Mas como dizia, desde a mais tenra infância que ouço a pergunta: "Será o Benedito?". Minha mãe, por exemplo, a utilizava em situações de uma certa perplexidade e exasperação. Se um filho demorava muito no banho: "Será o Benedito? Não terminas nunca esse banho?"
Passados todos esses anos, tenho a resposta.
Sim. Será o Benedito. Dezesseis.
***********
Jura nosso correspondente no Vaticano que aconteceu: o Zé Ratz tava passando por um grupo de cardeais. Um deles, não muito simpatizante do dito cujo, sussurrou:
- Sebento.
Ratz pensou ter ouvido o Espírito Santo:
- Sê Bento.
Não deu outra.
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Mais besteiras a qualquer momento, em edição extra-ordinária.

domingo, 17 de abril de 2005

Videntes: onde estão vocês?


Todo final de ano é a mesma lenga-lenga: a TV é inundada por pais&mães-de-santo, quiromantes, astrólog@s, cartomantes, buziólog@s (devia haver essa palavra, né não?), o diabo. Explicam como vai ser o novo ano, dizem que vão morrer personalidades com tais e quais características (tudo sempre convenientemente vago), ameaçam com algumas calamidades tipo terremotos, coisa e tal. Informam que alguma estrela de primeira grandeza do mundo artístico vai ter filho e por aí afora.
Recebem seus cachês, fazem seu marketing e a vida continua.
Hoje me ocorreu o seguinte: a imprensa está perdidinha da silva em relação à eleição do novo papa. Ninguém consegue informação confiável. Por que não chamar essa turma do ramo da adivinhação? É simples: um famoso pai-de-santo ou uma famosa vidente chega no programa do Faustão (ou em outro qualquer) e diz: o novo papa vai ser o cardeal José da Silva. Sua eleição será concretizada no dia tal. Ponto. Problema resolvido.

MAKEPOVERTYHISTORY


Que me perdoem meus amigos Asulado e Baeta, que promovem em seus blogs esse movimento.
Pra mim, muito mais realista é POVERTYMAKEsHISTORY.

sábado, 16 de abril de 2005

Ex-Libris da Tugosfera


Não se recusa corrente passada pela saltapocinhas. Portanto, vamos a ela:
1. Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
Já que a Pékala, do Neurotic, queimou tudo do Paulo Coelho, só me sobraram os textos sociológicos do Fernando Henrique Cardoso, que talvez ele mesmo já tenha queimado.
2. Já alguma vez ficaste apanhadinha(o) por um personagem de ficção?
Muitas vezes. Pra citar duas, que deram nome a filhos meus: a Letícia, do conto Final del juego (que dá nome ao livro), de Cortázar. Dele também, mas no Rayuela, Horacio Oliveira, claro, claro.
3. Qual foi o último livro que compraste?
Cito três. Um comprado, dois ganhos. Todos de blogueiros. Estou digerindo os três aos poucos, como convém. Comprado: Contos de Oficina 33, de dezesseis autores, entre eles a Rosane Netto de Aguirre, a Ane Walker, do Cabezas - Egoísmo coletivo, no Cabeza Marginal.
Ganhos: O dia em que o mar desapareceu, do José Carlos Barros (Prêmio Manuel Teixeira Gomes - 2002, Conto - 2º prêmio). José Carlos é ele mesmo, o poeta de Presa do Padre Pedro.
Last but not least, Dezamores, contos e poemas de dez autores, entre eles o Branco Leone.
4. Que livros estás a ler?
Além dos que citei acima, estou digerindo História da Administração Pública em Portugal nos Séculos XII a XV, de Henrique da Gama Barros. Demora um pouquito porque são onze volumões. Me deleito, vez em quando, com o álbum que me deu minha mana Léa, Parques e reservas naturais de Portugal. E tenho o hábito de pegar livros a esmo nas prateleiras da biblioteca cá de casa, ler um pouquinho e parar. E assim se vai.
5. Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
Não dá pra instalar Internet banda larga nessa ilha?
Se não dá, cinco livros:
Camões, obra completa (Aguilar), Fernando Pessoa, obra poética (Aguilar), Borges, tudo que desse pra carregar, Grande Sertão:Veredas, Guimarães Rosa e Millor Fernandes (Millor Definitivo, A Bíblia do Caos).
6. A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e porquê?
Essa é fácil.
Primeiro, Ordisi, pra aprender a não passar dildos pros amigos.
Segundo, Branco Leone, que não escreve nunca o conto que pedi, sobre batom em cueca.
Por fim, Susana Paixão, só porque estou com saudade dela.
E chega de corrente.

sexta-feira, 15 de abril de 2005

Parabéns


Dizem que se cunhado fosse coisa boa não começava do jeito que começa.
Há exceções.
Faz anos hoje o Maurício. Sou cunhado dele. Até aí, nada. Mas é que, além de ser um papo excelente, o cearense Maurício é do primeiro time da Matemática no planeta. E, então, pra que os leitores desse blog conheçam algo de brasileiro além do Robinho, do Ayrton Sena e do Guga, lá vão algumas dicas sobre esse brasileiro:
Presidiu o CNPq de 1979 a 1980.
Presidiu a Academia Brasileira de Ciências de 1.981 a 1.991.
Conselheiro do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, de 1.996 a 2.000.
Resumo, o curriculum vitae dele é este aqui.
Hoje ele completa oitenta e quatro. Trabalha muito, produz muito. Mundo afora. E ainda encontra tempo pra plantar em seu sítio de Petrópolis.
Abração do cunhado corujão.

Era uma vez - XXIII
Baixinho e a Palhaçada


João Batista de Souza (pô, Baixo, será que ainda lembro direito teu nome?) foi militante da VAR/Palmares. Moreno, um metro e cinqüenta ou pouco mais, bigode cuidadosamente cultivado, sorriso de ironia pra lá de fina, aprendeu muita coisa na juventude. Esqueceu de aprender o que era medo.
Sei quase nada sobre sua vida. Sei que entrou pra militância política de cabeça, tronco e membros. Participou de uma porção de ações armadas. Trocando em miúdos, assaltou bancos, participou de seqüestros, o escambau.
À medida que a esquerda foi se desmilingüindo, Baixinho foi assumindo cada vez mais responsabilidades. Belo dia, Baixinho estava a morar em uma casinha minúscula, abarrotada de armas: revólveres, pistolas, muita munição, metralhadoras, bombas etc etc. Por caminhos que não vêm ao caso, a repressão chegou. Cercou a casa. Deu voz de prisão ao Baixinho. Ele respondeu atirando. Transformaram a casa em peneira. Baixinho resolveu apelar para as bombas. Pegou a primeira e lançou. Fez puuuf e nada. Lançou a segunda. Idem ibidem. Desistiu das bombas. Gastou toda a munição de que dispunha. Quando tudo acabou, saiu de mãos para o alto, melhor, de mão para o alto: com a outra segurava uma maçã.
Quando a VAR/Palmares foi a julgamento, em tribunal militar, o famigerado juiz Paiva no comando da pantomima, Baixinho era um dos menos importantes entre os militantes julgados. O julgamento cumpriu seu rito. Quando os juízes se retiravam da sala para deliberar sobre as penas, Baixinho virou-se para alguém a seu lado e comentou, em decibéis não suficientemente reduzidos:
- Isso aqui é uma palhaçada.
Não deu outra. Os juízes voltaram e o Paiva começou a ler as penas: fulano dois anos, beltrano três anos, cicrano dois anos etc etc, todos nesse diapasão.
De repente, pausa e:
- E, para deixar claro que isto aqui não é uma palhaçada, João Batista de Souza, DOZE anos.
Ô comentariozinho caro!
Baixinho pegou mais penas em outros processos. Aos poucos, chegou (se não me falha a memória) a qualquer coisa em torno de cem anos de condenação. Era resistência à prisão, ações armadas, tentativas de assassinato etc e tal. Só não sei se houve condenação pelo fato de ter se entregado comendo maçã. Particularmente eu, penso que deveria haver punição severa pra isso. Sempre deixei isso claro pro Baixo.
Resumo: o Baixinho era o cara que todo mundo achava que jamais sairia da cadeia. E o que mais doía na gente é que, quando chegava a visita de sábado, das famílias, o Baixo tinha de ficar na cela, sozinho. Era um dos poucos que não tinham parentes, não tinham ninguém. Portanto, não podia descer para o pátio.
Claro que a gente não ia deixar isso ficar assim, né mesmo? Começou o movimento pra arranjar visita pro Baixinho. Alguém arrumou uma menina que se dispôs a visitá-lo. Acho que se chamava Rosângela. Sei lá, sei que era a Rô. Não é que ela se apaixonou pelo Baixo?!? O cara era muito feio! Fazer o quê.
(se ele ler isto aqui ele me trucida)
E eis que o Baixinho virou rei. Recebia visita e bolos, tortas, doces, o diabo.
Mais: os processos dele subiram pro Superior Tribunal Militar (no qual os julgamentos eram menos políticos e mais técnicos) e ele foi sendo gradualmente absolvido.
Resultado: belo dia, chega o carcereiro e chama o Baixo.
Rua, meu. Rua.
Meu deus, até hoje dá vontade de chorar, tamanha a alegria que dominou todos na cela.
Beijo, Baixinho.

quarta-feira, 13 de abril de 2005

Era uma vez - XXII
Bilhetes a Celina (3)


Às vezes, o humor tem a função de aliviar a dor. Como neste curto bilhete de 24/01/72, véspera dos 418 anos da cidade de São Paulo:
Oi!
Ainda bem que amanhã é feriado! Assim posso descansar (piada fraca, né?) Tudo legal. Manda lembranças pra todo mundo e diz que o fato de eu não ir cumprimentá-los pessoalmente não deve ser considerado como falta de atenção. É que ando muito atarefado...
Tchau! Lá vão as sacolas de volta.
Beijão, com gripe e tudo.
Beto

Era uma vez - XXI
Bilhetes a Celina (2)


Este está sem data mas, pelo conteúdo, percebe-se ser de final de fevereiro de 1.972. Traz o inevitável "visto" do censor. Mantive a acentuação que se usava na época (pelo menos, a que eu usava). Minha letra era bonitinha, tá sabendo?
Deixa os auto-elogios pra lá e vamos ao texto. Reparem na preocupação em dizer as coisas de maneira a driblar a censura:
Oi! manhê!
É de manhã. Ficamos batendo papo a noite tôda aqui na cela, de modo que agora é que o pessoal foi dormir. O silêncio é quase total no presídio. Quando os “corrós” estavam aqui era uma barulhada de manhã! Agora a gente até estranha o silêncio. Acabei de ler mais um editorial do “Estadão” sôbre os presos correcionais (os corrós). Como todos sabem, tanto as senhoras como os senhores, os presos correcionais não existem. Uma pessoa, por lei, não pode ficar detida sem culpa formada por tempo maior do que um curto prazo. Na Justiça Comum, não sei exatamente qual é êsse prazo. Na Justiça Militar, são 30 dias prorrogáveis por outros 30. Isso em aritmética daquela que a gente aprende no grupo, dá dois meses. Depois, sempre segundo a lei, ou decreta a prisão preventiva ou solta o cidadão. Como eu já estou detido há sete meses, chega-se à límpida e insofismável conclusão de que eu não existo há exatamente cinco meses. Mas há pessoas que não existem há muito mais tempo. Napoleão, por exemplo, é uma delas.
As coisas chegaram e eu paro por aqui.
Apesar da inexistência, sábado eu estou lá no pátio. Inexistente mas assíduo.
Um beijão!
Tchau!
Beto

terça-feira, 12 de abril de 2005

Era uma vez - XX
Bilhetes a Celina (1)


Outro dia, remexendo nas tralhas aqui de casa, encontrei um pacotinho amarrado com uma fita amarelada pelo tempo e coberto com um papel em que a letra de minha mãe – inconfundível – definia: “Bilhetes do Beto”. São meus recados à “manhê”, como eu a chamava na época. Escritos no presídio Tiradentes, anos 71, 72 e 73. Minha mãe os guardou. Quando, em 92, ela morreu, minha irmã mais velha os achou entre os guardados da matriarca. Repassou-os a mim. Agora, ao reencontrá-los, constato como eram prosaicos. Pediam mantimentos, davam conta da roupa suja que eu às vezes mandava para casa de minha mãe, coisas assim. De vez em quando, raramente, escapa algum comentário menos banal. Afinal, os bilhetes eram cuidadosamente censurados na saída do presídio.
Transcrevo os que achar que merecem algum registro. Este, por exemplo:
Oi, manhê!
25/4/72
[data anotada por minha mãe]
Por ter sido a mais recente, a visita de hoje foi a melhor de todas. A próxima será melhor ainda...
O advogado não apareceu
[era o Dr José Carlos Dias, sobre o qual falarei qualquer hora], como era de se esperar... De resto, tudo às mil maravilhas. Espero que aí fora tudo esteja como no melhor dos mundos possíveis.
Mando a lista, alguma roupa suja e vasilhas limpas (ou quase). Estou chegando aos nove meses de prisão. Talvez nasça uma maturidade maior disso tudo. Mas pra usar aonde? Esse mundo está cada vez mais idiota. Quando a gente se enriquece internamente a gente se sente meio anacrônico, como naquelas historinhas de máquina do tempo em que um fulano de 2134 volta a 1972 e acha tudo estranho, esquisito. Mas, paciência. O homem ainda vai demorar pra descobrir que tem de ser homem nas horas em que se comporta como animal e animal nas horas noturnas em que o obrigam a ser civilizado pra que o mundo não se desorganize pelo efeito corrosivo da descoberta do prazer. Pensar, quando é tempo de pensar. Sentir, quando é tempo de sentir. Salomão já sabia disso.
Um beijão (e outros para os outros), e Tchau!
Beto

domingo, 10 de abril de 2005

O poder e a maçaneta


Reparei que alguém veio a este blog ao pesquisar no Google sobre maçaneta de porta. É que a expressão consta de algum capítulo do "Topologia Trivial".
Imediatamente lembrei de um comentário de não sei quem, que li não sei onde.
O aspone perguntou ao governador:
- Por que o poder político fascina tanto?
E o político:
- Não sabes como é bom passar quatro anos sem precisar segurar maçaneta de porta.

sexta-feira, 8 de abril de 2005

O desaparecimento gradual das (minhas) crenças


Quando eu tinha uns onze anos, perguntei a meu pai, que era pastor baptista:
- Pai, como fica o índio, no interior do Brasil, que nunca ouviu falar em Jesus. Quando ele morrer, vai pro inferno?
Minha dúvida fazia sentido. Afinal, os cristãos afirmam que só há salvação em Cristo. Se o indivíduo não aceitar a Cristo como seu Salvador, tá perdido. Só se salva (leia-se: vai pro céu) se aceitar a salvação em Cristo. Os evangélicos pensam assim (Os católicos já têm umas complicações, tipo purgatório etc e tal. Mas isso eu já não levava a sério mesmo aos onze anos).
Mas, e se ele nunca ouviu falar em Jesus? Vai pro inferno?
Meu pai deu de ombros. Disse-me pra que me preocupasse comigo e deixasse o índio em paz.
Começou aí, ao menos pelo que me lembro, meu processo de descrença gradual. Quando pude (isto é, quando cessou a pressão violenta da família) caí fora da igreja e passei a pensar por conta (mais ou menos) própria.
Passei por outras crenças. O marxismo foi uma delas. Devagar, debaixo de muita porrada, fui perdendo, uma a uma, todas as crenças.
Até hoje, mantive a crença na humanidade. Acredito na capacidade do ser humano de superar-se. De criar. De inventar.
Contudo, às vezes, essa última crença sofre abalos. Agora, por exemplo. Quatro milhões de pessoas tentam entrar em Roma para celebrar a morte do papa. Há confusão. Afinal, a cidade tem menos de três milhões de habitantes. Receber, de repente, a visita de quatro milhões é complicado. Falta água, falta tudo. Acho até que faltam ladrões para roubarem as carteiras dos visitantes. Normalmente isso abunda em Roma.
Fazer o quê. Essas pessoas querem ver o cadáver do papa. Já deve estar fedendo, já que dizem não ter sido embalsamado, o corpo. É um monte de ossos e de carne putrefata. Mas essa multidão quer ver isso.
Agora, diz pra mim: se eu perder minha crença na humanidade, vou acreditar em quê?!?!

domingo, 3 de abril de 2005

A arte de ser pai


Mesmo antes de ter o primeiro filho já eu havia adotado o lema:
Ser pai é a arte de se tornar desnecessário.
Nem me lembro onde li isso, muito menos sei quem inventou essa definição.
Sei que procurei seguir por aí. Não é que deu certo?
Ontem, minha filha mais velha e minha neta vieram despedir-se de nós. Vão viver em Westport, Connecticut, USA, onde já está meu genro, à espera das duas.
Já na sexta à noite, minha filha ofereceu uma festa a seus amigos em uma casa noturna da Vila Olímpia. Quase duzentas pessoas foram despedir-se dela. Em particular, lá estavam as três amigas que a acompanham desde os tempos de escola. A amizade das quatro já atravessou várias fases. Não há o que as separe. Nem a distância conseguirá isso.
Ontem, enquanto minha filha nos explicava a respeito de duas oportunidades de emprego que a aguardam em New York, eu prestava mais atenção em sua desenvoltura do que propriamente naquilo que falava.
Nada mais gratificante do que constatar que os filhos são beeem melhores do que a gente.
E verificar que – quando eles nos procuram – é por afeto. Não precisam de nós pra mais nada.
Ainda bem.

sábado, 2 de abril de 2005

Do Golpe à barbárie
(o Brasil que eu conheci)


31 de março de 1.964. Eu acabara de completar 19 anos. Início da noite. O rádio começa a dar notícias importantes. Os governadores de São Paulo e de Minas Gerais, Adhemar de Barros e Magalhães Pinto, fazem declarações à imprensa contra o governo federal e conclamam à insurreição.
Militares saem de Minas Gerais em direção ao Rio de Janeiro sob o comando do General Mourão. Sem dar um único mísero tiro, os militares tomam o poder e instituem uma ditadura que duraria 20 anos.
31 de março de 2.005. Acabo de completar sessenta anos. Início da noite. Alguns policiais militares vão à baixada fluminense, Rio de Janeiro, e distribuem tiros ao acaso. Matam umas trinta pessoas. Por motivos ignorados, certamente fúteis.
Não sei se a coincidência de datas é ironia do destino.
Sei que nesses mais de quarenta anos o Brasil deteriorou-se a tal ponto que não vejo mais como sairá desse buraco.
Não há risco de barbárie. Ela já chegou e instalou-se.
E não adianta atribuir a culpa às “autoridades”. Quem cavou o buraco foi o povo brasileiro.

Certeza


Se o Vaticano fosse no Brasil, o Papa morreria exatamente a tempo de sua morte ser noticiada no final do Jornal Nacional da Rede Globo.

sexta-feira, 1 de abril de 2005

Dúvida


Se o céu é tão bacana como dizem, por que as pessoas pedem tanto a Deus que não deixe o Papa ir pra lá?

quarta-feira, 30 de março de 2005

Governo Zero


Agora vai.
Pra acompanhar as três refeições diárias que o companheiro Lulla prometeu pra peãozada por meio do Fome Zero, chegou a Coca-Cola Zero. A farinha, agora, vai descer redonda.

Foto surrupiada do Navego, logo existo II

segunda-feira, 28 de março de 2005

Post de auto-ajuda


Um colega de trabalho me contou uma historinha cheia de lições. Achei que pode ajudar muita gente:
Era uma vez um passarinho distraído que ciscava no meio do mato. Por ser distraído, não reparou que ciscava debaixo de uma vaca. Daí que a vaca cumpriu uma de suas missões na terra. A bosta caiu exatamente em cima do passarinho.
Atordoado, ele colocou a cabeça pra fora da bosta e começou a piar.
Com seus pios, atraiu um gato que se aproximou daquele jeito ligeirinho, típico dos gatos. Não deu outra. O gato comeu o passarinho.
Lições:
1 – Nem sempre quem te põe na merda te quer mal.
2 – Nem sempre quem te tira da merda quer teu bem.
3 – Quando estiveres na merda, é melhor nem piar. Pode piorar.

domingo, 27 de março de 2005

Ainda Gonçalves


Gonçalves fica na serra da Mantiqueira. Alguns dos rios da região caem para um lado do alto da serra (lado oeste), vão parar em Furnas, depois descem até o rio Paraná. Os que caem para o lado leste, vão desembocar no Tietê, que acaba no Paraná.
Resumo: toda a água que brota por ali vai desaguar no Paraná que vira Rio da Prata, passa por Buenos Aires, Montevideo e se mistura ao Atlântico.
Daí, dois comentários de que gostei.
Meu tio comentou que toda essa questão hidrográfica prova que é possível sair de Gonçalves e ir a Buenos Aires sempre descendo. Confesso que jamais me passaria tal ideia pela cabeça.
Já meu primo comentou que toda vez que fica com raiva de argentinos (coisa muito comum entre brasileiros), desce até ao riacho que passa em seu sítio, cospe nele e se tranqüiliza. Demora, mas o insulto chega a Buenos Aires.

sábado, 26 de março de 2005

Gonçalves


Estamos aqui em Gonçalves. A paisagem é uma das mais deslumbrantes que já vi. Rivaliza com o vale do Douro e com Bariloche
Como nada é perfeito, esquecemos de trazer máquina fotográfica.
Mas há histórias, por aqui.
Meu primo tem um cão extremamente dócil e educado. Não faz cara feia para ninguém, adora carinho.
Um dia, meu primo gastava conversa na varanda da casa de um vizinho. Mike, o cão, deitado a seu lado. Pelo caminho de terra vem caminhando um homem. Mike começa a rosnar. Meu primo estranhou o comportamento do cão. Ele nunca agira assim. Segurou-o junto a si. O homem passou por eles e entrou em uma casa pouco adiante. O cão voltou a sossegar. Alguns minutos mais tarde, o homem retoma o caminho, agora em sentido contrário. Novamente Mike começa a rosnar, ameaçador. Meu primo o segura. O homem se afasta. Meu primo pergunta ao dono casa se conhece aquele homem.
- Mora aqui ao lado. É um tipo estranho. Dias desses, matou o próprio cão a pauladas.
Meu primo arrepiou-se.
(Eu também, ao ouvir esse relato).

sexta-feira, 25 de março de 2005

Boa Páscoa


Como não sou cristão, achei estranho quando hoje, ao dizer "bom final de semana" aos companheiros de trabalho, recebi de volta um "boa Páscoa!" (com exclamação e tudo).
Lembrei, então, que não vou trabalhar amanhã justamente graças a isso. É semana santa.
Vou aproveitar a santidade desses dias e visitar meu primo que tem casa de campo em Gonçalves, município do sul de Minas Gerais, menos de cinco mil habitantes e clima de serra. Fica perto de Monte Verde, perto de Campos de Jordão.
Claro. Na volta, boto aqui umas fotos. Só pra dar água na boca dos amigos.
De resto,
Boa Páscoa, seje lá o que seje isso.

quinta-feira, 24 de março de 2005

Floripa e suas histórias


Foi demais. No sábado, um camarão dos deuses. Domingo, cozido de frutos do mar. Tudo com a água do mar quase a bater nos pés.
Meu sobrinho, paulista que já vive lá o tempo suficiente para partilhar o sentimento anti-gaúcho com os nativos, me informa que tudo em Florianópolis tem história. Nada é anódino.
Exemplo: a praia de Itaguaçu.

Bom mesmo, né
Além de linda, ela tem uma intrigante distribuição de pedras em suas águas.

Olha só a maneira como são distribuídas as pedras
Como entender isso? Fácil. Um grupo de bruxas resolveu dar uma festa. Tudo certinho. Só esqueceram de convidar o diabo.
Resultado: enraivecido, o capeta transformou-as em pedras. Assim:

E aquela pedra em cima da outra, à direita?

sábado, 19 de março de 2005

Até logo


Estamos de saída pra Floripa. Era pra ter sido ontem, a ida, mas o dilúvio que caiu sobre São Paulo não nos deixou chegar ao aeroporto a tempo de embarcar. Mas já já a gente embarca. Minha irmã, que mora lá, me pediu ajuda pra fazer umas coisinhas. Eu disse que telefono pra ela hoje, lá pelas três e pouco da tarde, pra conversar. Mal sabe ela que minha ajuda vai lhe custar uns camarões à beira mar.
Na volta ponho aqui umas fotos.
Tchau.
Beijinhos transmontanos.
Vamos a ver os manezinhos.

segunda-feira, 14 de março de 2005

Meu Bazar e os super blogs


Sexta-feira, dia 11, a Rosana Hermann indicou Meu Bazar de Ideias a seus queridos leitores (indicação da saltapocinhas).
Hoje descobri que Meu Bazar está entre os Blogs da Semana do Inagaki.
Tanto o Querido Leitor quanto o Pensar Enlouquece são blogs com coisa de mil acessos diários ou mais.
Desse jeito, vou ter de mudar o nome deste bloguinho aqui para Meu Shopping Center de Ideias.

Em tempo: Ontem, domingo, Meu Bazar foi citado no Divas & Contrabaixos, de Aveiro. Bom demais.

sexta-feira, 11 de março de 2005

Era uma vez - XIX
Luiz Eduardo da Rocha Merlino
o Nicolau


Lá por volta de maio de 1.971, Nicolau me escreveu, da França, dizendo que voltaria ao Brasil em agosto. Não sei, não sei mesmo, mas penso que dos que haviam fugido para Paris, Nicolau era o que menos se conformava com isso. Ele queria estar no centro dos acontecimentos, participar de tudo. Em suas cartas ridicularizava os esquerdistas franceses, que estendiam tapetes vermelhos para os membros de organizações que desenvolviam aqui no Brasil a luta armada. Achava tudo muito pouco sério, naquela Paris em que os militantes de organizações de esquerda iam para as reuniões carregando um pão debaixo de um braço e com o outro uma garrafa de vinho.
Sei lá.
A questão é que, nessa época, foi preso o Jonas, um companheiro nosso, arquiteto, ou estudante de arquitetura, não me lembro bem. Ele tinha poucos contatos, conhecia pouca gente. Não havia grande perigo com sua prisão. O que eu não sabia, era que ele conhecia Nicolau, de Santos. Conhecia sua família, sabia onde morava.
Jonas sabia que Nicolau estava na França. Para amenizar o pau, disse que sabia onde morava a mãe de Nicolau, em Santos.
Não sei porque, Nicolau voltou antes do combinado. Foi para casa da mãe. Lá foi preso.

***

Junto com alguns outros jovens militantes, fui a nossa primeira reunião de célula do POC. Corria o ano de 1.970. Estávamos acostumados a reuniões de estudo com o jornalista Reinaldo Lobo (irmão de um atual “astro” da TV de fofocas, Leão Lobo). Eram reuniões cercadas de alguns cuidados de segurança, é certo, mas levadas em clima razoavelmente ameno. Um belo dia, Reinaldo nos comunicou que passaríamos a integrar uma célula do POC e que seríamos apresentados a um coordenador novo. Ele, Reinaldo, sairia de cena (mais tarde soube que saía do partido, por discordar da evolução dos acontecimentos).
Foi assim que conheci Nicolau. Parecia sósia de Trotsky (desconfio que cultivava a semelhança). Parecia, também, algo mais velho que eu. Soube, depois, que era três longos anos mais novo. De cara, deu um esporro no grupo todo, ao criticar nossa despreocupação com questões de segurança. Disse que aquilo não era brincadeira, que a coisa era séria etc etc etc.
Daí pra frente, nasceu uma amizade sólida. Trabalhamos juntos até a partida dele, com a companheira Taís, para a França. Taís mora hoje em São Paulo. Nunca mais nos falamos. Tenho até o telefone dela. Não vou ligar. Não haveria nada a dizer.(1)

***

Nicolau adotou tática suicida, pelo que me contaram. Ao ser torturado, xingava seus algozes. Acredito que isso seja verdadeiro. Combina com seu estilo. Em função disso, foi pendurado no pau-de-arara durante catorze horas.
Aqui, vale uma explicação para os “leigos”. Pau-de-arara é um instrumento de tortura até hoje muitíssimo utilizado em prisões e departamentos policiais no Brasil. O cidadão (!?) é despido. Coloca-se por trás de seus joelhos um pedaço resistente de pau. Suas pernas são então dobradas e amarram-se suas canelas a suas coxas, deixando preso o tal pau entre suas pernas. Em seguida, o pau é colocado na posição horizontal, a mais ou menos um metro do chão, apoiado em cavaletes, ou em duas mesas, ou em qualquer outro tipo de apoio. O indivíduo fica, conseqüentemente, pendurado, de cabeça para baixo. A partir daí, vale a criatividade dos torturadores. Pauladas, choques elétricos nos órgãos genitais etc etc.
Só que – de tempos em tempos, coisa de 15 a 20 minutos – o indivíduo precisa ser retirado dessa posição para que o sangue volte a circular adequadamente para seus membros inferiores.
(Dizem que essa hora é a pior. O formigamento das pernas é quase insuportável.)
Quer dizer que, quando um preso diz que ficou três horas no pau-de-arara isso significa, a rigor, que ele ficou pendurado três horas, sim, mas em intervalos de 15 a 20 minutos, com interrupções. Exatamente como num programa de TV, com seu intervalos comerciais.
Com Nicolau não foi assim, pelo que me contaram. Ele foi pendurado e “esquecido” sozinho em uma sala. Durante 14 horas. Suas pernas gangrenaram. A morte veio poucos dias depois.
(Em função disso, todos nós, presos a seguir, não passamos pelo pau-de-arara. Parece que os chefões não gostaram do “erro” cometido pelo pessoal operacional.)
Antes disso, foram cobradas dele algumas informações. Pelo que me disseram, três: onde ficava minha casa; qual o endereço de Taís, na França; a terceira não me lembro. Tudo isso me foi contado por Ricardo Prata Soares, o “Hugo”, que já estava preso na época em que a equipe do major Ulstra (ou Ustra?) fez o que fez com Nicolau. Prata denunciou a tortura e morte de Nicolau em seu depoimento na justiça militar.

***

Aliás, Prata é um caso a ser analisado: preso com a esposa e com uma filha de poucos anos (três ou quatro), foi submetido – e também a esposa – a torturas que incluíram a ameaça de que se torturasse também a menina. Tratando-se de indivíduo normal, não resistiu e falou o diabo. Foi ele que colocaram diante de mim quando eu ainda teimava em afirmar que não tinha nada a ver com nada. Chegou na minha frente e disse que o Nicolau tinha sido morto e que todos estavam presos. Acabou com minha resistência. Eu, no lugar dele, faria o mesmo.
Só comecei a discordar do Prata quando, já no Presídio, ele começou a puxar desesperadamente o saco da turma da ALN e cercanias, no intuito de recuperar prestígio, já que fora taxado de traidor pelos inquisidores de plantão. Me lembro de uma tarde de sábado, dia de visitas, as famílias a conviver conosco no pátio do presídio. Prata e eu conversávamos num canto. Eu desancava a turma da ALN (no tempo em que eu tinha 26 anos eu era bravo) e ele: “Mas Renato (meu nome não era esse, é claro, eu era conhecido por outro pseudônimo) (2), se você ficar contra a esquerda, como você vai sobreviver?!”
Essa, na verdade, era a preocupação de boa parte do pessoal. Muitos dependiam dos contatos adquiridos na esquerda para arrumar emprego.
Parece, pelo que leio nos sites de esquerda, que o velho Prata – e sua Eleonora (3) – recuperaram o prestígio que haviam perdido. Que continuem felizes. Junto a mim, jamais perderam prestígio nenhum. Mas não sei se isso lhes interessa (4). Afinal, não tenho emprego para oferecer a ninguém.
Nicolau informou meu endereço. Só que não tinha mais como levar os policiais até a casa. Não conseguia mais andar (aliás, nunca entendi porque os militares não iam sozinhos, já que sabiam o endereço. Será que não dispunham de um guia da cidade?!). Prata os levou até lá. Pelo que ele mesmo me disse, não tinha conseguido manter os olhos fechados durante os transportes para minha casa e tinha descoberto em que local ela ficava.
Lembro, aliás, que durante o julgamento na Auditoria Militar, um amigo da família de Nicolau aproximou-se de mim e me perguntou se Nicolau podia ser considerado herói. Disse-me que a mãe dele queria saber se o filho era ou não herói.
Disse que sim. Que Nicolau era herói.
Não sei o que é um herói. Millôr Fernandes definiu certa vez: Herói é o cara que não teve tempo de fugir.
Ironias à parte, se Nicolau não é herói, quem é?
Cada vez sei menos. Não sei se valeu a pena Nicolau ter dado a vida por essa causa. Não sei se seria melhor se tivesse cedido logo no início. Não sei.
Sei que Nicolau era uma pessoa daquelas que me fazem – ainda – acreditar no ser humano.
Até nunca, Nicolau.
Jamais vou esquecer que tentamos melhorar esta merda deste país.
Mas, decididamente, ele não merece caras como você.

Notas acrescentadas em 27/09/2014:
1) Soube, há pouco, que Taís (Ângela Maria Mendes de Almeida) chegou a viver um tempo cá em Portugal. Espero que a estadia cá tenha feito bem a ela.
2) Quando escrevi esse texto eu ainda usava o pseudônimo de Renato Santos Passos. Meu nome de guerra, pelo qual era conhecido no presídio, era Guerra.
3) Eleonora Menicucci, atual ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, no governo Dilma. Ela e Prata parece que já estão separados há muitos anos.
4) Ricardo Prata parece não ter gostado das coisas que escrevi aqui. Mandou-me e-mail a mostrar algum aborrecimento. Pedi a ele que escrevesse o que bem entendesse. Ele me mandou um primeiro texto, que publiquei, mas não escreveu mais nada e rompeu o contato.

terça-feira, 8 de março de 2005

domingo, 6 de março de 2005

Viva a saltapocinhas


Podem me chamar de bocó (esse termo nem mais se usa), mas várias vezes me emociono com detalhes da educação em Portugal. É o facto, por exemplo, de um concelho pagar a um taxista pra que leve à escola - todo santo dia - um aluninho perdido em alguma aldeia remota. Essa destinação de uma fatia do orçamento demonstra a importância que os portugueses reconhecem na educação. Eles, de natural tão pão-duros, "esbanjam" para que uma criança tenha acesso ao estudo. Sei que mesmo assim é pouco. Meus primos do Alentejo me contaram que a escola em que estuda sua filha não consegue verba pra pagar a alguma senhora pra que fique com as crianças nas horas em que não está a professora. Mas, comparada a situação portuguesa à brasileira, não. Não há comparação. Crianças do sertão andam quilômetros, todos os dias, para ter acesso à escola. Quando há escola. Afinal, nossos atuais dirigentes esnobaram escolas e estudos e "deram certo". Pra quê desperdiçar dinheiro com essas bobagens?
Tudo isso a propósito de uma professora de Aveiro que teve a idéia de fazer seus alunos da segunda série (imagino que crianças em torno dos oito anos, por aí)produzirem um blog.
Não deixem de visitar o Blog dos Golfinhos.É, antes de tudo, um tributo ao futuro. Um investimento na qualidade da posteridade.
Quase dizia que é uma pena que "saltapocinhas" seja pseudônimo. Gostaria de homenagear a pessoa verdadeira que se esconde sob esse rótulo.
Ao pensar mais um pouco, descubro que isso é bom. No pseudônimo, com seu caráter anônimo, fica uma homenagem a tod@s @s professor@s portugueses.

A Presa soltou-se


Depois de quase um mês ausente da blogolândia, José Carlos Barros soltou o verbo, em A Presa do Padre Pedro. E tem cada texto lá, que nem te conto.
Ou melhor, reproduzo só um pequenininho, pra dar água na boca:
Para sempre
Durou o quê? Um fósforo. E no entanto escrevíamos os recados do amor com tinta permanente.

sábado, 5 de março de 2005

Queijos, vinhos e amigos


Esta noite de 04 de março foi especial. Ordisi Raluz nos recebeu em sua casa para um Queijos & Vinhos. Era pra ser um encontro de ex-alunos do Colégio Alberto Comte, mas terminou por ser um encontro de blogueiros. Não adianta. O vício é terrível.
Lá estavam: os anfitriões, Ordisi e sua Çaríssima metade, Branco Leone e ela, Che Caribe e ele, Luiz Brandão e Vânia, a baixinha e eu.
Fora Brandão e Vânia, todo mundo ligado em blogs. Não deu outra. Conversa vai conversa vem, o assunto Alberto Comte esgotou e o papo resvalou pros blogs.
Lá pela uma da manhã, Brandão e Vânia tiveram de ir embora.
O restante da turma rolou papo até às duas e pouco. Quando íamos cair fora, meu carro resolveu negar bateria. Chama socorro, coisa e tal, saímos da casa de Ordisi lá pelas três.
Ao contrário do carro, saímos com baterias carregadíssimas.

sexta-feira, 4 de março de 2005

Era uma vez - XVIII
Caindo na teia


Era final de julho. Voltávamos da praia. Estrada livre, nenhum movimento. Minha mulher e eu olhávamos para frente. Víamos o asfalto estendido adiante, ladeado por plantações, pastos, esparsas construções. Mas, principalmente, olhávamos para a frente de nossas vidas. E víamos um período de reflexão, de estudo. Voltávamos das férias com decisões tomadas: sair da organização, parar com aquele corre-corre da militância política, reservar tempo para ler mais, pensar mais.

***

O primeiro semestre de 1.971 estava sendo marcado por uma evolução rápida na situação da esquerda brasileira. Acuadas, cada vez mais abandonadas pelos “simpatizantes” (aquele pessoal da pequena e da alta burguesia que pretendia lavar seus pecados na água benta da revolução prestando pequenos serviços aos militantes, mas preservando suas vidas dentro do quadro do “milagre” brasileiro dos anos setenta), as organizações clandestinas perdiam quadros aceleradamente. Uns eram presos, muitos fugiam para o exterior, outros simplesmente sumiam, esperando que seus nomes fossem esquecidos e que pudessem refazer suas vidas.
Eu, que tinha pouco tempo de militância, me vi alçado de uma hora pra outra à direção nacional do POC (Partido Operário Comunista, dissidência da POLOP). Meus orientadores (Ângela Maria Mendes de Almeida (Taís), Luiz Eduardo da Rocha Merlino (Nicolau), Emir Sader), todos correram para o abrigo da Europa. De lá, escreviam mostrando um crescente distanciamento de nossa realidade. Quanto mais a situação aqui piorava, mais eles nos conclamavam à luta sem tréguas. Sem dúvida, ser revolucionário sul-americano em Paris era bem mais fácil.

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O carro deslizava na estrada. Mas nossa idéia era fixa: interromper aquela loucura antes que fosse tarde. Durante um mês inteiro de férias havíamos discutido a nossa situação. Chegáramos à conclusão de que não havia mais o que fazer. Era preciso parar. Parar, pensar, refazer planos. Chegando a São Paulo, eu iria providenciar a devolução da casa em que morávamos, na realidade um “aparelho” da organização. Alugaríamos outra casa, sem vínculos com a militância. Íamos começar tudo outra vez.

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Antes de partir para a França, Nicolau me passara a casa da avenida Chibarás, Moema, São Paulo. Era uma casa térrea (se desconsiderarmos o sótão), de dois quartos, sala, cozinha e banheiro, situada em um enorme terreno. Tinha entrada lateral para automóvel e, ao fundo, além de uma garagem, um grande quintal com algumas árvores frutíferas. O importante, do ponto de vista logístico, era que se tornava possível entrar na casa com o carro, ir até o fundo, desembarcar ao abrigo de olhares estranhos e entrar na casa pela porta da cozinha.
Por todo o primeiro semestre de 1.971, essa casa foi usada para reuniões da direção nacional do POC. Eu levava para lá, na sexta-feira, um por um, os membros do Comitê Central, fazíamos a reunião ao longo do sábado e do domingo. Ao final, eu devolvia todos a pontos indicados por cada um deles. Todos iam e voltavam de olhos fechados. Ninguém sabia onde ficava a casa. Ou melhor, quase ninguém. Isso ficaria claro mais tarde.

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Entramos em São Paulo saindo da via Dutra. Algum tempo depois estávamos perto de casa. Parei junto a um telefone público para fazer algumas “verificações”. Afinal, já fazia um mês que saíramos de casa. Liguei para um amigo que também era professor na USP (Universidade de São Paulo), no mesmo instituto que eu.
- Tudo bem por aqui?
- Tudo. Sem novidades.
Era o que eu queria ouvir. Em seguida, liguei pra minha mãe. Se não houvesse nada de anormal na USP, nem em minha família, é porque não havia problema.
Minha mãe só disse que estava com saudade. De resto, tudo certo.
Rumei para casa.

***

Tudo foi se acumulando sobre minha cabeça. Os simpatizantes que guardavam a biblioteca do partido pediram para que tirássemos da casa deles todo o material. Morriam de medo. Lá fui eu buscar tudo e colocar na casa da Chibarás. Os que guardavam armas, com mais razão, pediram para livrar-se delas. Também carreguei tudo comigo. Dentro da casa, minha mulher e eu tínhamos de andar pulando sobre caixas de livros e de armas. Não havia como não perceber que a situação se tornava insustentável. Eu ainda mantinha uma vida dupla, ou seja, ainda não caíra na clandestinidade. Era professor da USP e mantinha a militância como atividade paralela. É bem verdade que essa atividade ocupava quase que as vinte e quatro horas de cada um dos meus dias.
Foi chegando o mês de julho. Férias na Universidade. Depois de longas conversas com minha mulher, resolvemos que devíamos pedir licença no Partido, viajar para uma praia na qual o pai dela tinha casa e usar esse tempo para pensar.

***

Entrei na avenida Chibarás e dirigi rumo ao bangalô em que morávamos (morávamos? Não, militávamos, seria mais adequado). Diante dele parei o carro. Olhei para a fachada da casa. Tudo estava tranqüilo. Os jornais acumulavam-se junto ao portão de entrada lateral. Mas, sabe como é, seguro morreu de velho, resolvi dar mais uma volta no quarteirão.

***

Na praia do Lázaro, Ubatuba, naquele tempo, nem luz elétrica havia. Tínhamos, na casa confortável de meu sogro, lampiões de querosene para iluminar tudo (ou já havia luz elétrica? Não sei mais.). Ao chegar lá, começamos a ler os livros que havíamos levado (já não me lembro quais eram, mas havia muito Marx). Sei que conversamos muito, nesse mês. E decidimos que iríamos parar com a militância política, levar uma vida de estudos e esperar a situação evoluir para decidir mais adiante quanto ao futuro mais remoto.

***

Dada a volta no quarteirão, lá estávamos de novo diante da casa. Olhamos um para o outro. Entramos? Sim, vamos lá. Desci do carro, peguei do chão aquele bolo de jornais velhos, afastei-os do caminho, abri o portão. Entrei com o carro. Fui até o fundo, como costumava fazer quando levava os companheiros para reuniões do Comitê Central.
Ainda dentro do carro, olhei para a porta da cozinha. Notei a falta de um vidro na porta. A porta da cozinha era metade (a de baixo) madeira, metade um quadriculado de pequenos vidros, por trás dos quais havia uma portinhola de madeira que impedia que se visse dentro.
Um deles estava quebrado.
- Ladrão. Entrou ladrão na casa enquanto estávamos fora.
Incrível minha capacidade de imaginar sempre a “melhor” hipótese.
Fazia frio. O inverno de 1.971 foi particularmente frio, para os padrões de São Paulo.
Desci do carro, guarnecido por uma “japona”, casaco que se usava na época.
Estava quase alcançando a maçaneta da porta quando essa se abriu, abruptamente, e – de dentro da “minha” cozinha - saíram vários indivíduos, todos à paisana, portando metralhadoras.
Formaram um círculo à minha volta. Ordenaram à minha mulher que descesse do carro e se juntasse a mim.
Minha maior preocupação, nessa hora, foi a de acalmar um dos membros do círculo. Um jovem, quase imberbe, que certamente cumpria sua primeira missão de combate, tremia tanto que temi que sua metralhadora disparasse à sua revelia.
Começava o fim.

quinta-feira, 3 de março de 2005

De como a elite brasileira trata a plebe


Essa discussão, a meu ver absolutamente ridícula, a respeito do aumento de salário dos parlamentares brasileiros me lembra uma história dos anos setenta.
Havia, na Avenida Paulista, São Paulo, uma loja de roupas femininas dedicada à aristocracia brasileira. Digo aristocracia, porque não era qualquer novo rico que podia sentir-se à vontade lá. O local era dedicado a condessas e coisas do tipo: mulheres de sobrenomes “quatrocentões”, como se dizia naquele tempo. É claro que as esposas de presidentes – naquele tempo, generais – eram bem recebidas. Mas, entre os funcionários da loja, eram ironizadas graças à sua origem pequeno-burguesa (e, com a exceção da esposa do general Geisel, graças à avidez com que disputavam vestidos e complementos).
Pois bem. Perto da dita loja (que ocupava um casarão dos poucos restantes na Paulista) ficava a rua Augusta, naquele tempo rua de comércio voltado para a classe média.
Ocorria com alguma freqüência que uma senhora levasse sua filha casadoira a passear na rua Augusta para escolher um vestido de noiva. Esgotadas as vitrines/montras da dita rua (como todos sabem, a voracidade das mulheres por vitrines é inesgotável), a dupla partia para uma incursão pela Avenida Paulista. Logo, logo, esbarrava na loja de Madame Rosita. Exposto na vitrine, lá estava um vestido de noiva absolutamente simples na sua brancura e em seu despojamento perfeitamente elegante, como convém à aristocracia.
Mamãe ficava excitada.
- Vamos olhar esse vestido!
Entravam.
Eram atendidas por uma vendedora muito gentil. Perguntavam o preço do vestido da vitrine. A vendedora, bem treinada, informava que o vestido custava 3.000 dinheiros.
Mamãe e filhinha olhavam-se, consternadas, agradeciam e partiam. Era muito para suas posses.
Mal sabiam elas que o vestido – na verdade – custava 30.000 dinheiros.

quarta-feira, 2 de março de 2005

A compreensão me escapa


Já outro dia, ao ler o Empatia, dei de cara com o método de Hondt. Deve ser algum português que migrou pra Alemanha. Afinal, dizem que alemão é simplesmente um português que sabe matemática.
Mas há outras coisitas que eu não compreendo. Por exemplo:
Consegui minha nacionalidade portuguesa em dezembro de 2.003. Isso significa, entre outras coisas, que passei a ter uma certidão de nascimento portuguesa. Vai daí, é preciso averbar, nessa certidão, todos os atos de minha vida (ou morte) civil. Corri, então, a averbar meu primeiro casamento, até mesmo porque só então meus filhos (que são desse primeiro matrimônio) poderiam pleitear a nacionalidade tão almejada. Bem, isso tudo transcorreu na santa paz.
A seguir, era preciso averbar meu divórcio, para - depois - poder averbar meu segundo casamento.
É aí que entra uma diferença que, talvez, algum causídico português que passe por este blog possa me explicar:
O casamento a gente averba administrativamente, de modo simples, mediante - claro, claro - o pagamento de uma "módica" contribuição ao Estado Português.
Já o divórcio exige que se instaure, na Justiça Portuguesa, uma ação de Revisão de Sentença Estrangeira. Trocando em miúdos: é preciso pedir à Justiça Portuguesa que avalise, reconheça, aceite, ou o que seja, a decisão da Justiça Brasileira que nos concedeu - a mim e à minha ex-mulher - o divórcio.
Até aí tudo bem. Espero que tal reconhecimento ocorra e que eu possa prosseguir no longo caminho de transformar toda minha família em família portuguesa.
Mas, vem cá: e se a Justiça Portuguesa nega tal reconhecimento. Como é que fica?
Fico casado com minha mulher no Brasil e com minha ex-mulher em Portugal?
Seria a bigamia internacional.
E o que é que eu digo lá em casa?!