sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Os índices da velhice

Fui hoje ao oftalmo.
Além de me receitar novos óculos, deu-me a notícia de que tenho cataratas.
Muito educado, pediu desculpas pela má notícia.
E eu, que considerara a notícia boa por não precisar operar já. Afinal, as minhas não são tão abundantes como as de Niagara, que visitei na passagem de ano. Esclareceu-me o facultativo que tenho cá um índice de 9 em 10 (referia-se à quantidade de linhas de letras que eu consegui ler em uma dezena). Só quando alcançar o índice de 5 em 10 é que haverá chegado o momento da cirurgia.

E assim, minha velhice está cada vez mais atrelada a índices. Este das cataratas vem juntar-se aos milímetros de diâmetro da aorta ascendente. Até o ano passado estava estável em 46 mm. Quando chegar a 50 mm terei chegado ao fim de minha visita a este vale de lágrimas. Vale, diga-se, em que derramei poucas lágrimas e no qual deliciei-me e delicio-me a valer.
Isso para não mencionar os mais prosaicos: índice de glicemia, índices de tensão arterial, índice de ácido úrico etc etc etc.
Estou fadado a transformar-me em uma tabela do Excel.

***

Duas coisas me deram alegria no dia de hoje.
A primeira, bem mais desimportante que a segunda, foi ter conseguido utilizar o substantivo facultativo para referir-me a um médico. Desde criança ouço os comentaristas esportivos referirem-se a médicos de clubes de futebol dessa maneira. Eu desde sempre os invejava. Agora, na velhice, mais. Afinal, a algo que se torna a cada dia mais necessário é muito agradável que se o possa chamar de facultativo.
A segunda: meu filho, como escrevi há pouco, chega hoje a seu sexto quadrado perfeito. E tem sido durante esses 36 anos uma de minhas três mais gratas alegrias.

1 comentário:

Suzie Q Motta disse...

É bom conhecer os índices quando podemos regulá-los, quando só servem para nos alertar da proximidade da morte basta-nos lembrar nossa idade!
Eu nunca ouvira a palavra "facultativo" aplicada aos médicos e, se abandonada o foi, deve ter sido por iniciativa dos planos privados de saúde. Custam tão caro que nos vemos obrigados a consultá-los anualmente de modo a mitigar o gasto, nem que com isso aumentemos nossos transtornos.