terça-feira, 12 de agosto de 2014

Do Abuso das Metáforas


O Boletim Carta Maior, um dos Pravdas da imprensa brasileira, perpetrou agora, dia 09/08/2014, um Editorial para malhar um dos candidatos da oposição  No caso, o já conhecido como Aéreo Never. 



Mesmo dada a existência de um sortido elenco de acontecimentos reais à disposição de quem queira provar o grotesco da candidatura em questão, o citado Granma resolveu apelar às metáforas. E mandou ver:
"As pesquisas de intenção de voto exalam um cheiro de queimado e a fumaça ondula na direção do palanque conservador."

Como não sou bom nesses mistérios metafóricos, fui ao pé das letras:
Ora, se há fumaça que chega ao palanque conservador e sabendo-se que o caráter 'bipolar' da esquerda exige que existam sempre e apenas dois palanques, o conservador e o progressista, algo me indica que é neste último que o fogo se alastra.

Espiritismo e Antroposofia - 05


A comunicação com o mundo espiritual

Ainda sobre os dois primeiros passos da cognição por iniciação:
“O discípulo (…) não tem mais, à sua frente, os pensamentos sem vida adquiridos na cognição passiva, mas um mundo interior dinâmico que ele sente tal como o sangue que o percorre ou a respiração que o permeia.”.
“Aí aquelas imagens – os pensamentos de antes - (…) transformaram-se em autênticas imaginações vivenciadas (…) em duas dimensões; mas não como se estivéssemos diante de um quadro pintado no mundo físico – quem os vê assim tem visões, mas não imaginações -, mas como se nós, com nosso próprio ser (que teria perdido sua terceira dimensão), nos estivéssemos movendo dentro delas.”
“O autêntico conhecimento superior só existe quando, por exemplo, as cores vividas numa imaginação real não são vistas, como o seriam no mundo físico, e sim vivenciadas. (…) Sentimos o vermelho como algo que nos ataca, que investe contra nós. (…) A cor verde nos proporciona uma experiência de serenidade que não acarreta nem dor nem prazer. No azul temos a sensação da devoção, do abandono. (…) quando algo no mundo espiritual vem ao nosso encontro de um modo agressivo, sentimos que isso corresponde à cor vermelha. Se algo provoca em nós uma sensação de devoção, essa vivência corresponde àquela que temos no mundo físico com as cores azul ou azul-violeta. Abreviando nossa maneira de expressar-nos, dizemos então que tivemos, no mundo espiritual, a experiência de um vermelho ou de um azul.”
“(...) essa passagem para o supra-sensível, esse abandono visual que ao mesmo tempo constitui uma vivência concreta, está sempre presente. É nessa vivência concreta que sentimos o pensar vindo a ser um órgão tátil que preenche todo o organismo humano: sentimo-nos como que espiritualmente apalpando um mundo novo, que, na realidade, ainda não é o verdadeiro mundo espiritual, mas aquele que eu chamaria de mundo das forças plasmadoras, ou etérico.”
“Eu gostaria de descrever, por meio de uma comparação, a maneira como se vive no mundo etérico:
Um dedo é parte viva de nosso organismo. Se o cortamos, ele deixa de ser o que era: deixa de viver e morre. Se esse dedo tivesse consciência, diria: 'Eu sou algo apenas quando faço parte do organismo, mas não possuo essência autônoma.' é assim que deveríamos falar no momento em que o conhecimento imaginativo nos fizesse participar do mundo etérico. Aí não nos sentimos mais como seres separados e individualizados, mas como membros de todo o mundo ou cosmo etérico. Aprendemos que o que faz de nós indivíduos e personalidades é o fato de possuirmos um corpo físico. O corpo físico individualiza; faz de cada um de nós uma entidade isolada.
Mais tarde veremos que podemos ser individualizados também no plano espiritual.”

“ (…) o discípulo deve, mediante um esforço próprio, fazer desaparecer de sua consciência tudo o que havia conquistado: a imaginação, a visão do próprio panorama da vida; deve fazer com que a consciência se torne vazia. Só quando tivermos adquirido essa consciência esvaziada é que compreenderemos a verdadeira maneira de ser das coisas no mundo espiritual. Então ficamos sabendo que o que havíamos percebido antes não era ainda o mundo espiritual, mas apenas uma visão imaginativa desse mundo. Só agora, na etapa da consciência vazia, o mundo espiritual flui para dentro de nós, por meio do pensar 'apalpador', tal como o mundo físico entra em nós através dos sentidos.”

“Quando, porém, alcançamos a consciência vazia, nossa alma é tomada por um mero estado de vigília, e este pressupõe um certo silêncio e repouso. Este repouso pode ser caracterizado da seguinte maneira:
Imaginemos estarmos numa cidade barulhenta. (…) Resolvemos então sair da cidade e, a cada passo, o barulho diminui. (…) No fim, chegaremos a um bosque absolutamente silencioso, onde nada mais escutamos. Chegamos, por assim dizer, ao ponto zero da audibilidade.
(…) Imaginemos termos dinheiro na carteira; gastando cada dia uma parte, a quantidade diminui, da mesma forma como a audibilidade diminui ao nos afastarmos do centro da cidade. Chegará o dia em que nossa carteira estará vazia, situação que comparamos ao grau zero de audibilidade. Mas se quisermos continuar a comer, que deveremos fazer? Faremos dívidas. (…) Quanto dinheiro teremos então no bolso? Menos que zero. (…) Imaginemos nesta altura uma situação idêntica para o silêncio. Não haveria apenas a tranquilidade absoluta, o ponto zero do silêncio, mas o caminho continuaria – haveria o negativo da audibilidade, mais silencioso que o silêncio.
(…) Quando chegamos a essa audibilidade interior negativa, a esse silêncio mais intenso que o silêncio total, então estamos penetrando no mundo espiritual de uma forma tal que ele não apenas se nos torna visível, mas começa a soar. O que antes era apenas visto intensifica-se, através do som, para um mundo ainda mais vivo. Aí estamos bem dentro do mundo espiritual.”

“O grande sentimento cósmico de felicidade, que descrevi há pouco, transforma-se, neste momento em que estabelecemos aquela consciência vazia acompanhada de silêncio, numa dor não menos intensa, num sofrimento imenso da alma. Então passamos pela experiência de que o mundo é feito sobre o fundamento de uma dor cósmica, ou melhor, de um elemento cósmico que o homem só pode experimentar com profunda dor. E aprendemos a verdade (…) de que toda existência nasce, em última análise, da dor.”
“O plano em que ora chegamos depois de alcançar, além da imaginação, o silêncio total – esse plano em que se manifesta o mundo espiritual através das cores e dos sons, conforme indiquei -, é essencialmente diferente daquele que percebemos com os sentidos físicos. (…) É possível nos ambientarmos nesse mundo da inspiração, encontrando nele as origens de todas as coisas terrestres. Conforme já mencionei, nele encontramos nossa própria existência pré-terrestre. Precisando de uma terminologia (embora o nome em si não tenha relevância), tenho chamado esse mundo, situado além do imaginativo, de astral (…) e aquilo que carregamos em nós proveniente daquele plano e trazido para os corpos físico e etérico pode, por isso, ser chamado de corpo astral. Inserida neste encontramos, finalmente, a verdadeira organização para o eu humano. /...) o ser humano aparece, pois, composto de quatro membros, ou seja: os corpos físico, etérico (ou das forças plasmadoras), astral e a organização para o eu. Para se conhecer o eu é preciso fazer mais um passo na cognição superior, passo que tenho chamado de intuição em meus livros anteriores, notadamente em O conhecimento dos mundos superiores (A iniciação).


[continua]

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Espiritismo e Antroposofia - 04


A comunicação com o mundo espiritual

Para a Antroposofia, o que descrevemos até aqui constitui o primeiro passo na cognição por iniciação.
“Pois bem, o que primeiro se vivencia dessa maneira é o verdadeiro autoconhecimento. (…) Tudo aquilo que vivenciamos no passado – e que normalmente só pode ser ressuscitado como representação mental – se nos oferece como um panorama atual, onde acontecimentos há muito tempo esquecidos se tornam presentes. Situações idênticas são descritas por pessoas que sofreram um choque devido a um perigo de morte, em caso de afogamento, etc. (…) Tal panorama coloca-se de fato, à frente de quem ativou seu pensar, qual um quadro abrangendo todo o período desde que se aprendeu a pensar até o presente momento. O tempo se transforma em espaço, o passado em presente. Estamos diante de uma imagem. A característica nesta situação (…) é ter-se ainda uma espécie de sensação de espaço (já que a visão se parece com um quadro), mas apenas uma sensação – pois a esse espaço que se vivencia nesse instante falta a terceira dimensão. (…) em toda parte esse espaço é percebido em duas dimensões apenas, de forma que o conhecimento é pictórico. Por isso chamo essa cognição de imaginativa (…) É uma cognição em imagens, e que se apresenta em duas dimensões.”
“A verdade é que, ao se progredir do físico para o espiritual, não é uma quarta dimensão que nasce, mas é a terceira que desaparece. (…) para penetrar no espiritual, não se acrescenta uma quarta dimensão às três já existentes, mas volta-se à segunda. E veremos que se acabará voltando à primeira dimensão.”
“O que está ligado a essa cognição imaginativa é um sentimento subjetivo de imensa bem-aventurança.”
“Quando se chega a essa experiência, torna-se necessário progredir mais um passo, que ninguém gosta de dar”.

“Quando se quer dar o próximo passo, essa sensação de felicidade deve primeiro ser esquecida, pois nessa altura, depois de se ter ativado voluntariamente o pensar por meio da meditação e da concentração do pensar, e de ter, a partir daí, chegado à visão da própria vida, mister se torna eliminar tudo isso da pr´pria consciência com toda a energia. (…) Os Senhores certamente sabem que um indivíduo acaba adormecendo quando o privamos, pouco a pouco, de todas as impressões sensoriais, escurecendo e silenciando o ambiente para que ele nada ouça – enfim, suprimindo todas as impressões da vida cotidiana. Mas essa consciência vazia, que normalmente conduz ao sono, deve ser provocada voluntariamente – e todavia o homem, depois de apagar todas as impressões gravadas em sua consciência, deve permanecer acordado. (…) Essa é a obtenção da consciência vazia, mas de uma consciência vazia plenamente vigilante.”
“Ora, quando é estabelecida a consciência vazia, graças à supressão de tudo o que nela foi introduzido mediante energia redobrada, essa consciência não permanece vazia, concretiza-se a segunda etapa da cognição, a qual, em contraste com o conhecimento imaginativo, pode ser chamada de inspiração. Depois desses preparativos, o mundo espiritual pode apresentar-se diante de nossa alma da mesma forma como o mundo visível se oferece à vista, ou o audível ao ouvido. Passamos a ter, diante de nós, não a própria vivência, mas o mundo espiritual, que investe contra nós. (…) então aquilo que primeiro penetra em nossa consciência vazia é nossa existência pré-terrestre, aquela que tivemos antes de descermos, por meio da concepção, a um corpo terrestre.”
“(...) nãp chegamos à imortalidade, isto é, à negação da morte, mas à inatalidade, isto é, à negação do nascimento. Ser inato faz parte da essência humana tanto quanto ser imortal. (…) Todas as línguas modernas possuem a palavra 'imortalidade'; mas a 'inatalidade', que as línguas antigas possuíam, foi perdida.”


[continua]

Espiritismo e Antroposofia - 03


A comunicação com o mundo espiritual

No texto nº 2 resumi a forma como se dá a comunicação dos Espíritos conosco, segundo o Espiritismo.
Vou procurar resumir como se dá a comunicação com o mundo espiritual, de acordo com a Antroposofia.
Neste caso, resumir é ainda mais difícil. Corre-se o risco de confundir “resumir” com “amputar”. Por isso, peço que encarem o que segue apenas como estímulo para leituras mais prolongadas. O que vai a seguir é tirado de uma série de conferências que Steiner proferiu em 1.923, na Inglaterra. Elas foram reunidas no livro “O Conhecimento Iniciático”. Mas o mesmo assunto é tratado em outras obras do criador da Antroposofia.

Antroposofia:
Em todas as épocas, “o tipo de cognição que conduz do sensível ao supra-sensível foi chamado (…) de cognição por iniciação.” Qual a maneira pela qual se pode chegar a esse conhecimento iniciático nos dias de hoje?
Steiner parte de uma reflexão sobre o pensar. Para ele, “em toda a nossa existência terrena, ele [o pensar] exerce uma função inteiramente passiva.” Isso quer dizer: “Do despertar até o adormecer, o homem se abre ao mundo em redor. Deixa que lhe advenham as impressões sensórias, com as quais vêm combinar-se as representações mentais. As impressões sensoriais vêm e vão; o que fica na alma são as representações, que paulatinamente se transformam em recordações. (…) As representações obtidas da vida ordinária nada contêm que não haja penetrado na alma a partir do mundo exterior, isto é, da observação pelos sentidos.”
O primeiro passo na senda do conhecimento iniciático consiste em “a transição do pensamento meramente passivo para a ativação íntima do pensar.”.
Como efetuar tal transição? Steiner especifica três modos. O último deles: “Tomemos e abramos em qualquer página um livro que, temos certeza, nunca tivemos em nossas mãos; lendo então uma frase qualquer, a esmo, podemos estar seguros de tratar-se de uma sentença que devemos abordar por uma atividade interior. Façamos de tal sentença, ou de um personagem de tal livro, o conteúdo da nossa meditação: que seja algo com que nunca antes nos tenhamos deparado. (…) Em toda meditação realizável hoje em dia, o importante é que seja feita a partir da atividade interior, da vontade no âmbito do pensar, o que é justamente o menos apreciado na contemplação exterior passiva e na ciência moderna.”.
“Desta forma alcançamos um pensar ativo. A rapidez com que essa evolução se realiza depende da natureza da própria pessoa. Um pode atingir a meta em três semanas, caso sempre repita os exercícios – de preferência sempre os mesmos; outro precisará de cinco, sete, dezenove ou mais anos.(...) Em dado momento, chega-se realmente a conhecer uma maneira de pensar diferente da habitual. Conhecemos então um pensar que não se desenrola em imagens passivas, como normalmente acontece, mas que está interiormente ativo (…) Conhecemos um pensar – e aqui não estou falando simbolicamente, mas dizendo a verdade real e concreta – capaz de chocar-se com algo e do qual sabemos que pode esbarrar em alguma coisa. Do pensar comum sabemos que nunca esbarra em nada. Quando bato numa parede a ponto de formar-se um galo, é meu corpo físico que esbarro, por intermédio de minha força tátil. (…) O novo pensar a que chegamos é algo real dentro do qual vivemos. Esbarra como o dedo esbarraria numa parede. (…) Este é o primeiro passo a ser dado: ativar o pensar até transformá-lo num órgão anímico de tato.”
“E aquilo que se desenvolve graças à atividade do pensar é o primeiro membro supra-sensível do homem.(...) Temos inicialmente o corpo físico. (…) Temos depois o primeiro membro supra-sensível. Precisando de uma terminologia, chamemo-lo de corpo etérico.(...) O pensar se transforma num tatear supra-sensível, e este percebe e vê num sentido superior o corpo etérico ou plasmador do homem. Este é, por assim dizer, o primeiro passo real para dentro do mundo superior.”
“Quem entrou num mundo espiritual por meio do caminho descrito por nós, adquirindo a capacidade de tocá-lo ou apalpá-lo, sabe distinguir muito bem se apenas representa as coisas a posteriori, com seu pensar ativado, ou se este realmente lhe abre novas percepções. Na vida cotidiana, temos um paralelo eloquente quando colocamos por inadvertência o dedo numa chama ou se mentalizamos a seguir: eis a chama, agora penetro nela com o dedo. Aí a diferença é viva: num caso sofremos uma dor real; no outro, apenas a imaginamos. Essa diferença é experimentada, num plano superior, conforme vivenciamos ou apenas representamos mentalmente os mundos superiores.”.


[continua]

sábado, 9 de agosto de 2014

Espiritismo e Antroposofia - 02


A comunicação com o mundo espiritual

Começo por essa questão por uma razão epistemológica. Ou seja, se vou perguntar ao Espiritismo e à Antroposofia como cada um deles entende ser o mundo espiritual, é importante saber como cada uma dessas correntes de pensamento adquiriu tal conhecimento.
As formas de que tais correntes se utilizam para conhecer o mundo espiritual pode nos dizer algo a respeito do grau de validade das informações que elas nos transmitem.
Além disso, é evidente que nosso juízo a respeito do que delas ouvirmos dependerá bastante da coerência interna daquilo que nos apresentarem.
Vamos, então, explicitar resumidamente o modo como o Espiritismo e a Antroposofia adquirem o conhecimento do mundo espiritual.

Espiritismo:
Para ser o mais sintético possível, valho-me do livro de Allan Kardec “O Que é o Espiritismo”, um resumo das obras básicas do mesmo autor.
Os espíritos “são as próprias almas dos que viveram na terra onde deixaram o seu invólucro corporal, que povoam os espaços, nos rodeiam e nos acotovelam constantemente (...)”. “Não são seres abstractos,(...) possuem um invólucro a que damos o nome de perespírito, espécie de corpo fluídico, vaporoso, diáfano, invisível no estado normal”.
“Quanto aos meios [de comunicação conosco], são muito variados.(...) O mais vulgar (…) consiste na intuição, quer dizer, nas ideias e nos pensamentos que nos sugerem; mas este meio é muito pouco apreciável na generalidade dos casos; existem outros mais materiais.”
“Certos Espíritos comunicam através de pancadas dadas respondendo sim ou não ou designando as letras que devem formar as palavras. As pancadas podem ser obtidas pelo movimento de báscula de um objecto, uma mesa por exemplo, que bate com o pé. (…) Esta forma primitiva é demorada e dificilmente se presta a desenvolvimentos de uma certa extensão; a escrita substituiu-a.”
“Os Espíritos manifestam-se ainda e podem transmitir os seus pensamentos através de sons articulados que se repercutem quer no vago do ar, quer no ouvido, pela voz do médium, pela vista, por desenhos, pela música e por outros meios que um estudo completo dá a conhecer.”

Apareceu aí a figura do “médium”, que é pessoa dotada da capacidade de receber tais comunicações dos Espíritos e escrevê-las ou transmiti~las por voz etc. Temos, então, “os médiuns auditivos, falantes, videntes, desenhadores, músicos, escritores.”.

A questão que me parece crucial, aí, é a da confiabilidade das informações passadas pelos Espíritos aos médiuns. Como alerta o próprio Kardec: “As comunicações de além-túmulo estão rodeadas de mais dificuldades do que se pensa; não estão isentas de inconvenientes, nem mesmo de perigos, para os que não possuem a experiência necessária.”.

As dificuldades encontram-se dos dois lados: do lado do médium e do lado dos Espíritos.
Em relação ao médium: “Até agora não se conhece nenhum diagnóstico para a mediunidade (…); tentar é a única maneira de saber se somos dotados. (…) Se a mediunidade se traduzisse por um sinal exterior qualquer, isso implicaria a permanência da faculdade, enquanto que ela é essencialmente móvel e fugitiva.”.
Em relação aos Espíritos: “Os Espíritos levianos (…) muitas vezes troçam dos assistentes e respondem a tudo sem se preocuparem com a verdade.”.

Como se percebe, a confiabilidade das informações é de difícil verificação. Ainda teremos oportunidade de conversar sobre vários casos que ilustram essa dificuldade.

No próximo texto veremos como a mesma questão se coloca para a Antroposofia.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

A intransigência da Fé


Como escrevo sobre assuntos religiosos ou afins, sou criticado por alguns por querer destruir a fé das pessoas.
Tenho a dizer sobre isso:
Primeiro – Se a fé é tão pouca que possa ser por outrem destruída, então talvez ela nada valha mesmo.
Segundo – Não quero destruir fé alguma. Gostaria, sim, de contribuir para diminuir a intransigência.

Explico por meio de um exemplo: já várias vezes vi citado, no Facebook, o famoso Salmo 23.
Segundo a maioria das traduções, ele começa assim:
O Senhor é o meu pastor, nada me faltará.

Pois bem. Comecemos por dizer que, no original hebraico, não há esse “nada”.
Uma tradução literal seria bem diversa da habitual. O ambiente do poema – e se trata de um poema . Um salmo – é pastoril. Fala-se de um rebanho e de seu pastor. O salmista é um membro do rebanho, digamos uma ovelha, e se refere ao Eterno, seu pastor.
Literalmente teríamos: “O Senhor é meu pastor, não me desgarrarei.”
Ora, quem já viu um rebanho de ovelhas em movimento – e eu assisto a isso todos os dias da janela de minha casa – sabe que a ovelha não se desgarra não por vontade própria (que deveria ser a sua, para sua própria proteção) mas pelo cuidado do pastor (e de seus cães).
Por isso, é plausível adotar-se uma tradução que mantenha o sentido original do texto e se aproxime o mais possível da tradução tradicional. Ficaria assim:
O Senhor é meu pastor e não me faltará.
Ou seja, não deixará que eu me desgarre, que me perca. Ele e seus cães. Ou, se quiserem, seus anjos.
Essa imagem me parece linda.

Mas as pessoas insistem na versão do “nada me faltará”. Que é mais adequada à atual teologia da prosperidade.
Ora, o pastor preserva o rebanho. Mas não garante um pasto verdejante.
Há momentos de fome, de angústia, de sofrimento.

Mas muitas vezes a fé adquire uma feição intransigente. A História é repleta de exemplos.

E há os que chamam Fé ao que é apenas Teimosia.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Espiritismo e Antroposofia - 01


O Espiritismo foi criado na França em meados do séculos 19.
Mas pegou no breu, mesmo, foi no Brasil.
O Brasil é o maior país espírita do mundo. O segundo é Cuba. Vejam que as afinidades entre os dois países são variadas.
Tentei descobrir os números das populações espíritas mundo afora mas não consegui. Se alguém puder ajudar, agradeço desde já.
Aliás, detalhe curioso: Allan Kardec, ao criar o Espiritismo, chamou seus adeptos de “spiritistes”. Mas em Francês “espírito” é “esprit”. Já em Português ficou tudo igual: “espírito”, “espírita” ou “espiritista”.

Em relação à Antroposofia, não consegui informações sobre o número de adeptos. Mas certamente são números bem menores. O que é mais um elemento que corrobora, digamos assim, a comparação que fiz: o Espiritismo está para a Antroposofia assim como Paulo Coelho está para Guimarães Rosa.

As comparações que vou procurar fazer aqui serão o mais possível objetivas e isentas, até porque não sou adepto nem de uma nem de outra dessas duas correntes de pensamento. Isso não significa que eu não atribua diferentes valores às realizações de cada uma delas. Por exemplo, quanto à possível contribuição de cada uma ao desenvolvimento do conhecimento humano, não tenho informação a respeito de nada que possa ser creditado à conta do Espiritismo. Isso não significa desmerecer as obras de caridade empreendidas por essa corrente, mas refiro-me aqui a progressos no conhecimento humano. Em relação à Antroposofia, podemos mencionar a agricultura biodinâmica, a medicina antroposófica, a pedagogia Waldorf e muitas outras contribuições em outros ramos do conhecimento (arquitetura, artes etc). E a Antroposofia é uns 50 anos mais “jovem” que o Espiritismo...

Por que comparar essas duas correntes? Porque ambas afirmam a existência de um “mundo espiritual”, povoado por “espíritos”. E garantem haver íntima ligação entre os homens e esse mundo espiritual. E sustentam a possibilidade de colocarmo-nos em contacto com tal mundo.
Cada uma delas nos fornece descrições desse mundo espiritual. E esses relatos não são coincidentes. Ao contrário, diferem profundamente entre si.

Começaremos, no próximo texto, por falar a respeito do modo como cada uma delas faz para conectar-se a esse mundo espiritual.


Uma última palavra: escrevo sobre esses temas perché me piace. Aos que se irritam com meus escritos tenho uma sugestão simples: não leiam o que escrevo. Gosto que leiam o que escrevo, é verdade. E gosto que comentem. Mesmo que seja para discordar completamente do que digo. Apenas prefiro que o façam sem agressões pessoais, o que não é fácil para alguns. Mas não apago comentários, mesmo os agressivos.  

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Forças plasmadoras do futuro brasileiro


Penso já ter ficado evidente - para os que não têm interesse direto na questão – que o dilema político entre PT e PSDB (e adjacências) é absolutamente falso.

Mas quais são os reais polos que disputam o poder de orientar o futuro do Brasil?

A meu ver, tais forças opostas são o PT e sua franja sindical e intelectual [risos] de um lado. De outro as seitas religiosas, cada vez mais subordinadas doutrinariamente aos neopentecostais. Neste segundo grupo, incluam-se os espiritistas, ainda que professem ideias diversas em questões de doutrina.

A Igreja Católica, apesar de dispor de grande número de adeptos, tem-nos divididos entre os dois polos especificados. Por isso, vem a ter influência diminuta nessa disputa, ou – no máximo – influência desproporcional a seu tamanho na sociedade.

Não digo, com isso, que tais correntes já sejam claramente opostas nos dias de hoje. Nem mesmo tem – a corrente religiosa – uma unidade que se expresse politicamente de modo uníssono. Aliás, tampouco o PT e suas franjas apresentam tal unidade.

Falo de tendências. E que não são de longo prazo. Há, em curso, um claro processo de condensação de cada um desses polos.

Quem, como eu, não participar de um desses polos tende inexoravelmente a ficar à margem do processo político brasileiro.

A inauguração recente do tal Templo de Salomão pode confundir o observador. Afinal, quase todas as forças político-institucionais acorreram pressurosas ao evento.
Natural. Em época eleitoral não se desprezam fontes de votos.

Mas essa inauguração talvez fique como marco da constituição de um bloco político que, aos poucos, ganhará homogeneidade.
É certo que tal homogeneidade dar-se-á à custa da qualidade. Também do lado petista esse nivelamento por baixo se completará. Já anda adiantado o estado de putrefação desse polo.

Mas também isso deve ser lançado à conta do crescimento dos dois polos. O nível de cada um deles será mais ou menos (se possível menos) o nível que se percebe na disputa eleitoral deste ano da graça de 2014.

Alguém fatalmente dirá: e a luta de classes?

Como não sou médico legista, nada entendo de cadáveres.

sábado, 2 de agosto de 2014

Agosto


Nesse início do oitavo mês, é preciso dizer algumas coisitas.
É verdade que, em Portugal, ninguém vai ver isto.
Estamos todos em férias.
Dia desses, o ex-presidente brasileiro Fernando Henrique comentou, em entrevista, que Portugal não tem PIB e, no entanto, é mais primeiro mundo que o Brasil.
Meia verdade. Ou, pra ser rigoroso, um doze avos da verdade.
Portugal só não tem PIB em Agosto.
Em Agosto o País – assim, em maiúscula – sai de férias.
A senhora que mantém nossa casa habitável, em Bragança, saiu de férias. Meu médico de família está a gozar merecidas férias. A solícita senhora que zela pelo edifício em que resido, férias. A marisqueira onde gosto de saborear frutos do mar, em Matosinhos, estará fechada durante este mês. Em resumo, Portugal está a gozar de suas indefectíveis férias.
Haja ou não crise.
E férias representam, sem elementos de ligação, diretamente, viagens.
Há os que descem ao Algarve. Também os há os que sobem às praias da Galícia, das Astúrias, da Cantábria, dos Países Bascos.
Os do interior vão às praias, os do litoral vão ao Portugal Profundo.

Mas... que digo eu?
Talvez seja Agosto o mês de maior PIB em Portugal.
Todos esses portugueses que saem de um lugar e vão a outro deixarão – onde forem – preciosos euros.
E é preciso lembrar dos “avecs”. Os emigrantes que não falham um Agosto sem vir a visitar sua terra e seus familiares.
E não vêm só de França. Vêm de toda parte. E deixam cá boa parte do que amealharam durante o ano anterior.
O que levam de volta a seus forçados destinos não se mede em euros.


quinta-feira, 31 de julho de 2014

O Reino do Imaginário


Um dos grandes causadores de guerras e morticínios, através da História, tem sido o conflito entre as diversas religiões.
Como todas elas reivindicam a posse da Verdade, fica mesmo difícil impedir que elas se esmurrem até jorrar sangue.
Mas tudo tem solução.
Inventei uma teoria que poderá acabar com todas essas disputas.

Vivemos em um mundo no qual impera a Realidade. Muitos pretendem ignorá-la, mas ela sempre acaba por impor-se.
É verdade que os seres humanos (não sei se também os animais e mesmo as plantas) têm momentos de fuga à Realidade, por meio da Imaginação. São breves momentos, sem maiores consequências, mas que proporcionam quase sempre um certo prazer.

Percebi, a partir disso, que depois da morte, o que nos espera é esse mundo já entrevisto no exercício fugaz da Imaginação.
Depois de mortos, abandonamos o mundo da Realidade e ingressamos no mundo da Imaginação.

É verdade que alguns grupos, particularmente alguns sul-americanos vinculados à Esquerda já conseguem vivenciar o mundo da Imaginação antes mesmo de morrer. Ou, quem sabe, já morreram e ninguém os alertou em relação a isso.

Quanto à maioria dos seres humanos, o reino do Imaginário só será acessível depois da morte.
Ou seja, o indivíduo morre e ingressa no terreno da Imaginação.

Que significa viver no mundo da Imaginação?
Significa que o indivíduo irá viver naquilo que ele imaginava, quando vivo, como sendo a vida após a morte.
Desde logo, adianto já, um ateu como eu deixará de existir. Era o que ele, em vida, imaginava como sendo seu estado após a morte.
Já um homem-bomba muçulmano, por exemplo, terá o desfrute de suas 21 virgens prometidas por Alá.
Um católico passará uma temporada no Purgatório e, caso a família que lhe restou no mundo da Realidade pague as devidas missas post mortem, ingressará depois no Paraíso.
Paraíso que, para evangélicos de todos os matizes será imediatamente franqueado. Sentar-se-ão junto aos anjos e entoarão hinos de louvor a Deus e a Jesus. Este estará sentado à direita do Eterno, caso o crente tenha sido, em vida, um neoliberal, ou à esquerda do Criador, caso se trate de algum adepto da Esquerda.
Quanto ao judeus, talvez tenham de curtir o Sheol por algum período.

O importante nisso tudo é que – de algum modo – todas as religiões se mostrarão verdadeiras. Tudo o que os fiéis de qualquer uma delas imaginar tornar-se-á efetivo na vida após a morte.


Só ainda não sei muito bem aonde irá parar o bispo Macedo.

domingo, 27 de julho de 2014

Elogio de Lula


Lula viveu uma infância difícil mas muito instrutiva.
Com os conhecimentos adquiridos na adversidade, logo percebeu que ser operário era muito ruim.
Enfronhou-se no sindicato.
Seu primeiro grande feito foi o de ter se tornado líder sem ser taxado de pelego. Isso deve ter exigido muita habilidade. Em um ambiente de total peleguismo, ele foi dos primeiros a afastar-se desse padrão. E talvez o único que, em seguida, não exagerou na dose e foi cair direto na clandestinidade. Ele soube dosar a coragem.
Além de ter demonstrado senso de oportunidade, contou com o momento histórico certo. Era a hora de alguém ocupar o lugar que ele ocupou.

Mais adiante, percebeu que a intelectualidade tupiniquim salivava por um operário que se dispusesse a travar uma luta contra a ditadura militar e – glória das glórias – talvez até batalhar pelo socialismo. E – desta vez com mais facilidade – venceu mais uma etapa em sua ascensão: enfiou grande parte da intelligentsia brasileira no bolso.

Com companheiros sindicais e com a maioria dos intelectuais, estava pronto o quadro para a criação de um partido político que lhe servisse de base para sua pretensão de mais altos voos.

Nessa fase, foram muitas as derrotas. Mas a cada uma delas ele aprendia mais lições.

Depois que, com a capacidade burocrática de José Dirceu, conseguiu adequar sua máquina partidária às necessidades eleitorais, chegou a seu primeiro grande objetivo: a Presidência da República.

Instalado no Palácio do Planalto, passou a enfrentar os desafios de governo. Pela primeira vez deixava de ser pedra e passava a ser vidraça.

Foi então que demonstrou invulgar capacidade de adaptação. Aquilo que chamamos de inteligência.

Dou um exemplo de algo que vivi de perto: em 2003 eu já trabalhava na Receita Federal havia dez anos. Presenciei colegas petistas a babar na ânsia de botar as mãos no butim.
Lula frustrou tais expectativas. No Ministério da Fazenda colocou Palocci e um receituário ortodoxo. Na Receita Federal só tirou o Secretário, Everardo Maciel, para disfarçar a continuidade. Manteve toda a equipe da administração da era Fernando Henrique.
Os camaradas ficaram a ver navios. Tudo continuou como estava. Afinal, é por meio da Receita que entram recursos no Tesouro. O restante é centro de custos.
E Lula sabia que líder sindical e intelectual são excelentes pra bater bumbo, mas muito ruins pra empurrar carro alegórico. Só muito lentamente o PT começou a desfrutar das delícias do Poder.

A partir daí, Lula passou a fazer qualquer coisa que lhe apeteça.
Elegeu a neófita Dilma para nada mais nada menos que Presidente da República.
Elegeu outro desconhecido para a Prefeitura de São Paulo.
Manda e desmanda no país.

Sei que é pouco cabível fazer comparações entre personagens pertencentes a momentos históricos diferentes. Mas não me impeço de afirmar que Lula já é – a essa altura – mais importante que Getúlio Vargas na História do Brasil.


O que – a meu ver – diz imenso a respeito do país em que nasci.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

CONVERSA DE BOTECO


Já agora, desculpem o desabafo.
É que acabo de ocupar algum tempo a ler “Os Fluidos”, quarenta páginas que compõem o capítulo 14 do livro “A Gênese – os milagres e as predições segundo o Espiritismo”.

Para Kardec, tudo é “fluido”. É fluido elétrico, fluido magnético, fluido sonoro, fluido cósmico, fluido espiritual etc etc.
Para a ciência, fluido é uma substância que, quando em repouso, não oferece resistência a uma força de cisalhamento.
Os tais “fluidos” do século 19 são os “campos” da ciência.
Algum apressadinho burgesso dirá: ora, é só uma nomenclatura diferente.
Não. Não é “só” isso.
A ciência não tem pretensões ontológicas. Em miúdos: a ciência não busca “o que é” isso ou aquilo. A ciência contenta-se com o “como é”, “como funciona”.
Quando se trata, por exemplo, de um campo magnético, fala-se de algo que se traduz por um certo número de equações matemáticas. Com elas, posso calcular os exatos valores do campo magnético em qualquer ponto.
Já o fluido espiritual ou o fluido cósmico são conversa de boteco depois da décima cerveja.
Ou, se preferem uma imagem mais culinária, são pastéis de vento.
Quanto a mim, já que é pra viver do passado, escolheria a expressão típica do romantismo do século XVIII: “um não sei que de...”.

Alguns definem uma pessoa desagradável pela característica de que, quando tem tosse, ao invés de ir ao médico vai ao teatro.

Se me permitem a ousadia de um conselho, se quiserem falar em ciência, ao invés de sessão espírita procurem um bom curso de Física, por exemplo.



quarta-feira, 23 de julho de 2014

O governo brasileiro e seu amor às ditaduras

A Guiné Equatorial vai, enfim, ser aceita na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Portugal foi o único dos membros da CPLP que ofereceu alguma resistência a isso. Acabou por concordar para não isolar-se demasiado.

Deixo logo claro que não estou aqui a criticar a decisão do governo brasileiro - que me parece estúpida - de apoiar essa admissão, por ser o governo de predominância petista. Não estou a fazer campanha eleitoral. Nunca tive simpatia pelos tucanos e Eduardo Campos já deu mesmo mostras de ser um novo Collor.

Dito isso, acrescento que tenho consciência de que diplomacia se faz, no mais das vezes, guiada pela busca da satisfação dos interesses geopolíticos ou econômicos do país.

Mas, como jamais diria um matemático, tudo tem limite.

A Guiné Equatorial tem como língua efetiva o Espanhol. Sua segunda língua oficial, desconhecida da quase totalidade de sua população é o Francês. O Português passa a ser sua terceira língua, que jamais será falada por seus habitantes enquanto as coisas continuarem como são naquele país.

E como são as coisas na Guiné Equatorial?

O ditador Obiang impera há 35 anos. É um dos ditadores mais ricos do mundo. Canibalizou toda a oposição.
Seu filho, vice-presidente por decreto do pai, está acima das leis do país. Se ele vir uma mulher que considere bonita, manda buscá-la para usufruir dela.
É colecionador de preciosidades caríssimas e tem residências espalhadas pelo mundo, inclusivamente em São Paulo.
O país é o terceiro país da África subsaariana em produção de petróleo, atrás de Angola e Nigéria.
A renda per capita do pequeno país, graças a isso, é enorme. Mas beneficia apenas a família do ditador. O restante dos habitantes vive uma miséria escandalosa.
Obiang procura canais que lhe deem alguma respeitabilidade internacional e que lhe facilitem a lavagem de dinheiro.

Acaba de encontrar.

Sei que quase ninguém no Brasil vai dar importância a tudo isso. Afinal, uma das poucas coisas inteligentes que me lembro de ter ouvido da boca de FHC foi que o brasileiro costuma ser caipira. Ou seja, voltado para seu pequeno mundinho circundante.

Não importa. Deixo aqui meus parabéns aos governantes brasileiros. Tantos anos de luta por uma sociedade melhor nos levaram ao ponto de prestigiar um carniceiro hediondo apenas por algumas gotas de petróleo.

Bom proveito!

domingo, 20 de julho de 2014

Kardec e Galileu

O livro de Kardec, A Gênese, um dos cinco pilares do Espiritismo, deve ter sido pensado com o objetivo de esclarecer a maneira de o Espiritismo enxergar a origem das coisas. Do Universo, da humanidade etc.
Eu imaginava que seria recheado de ideias sussurradas a Kardec por espíritos evoluídos, que levantassem o véu de sobre nossas raízes.
Ledo engano. As primeiras 235 páginas (sic!) são uma dissertação a respeito daquilo que a ciência apurou até a redação do livro. E mal digerida. Alguém dirá: mas o que tens contra a ciência? E eu respondo: o facto de ser o estado-da-arte da ciência em meados do século 19. E transmitido por um leigo.
Ao invés de ler a respeito de camadas geológicas, por exemplo, explicadas pela ciência de meados do século 19, seria mais produtivo ler sobre isso um texto científico atual.
Mas há mais. Muito mais.
A certa altura, Kardec passa a transcrever um texto psicografado, cuja autoria é atribuída a ninguém menos que Galileu, aquele. Trata-se do capítulo VI: Uranografia Geral.

Aliás, sobre psicografia tenho muito a comentar. Mas fica pra outra oportunidade. Vamos adiante.

Kardec explica, várias vezes, que os espíritos são proibidos por Deus de nos revelar coisas que ainda desconhecemos para não nos furtar o trabalho de descobri-las por conta própria.
Muito bem.
No século 19 era corrente a teoria dos “fluidos”. Esses permeavam toda a matéria. E os havia de vários tipos: o fluido elétrico, o fluido magnético etc etc.
Kardec usa e abusa dessa teoria. É fluido pra cá, fluido pra lá.
As pestes que assolaram a Europa, por exemplo, como a peste bubônica, eram atribuídas a fluidos que contaminavam as pessoas.
Ora, Kardec escreveu A Gênese em 1868. Apenas 26 aninhos depois, em 1894, Alexandre Yersin isolou a bactéria que recebeu nome em sua homenagem: Yersinia Pestis. É a bactéria responsável pela peste bubônica. Lá se foi ralo abaixo a teoria dos fluidos. Com o desenvolvimento científico que se operou nessa mesma época, a eletricidade, o magnetismo etc deixaram de ser “fluidos”.
Pois bem. Galileu, que contribuiu com o livro de Kardec fornecendo-lhe umas quarenta páginas, não poderia – por determinação divina – ter-lhe antecipado todas essas descobertas da ciência. Mas poderia, ao menos, dizer-lhe:
  • Allan, meu filho, não fala essas coisas que logo logo elas vão pegar mal.
Não só ele não falou nada como até hoje os espiritistas se utilizam dessa terminologia dos fluidos. Sem qualquer pudor.
Mas tem mais. Galileu, que agora (em 1868) já era espírito, podia viajar por todo o cosmo. Mas não se dignou a dizer a Kardec para não falar que a Lua era habitada. Deixou que Kardec quebrasse a cara nesta nota de rodapé ao texto de Galileu, ao falar da Lua:
“O hemisfério inferior, o único que vemos, seria desprovido de tais fluidos e, por isso, impróprio à vida que, entretanto, reinaria no outro. Se, pois, o hemisfério superior é habitado, seus habitantes jamais viram a Terra, a menos que excursionem pelo outro, o que lhes seria impossível, desde que este carece das condições indispensáveis à vitalidade.” (capítulo VI, item 25, Nota, pág. 140)
É facto que Kardec afirma que tal “teoria” ainda não foi confirmada por nenhuma observação direta (nem poderia...). Mas acrescenta: “Não se pode, porém, deixar de convir em que é a única, até ao presente, que dá uma explicação satisfatória das particularidades que apresenta o globo lunar.” (pág. 140).

Afinal, se Galileu não podia nem dizer a Kardec que isso era uma imensa besteira, pra que serve o depoimento dele?

Mas há mais: se você vai ouvir o depoimento de um espírito evoluído como deveria ser o de Galileu, é razoável que você aguarde revelações no mínimo instigantes.
Mas o que se lê é uma imensa verborragia. Vou citar apenas dois trechos da fala de Galileu:
  1. “Que mortal poderia dizer das magnificências desconhecidas e soberbamente veladas sob a noite das idades que se desdobraram nesses tempos antigos, em que nenhuma das maravilhas do Universo atual existia; nessa época primitiva em que, tendo-se feito ouvir a voz do Senhor, os materiais que no futuro haviam de agregar-se por si mesmos e simetricamente, para formar o templo da Natureza, se encontraram de súbito no seio dos vácuos infinitos; quando aquela voz misteriosa, que toda criatura venera e estima como a de uma mãe, produziu notas harmoniosamente variadas, para irem vibrar juntas e modular o concerto dos céus imensos!” (item 14, pág. 133)
  2. “E, quando esses períodos da nossa imortalidade nos houverem passado sobre as cabeças, quando a história atual da Terra nos aparecer qual sombra vaporosa no fundo da nossa lembrança; quando, durante séculos incontáveis, houvermos habitado esses diversos degraus da nossa hierarquia cosmológica; quando os mais longínquos domínios das idades futuras tiverem sido por nós perlustrados em inúmeras peregrinações, teremos diante de nós a sucessão ilimitada dos mundos e por perspectiva a eternidade imóvel.” (item 52, pág. 155).

Não sei dizer se Paulo Coelho ou Lya Luft fariam melhor. Nunca li nenhum deles.
Mas me causa imensa tristeza perceber que tantas pessoas vêem nessas cataratas de termos imponentes e vazios uma revelação divina.

Valha-me deus!


sábado, 19 de julho de 2014

Ainda o racismo em Kardec

Dia desses escrevi que Kardec tinha concepções racistas. A tal ponto que a publicação de suas obras, no Brasil, foi condicionada pelo Ministério Público Federal à publicação, junto a cada obra dele, de Nota Explicativa que tenta dizer que não é o que é.
As citações que fiz, eu as tirei de um artigo na Revista Espírita Ano V - 1862, mês de Abril (Perfectibilidade da Raça Negra).
Meus amigos espiritistas acorreram a dizer que nessa revista saíam artigos que ainda não tinham sua validade confirmada etc e tal.
Isso não deixa de ser verdade. Mas, então, vamos às considerações racistas de Kardec tiradas de A Gênese, um dos livros basilares da doutrina espírita.
As páginas que menciono referem-se à 52ª edição brasileira da Federação Espírita Brasileira (FEB).

A questão das raças é abordada por Kardec no capítulo XI (Gênese Espiritual):
É assim que as raças adiantadas têm um organismo ou, se quiserem, um aparelhamento cerebral mais aperfeiçoado do que as raças primitivas. Desse modo igualmente se explica o cunho especial que o caráter do Espírito imprime aos traços da fisionomia e às linhas do corpo.” (item 11, pág. 242).
Recebendo os corpos a impressão do caráter do Espírito e procriando-se esses corpos na conformidade dos respectivos tipos, resultaram daí diferentes raças, quer quanto ao físico, quer quanto ao moral.” (item 30, pág. 252).
Não foi, portanto, uniforme o progresso em toda a espécie humana. Como era natural, as raças mais inteligentes adiantaram-se às outras, […] Fora, com efeito, impossível atribuir-se a mesma ancianidade de criação aos selvagens, que mal se distinguem do macaco, e aos chineses, nem, ainda menos, aos europeus civilizados. […] os Espíritos dos selvagens também fazem parte da Humanidade e alcançarão um dia o nível em que se acham seus irmãos mais velhos. Mas, sem dúvida, não será em corpos da mesma raça física, impróprios a um certo desenvolvimento intelectual e moral.” (grifos no original) (item 32, pág. 253).
Do ponto de vista fisiológico, algumas raças apresentam característicos tipos particulares, que não permitem se lhes assinale uma origem comum. Há diferenças que evidentemente não são simples efeito do clima, pois que os brancos que se reproduzem nos países dos negros não se tornam negros e reciprocamente. […] Sabe-se hoje que a cor do negro provém de um tecido especial subcutâneo peculiar à espécie.” (item 39, pág. 259)
Adão e seus descendentes são apresentados na Gênese como homens sobremaneira inteligentes […] Não se conceberia, portanto, que esse tronco tenha tido, como ramos, numerosos povos tão atrasados, de inteligência tão rudimentar, que ainda em nossos dias rastejam a animalidade [...]” (item 40, pág. 260).


Tentar fugir das evidências de racismo acima explicitadas é enxugar gelo com toalha quente.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

O Bem e o Mal na Antroposofia


Tento fazer, aqui, um resumo de uma conferência proferida por Rudolf Steiner em 11 de Novembro de 1.904, em Berlim. Valho-me da tradução brasileira de Paula Bennink, publicada pela Editora Antroposófica em 2.012, sob o título “O Maniqueísmo – A genuína missão do Bem e do Mal no contexto evolutivo da humanidade”. Essa publicação traz, além do texto da conferência, uma excelente Introdução da dra. Sonia Setzer.

O maniqueísmo surge no século III, na Pérsia, fundado por Mani (216 – 276). Reunia elementos do zoroastrismo, do hinduísmo, do budismo, do judaísmo e do cristianismo. É, por isso, considerado um sincretismo religioso. Espalhou-se logo por boa parte do mundo conhecido.
No século IV foi considerado uma heresia por Santo Agostinho e pela Igreja Católica (ICAR).
Como em muitos outros casos, foi duramente perseguido pela ICAR e seus seguidores foram completamente eliminados no Ocidente no século VI. A ICAR tentou destruir os escritos maniqueus e no mundo ocidental apenas ficou uma concepção deturpada de seus conceitos.

Um parêntese: outro caso digno de nota em relação a esse tratamento dado pela ICAR a seus opositores é o de Celso. Esse filósofo pagão (século II) produziu uma crítica ao cristianismo sob o título de “O Discurso Verdadeiro”. A ICAR conseguiu sumir com todos os exemplares da obra de Celso. Contudo, Orígenes, em seu afã de defender o cristianismo, escreveu, já em meados do século III, a obra Contra Celso, que até hoje perdura e da qual há tradução em Português. Adotou ele o método de reproduzir quase que página por página a obra de Celso para melhor refutá-la. Com isso, temos hoje acesso a essa obra... Ironias. Fecha parêntese.

Durante o século XX foram encontrados diversos textos maniqueus. Aquando da conferência aqui tratada, Steiner talvez já tivesse conhecimento dos primeiros achados.

“Normalmente, o que se conhece da doutrina maniqueísta é que ela se diferencia do cristianismo ocidental por sua diferente concepção do Mal. […] o maniqueísmo ensina que o Mal é tão eterno quanto o Bem; que não há ressurreição do corpo, e que o Mal, como tal, não terá fim. Portanto, ele não tem começo, e sim a mesma origem do Bem, e nem tampouco terá fim” (pág. 22).

Isso parece a quem vem a conhecer o maniqueísmo dessa maneira algo radicalmente anticristão e totalmente incompreensível. Mas vamos examinar isso de acordo com as tradições que devem provir do próprio Mani e verificar do que se trata efetivamente.

Comecemos pela Lenda do Templo, uma grande lenda cósmica do maniqueísmo:
“Certa vez os espíritos das Trevas queriam atacar o Reino da Luz. Eles chegaram, de fato, até as fronteiras do Reino da Luz e quiseram conquistá-lo. Entretanto, nada conseguiram fazer contra o Reino da luz. Deveriam então – e aqui existe um traço especialmente marcante, para o qual peço sua atenção – ser castigados pelo Reino da Luz. Contudo, no Reino da Luz não havia nenhum Mal, só o Bem. Portanto, os demônios das Trevas só poderiam ser castigados com algo de bom. O que aconteceu então? Aconteceu o seguinte: os espíritos do Reino da Luz tomaram uma parte de seu próprio reino e o misturaram com o reino material das Trevas. Essa mistura de uma parte do Reino da Luz com o Reino das Trevas fez surgir um elemento fermentativo, que transformou o Reino das Trevas num rodopio caótico. Esse fato trouxe um novo elemento: a morte. Assim, esse reino vem-se autoconsumindo continuamente, trazendo em si o germe de sua própria destruição. Conta-se também que a espécie humana surgiu pelo fato de isso ter acontecido. O homem primordial seria justamente aquilo que havia sido enviado pelo Reino da Luz para misturar-se ao Reino das Trevas e superar, por meio da morte, o que não deveria existir no Reino das Trevas – ou seja, superá-lo em si mesmo.” (pág. 23).

“O profundo pensamento aí implícito é que o Reino das Trevas deve ser superado pelo Reino da Luz por meio da brandura, e não pelo castigo; não contrariando o Mal, mas misturando-se a ele, para redimir o Mal como tal.” (pág. 23).

Daí a concepção teosófica do Mal:
[nessa altura Steiner ainda não fundara a Sociedade Antroposófica e era secretário-geral da seção alemã da Sociedade Teosófica]
O Mal não é nada mais do que um Bem no momento errado.

Se as forças condutoras de uma determinada época se imiscuíssem por mais tempo na evolução, “naquele instante elas representariam o Mal no desenvolvimento terreno. Assim, o Mal não é outra coisa senão o Divino, pois em outros tempos a expressão da perfeição e do Divino era aquilo que agora, no presente, é o Mal.” (pág. 25).

É assim que se deve entender a ideia de Mal em Mani.

Também é preciso entender por que Mani se intitulava “filho da viúva”.
O que é que se passou no atual estágio evolutivo da humanidade?
Nos estágios anteriores a maneira como a humanidade adquiria conhecimentos era outra. No estágio atual (a quinta raça-raiz), a condução da alma, que era até então realizada do alto, “se retraiu pouco a pouco, deixando a humanidade seguir seu próprio caminho para tornar-se seu próprio guia.” (pág. 26).
A alma passou a ser chamada “mãe” em todas as linhas esotéricas. O orientador, o “pai”.
O orientador, Osíris, aquele que representa a parte imediatamente divina, é o Pai.
A alma, Ísis, que concebe e recebe o Divino-espiritual é a Mãe.
No atual estágio evolutivo o Pai passa a se retrair. “A alma se torna viúva – precisa tornar-se viúva. A humanidade é deixada por conta própria.” (pág. 26).
Essa alma é chamada de “viúva” por Mani. E ele se considera “filho da viúva”.
Daí as palavras de Mani: “Deveis desfazer-se de tudo o que vos é trazido pela autoridade externa; depois tereis de amadurecer a fim de olhar para a própria alma.” (pág. 27).

Agostinho não concorda com isso: “Eu não aceitaria os ensinamentos de Cristo caso estes não se baseassem na autoridade da Igreja”. (pág. 27)

Como se dá a atuação conjunta de Bem e Mal?
Explica-se pela sintonia entre vida e forma.
Como a vida chega à forma?
Por não se expressar de uma só vez, numa única figura.
“Observem como a vida numa planta – digamos, no lírio – passa de uma forma a outra. A vida do lírio construiu, aperfeiçoou uma forma de lírio.
Quando essa forma está aperfeiçoada, a vida a supera e passa ao germe, para mais tarde renascer em nova forma, como a mesma vida. E assim a vida caminha de forma em forma. A vida em si não possui forma alguma, e não poderia levar uma vida própria de maneira perceptível” (pág. 28).
“A vida, enquanto forma, é sempre revestida pela vida de uma época anterior. Vejamos, por exemplo, a Igreja Católica. A vida que se desenrolou na Igreja Católica desde Agostinho até o século XV era uma vida cristã. A vida, naquele contexto, é o cristianismo. […] A forma – de onde vem a forma? Ela não é outra coisa senão a vida do velho Império Romano. Aquilo que ainda era vida nesse antigo Império Romano petrificou-se em forma. O que antes era república, depois império – tudo o que ali viveu, em suas manifestações exteriores, como Estado Romano – legou sua vida, enrijecida em forma, ao cristianismo posterior até na capital, Roma, que era antigamente a capital do Império Romano Universal. Até os prefeitos romanos tiveram sua continuidade nos presbíteros e bispos. O que antigamente era vida tornou-se mais tarde forma, para um patamar superior da vida.” (pág. 29).

“A vida de uma época anterior sempre se torna a forma de uma época posterior. Na consonância entre vida e forma surgiu ao mesmo tempo o outro problema: o do Bem e do Mal – pelo fato de o Bem de uma época anterior ter-se associado ao Bem de uma nova época. Basicamente, isso nada mais é do que a consonância entre o progresso e sua própria inibição. É também a possibilidade da manifestação material, a possibilidade de vir à existência exterior. Esta é nossa presença humana no âmbito da Terra sólido-mineral: a vida interior e a vida retardatária de tempos passados petrificada numa forma inibitória. Esta é também a doutrina do maniqueísmo sobre o Mal.” (pág. 30).

No final da conferência, Steiner aborda a criação de uma forma para a vida do próximo estágio evolutivo da humanidade (a sexta raça-raiz), ainda valendo-se das ideias de Mani.

Mas como penso ter ficado clara a conceituação do Bem e do Mal no âmbito da Antroposofia, fiquemos por aqui, que este texto já está longo demais.

terça-feira, 15 de julho de 2014

O Bem e o Mal em Kardec

O Bem e o Mal são objeto do capítulo III da obra A Gênese, de Kardec. Utilizo a tradução, para o Português, de Guillon Ribeiro, editada pela Federação Espírita Brasileira (FEB). É uma tradução feita a partir da 5ª edição francesa e a paginação que menciono é a da 52ª edição da FEB. Por aí percebe-se que as traduções dos livros básicos do Espiritismo vendem-se, no Brasil, tanto quanto pão quente.
A Gênese é obra de 1868 e o capítulo III ocupa as páginas 83 a 99.

Se Deus é todo sabedoria, bondade e justiça, o mal não pode ter nele sua origem.
Se o mal fosse atribuição de algum ser especial, ou ele seria igual a Deus ou lhe seria inferior.
Se fosse igual, ambos estariam em incessante luta, hipótese que se deve descartar, haja vista a “unidade de vistas que se revela na estrutura do Universo.” (pág.83).
Se fosse inferior, seria a Deus subordinado, Teria sido por Ele criado. Por seu intermédio, Deus teria criado o mal.
Assim, continuamos com o problema: o mal existe. Deve, portanto, ter uma causa.

Kardec passa a investigar o mal para chegar a sua causa.
Há males de duas categorias: os que o homem pode evitar e os que lhe independem da vontade (aí incluídos os flagelos naturais).
Quanto aos flagelos naturais: o homem pode, com sua inteligência, atenuar-lhes os efeitos.
Os males que independem de sua vontade, portanto, são “um estimulante para o exercício da sua inteligência”. (pág. 85).
“A dor é o aguilhão que o impele para a frente, na senda do progresso”. (pág. 85). (em itálico, no original).
Essa é a segunda categoria dos males. A menos numerosa.
A principal é a dos males que “o homem cria pelos seus vícios”. (pág. 85).
Aqui Kardec introduz a contraposição entre instinto de conservação e senso moral.
O Espírito, em suas primeiras fases de existência corpórea, privilegia o primeiro.
Com a evolução o Espírito acentua o valor do senso moral e reduz a importância do instinto de conservação.
“O mal é, pois, relativo e a responsabilidade é proporcionada ao grau de adiantamento” (pág. 88).

Neste ponto é que, julgo eu, o Espiritismo chega a quase tangenciar a visão da Antroposofia, neste tema. Voltaremos a isso quando resumirmos a visão antroposófica da questão do Bem e do Mal.

Kardec conclui essa análise: “No abuso é que reside o mal e o homem abusa em virtude do seu livre-arbítrio”.

A partir daí, Kardec trata de dois temas. O instinto e a inteligência e, por fim, Destruição dos seres vivos uns pelos outros.
“O instinto é a força oculta que solicita os seres orgânicos a atos espontâneos e involuntários, tendo em vista a conservação deles” (pág. 89) (em itálico no original).
“A inteligência se revela por atos voluntários, refletidos, premeditados, combinados, de acordo com a oportunidade das circunstâncias. É incontestavelmente um atributo exclusivo da alma”. (pág. 89 e 90) (em itálico no original, a menos da última frase).
Como o próprio Kardec adverte adiante: “Todas essas maneiras de considerar o instinto são forçosamente hipotéticas e nenhuma apresenta caráter seguro de autenticidade, para ser tida como solução definitiva” (pág. 94). Por isso, não vejo motivo para resumir as ideias a respeito do instinto.
Kardec menciona também as paixões, comparando-as – mas também as distinguindo – do instinto.
E conclui: “O instinto se aniquila por si mesmo; as paixões somente pelo esforço da vontade podem domar-se.” (pág. 95).
Quanto à destruição dos seres vivos uns pelos outros, “é, dentre as leis da Natureza, uma das que, à primeira vista, menos parecem conciliar-se com a bondade de Deus.” (pág. 95).
Isso porque os homens “não compreendem que um bem real possa decorrer de um mal aparente” (pág. 96).
Para justificar que uns animais comam outros (incluindo o homem), diz Kardec:
“A verdadeira vida, tanto do animal como do homem, não está no invólucro corporal, do mesmo que não está no vestuário. Está no princípio inteligente que preexiste e sobrevive ao corpo.” (pág. 96) (em itálico no original).

Vem certamente daí – dessa concepção dos animais como seres dotados de Espírito – a atual moda de um cuidado às vezes excessivo com cães, gatos etc.

Por isso, “ensina Deus aos homens o pouco caso que devem fazer do envoltório material e lhes suscita a ideia da vida espiritual” (pág. 96).

Finalmente, caso as explicações dadas não bastem:
“Deus há de ser infinitamente justo e sábio. Procuremos, portanto, em tudo, a sua justiça e a sua sabedoria e curvemo-nos diante do que ultrapasse o nosso entendimento.” (pág. 97).

No próximo texto, tentarei resumir as ideias expostas por Rudolf Steiner em uma conferência sobre o Bem e o Mal.

A comparação fica a cargo do leitor.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Por que eu queria a Holanda campeã


É simples. A razão é estética.
Explico.
Poucas coisas me causaram tanta emoção intelectual quanto o ter tomado conhecimento, lá no distante ano de 1.965, das quatro equações de Maxwell, fundamento do Eletromagnetismo.
São quatro equações de simetria perfeita e das quais podem ser deduzidos todos os fenômenos desse ramo da Física.

Pois bem. Permitam-me a heresia de comparar tal quadro com um outro que me aparecia nesta Copa.
A Holanda disputou três finais de Copa:
1974 – com a Alemanha
1978 – com a Argentina
2010 – com a Espanha

Perdeu todas.

Nesta Copa de 2014 tinha ela a oportunidade de redimir-se das três derrotas, ao enfrentar seus algozes do passado em ordem anticronológica.

E começou o trabalho ao derrotar a Espanha, na fase de grupos, por incríveis 5 a 1.
Poderia hoje derrotar a Argentina e capacitar-se, assim, para derrotar a Alemanha no domingo próximo.
Tornar-se-ia campeã mundial e teria devolvido os resultados adversos na ordem inversa em que eles ocorreram no passado.

A Argentina encarregou-se de destruir essa construção de beleza evidente.


Ainda bem que as equações de Maxwell continuam a nos encantar.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Brasil 1 x 7 Alemanha

Quando eu era criança, o futebol de rua ou de praia, em Santos, era assim: três vira, seis acaba. Ou: seis vira, doze acaba. Dependia do tempo disponível para a brincadeira.
Hoje pensei que era um cinco vira, dez acaba.
Pra mim, esse jogo ainda não acabou.

sábado, 5 de julho de 2014

COPA - Quartos de final e meias-finais

Ainda é possível uma final sul-americana.
Mas me parece mais provável uma final europeia.
Se a Holanda passar por Costa Rica, pode acontecer.
Isso contraria a tradição: nunca houve uma final puramente europeia em Copas realizadas nas Américas. Mas corresponde, em minha opinião, à qualidade atual das seleções desse Mundial.
O facto de a seleção brasileira ter perdido Neymar pode até ser benéfico para ela. Até então a "estratégia" da equipa brasileira era "joga a bola pro moleque". E é difícil uma seleção ser campeã apoiada apenas em um jogador, ainda mais ainda bastante imaturo. Sem Neymar, a seleção brasileira pode crescer em termos de conjunto.
Já a seleção argentina, caso não possa mais contar com Di Maria, me parece que sai a perder. Considero que - nessa seleção - Di Maria é mais importante que Messi. Mas não é o único. Não se espera dele que seja o salvador da pátria. Por paradoxal que seja, por isso mesmo pode ser uma perda muito significativa.
A Alemanha levou para esta Copa uma máquina quase impecável de jogar futebol. A Holanda não é tão perfeita mas pode ser mais brilhante.
Surpresa - mesmo - seria ver Costa Rica na final. Quanto às demais seleções ainda na disputa, tudo é perfeitamente plausível.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

ESPIRITISMO - 02

Enquanto a Copa não termina, fiquemos em prolegômenos.
Discutir o Espiritismo, o Cristianismo e outros que tais – no meu caso, por ser ateu, materialista – é difícil. Existe, por parte da maioria das pessoas, um rancor em relação à descrença.
Vejam, por exemplo, o que diz Kardec sobre o materialismo:
“Ao combater o materialismo atacamos, não os indivíduos, mas a doutrina que, se é inofensiva para a sociedade quando se encerra no foro íntimo da consciência de pessoas esclarecidas, passa a ser uma praga social quando se generaliza.”
Ou seja, desde que eu, sendo ateu e materialista, fique quietinho em meu canto, tudo bem. Mas se abro a boca para emitir minhas opiniões, passo a agente de uma “praga social”.
Menos mal. Se os espiritistas não atacam os indivíduos, há várias religiões que o fazem ou fizeram sempre que têm ou tiveram poder para tanto.
“A convicção de que tudo está acabado para o homem depois da morte […] leva-o […] à máxima: cada qual por si durante a vida, dado que nada existe para além dela.”
Kardec devia mesmo sentir uma quase irresistível propensão ao que ele chama de vício:
“É preciso mesmo uma grande virtude para se ser travado no declive do vício e do crime não tendo como travão mais que a força de vontade.”
Eu devo mesmo ser um retardado: aos quase 70 anos ainda não matei ninguém.
De facto, para Kardec o ateísmo e o vício são praticamente a mesma coisa:
“Os que não acreditam em Deus nem na própria alma, que desprezam a oração e estão mergulhados no vício […; quanto a eles] não há mais nada a fazer para os tirarmos do atoleiro.”
Aliás, parece que nem é preciso ser ateu. Basta ter alguma dúvida sobre a tal vida futura:
“A dúvida, no que toca a vida futura, conduz naturalmente ao sacrifício de tudo pelo bem-estar presente, daí a importância excessiva dada aos bens materiais.
A importância dada aos bens materiais excita a cupidez, a inveja, o ciúme do que tem pouco do que tem muito. […]; daí os ódios, as querelas, os processos, as guerras e todos os males provocados pelo egoísmo.”
Pra resumir: aquele que duvida da vida futura vai desembocar no suicídio ou na loucura.
Só mais uma pérola:
“O materialista, que faz depender todas as faculdades morais e intelectuais do organismo, reduz o homem ao estado de máquina, sem livre arbítrio, por consequência sem responsabilidade pelo mal e sem mérito pelo bem que faz”.

Não à toa, desde que comecei a escrever sobre assuntos religiosos aqui, tenho recebido muitos comentários agressivos e grosseiros. Mas já sou calejado e não me surpreendo com isso nem me assusto.
Apenas lastimo.

Mas ocorreu-me fazer uma outra abordagem ao tema Espiritismo.
Ao invés de discuti-lo de um ponto de vista materialista, coisa que farei depois, vou começar por compará-lo a outra concepção que também reconhece a existência do mundo espiritual.
Trata-se da Antroposofia, de Rudolf Steiner.
Quando tomei conhecimento dela e li os primeiros livros de Steiner, já lá se vão quase quarenta anos, fiquei bastante impressionado. Lembro-me de ter comentado com o prof. Valdemar Setzer, ao devolver um livro de Steiner que ele me emprestara:
- Quando eu decidir ser místico, a mística que vou escolher será essa.

De facto, não sou de esconder minhas escolhas e preferências. Considero a Antroposofia muito mais complexa que o Kardecismo. Mas vou, aqui, comparar posições de uma e do outro e que os leitores tirem suas conclusões.
Para mim – e vou utilizar uma imagem comparativa tirada da literatura brasileira – o Espiritismo está para a Antroposofia como Paulo Coelho está para Guimarães Rosa.
Essa comparação pode ser vista do ângulo da qualidade mas também da quantidade: não conheço os números, mas certamente Coelho vende muito mais que Rosa.


terça-feira, 1 de julho de 2014

COPA – Alemanha x Argélia


O melhor jogo da Copa

Esse estilo de torneio cria situações assim. A Argélia, com o futebol que apresentou até agora e principalmente hoje, não deveria ser eliminada. Mas a regra é essa.

A Alemanha é – de longe – a melhor seleção dessa Copa. Isso não quer dizer que vá ser a campeã. Mas deveria. É uma máquina de jogar futebol. Um programa de computador bem “debugado”, quase sem erros.

A Argélia, ao invés de fechar-se atrás para tentar levar a decisão para os penáltis, preferiu adotar uma estratégia de enfrentamento e ajudou a produzir um dos melhores primeiros tempos a que já assisti.

Jogo de excelência.

Uma final Alemanha versus Holanda seria justa.
Mas em Copas a Justiça não costuma prevalecer.
Uma final assim penso que deveria ser ganha pela Holanda.
A Alemanha é melhor? É.
Mas em 1978 a Holanda era muito superior e perdeu a final para a Alemanha.
Teria chegado a hora da compensação.

Além disso, a Alemanha tem uma equipa quase perfeita. A Holanda não é tão impecável mas tem um ou outro jogador que pode desequilibrar.

Tudo isso é muito interessante, mas uma final europeia, em plena América do Sul, parece impossível.


Veremos.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Espiritismo - 01

O título deste post indica que vários outros virão.
Serão vários enfoques.
Um deles é o de mostrar como o Kardecismo é datado. Puro século XIX.

Como aperitivo, aí vão trechos de um artigo de Kardec na Revista Espírita Ano V - 1862, mês de Abril.
Essa revista pode ser baixada na Internet, gratuitamente. Na tradução brasileira, o artigo está nas páginas 141 a 152.
O artigo tem por título: PERFECTIBILIDADE DA RAÇA NEGRA

Pra quem não sabe, "perfectibilidade" é a capacidade de aperfeiçoar-se.

Só pra dar uma ideia do teor do artigo:  a editora brasileira teve de fazer um acordo com o Ministério Público Federal (brasileiro) para poder publicá-lo. O acordo resultou na publicação (a partir da pág. 529) de uma longa Nota Explicativa que tenta convencer os leitores de que Kardec não disse o que disse.

Vou dar aqui uns trechinhos do artigo de Kardec. Quem quiser saborear o texto integral, baixe a revista.

Pág. 147:  "Mas, então, por que nós, civilizados, esclarecidos, nascemos na Europa e não na Oceania? em corpos brancos, ao invés de corpos negros?"

Pág. 149:  "Arago entre os selvagens, com todo o seu gênio, será tão inteligente quanto o pode ser um selvagem, e nada mais; jamais será, numa pele negra, membro do Instituto."

Pág. 150/151:  "Assim, como organização física, os negros serão sempre os mesmos; como Espíritos, trata-se, sem dúvida, de uma raça inferior, isto é, primitiva; são verdadeiras crianças às quais muito pouco se pode ensinar. Mas, por meio de cuidados inteligentes é sempre possível modificar certos hábitos, certas tendências, o que já constitui um progresso que levarão para outra existência e que lhes permitirá, mais tarde, tomar um envoltório em melhores condições."

Pág. 151:  "Eis por que a raça negra, enquanto raça negra, corporalmente falando, jamais atingirá o nível das raças caucásicas; mas, na qualidade de Espírito, é outra coisa: pode tornar-se e tornar-se-á aquilo que somos. Apenas necessitará de tempo e de melhores instrumentos."

Quando Kardec escreveu isso (não vou qualificar. Não é preciso), ainda faltavam 26 anos para a Abolição dos escravos no Brasil. Mas convenhamos que os Espíritos podiam ter dado um ligeiro toque nele, tipo:
- Allan, corta essa!

quarta-feira, 25 de junho de 2014

COPA - A mordida e o carinho


Nos jogos desta terça-feira, duas coisas me impressionaram.

No jogo entre Itália e Uruguai, a mordida que Suárez (Uruguai) deu no ombro do defesa italiano Chiellini. Lembrou-me a mordida de Mike Tyson na orelha de Holyfield (1.997).
A diferença, a meu ver, é que a mordida de Tyson revelou o desespero de um grande lutador a viver sua decadência.
A mordida de Suárez foi a expressão de sua vontade de vencer. Além de não ter arrancado nenhum pedaço do defesa italiano...



Na disputa entre Grécia e Costa do Marfim, jogo em que a Grécia estava fora da Copa até o último instante dos acréscimos e, por meio de penalty, conseguiu reverter a situação e mandar para casa os fabulosos jogadores africanos, os gregos – é óbvio – festejaram demorada e efusivamente a classificação aos oitavos. Enquanto isso, o guarda-redes africano ficou estirado ao chão, com o rosto voltado para o relvado, desconsolado.

Depois de alguns minutos de comemoração, Samaras, o grego que convertera em golo o penalty, foi até junto do guarda-redes Barry, que permanecia prostrado, e afagou-lhe demoradamente a cabeça.

domingo, 22 de junho de 2014

COPA – Grupo E – 2ª parte



Até que neste grupo eu consegui não errar. Até agora...
Mas penso que vão mesmo classificar-se França e Suíça.
A Suíça deve ganhar de Honduras.
Caso a França vença o Equador, ficará em primeiro lugar no grupo. Suíça em segundo.
Se a França perder do Equador, teremos as três equipas empatadas com seis pontos cada.
Mas a França, atualmente, tem saldo de 6 golos. O Equador tem saldo zero e a Suíça de -2.
Nesse caso, é mais provável que a Suíça vença Honduras por uma diferença dilatada, que torne bom o seu saldo de golos, do que o Equador vença a França por larga margem.
Qualquer dessas hipóteses leva à classificação de França e Suíça.

Contudo, há os possíveis resultados impossíveis...