domingo, 20 de outubro de 2013

Ainda sobre as biografias não autorizadas

A esquerda brasileira (e outras, mas penso, aqui, nomeadamente na brasileira) é engraçada (quando não trágica). Enquanto Chico Buarque era um compositor de canções como A Banda, Rita, Carolina etc etc, e lançou três álbuns recheados de músicas de amor, com quase um único contraponto (Pedro Pedreiro). em uma época em que a esquerda glorificava os Geraldos Vandrés e suas canções arrebatadas, a respingar revoluções, a esquerda o tratou como um delinquente. O facto de ele ter sido preso por furto de automóvel era apenas um detalhe do que dele se propagava na década de 60 no ambiente quase revolucionário da rua Maria Antonia, em São Paulo.
E, de facto, Pedro Pedreiro e outras tentativas de Chico de cair nas graças da esquerda mostram uma visão quase infantil dos problemas sociais.
A meu ver, ele só encontrou a medida certa no álbum Construção, particularmente na canção com esse nome.
A partir mais ou menos daí, virou herói da esquerda.

Qualquer coisa parecida e paralela ocorreu com Caetano e Gil. A Tropicália era mal vista pela esquerda. Seus arautos, depois de um exílio, também foram alçados à condição de musas da esquerda.

De Roberto Carlos e Erasmo nem se fale. Foram execrados pela esquerda até há pouco.

Hoje, no momento em que eles (e alguns outros) se unem para impedir a liberação da publicação de biografias não autorizadas pelo biografado ou seus descendentes, a esquerda os defende com unhas e dentes.

Escrevi dias atrás sobre isso aqui. E reproduzi o texto no Facebook.

Meu amigo Reinaldo Lobo, homem orgulhosamente de esquerda,  advertiu-me: "cuidado com o assassinato de caráter".

Reinaldo: preocupa-me bem mais o caráter dos assassinos.

E, infelizmente, isso não é figura de retórica. A menos que alguém me explique a coincidência da morte em série de sete testemunhas do assassinato de Celso Daniel.
Aliás, sobre isso, eu gostaria de contar alguns detalhes escabrosos dos quais tenho conhecimento mas não posso pois não possuo provas cabais.

Mas volto ao tema.

Hoje, em O Globo, Caetano Veloso escreve a respeito da polêmica das biografias não autorizadas e nomeadamente da repercussão que o movimento desses artistas suscitou na imprensa em geral.

O texto todo me parece meio aparvalhado. Mas não faltarão baluartes da esquerda para explicá-lo aos pobres de espírito tais como eu.

O que me parece mais significativo, é que a esquerda defenda essa turma e sua tese contrária a biografias não autorizadas no momento em que toda a esquerda - e mesmo o governo federal - se empenha em obter instrumentos legais de controle da imprensa. Imprensa que eles acusam de fortemente contra os altos interesses populares.

Fico a imaginar, eu que recebo o Boletim Carta Maior todo santo dia, como seria a imprensa democrática com que a esquerda tanto diz sonhar, quando toda ela fosse como o Carta Maior. E Emir Sader fosse, digamos, o Ministro da Informação.

Aí sim, viveríamos a tão almejada Democracia.

E não se iludam os Caetanos e Chicos. Eles seriam dos primeiros a serem cuspidos ao ostracismo.

Na melhor das hipóteses.

Eu disse "seriam"?
Talvez tenha errado no tempo verbal.

sábado, 19 de outubro de 2013

Extractos da antologia Poemas Portugueses (Jorge Reis-Sá e Rui Lage)

Ernesto Manuel de Melo e Castro (Covilhã, 1932) é um experimentalista português. Aí vão três poemas de sua fase concretista (Ideogramas, 1962):




Observação: as cópias são sofríveis. Mas são as que consigo fazer...

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Biografias não autorizadas

Essa questão das biografias não autorizadas, no Brasil,  já vem de longe (Ruy Castro que o diga). Mas agora, os latifundiários da MPB, Chico, Caetano, Gil, Djavan, além do inefável místico Roberto Carlos e o talentoso Erasmo, resolveram brigar por mais alguns tostões, fora a lei Rouanet, fora tudo mais.
O maniqueísmo que existe em mim gostaria que todos eles tivessem comprado suas músicas de algum pobre coitado do morro, como era comum na época de Chico Alves.
Mas não. Tenho de aceitar que um mau caráter seja capaz de produzir belíssimas canções populares. Sim, a obra desprende-se do autor. Por menos que eu queira engolir essa ideia.
Nessa matéria que aí vai, Chico Buarque já inicia o processo de tirar o dele da reta. Percebeu que apostou no cavalo errado. 


Ele, autor de canções maravilhosas, ele o garotão do Mackenzie, que furtava carros junto com os amigos para divertir-se. Que quando percebeu que A Banda tinha lhe rendido a fama de alienado passou a fazer Pedro Pedreiro e a assinar qualquer coisa que Antonio Candido assinasse antes.
Quanto aos baianos, contraponho-lhes uma proposta: continua a ser proibido publicar biografias não autorizadas, desde que seja proibido usar a Bahia como gancho pra ganhar dinheiro, usando os decantados encantos dela para gozar a vida em qualquer lugar que não seja lá. Topam?

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Dificuldades de um estrangeiro

Sou português. Moro em Bragança. Mas o sotaque não engana ninguém.
Abro a boca e logo me perguntam quando retorno ao Brasil.
Quem mandou nascer lá e lá viver mais de sessenta anos?

E tem mais: desde que resolvi ter um pé no Porto, a confusão aumentou.
Quando explico que não vou voltar ao Brasil. Que moro em Bragança, escuto logo:
- Ah! Mora em Braga!?
Parece que os tripeiros pensam que ninguém vive em Bragança.
Também, quase todas as fotos do Castelo de Bragança não mostram um ser vivo.


Se alguém vive em algum lugar cujo nome comece por Bra, só pode ser Brasil ou Braga.
Bragança é, em Portugal, como o Acre no Brasil: as gentes se admiram ao constatar que alguém vive lá.

Coitados, não sabem o que é bom.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A solidariedade e o mundo virtual

Como é bonito ler, nas páginas da Internet (nomeadamente no Facebook e em blogues), as manifestações calorosas de solidariedade entre os humanos e destes em relação aos animais. Até mesmo em relação às árvores, florestas e todo o Reino Vegetal.
Não escapam nem mesmo as pedras.
No mundo virtual reina a solidariedade.



Faz pouco mais de cinco anos que uma tia minha, solteira, sem filhos, poucas amizades e de hábitos solitários, começou a mostrar sinais de demência.
Meu primo e eu resolvemos cuidar dela. E para isso solicitamos a ajuda de vários familiares. Uma dezena deles prontificou-se a colaborar financeiramente. Isso proporcionou a ela um fim de vida com o maior conforto e cuidado possíveis.
No final de Março deste ano ela se foi.

Serei sempre grato aos que nos ajudaram a minorar o sofrimento dos últimos anos de vida dela.

Mas fico pasmo com o descaso de muitos outros.
Já não falo de contribuição financeira. Quanto a isso, sei que muitas vezes é mesmo difícil abrir mão de recursos já escassos para ajudar a terceiros.
Mas penso naqueles que, mesmo morando na mesma cidade dela - São Paulo, assim como não tiveram um único tostão disponível, não se abalaram a ir até a clínica em que ela estava, apenas para dar a ela o conforto de sua companhia durante alguns poucos minutos.

Reservaram toda sua solidariedade para despejá-la nos comentários do Facebook.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Oftalmoideologia

Amanhã vou buscar meus novos óculos. Mesmo com a chuva que cai no Porto, vou buscar meus óculos.
Quem sabe, com óculos novos, novinhos, possa eu enxergar o porquê de pessoas inteligentes e cultas reverenciarem o governo do Partido dos Trabalhadores (PT), Brasil (noves fora as que ganham dinheiro com isso. Essas entendo).



O país apresenta o pior desempenho dos chamados emergentes. Não tem programa estratégico. Aliás, não tem programa nem de curto prazo. Não tem infraestrutura. Nem plano para desenvolvê-la. Tem apenas a ambição de seus dirigentes. Voltada, por definição, para seu próprio interesse e nada mais.

O único sector da economia que contribui para que o PIB tenha variação positiva é o agro-negócio. E justamente esse é o sector Geni da economia. Toda gente, do governo e seus acólitos, joga pedras nos pejorativamente chamados ruralistas.

Essa conversa de que o governo tirou não sei quantos milhões de brasileiros da miséria é mais um enxugar de gelo. A renda familiar exigida pelas estatísticas para sair-se da miséria é ridícula.

A capacidade gerencial de Dilma é nula. Ela não sabe delegar e pior:  mesmo centralizadora, não sabe decidir com eficácia.
Saiu do nada e ao nada voltará.

Mas, como dizia, vou buscar meus óculos.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Caso Maddie



A polícia britânica prossegue nas investigações que a polícia portuguesa abandonou desde 2008.
Tudo muito interessante. Tomara que se chegue a um final feliz.
Mas uma observação deve ser feita:
Quem tem 41 suspeitos não tem suspeito algum.

domingo, 13 de outubro de 2013

O Jogo

O indivíduo joga no Euromilhões.
Deve acertar cinco números dentre os cinquenta primeiros números inteiros positivos.
E é preciso fazer coincidir as duas "estrelas" que escolheu, entre onze, com as sorteadas, para fazer jus ao primeiro prémio.


Há os que têm sua chave favorita. São dias de aniversário dos filhos, dos pais, coisas assim. Jamais dá certo, mas continuam a acreditar naquela chave.

Há os que jogam a esmo. Instigam o acaso.

Há os que desenvolvem regras do bom jogar. Não repetem números sorteados no sorteio anterior. Ou evitam números consecutivos. Ou jogam só em números pares. Ou apenas em ímpares.

Enfim, há de tudo que a mente humana consegue imaginar.

Difícil é aceitar que qualquer desses métodos leva à mesma probabilidade de vitória.

Que não há nenhuma divindade, ser superior ou o diabo, que favoreça alguma de tais estratégias.

Ninguém se importa.

O ganhador, se houver algum, será pelas artes do Acaso, o único mistério que, se calhar, merece o nome de divindade.

Se calhar.

sábado, 12 de outubro de 2013

Dia para não esquecer

Recebemos hoje a visita de dois doutores, acompanhados das mulheres e de um filho.
Um deles é um médico cirurgião que operou a Léa.
O outro é um doutor em Psicologia.

Um deles é ateu.  O outro, católico.

Como não podia deixar de ser, a conversa girou em torno de temas tais como Fé, Crença e que tais.
Depois de tanta conversa agradável, fica-se à espera de que o Universo interrompa seu curso para tratar de nossas divergências.
Claro, elas não se dissolverão.
Mas, no auge das discussões, surgiu uma menção a poema de José Régio.
Fui ao escritório buscar a Antologia de Poesia Portuguesa e - como não podia deixar de ser - lá estava o poema, às páginas 1227/1228.
Poema que foi lido em voz alta e emocionada.
Ei-lo:
(clique no texto para ampliá-lo)

Dias como esse dão sabor à vida.

Entre outras coisas, lembrei-me do dia em que, em um apartamento do quarto andar do Edifício Canadá, na rua Maria Antonia, em São Paulo, no intenso ano de 1968, meu amigo Henrique, também de pé e solene, leu Tabacaria, de Pessoa.

E chorámos.

Como diz Jorge Ben em uma de suas músicas, agora ninguém chora mais.

Mas talvez as emoções de hoje, mais controladas, sejam mais intensas.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Portugal tropeça no hino de Israel

Eu jamais ouvira o Hino Nacional de Israel.
Antes do início da partida de futebol entre Portugal e Israel, a valer pela classificação para a Copa de 2014 no Brasil, o hino tocou, interpretado por orquestra.
Como é praxe, apenas um pequeno trecho do hino.
O estádio de Alvalade, o maior de Portugal, estava lotado. É óbvio: a imensa maioria era de portugueses.
Ao ouvir as primeiras notas do hino israelense pensei:
- Tomara que tirem logo essa gravação do ar. Mais um pouco dessa música e todos ficarão a favor da seleção de Israel.
Para quem, como eu, nunca o ouviu. E para quem o conhece e o aprecia, aí vai Hatikva:


Portugal não conseguiu vencer. Não sei se graças à beleza do hino ou por causa da inteligência dos jogadores de Israel.

Tanto faz. Ter tido a atenção chamada para o hino, valeu.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Há 200 anos...

...nascia Giuseppe Verdi.



Que esse registo valha por homenagem ao ramo materno de minha família.
As origens italianas ficaram um bocadinho esquecidas pelos descendentes dos Comenale, entre os quais me incluo.
Ocorre que meu avô, Vicente Martins Franco, era - na verdade, um Comenale. Sua mãe, minha bisavó Philomena, foi da Itália ao Brasil com o marido, naquele navio que ficou famoso por transportar também os Matarazzo (1.881).
Pouco depois de chegados ao Brasil, nasce meu avô.
Logo em seguida, morre o meu bisavô. Minha bisavó se casa, então, com o português Manoel Martins Franco.
Este adota os filhos dela e lhes dá o sobrenome Martins Franco.
Segundo me informa minha irmã, um de meus tios avós obteve, mais tarde, o direito de voltar a usar o sobrenome Comenale. Meu avô, contudo, não se interessou por isso. Permaneceu Martins Franco.
Na infância, eu soube vagamente que algumas Comenale que moravam em São Paulo tentaram contacto com minha mãe. Mas nada disso foi adiante.

Mas queiram ou não, nossos antepassados são italianos.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Vindimas

Hoje foi dia de vindimas para minha prima Zelinda.
E foi a primeira vez na vida em que participei de vindimas de modo ativo.

Primeiro almoça-se, que é preciso transmitir energia aos que irão vindimar.
Depois vai-se às vinhas, aparelhados com baldes, tesouras e sacos plásticos.
Cortam-se os cachos, primeiro reunidos nos baldes, depois concentrados nos enormes sacos plásticos.

(clique na foto para ampliá-la)

Transportam-se os sacos ao lagar. Despejam-se nele os cachos de uva que vão ser pisados para que formem a massa que, fermentada, gerará o milagre do vinho.

Das emoções de hoje não esquecerei jamais.

Obs: Na foto, perceba que o castanheiro ao fundo já está carregado de ouriços. Já, já, será a hora da colheita das castanhas.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Extractos da antologia Poemas Portugueses (Jorge Reis-Sá e Rui Lage)

Transcrever Pessoa é quase covardia.
Pois.
Ainda a pensar em minha neta, nascida no Brasil mas da qual esvaiu-se o Português: gostaria que ela pudesse saborear Pessoa. Isso, por exemplo:


(clique nos textos para ampliá-los)

Mas que diabos estou a dizer?
Pessoa tem poemas em Inglês.
E aí vai para minha neta um deles, o Soneto nº 27:




(Este foi copiado da Obra Poética, Poemas Ingleses, pag.597, Companhia José Aguilar Editora, 1974)

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Comemoração

Decididamente, a Bíblia é faca de vários gumes.
Esse provérbio tem sido exaltado ao longo dos séculos.
Merece tanto enaltecimento?

Começo por pensar no filho de um Fernandinho Beira-Mar, por exemplo. Será mesmo bom que ele siga os ensinamentos do pai?
Alguém certamente dirá: Assim não vale! Que exemplo esdrúxulo!
É evidente que o autor desse provérbio não tinha algo assim em mente.
Mas vamos pegar mais leve.
Vários de meus conhecidos foram formados - pelos próprios pais, por professores, por amigos mais velhos - na ortodoxia marxista. Alguns deles não se desviaram desse caminho mesmo na velhice.
E continuam a vomitar stalinismo, ainda que em versão edulcorada.

A questão, a meu ver, é: é salutar que alguém fique fiel toda a vida àquilo que aprendeu na infância?

É evidente que não há resposta unívoca para tal pergunta.

Mas eu apostaria todas as minhas fichas em que está mais perto de ter acertado quem rompeu com os ensinamentos primevos. Romper exige reflexão. Manter o rumo talvez seja também fruto de reflexão, mas ninguém pode garantir.
Na maior parte dos casos não é.
O mundo está repleto de gentes que são católicas porque os pais eram, que são evangélicos porque os pais eram, que são socialistas porque os pais eram, que são budistas porque os pais eram, que são ateus porque os pais eram. A lista é quase inesgotável.

Quanto a mim, produziria provérbio mais ou menos assim:

Ensina o que quiseres à criança. 
Se ela tiver inteligência e personalidade, 
fará seus próprios juízos e tomará seu próprio rumo. 

Essa conversa vem a propósito do que vim a saber hoje:

Tenho uma neta que, do alto de seus treze anos, informou aos pais que é ateia, que não fará crisma e que abandonou a escola religiosa.
Talvez não fosse necessário acrescentar que se trata de estudante modelo.

A segunda geração de minha descendência está a sair-se melhor que a encomenda.

Um brinde a minha neta!

domingo, 6 de outubro de 2013

Pragmatismo

Nas recentes eleições autárquicas em Portugal, o Bloco de Esquerda (BE) teve 2,42% dos votos dos portugueses, conseguiu eleger, em todo o país, apenas oito vereadores e perdeu o comando da única autarquia na qual o autarca era seu militante.
Logo após o pleito, seus dirigentes foram à TV a salientar a estrondosa derrota... do PSD.
O BE é a agremiação política que quer expulsar a troika de Portugal, deixar de pagar a dívida externa etc etc.

Para os brasileiros, nenhuma novidade. O Partido dos Trabalhadores (PT) em sua época de vacas magras pregava essas mesmas bandeiras ridículas. Apenas o Fora a Troika era traduzido para Fora o FMI.
Depois que o PT perdeu o medo de ser feliz e começou a buscar o Poder de verdade, o guru Lula vangloriou-se de seu governo ter pago a totalidade da dívida externa. Era uma frase sem sentido, mas o PT jamais fez questão de dizer coisa com coisa.

No tempo da ditadura, no Brasil, os grupelhos de esquerda compraziam-se em autodenominar-se Esquerda Revolucionária. Era a forma de separar-se do Partido Comunista, tido por reformista.
De facto, a clivagem verdadeira na esquerda sempre foi entre a que detém alguma parcela de poder e aquela que por ainda não desfrutar dessa ambrosia aferra-se a palavras de ordem despropositadas e absurdas para atrair a atenção (e a adesão) dos indignados do mundo.

A esse segundo grupo pertence, no Brasil, Marina Silva. E a ele pertence por excesso de ambição. Afinal, ela era militante do PT e logo que Lula foi eleito Presidente da República ela ocupou um ministério, no qual ficou por cinco anos. Só pediu demissão quando bateu de frente com Dilma e percebeu que não seria a preferida de Lula, para a sucessão do patriarca.
Ou seja, ocupou o Ministério do Meio Ambiente até perceber que o PT não lhe permitiria dominar o ambiente por inteiro.
Dona Osmarina (seu nome de batismo), então, resolveu unir-se aos Verdes. Disputou a presidência com Dilma  e teve votação não desprezível (quase 20% do eleitorado). A partir de então, como quase todo roqueiro, partiu para carreira solo.
Decidiu formar seu próprio partido político. Um não-partido, claro. Dona Osmarina pretende ser original. E fundou a Rede de Sustentabilidade. Como o povo brasileiro é um bocadinho diminuído intelectualmente (como se diz cá em Portugal), passou-se a falar em Rede. Já Sustentabilidade é palavra muito grande. Septissílabos não costumam caber no vocabulário popular.
Claro. Foi barrada pela máquina petista de manutenção do Poder dentro da Ordem Democrática (PODE).
O PODE é um tantinho distraído. Deixa escapar algumas coisinhas, mas - ao percebê-las - trata de consertá-las. Foi assim com o caso Celso Daniel. Foi assim com o julgamento do mensalão (perdão!, Ação Penal nº 470). e parece que continuará assim com o caso Osmarina.
Restou a essa outra Silva (livrai-nos deles, Senhor!) a escolha entre continuar a desenvolver a Rede e ingressar em outra agremiação política (outro partido, jamais!).
Venceu a entrada em outro ninho. E lá se foi Osmarina, desta vez para o PSB (Partido Socialista Brasileiro, seja isso o que Deus queira).
No PSB já existe um indivíduo com pretensões à Presidência da República. Vou perguntar ao meu amigo Zé Carlos, do estacionamento de Osasco no qual costumava deixar meu carro e no qual, vez ou outra, fazia uma fezinha no Bicho, que bicho vai dar.
Talvez ele saiba.
Só me incomoda a alternativa que Osmarina entende ser a que a ela se ofereceu: ou ser programática ou ser pragmática.
Quase todos estão a criticá-la por ter se mostrado pragmática.
Ora. Quanto a mim, não acredito em programa que não seja pragmático.
O dicionário me diz que pragmático é o "que tem motivações relacionadas com a ação ou com a eficiência".
Eu trocaria eficiência por eficácia.
De resto, programa político que não seja pragmático só pode mesmo subsistir em cabeças acadêmicas.

Quanto ao PT, mostrou-se já furioso por ter Osmarina escolhido o PSB como guarida de suas pretensões presidenciais.
Claro, está em jogo a reeleição de Dilma e o consequente bem viver de grande parcela da militância petista.
O Boletim Carta Maior, por exemplo, coloca em editorial:

A BORBOLETA VIROU LAGARTA? 
O tabuleiro mexeu: Campos e Marina estarão juntos em 2014. Nasce a 'quarta via', o  socialismo econeoliberal."Para destruir o chavismo do PT", diz a suave senadora que deixou o PT em 2009, 'para ser coerente com a luta 'pelo desenvolvimento sustentável'. Marina decidiu. E comunicou a seus pares em caráter irrevogável: será a vice de Eduardo Campos, que ganha assim um discurso palatável à classe média, ele que antes só falava à Fiesp e à Febraban. Marina perde a Rede, mas sobretudo, a aura de maria  imaculada e ganha a companhia dos Bornhausen, os afáveis banqueiros de Santa Catarina, que terão o comando do PSB no Estado e voz ativa na esfera nacional. Os Demos também querem 'destruir o chavismo do PT' e tem precedência na fila. É natural que ocupem espaços. Parece não incomoda-la: Marina é obstinada. 


Maravilha. Os assalariados do PT não têm vergonha e criticam Osmarina por aceitar o apoio dos Bornhausen.
O PT, que aceitou o apoio de Maluf, de Collor, de Sarney, de Renan, do diabo e de seus anjos.

Aqui entre nós: falta vergonha na cara dessa turma. Ou melhor, faltava dinheiro para chegarem ao final de cada mês. Agora já o tem garantido.

O triste é que quando parece que o PT já alcançou o mais abjeto dos níveis de luta política, percebe-se que o poço não tem fundo.

E há quem faça esse tipo de luta política graciosamente. Como se diz em Portugal: à borla. Existe idiota pra tudo, nesse mundão.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

A rainha da floresta e seus gnomos



Marina Silva era, até ontem, o novo bote salva-vidas de boa parte dos eleitores brasileiros.
Depois de ter sido agraciada com quase 20 milhões de votos na eleição presidencial de 2.010 (algo próximo de 20% dos votos), Marina decidiu construir um partido que não fosse exatamente um partido. E partiu para a formação da Rede.
Apesar de afirmar-se capaz de levar o Brasil a melhores rumos, Marina não soube gerenciar o processo de formação de sua Rede. E ficou sem partido para disputar as próximas eleições, em 2.014.
Se tivesse conseguido formar a Rede seria uma possível ameaça à liderança de Dilma, a atual presidente. Sua candidatura tornaria provável que a eleição passasse a uma segunda volta.
O Partido dos Trabalhadores (PT), construído pelo talentoso oportunista Lula da Silva e transformado pelo inefável José Dirceu em máquina de poder, já aparelhou a estrutura sindical, com seus riquíssimos fundos de pensão, as estatais, particularmente a Petrobrás e todo e qualquer nicho de governo que renda dinheiro e/ou poder.
Chegou ao poder para dele jamais sair.
Na sequência virá o controle da imprensa (a mídia, no jargão petista), assim como já veio o domínio do pensamento marxista de salão nas universidades, graças a excrescências como Marilena Chauí e que tais.
Ao invés da família Mesquita (jornal Estadão), dos Frias (Folha de SPaulo), dos Civita (Editora Abril) e dos Marinho (Organizações Globo), o Brasil terá informações administradas por Rui Falcão, Tarso Genro e o resto da camarilha petista. O João Bosta, que não gostava de seu nome, passará a chamar-se António Bosta.

Quanto a Marina, que foi petista até quando percebeu que não seria a eleita de Lula, poderá reingressar na floresta - que lhe é tão cara - e conviver com os gnomos que encontrar no oco das árvores.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Aventuras no país das coincidências

Comentei dia desses as coincidências na morte de Celso Daniel. Foram sete testemunhas do crime ou de algum evento a ele associado que morreram em sequência. Detalhes na Wikipédia.

Mas o Brasil é pródigo em coincidências. Leio hoje, no Público, que a empresa Oi (brasileira) e a PT (portuguesa) acabam de anunciar a assinatura de acordo de intenções para uma fusão entre elas.
Até aí nada.
Mas vejam quantas coincidências:
Corre à boca pequena, no Brasil, o boato de que a Oi é do Lula. Claro, é apenas um boato. Do mesmo tipo daquele que afirmava que o Banco Santos era do Sarney.
Mas além de boatos, há alguns factos notáveis.
Um dos casos mais rumorosos do período Lula foi a aplicação na empresa Gamecorp, do Lulinha, de R$ 5 milhões por parte da Telemar... atual Oi, uma concessionária de serviços públicos. A Gamecorp tinha capital de R$ 10 mil. E era propriedade de um filho do Presidente da República. Como se isso não bastasse (e, pelos resultados da investigação, não bastava e não bastou), logo depois de tal aporte de recursos, Lula assinou decreto tornando legal a fusão entre a Telemar e a Brasil Telecom, fusão que deu origem à Oi. Até então a legislação não permitia tal fusão.
A única consequência boa de todo esse imbroglio, para nós contribuintes, foi o dito  "Em países decentes os negócios são feitos de acordo com a lei. No Brasil as leis são feitas de acordo com os negócios".
Mas vamos adiante.
Já vimos que a Oi é controlada pela Telemar Participações S.A.. Mas quem são os principais acionistas da PT (Portugal Telecom) ?


Segundo o quadro acima (extraído do sítio da PT), o principal acionista é o Grupo Espírito Santo, do Banco Espírito Santo (BES).

E nisso nos deparamos com mais uma coincidência.
No final de 2.012, o Blog do Garotinho publicou um post com uma acusação.
Aquela Rose (Rosemary Nóvoa de Noronha), que viajava com Lula sempre que dona Marisa não o fazia, aquela, que era chefe do Gabinete da Presidência da República em São Paulo, aquela que Dilma demitiu quando se descobriu que fazia tráfico de influência graças a sua proximidade com Lula, aquela enfim, esquecida como tantos outros protagonistas de tantos outros escândalos. Rose aparece no post do Blog do Garotinho acusada de levar 25 milhões de euros para a cidade do Porto e de depositá-los em uma agência do BES.
Os petistas logo dirão, como sempre fazem: Esse Garotinho é um crápula. Não merece atenção!
Até concordo com a primeira afirmação. Mas a segunda não decorre da primeira. Estabelecer essa vinculação de implicação lógica entre as duas frases é um velho truque.
Que eu saiba, nada disso foi investigado pelo Ministério Público brasileiro nem por Polícia Federal nem por ninguém com competência para isso.
E se foi, deve ter terminado como o caso do Lulinha mencionado acima. Arquive-se e fim de papo.
E reparem que a denúncia menciona a existência de documentos comprobatórios e não sujeitos a sigilo bancário.
E daí?! Coincidências. Meras coincidências.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Ainda as Eleições autárquicas


O mapa dos resultados, praticamente finais, publicado pelo Público, não deixa dúvida: o Partido Socialista (PS) venceu de maneira categórica.
Penso que esse resultado é o que todos já esperavam. O governo do Partido Social Democrata, em coligação com o Partido Popular, não para de levar surra da opinião pública há muito. Mesmo que as eleições autárquicas não tenham relação estreita com o quadro político nacional, é evidente que a má avaliação do governo Passos Coelho pesou um bocadinho no resultado das eleições municipais.

Outra coisa é dizer quem venceu, em termos de lideranças.
António José Seguro passa a ser um político-sande.
As duas fatias do pão que o abriga chamam-se Sócrates e António Costa.
Herdou do anterior primeiro-ministro a desgraça de se ver obrigado a defender um governo caótico.
Vai passar ao agora mais autarca de Lisboa do que nunca a possibilidade de tornar-se primeiro-ministro.
Para Seguro, essas eleições ofertaram uma vitória de Pirro.