sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Portugal tropeça no hino de Israel

Eu jamais ouvira o Hino Nacional de Israel.
Antes do início da partida de futebol entre Portugal e Israel, a valer pela classificação para a Copa de 2014 no Brasil, o hino tocou, interpretado por orquestra.
Como é praxe, apenas um pequeno trecho do hino.
O estádio de Alvalade, o maior de Portugal, estava lotado. É óbvio: a imensa maioria era de portugueses.
Ao ouvir as primeiras notas do hino israelense pensei:
- Tomara que tirem logo essa gravação do ar. Mais um pouco dessa música e todos ficarão a favor da seleção de Israel.
Para quem, como eu, nunca o ouviu. E para quem o conhece e o aprecia, aí vai Hatikva:


Portugal não conseguiu vencer. Não sei se graças à beleza do hino ou por causa da inteligência dos jogadores de Israel.

Tanto faz. Ter tido a atenção chamada para o hino, valeu.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Há 200 anos...

...nascia Giuseppe Verdi.



Que esse registo valha por homenagem ao ramo materno de minha família.
As origens italianas ficaram um bocadinho esquecidas pelos descendentes dos Comenale, entre os quais me incluo.
Ocorre que meu avô, Vicente Martins Franco, era - na verdade, um Comenale. Sua mãe, minha bisavó Philomena, foi da Itália ao Brasil com o marido, naquele navio que ficou famoso por transportar também os Matarazzo (1.881).
Pouco depois de chegados ao Brasil, nasce meu avô.
Logo em seguida, morre o meu bisavô. Minha bisavó se casa, então, com o português Manoel Martins Franco.
Este adota os filhos dela e lhes dá o sobrenome Martins Franco.
Segundo me informa minha irmã, um de meus tios avós obteve, mais tarde, o direito de voltar a usar o sobrenome Comenale. Meu avô, contudo, não se interessou por isso. Permaneceu Martins Franco.
Na infância, eu soube vagamente que algumas Comenale que moravam em São Paulo tentaram contacto com minha mãe. Mas nada disso foi adiante.

Mas queiram ou não, nossos antepassados são italianos.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Vindimas

Hoje foi dia de vindimas para minha prima Zelinda.
E foi a primeira vez na vida em que participei de vindimas de modo ativo.

Primeiro almoça-se, que é preciso transmitir energia aos que irão vindimar.
Depois vai-se às vinhas, aparelhados com baldes, tesouras e sacos plásticos.
Cortam-se os cachos, primeiro reunidos nos baldes, depois concentrados nos enormes sacos plásticos.

(clique na foto para ampliá-la)

Transportam-se os sacos ao lagar. Despejam-se nele os cachos de uva que vão ser pisados para que formem a massa que, fermentada, gerará o milagre do vinho.

Das emoções de hoje não esquecerei jamais.

Obs: Na foto, perceba que o castanheiro ao fundo já está carregado de ouriços. Já, já, será a hora da colheita das castanhas.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Extractos da antologia Poemas Portugueses (Jorge Reis-Sá e Rui Lage)

Transcrever Pessoa é quase covardia.
Pois.
Ainda a pensar em minha neta, nascida no Brasil mas da qual esvaiu-se o Português: gostaria que ela pudesse saborear Pessoa. Isso, por exemplo:


(clique nos textos para ampliá-los)

Mas que diabos estou a dizer?
Pessoa tem poemas em Inglês.
E aí vai para minha neta um deles, o Soneto nº 27:




(Este foi copiado da Obra Poética, Poemas Ingleses, pag.597, Companhia José Aguilar Editora, 1974)

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Comemoração

Decididamente, a Bíblia é faca de vários gumes.
Esse provérbio tem sido exaltado ao longo dos séculos.
Merece tanto enaltecimento?

Começo por pensar no filho de um Fernandinho Beira-Mar, por exemplo. Será mesmo bom que ele siga os ensinamentos do pai?
Alguém certamente dirá: Assim não vale! Que exemplo esdrúxulo!
É evidente que o autor desse provérbio não tinha algo assim em mente.
Mas vamos pegar mais leve.
Vários de meus conhecidos foram formados - pelos próprios pais, por professores, por amigos mais velhos - na ortodoxia marxista. Alguns deles não se desviaram desse caminho mesmo na velhice.
E continuam a vomitar stalinismo, ainda que em versão edulcorada.

A questão, a meu ver, é: é salutar que alguém fique fiel toda a vida àquilo que aprendeu na infância?

É evidente que não há resposta unívoca para tal pergunta.

Mas eu apostaria todas as minhas fichas em que está mais perto de ter acertado quem rompeu com os ensinamentos primevos. Romper exige reflexão. Manter o rumo talvez seja também fruto de reflexão, mas ninguém pode garantir.
Na maior parte dos casos não é.
O mundo está repleto de gentes que são católicas porque os pais eram, que são evangélicos porque os pais eram, que são socialistas porque os pais eram, que são budistas porque os pais eram, que são ateus porque os pais eram. A lista é quase inesgotável.

Quanto a mim, produziria provérbio mais ou menos assim:

Ensina o que quiseres à criança. 
Se ela tiver inteligência e personalidade, 
fará seus próprios juízos e tomará seu próprio rumo. 

Essa conversa vem a propósito do que vim a saber hoje:

Tenho uma neta que, do alto de seus treze anos, informou aos pais que é ateia, que não fará crisma e que abandonou a escola religiosa.
Talvez não fosse necessário acrescentar que se trata de estudante modelo.

A segunda geração de minha descendência está a sair-se melhor que a encomenda.

Um brinde a minha neta!

domingo, 6 de outubro de 2013

Pragmatismo

Nas recentes eleições autárquicas em Portugal, o Bloco de Esquerda (BE) teve 2,42% dos votos dos portugueses, conseguiu eleger, em todo o país, apenas oito vereadores e perdeu o comando da única autarquia na qual o autarca era seu militante.
Logo após o pleito, seus dirigentes foram à TV a salientar a estrondosa derrota... do PSD.
O BE é a agremiação política que quer expulsar a troika de Portugal, deixar de pagar a dívida externa etc etc.

Para os brasileiros, nenhuma novidade. O Partido dos Trabalhadores (PT) em sua época de vacas magras pregava essas mesmas bandeiras ridículas. Apenas o Fora a Troika era traduzido para Fora o FMI.
Depois que o PT perdeu o medo de ser feliz e começou a buscar o Poder de verdade, o guru Lula vangloriou-se de seu governo ter pago a totalidade da dívida externa. Era uma frase sem sentido, mas o PT jamais fez questão de dizer coisa com coisa.

No tempo da ditadura, no Brasil, os grupelhos de esquerda compraziam-se em autodenominar-se Esquerda Revolucionária. Era a forma de separar-se do Partido Comunista, tido por reformista.
De facto, a clivagem verdadeira na esquerda sempre foi entre a que detém alguma parcela de poder e aquela que por ainda não desfrutar dessa ambrosia aferra-se a palavras de ordem despropositadas e absurdas para atrair a atenção (e a adesão) dos indignados do mundo.

A esse segundo grupo pertence, no Brasil, Marina Silva. E a ele pertence por excesso de ambição. Afinal, ela era militante do PT e logo que Lula foi eleito Presidente da República ela ocupou um ministério, no qual ficou por cinco anos. Só pediu demissão quando bateu de frente com Dilma e percebeu que não seria a preferida de Lula, para a sucessão do patriarca.
Ou seja, ocupou o Ministério do Meio Ambiente até perceber que o PT não lhe permitiria dominar o ambiente por inteiro.
Dona Osmarina (seu nome de batismo), então, resolveu unir-se aos Verdes. Disputou a presidência com Dilma  e teve votação não desprezível (quase 20% do eleitorado). A partir de então, como quase todo roqueiro, partiu para carreira solo.
Decidiu formar seu próprio partido político. Um não-partido, claro. Dona Osmarina pretende ser original. E fundou a Rede de Sustentabilidade. Como o povo brasileiro é um bocadinho diminuído intelectualmente (como se diz cá em Portugal), passou-se a falar em Rede. Já Sustentabilidade é palavra muito grande. Septissílabos não costumam caber no vocabulário popular.
Claro. Foi barrada pela máquina petista de manutenção do Poder dentro da Ordem Democrática (PODE).
O PODE é um tantinho distraído. Deixa escapar algumas coisinhas, mas - ao percebê-las - trata de consertá-las. Foi assim com o caso Celso Daniel. Foi assim com o julgamento do mensalão (perdão!, Ação Penal nº 470). e parece que continuará assim com o caso Osmarina.
Restou a essa outra Silva (livrai-nos deles, Senhor!) a escolha entre continuar a desenvolver a Rede e ingressar em outra agremiação política (outro partido, jamais!).
Venceu a entrada em outro ninho. E lá se foi Osmarina, desta vez para o PSB (Partido Socialista Brasileiro, seja isso o que Deus queira).
No PSB já existe um indivíduo com pretensões à Presidência da República. Vou perguntar ao meu amigo Zé Carlos, do estacionamento de Osasco no qual costumava deixar meu carro e no qual, vez ou outra, fazia uma fezinha no Bicho, que bicho vai dar.
Talvez ele saiba.
Só me incomoda a alternativa que Osmarina entende ser a que a ela se ofereceu: ou ser programática ou ser pragmática.
Quase todos estão a criticá-la por ter se mostrado pragmática.
Ora. Quanto a mim, não acredito em programa que não seja pragmático.
O dicionário me diz que pragmático é o "que tem motivações relacionadas com a ação ou com a eficiência".
Eu trocaria eficiência por eficácia.
De resto, programa político que não seja pragmático só pode mesmo subsistir em cabeças acadêmicas.

Quanto ao PT, mostrou-se já furioso por ter Osmarina escolhido o PSB como guarida de suas pretensões presidenciais.
Claro, está em jogo a reeleição de Dilma e o consequente bem viver de grande parcela da militância petista.
O Boletim Carta Maior, por exemplo, coloca em editorial:

A BORBOLETA VIROU LAGARTA? 
O tabuleiro mexeu: Campos e Marina estarão juntos em 2014. Nasce a 'quarta via', o  socialismo econeoliberal."Para destruir o chavismo do PT", diz a suave senadora que deixou o PT em 2009, 'para ser coerente com a luta 'pelo desenvolvimento sustentável'. Marina decidiu. E comunicou a seus pares em caráter irrevogável: será a vice de Eduardo Campos, que ganha assim um discurso palatável à classe média, ele que antes só falava à Fiesp e à Febraban. Marina perde a Rede, mas sobretudo, a aura de maria  imaculada e ganha a companhia dos Bornhausen, os afáveis banqueiros de Santa Catarina, que terão o comando do PSB no Estado e voz ativa na esfera nacional. Os Demos também querem 'destruir o chavismo do PT' e tem precedência na fila. É natural que ocupem espaços. Parece não incomoda-la: Marina é obstinada. 


Maravilha. Os assalariados do PT não têm vergonha e criticam Osmarina por aceitar o apoio dos Bornhausen.
O PT, que aceitou o apoio de Maluf, de Collor, de Sarney, de Renan, do diabo e de seus anjos.

Aqui entre nós: falta vergonha na cara dessa turma. Ou melhor, faltava dinheiro para chegarem ao final de cada mês. Agora já o tem garantido.

O triste é que quando parece que o PT já alcançou o mais abjeto dos níveis de luta política, percebe-se que o poço não tem fundo.

E há quem faça esse tipo de luta política graciosamente. Como se diz em Portugal: à borla. Existe idiota pra tudo, nesse mundão.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

A rainha da floresta e seus gnomos



Marina Silva era, até ontem, o novo bote salva-vidas de boa parte dos eleitores brasileiros.
Depois de ter sido agraciada com quase 20 milhões de votos na eleição presidencial de 2.010 (algo próximo de 20% dos votos), Marina decidiu construir um partido que não fosse exatamente um partido. E partiu para a formação da Rede.
Apesar de afirmar-se capaz de levar o Brasil a melhores rumos, Marina não soube gerenciar o processo de formação de sua Rede. E ficou sem partido para disputar as próximas eleições, em 2.014.
Se tivesse conseguido formar a Rede seria uma possível ameaça à liderança de Dilma, a atual presidente. Sua candidatura tornaria provável que a eleição passasse a uma segunda volta.
O Partido dos Trabalhadores (PT), construído pelo talentoso oportunista Lula da Silva e transformado pelo inefável José Dirceu em máquina de poder, já aparelhou a estrutura sindical, com seus riquíssimos fundos de pensão, as estatais, particularmente a Petrobrás e todo e qualquer nicho de governo que renda dinheiro e/ou poder.
Chegou ao poder para dele jamais sair.
Na sequência virá o controle da imprensa (a mídia, no jargão petista), assim como já veio o domínio do pensamento marxista de salão nas universidades, graças a excrescências como Marilena Chauí e que tais.
Ao invés da família Mesquita (jornal Estadão), dos Frias (Folha de SPaulo), dos Civita (Editora Abril) e dos Marinho (Organizações Globo), o Brasil terá informações administradas por Rui Falcão, Tarso Genro e o resto da camarilha petista. O João Bosta, que não gostava de seu nome, passará a chamar-se António Bosta.

Quanto a Marina, que foi petista até quando percebeu que não seria a eleita de Lula, poderá reingressar na floresta - que lhe é tão cara - e conviver com os gnomos que encontrar no oco das árvores.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Aventuras no país das coincidências

Comentei dia desses as coincidências na morte de Celso Daniel. Foram sete testemunhas do crime ou de algum evento a ele associado que morreram em sequência. Detalhes na Wikipédia.

Mas o Brasil é pródigo em coincidências. Leio hoje, no Público, que a empresa Oi (brasileira) e a PT (portuguesa) acabam de anunciar a assinatura de acordo de intenções para uma fusão entre elas.
Até aí nada.
Mas vejam quantas coincidências:
Corre à boca pequena, no Brasil, o boato de que a Oi é do Lula. Claro, é apenas um boato. Do mesmo tipo daquele que afirmava que o Banco Santos era do Sarney.
Mas além de boatos, há alguns factos notáveis.
Um dos casos mais rumorosos do período Lula foi a aplicação na empresa Gamecorp, do Lulinha, de R$ 5 milhões por parte da Telemar... atual Oi, uma concessionária de serviços públicos. A Gamecorp tinha capital de R$ 10 mil. E era propriedade de um filho do Presidente da República. Como se isso não bastasse (e, pelos resultados da investigação, não bastava e não bastou), logo depois de tal aporte de recursos, Lula assinou decreto tornando legal a fusão entre a Telemar e a Brasil Telecom, fusão que deu origem à Oi. Até então a legislação não permitia tal fusão.
A única consequência boa de todo esse imbroglio, para nós contribuintes, foi o dito  "Em países decentes os negócios são feitos de acordo com a lei. No Brasil as leis são feitas de acordo com os negócios".
Mas vamos adiante.
Já vimos que a Oi é controlada pela Telemar Participações S.A.. Mas quem são os principais acionistas da PT (Portugal Telecom) ?


Segundo o quadro acima (extraído do sítio da PT), o principal acionista é o Grupo Espírito Santo, do Banco Espírito Santo (BES).

E nisso nos deparamos com mais uma coincidência.
No final de 2.012, o Blog do Garotinho publicou um post com uma acusação.
Aquela Rose (Rosemary Nóvoa de Noronha), que viajava com Lula sempre que dona Marisa não o fazia, aquela, que era chefe do Gabinete da Presidência da República em São Paulo, aquela que Dilma demitiu quando se descobriu que fazia tráfico de influência graças a sua proximidade com Lula, aquela enfim, esquecida como tantos outros protagonistas de tantos outros escândalos. Rose aparece no post do Blog do Garotinho acusada de levar 25 milhões de euros para a cidade do Porto e de depositá-los em uma agência do BES.
Os petistas logo dirão, como sempre fazem: Esse Garotinho é um crápula. Não merece atenção!
Até concordo com a primeira afirmação. Mas a segunda não decorre da primeira. Estabelecer essa vinculação de implicação lógica entre as duas frases é um velho truque.
Que eu saiba, nada disso foi investigado pelo Ministério Público brasileiro nem por Polícia Federal nem por ninguém com competência para isso.
E se foi, deve ter terminado como o caso do Lulinha mencionado acima. Arquive-se e fim de papo.
E reparem que a denúncia menciona a existência de documentos comprobatórios e não sujeitos a sigilo bancário.
E daí?! Coincidências. Meras coincidências.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Ainda as Eleições autárquicas


O mapa dos resultados, praticamente finais, publicado pelo Público, não deixa dúvida: o Partido Socialista (PS) venceu de maneira categórica.
Penso que esse resultado é o que todos já esperavam. O governo do Partido Social Democrata, em coligação com o Partido Popular, não para de levar surra da opinião pública há muito. Mesmo que as eleições autárquicas não tenham relação estreita com o quadro político nacional, é evidente que a má avaliação do governo Passos Coelho pesou um bocadinho no resultado das eleições municipais.

Outra coisa é dizer quem venceu, em termos de lideranças.
António José Seguro passa a ser um político-sande.
As duas fatias do pão que o abriga chamam-se Sócrates e António Costa.
Herdou do anterior primeiro-ministro a desgraça de se ver obrigado a defender um governo caótico.
Vai passar ao agora mais autarca de Lisboa do que nunca a possibilidade de tornar-se primeiro-ministro.
Para Seguro, essas eleições ofertaram uma vitória de Pirro.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O ritmo da Vida

Neste último sábado começou o Outono. Atrasado mas bem-vindo.
Quando vi as primeiras chuvas me dei conta de que já não sabia bem o que era o chover.
O calor se foi.
Vêm agora as vindimas, depois a colheita das castanhas, nestas terras frias de Trás-os-Montes.

E nada como acompanhar tudo isso a comer figos.
Neste pedacinho de paraíso, os figos se dividem em três categorias: os doces, os muito doces e os exageradamente doces. Os melhores, é evidente, são aqueles em que se nota o trabalho do bico de um pássaro.


Ao chegar à casa de minha prima, em Passos, para um almoço em família, já comecei por arrancar do pé alguns figos, à guisa de antepasto. Verdes na cor, maduros no sabor.

Quando vier o frio, sei que o pequeno almoço terá em sua composição figos secos e goles de bagaço.
Mas só em Passos, que é onde tudo isso se torna sublime.

E dessa forma, com os rituais próprios, sucedem-se as estações ao infinito.

Nós acabamos. Elas prosseguem pelos tempos afora.

domingo, 29 de setembro de 2013

Recomendação

Não sou enólogo, aviso já.
Mas esse vinho é muito bom. E por um preço excelente.
Com direito a Medalha de Ouro.


Na Garrafeira Nacional consta com o preço de € 3,30.
No Continente (Modelo), eu o comprei a €3,99.

Esse é o Dona Ermelinda 2010. Da região de Setúbal.

Comprei também o Dona Ermelinda Reserva 2011. É um bocadinho mais caro - €4,99 - mas, apesar de muito bom, não se iguala ao de 2010 elogiado acima.

Em tempo: esta propaganda é absolutamente gratuita. Tem o objetivo de espalhar o prazer aos leitores deste blogue. O pessoal da Casa Dona Ermelinda nem sabe que existo.
- - -
Atualização: esqueci de dizer que se trata de um vinho tinto. As características descritas no rótulo: Elaborado com base na casta Castelão com um toque de Cabernet Sauvignon e Touriga Nacional.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

O tapete voador


Ele era um tapete como outro qualquer, estendido em determinado lugar do chão da sala, entre um sofá e algumas cadeiras. Levava uma vidinha agradável, com algum conforto. Era escovado periodicamente e graças a isso e à calma que reinava naquela casa estava em bom estado.

Apesar disso, não era feliz. Sonhava com outros mundos, viagens de aventuras e contacto com outros seres, diferentes dos habitantes daquela casa.

Como o desprazer aumentasse, um dia saiu a voar janela afora.

Pensava em realizar seus mais acalentados sonhos, viajar, conhecer mundos novos, estabelecer diferentes relacionamentos. Mas, como tapete voador não existe, depressa se deu conta de que ficara reduzido a uma ideia. Deixara de ter materialidade. Puro espírito, de agora em diante. Ou de agora para trás, pois como espírito o tempo para ele deixou de ser linear, não havia mais passado, presente, futuro. Só o puro pensar. E nem o Cogito cartesiano lhe era de alguma serventia. Pensar, pensava. Mas nem por isso existia. É verdade que existia como ideia. Mas isso não lhe interessava. Queria o existir com todos seus atributos.

Mas não adiantava lastimar-se. O mal estava feito. E, por esses acasos difíceis de entender, escolheu-me para transmitir seus pensamentos. Dar vazão a eles.
Quando entrou em contacto comigo, estranhei um bocadinho. Mas a gente se acostuma com tudo. Hoje em dia já recebo suas observações com naturalidade.
Lembro-me bem de sua primeira afirmação. Além da surpresa de um primeiro contacto, intrigou-me que a observação dele contrariasse tão frontalmente as famosas palavras de Gagarin: A Terra é azul.
Aos poucos consegui perceber o porquê: Gagarin referia-se ao aspecto físico, material, da Terra. O tapete voador, por ser puro espírito, só podia perceber o espírito de cada coisa.
E, então, disse-me à guisa de cumprimento inicial:

Isso aí embaixo é uma grande merda!

Mas disse mais, muito mais. aos poucos conto a todos.


quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Eleições autárquicas

Em Portugal, são as eleições mais ou menos equivalentes às eleições municipais no Brasil.

No Brasil, vota-se em um candidato a prefeito do município. Elege-se o prefeito e ele carrega consigo um vice-prefeito. É o que se poderia chamar de pague um e leve dois.
O prefeito ficará encarregado do Poder Executivo.
O Poder Legislativo (no Brasil, ele é exercido, nos municípios, pelas Câmaras municipais) será formado por vereadores eleitos segundo o critério de proporcionalidade entre os vários partidos. Cada eleitor vota em um candidato. Feita a apuração, verifica-se quantos votos teve cada partido (não há a possibilidade de candidaturas independentes). Calcula-se o quociente eleitoral de cada partido (dividindo-se o total de votos dados a candidatos do partido pelo total de votos). Isso determinará quantas vagas cada partido terá na Câmara (nem vamos falar sobre os critérios de arredondamento...). Aí cada partido usa suas vagas ocupando-as com seus candidatos mais votados.

Cá em Portugal, os Distritos (mais ou menos equivalentes aos Estados do Brasil) são divididos em Concelhos. Os Concelhos são as entidades municipais e dividem-se em Freguesias (com alguma semelhança a conjuntos de bairros, no Brasil).
Nas eleições autárquicas, escolhem-se os titulares do Poder Executivo e do Poder Legislativo de cada município (Concelho). Além de, em escala menor, os equivalentes no âmbito das freguesias.

A nomenclatura é diferente e confunde um bocadinho: as Câmaras municipais de Portugal são o equivalente das Prefeituras brasileiras. As Assembleias municipais equivalem às Câmaras municipais do Brasil.

Feito esse tosco resumo, vamos ao que me interessa.
Domingo agora, dia 29, haverá eleições autárquicas em Portugal.
Cá em Bragança, tudo indica que o candidato à presidência da Câmara do PSD será o vencedor. Afinal, ele vem a ser o sucessor do último autarca, que governou durante os últimos 16 anos. E bem. Digo isso de ouvir dizer. Afinal, só cá estou há dois anos.
Meu voto irá para o CDS-PP.
Quem me conhece há mais tempo se perguntará: por que no Brasil sempre anulavas o voto (ao menos nos muitos últimos anos) e agora vais votar em alguém?
Por várias razões. Mas a principal, de longe é:
Aqui vota quem quer. Não sou obrigado a votar. E isso, para mim, é absoluta novidade. E olha que não é fácil a alguém de quase 70 anos deparar-se com uma absoluta novidade.
 Perdoem-me meus conterrâneos brasileiros. Mas enquanto o voto obrigatório persistir no Brasil, os cidadãos brasileiros serão cidadãos de segunda classe.
Quanto a isso, não vi ninguém protestar, nos movimentos de Junho passado. Talvez por já ser tido como normal, no Brasil,  esse aviltamento da cidadania.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Definição ideológica - 2

No Presídio Tiradentes conheci os Betos e os Vannuchis da vida.
A ALN (Aliança Libertadora Nacional) só tinha heróis. Apenas se atrapalhavam um bocadinho quando tentavam explicar como haviam caído todos os militantes em estilo dominó.
Havia a Ala Vermelha, que oscilava entre submeter-se à ALN ou ter voz própria nas discussões do Presídio. Havia os trotskistas, os da 4ª Internacional, que eram a caricatura da Esquerda caricata.

O resto éramos uma porção de desenganados, a tentar pensar como refazer a vida, como encontrar novos rumos para a vida. Tudo isso em meio a discussões que deixariam envergonhados os contendores das disputas sobre o sexo dos anjos.

Hoje percebo que a grande vantagem daqueles anos foi da espécie das vacinas. Hoje olho estupefacto e triste para os que não passaram pela experiência da prisão e os vejo a continuar o debate sobre apodrecidos temas dos anos 20 ou 30 do século passado. Ou até mais antigos.

Em Portugal, ainda se vive a época que o Brasil já ultrapassou: a da Esquerda de dedo em riste, a combater os insanáveis defeitos do capitalismo. E a deixar no ar a ideia de que basta entregar à Esquerda o Poder e tudo se resolverá.

No Brasil, de facto, quase tudo se resolveu. O pessoal da Esquerda tirou a barriga da miséria e passou a apontar o dedo em riste para os adversários mas agora para justificar-se com a afirmação de que o que a Esquerda faz é tão somente  mais do mesmo. E a batalhar para que a mamata não acabe nunca.

Como já se viu o que acontece quando essa turba toma o Poder, quero sim menos Estado, menos controlo, menos sábios a me dizer o que devo ser e fazer.

Sou, então, um neoliberal? Penso que não. Neo certamente não  Não me parece que seja novo em nada.
Talvez liberal. Talvez.

(continua, talvez)

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Definição ideológica - 1

O lugar em que nasci foi meu útero social.
O mundo começou lentamente a expandir-se. Lembro-me de uma redação que tive de fazer no terceiro ano primário, aos nove anos. Era esperado que falasse de minha cidade, de meu mundo. E falei de uma Santos que se resumia às ruas de minha infância. A rua Osvaldo Cruz, onde morava e onde ficava a escola em que estudava. A Campos Melo,quase uma continuação da outra, ao menos na minha vida. As principais avenidas, a Conselheiro Nébias e a Ana Costa. A orla da praia, claro.
Depois surgiu São Paulo, com seus desníveis, suas ruas umas sobre as outras, maravilha para mim, que vinha de terra plana, à beira-mar.
Em São Paulo minha visão ampliou-se. Lá fiz meu curso de engenharia. Ali desisti da engenharia e comecei meu curso de filosofia.
Em São Paulo livrei-me do cristianismo mas caí na armadilha do marxismo.
Resolvi lutar pelo socialismo. Atenção! Vivia-se uma ditadura, mas não lutávamos por democracia. Nosso objetivo final era a ditadura do proletariado.
Claro, fui preso.
Na prisão conheci melhor a esquerda brasileira. Lá fora, na clandestinidade, era difícil conhecê-la em detalhe. No presídio isso se tornou possível.
A desilusão, se é que ainda restara alguma ilusão quando fui preso, foi total.

Descobri então, às custas de dois anos de minha juventude, que a Esquerda é algo tão podre quanto a Direita.
Para mim, o Poder é podre. E a luta por ele - e é disso que se trata - não poderia ser limpa.

Quem gosta de Poder mete-se nisso. Quem gosta de viver, volta-se a outros cenários.

É evidente que, assim, deixa-se o Poder aos cuidados de outros. E outros que vão determinar aspectos importantes de nossa vida. É o preço que se deve pagar para ser livre. O contrário disso, seria envolver-se na luta pelo Poder e perder a Vida.

(continua, talvez)

António Ramos Rosa (1.924 - 2.013)



Poema Dum Funcionário Cansado vai em três blocos para facilitar a leitura. Clique nos textos para ampliá-los. O poema foi copiado de Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI.