sábado, 21 de junho de 2014

Madre Tereza de Calcutá - corpo e alma


Enquanto esteve em seu corpo físico, a albanesa Anjezë Gonxhe Bojaxhiu não foi propriamente alguém cujo exemplo eu recomendaria a meus filhos e netos. Basta ler o livro de Christopher Hitchens (The Missionary Position - Mother Teresa in Theory and Practice).



Contudo, ganhou o Prêmio Nobel, foi beatificada pela ICAR e é exaltada pelos espíritas. Alguns deles, ao menos, consideram que ela era médium. E, até onde consegui ver, há um grande número de textos psicografados atribuídos a ela. 
Os que li são textos no estilo de autoajuda, estilo tão a gosto da grande maioria, como se pode perceber, por exemplo, no Facebook. Textos no estilo "como é bom ser bom".
Curioso: ela, que não permitia que seus doentes terminais recebessem analgésicos fortes (achava o sofrimento algo purificador) e que - bem ao estilo de muitos políticos brasileiros - ao ficar enferma foi tratar-se nas melhores clínicas dos EUA, ao passar desta vida para o mundo espiritual deve ter evoluído muito rapidamente, a julgar pela bondade e amor que escorrem de seus textos psicografados.

Não sei o que diria Allan Kardec, se cá ainda estivesse. Ele que ensina: "A evolução dos Espíritos realiza-se gradualmente e algumas vezes bem lentamente.".
Enfim...

sexta-feira, 20 de junho de 2014

COPA – Grupos C e D – 2ª parte



No grupo C a Colômbia já se classificou.
A Costa do Marfim deve conseguir também sua classificação, apesar de ser uma equipa que segue estritamente a Lei do Mínimo Esforço.
Isso porque Japão e Grécia fizeram o abraço dos afogados. Ficaram no zero a zero e praticamente disseram adeus à Copa.
O jogo prometia ser muito estudado, principalmente por parte da Grécia, que contava em suas fileiras com Sokratis.
E, de facto, tudo começou de modo bastante geométrico. A Grécia tinha Kone. O Japão, Okubo.
Tudo muito equilibrado.
Ao final, ficou-me a impressão de que, apesar de as duas equipas serem um tanto fracas, o Japão ganharia se pudesse contar em suas fileiras com o médio do Irão, aquele. Ficaria, então, com um meio de campo formado por Kagawa e Mehrdad. Combinação perfeita.
E não adianta me xingar. Perco o amigo mas não o trocadilho.

No grupo D, o Uruguai reabilitou-se da derrota para a Costa Rica. A Inglaterra começou a dar adeus à Copa.
Teremos, então, nos oitavos, provavelmente a Itália e quem mais? Costa Rica? Uruguai? Não arrisco palpite.

Afinal, já deitei minha bola de cristal ao lixo.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

COPA – Grupos A e B – 2ª parte



Só ainda não deitei fora minha bola de cristal por não saber se devo deitá-la ao contentor de vidros ou ao de plásticos.
Já agora estou mais aberto a hipóteses de baixa probabilidade.
Por exemplo: Cameroun pode querer sair de sua letargia para redimir-se de seus fiascos nesta Copa por derrotar o Brasil.
Mas é evidente que o mais provável é o Brasil fazer um monte de golos e ficar em primeiro lugar do grupo A.
Já o segundo lugar ainda está para ser disputado entre México e Croácia.

No grupo B minha alegria ficou por conta da Austrália. Não fora seu guarda-redes cometer aquele frango quase ao fim da partida e a Austrália poderia ainda disputar um lugar nos oitavos.
A Espanha... bem, a Espanha destruiu minha bola de cristal. Partiu-a em pedacinhos.

O Brasil que não se entusiasme muito por enfrentar o Chile e não a Espanha nos oitavos. Quem tem Alexis pode causar surpresas. Aliás, pode até ser que o Chile fique em primeiro lugar e o Brasil tenha de jogar contra a Holanda nos oitavos. Qualquer um deles será obstáculo difícil de ultrapassar.

LIVRE PENSAR


Olhe. Acabei de assistir a vários jogos de futebol da Copa. Mas, antes de ir dormir, não custa quase nada botar o cérebro pra funcionar um bocadinho.
O Universo começou com um Big Bang? Ou é um contínuo permutar entre expansão e contração, expansão e contração, desde sempre?
Sei lá.
E ninguém sabe.
Parece que há mais razões que validam a teoria do Big Bang. Tudo bem.
Eu gostaria que ganhasse esse jogo a teoria do vai e vem. Expande e contrai. Sem começo e, talvez, sem fim.
Mas isso é apenas o que esta formiguinha que sou eu gostaria que fosse verdade.
O Universo é maravilhoso? Ao menos pra nós, é.
(Talvez haja em algum canto qualquer do cosmo um grupo de seres que critiquem ferozmente essa composição universal. É questão estética.)

Mas como derivar daí a existência de um Deus?
Pra ajudar alguém a entender a origem do Universo?
Não adianta. Se Deus explica a origem do Universo, quem explicará a origem de Deus?
Se é pra me acalmar, pra me ajudar a enfrentar as dificuldades da vida, tudo bem.
Você precisa disso? Tem de engolir esse remédio?
Vá lá.
Mas não queira empurrar seu remédio para outros.

Isso se chama exercício ilegal da medicina.

terça-feira, 17 de junho de 2014

COPA - ainda o grupo F


Como ainda não analisei a performance de cada um dos jogadores de cada uma das equipas que já jogaram nesta Copa, digo - em primeiro lugar e para deixar toda a gente descansada - que não o farei. 
Em segundo lugar, para não ficar totalmente omisso quanto a esse aspecto mas considerando que não disponho mesmo de conhecimentos ludopédicos que me permitam fazê-lo, procederei aqui a uma análise perfunctória (tenho especial predileção por esse adjetivo, que aparenta significar o contrário do que de facto significa) do comportamento dos jogadores do Irão. 
E por que justamente do Irão? Ora, por ser o de mais fácil avaliação. Todos os jogadores do Irão tiveram, com efeito, atuação em um mesmo nível. Diria, portanto, que todos tiveram o mesmo desempenho de Mehrdad, um de seus médios.

COPA – Grupo G



Se a derrota de Portugal não implica sua desclassificação para os oitavos, a vitória alemã indica claramente que a Alemanha não só deverá ser a primeira deste grupo como é, além disso, forte candidata ao título da Copa.
Isso fica mais nítido depois que os EUA mostraram uma equipa esforçada mas de recursos limitados e Gana, um bocadinho menos sonolenta que os demais africanos que já se apresentaram ao distinto público nesta Copa, não conseguiu segurar o empate que conseguira a duras penas.

Portugal tem condições para ganhar tanto dos EUA quanto de Gana. Só é preciso que seus jogadores não cometam mais asneiras como a que cometeu o defesa central Pepe.


Quanto a Pepe, diga-se que é um excelente jogador mas tem alguns parafusos a menos. Já não é a primeira vez em sua carreira que perpetra disparates como esse do jogo com a Alemanha. Diga-se a favor desse alagoano de nascimento que ninguém nascido no Brasil se chama Kepler impunemente.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

COPA – Grupo F – 2ª parte



Não sei o que acontece às equipas africanas nesta Copa. Parece não terem interesse pela competição.
Hoje, diante de uma seleção praticamente amadora como a do Irão, a Nigéria nada conseguiu. O jogo terminou zero a zero.

Eu, que até ontem pensava que desse grupo sairiam classificadas as seleções da Argentina e da Nigéria, agora já penso que provavelmente a Bósnia tome o lugar do atual campeão africano.


Será que as seleções africanas não vão acordar?

COPA - Grupo F



A Argentina passou pela Bósnia mais ou menos como o Brasil passou pela Croácia. Aos trancos e barrancos. Mas também como o Brasil, deve crescer nos próximos jogos. E, sem dúvida, está nos oitavos de final.

A Nigéria deve acompanhá-la. Desde que não esteja com espírito semelhante a Cameroun e Costa do Marfim, que parecem estar a encarar esta Copa com enorme tédio.



Veremos daqui a pouco, nesta segunda-feira, como se comportam Irão e Nigéria. É óbvio que a Nigéria é superior. Mas se entrar a dormir no jogo passa a dar esperança de classificação à Bósnia.

COPA - A derrota de Portugal


Portugal - ao contrário do que insistiram em afirmar os comentaristas da RTP (TV que transmitiu a partida) - foi derrotado pela seleção alemã. Não pelo árbitro. Quando muito, ele errou em não marcar um penálti contra a Alemanha. Mas isso quando o jogo já ia nos 3 a 0 e Portugal já jogava apenas com 10 jogadores.
Mas tal qual a Espanha, que também perdeu por diferença de 4 golos na estreia, Portugal tem tudo para passar aos oitavos de final. Basta não se deixar abater por esta (previsível) derrota.

COPA – Grupo E



Pelas características do jogo, Suíça e Equador deveriam ter empatado. Mas a Suíça é melhor e, além disso, teve mais sorte. Fez o gol de desempate aos 2 minutos e 57 segundos do prolongamento de 3 minutos do 2º tempo do jogo...

Honduras não tem equipa para ir a lugar algum na Copa. E a França, não por ter vencido Honduras, deve classificar-se para os oitavos de final.

Penso que entre Suíça e Equador, a primeira tem mais chance de classificar-se. Até por ter vencido o confronto direto. Qualquer uma delas que se classifique vai parar nos oitavos. Deverá enfrentar Argentina ou Nigéria. Não há hipótese – para nenhuma das duas – de passar aos quartos de final.

A seleção do Equador é uma equipa com algumas semelhanças com a seleção brasileira, apesar da diferença grande de nível técnico. Suas cores predominantes são o azul e o amarelo. E tem um jogador extremamente preocupado com o penteado, chamado Caicedo. O Brasil usa as mesmas cores e tem um jogador que também se preocupa muito com o corte de cabelo e que cai a qualquer hora.


Detalhe: no segundo gol da França, será que a bola entrou mesmo?! Não senti firmeza nessa tecnologia que está a ser utilizada para indicar se a bola entrou ou não. Digo que isso é detalhe porque a França ganharia esse jogo de qualquer forma. Mas para novas situações essa tecnologia pode dar confusão.

domingo, 15 de junho de 2014

COPA ~Grupos C e D



No grupo C, penso que a Grécia está fora. Por uma razão muito simples: é uma equipa que não sabe fazer gols. E, apesar de alguns luminares do futebol brasileiro dizerem que o gol é um detalhe, isso é essencial. Ao menos para quem quer vencer.

Entre Colômbia, Costa do Marfim e Japão, o mais provável me parece que seja o Japão a cair fora. Mas isso não é muito certo porque a seleção da Costa do Marfim, tal qual a de Cameroun, parece não estar muito interessada na Copa. No jogo com o Japão seus jogadores dormiram durante a primeira meia hora. E o Japão fez seu gol. Depois de seus jogadores acordarem, Costa do Marfim não teve trabalho em reverter o placar. Apenas tomou bastante cuidado para não fazer nada além do indispensável para ganhar.


No Grupo D a situação é mais simples: classificam-se Itália e Inglaterra. A Costa Rica foi a responsável pelo primeiro resultado surpreendente desta Copa ao vencer o Uruguai. Mas não tem capacidade de desbancar nenhum dos outros dois.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

COPA - Grupos A e B



O que se viu, até agora, indica duas seleções em nível superior às demais: Holanda e Espanha.

As demais estão em patamar inferior.

Quanto ao Brasil, isso se pode compreender: primeiro jogo, obrigação de ganhar por jogar em casa. Mas vai ter de crescer muito se quiser passar por Holanda ou Espanha nos oitavos.

Mas a Espanha perdeu por cinco! 

Isso não me impressiona, principalmente depois de ver um Chile fraco, com apenas dois jogadores acima do medíocre: Valdívia e Alexis. Esse último, um craque.

México é uma equipa razoável, nada além disso. Cameroun parece que não foi à Copa para jogar. Tem jogadores de técnica primorosa mas quase nenhum deles quer saber de jogar futebol. Assim não vai a lugar algum. O segundo lugar do grupo fica entre México e Croácia. A menos que Cameroun resolva começar a disputar a Copa...

A Austrália, que tem minha simpatia, fez bonito papel contra o Chile mas dificilmente vai fazer algum ponto antes de voltar para casa.

Vamos ver se minha bola de cristal resulta.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Da utilidade do Espiritismo

Ainda sem entrar no mérito dos conceitos e práticas espíritas, o que pretendo fazer em breve, quero comentar um aspecto que me intriga e sobre o qual gostaria de ver os comentários de meus amigos espíritas.

Janer Cristaldo já se referiu algumas vezes, em suas crônicas, a um episódio ocorrido logo depois do falecimento de sua esposa. Ao encontrar-se com uma amiga, ouviu dela que na véspera estivera em uma sessão espírita e conversara com a esposa de Janer. Ele, então, pediu à amiga que da próxima vez em que tal contacto ocorresse, ela pedisse à falecida o código do celular que com ele ficara. Nunca mais ouviu qualquer referência a seu pedido.

Meu pai, em seu livro sobre o Espiritismo, escrito em 1.953, escolheu deixar para o último capítulo a questão da utilidade dessa seita. Mas já no capítulo V (pag. 66), coloca uma questão instigante:

“E por que é que quando se perdem aviões e se ignora o ponto em que caíram e a sorte dos que estavam a bordo, o espiritismo não mobiliza as suas forças para dar as informações precisas? Perde-se muito tempo, gasta-se muito dinheiro, sofre-se muita ansiedade e vidas preciosas desaparecem, quando o auxílio dos mortos seria aí de um valor assombroso.”


Apesar de já se terem passado mais de sessenta anos, a pergunta que ele aí deixou registada continua atual, mormente agora, diante do desaparecimento do voo MH370 da Malaysia Airlines.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Comunidade e Propriedade

É muito comum associar-se espírito comunitário a desinteresse pela propriedade privada.
Até mesmo as posições anticomunistas sempre alertaram para o “perigo” que o comunismo representava para a propriedade privada, mesmo sabendo-se que o que se pretendia com a revolução socialista era a eliminação da propriedade privada dos meios de produção e não de toda e qualquer propriedade privada. Por outro lado, esse receio conservador não era de todo desprovido de razão pois o socialismo se propõe, sempre, a “tolerar” alguma propriedade privada. Diga-se, também, que tendências a incentivar a propriedade privada são invariavelmente vistas como afastamento dos padrões socialistas. Vejam-se, por exemplo, as mudanças dos últimos anos no regime chinês.

Por tudo isso, desde que comecei a ter contato com as aldeias portuguesas, particularmente as de Trás-os-Montes, já lá se vão 15 anos, saltou-me aos olhos a aparente contradição entre o espírito comunitário que nelas reina e o rigoroso sentido de propriedade privada que é nelas a norma.

Em tempos idos, as aldeias – nas quais as habitações não eram dotadas de boa infraestrutura - tinham todas a Casa do Povo, acompanhada do Forno do Povo, no qual todos vinham cozer seus pães.

Com os tempos modernos, as aldeias passaram a ser dotadas de energia elétrica, esgoto, e as habitações puderam desfrutar de água encanada, aquecimento e eletrodomésticos (o frigorífico, a arca, o microondas etc etc). A Casa e o Forno do Povo, penso que na quase totalidade delas, passaram a ser figuras decorativas.

Contudo, o espírito comunitário que compunha a superestrutura ideológica das aldeias manteve-se intacto. Exemplos dele não faltam. As matanças dos porcos em Dezembro (tradição de séculos que vem sendo destruída, a meu ver, por um tolo conceito de saúde pública e um protecionismo animal inconsistente), que se efetivava em cada família com a ajuda de vizinhos e amigos convidados, que vinham auxiliar a matança e desfrutar de merecidas refeições festivas uma vez terminado o labor. As vindimas, em Outubro, nas quais também amigos vão ajudar a colher as uvas, levá-las ao lagar e pisá-las. Tudo isso seguido das indefectíveis refeições comemorativas do trabalho realizado. A apanha das castanhas, operada de modo análogo (isso nas ditas “terras frias”; nas “terras quentes” é mais adequado falar-se em azeitonas). Sem falar nas festas anuais dos santos de cada aldeia, em que cada habitante colabora com uma quantia determinada para o brilho da festa.

De outro lado, chama a atenção o rígido respeito à propriedade privada de cada família. Uma cerejeira pode estar coalhada de cerejas perfeitamente acessíveis a qualquer passante, mas se ela está no terreno de João, é de propriedade de João, ninguém que não seja da família de João esticará a mão para apanhar uma cereja que seja.

E há ainda aspectos curiosos em relação à propriedade. Um castanheiro, por exemplo, pode estar bem no meio do terreno de António mas ser propriedade de Abel. Será Abel a colher as castanhas na época da apanha e consumi-las ou levá-las ao mercado para venda.

Um caso que me chegou estes dias ao conhecimento: uma de minhas primas e seu marido têm – em frente à casa deles – um terreno de bom tamanho no qual plantam de um tudo. Verduras, legumes etc. Pois ocorre que por razões que desconheço há, em meio ao dito terreno, uma faixa de terra de dois metros de largura que pertence a outro habitante da aldeia. Eles então levam a plantação até ao limite da tal faixa, pulam os dois metros (que ficam como terra nua pois o proprietário não os utiliza) e continuam sua horta até o fim do terreno.


segunda-feira, 9 de junho de 2014

Das limitações da Linguagem

Reza a tradição de minha família que uma tia, cujo nome preservo, viu-se em tempos à volta com a impossibilidade de expressar algo que com ela se passava.
Aos factos:
Ocorreu ter a mencionada tia sido  vítima de um problema qualquer que lhe afetou um dos olhos.
Ao pensar em qual seria o modo adequado de comunicar a seus próximos o mal que a incomodava, viu-se diante de dilema:
- Se digo que estou com problema nos olhos, pensarão que tenho os dois olhos enfermos, o que não é verdadeiro.
- Caso diga eu, então, que tenho problema no olho, corro o risco de pensarem que falo do olho do cu.


sexta-feira, 6 de junho de 2014

Cristo salva Humanidades


Fiquei agradavelmente surpreendido, logo que vim morar em Bragança, Portugal, ao notar que as mulheres se referem a seus maridos como “meu homem”. Não sei se isso é hábito português ou do Norte de Portugal. Ou, mais restritamente, de Trás-os-Montes. Também não sei se é costume de alguns lugares no Brasil. Como o Criador na criação, apenas constatei que é bom que assim seja.

Isso para dizer que minha mulher comentou comigo uma notícia vista na TV: foi descoberto um planeta com características semelhantes às da Terra.
Para mim, nenhuma novidade. Penso ser quase impossível que não existam outros vários planetas com vida semelhante à nossa, dada a abundância de corpos celestes que compõem esse (quase) infinito Universo.
Mas minha mulher persistiu:
- E como fica a religião diante dessa possibilidade?

As religiões, acostumadas a dar nó em pingo de éter (nó em pingo d'água até eu dou), não devem encontrar dificuldade em lidar com essa pluralidade de Humanidades.

Deus, ao criar nosso mundinho, pode ter, antes, durante e depois, criado outros muitos mundos, habitados por seres mais ou menos semelhantes a nós.
Na Bíblia, o Manual do Usuário (/Utente) que ele criou para nos orientar, preocupou-se tão somente em falar do nosso mundo. Mas os demais mundos devem ter suas Bíblias, com suas particularidades contempladas.

Mundos há em que Eva não foi na conversa da serpente e não comeu do fruto proibido. Com isso, neles não há pecado original, nem necessidade de um Salvador que redima tais humanidades. Todos continuam a desfrutar do Paraíso.

Em outros mundos, a serpente saiu a ganhar, assim como cá entre nós. Vai daí, Deus teve de mandar Seu Filho Unigênito para a redenção de tais humanidades.

Isso talvez até explique por que Jesus custou a vir à Terra. Havia muitos outros mundos a salvar.

Ele teve de encarnar-se em diferentes civilizações, de diferentes planetas. Em todas elas passar por um processo de implantação da semente cristã. E sacrificar-se de acordo com os costumes locais a fim de salvar cada uma de tais culturas.

Talvez até hoje Cristo esteja a ser crucificado (ou submetido a algum outro suplício) em algum planeta distante.

Em alguns desses mundos o cristianismo terá vingado, auxiliado – como cá na Terra – por fatores políticos propícios a seu protagonismo. Alguns mundos devem ter tido, como aqui, seus imperadores Constantinos dispostos a implantar o cristianismo na marra.

Em outros, nem um Paulo terá surgido e a seita diluiu-se em pouco tempo, dividida em várias facções rivais. Para esses mundos talvez uma nova visita do Cristo seja necessária, para tentar repor ordem na casa.

Enfim, as hipóteses são infindáveis.

Não sei como ainda não surgiu uma seita Cristãos de Andrômeda. Ou será que já existe?


terça-feira, 27 de maio de 2014

Por que sou ateu - 3

Mencionei meus estudos de Lógica porque, para mim, acreditar em algo passa por entender esse algo ou ao menos não vislumbrar nenhuma razão que invalide esse algo.
Contudo, tenho consciência daquilo que quase toda gente reconhece e que B. Russell, no já aqui citado Por que Não Sou Cristão, afirma. A saber:
“O que realmente leva os indivíduos a acreditar em Deus não é nenhum argumento intelectual. A maioria das pessoas acredita em Deus porque lhes ensinaram, desde tenra infância, a fazê-lo, e essa é a principal razão.
Penso, ainda, que a seguinte e mais poderosa razão disso é o desejo de segurança, uma espécie de impressão de que há um irmão mais velho a olhar pela gente. Isso desempenha um papel muito profundo, influenciando o desejo das pessoas quanto a uma crença em Deus.”

De uns dez anos pra cá voltei a minhas leituras de autores ateístas e aos estudos bíblicos.
Confrontado com a imensa quantidade de evidências de que as religiões são puras construções humanas, deixei de considerar-me um agnóstico, como até então me rotulara, e me pareceu mais simples e verdadeiro dizer-me mesmo ateu.

Vou me restringir a alguns tópicos relativos ao Cristianismo. Gostaria de falar um pouco sobre o Espiritismo, bastante popular no Brasil de hoje, mas isso fica para outros textos.

A leitura que normalmente os crentes fazem da Bíblia é a chamada leitura devocional. Por exemplo, leem os Evangelhos um a um – Mateus, Marcos, Lucas e João – e buscam nessas narrativas da vida de Jesus inspiração que lhes alimente a fé.

Uma leitura histórico-crítica é diferente. Primeiro, é preciso situar esses textos na História. Nenhum deles foi escrito por gente que tenha conhecido Jesus pessoalmente. O Evangelho segundo Marcos foi o primeiro a ser produzido, em torno do ano 70. Jesus teria sido crucificado antes do ano 30, já que seu nascimento é situado uns seis anos antes do início do primeiro século da era cristã. Quinze ou vinte anos depois, já perto do final do século I, foram escritos os Evangelhos segundo Mateus e segundo Lucas. Ambos basearam-se em Marcos mas utilizaram também outra fonte. Por fim, já no século II, foi produzido o Evangelho segundo João. Ao fazermos uma leitura “horizontal” dos quatro Evangelhos canônicos (há vários outros Evangelhos que não foram incorporados à Bíblia), ou seja, comparando as narrativas de um mesmo episódio nos quatro Evangelhos, constatamos que elas não coincidem e até se contradizem. E não estou a falar de acontecimentos secundários. Pode-se fazer essa comparação quanto ao nascimento de Jesus, quanto a sua crucificação e quanto ao episódio da ressurreição, por exemplo. Faça você mesmo a análise de ao menos um desses casos.

De resto, é bastante difícil estabelecer com alguma segurança que Jesus efetivamente existiu. Mas caso tenha mesmo existido, sua vida foi de uma falta de originalidade absoluta.

Todos os que na Antiguidade bem anterior a Jesus tornaram-se o centro de religiões, foram adorados como “filhos de Deus” - Buda, Krishna, Confúcio, Lao-Tsé – e tidos como nascidos de virgens.

Na lenda a respeito do nascimento de Buda se fala de uma milagrosa luz celeste que anunciou o evento. O nascimento de Krishna foi anunciado por um meteoro luminoso. No dia em que nasceu Júlio César apareceu a estrela Ira no firmamento.

Pelo menos desde os tempos do rei Dario I (séc. VI A.C.) da Pérsia, havia rituais em que magos/sacerdotes deviam oferecer a Ahura-Mazda, o deus solar principal, os presentes de ouro, incenso e mirra.

Por toda a Ásia há lendas antiquíssimas como as de Tchu-Mong (Coreia), Tong-Mong (Manchúria) ou Heu-tsi (China). Deste último, por exemplo, se conta que “sua mãe o trouxe ao mundo em um pequeno estábulo à beira do caminho; bois e cordeiros o aqueceram com seu calor. Acorreram a ele os habitantes dos bosques, apesar do rigor do frio, e as aves voaram até o menino como para cobri~lo com suas asas.”

A lenda da perseguição de Herodes não tem respaldo nos fatos históricos mas – sim – em mito semelhante relativo a Krishna.

Concluo com a comparação entre a vida de Jesus e a do deus Sol de várias culturas antigas:
(como nas demais comparações de Jesus com outras figuras importantes do imaginário dos povos da Antiguidade, valho-me do livro Mentiras Fundamentales de la Iglesia Católica, de Pepe Rodriguez)

”Todas as personificações de deuses solares acabam por ser vítimas propiciatórias que expiam os pecados dos mortais, carregando suas culpas e são mortos violentamente e ressuscitados posteriormente.”
Osíris: nasceu como salvador ou libertador vindo para remediar a tribulação dos humanos. Foi morto pelo Mal, encarnado em seu próprio irmão. Colocado em sua tumba, ressuscitou e subiu aos céus ao fim de três dias (ou quarenta, segundo outras versões da lenda).
Shiva: deus hindu, em um ato de supremo sacrifício ingeriu uma bebida envenenada e corrosiva que havia surgido do oceano para causar a morte do universo, tragédia que Shiva evitou com sua autoimolação e posterior retorno à vida.
Baco: outro deus solar, destinado a suportar as culpas da humanidade, foi também assassinado para renascer ressuscitado.
O mesmo, com pequenas variações ocorre a Ausonius, uma forma de Baco, a Adonis, equivalente ao deus etrusco Atune ou ao sírio Tammuz, a Dionísio ou ao frígio Atis e a uma longa lista de seres divinos que tiveram trajetória semelhante à de Cristo.

Se, como eu tendo a achar, Jesus realmente existiu, sua vida foi devidamente mitificada com base nas tradições pagãs.

Muito mais se pode dizer sobre Jesus e sobre a Bíblia.

Mas esse texto já se prolonga mais do que o desejável.
Ainda espero escrever muito mais sobre tudo isso.
Penso ter dado algumas indicações das razões que me levaram à descrença.

Obrigado pela atenção dos que me acompanharam pacientemente até aqui.

Beijinhos trasmontanos a todos! E viva a vida!


FIM

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Por que sou ateu - 2

Meu pai morreu quando eu tinha dezesseis anos. Esse fim precoce impediu que tivéssemos conversas adultas, de homem pra homem. Mesmo porque, nessa altura, eu já saíra de Santos para estudar em São Paulo. Só nos víamos nos fins de semana.

Quem sabe essa minha propensão a discutir assuntos de doutrina religiosa tenha um bocadinho a ver com não ter podido fazê-lo com ele...

Com a morte de meu pai, a pressão para que eu me tornasse também pastor foi grande. Fui até levado a fazer um sermão na igreja na qual ele havia sido pastor. Por ironia, soube depois que uma senhora converteu-se em função de minha pregação. O que mostra que quando alguém quer crer, qualquer discurso serve...

Se eu quisesse, teria futuro garantido. Bastava seguir a carreira de meu pai. Mas, apesar de ainda ser crente, naquela época, meus planos para minha vida eram outros.

Ao longo de meu curso de engenharia aproveitava algumas das horas de lazer para ler livros sobre religião. Algo como o Por que não sou Cristão, de Bertrand Russell (disponível na Internet, em pdf), por exemplo.

Essas leituras foram a pá de cal no que me restava de crença. Meu gosto pela Lógica não me permitia continuar a aceitar as verdades sem pé nem cabeça que as religiões me ofereciam.

Salta aos olhos, por exemplo, o absurdo lógico da prática - muito comum entre os cristãos - de citar versículos da Bíblia que a dão como a Palavra de Deus com o intuito de “provar” que ela é a Palavra de Deus.

Paralelamente a essa minha migração para a descrença, ampliava-se no Brasil o ambiente ditatorial instaurado em 1.964.

Durante meu curso de engenharia eu adotara uma postura política anarquista. Havia algum parentesco entre meu rompimento com a fé religiosa e o anarquismo.

Ao final do curso de engenharia, contudo, resolvi fazer o curso de filosofia. E mergulhei de cabeça no clima revolucionário que predominava no ambiente acadêmico um pouco por toda parte do mundo. Estávamos no histórico ano de 1.968. Isso levou-me ao marxismo-leninismo e – em vários sentidos – de volta ao espírito religioso.

Durante três anos dediquei toda minha energia à luta revolucionária.

Depois de um ano e meio na prisão, em convívio forçado com grande parte da chamada Esquerda Revolucionária, saí vacinado contra toda e qualquer religião. Cristianismo e Marxismo passaram a ser, para mim, apenas objetos de estudo. Mesmo assim, minha dedicação maior voltou-se para o estudo da Lógica e para a leitura dos clássicos gregos.

O estudo de Lógica foi o que consegui levar mais longe, favorecido pela orientação que passei a receber de um dos mais importantes lógicos do século XX, o prof. Newton da Costa.


Já se disse que cultura é aquilo que nos fica depois que esquecemos tudo o que estudámos. Hoje em dia, se tento ler alguns resultados a que cheguei em Lógica, já não mais entendo o que leio. Mas o que me ficou foi fundamental para o restante de meus estudos até hoje.

 [continua]

Por que sou ateu - 1

Uma pessoa muito próxima a mim pediu que eu explicasse a ela por que me tornei ateu, eu que sou filho de pastor batista.
Resolvi publicar minha resposta. Quem sabe ela seja de interesse de mais alguém.

Nasci ateu do mesmo jeito que a mãe do Lula nasceu analfabeta.
Todo mundo nasce ateu.

Mas bem cedo comecei a passar por um processo de catequese.
A vida de minha família girava em torno da igreja na qual meu pai era pastor.
Contudo, havia alguma ambiguidade nesse ambiente familiar.
Se de um lado era praticamente compulsório aceitar a doutrina batista como verdadeira, respirava-se na casa de meus pais uma atmosfera cultural um tanto incompatível com essa mesma doutrina. Afinal, meu pai era pastor mas também um intelectual. Minha mãe e uma de minhas irmãs eram da área da matemática. Ciência e religião conviviam naquele lar, ainda que como azeite e água.

Desde muito cedo passei a ler os livros da biblioteca de meu pai. Os que ele me deixava que lesse e alguns que ele me proibia de ler...
E as dúvidas começaram a brotar.

Um dia perguntei a meu pai:
  • Se um indivíduo só é salvo caso aceite Jesus como seu Salvador, como fica a situação de um índio que nunca teve contato com o homem branco e jamais ouviu falar em Jesus? Ele vai para o inferno?
Meu pai deu de ombros:
  • Deixa o índio pra lá e cuida de sua vida.
Afinal, eu era um fedelho que não merecia resposta mais elaborada.

Algum tempo depois, estava eu com meus quinze anos e passei a ter um colega no Colégio Canadá, em Santos, que gostava de conversar sobre religião. Ao saber que meu pai era pastor perguntou-me se meu pai aceitaria que ele fosse a nossa casa para fazer algumas perguntas a meu pai. Perguntas sobre questões religiosas que o afligiam.
Meu pai aceitou recebê-lo e ele foi a nossa casa a carregar uma sacola cheia de livros.
Quando a conversa começou, depois das devidas apresentações, meu pai tirou os livros da sacola do garoto e viu que, entre eles, havia uma Bíblia. Disse então ao rapaz que aquele era o livro que interessava. Passou a ler vários versículos para nós e não deixou mais o garoto abrir a boca.
O rapaz foi embora visivelmente decepcionado. Nossas conversas sobre assuntos religiosos terminaram aí.

Esses pequenos acontecimentos aguçavam minhas dúvidas, por um lado. Por outro, tornavam claro que eu teria de resolvê-las sozinho. E contra a correnteza.

[continua]



quinta-feira, 22 de maio de 2014

Pergunte a seu Pastor

No evangelho de Marcos, capítulo 2, versículos 23 a 26, conta-se como Jesus respondeu à crítica de que seus discípulos trabalhavam em um sábado:


23 . Aconteceu que, ao passar num sábado pelas plantações, seus discípulos começaram a abrir caminho arrancando as espigas.
24 - Os fariseus disseram-lhe: “Vê! Como fazem eles o que não é permitido fazer no sábado?”
25 - Ele respondeu: “Nunca lestes o que fez Davi e seus companheiros quando necessitavam e tiveram fome,
26 - e como entrou na casa de Deus, no tempo do Sumo Sacerdote Abiatar, e comeu dos pães da proposição, que só os sacerdotes podem comer, e os deu também aos companheiros?”


Utilizo aqui a tradução da Bíblia de Jerusalém, que considero mais bem cuidada. Na maioria das demais traduções fala-se que os discípulos de Jesus “começaram a colher espigas”, dando a entender tratar-se de colheita e não de abertura de caminho por entre a plantação. De qualquer modo, para a questão que vou colocar aqui, isso é irrelevante. Vamos adiante.

A história de David e de seus companheiros, mencionada por Jesus, é a que consta em 1º Samuel 21: 2-7 :

2 - Davi chegou a Nob e foi ao sacerdote Aquimelec, que veio tremendo ao encontro de Davi e lhe perguntou: “Por que vieste sozinho e não há ninguém contigo?”
3 - Davi respondeu ao sacerdote Aquimelec: “O rei me deu uma ordem e disse: 'Que ninguém saiba nada da missão à qual te envio e que te ordenei.' Quanto aos jovens, encontrei com eles em certo lugar.
4 - Agora, se tens cinco pães à mão, dá-nos, ou o que achares.”
5 - O sacerdote respondeu a Davi: “Não tenho à mão pão comum, mas só pão consagrado – com a condição de que os teus jovens não tenham tido contato com mulheres.”
6 - Davi respondeu ao sacerdote: “Certamente, as mulheres nos foram proibidas, como sempre que parto em campanha, e as coisas dos homens conservam-se em estado de santidade. Trata-se de uma viagem profana, mas, de fato, hoje eles se mantêm em estado de santidade quanto à coisa.”
7 - Então o sacerdote lhe deu o que havia sido consagrado, porque não havia outro pão, salvo os pães de oblação, os que se retiram de diante de Iahweh para serem sobstituídos por pão quente, quando aqueles são retirados.


A questão é:
Jesus, segundo Marcos, diz que Abiatar era o sacerdote por ocasião do episódio de David e dos pães consagrados.
O relato do Antigo Testamento afirma que o sacerdote, na ocasião, era Aquimelec.

Mais adiante (1º Samuel 22: 20) fica esclarecido que Abiatar era filho de Aquimelec:

Somente escapou [da morte] um filho de Aquimelec, filho de Aquitob. Chamava-se Abiatar, e fugiu para junto de Davi.”


Para embaralhar mais as coisas, em 2º Samuel 8:17 consta o contrário:

Sadoc, filho de Aquitob, e Aquimelec, filho de Abiatar, eram sacerdotes:


Mas esta confusão também é irrelevante para nossa questão. Voltemos a ela.

Ora, Jesus é tido pelo Cristianismo, desde o Concílio de Niceia (325 D.C.) como integrante da Santíssima Trindade. No popular: Jesus é Deus.
Mesmo que se considere que Ele não era completamente perfeito em sua encarnação terrestre, era de se esperar que ele conhecesse bem os textos sagrados para não cometer um erro desses.

Mas há ainda a possibilidade de Marcos ter-se enganado. Mesmo que esqueçamos a questão de a Bíblia ser tida como totalmente inspirada por Deus, resta a pergunta:
Terá sido apenas esse o erro de Marcos? Ou haverá outros?


Gostaria de saber o que pensam desse imbroglio todo os que costumam afirmar com grande convicção que a Bíblia é a Palavra de Deus, portanto integralmente verdadeira.

domingo, 18 de maio de 2014

Visão literal da Bíblia - Rainha Ester

Volto ao livro de Daniel C. Dennett e Linda LaScola, Caught in the Pulpit: Leaving Belief Behind.

Desta vez, cito um trecho do capítulo em que se trata de como os seminaristas reagem aos primeiros cursos que recebem nos Seminários sobre a Bíblia .
Justamente para tentar amenizar o impacto sobre os seminaristas de um estudo histórico/crítico da Bíblia, em um certo Seminário instituiu-se uma aula demonstração para futuros possíveis alunos. Como veremos, essa providência não resolveu o problema, apenas o antecipou um bocadinho.

Fala sobre isso Beatriz, a professora encarregada da aula demonstração:

Escolhi este tópico [o livro de Ester] de propósito, porque pensei: “Este é um livro ao qual ninguém dá muita importância, e se eu introduzo os alunos à ideia de que ele não é historicamente verdadeiro ou não ocorreu daquela maneira” - nunca houve uma Rainha Ester - “isso não deixará ninguém muito chateado.” Nós sabemos isso porque conhecemos um bocado a respeito desses reis Persas. Sabemos os nomes de todas as suas esposas e não houve nenhuma Ester, nunca. Assim, estamos bastante seguros de que nada parecido com aquilo ocorreu. Desse modo eu pensei que eu deveria escolher esta história e então falar a respeito de como eu penso que nós podemos ainda olhar para esses livros e meditar acerca da teologia que eles expressam. Nós formávamos um grande círculo, com todos esses alunos prospectivos que eu não conhecia e eu disse a eles que esta história jamais ocorreu tal como narrada mas que esse não é o ponto final; temos de olhar para esses textos, eles ainda são valiosos.... Mas depois da aula uma jovem, uma entre os alunos prospectivos, disse-me que naquele momento em que eu disse a ela que nunca houvera uma Rainha Ester seu mundo inteiro desabou.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Arte de rua

Matosinhos é uma cidade praiana, junto à cidade do Porto. Nela há um bairro, Leça do Balio, no qual existe um centro empresarial chamado Lionesa. No muro ao longo da rua Lionesa, que margeia o centro empresarial, foram feitos vários trabalhos de pintura. Fotografei quase todos no dia 1 de Maio de 2014.





















quarta-feira, 7 de maio de 2014

Amanhecer em Bragança

Eu que não sou de acordar cedo fui obrigado a tanto para preparar-me para uma colonoscopia. Além de levantar um bocadinho antes das seis horas, tive de - em jejum - tomar duas doses de um purgante.

Isso aconteceu no dia 8 de Abril de 2014.

Como há males que vêm para bem, pus-me a surpreender o dia a raiar.

Vejam. As fotos estão em sequência cronológica.

Ah! A colonoscopia informou que está tudo bem com minhas entranhas.

















quinta-feira, 24 de abril de 2014

Bicicleta e Próstata

Já um grande amigo meu havia corrido ao urologista ao constatar um aumento um tanto repentino do PSA.
Por coincidência ou não, havia algum tempo que começara a praticar em bicicleta ergométrica.
O médico aconselhou-o a interromper os exercícios por três semanas e, então, refazer o exame de PSA.
O PSA de facto baixou. Mas não o suficiente para que o médico baixasse a guarda. Outros exames mostraram a existência de cancro na próstata. O problema ficou resolvido por meio de cirurgia.

Quanto a mim, que sempre tive PSA em torno de 1 (um) (o normal é entre zero e quatro), tendo meu penúltimo exame - efetuado em 2012 - resultado em 0,86, tive a ingrata notícia de que subira para 2,5 em fins de Novembro de 2013.

Lembrei-me do fator bicicleta. Acontece que durante todo o segundo semestre de 2013 eu andara de bicicleta quase todos os dias.

Meu médico de família recomendou-me uma ecografia da próstata. Como desde Dezembro de 2013 eu parara de andar de bicicleta, por várias razões que nada tinham a ver com a próstata, resolvi medir o PSA antes da tal ecografia prostática.
Resultado: 1,02.
Feita a ecografia constatou-se a inexistência de cancro e uma aceitável condição da próstata (considerada minha idade provecta...)

Meu médico de família não hesitou em recomendar-me que volte a utilizar a bicicleta.
Mas com o devido cuidado em relação ao selim.
Recomendo esse mesmo cuidado aos demais ciclistas.
A leitura deste artigo pode ser proveitosa.

E boas pedaladas.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Pai Natal existe?

Nenhuma criança nasce com a convicção de que o Pai Natal (Papai Noel, no Brasil) é um ser verdadeiro, no sentido de existente.
São os pais - a família, toda a sociedade que a rodeia - que incutem essa ideia na cabeça da criança.
E ela passa a gostar da ideia. Afinal, quando o Natal se aproxima, ela escreve ao Pai Natal sua cartinha e fica à espera de que o presente chegue.
E o melhor: o presente chega!

Como deve ser gostoso acreditar no Pai Natal!



Mas quando a criança chega a uma certa idade, os próprios pais - toda a família, a sociedade que a rodeia - resolvem que chegou a hora de informar à criança que não. Pai Natal não existe.

Por que resolvem fazer essa maldade? Porque entendem que, agora, é salutar que a criança comece a enfrentar o mundo em sua crueza. Sem enfeites, sem Pai Natal.

É certo que a criança viverá uma certa decepção ao ser informada a respeito dessa triste realidade. Mas aos poucos irá perceber que é bem melhor aceitar a realidade do que conviver com fantasias. Será mesmo melhor para ela. Quando tiver de batalhar por um emprego, por exemplo, não se sentará para escrever uma cartinha ao Pai Natal a pedir que ele lhe providencie um bom emprego. Não. Irá lutar pelo emprego. Buscar melhorar sua qualificação profissional, aperfeiçoar-se.

Até aqui toda a gente concorda.

Mas outros Pais Natal surgirão ao longo da vida. Quanto a esses, ficará cada vez mais difícil aceitar que são fantasias. Por mais evidências que se acumulem a mostrar isso.

Quanto a esses novos Pais Natal, deve-se deixar que sigam a alimentar a fantasia das gentes?
De um lado sim. Já a essa altura não se trata mais de crianças. Adultos se aferram aos mais variados Pais Natal. Mas, por serem adultos, espera-se que tenham a capacidade de desconfiar de novas fantasias.
Por outro lado não. Assim como a criança, ao tomar conhecimento da inexistência do Pai Natal, torna-se mais apta a enfrentar a realidade da vida, também adultos livres de fantasias tendem a ser mais produtivos e mais felizes. Mesmo que sejam adultos, talvez muitos precisem de algum auxílio externo que os leve a desconfiar das fantasias.
Portanto, fazer a crítica das fantasias que povoam o imaginário das pessoas e as prendem às esperanças vãs de presentes pode ser uma forma de ajudá-las a encontrar maneira mais adequada de lidar com os mistérios da vida.

Sempre será útil tentar mostrar a toda a gente que não existe Pai Natal.
Nenhum.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

O final do evangelho de Marcos

Não sei até que ponto essa questão do final do evangelho segundo Marcos é do conhecimento de meus amigos cristãos. Edições boas do Novo Testamento (NT), em Português,  a discutem em detalhe, nomeadamente o NT de Russell Norman Champlin - edição em português que traz o texto grego, a tradução e comentários versículo a versículo, em seis grandes volumes - e a Bíblia de Jerusalém, em sua mais recente edição (2002).
As várias traduções do NT que podem ser encontradas aqui não fazem qualquer comentário a respeito, ao menos nessas versões digitalizadas. Tenho uma edição da Almeida (12ª impressão, 1957, Imprensa Bíblica Brasileira) que destaca os versículos 9 a 20 do último capítulo sob a rubrica Aparições de Jesus depois da sua ressurreição. Mas não faz nenhum comentário adicional.

Mas, afinal, qual é a questão em torno do final desse evangelho?

Há consenso quase total quanto aos versículos 9 a 20 do capítulo 16, o último do evangelho de Marcos: eles foram acrescentados tardiamente ao texto original.

Inclusivamente, esses doze versículos são substituídos, às vezes, pelo que Russell Champlin chama Término mais Breve. O NT de Champlin transcreve os dois finais.

A nota a respeito na Bíblia de Jerusalém diz:
[...] é difícil admitir que o segundo evangelho, na sua primeira redação, terminasse bruscamente no v. 8. Donde a suposição de que o final primitivo desapareceu por alguma causa por nós desconhecida e de que o atual fecho foi escrito para preencher a lacuna. Apresenta-se como um breve resumo das aparições de Cristo ressuscitado, cuja redação é sensivelmente diversa da que Marcos habitualmente usa, concreta e pitoresca. Contudo, o final que hoje possuímos era conhecido, já no séc. II por Taciano e santo Ireneu, e teve guarida na imensa maioria dos manuscritos gregos e outros. Se não se pode provar ter sido Marcos o seu autor, permanece o fato de que ele constitui, nas palavras de Swete, "uma autêntica relíquia da primeira geração cristã".

Quanto a mim, não possuidor de conhecimento que me permita discutir a questão, prefiro que o evangelho de Marcos termine no versículo 8, sem qualquer acréscimo, longo ou breve, por razões estéticas.
Dessa maneira, o evangelho que começa por
Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus
terminaria assim (Marcos 16: 1 a 8):
Passado o sábado, Maria de Magdala e Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram aromas para ir ungir o corpo.
De madrugada, no primeiro dia da semana, elas foram ao túmulo ao nascer do sol.
E diziam entre si:"Quem rolará a pedra da entrada do túmulo para nós?".
E erguendo os olhos, viram que a pedra já fora removida. Ora, a pedra era muito grande.
Tendo entrado no túmulo, elas viram um jovem sentado à direita, vestido com uma túnica branca, e ficaram cheias de espanto.
Ele, porém, lhes disse: "Não vos espanteis! Procurais Jesus de Nazaré, o Crucificado. Ressuscitou, não está aqui. Vede o lugar onde o puseram.
Mas ide dizer aos seus discípulos e a Pedro que ele vos precede na Galileia. Lá o vereis, como vos tinha dito."
Elas saíram e fugiram do túmulo, pois um temor e um estupor se apossaram delas. E nada contaram a ninguém, pois tinham medo...

Para mim, literariamente perfeito.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Férias conjugais

Fiz uma pesquisa perfunctória e descobri que o inventor das férias conjugais foi Paulo, aquele, o apóstolo.

Abro parêntesis para dizer que sempre que posso utilizo a palavra perfunctória ligada a investigação, análise, pesquisa. Ela dá uma ideia de profundidade, rigor. E, vai ver, significa exatamente o contrário: superficial, ligeira.  Sugiro seu uso por políticos. Pega muito bem.  Fecha parêntesis.

No texto em que Paulo fala aos coríntios sobre casamento e virgindade (I Coríntios 7) ele diz que o ideal seria que as pessoas não se casassem. Antes que você pense que o criador do cristianismo está a liberar algo assim como sexo livre, diga-se logo que ele começa o papo com a frase: É bom ao homem não tocar em mulher. A mim ficou a dúvida: se todos os homens seguissem o conselho de Paulo, como o apóstolo providenciaria a continuidade da espécie?  Mas por sorte os homens não são lá essa maravilha...

E Paulo sabe muito bem disso. E recomenda:Todavia, para evitar a fornicação, tenha cada homem a sua mulher e cada mulher o seu marido.
E entra em detalhes: O marido cumpra o dever conjugal para com a esposa; e a mulher faça o mesmo em relação ao marido.
Um bocadinho redundante mas tudo bem. E completa: A mulher não dispõe do seu corpo; mas é o marido quem dispõe. Do mesmo modo, o marido não dispõe do seu corpo; mas é a mulher quem dispõe.
Ficou claro?
Mas agora vem a surpresa:
Não vos recuseis um ao outro, a não ser de comum acordo e por algum tempo, para que vos entregueis à oração; depois disso, voltai a unir-vos [...] (grifos meus)


Estavam criadas as férias conjugais. A única alteração feita ao longo dos últimos séculos foi a respeito do que fazer durante elas.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Novo candidato

Surgiu um novo candidato às presidenciais brasileiras deste ano: Eduardo Neves.

Deve tratar-se de uma fusão entre Aécio Neves e Eduardo Campos. Como ambos estão mal nas sondagens, uma união radical entre eles traria novo alento às oposições em relação à candidata à reeleição (Dilma Rousseff), grande favorita..

A proposta foi publicada no Público de hoje.


Crença e coincidência

Há muito me intriga a coincidência: muita gente pensa que a verdadeira crença - seja religiosa, política, estética etc - é aquela na qual foi criado.
Sorte danada, não é mesmo?


Pois!
Mas há também quem não se sinta tão sortudo assim. Poucos, é certo.

Estou a ler o livro Caught in the Pulpit: Leaving Belief Behind (uma tradução canhestra seria: Presos ao Púlpito: Deixando a Crença para trás). Ele trata de ministros religiosos que perderam a fé. Alguns abandonaram seu ministério. Outros equilibram-se com um pé na fé e outro na descrença. Afinal, é preciso providenciar o pão de cada dia.
O livro traz a transcrição de muitas entrevistas com ministros religiosos (ou ex-ministros) em tal condição.
Uma delas é a de um ministro mórmon. Ele descreve como se desenvolveu nele a dúvida.
A certa altura da entrevista diz o que segue:

Para os Mórmons, a ideia de como você chega a saber que alguma coisa é verdade envolve ter uma experiência espiritual na qual o espírito atesta a você ou conta a você que algo é verdade. 
Eu já tive algumas experiências realmente especiais - eu diria que para mim elas transcendem a mera emoção. É algo que não sei explicar, necessariamente. Mas então, por meio de minha curiosidade na Internet, eu comecei a descobrir que os Mórmons não são os únicos. Pessoas que são Católicas, Protestantes, Muçulmanas, Budistas, têm experiências espirituais também. 
Se Deus quer que todos sejam Mórmons porque o Mormonismo é a verdadeira Igreja, por que concederia Ele a outras pessoas experiências espirituais que confirmariam suas próprias tradições de fé e as colocariam em outras trajetórias? É confuso, sabe?

domingo, 13 de abril de 2014

Flatulência

"Capitalista ou socialista, não há modelo que resista à fome insaciável dos que acreditam que 'o lucro é meu e o prejuízo é de todos'.
Cansaço...!" (Andrea Pachá)
Sim. Mas o que temos é o capitalismo. Quanto ao socialismo, houve o real , que deu no que deu. E há o utópico, reinante na cabecinha de intelectuais flatulentos.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Renúncia

Só a conhecera pequenina, criança.
Um dia a viu, já moça. Mocinha.
E a achou linda, deslumbrante mesmo.
Aproximou-se dela. Conversaram. E a paixão, nele, aumentou.
Além de linda era muito inteligente.
Ela o atendia com delicadeza, por educação. Mas não mostrava grande interesse por ele.
Já seus pais, esses queriam o relacionamento. Questões de famílias.
Julgavam o rapaz a partir do conceito que tinham dos pais dele.
E incentivavam a filha a aproximar-se dele.
Ela deixou-se levar pelos estímulos paternos. E a relação começou a nascer.
Foi quando ele parou para pensar nos desdobramentos.
Ele iniciara já havia algum tempo uma caminhada sem volta para um universo totalmente diferente da atmosfera que ela respirava. E se perguntou se fazia sentido arrastá-la consigo.
Ainda tentou conversar com ela sobre tudo isso, mas não era possível que ela percebesse a que novo mundo se referia ele.
Resolveu romper o relacionamento antes que o apego entre ambos crescesse demais.
Resolveu poupá-la.

Passado algum tempo, sentiu que não conseguiria ficar sem ela. E lhe telefonou.
Quis a sorte que fosse o pai a atender a seu chamado. O homem ficou atônito com a ligação e explicou que ela viajara.
Ficou sem saber se fora viagem para esquecê-lo ou porque o rompimento em quase nada a afetara.
Mas concluiu que fora melhor assim. Sua fraqueza não faria bem a ela. A decisão que tomara mostrava-se caminho sem volta. Melhor.

Os rumos que escolheu para sua vida de facto o levaram a grande distância do universo dela. Sentiu que afastá-la fora o certo. Um certo que às vezes doía. Mas o certo muitas vezes dói mesmo.

Às vezes ouvia notícias dela. E ficava contente ao sabê-la feliz.

Quase cinquenta anos depois a viu. Sem que fosse visto.
E sentiu emoções misturadas. Saudade, tristeza, admiração, uma quase alegria.

E ficou entre um sorriso leve e uma lágrima contida.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Mediocridade


Esse é o nome escolhido por Cláudio Giordano para seu livro de "considerações sobre a vida humana a partir de minha existência".




Giordano começa por discutir a ideia de Deus. E se declara incapaz de apostar tanto em Sua existência quanto no contrário.
Resigna-se ao agnosticismo.
Passa, então, à condição humana. E conclui pela supremacia da sociedade em face do indivíduo.
É quando se mostra revoltado pela incapacidade dos homens em submeter o egoísmo à supremacia devida ao convívio em sociedade.
 A partir da afirmação do primado do coletivo sobre o individual, passa a mostrar-se o bibliófilo que Giordano sempre foi.
 Aos poucos, cede a palavra a proeminentes nomes da Cultura.
E nos brinda com uma seleção magnífica e fascinante de textos que vão de Platão (Apologia de Sócrates) a Roger Scruton (Bebo, logo existo).
 Aliás, termina o livro com citação desse último, a dar vaza a fina ironia:
Ao apressar a nossa morte, uma bebida não causa nenhum dano ambiental real - afinal de contas somos biodegradáveis e talvez isso até seja a melhor coisa a ser dita sobre nós.