Toda gente sabe que a Rede Globo de comunicação é um dos satanases da esquerda brasileira.
Aliás, o inferno da Sinistra é bastante povoado. Mas fiquemos na Rede Globo.
Durante anos eu nem tinha TV em casa.
Chegava ao trabalho na segunda-feira e - invariavelmente - ouvia de colegas:
- Viste o Fantástico de ontem?
E lá ia eu a reafirmar que não tinha TV em casa. Mas era inútil. A cena se repetia a cada semana.
Mas meu contacto com a TV Globo surgiu mesmo foi no Presídio Tiradentes. Quando lá cheguei, ao Pavilhão 2, cela 12, havia um aparelho de TV que circulava pelas celas do pavilhão 2. Um dia em cada cela.
Eu não entendia a excitação de alguns companheiros quando se aproximava o dia de o aparelho mágico vir para nossa cela.
- Vamos poder ver o Jornal Nacional!
E eu perguntava:
- Que diabo de Jornal Nacional é esse?
E todos se espantavam. Eu não sabia o que era o Jornal Nacional!
Alguns membros da esquerda, hoje em dia, se tivessem vivido alguns tempinhos no Tiradentes, talvez não mantivessem o ardor revolucionário que hoje ostentam.
Teriam conhecido um bocadinho mais de perto a turminha que hoje dirige o país.
E talvez não tivessem tanto sentimento de culpa...
Feliz 2.014 para todos!
terça-feira, 31 de dezembro de 2013
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
Meritória e inútil
Acho oportuno, nesse final do décimo terceiro ano (ou, como preferem alguns, décimo quarto) do século XXI, trazer uma palavra de moderação aos brasileiros deslumbrados pelos resultados da Ação Penal 470, para os íntimos mensalão.
A prisão de alguns figurões dos mundos político e financeiro em terras tupiniquins não nos deve fazer esquecer que não há virgens na zona.
E que a corrupção é componente do caráter nacional tão antiga quanto as caravelas de Cabral.
A propósito, cito abaixo uma descrição desse caldo moral em toda a Colônia na segunda metade do século XVII:
A pronunciada queda dos réditos de Pernambuco, que tanto alarmava a coroa, era em grande parte motivada pela desbragada corrupção que lavrava nos altos escalões administrativos da Colônia. Governadores, magistrados, oficiais das câmaras e outros funcionários se apropriavam regular e impunemente das rendas da coroa. As devassas ordenadas pelas autoridades de Lisboa invariavelmente davam em nada. Isso, por exemplo, o que aconteceu com a missão atribuída pela coroa em 1667 ao desembargador João de Góis e Araújo. Em Pernambuco, na Bahia e no Rio o magistrado tentou em vão reunir provas contra os peculatórios
(in Décio Freitas, Palmares - A Guerra dos Escravos, 2ª edição, 1978, Edições Graal. página 92)
Portanto, José Dirceu e seu partido apenas seguiram a tradição.
A denodada luta de muitos pela moralização do exercício da função pública é tão meritória quanto inútil.
A melhoria do nível de lhaneza no trato da coisa pública virá mais da evolução dos sistemas informáticos na administração do que de perorações moralistas.
A prisão de alguns figurões dos mundos político e financeiro em terras tupiniquins não nos deve fazer esquecer que não há virgens na zona.
E que a corrupção é componente do caráter nacional tão antiga quanto as caravelas de Cabral.
A propósito, cito abaixo uma descrição desse caldo moral em toda a Colônia na segunda metade do século XVII:
A pronunciada queda dos réditos de Pernambuco, que tanto alarmava a coroa, era em grande parte motivada pela desbragada corrupção que lavrava nos altos escalões administrativos da Colônia. Governadores, magistrados, oficiais das câmaras e outros funcionários se apropriavam regular e impunemente das rendas da coroa. As devassas ordenadas pelas autoridades de Lisboa invariavelmente davam em nada. Isso, por exemplo, o que aconteceu com a missão atribuída pela coroa em 1667 ao desembargador João de Góis e Araújo. Em Pernambuco, na Bahia e no Rio o magistrado tentou em vão reunir provas contra os peculatórios
(in Décio Freitas, Palmares - A Guerra dos Escravos, 2ª edição, 1978, Edições Graal. página 92)
Portanto, José Dirceu e seu partido apenas seguiram a tradição.
A denodada luta de muitos pela moralização do exercício da função pública é tão meritória quanto inútil.
A melhoria do nível de lhaneza no trato da coisa pública virá mais da evolução dos sistemas informáticos na administração do que de perorações moralistas.
sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
Sonhos diferentes
Jang Song Thaek a ser retirado de reunião do Politburo
O tal "socialismo real" acaba de fornecer mais um exemplo de sua natureza.
Jang Song Thaek, que foi mentor do actual líder da Coreia do Norte, foi executado por ter, segundo a agência estatal KCNA (a imprensa livre de lá), ousado "sonhar sonhos diferentes".
Sugiro, aliás, aos ardentes defensores do governo brasileiro, que adoptem mais essa expressão desqualificadora de adversários e que foi usada contra o tal Jang: "escumalha humana desprezível". Não sei em Coreano. Mas em Português fica lindo.
E termino com diálogo entreouvido em sonhos (daqueles sonhos diferentes):
- Já comeste merda?
- Eu?! Que horror!
- Essa tua repulsa resulta de pensares na "merda real". Mas me refiro à "merda ideal". Deliciosa!
quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
Dia do Arquiteto
Corria o ano da graça de 1.974. Minha mulher e eu, que planeávamos ter filhos (a mais velha nasceu ao fim de 1.975), começámos a pensar em ter uma casa na qual pudéssemos educar os filhos da maneira como imaginávamos
Queríamos educar os filhos em casa, sem enviá-los à escola. Eu já desenvolvia os primeiros cursos que daríamos a eles...
Comprámos um belo terreno em Cotia, São Paulo, e procurei um arquiteto que projetasse uma casa para o terreno, a obedecer nossos critérios de como conviver em família.
Um colega de trabalho me disse que conhecia dois arquitetos arrojados, que poderiam ser úteis.
Levou-me, em um início de noite ao final do trabalho, à casa deles.
Era uma casa no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Eu estava de terno, pois fui direto do trabalho para a casa dos arquitetos.
Ao lá chegar, guiado por meu colega, fomos convidados a entrar. A casa estava mergulhada em uma névoa muito característica: era resultado de alto consumo de maconha, com seu cheiro inconfundível.
Os dois arquitetos nos receberam de modo simpático e começámos a conversar sobre o projeto.
Eles, mais do que ouvirem o que eu dizia, apegaram-se à imagem de um executivo trajado de modo formal.
Dias depois, foram à minha casa expor as ideias que haviam desenvolvido para nossa futura casa.
Haviam concebido uma habitação absolutamente convencional, adequada ao que eles imaginavam ser um executivo careta.
Passei-lhes uma descompostura. Eu lhes falara de planos heterodoxos e eles nos traziam um desenho banal?
Repeti, agora com mais ênfase, toda nossa proposta de vida. Proposta que deveria refletir-se no projeto da casa.
Espicaçados pelo desafio, voltaram no dia seguinte. Não haviam dormido aquela noite.
Trouxeram-nos um projeto fantástico, de acordo com nossa proposta de vida.
Em lugar de sala de estar, uma Ágora. Ao lado dela uma biblioteca.
Quartos todos separados por divisórias baixas. Banheiros sem portas (o que deixou em pânico nossas famílias. Não percebiam que a geometria dos ambientes oferecia privacidade mesmo sem portas...).
Aprovámos o projeto entusiasticamente.
Daí em diante os arquitetos é que quiseram radicalizar mais: queriam que fôssemos todos morar no terreno e ajudar na construção da casa.
Por outro lado, o projeto de educar os filhos fora da escola começou a ser bombardeado de todos os lados. Nossos amigos não eram simplesmente contra.. Ficavam raivosos diante da ideia.
Para um casal que acabara de passar por um período de prisão por afrontar a sociedade (sim, a ditadura era só expressão dessa sociedade) tudo isso pareceu suplantar nossas resistências.
Desistimos do projeto educacional. Nossos filhos, feliz ou infelizmente, foram para a escola pública.
Desistimos do projeto habitacional. Os arquitetos só nos deram prejuízo: montaram um escritório em imóvel alugado com meu aval. Sumiram em seguida e me deixaram encarregado de pagar três meses de aluguel para me livrar daquilo.
O terreno de Cotia transformou-se em um mico, meus filhos seguiram o curso normal de suas vidas, a estudar em escolas e a fazer nelas amizades que persistem até hoje.
Quanto aos dois arquitetos que contratei, espero que tenham longa vida e que tenham dado boas gargalhadas às custas do executivo sonhador que os sustentou - e a seus baseados - durante alguns meses.
Viva o Dia do Arquiteto!
Queríamos educar os filhos em casa, sem enviá-los à escola. Eu já desenvolvia os primeiros cursos que daríamos a eles...
Comprámos um belo terreno em Cotia, São Paulo, e procurei um arquiteto que projetasse uma casa para o terreno, a obedecer nossos critérios de como conviver em família.
Um colega de trabalho me disse que conhecia dois arquitetos arrojados, que poderiam ser úteis.
Levou-me, em um início de noite ao final do trabalho, à casa deles.
Era uma casa no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Eu estava de terno, pois fui direto do trabalho para a casa dos arquitetos.
Ao lá chegar, guiado por meu colega, fomos convidados a entrar. A casa estava mergulhada em uma névoa muito característica: era resultado de alto consumo de maconha, com seu cheiro inconfundível.
Os dois arquitetos nos receberam de modo simpático e começámos a conversar sobre o projeto.
Eles, mais do que ouvirem o que eu dizia, apegaram-se à imagem de um executivo trajado de modo formal.
Dias depois, foram à minha casa expor as ideias que haviam desenvolvido para nossa futura casa.
Haviam concebido uma habitação absolutamente convencional, adequada ao que eles imaginavam ser um executivo careta.
Passei-lhes uma descompostura. Eu lhes falara de planos heterodoxos e eles nos traziam um desenho banal?
Repeti, agora com mais ênfase, toda nossa proposta de vida. Proposta que deveria refletir-se no projeto da casa.
Espicaçados pelo desafio, voltaram no dia seguinte. Não haviam dormido aquela noite.
Trouxeram-nos um projeto fantástico, de acordo com nossa proposta de vida.
Em lugar de sala de estar, uma Ágora. Ao lado dela uma biblioteca.
Quartos todos separados por divisórias baixas. Banheiros sem portas (o que deixou em pânico nossas famílias. Não percebiam que a geometria dos ambientes oferecia privacidade mesmo sem portas...).
Aprovámos o projeto entusiasticamente.
Daí em diante os arquitetos é que quiseram radicalizar mais: queriam que fôssemos todos morar no terreno e ajudar na construção da casa.
Por outro lado, o projeto de educar os filhos fora da escola começou a ser bombardeado de todos os lados. Nossos amigos não eram simplesmente contra.. Ficavam raivosos diante da ideia.
Para um casal que acabara de passar por um período de prisão por afrontar a sociedade (sim, a ditadura era só expressão dessa sociedade) tudo isso pareceu suplantar nossas resistências.
Desistimos do projeto educacional. Nossos filhos, feliz ou infelizmente, foram para a escola pública.
Desistimos do projeto habitacional. Os arquitetos só nos deram prejuízo: montaram um escritório em imóvel alugado com meu aval. Sumiram em seguida e me deixaram encarregado de pagar três meses de aluguel para me livrar daquilo.
O terreno de Cotia transformou-se em um mico, meus filhos seguiram o curso normal de suas vidas, a estudar em escolas e a fazer nelas amizades que persistem até hoje.
Quanto aos dois arquitetos que contratei, espero que tenham longa vida e que tenham dado boas gargalhadas às custas do executivo sonhador que os sustentou - e a seus baseados - durante alguns meses.
Viva o Dia do Arquiteto!
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
Preferências
Dilma viaja para as exéquias de Mandela. Na bagagem leva os ex-presidentes Sarney, Lula, Fernando Henrique e Collor.
domingo, 8 de dezembro de 2013
Consolo e Verdade
Alberto Gonçalves, na revista Sábado da semana passada, a propósito de outro contexto, diz:
"[...]Os tementes a Deus desesperados por emprestar um sentido para o encantador absurdo da dimensão humana, [veem] a si próprios como esclarecidos no meio de ingênuos".
Meu primo Wanderley colocou no Facebook, há alguns dias, um vídeo com um discurso de um líder espírita, Divaldo Franco, proferido há 15 anos. Para quem quiser vê-lo, basta clicar aqui.
O objetivo declarado da palestra é o de mostrar que a reencarnação é mencionada em vários lugares da Bíblia. E, com isso, derrubar as objeções dos cristãos que não aceitam a ideia de reencarnação por entenderem que a Bíblia não a endossa. Mas o sr. Franco vai mais além e faz uma completa apologia da reencarnação.
Quanto às alegadas menções à reencarnação na Bíblia, o conferencista chega a dar uma explicação a uma afirmação de Jesus que sempre causa embaraços aos crentes. Trata-se da afirmação de Jesus de que seu retorno "numa nuvem, com poder e grande glória" ocorreria logo: "não passará esta geração até que tudo aconteça". (Lucas 21: 27 e 32). Essa afirmação de Jesus é tanto mais embaraçosa por repetir-se em três dos evangelhos canônicos (Mateus 24:34 e Marcos 13:30, além do já citado Lucas).
Pois bem. Divaldo Franco não é de se deixar apertar por dificuldades desse tipo. Para ele, Jesus não se referia à existência de seus discípulos naquele momento, mas na vida dos espíritos deles. Se as previsões escatológicas de Jesus não se cumpriram até os dias de hoje é porque aqueles discípulos continuam a se reencarnar, a gerar sucessivas existências até que - enfim - chegue o Juízo Final. Haja imaginação!
Aliás, a grande virtude da teoria das reencarnações (que, diga-se, não é apenas apanágio dos espíritas. A versão espírita é mais simples e - por isso - atrai mais adeptos. Mas há versões mais sofisticadas, como, por exemplo, a da Antroposofia), a grande virtude, dizia, é a de explicar muita coisa que sem ela ficaria sem explicação.
Entenda-se explicação, aqui, como versão dos factos que dá sentido ao que parecia absurdo ou injusto.
O próprio Divaldo Franco, em sua palestra, dá alguns exemplos. Um deles: o indivíduo que descobre ter um cancro (câncer, no Brasil) e se pergunta: Por que eu? E Divaldo, a brandir sua teoria da reencarnação, corrige: E por que não eu?
Conheço um caso que ilustra essa questão. Um dos filhos de Evangelista, o famoso ponta esquerda da linha dos cem gols do Santos F.C. da década de 30, teve um filho com severos problemas mentais e motores. Tanto Evangelista como quase toda a família eram membros da Primeira Igreja Batista de Santos. Há alguns anos, soube que esse filho de Evangelista e sua mulher haviam se tornado espíritas. Motivo: o Espiritismo lhes dava sentido a tudo que já haviam vivido.
Como toda religiosidade tem ligação com a ideia de consolo, o Espiritismo oferece uma alternativa das mais atraentes. Ao menos para os brasileiros. Na França, berço do fundador da seita, o Espiritismo não faz o mesmo sucesso. Talvez porque, lá, não haja tanta necessidade de consolo...
Apenas me incomoda a tentativa dos espíritas de utilizarem-se da Ciência para buscar validar suas teorias. Se o terreno das religiões é o consolo, o da ciência é o da busca da Verdade.
E a ciência prefere a ignorância à ilusão de saber.
É preferível a ignorância a um avatar de conhecimento.
Meu primo Wanderley colocou no Facebook, há alguns dias, um vídeo com um discurso de um líder espírita, Divaldo Franco, proferido há 15 anos. Para quem quiser vê-lo, basta clicar aqui.
O objetivo declarado da palestra é o de mostrar que a reencarnação é mencionada em vários lugares da Bíblia. E, com isso, derrubar as objeções dos cristãos que não aceitam a ideia de reencarnação por entenderem que a Bíblia não a endossa. Mas o sr. Franco vai mais além e faz uma completa apologia da reencarnação.
Quanto às alegadas menções à reencarnação na Bíblia, o conferencista chega a dar uma explicação a uma afirmação de Jesus que sempre causa embaraços aos crentes. Trata-se da afirmação de Jesus de que seu retorno "numa nuvem, com poder e grande glória" ocorreria logo: "não passará esta geração até que tudo aconteça". (Lucas 21: 27 e 32). Essa afirmação de Jesus é tanto mais embaraçosa por repetir-se em três dos evangelhos canônicos (Mateus 24:34 e Marcos 13:30, além do já citado Lucas).
Pois bem. Divaldo Franco não é de se deixar apertar por dificuldades desse tipo. Para ele, Jesus não se referia à existência de seus discípulos naquele momento, mas na vida dos espíritos deles. Se as previsões escatológicas de Jesus não se cumpriram até os dias de hoje é porque aqueles discípulos continuam a se reencarnar, a gerar sucessivas existências até que - enfim - chegue o Juízo Final. Haja imaginação!
Aliás, a grande virtude da teoria das reencarnações (que, diga-se, não é apenas apanágio dos espíritas. A versão espírita é mais simples e - por isso - atrai mais adeptos. Mas há versões mais sofisticadas, como, por exemplo, a da Antroposofia), a grande virtude, dizia, é a de explicar muita coisa que sem ela ficaria sem explicação.
Entenda-se explicação, aqui, como versão dos factos que dá sentido ao que parecia absurdo ou injusto.
O próprio Divaldo Franco, em sua palestra, dá alguns exemplos. Um deles: o indivíduo que descobre ter um cancro (câncer, no Brasil) e se pergunta: Por que eu? E Divaldo, a brandir sua teoria da reencarnação, corrige: E por que não eu?
Conheço um caso que ilustra essa questão. Um dos filhos de Evangelista, o famoso ponta esquerda da linha dos cem gols do Santos F.C. da década de 30, teve um filho com severos problemas mentais e motores. Tanto Evangelista como quase toda a família eram membros da Primeira Igreja Batista de Santos. Há alguns anos, soube que esse filho de Evangelista e sua mulher haviam se tornado espíritas. Motivo: o Espiritismo lhes dava sentido a tudo que já haviam vivido.
Como toda religiosidade tem ligação com a ideia de consolo, o Espiritismo oferece uma alternativa das mais atraentes. Ao menos para os brasileiros. Na França, berço do fundador da seita, o Espiritismo não faz o mesmo sucesso. Talvez porque, lá, não haja tanta necessidade de consolo...
Apenas me incomoda a tentativa dos espíritas de utilizarem-se da Ciência para buscar validar suas teorias. Se o terreno das religiões é o consolo, o da ciência é o da busca da Verdade.
E a ciência prefere a ignorância à ilusão de saber.
É preferível a ignorância a um avatar de conhecimento.
segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
Notas australianas
O título é ambicioso, Mas, na verdade, o alcance deste post é bem mais limitado.
Em primeiro lugar, são impressões de segunda mão, recolhidas da Léa, que acaba de retornar de um período de imersão no universo aussie (pronuncia-se ózi).
Além disso, trata-se de impressões colhidas em uma cidade específica (Townsville), em um bairro específico dessa cidade. Um lugar junto ao mar.
É facto que quando lá estive, 2.007, em Gold Coast, um bocadinho mais ao sul da costa Leste, testemunhei muita coisa compatível com o que segue.
Feitas as devidas ressalvas, vamos lá:
1. As pessoas que ali vivem formam uma comunidade, que comemora a convivência com jantares que a todos reúnem às sextas-feiras.
2. As pessoas não têm quase preocupação alguma com a aparência. Parece-me que por não haver lá significativas diferenças de níveis de renda, ninguém precisa mostrar status ou algo que o valha. Aliás, já em Gold Coast eu observara que as pessoas vão a restaurantes e a centros comerciais descalças. Bem vestidas, mas sem sapatos ou mesmo chinelos.
3. Quase todos têm como automóvel esses veículos conhecidos como SUV. Cá em Portugal chamamo-los jipes.
4. As garagens das casas, quase invariavelmente, guardam o SUV e um barco.
5. Quase todos pescam. De um modo ou de outro. Alguns com vara e anzol, outros instalam no mar armadilhas para os peixes e retornam mais tarde para buscar o resultado.
6. Todos bebem bastante (nomeadamente cerveja e vinho branco).
7. A quase totalidade deles é tatuada. Mas com tatuagens que abarcam um braço inteiro, uma perna inteira, coisas assim.
8. 90% (estimativa do sistema Data Léa de pesquisa) desse pessoal vive às custas do governo.
9. Todos aparentam felicidade constante.
O juízo de valor fica por conta do leitor.
sexta-feira, 15 de novembro de 2013
Mixórdia
Bobó de camarão, para mim, tem vários significados.
Uns dez anos depois de ter saído do Presídio Tiradentes, em São Paulo, fui convidado a comer um bobó de camarão em uma casa do Pacaembu, bairro de Sampa que já foi o reduto da alta burguesia e já era, na altura, um bocadinho decadente.
Ao lá chegar, fui informado que o cozinheiro responsável pelo bobó era nada mais nada menos que Frei Beto.
Fui à cozinha cumprimentá-lo. Ambos fomos civilizados. Nenhum de nós dois revelou o desconforto diante da presença do outro.
Pois nunca tivemos um relacionamento que se pudesse classificar de amigável. Quem quiser, procure neste blogue os posts relativos à prisão (São os "Era uma vez").
Sim. O bobó estava ótimo. Nem tudo que Frei Beto produz é ruim.
Cá em Portugal, minha mulher - a Léa - resolveu fazer bobó de camarão para os amigos portugueses.
Foi um sucesso. Ela havia recebido, de uma amiga que nos veio visitar, um bocado de azeite de dendê.
A mandioca compra-se cá.
Pois.
Nosso anjo da guarda, que vem cá em casa duas vezes por semana, resolveu fazer o bobó na casa dela.
E não é que também fez sucesso?!
O facto é que, hoje, trouxe-me um bocadinho ( um montão, na verdade!) do bobó que voltou a fazer na casa dela.
Disse-me que a filha caçula pede sempre que ela refaça o prato.
E o de que mais gostei é que o chama de Mixórdia.
Belo nome para o bobó de camarão.
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
Desculpas atrasadas
Um bocadinho atrasadas. Só quarenta anos.
No Presídio Tiradentes, em São Paulo, onde a ditadura militar me deixou trancafiado pouco menos de dois anos (1.971 - 1.973), conheci boa parcela da Esquerda Revolucionária brasileira.
De muitos passei a querer distância.
Mas a alguns me afeiçoei. Guardo boas recordações de vários companheiros de presídio.
Um deles foi Luiz Bursztyn, o Bom Bril, alcunha que derivou da aparência dos cabelos dele.
Aliás, a mulher dele, também presa na ala feminina (conhecida como A Torre), tinha o nome de Jurema. Virou, claro, Ervilha, pois Jurema era uma marca conhecida de ervilhas em lata.
Convivi pouco com Bom Bril, pois morávamos em celas diferentes. Mas tínhamos nossas afinidades.
Poucos anos depois, talvez uns seis anos, trabalhava eu na Promon Engenharia e encontrei Bom Bril nos corredores da Empresa. Ele fazia parte de um grupo de visitantes. Paramos, cumprimentamo-nos... e eu não consegui lembrar o nome dele, nem a alcunha, nem nada. Apenas sabia que estivéramos presos junto.
Jamais me perdoei por essa falha de memória.
Como se isso não bastasse, fiquei com um volume - o de número 7 - da Mafalda, que era dele.
Está comigo até hoje. Como informa a capa, ele morava no Pavilhão 2, Xadrez 8.
Se por um desses raros acasos ele chegar a este blogue, quero que me diga para onde enviar o seu volume da Mafalda, com minhas esfarrapadas desculpas pelo lapso de memória.
A situação que vivíamos penso que explica parte dele.
No Presídio Tiradentes, em São Paulo, onde a ditadura militar me deixou trancafiado pouco menos de dois anos (1.971 - 1.973), conheci boa parcela da Esquerda Revolucionária brasileira.
De muitos passei a querer distância.
Mas a alguns me afeiçoei. Guardo boas recordações de vários companheiros de presídio.
Um deles foi Luiz Bursztyn, o Bom Bril, alcunha que derivou da aparência dos cabelos dele.
Aliás, a mulher dele, também presa na ala feminina (conhecida como A Torre), tinha o nome de Jurema. Virou, claro, Ervilha, pois Jurema era uma marca conhecida de ervilhas em lata.
Convivi pouco com Bom Bril, pois morávamos em celas diferentes. Mas tínhamos nossas afinidades.
Poucos anos depois, talvez uns seis anos, trabalhava eu na Promon Engenharia e encontrei Bom Bril nos corredores da Empresa. Ele fazia parte de um grupo de visitantes. Paramos, cumprimentamo-nos... e eu não consegui lembrar o nome dele, nem a alcunha, nem nada. Apenas sabia que estivéramos presos junto.
Jamais me perdoei por essa falha de memória.
Como se isso não bastasse, fiquei com um volume - o de número 7 - da Mafalda, que era dele.
Está comigo até hoje. Como informa a capa, ele morava no Pavilhão 2, Xadrez 8.
Se por um desses raros acasos ele chegar a este blogue, quero que me diga para onde enviar o seu volume da Mafalda, com minhas esfarrapadas desculpas pelo lapso de memória.
A situação que vivíamos penso que explica parte dele.
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
Talismã
De volta a casa, ainda sem saber onde lançar as cinzas da mulher, resumidas ao conteúdo daquela urna que ocupava o assento do passageiro, repassava na memória perguntas que sempre se fizera, sem resposta.
- Por que tantos anos com ela, se nunca a amara?
~Por que sempre fora fiel, se poucas vezes a desejara?
- Por que dividira com ela seus momentos de lazer, se não havia entre eles afinidade de espírito?
E assim, sucediam-se as interrogações.
Talvez por algum raio de sol que o ofuscou temporariamente no percurso, quem sabe em razão da emoção da cerimônia fúnebre, veio, enfim, a resposta:
Era certo que jamais a amara, nem tivera com ela uma vida sexual empolgante, nem dividira com ela suas ironias e seus sarcasmos, pois para ela os humores eram de outra natureza.
Mas, a seu lado, tudo dera certo. A vida, mesmo quando movida por acasos, se é que não sempre, fora muito boa.
Ela fora seu talismã. Era isso.
Chegou em casa, colocou a urna na sala, em lugar seguro, disfarçada entre alguns bibelôs.
Quem sabe as cinzas fossem avatar da companheira perdida.
- Por que tantos anos com ela, se nunca a amara?
~Por que sempre fora fiel, se poucas vezes a desejara?
- Por que dividira com ela seus momentos de lazer, se não havia entre eles afinidade de espírito?
E assim, sucediam-se as interrogações.
Talvez por algum raio de sol que o ofuscou temporariamente no percurso, quem sabe em razão da emoção da cerimônia fúnebre, veio, enfim, a resposta:
Era certo que jamais a amara, nem tivera com ela uma vida sexual empolgante, nem dividira com ela suas ironias e seus sarcasmos, pois para ela os humores eram de outra natureza.
Mas, a seu lado, tudo dera certo. A vida, mesmo quando movida por acasos, se é que não sempre, fora muito boa.
Ela fora seu talismã. Era isso.
Chegou em casa, colocou a urna na sala, em lugar seguro, disfarçada entre alguns bibelôs.
Quem sabe as cinzas fossem avatar da companheira perdida.
terça-feira, 12 de novembro de 2013
Odores e Reflexos
ALGUNS TÊM FÉ DE MAIS,
OUTROS TÊM FÉ DE MENOS.
UNS DESTILAM VENENOS,
OUTROS PROCURAM A PAZ.
UNS DIANTE DE ESPELHOS
NÃO VEEM O QUE SÃO.
PELO SIM, PELO NÃO,
CHAMAM À IMAGEM: PENTELHOS!
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
Elogio dos elogios
O livro Cântico dos Cânticos é conhecido por ser poeticamente sensual (ou seria sensualmente poético?)-
De qualquer modo, logo no início, ele traz um elogio da mulher a seu amado que - para mim - dificilmente pode ser suplantado por qualquer outro.
A tradução que segue é minha, mas não difere quase nada das traduções tradicionais. Apenas há uma expressão que, literalmente, é teu peito (ou teus seios) e que as traduções para o Português vertem para teu amor, teus amores ou tuas carícias.
Como se trata de uma mulher a falar sobre um homem, teus seios não ficaria lá muito adequado.
Preferi traduzir como teu corpo. Penso que fica melhor. Mais nada contra as demais traduções.
De qualquer modo, logo no início, ele traz um elogio da mulher a seu amado que - para mim - dificilmente pode ser suplantado por qualquer outro.
A tradução que segue é minha, mas não difere quase nada das traduções tradicionais. Apenas há uma expressão que, literalmente, é teu peito (ou teus seios) e que as traduções para o Português vertem para teu amor, teus amores ou tuas carícias.
Como se trata de uma mulher a falar sobre um homem, teus seios não ficaria lá muito adequado.
Preferi traduzir como teu corpo. Penso que fica melhor. Mais nada contra as demais traduções.
domingo, 10 de novembro de 2013
Deus criou o mal
Circula na Internet um diálogo fictício entre um professor e Einstein, ainda menino. Vejam:
Grande número de pessoas adora esse tipo de conversa mole.
Isso resulta do facto de haver muita gente cristã e quase ninguém que leia a Bíblia.
Se lessem, veriam que Deus não concorda com esse vídeo.
Aí vem também a turma que é monoteísta mas acredita em vários deuses.
- Ah! Mas há o Deus do Antigo Testamento e há o Deus do Novo Testamento!
Quanto a mim, fui ensinado que há um só Deus que se expressa pelos 66 livros (para alguns, um bocadinho mais) da Bíblia, livros esses ditados por Ele a seus ghostwriters.
Aliás, o cristianismo, com essa invenção do três-em-um (Pai, Filho e Espírito Santo), bagunçou o monoteísmo um bocadinho.
E também poucos se dão conta de que Moisés, por exemplo, não era monoteísta. Moisés era monolátrico. Ou seja, acreditava que o seu Deus era o ó do borogodó, mas sabia que os demais povos tinham lá seus deuses. Só que inferiores ao dele, claro.
O monoteísmo surge apenas em Isaías. E é onde eu queria chegar com esse papo.
Em Isaías 45:18:
Porque assim diz o Senhor [...]: Eu sou o Senhor e não há outro.
Mas volto ao vídeo acima:
Em Isaías 45:7, está dito:
Eu formo a luz e crio as trevas; eu faço a paz e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas.
(tradução Almeida corrigida)
Falou e disse. Alguma dúvida?
Grande número de pessoas adora esse tipo de conversa mole.
Isso resulta do facto de haver muita gente cristã e quase ninguém que leia a Bíblia.
Se lessem, veriam que Deus não concorda com esse vídeo.
Aí vem também a turma que é monoteísta mas acredita em vários deuses.
- Ah! Mas há o Deus do Antigo Testamento e há o Deus do Novo Testamento!
Quanto a mim, fui ensinado que há um só Deus que se expressa pelos 66 livros (para alguns, um bocadinho mais) da Bíblia, livros esses ditados por Ele a seus ghostwriters.
Aliás, o cristianismo, com essa invenção do três-em-um (Pai, Filho e Espírito Santo), bagunçou o monoteísmo um bocadinho.
E também poucos se dão conta de que Moisés, por exemplo, não era monoteísta. Moisés era monolátrico. Ou seja, acreditava que o seu Deus era o ó do borogodó, mas sabia que os demais povos tinham lá seus deuses. Só que inferiores ao dele, claro.
O monoteísmo surge apenas em Isaías. E é onde eu queria chegar com esse papo.
Em Isaías 45:18:
Porque assim diz o Senhor [...]: Eu sou o Senhor e não há outro.
Mas volto ao vídeo acima:
Em Isaías 45:7, está dito:
Eu formo a luz e crio as trevas; eu faço a paz e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas.
(tradução Almeida corrigida)
Falou e disse. Alguma dúvida?
sábado, 9 de novembro de 2013
A modéstia de Lula
A revista Visão, cá de Portugal, publicou em seu número 1077, do final de Outubro, uma entrevista de Lula ao jornalista Jesús Ruiz Mantilla, do jornal espanhol El País.
A entrevista, publicada primeiramente aqui, foi traduzida do espanhol para o português de Portugal. Não deixa de ter piada um Lula a falar do modo lusitano.
A revista Visão até que poupou seus leitores do inteiro teor do panegírico inicial do entrevistador. Transcreveu apenas parte dele.
Lula, como sempre (e quanto mais diante de um entrevistador que assume gostosamente o papel de escada), fala da miséria em que recebeu o governo brasileiro e como deixou tudo quase às mil maravilhas. O quase é pra que reste algo de bom para sua sucessora fazer.
Mas, a meu ver, o auge de sua megalomania vem neste trecho:
Qualquer líder que esteja na oposição sabe que mudanças deve aplicar, ao chegar ao cargo. Hollande, por exemplo, sabia-o, durante a campanha...
Tive uma conversa estraordinária com ele. Sou amigo dele já há muito tempo. E dizia-lhe: não te podes esquecer do teu discurso, ao chegares à Presidência. Agarra as tuas propostas, enquadra-as, coloca-as na tua mesa de cabeceira e não te esqueças nunca das razões da tua eleição.
Com Obama, comentei: deves limitar-te a mostrar a mesma coragem que o povo americano demonstrou ao eleger-te Presidente.
Não sei o que seria de França e de Estados Unidos se Lula não tivesse dado essa mãozinha.
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
Dúvida
Essa dúvida está colocada em sentido literal.
Mas poderia ser também uma metáfora.
Depende de se considera Porto uma cidade portuguesa, ou um destino seguro.
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
Milímetros que valem uma vida
Em 1954 o Brasil ficou com o segundo lugar no concurso de Miss Universo. Martha Rocha, aquela, a baiana, perdeu o título por pouco. Será?
Ao menos foi o que ficou registado na marchinha de carnaval:
Por duas polegadas a mais
passaram a baiana pra trás.
Por duas polegadas,
e logo nos quadris.
Tem dó, tem dó seu juiz.
(Alcyr Pires Vermelho, Pedro Caetano e Carlos Renato. Foram necessários três pra compor isso?!)
Mas alto lá: duas polegadas de rabo a mais são bastante coisa, não é? Pegue uma régua que tenha escala em polegadas e verifique. É muito.
Para homens razoavelmente normais é até muito bom. Mas para juízes de concurso de beleza deve ser uma tragédia.
Quanto a mim, dependo de apenas quatro milímetros. Não no rabo. Na aorta. Está com a régua ainda na mão? Então dê uma olhada. É quase nada.
E não estou a falar de concurso de beleza. Trata-se da minha vida. A única que tenho.
Por isso, saí hoje feliz da consulta ao cardiologista.
Ano passado, a angiotomografia apontou 46 mm de diâmetro de minha aorta ascendente. Ou seja, o mesmo que o exame feito em São Paulo, um ano antes, registara.
Meu cardiologista, por meio de eco (que não permite a visualização de toda a parte dilatada da aorta) constatou, em março deste ano, 44,5 mm de diâmetro da parte visível. Disse que para o fim do ano mediríamos de novo.
Hoje minha aorta emplacou 44 mm. O 0,5 a menos é desprezível. Ou seja, tudo continua como antes.
No primeiro semestre de 2011, um cirurgião em São Paulo me garantiu que era urgente que operasse. Mais de 2 anos depois, estou com o quadro totalmente estável.
Sem que eu tivesse recorrido ao bispo Edir Macedo ou ao apóstolo Valdemiro Santiago.
Atualização (21/11/2013) - Meu hermano, Luiz Brandão, me alerta para o facto de ser Terezinha Morango (Miss Brasil 1.957) a Miss que aparecia na foto deste post. E não Marta Rocha, Miss em 1.954. Eu poderia alegar que foi troca proposital. Afinal, já fiz isso em outros posts. Por exemplo este. Era uma imitação de procedimento muito utilizado pelo jornaleco Planeta Diário, da turma que mais adiante juntou-se ao pessoal do Casseta Popular e criou o grupo Casseta & Planeta, de saudosa memória na TV brasileira. Mas não foi. Foi erro meu, mesmo. Já corrigido.
Atualização (21/11/2013) - Meu hermano, Luiz Brandão, me alerta para o facto de ser Terezinha Morango (Miss Brasil 1.957) a Miss que aparecia na foto deste post. E não Marta Rocha, Miss em 1.954. Eu poderia alegar que foi troca proposital. Afinal, já fiz isso em outros posts. Por exemplo este. Era uma imitação de procedimento muito utilizado pelo jornaleco Planeta Diário, da turma que mais adiante juntou-se ao pessoal do Casseta Popular e criou o grupo Casseta & Planeta, de saudosa memória na TV brasileira. Mas não foi. Foi erro meu, mesmo. Já corrigido.
terça-feira, 5 de novembro de 2013
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
O melão
Aproveitei esta segunda-feira para ir almoçar ao Geadas.
Parêntesis: Bragança tem excelentes restaurantes. Mas dois deles são superiores: o Solar e o Geadas.
Agora, então, que os dois filhos do casal que rege o restaurante entraram na orquestra, o Geadas está primoroso.
Cheguei um bocadinho tarde, como é de meu hábito.
Fui recebido como se fosse alguém muito especial e me foi sugerido um tornedor.
Tive, então, o prazer de passar quase uma hora em um ambiente bonito e tranquilo, mergulhado em um suave som de jazz.
Se as lascas de um presunto adorável, o queijo e algum salpicão abriram meu apetite, o prato principal me elevou ao cume da gastronomia.
Vinho e pão fizeram o contracanto.
Não fosse o possível desconforto, preferiria saborear esse tornedor ajoelhado no estrado de um genuflexório.
Ao menos seria mais justo.
Um bocadinho emocionado, resolvi completar a refeição com melão.
Emoção e melão levaram-me a recordações. Ainda mais que diante de mim, para além da janela do Geadas, reinava a paisagem das margens do Fervença. E a chuva começava a ceder lugar ao sol.
E me surgiu aos olhos da alma meu pai e minha mãe a saborear um melão espanhol. Era talvez o único dos luxos a que se permitiam.
Para eles, o melão era a exceção: aos filhos tudo; a nós o melão.
E sabíamos já que o melão era para os dois.
E gostava de vê-los saborear aquela ambrosia, com prazer e cumplicidade.
domingo, 3 de novembro de 2013
Egos em fuga
Primeiro eram egos em fúria.
Artistas brasileiros (Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Djavan, Roberto Carlos, Erasmo Carlos e talvez outros menos nobres) uniram-se em um movimento curiosamente chamado Procure Saber (ao que parece eles já acharam) com o expresso objetivo de não permitir que fossem liberadas, no Brasil, biografias não autorizadas pelo biografado ou seus descendentes.
Entendiam que deixar uma biografia dessas ser publicada para só depois buscar reparação judicial rendia pouco dinheiro.
E eles, como quase todo mundo, gostam de muito.
Quando a iniciativa deles começou a ser duramente criticada, começaram os recuos.
Chico Buarque, de seu refúgio em Paris, tratou de procurar a porta de saída:
- Posso não estar muito bem informado sobre as leis e posso ter me precipitado.
Parece que, domingo passado ou um dia qualquer desses últimos, Roberto Carlos, conhecido como O Rei (presumo que do Reino da Música porque do Reino do Futebol é o Pelé, que - por sinal - é muito ruim de música), deu uma entrevista à TV Globo para dizer que não é bem assim.
Tenho um amigo que quando quer, ironicamente, defender algum argumento absurdo, começa a argumentação com um:
- Veja bem!
Caetano Veloso, ao perceber que ia levar bola nas costas, soltou o verbo no jornal O Globo de hoje:
Primeiro ele atira em Roberto:
- Atribuí a Roberto Carlos o fato de ter sido obrigado a chegar até ali. Eu, que sempre me posicionara contra a exigência de aprovação prévia para biografias.
O tiro ricocheteia em Chico Buarque:
- Chico era o mais próximo da posição dele [Roberto], eu, o mais distante.
Essa postura caetaneana me lembra aquela velhíssima anedota contada por José Vasconcelos:
O camarada roubou um porco e saiu em disparada, com o porco às costas.
Quando foi alcançado pelos que o perseguiam, perguntou:
.- Porco? Que porco? Tira esse bicho daí!
Caetano procura, no artigo acima, tirar o corpo fora. Não o do porco. O dele.
Isso graças a artigos como o de Ruy Castro:
E mesmo o de Janio de Freitas:
Para não dizerem que não mostrei o artigo a que Caetano também se refere, desta vez um bocadinho favorável a ele e aos demais trapalhões (o artigo de Fernanda Torres), aí vai a parte do texto que se refere ao nosso assunto. Antes ela fala de um livro que vai publicar e de outro livro, que dá título ao artigo.
Aos poucos a moçada vai tirando os respectivos da reta.
Não sei se é preciso, mas vou explicitar: gosto muito da produção de música popular de quase todos eles.
Neste último sábado, por exemplo, fiquei durante umas duas horas a ouvir e ver o show acústico MTV de Gilberto Gil.
Isso nada tem a ver com o caráter deles. Picasso, por exemplo, era excelente pintor mas...
Isso já é outra história. A que chegaremos, qualquer hora dessas.
Também acrescento que todos eles já produziram o que tinham para produzir.
Sendo assim, termino com o finalzinho do texto da doidivanas Barbara Gancia, sexta-feira última, também na Folha.
Artistas brasileiros (Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Djavan, Roberto Carlos, Erasmo Carlos e talvez outros menos nobres) uniram-se em um movimento curiosamente chamado Procure Saber (ao que parece eles já acharam) com o expresso objetivo de não permitir que fossem liberadas, no Brasil, biografias não autorizadas pelo biografado ou seus descendentes.
Entendiam que deixar uma biografia dessas ser publicada para só depois buscar reparação judicial rendia pouco dinheiro.
E eles, como quase todo mundo, gostam de muito.
Quando a iniciativa deles começou a ser duramente criticada, começaram os recuos.
Chico Buarque, de seu refúgio em Paris, tratou de procurar a porta de saída:
- Posso não estar muito bem informado sobre as leis e posso ter me precipitado.
Parece que, domingo passado ou um dia qualquer desses últimos, Roberto Carlos, conhecido como O Rei (presumo que do Reino da Música porque do Reino do Futebol é o Pelé, que - por sinal - é muito ruim de música), deu uma entrevista à TV Globo para dizer que não é bem assim.
Tenho um amigo que quando quer, ironicamente, defender algum argumento absurdo, começa a argumentação com um:
- Veja bem!
Caetano Veloso, ao perceber que ia levar bola nas costas, soltou o verbo no jornal O Globo de hoje:
(clique na imagem para ampliá-la.
Mesmo assim ela não ficará em bom tamanho.
Não tenho culpa de Caetano precisar ser prolixo
Mesmo assim ela não ficará em bom tamanho.
Não tenho culpa de Caetano precisar ser prolixo
para defender o indefensável)
Primeiro ele atira em Roberto:
- Atribuí a Roberto Carlos o fato de ter sido obrigado a chegar até ali. Eu, que sempre me posicionara contra a exigência de aprovação prévia para biografias.
O tiro ricocheteia em Chico Buarque:
- Chico era o mais próximo da posição dele [Roberto], eu, o mais distante.
Essa postura caetaneana me lembra aquela velhíssima anedota contada por José Vasconcelos:
O camarada roubou um porco e saiu em disparada, com o porco às costas.
Quando foi alcançado pelos que o perseguiam, perguntou:
.- Porco? Que porco? Tira esse bicho daí!
Caetano procura, no artigo acima, tirar o corpo fora. Não o do porco. O dele.
Isso graças a artigos como o de Ruy Castro:
E mesmo o de Janio de Freitas:
Para não dizerem que não mostrei o artigo a que Caetano também se refere, desta vez um bocadinho favorável a ele e aos demais trapalhões (o artigo de Fernanda Torres), aí vai a parte do texto que se refere ao nosso assunto. Antes ela fala de um livro que vai publicar e de outro livro, que dá título ao artigo.
Aos poucos a moçada vai tirando os respectivos da reta.
Não sei se é preciso, mas vou explicitar: gosto muito da produção de música popular de quase todos eles.
Neste último sábado, por exemplo, fiquei durante umas duas horas a ouvir e ver o show acústico MTV de Gilberto Gil.
Isso nada tem a ver com o caráter deles. Picasso, por exemplo, era excelente pintor mas...
Isso já é outra história. A que chegaremos, qualquer hora dessas.
Também acrescento que todos eles já produziram o que tinham para produzir.
Sendo assim, termino com o finalzinho do texto da doidivanas Barbara Gancia, sexta-feira última, também na Folha.
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