sábado, 25 de março de 2006

Era uma vez - XXIX
O Prata


Dia desses, alguém entrou em meu blog por meio de uma pesquisa no Google a respeito de Ricardo Prata Soares. Aliás, não é a primeira vez que isso acontece.
Fui olhar o resultado da pesquisa e encontrei isto.
Não consegui descobrir o que disse o tal Luiz Flávio Assis Moura a respeito do Prata. Só pude ler as reações indignadas de parentes e amigos. (ver Nota no fim deste post)
Resolvi, então, falar sobre ele. Para o bem ou para o mal. Espero que para o bem.
Meu interesse, em toda essa história, é iniciar uma conversa com o leitor a respeito da questão da tortura. E também da origem dessa canalha que dominou o PT. Conversa que nunca vai terminar, é claro. Mas que pode ser iniciada e lançada ao vento.
Quando entrei para a Direção Nacional do POC (Partido Operário Comunista) comecei minha convivência com o Hugo. Era um mineiro alto, magro, moreno. Apesar de todo o cuidado que tínhamos com a segurança, era impossível deixar de perceber que ele era mineiro. O sotaque o denunciava ineludivelmente.
As reuniões da Direção Nacional eram em minha casa, um aparelho (casa destinada a operações clandestinas da esquerda) situado em Moema, São Paulo, Avenida Chibarás.
Toda vez que marcávamos reunião (sempre em finais de semana) eu recolhia um a um os membros da direção em pontos (locais de encontro) previamente combinados. Levava-os para o aparelho dando um sem número de voltas, para despistar o destino. Eles, óbvio, de olhos fechados.
Passávamos o final de semana em reunião. A casa permanecia com as janelas fechadas. Ninguém podia saber em que local estávamos.
Nunca houve problema nenhum em relação à segurança, naquela casa. Só quem a conhecia, além de mim e minha mulher, eram o Nicolau e minha mãe (que não aceitara não saber onde eu morava. E eu, estupidamente, lhe dera o endereço). Os vizinhos só denunciaram à polícia alguma movimentação estranha na casa quando o pessoal do DOI-CODI a ocupou e lá permaneceu por quinze dias à minha espera.
Voltemos ao Prata, ou Hugo.
Enquanto eu passava férias em Ubatuba, discutindo com minha mulher nosso futuro, começaram as prisões de camaradas do POC. Prata e sua mulher, Eleonora (*), foram presos, torturados e sofreram ameaças de torturas na filha pequena (tinha uns quatro ou cinco anos, não me lembro bem). É óbvio que Prata resolveu dar algumas informações a seus algozes. Eu, em seu lugar, faria o mesmo. Neste ponto, há uma zona cinzenta.
Em paralelo, Nicolau fora preso ao voltar da França. Ele sabia onde eu morava (ele me passara a casa, antes de viajar). O que ouvi dizer é que Nicolau, pouco antes de morrer, teria dito onde ficava a casa. E que o Prata teria levado a repressão até lá, pois conhecia o local por ter aberto os olhos em alguma ocasião durante o trajeto (ou por ter aberto uma janela da casa durante sua permanência lá). Sei lá. O facto é que essas informações são meio desencontradas. Se o Nicolau disse onde ficava a casa, pra que diabos a repressão precisava que o Prata os levasse lá?
Nada disso me parece significativo, hoje (aliás, nem naquela época).
Para mim, parece mais importante falar a respeito do que aconteceu depois.
Prata e Eleonora ficaram marcados como traidores, colaboradores e outras besteiras que tais. Até aí, nada de tão terrível. Metade do pessoal preso era mais ou menos considerado dessa maneira pelos heróis da ALN. (Só ficou faltando explicar como tantos heróis caíram (foram presos) em seqüência. Coincidência, talvez.)
E aí começa minha divergência em relação ao Prata. Durante infindáveis banhos de sol conversamos sobre a situação da esquerda. Eu, totalmente desiludido, deixava claro que iria abandonar tudo aquilo. Prata me dizia:
Mas como você vai sobreviver sem a esquerda?
Talvez essa frase explique a atual degringolada do PT e do governo Lulla.
O pessoal passou a depender disso pra sobreviver. No começo, eram empregos arrumados aqui e ali em estatais, universidades, centros de pesquisa. Depois, com a criação do PT e a conquista das primeiras prefeituras, começaram os cargos nos governos. E não parou mais. Até atingir o ápice com a conquista da presidência da República.
Continuo admirando o antigo companheiro Prata. Foi sempre pessoa ponderada, equilibrada, dotada de bom senso.
Só que dependia – ou pensava depender – daquela rede de influências para sobreviver. E puxou o saco do pessoal o mais que pôde.
Adoraria sentar em uma mesa de bar pra papear com o Hugo, hoje. Nem sei se ele bebe. Tomaríamos umas cachaças mineiras, recordaríamos velhos episódios.
Bom caráter ele era. Diferente de Jorge Mattoso, o Renato, atual presidente da Caixa, segurando-se no cargo como carrapato, sobre o qual falarei qualquer hora dessas.
Por hora, vamos ficar só no Bem.
Hugo, se você estiver por aí, vamos conversar?

Nota (02/11/2014): Ao preparar a transcrição deste post para o Facebook fui verificar se o link que incluí com comentários sobre Ricardo Prata ainda estava ativo. Ainda está. Como se pode constatar, trata-se de alguns textos que procuram defender o Prata de críticas feitas a ele no número anterior a esse da revista (ou jornal) Revelação. Mas, ao procurar o artigo de Luiz Flávio Assis Moura na edição anterior à do link verifiquei que ele foi eliminado. O restante do conteúdo da revista está lá (http://www.revelacaoonline.uniube.br/2004/arquivo2004/281.html). Mas o artigo que criticava Ricardo Prata desapareceu (chamava-se Marcas da Ruína).
Parece que uma certa tradição stalinista persiste na esquerda brasileira....

(*) Eleonora Menicucci, atualmente (02/11/2014) - e desde 10/02/2012 - Ministra-Chefe da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres do Brasil (governo Dilma). Ela e Ricardo Prata separaram-se parece que já há muitos anos.

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