sábado, 19 de julho de 2014

Ainda o racismo em Kardec

Dia desses escrevi que Kardec tinha concepções racistas. A tal ponto que a publicação de suas obras, no Brasil, foi condicionada pelo Ministério Público Federal à publicação, junto a cada obra dele, de Nota Explicativa que tenta dizer que não é o que é.
As citações que fiz, eu as tirei de um artigo na Revista Espírita Ano V - 1862, mês de Abril (Perfectibilidade da Raça Negra).
Meus amigos espiritistas acorreram a dizer que nessa revista saíam artigos que ainda não tinham sua validade confirmada etc e tal.
Isso não deixa de ser verdade. Mas, então, vamos às considerações racistas de Kardec tiradas de A Gênese, um dos livros basilares da doutrina espírita.
As páginas que menciono referem-se à 52ª edição brasileira da Federação Espírita Brasileira (FEB).

A questão das raças é abordada por Kardec no capítulo XI (Gênese Espiritual):
É assim que as raças adiantadas têm um organismo ou, se quiserem, um aparelhamento cerebral mais aperfeiçoado do que as raças primitivas. Desse modo igualmente se explica o cunho especial que o caráter do Espírito imprime aos traços da fisionomia e às linhas do corpo.” (item 11, pág. 242).
Recebendo os corpos a impressão do caráter do Espírito e procriando-se esses corpos na conformidade dos respectivos tipos, resultaram daí diferentes raças, quer quanto ao físico, quer quanto ao moral.” (item 30, pág. 252).
Não foi, portanto, uniforme o progresso em toda a espécie humana. Como era natural, as raças mais inteligentes adiantaram-se às outras, […] Fora, com efeito, impossível atribuir-se a mesma ancianidade de criação aos selvagens, que mal se distinguem do macaco, e aos chineses, nem, ainda menos, aos europeus civilizados. […] os Espíritos dos selvagens também fazem parte da Humanidade e alcançarão um dia o nível em que se acham seus irmãos mais velhos. Mas, sem dúvida, não será em corpos da mesma raça física, impróprios a um certo desenvolvimento intelectual e moral.” (grifos no original) (item 32, pág. 253).
Do ponto de vista fisiológico, algumas raças apresentam característicos tipos particulares, que não permitem se lhes assinale uma origem comum. Há diferenças que evidentemente não são simples efeito do clima, pois que os brancos que se reproduzem nos países dos negros não se tornam negros e reciprocamente. […] Sabe-se hoje que a cor do negro provém de um tecido especial subcutâneo peculiar à espécie.” (item 39, pág. 259)
Adão e seus descendentes são apresentados na Gênese como homens sobremaneira inteligentes […] Não se conceberia, portanto, que esse tronco tenha tido, como ramos, numerosos povos tão atrasados, de inteligência tão rudimentar, que ainda em nossos dias rastejam a animalidade [...]” (item 40, pág. 260).


Tentar fugir das evidências de racismo acima explicitadas é enxugar gelo com toalha quente.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

O Bem e o Mal na Antroposofia


Tento fazer, aqui, um resumo de uma conferência proferida por Rudolf Steiner em 11 de Novembro de 1.904, em Berlim. Valho-me da tradução brasileira de Paula Bennink, publicada pela Editora Antroposófica em 2.012, sob o título “O Maniqueísmo – A genuína missão do Bem e do Mal no contexto evolutivo da humanidade”. Essa publicação traz, além do texto da conferência, uma excelente Introdução da dra. Sonia Setzer.

O maniqueísmo surge no século III, na Pérsia, fundado por Mani (216 – 276). Reunia elementos do zoroastrismo, do hinduísmo, do budismo, do judaísmo e do cristianismo. É, por isso, considerado um sincretismo religioso. Espalhou-se logo por boa parte do mundo conhecido.
No século IV foi considerado uma heresia por Santo Agostinho e pela Igreja Católica (ICAR).
Como em muitos outros casos, foi duramente perseguido pela ICAR e seus seguidores foram completamente eliminados no Ocidente no século VI. A ICAR tentou destruir os escritos maniqueus e no mundo ocidental apenas ficou uma concepção deturpada de seus conceitos.

Um parêntese: outro caso digno de nota em relação a esse tratamento dado pela ICAR a seus opositores é o de Celso. Esse filósofo pagão (século II) produziu uma crítica ao cristianismo sob o título de “O Discurso Verdadeiro”. A ICAR conseguiu sumir com todos os exemplares da obra de Celso. Contudo, Orígenes, em seu afã de defender o cristianismo, escreveu, já em meados do século III, a obra Contra Celso, que até hoje perdura e da qual há tradução em Português. Adotou ele o método de reproduzir quase que página por página a obra de Celso para melhor refutá-la. Com isso, temos hoje acesso a essa obra... Ironias. Fecha parêntese.

Durante o século XX foram encontrados diversos textos maniqueus. Aquando da conferência aqui tratada, Steiner talvez já tivesse conhecimento dos primeiros achados.

“Normalmente, o que se conhece da doutrina maniqueísta é que ela se diferencia do cristianismo ocidental por sua diferente concepção do Mal. […] o maniqueísmo ensina que o Mal é tão eterno quanto o Bem; que não há ressurreição do corpo, e que o Mal, como tal, não terá fim. Portanto, ele não tem começo, e sim a mesma origem do Bem, e nem tampouco terá fim” (pág. 22).

Isso parece a quem vem a conhecer o maniqueísmo dessa maneira algo radicalmente anticristão e totalmente incompreensível. Mas vamos examinar isso de acordo com as tradições que devem provir do próprio Mani e verificar do que se trata efetivamente.

Comecemos pela Lenda do Templo, uma grande lenda cósmica do maniqueísmo:
“Certa vez os espíritos das Trevas queriam atacar o Reino da Luz. Eles chegaram, de fato, até as fronteiras do Reino da Luz e quiseram conquistá-lo. Entretanto, nada conseguiram fazer contra o Reino da luz. Deveriam então – e aqui existe um traço especialmente marcante, para o qual peço sua atenção – ser castigados pelo Reino da Luz. Contudo, no Reino da Luz não havia nenhum Mal, só o Bem. Portanto, os demônios das Trevas só poderiam ser castigados com algo de bom. O que aconteceu então? Aconteceu o seguinte: os espíritos do Reino da Luz tomaram uma parte de seu próprio reino e o misturaram com o reino material das Trevas. Essa mistura de uma parte do Reino da Luz com o Reino das Trevas fez surgir um elemento fermentativo, que transformou o Reino das Trevas num rodopio caótico. Esse fato trouxe um novo elemento: a morte. Assim, esse reino vem-se autoconsumindo continuamente, trazendo em si o germe de sua própria destruição. Conta-se também que a espécie humana surgiu pelo fato de isso ter acontecido. O homem primordial seria justamente aquilo que havia sido enviado pelo Reino da Luz para misturar-se ao Reino das Trevas e superar, por meio da morte, o que não deveria existir no Reino das Trevas – ou seja, superá-lo em si mesmo.” (pág. 23).

“O profundo pensamento aí implícito é que o Reino das Trevas deve ser superado pelo Reino da Luz por meio da brandura, e não pelo castigo; não contrariando o Mal, mas misturando-se a ele, para redimir o Mal como tal.” (pág. 23).

Daí a concepção teosófica do Mal:
[nessa altura Steiner ainda não fundara a Sociedade Antroposófica e era secretário-geral da seção alemã da Sociedade Teosófica]
O Mal não é nada mais do que um Bem no momento errado.

Se as forças condutoras de uma determinada época se imiscuíssem por mais tempo na evolução, “naquele instante elas representariam o Mal no desenvolvimento terreno. Assim, o Mal não é outra coisa senão o Divino, pois em outros tempos a expressão da perfeição e do Divino era aquilo que agora, no presente, é o Mal.” (pág. 25).

É assim que se deve entender a ideia de Mal em Mani.

Também é preciso entender por que Mani se intitulava “filho da viúva”.
O que é que se passou no atual estágio evolutivo da humanidade?
Nos estágios anteriores a maneira como a humanidade adquiria conhecimentos era outra. No estágio atual (a quinta raça-raiz), a condução da alma, que era até então realizada do alto, “se retraiu pouco a pouco, deixando a humanidade seguir seu próprio caminho para tornar-se seu próprio guia.” (pág. 26).
A alma passou a ser chamada “mãe” em todas as linhas esotéricas. O orientador, o “pai”.
O orientador, Osíris, aquele que representa a parte imediatamente divina, é o Pai.
A alma, Ísis, que concebe e recebe o Divino-espiritual é a Mãe.
No atual estágio evolutivo o Pai passa a se retrair. “A alma se torna viúva – precisa tornar-se viúva. A humanidade é deixada por conta própria.” (pág. 26).
Essa alma é chamada de “viúva” por Mani. E ele se considera “filho da viúva”.
Daí as palavras de Mani: “Deveis desfazer-se de tudo o que vos é trazido pela autoridade externa; depois tereis de amadurecer a fim de olhar para a própria alma.” (pág. 27).

Agostinho não concorda com isso: “Eu não aceitaria os ensinamentos de Cristo caso estes não se baseassem na autoridade da Igreja”. (pág. 27)

Como se dá a atuação conjunta de Bem e Mal?
Explica-se pela sintonia entre vida e forma.
Como a vida chega à forma?
Por não se expressar de uma só vez, numa única figura.
“Observem como a vida numa planta – digamos, no lírio – passa de uma forma a outra. A vida do lírio construiu, aperfeiçoou uma forma de lírio.
Quando essa forma está aperfeiçoada, a vida a supera e passa ao germe, para mais tarde renascer em nova forma, como a mesma vida. E assim a vida caminha de forma em forma. A vida em si não possui forma alguma, e não poderia levar uma vida própria de maneira perceptível” (pág. 28).
“A vida, enquanto forma, é sempre revestida pela vida de uma época anterior. Vejamos, por exemplo, a Igreja Católica. A vida que se desenrolou na Igreja Católica desde Agostinho até o século XV era uma vida cristã. A vida, naquele contexto, é o cristianismo. […] A forma – de onde vem a forma? Ela não é outra coisa senão a vida do velho Império Romano. Aquilo que ainda era vida nesse antigo Império Romano petrificou-se em forma. O que antes era república, depois império – tudo o que ali viveu, em suas manifestações exteriores, como Estado Romano – legou sua vida, enrijecida em forma, ao cristianismo posterior até na capital, Roma, que era antigamente a capital do Império Romano Universal. Até os prefeitos romanos tiveram sua continuidade nos presbíteros e bispos. O que antigamente era vida tornou-se mais tarde forma, para um patamar superior da vida.” (pág. 29).

“A vida de uma época anterior sempre se torna a forma de uma época posterior. Na consonância entre vida e forma surgiu ao mesmo tempo o outro problema: o do Bem e do Mal – pelo fato de o Bem de uma época anterior ter-se associado ao Bem de uma nova época. Basicamente, isso nada mais é do que a consonância entre o progresso e sua própria inibição. É também a possibilidade da manifestação material, a possibilidade de vir à existência exterior. Esta é nossa presença humana no âmbito da Terra sólido-mineral: a vida interior e a vida retardatária de tempos passados petrificada numa forma inibitória. Esta é também a doutrina do maniqueísmo sobre o Mal.” (pág. 30).

No final da conferência, Steiner aborda a criação de uma forma para a vida do próximo estágio evolutivo da humanidade (a sexta raça-raiz), ainda valendo-se das ideias de Mani.

Mas como penso ter ficado clara a conceituação do Bem e do Mal no âmbito da Antroposofia, fiquemos por aqui, que este texto já está longo demais.

terça-feira, 15 de julho de 2014

O Bem e o Mal em Kardec

O Bem e o Mal são objeto do capítulo III da obra A Gênese, de Kardec. Utilizo a tradução, para o Português, de Guillon Ribeiro, editada pela Federação Espírita Brasileira (FEB). É uma tradução feita a partir da 5ª edição francesa e a paginação que menciono é a da 52ª edição da FEB. Por aí percebe-se que as traduções dos livros básicos do Espiritismo vendem-se, no Brasil, tanto quanto pão quente.
A Gênese é obra de 1868 e o capítulo III ocupa as páginas 83 a 99.

Se Deus é todo sabedoria, bondade e justiça, o mal não pode ter nele sua origem.
Se o mal fosse atribuição de algum ser especial, ou ele seria igual a Deus ou lhe seria inferior.
Se fosse igual, ambos estariam em incessante luta, hipótese que se deve descartar, haja vista a “unidade de vistas que se revela na estrutura do Universo.” (pág.83).
Se fosse inferior, seria a Deus subordinado, Teria sido por Ele criado. Por seu intermédio, Deus teria criado o mal.
Assim, continuamos com o problema: o mal existe. Deve, portanto, ter uma causa.

Kardec passa a investigar o mal para chegar a sua causa.
Há males de duas categorias: os que o homem pode evitar e os que lhe independem da vontade (aí incluídos os flagelos naturais).
Quanto aos flagelos naturais: o homem pode, com sua inteligência, atenuar-lhes os efeitos.
Os males que independem de sua vontade, portanto, são “um estimulante para o exercício da sua inteligência”. (pág. 85).
“A dor é o aguilhão que o impele para a frente, na senda do progresso”. (pág. 85). (em itálico, no original).
Essa é a segunda categoria dos males. A menos numerosa.
A principal é a dos males que “o homem cria pelos seus vícios”. (pág. 85).
Aqui Kardec introduz a contraposição entre instinto de conservação e senso moral.
O Espírito, em suas primeiras fases de existência corpórea, privilegia o primeiro.
Com a evolução o Espírito acentua o valor do senso moral e reduz a importância do instinto de conservação.
“O mal é, pois, relativo e a responsabilidade é proporcionada ao grau de adiantamento” (pág. 88).

Neste ponto é que, julgo eu, o Espiritismo chega a quase tangenciar a visão da Antroposofia, neste tema. Voltaremos a isso quando resumirmos a visão antroposófica da questão do Bem e do Mal.

Kardec conclui essa análise: “No abuso é que reside o mal e o homem abusa em virtude do seu livre-arbítrio”.

A partir daí, Kardec trata de dois temas. O instinto e a inteligência e, por fim, Destruição dos seres vivos uns pelos outros.
“O instinto é a força oculta que solicita os seres orgânicos a atos espontâneos e involuntários, tendo em vista a conservação deles” (pág. 89) (em itálico no original).
“A inteligência se revela por atos voluntários, refletidos, premeditados, combinados, de acordo com a oportunidade das circunstâncias. É incontestavelmente um atributo exclusivo da alma”. (pág. 89 e 90) (em itálico no original, a menos da última frase).
Como o próprio Kardec adverte adiante: “Todas essas maneiras de considerar o instinto são forçosamente hipotéticas e nenhuma apresenta caráter seguro de autenticidade, para ser tida como solução definitiva” (pág. 94). Por isso, não vejo motivo para resumir as ideias a respeito do instinto.
Kardec menciona também as paixões, comparando-as – mas também as distinguindo – do instinto.
E conclui: “O instinto se aniquila por si mesmo; as paixões somente pelo esforço da vontade podem domar-se.” (pág. 95).
Quanto à destruição dos seres vivos uns pelos outros, “é, dentre as leis da Natureza, uma das que, à primeira vista, menos parecem conciliar-se com a bondade de Deus.” (pág. 95).
Isso porque os homens “não compreendem que um bem real possa decorrer de um mal aparente” (pág. 96).
Para justificar que uns animais comam outros (incluindo o homem), diz Kardec:
“A verdadeira vida, tanto do animal como do homem, não está no invólucro corporal, do mesmo que não está no vestuário. Está no princípio inteligente que preexiste e sobrevive ao corpo.” (pág. 96) (em itálico no original).

Vem certamente daí – dessa concepção dos animais como seres dotados de Espírito – a atual moda de um cuidado às vezes excessivo com cães, gatos etc.

Por isso, “ensina Deus aos homens o pouco caso que devem fazer do envoltório material e lhes suscita a ideia da vida espiritual” (pág. 96).

Finalmente, caso as explicações dadas não bastem:
“Deus há de ser infinitamente justo e sábio. Procuremos, portanto, em tudo, a sua justiça e a sua sabedoria e curvemo-nos diante do que ultrapasse o nosso entendimento.” (pág. 97).

No próximo texto, tentarei resumir as ideias expostas por Rudolf Steiner em uma conferência sobre o Bem e o Mal.

A comparação fica a cargo do leitor.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Por que eu queria a Holanda campeã


É simples. A razão é estética.
Explico.
Poucas coisas me causaram tanta emoção intelectual quanto o ter tomado conhecimento, lá no distante ano de 1.965, das quatro equações de Maxwell, fundamento do Eletromagnetismo.
São quatro equações de simetria perfeita e das quais podem ser deduzidos todos os fenômenos desse ramo da Física.

Pois bem. Permitam-me a heresia de comparar tal quadro com um outro que me aparecia nesta Copa.
A Holanda disputou três finais de Copa:
1974 – com a Alemanha
1978 – com a Argentina
2010 – com a Espanha

Perdeu todas.

Nesta Copa de 2014 tinha ela a oportunidade de redimir-se das três derrotas, ao enfrentar seus algozes do passado em ordem anticronológica.

E começou o trabalho ao derrotar a Espanha, na fase de grupos, por incríveis 5 a 1.
Poderia hoje derrotar a Argentina e capacitar-se, assim, para derrotar a Alemanha no domingo próximo.
Tornar-se-ia campeã mundial e teria devolvido os resultados adversos na ordem inversa em que eles ocorreram no passado.

A Argentina encarregou-se de destruir essa construção de beleza evidente.


Ainda bem que as equações de Maxwell continuam a nos encantar.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Brasil 1 x 7 Alemanha

Quando eu era criança, o futebol de rua ou de praia, em Santos, era assim: três vira, seis acaba. Ou: seis vira, doze acaba. Dependia do tempo disponível para a brincadeira.
Hoje pensei que era um cinco vira, dez acaba.
Pra mim, esse jogo ainda não acabou.

sábado, 5 de julho de 2014

COPA - Quartos de final e meias-finais

Ainda é possível uma final sul-americana.
Mas me parece mais provável uma final europeia.
Se a Holanda passar por Costa Rica, pode acontecer.
Isso contraria a tradição: nunca houve uma final puramente europeia em Copas realizadas nas Américas. Mas corresponde, em minha opinião, à qualidade atual das seleções desse Mundial.
O facto de a seleção brasileira ter perdido Neymar pode até ser benéfico para ela. Até então a "estratégia" da equipa brasileira era "joga a bola pro moleque". E é difícil uma seleção ser campeã apoiada apenas em um jogador, ainda mais ainda bastante imaturo. Sem Neymar, a seleção brasileira pode crescer em termos de conjunto.
Já a seleção argentina, caso não possa mais contar com Di Maria, me parece que sai a perder. Considero que - nessa seleção - Di Maria é mais importante que Messi. Mas não é o único. Não se espera dele que seja o salvador da pátria. Por paradoxal que seja, por isso mesmo pode ser uma perda muito significativa.
A Alemanha levou para esta Copa uma máquina quase impecável de jogar futebol. A Holanda não é tão perfeita mas pode ser mais brilhante.
Surpresa - mesmo - seria ver Costa Rica na final. Quanto às demais seleções ainda na disputa, tudo é perfeitamente plausível.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

ESPIRITISMO - 02

Enquanto a Copa não termina, fiquemos em prolegômenos.
Discutir o Espiritismo, o Cristianismo e outros que tais – no meu caso, por ser ateu, materialista – é difícil. Existe, por parte da maioria das pessoas, um rancor em relação à descrença.
Vejam, por exemplo, o que diz Kardec sobre o materialismo:
“Ao combater o materialismo atacamos, não os indivíduos, mas a doutrina que, se é inofensiva para a sociedade quando se encerra no foro íntimo da consciência de pessoas esclarecidas, passa a ser uma praga social quando se generaliza.”
Ou seja, desde que eu, sendo ateu e materialista, fique quietinho em meu canto, tudo bem. Mas se abro a boca para emitir minhas opiniões, passo a agente de uma “praga social”.
Menos mal. Se os espiritistas não atacam os indivíduos, há várias religiões que o fazem ou fizeram sempre que têm ou tiveram poder para tanto.
“A convicção de que tudo está acabado para o homem depois da morte […] leva-o […] à máxima: cada qual por si durante a vida, dado que nada existe para além dela.”
Kardec devia mesmo sentir uma quase irresistível propensão ao que ele chama de vício:
“É preciso mesmo uma grande virtude para se ser travado no declive do vício e do crime não tendo como travão mais que a força de vontade.”
Eu devo mesmo ser um retardado: aos quase 70 anos ainda não matei ninguém.
De facto, para Kardec o ateísmo e o vício são praticamente a mesma coisa:
“Os que não acreditam em Deus nem na própria alma, que desprezam a oração e estão mergulhados no vício […; quanto a eles] não há mais nada a fazer para os tirarmos do atoleiro.”
Aliás, parece que nem é preciso ser ateu. Basta ter alguma dúvida sobre a tal vida futura:
“A dúvida, no que toca a vida futura, conduz naturalmente ao sacrifício de tudo pelo bem-estar presente, daí a importância excessiva dada aos bens materiais.
A importância dada aos bens materiais excita a cupidez, a inveja, o ciúme do que tem pouco do que tem muito. […]; daí os ódios, as querelas, os processos, as guerras e todos os males provocados pelo egoísmo.”
Pra resumir: aquele que duvida da vida futura vai desembocar no suicídio ou na loucura.
Só mais uma pérola:
“O materialista, que faz depender todas as faculdades morais e intelectuais do organismo, reduz o homem ao estado de máquina, sem livre arbítrio, por consequência sem responsabilidade pelo mal e sem mérito pelo bem que faz”.

Não à toa, desde que comecei a escrever sobre assuntos religiosos aqui, tenho recebido muitos comentários agressivos e grosseiros. Mas já sou calejado e não me surpreendo com isso nem me assusto.
Apenas lastimo.

Mas ocorreu-me fazer uma outra abordagem ao tema Espiritismo.
Ao invés de discuti-lo de um ponto de vista materialista, coisa que farei depois, vou começar por compará-lo a outra concepção que também reconhece a existência do mundo espiritual.
Trata-se da Antroposofia, de Rudolf Steiner.
Quando tomei conhecimento dela e li os primeiros livros de Steiner, já lá se vão quase quarenta anos, fiquei bastante impressionado. Lembro-me de ter comentado com o prof. Valdemar Setzer, ao devolver um livro de Steiner que ele me emprestara:
- Quando eu decidir ser místico, a mística que vou escolher será essa.

De facto, não sou de esconder minhas escolhas e preferências. Considero a Antroposofia muito mais complexa que o Kardecismo. Mas vou, aqui, comparar posições de uma e do outro e que os leitores tirem suas conclusões.
Para mim – e vou utilizar uma imagem comparativa tirada da literatura brasileira – o Espiritismo está para a Antroposofia como Paulo Coelho está para Guimarães Rosa.
Essa comparação pode ser vista do ângulo da qualidade mas também da quantidade: não conheço os números, mas certamente Coelho vende muito mais que Rosa.


terça-feira, 1 de julho de 2014

COPA – Alemanha x Argélia


O melhor jogo da Copa

Esse estilo de torneio cria situações assim. A Argélia, com o futebol que apresentou até agora e principalmente hoje, não deveria ser eliminada. Mas a regra é essa.

A Alemanha é – de longe – a melhor seleção dessa Copa. Isso não quer dizer que vá ser a campeã. Mas deveria. É uma máquina de jogar futebol. Um programa de computador bem “debugado”, quase sem erros.

A Argélia, ao invés de fechar-se atrás para tentar levar a decisão para os penáltis, preferiu adotar uma estratégia de enfrentamento e ajudou a produzir um dos melhores primeiros tempos a que já assisti.

Jogo de excelência.

Uma final Alemanha versus Holanda seria justa.
Mas em Copas a Justiça não costuma prevalecer.
Uma final assim penso que deveria ser ganha pela Holanda.
A Alemanha é melhor? É.
Mas em 1978 a Holanda era muito superior e perdeu a final para a Alemanha.
Teria chegado a hora da compensação.

Além disso, a Alemanha tem uma equipa quase perfeita. A Holanda não é tão impecável mas tem um ou outro jogador que pode desequilibrar.

Tudo isso é muito interessante, mas uma final europeia, em plena América do Sul, parece impossível.


Veremos.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Espiritismo - 01

O título deste post indica que vários outros virão.
Serão vários enfoques.
Um deles é o de mostrar como o Kardecismo é datado. Puro século XIX.

Como aperitivo, aí vão trechos de um artigo de Kardec na Revista Espírita Ano V - 1862, mês de Abril.
Essa revista pode ser baixada na Internet, gratuitamente. Na tradução brasileira, o artigo está nas páginas 141 a 152.
O artigo tem por título: PERFECTIBILIDADE DA RAÇA NEGRA

Pra quem não sabe, "perfectibilidade" é a capacidade de aperfeiçoar-se.

Só pra dar uma ideia do teor do artigo:  a editora brasileira teve de fazer um acordo com o Ministério Público Federal (brasileiro) para poder publicá-lo. O acordo resultou na publicação (a partir da pág. 529) de uma longa Nota Explicativa que tenta convencer os leitores de que Kardec não disse o que disse.

Vou dar aqui uns trechinhos do artigo de Kardec. Quem quiser saborear o texto integral, baixe a revista.

Pág. 147:  "Mas, então, por que nós, civilizados, esclarecidos, nascemos na Europa e não na Oceania? em corpos brancos, ao invés de corpos negros?"

Pág. 149:  "Arago entre os selvagens, com todo o seu gênio, será tão inteligente quanto o pode ser um selvagem, e nada mais; jamais será, numa pele negra, membro do Instituto."

Pág. 150/151:  "Assim, como organização física, os negros serão sempre os mesmos; como Espíritos, trata-se, sem dúvida, de uma raça inferior, isto é, primitiva; são verdadeiras crianças às quais muito pouco se pode ensinar. Mas, por meio de cuidados inteligentes é sempre possível modificar certos hábitos, certas tendências, o que já constitui um progresso que levarão para outra existência e que lhes permitirá, mais tarde, tomar um envoltório em melhores condições."

Pág. 151:  "Eis por que a raça negra, enquanto raça negra, corporalmente falando, jamais atingirá o nível das raças caucásicas; mas, na qualidade de Espírito, é outra coisa: pode tornar-se e tornar-se-á aquilo que somos. Apenas necessitará de tempo e de melhores instrumentos."

Quando Kardec escreveu isso (não vou qualificar. Não é preciso), ainda faltavam 26 anos para a Abolição dos escravos no Brasil. Mas convenhamos que os Espíritos podiam ter dado um ligeiro toque nele, tipo:
- Allan, corta essa!

quarta-feira, 25 de junho de 2014

COPA - A mordida e o carinho


Nos jogos desta terça-feira, duas coisas me impressionaram.

No jogo entre Itália e Uruguai, a mordida que Suárez (Uruguai) deu no ombro do defesa italiano Chiellini. Lembrou-me a mordida de Mike Tyson na orelha de Holyfield (1.997).
A diferença, a meu ver, é que a mordida de Tyson revelou o desespero de um grande lutador a viver sua decadência.
A mordida de Suárez foi a expressão de sua vontade de vencer. Além de não ter arrancado nenhum pedaço do defesa italiano...



Na disputa entre Grécia e Costa do Marfim, jogo em que a Grécia estava fora da Copa até o último instante dos acréscimos e, por meio de penalty, conseguiu reverter a situação e mandar para casa os fabulosos jogadores africanos, os gregos – é óbvio – festejaram demorada e efusivamente a classificação aos oitavos. Enquanto isso, o guarda-redes africano ficou estirado ao chão, com o rosto voltado para o relvado, desconsolado.

Depois de alguns minutos de comemoração, Samaras, o grego que convertera em golo o penalty, foi até junto do guarda-redes Barry, que permanecia prostrado, e afagou-lhe demoradamente a cabeça.

domingo, 22 de junho de 2014

COPA – Grupo E – 2ª parte



Até que neste grupo eu consegui não errar. Até agora...
Mas penso que vão mesmo classificar-se França e Suíça.
A Suíça deve ganhar de Honduras.
Caso a França vença o Equador, ficará em primeiro lugar no grupo. Suíça em segundo.
Se a França perder do Equador, teremos as três equipas empatadas com seis pontos cada.
Mas a França, atualmente, tem saldo de 6 golos. O Equador tem saldo zero e a Suíça de -2.
Nesse caso, é mais provável que a Suíça vença Honduras por uma diferença dilatada, que torne bom o seu saldo de golos, do que o Equador vença a França por larga margem.
Qualquer dessas hipóteses leva à classificação de França e Suíça.

Contudo, há os possíveis resultados impossíveis...

sábado, 21 de junho de 2014

Madre Tereza de Calcutá - corpo e alma


Enquanto esteve em seu corpo físico, a albanesa Anjezë Gonxhe Bojaxhiu não foi propriamente alguém cujo exemplo eu recomendaria a meus filhos e netos. Basta ler o livro de Christopher Hitchens (The Missionary Position - Mother Teresa in Theory and Practice).



Contudo, ganhou o Prêmio Nobel, foi beatificada pela ICAR e é exaltada pelos espíritas. Alguns deles, ao menos, consideram que ela era médium. E, até onde consegui ver, há um grande número de textos psicografados atribuídos a ela. 
Os que li são textos no estilo de autoajuda, estilo tão a gosto da grande maioria, como se pode perceber, por exemplo, no Facebook. Textos no estilo "como é bom ser bom".
Curioso: ela, que não permitia que seus doentes terminais recebessem analgésicos fortes (achava o sofrimento algo purificador) e que - bem ao estilo de muitos políticos brasileiros - ao ficar enferma foi tratar-se nas melhores clínicas dos EUA, ao passar desta vida para o mundo espiritual deve ter evoluído muito rapidamente, a julgar pela bondade e amor que escorrem de seus textos psicografados.

Não sei o que diria Allan Kardec, se cá ainda estivesse. Ele que ensina: "A evolução dos Espíritos realiza-se gradualmente e algumas vezes bem lentamente.".
Enfim...

sexta-feira, 20 de junho de 2014

COPA – Grupos C e D – 2ª parte



No grupo C a Colômbia já se classificou.
A Costa do Marfim deve conseguir também sua classificação, apesar de ser uma equipa que segue estritamente a Lei do Mínimo Esforço.
Isso porque Japão e Grécia fizeram o abraço dos afogados. Ficaram no zero a zero e praticamente disseram adeus à Copa.
O jogo prometia ser muito estudado, principalmente por parte da Grécia, que contava em suas fileiras com Sokratis.
E, de facto, tudo começou de modo bastante geométrico. A Grécia tinha Kone. O Japão, Okubo.
Tudo muito equilibrado.
Ao final, ficou-me a impressão de que, apesar de as duas equipas serem um tanto fracas, o Japão ganharia se pudesse contar em suas fileiras com o médio do Irão, aquele. Ficaria, então, com um meio de campo formado por Kagawa e Mehrdad. Combinação perfeita.
E não adianta me xingar. Perco o amigo mas não o trocadilho.

No grupo D, o Uruguai reabilitou-se da derrota para a Costa Rica. A Inglaterra começou a dar adeus à Copa.
Teremos, então, nos oitavos, provavelmente a Itália e quem mais? Costa Rica? Uruguai? Não arrisco palpite.

Afinal, já deitei minha bola de cristal ao lixo.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

COPA – Grupos A e B – 2ª parte



Só ainda não deitei fora minha bola de cristal por não saber se devo deitá-la ao contentor de vidros ou ao de plásticos.
Já agora estou mais aberto a hipóteses de baixa probabilidade.
Por exemplo: Cameroun pode querer sair de sua letargia para redimir-se de seus fiascos nesta Copa por derrotar o Brasil.
Mas é evidente que o mais provável é o Brasil fazer um monte de golos e ficar em primeiro lugar do grupo A.
Já o segundo lugar ainda está para ser disputado entre México e Croácia.

No grupo B minha alegria ficou por conta da Austrália. Não fora seu guarda-redes cometer aquele frango quase ao fim da partida e a Austrália poderia ainda disputar um lugar nos oitavos.
A Espanha... bem, a Espanha destruiu minha bola de cristal. Partiu-a em pedacinhos.

O Brasil que não se entusiasme muito por enfrentar o Chile e não a Espanha nos oitavos. Quem tem Alexis pode causar surpresas. Aliás, pode até ser que o Chile fique em primeiro lugar e o Brasil tenha de jogar contra a Holanda nos oitavos. Qualquer um deles será obstáculo difícil de ultrapassar.

LIVRE PENSAR


Olhe. Acabei de assistir a vários jogos de futebol da Copa. Mas, antes de ir dormir, não custa quase nada botar o cérebro pra funcionar um bocadinho.
O Universo começou com um Big Bang? Ou é um contínuo permutar entre expansão e contração, expansão e contração, desde sempre?
Sei lá.
E ninguém sabe.
Parece que há mais razões que validam a teoria do Big Bang. Tudo bem.
Eu gostaria que ganhasse esse jogo a teoria do vai e vem. Expande e contrai. Sem começo e, talvez, sem fim.
Mas isso é apenas o que esta formiguinha que sou eu gostaria que fosse verdade.
O Universo é maravilhoso? Ao menos pra nós, é.
(Talvez haja em algum canto qualquer do cosmo um grupo de seres que critiquem ferozmente essa composição universal. É questão estética.)

Mas como derivar daí a existência de um Deus?
Pra ajudar alguém a entender a origem do Universo?
Não adianta. Se Deus explica a origem do Universo, quem explicará a origem de Deus?
Se é pra me acalmar, pra me ajudar a enfrentar as dificuldades da vida, tudo bem.
Você precisa disso? Tem de engolir esse remédio?
Vá lá.
Mas não queira empurrar seu remédio para outros.

Isso se chama exercício ilegal da medicina.

terça-feira, 17 de junho de 2014

COPA - ainda o grupo F


Como ainda não analisei a performance de cada um dos jogadores de cada uma das equipas que já jogaram nesta Copa, digo - em primeiro lugar e para deixar toda a gente descansada - que não o farei. 
Em segundo lugar, para não ficar totalmente omisso quanto a esse aspecto mas considerando que não disponho mesmo de conhecimentos ludopédicos que me permitam fazê-lo, procederei aqui a uma análise perfunctória (tenho especial predileção por esse adjetivo, que aparenta significar o contrário do que de facto significa) do comportamento dos jogadores do Irão. 
E por que justamente do Irão? Ora, por ser o de mais fácil avaliação. Todos os jogadores do Irão tiveram, com efeito, atuação em um mesmo nível. Diria, portanto, que todos tiveram o mesmo desempenho de Mehrdad, um de seus médios.

COPA – Grupo G



Se a derrota de Portugal não implica sua desclassificação para os oitavos, a vitória alemã indica claramente que a Alemanha não só deverá ser a primeira deste grupo como é, além disso, forte candidata ao título da Copa.
Isso fica mais nítido depois que os EUA mostraram uma equipa esforçada mas de recursos limitados e Gana, um bocadinho menos sonolenta que os demais africanos que já se apresentaram ao distinto público nesta Copa, não conseguiu segurar o empate que conseguira a duras penas.

Portugal tem condições para ganhar tanto dos EUA quanto de Gana. Só é preciso que seus jogadores não cometam mais asneiras como a que cometeu o defesa central Pepe.


Quanto a Pepe, diga-se que é um excelente jogador mas tem alguns parafusos a menos. Já não é a primeira vez em sua carreira que perpetra disparates como esse do jogo com a Alemanha. Diga-se a favor desse alagoano de nascimento que ninguém nascido no Brasil se chama Kepler impunemente.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

COPA – Grupo F – 2ª parte



Não sei o que acontece às equipas africanas nesta Copa. Parece não terem interesse pela competição.
Hoje, diante de uma seleção praticamente amadora como a do Irão, a Nigéria nada conseguiu. O jogo terminou zero a zero.

Eu, que até ontem pensava que desse grupo sairiam classificadas as seleções da Argentina e da Nigéria, agora já penso que provavelmente a Bósnia tome o lugar do atual campeão africano.


Será que as seleções africanas não vão acordar?

COPA - Grupo F



A Argentina passou pela Bósnia mais ou menos como o Brasil passou pela Croácia. Aos trancos e barrancos. Mas também como o Brasil, deve crescer nos próximos jogos. E, sem dúvida, está nos oitavos de final.

A Nigéria deve acompanhá-la. Desde que não esteja com espírito semelhante a Cameroun e Costa do Marfim, que parecem estar a encarar esta Copa com enorme tédio.



Veremos daqui a pouco, nesta segunda-feira, como se comportam Irão e Nigéria. É óbvio que a Nigéria é superior. Mas se entrar a dormir no jogo passa a dar esperança de classificação à Bósnia.

COPA - A derrota de Portugal


Portugal - ao contrário do que insistiram em afirmar os comentaristas da RTP (TV que transmitiu a partida) - foi derrotado pela seleção alemã. Não pelo árbitro. Quando muito, ele errou em não marcar um penálti contra a Alemanha. Mas isso quando o jogo já ia nos 3 a 0 e Portugal já jogava apenas com 10 jogadores.
Mas tal qual a Espanha, que também perdeu por diferença de 4 golos na estreia, Portugal tem tudo para passar aos oitavos de final. Basta não se deixar abater por esta (previsível) derrota.

COPA – Grupo E



Pelas características do jogo, Suíça e Equador deveriam ter empatado. Mas a Suíça é melhor e, além disso, teve mais sorte. Fez o gol de desempate aos 2 minutos e 57 segundos do prolongamento de 3 minutos do 2º tempo do jogo...

Honduras não tem equipa para ir a lugar algum na Copa. E a França, não por ter vencido Honduras, deve classificar-se para os oitavos de final.

Penso que entre Suíça e Equador, a primeira tem mais chance de classificar-se. Até por ter vencido o confronto direto. Qualquer uma delas que se classifique vai parar nos oitavos. Deverá enfrentar Argentina ou Nigéria. Não há hipótese – para nenhuma das duas – de passar aos quartos de final.

A seleção do Equador é uma equipa com algumas semelhanças com a seleção brasileira, apesar da diferença grande de nível técnico. Suas cores predominantes são o azul e o amarelo. E tem um jogador extremamente preocupado com o penteado, chamado Caicedo. O Brasil usa as mesmas cores e tem um jogador que também se preocupa muito com o corte de cabelo e que cai a qualquer hora.


Detalhe: no segundo gol da França, será que a bola entrou mesmo?! Não senti firmeza nessa tecnologia que está a ser utilizada para indicar se a bola entrou ou não. Digo que isso é detalhe porque a França ganharia esse jogo de qualquer forma. Mas para novas situações essa tecnologia pode dar confusão.

domingo, 15 de junho de 2014

COPA ~Grupos C e D



No grupo C, penso que a Grécia está fora. Por uma razão muito simples: é uma equipa que não sabe fazer gols. E, apesar de alguns luminares do futebol brasileiro dizerem que o gol é um detalhe, isso é essencial. Ao menos para quem quer vencer.

Entre Colômbia, Costa do Marfim e Japão, o mais provável me parece que seja o Japão a cair fora. Mas isso não é muito certo porque a seleção da Costa do Marfim, tal qual a de Cameroun, parece não estar muito interessada na Copa. No jogo com o Japão seus jogadores dormiram durante a primeira meia hora. E o Japão fez seu gol. Depois de seus jogadores acordarem, Costa do Marfim não teve trabalho em reverter o placar. Apenas tomou bastante cuidado para não fazer nada além do indispensável para ganhar.


No Grupo D a situação é mais simples: classificam-se Itália e Inglaterra. A Costa Rica foi a responsável pelo primeiro resultado surpreendente desta Copa ao vencer o Uruguai. Mas não tem capacidade de desbancar nenhum dos outros dois.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

COPA - Grupos A e B



O que se viu, até agora, indica duas seleções em nível superior às demais: Holanda e Espanha.

As demais estão em patamar inferior.

Quanto ao Brasil, isso se pode compreender: primeiro jogo, obrigação de ganhar por jogar em casa. Mas vai ter de crescer muito se quiser passar por Holanda ou Espanha nos oitavos.

Mas a Espanha perdeu por cinco! 

Isso não me impressiona, principalmente depois de ver um Chile fraco, com apenas dois jogadores acima do medíocre: Valdívia e Alexis. Esse último, um craque.

México é uma equipa razoável, nada além disso. Cameroun parece que não foi à Copa para jogar. Tem jogadores de técnica primorosa mas quase nenhum deles quer saber de jogar futebol. Assim não vai a lugar algum. O segundo lugar do grupo fica entre México e Croácia. A menos que Cameroun resolva começar a disputar a Copa...

A Austrália, que tem minha simpatia, fez bonito papel contra o Chile mas dificilmente vai fazer algum ponto antes de voltar para casa.

Vamos ver se minha bola de cristal resulta.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Da utilidade do Espiritismo

Ainda sem entrar no mérito dos conceitos e práticas espíritas, o que pretendo fazer em breve, quero comentar um aspecto que me intriga e sobre o qual gostaria de ver os comentários de meus amigos espíritas.

Janer Cristaldo já se referiu algumas vezes, em suas crônicas, a um episódio ocorrido logo depois do falecimento de sua esposa. Ao encontrar-se com uma amiga, ouviu dela que na véspera estivera em uma sessão espírita e conversara com a esposa de Janer. Ele, então, pediu à amiga que da próxima vez em que tal contacto ocorresse, ela pedisse à falecida o código do celular que com ele ficara. Nunca mais ouviu qualquer referência a seu pedido.

Meu pai, em seu livro sobre o Espiritismo, escrito em 1.953, escolheu deixar para o último capítulo a questão da utilidade dessa seita. Mas já no capítulo V (pag. 66), coloca uma questão instigante:

“E por que é que quando se perdem aviões e se ignora o ponto em que caíram e a sorte dos que estavam a bordo, o espiritismo não mobiliza as suas forças para dar as informações precisas? Perde-se muito tempo, gasta-se muito dinheiro, sofre-se muita ansiedade e vidas preciosas desaparecem, quando o auxílio dos mortos seria aí de um valor assombroso.”


Apesar de já se terem passado mais de sessenta anos, a pergunta que ele aí deixou registada continua atual, mormente agora, diante do desaparecimento do voo MH370 da Malaysia Airlines.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Comunidade e Propriedade

É muito comum associar-se espírito comunitário a desinteresse pela propriedade privada.
Até mesmo as posições anticomunistas sempre alertaram para o “perigo” que o comunismo representava para a propriedade privada, mesmo sabendo-se que o que se pretendia com a revolução socialista era a eliminação da propriedade privada dos meios de produção e não de toda e qualquer propriedade privada. Por outro lado, esse receio conservador não era de todo desprovido de razão pois o socialismo se propõe, sempre, a “tolerar” alguma propriedade privada. Diga-se, também, que tendências a incentivar a propriedade privada são invariavelmente vistas como afastamento dos padrões socialistas. Vejam-se, por exemplo, as mudanças dos últimos anos no regime chinês.

Por tudo isso, desde que comecei a ter contato com as aldeias portuguesas, particularmente as de Trás-os-Montes, já lá se vão 15 anos, saltou-me aos olhos a aparente contradição entre o espírito comunitário que nelas reina e o rigoroso sentido de propriedade privada que é nelas a norma.

Em tempos idos, as aldeias – nas quais as habitações não eram dotadas de boa infraestrutura - tinham todas a Casa do Povo, acompanhada do Forno do Povo, no qual todos vinham cozer seus pães.

Com os tempos modernos, as aldeias passaram a ser dotadas de energia elétrica, esgoto, e as habitações puderam desfrutar de água encanada, aquecimento e eletrodomésticos (o frigorífico, a arca, o microondas etc etc). A Casa e o Forno do Povo, penso que na quase totalidade delas, passaram a ser figuras decorativas.

Contudo, o espírito comunitário que compunha a superestrutura ideológica das aldeias manteve-se intacto. Exemplos dele não faltam. As matanças dos porcos em Dezembro (tradição de séculos que vem sendo destruída, a meu ver, por um tolo conceito de saúde pública e um protecionismo animal inconsistente), que se efetivava em cada família com a ajuda de vizinhos e amigos convidados, que vinham auxiliar a matança e desfrutar de merecidas refeições festivas uma vez terminado o labor. As vindimas, em Outubro, nas quais também amigos vão ajudar a colher as uvas, levá-las ao lagar e pisá-las. Tudo isso seguido das indefectíveis refeições comemorativas do trabalho realizado. A apanha das castanhas, operada de modo análogo (isso nas ditas “terras frias”; nas “terras quentes” é mais adequado falar-se em azeitonas). Sem falar nas festas anuais dos santos de cada aldeia, em que cada habitante colabora com uma quantia determinada para o brilho da festa.

De outro lado, chama a atenção o rígido respeito à propriedade privada de cada família. Uma cerejeira pode estar coalhada de cerejas perfeitamente acessíveis a qualquer passante, mas se ela está no terreno de João, é de propriedade de João, ninguém que não seja da família de João esticará a mão para apanhar uma cereja que seja.

E há ainda aspectos curiosos em relação à propriedade. Um castanheiro, por exemplo, pode estar bem no meio do terreno de António mas ser propriedade de Abel. Será Abel a colher as castanhas na época da apanha e consumi-las ou levá-las ao mercado para venda.

Um caso que me chegou estes dias ao conhecimento: uma de minhas primas e seu marido têm – em frente à casa deles – um terreno de bom tamanho no qual plantam de um tudo. Verduras, legumes etc. Pois ocorre que por razões que desconheço há, em meio ao dito terreno, uma faixa de terra de dois metros de largura que pertence a outro habitante da aldeia. Eles então levam a plantação até ao limite da tal faixa, pulam os dois metros (que ficam como terra nua pois o proprietário não os utiliza) e continuam sua horta até o fim do terreno.


segunda-feira, 9 de junho de 2014

Das limitações da Linguagem

Reza a tradição de minha família que uma tia, cujo nome preservo, viu-se em tempos à volta com a impossibilidade de expressar algo que com ela se passava.
Aos factos:
Ocorreu ter a mencionada tia sido  vítima de um problema qualquer que lhe afetou um dos olhos.
Ao pensar em qual seria o modo adequado de comunicar a seus próximos o mal que a incomodava, viu-se diante de dilema:
- Se digo que estou com problema nos olhos, pensarão que tenho os dois olhos enfermos, o que não é verdadeiro.
- Caso diga eu, então, que tenho problema no olho, corro o risco de pensarem que falo do olho do cu.


sexta-feira, 6 de junho de 2014

Cristo salva Humanidades


Fiquei agradavelmente surpreendido, logo que vim morar em Bragança, Portugal, ao notar que as mulheres se referem a seus maridos como “meu homem”. Não sei se isso é hábito português ou do Norte de Portugal. Ou, mais restritamente, de Trás-os-Montes. Também não sei se é costume de alguns lugares no Brasil. Como o Criador na criação, apenas constatei que é bom que assim seja.

Isso para dizer que minha mulher comentou comigo uma notícia vista na TV: foi descoberto um planeta com características semelhantes às da Terra.
Para mim, nenhuma novidade. Penso ser quase impossível que não existam outros vários planetas com vida semelhante à nossa, dada a abundância de corpos celestes que compõem esse (quase) infinito Universo.
Mas minha mulher persistiu:
- E como fica a religião diante dessa possibilidade?

As religiões, acostumadas a dar nó em pingo de éter (nó em pingo d'água até eu dou), não devem encontrar dificuldade em lidar com essa pluralidade de Humanidades.

Deus, ao criar nosso mundinho, pode ter, antes, durante e depois, criado outros muitos mundos, habitados por seres mais ou menos semelhantes a nós.
Na Bíblia, o Manual do Usuário (/Utente) que ele criou para nos orientar, preocupou-se tão somente em falar do nosso mundo. Mas os demais mundos devem ter suas Bíblias, com suas particularidades contempladas.

Mundos há em que Eva não foi na conversa da serpente e não comeu do fruto proibido. Com isso, neles não há pecado original, nem necessidade de um Salvador que redima tais humanidades. Todos continuam a desfrutar do Paraíso.

Em outros mundos, a serpente saiu a ganhar, assim como cá entre nós. Vai daí, Deus teve de mandar Seu Filho Unigênito para a redenção de tais humanidades.

Isso talvez até explique por que Jesus custou a vir à Terra. Havia muitos outros mundos a salvar.

Ele teve de encarnar-se em diferentes civilizações, de diferentes planetas. Em todas elas passar por um processo de implantação da semente cristã. E sacrificar-se de acordo com os costumes locais a fim de salvar cada uma de tais culturas.

Talvez até hoje Cristo esteja a ser crucificado (ou submetido a algum outro suplício) em algum planeta distante.

Em alguns desses mundos o cristianismo terá vingado, auxiliado – como cá na Terra – por fatores políticos propícios a seu protagonismo. Alguns mundos devem ter tido, como aqui, seus imperadores Constantinos dispostos a implantar o cristianismo na marra.

Em outros, nem um Paulo terá surgido e a seita diluiu-se em pouco tempo, dividida em várias facções rivais. Para esses mundos talvez uma nova visita do Cristo seja necessária, para tentar repor ordem na casa.

Enfim, as hipóteses são infindáveis.

Não sei como ainda não surgiu uma seita Cristãos de Andrômeda. Ou será que já existe?


terça-feira, 27 de maio de 2014

Por que sou ateu - 3

Mencionei meus estudos de Lógica porque, para mim, acreditar em algo passa por entender esse algo ou ao menos não vislumbrar nenhuma razão que invalide esse algo.
Contudo, tenho consciência daquilo que quase toda gente reconhece e que B. Russell, no já aqui citado Por que Não Sou Cristão, afirma. A saber:
“O que realmente leva os indivíduos a acreditar em Deus não é nenhum argumento intelectual. A maioria das pessoas acredita em Deus porque lhes ensinaram, desde tenra infância, a fazê-lo, e essa é a principal razão.
Penso, ainda, que a seguinte e mais poderosa razão disso é o desejo de segurança, uma espécie de impressão de que há um irmão mais velho a olhar pela gente. Isso desempenha um papel muito profundo, influenciando o desejo das pessoas quanto a uma crença em Deus.”

De uns dez anos pra cá voltei a minhas leituras de autores ateístas e aos estudos bíblicos.
Confrontado com a imensa quantidade de evidências de que as religiões são puras construções humanas, deixei de considerar-me um agnóstico, como até então me rotulara, e me pareceu mais simples e verdadeiro dizer-me mesmo ateu.

Vou me restringir a alguns tópicos relativos ao Cristianismo. Gostaria de falar um pouco sobre o Espiritismo, bastante popular no Brasil de hoje, mas isso fica para outros textos.

A leitura que normalmente os crentes fazem da Bíblia é a chamada leitura devocional. Por exemplo, leem os Evangelhos um a um – Mateus, Marcos, Lucas e João – e buscam nessas narrativas da vida de Jesus inspiração que lhes alimente a fé.

Uma leitura histórico-crítica é diferente. Primeiro, é preciso situar esses textos na História. Nenhum deles foi escrito por gente que tenha conhecido Jesus pessoalmente. O Evangelho segundo Marcos foi o primeiro a ser produzido, em torno do ano 70. Jesus teria sido crucificado antes do ano 30, já que seu nascimento é situado uns seis anos antes do início do primeiro século da era cristã. Quinze ou vinte anos depois, já perto do final do século I, foram escritos os Evangelhos segundo Mateus e segundo Lucas. Ambos basearam-se em Marcos mas utilizaram também outra fonte. Por fim, já no século II, foi produzido o Evangelho segundo João. Ao fazermos uma leitura “horizontal” dos quatro Evangelhos canônicos (há vários outros Evangelhos que não foram incorporados à Bíblia), ou seja, comparando as narrativas de um mesmo episódio nos quatro Evangelhos, constatamos que elas não coincidem e até se contradizem. E não estou a falar de acontecimentos secundários. Pode-se fazer essa comparação quanto ao nascimento de Jesus, quanto a sua crucificação e quanto ao episódio da ressurreição, por exemplo. Faça você mesmo a análise de ao menos um desses casos.

De resto, é bastante difícil estabelecer com alguma segurança que Jesus efetivamente existiu. Mas caso tenha mesmo existido, sua vida foi de uma falta de originalidade absoluta.

Todos os que na Antiguidade bem anterior a Jesus tornaram-se o centro de religiões, foram adorados como “filhos de Deus” - Buda, Krishna, Confúcio, Lao-Tsé – e tidos como nascidos de virgens.

Na lenda a respeito do nascimento de Buda se fala de uma milagrosa luz celeste que anunciou o evento. O nascimento de Krishna foi anunciado por um meteoro luminoso. No dia em que nasceu Júlio César apareceu a estrela Ira no firmamento.

Pelo menos desde os tempos do rei Dario I (séc. VI A.C.) da Pérsia, havia rituais em que magos/sacerdotes deviam oferecer a Ahura-Mazda, o deus solar principal, os presentes de ouro, incenso e mirra.

Por toda a Ásia há lendas antiquíssimas como as de Tchu-Mong (Coreia), Tong-Mong (Manchúria) ou Heu-tsi (China). Deste último, por exemplo, se conta que “sua mãe o trouxe ao mundo em um pequeno estábulo à beira do caminho; bois e cordeiros o aqueceram com seu calor. Acorreram a ele os habitantes dos bosques, apesar do rigor do frio, e as aves voaram até o menino como para cobri~lo com suas asas.”

A lenda da perseguição de Herodes não tem respaldo nos fatos históricos mas – sim – em mito semelhante relativo a Krishna.

Concluo com a comparação entre a vida de Jesus e a do deus Sol de várias culturas antigas:
(como nas demais comparações de Jesus com outras figuras importantes do imaginário dos povos da Antiguidade, valho-me do livro Mentiras Fundamentales de la Iglesia Católica, de Pepe Rodriguez)

”Todas as personificações de deuses solares acabam por ser vítimas propiciatórias que expiam os pecados dos mortais, carregando suas culpas e são mortos violentamente e ressuscitados posteriormente.”
Osíris: nasceu como salvador ou libertador vindo para remediar a tribulação dos humanos. Foi morto pelo Mal, encarnado em seu próprio irmão. Colocado em sua tumba, ressuscitou e subiu aos céus ao fim de três dias (ou quarenta, segundo outras versões da lenda).
Shiva: deus hindu, em um ato de supremo sacrifício ingeriu uma bebida envenenada e corrosiva que havia surgido do oceano para causar a morte do universo, tragédia que Shiva evitou com sua autoimolação e posterior retorno à vida.
Baco: outro deus solar, destinado a suportar as culpas da humanidade, foi também assassinado para renascer ressuscitado.
O mesmo, com pequenas variações ocorre a Ausonius, uma forma de Baco, a Adonis, equivalente ao deus etrusco Atune ou ao sírio Tammuz, a Dionísio ou ao frígio Atis e a uma longa lista de seres divinos que tiveram trajetória semelhante à de Cristo.

Se, como eu tendo a achar, Jesus realmente existiu, sua vida foi devidamente mitificada com base nas tradições pagãs.

Muito mais se pode dizer sobre Jesus e sobre a Bíblia.

Mas esse texto já se prolonga mais do que o desejável.
Ainda espero escrever muito mais sobre tudo isso.
Penso ter dado algumas indicações das razões que me levaram à descrença.

Obrigado pela atenção dos que me acompanharam pacientemente até aqui.

Beijinhos trasmontanos a todos! E viva a vida!


FIM

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Por que sou ateu - 2

Meu pai morreu quando eu tinha dezesseis anos. Esse fim precoce impediu que tivéssemos conversas adultas, de homem pra homem. Mesmo porque, nessa altura, eu já saíra de Santos para estudar em São Paulo. Só nos víamos nos fins de semana.

Quem sabe essa minha propensão a discutir assuntos de doutrina religiosa tenha um bocadinho a ver com não ter podido fazê-lo com ele...

Com a morte de meu pai, a pressão para que eu me tornasse também pastor foi grande. Fui até levado a fazer um sermão na igreja na qual ele havia sido pastor. Por ironia, soube depois que uma senhora converteu-se em função de minha pregação. O que mostra que quando alguém quer crer, qualquer discurso serve...

Se eu quisesse, teria futuro garantido. Bastava seguir a carreira de meu pai. Mas, apesar de ainda ser crente, naquela época, meus planos para minha vida eram outros.

Ao longo de meu curso de engenharia aproveitava algumas das horas de lazer para ler livros sobre religião. Algo como o Por que não sou Cristão, de Bertrand Russell (disponível na Internet, em pdf), por exemplo.

Essas leituras foram a pá de cal no que me restava de crença. Meu gosto pela Lógica não me permitia continuar a aceitar as verdades sem pé nem cabeça que as religiões me ofereciam.

Salta aos olhos, por exemplo, o absurdo lógico da prática - muito comum entre os cristãos - de citar versículos da Bíblia que a dão como a Palavra de Deus com o intuito de “provar” que ela é a Palavra de Deus.

Paralelamente a essa minha migração para a descrença, ampliava-se no Brasil o ambiente ditatorial instaurado em 1.964.

Durante meu curso de engenharia eu adotara uma postura política anarquista. Havia algum parentesco entre meu rompimento com a fé religiosa e o anarquismo.

Ao final do curso de engenharia, contudo, resolvi fazer o curso de filosofia. E mergulhei de cabeça no clima revolucionário que predominava no ambiente acadêmico um pouco por toda parte do mundo. Estávamos no histórico ano de 1.968. Isso levou-me ao marxismo-leninismo e – em vários sentidos – de volta ao espírito religioso.

Durante três anos dediquei toda minha energia à luta revolucionária.

Depois de um ano e meio na prisão, em convívio forçado com grande parte da chamada Esquerda Revolucionária, saí vacinado contra toda e qualquer religião. Cristianismo e Marxismo passaram a ser, para mim, apenas objetos de estudo. Mesmo assim, minha dedicação maior voltou-se para o estudo da Lógica e para a leitura dos clássicos gregos.

O estudo de Lógica foi o que consegui levar mais longe, favorecido pela orientação que passei a receber de um dos mais importantes lógicos do século XX, o prof. Newton da Costa.


Já se disse que cultura é aquilo que nos fica depois que esquecemos tudo o que estudámos. Hoje em dia, se tento ler alguns resultados a que cheguei em Lógica, já não mais entendo o que leio. Mas o que me ficou foi fundamental para o restante de meus estudos até hoje.

 [continua]

Por que sou ateu - 1

Uma pessoa muito próxima a mim pediu que eu explicasse a ela por que me tornei ateu, eu que sou filho de pastor batista.
Resolvi publicar minha resposta. Quem sabe ela seja de interesse de mais alguém.

Nasci ateu do mesmo jeito que a mãe do Lula nasceu analfabeta.
Todo mundo nasce ateu.

Mas bem cedo comecei a passar por um processo de catequese.
A vida de minha família girava em torno da igreja na qual meu pai era pastor.
Contudo, havia alguma ambiguidade nesse ambiente familiar.
Se de um lado era praticamente compulsório aceitar a doutrina batista como verdadeira, respirava-se na casa de meus pais uma atmosfera cultural um tanto incompatível com essa mesma doutrina. Afinal, meu pai era pastor mas também um intelectual. Minha mãe e uma de minhas irmãs eram da área da matemática. Ciência e religião conviviam naquele lar, ainda que como azeite e água.

Desde muito cedo passei a ler os livros da biblioteca de meu pai. Os que ele me deixava que lesse e alguns que ele me proibia de ler...
E as dúvidas começaram a brotar.

Um dia perguntei a meu pai:
  • Se um indivíduo só é salvo caso aceite Jesus como seu Salvador, como fica a situação de um índio que nunca teve contato com o homem branco e jamais ouviu falar em Jesus? Ele vai para o inferno?
Meu pai deu de ombros:
  • Deixa o índio pra lá e cuida de sua vida.
Afinal, eu era um fedelho que não merecia resposta mais elaborada.

Algum tempo depois, estava eu com meus quinze anos e passei a ter um colega no Colégio Canadá, em Santos, que gostava de conversar sobre religião. Ao saber que meu pai era pastor perguntou-me se meu pai aceitaria que ele fosse a nossa casa para fazer algumas perguntas a meu pai. Perguntas sobre questões religiosas que o afligiam.
Meu pai aceitou recebê-lo e ele foi a nossa casa a carregar uma sacola cheia de livros.
Quando a conversa começou, depois das devidas apresentações, meu pai tirou os livros da sacola do garoto e viu que, entre eles, havia uma Bíblia. Disse então ao rapaz que aquele era o livro que interessava. Passou a ler vários versículos para nós e não deixou mais o garoto abrir a boca.
O rapaz foi embora visivelmente decepcionado. Nossas conversas sobre assuntos religiosos terminaram aí.

Esses pequenos acontecimentos aguçavam minhas dúvidas, por um lado. Por outro, tornavam claro que eu teria de resolvê-las sozinho. E contra a correnteza.

[continua]



quinta-feira, 22 de maio de 2014

Pergunte a seu Pastor

No evangelho de Marcos, capítulo 2, versículos 23 a 26, conta-se como Jesus respondeu à crítica de que seus discípulos trabalhavam em um sábado:


23 . Aconteceu que, ao passar num sábado pelas plantações, seus discípulos começaram a abrir caminho arrancando as espigas.
24 - Os fariseus disseram-lhe: “Vê! Como fazem eles o que não é permitido fazer no sábado?”
25 - Ele respondeu: “Nunca lestes o que fez Davi e seus companheiros quando necessitavam e tiveram fome,
26 - e como entrou na casa de Deus, no tempo do Sumo Sacerdote Abiatar, e comeu dos pães da proposição, que só os sacerdotes podem comer, e os deu também aos companheiros?”


Utilizo aqui a tradução da Bíblia de Jerusalém, que considero mais bem cuidada. Na maioria das demais traduções fala-se que os discípulos de Jesus “começaram a colher espigas”, dando a entender tratar-se de colheita e não de abertura de caminho por entre a plantação. De qualquer modo, para a questão que vou colocar aqui, isso é irrelevante. Vamos adiante.

A história de David e de seus companheiros, mencionada por Jesus, é a que consta em 1º Samuel 21: 2-7 :

2 - Davi chegou a Nob e foi ao sacerdote Aquimelec, que veio tremendo ao encontro de Davi e lhe perguntou: “Por que vieste sozinho e não há ninguém contigo?”
3 - Davi respondeu ao sacerdote Aquimelec: “O rei me deu uma ordem e disse: 'Que ninguém saiba nada da missão à qual te envio e que te ordenei.' Quanto aos jovens, encontrei com eles em certo lugar.
4 - Agora, se tens cinco pães à mão, dá-nos, ou o que achares.”
5 - O sacerdote respondeu a Davi: “Não tenho à mão pão comum, mas só pão consagrado – com a condição de que os teus jovens não tenham tido contato com mulheres.”
6 - Davi respondeu ao sacerdote: “Certamente, as mulheres nos foram proibidas, como sempre que parto em campanha, e as coisas dos homens conservam-se em estado de santidade. Trata-se de uma viagem profana, mas, de fato, hoje eles se mantêm em estado de santidade quanto à coisa.”
7 - Então o sacerdote lhe deu o que havia sido consagrado, porque não havia outro pão, salvo os pães de oblação, os que se retiram de diante de Iahweh para serem sobstituídos por pão quente, quando aqueles são retirados.


A questão é:
Jesus, segundo Marcos, diz que Abiatar era o sacerdote por ocasião do episódio de David e dos pães consagrados.
O relato do Antigo Testamento afirma que o sacerdote, na ocasião, era Aquimelec.

Mais adiante (1º Samuel 22: 20) fica esclarecido que Abiatar era filho de Aquimelec:

Somente escapou [da morte] um filho de Aquimelec, filho de Aquitob. Chamava-se Abiatar, e fugiu para junto de Davi.”


Para embaralhar mais as coisas, em 2º Samuel 8:17 consta o contrário:

Sadoc, filho de Aquitob, e Aquimelec, filho de Abiatar, eram sacerdotes:


Mas esta confusão também é irrelevante para nossa questão. Voltemos a ela.

Ora, Jesus é tido pelo Cristianismo, desde o Concílio de Niceia (325 D.C.) como integrante da Santíssima Trindade. No popular: Jesus é Deus.
Mesmo que se considere que Ele não era completamente perfeito em sua encarnação terrestre, era de se esperar que ele conhecesse bem os textos sagrados para não cometer um erro desses.

Mas há ainda a possibilidade de Marcos ter-se enganado. Mesmo que esqueçamos a questão de a Bíblia ser tida como totalmente inspirada por Deus, resta a pergunta:
Terá sido apenas esse o erro de Marcos? Ou haverá outros?


Gostaria de saber o que pensam desse imbroglio todo os que costumam afirmar com grande convicção que a Bíblia é a Palavra de Deus, portanto integralmente verdadeira.

domingo, 18 de maio de 2014

Visão literal da Bíblia - Rainha Ester

Volto ao livro de Daniel C. Dennett e Linda LaScola, Caught in the Pulpit: Leaving Belief Behind.

Desta vez, cito um trecho do capítulo em que se trata de como os seminaristas reagem aos primeiros cursos que recebem nos Seminários sobre a Bíblia .
Justamente para tentar amenizar o impacto sobre os seminaristas de um estudo histórico/crítico da Bíblia, em um certo Seminário instituiu-se uma aula demonstração para futuros possíveis alunos. Como veremos, essa providência não resolveu o problema, apenas o antecipou um bocadinho.

Fala sobre isso Beatriz, a professora encarregada da aula demonstração:

Escolhi este tópico [o livro de Ester] de propósito, porque pensei: “Este é um livro ao qual ninguém dá muita importância, e se eu introduzo os alunos à ideia de que ele não é historicamente verdadeiro ou não ocorreu daquela maneira” - nunca houve uma Rainha Ester - “isso não deixará ninguém muito chateado.” Nós sabemos isso porque conhecemos um bocado a respeito desses reis Persas. Sabemos os nomes de todas as suas esposas e não houve nenhuma Ester, nunca. Assim, estamos bastante seguros de que nada parecido com aquilo ocorreu. Desse modo eu pensei que eu deveria escolher esta história e então falar a respeito de como eu penso que nós podemos ainda olhar para esses livros e meditar acerca da teologia que eles expressam. Nós formávamos um grande círculo, com todos esses alunos prospectivos que eu não conhecia e eu disse a eles que esta história jamais ocorreu tal como narrada mas que esse não é o ponto final; temos de olhar para esses textos, eles ainda são valiosos.... Mas depois da aula uma jovem, uma entre os alunos prospectivos, disse-me que naquele momento em que eu disse a ela que nunca houvera uma Rainha Ester seu mundo inteiro desabou.