domingo, 8 de novembro de 2009

Sonho e memória


Há pesadelos que parecem remeter à morte. Contudo, se é verdade que nenhum indivíduo passou pela experiência final (e isso é verdadeiro por tautológico), pesadelos assim denotam, isso sim, sentimentos e sensações ligados à expectativa da morte.
Se tenho medo de morrer, lido com esse sentimento também por meio de pesadelos.

Digo isso até mesmo por não ser daqueles que acreditam terem os sonhos um possível caráter de premonição. Portanto, a meu ver, se sonhos apontam para eventos futuros (a morte é um deles), só posso entender que os significados vinculados a esses sonhos referem-se a vivências atuais ou passadas minhas, provocadas pela espera – temerosa ou não – do aguardado evento.

O mesmo não deve ser dito a respeito de sonhos cujo conteúdo manifesto se desdobra em interpretações que remetem a eventos pretéritos.

Já há algum tempo que venho tendo pesadelos cujo conteúdo manifesto varia, mas sempre em torno de um mesmo esquema: preciso chegar a algum lugar, ou ir ao encontro de alguém. O caminho percorrido apresenta complicações crescentes que me impedem de chegar ao destino. São escadas que surgem e que me levam a lugar algum, portas que se abrem e me remetem a situações diversionistas etc etc.

Pois esta noite, enveredei por um desses pesadelos em uma versão erótica. Estou em companhia de uma mulher com a qual quero fazer sexo. Estamos em um infindável edifício, dotado de vários blocos, cada um deles pleno de corredores e muitas salas. Vamos em busca de alguma sala vazia onde seja possível consumar o desejo.

Nos moldes de meu recorrente pesadelo da busca infindável, não conseguimos encontrar local propício. Um sentimento aliado a tal conteúdo manifesto é o da angústia da procura frustrada. Outro, o de persistência incansável.

De repente, em um corte próprio do mundo onírico, vejo-me – mais do que me ver, sinto-me – entre as pernas muito alvas da mulher, agito as pernas e percebo estar coberto de intenso suor. Mas não. É mesmo líquido amniótico.

Essa última constatação já fará parte da vigília? É provável. Sei que, ao acordar, a interpretação da cena como nascimento impôs-se de modo irresistível. Respirei fundo, com indizível prazer e esse ar foi o primeiro a freqüentar meus pulmões.

Cantor e a teoria dos conjuntos trouxeram o conceito de infinito atual, em contraste com o familiar infinito potencial. Este último pode ser descrito pela brincadeira infantil de pedir que alguém diga um número qualquer e logo vencê-lo com número maior. O infinito potencial é uma possibilidade, com o perdão do truísmo. O infinito atual não. Ele é. Quando menciono o conjunto dos números naturais, essa infinidade desaba sobre mim com realidade equivalente à de um paralelepípedo. O infinito potencial tende a um sem fim. O atual é sem fim.

Essa digressão vem a propósito de duas considerações:
A primeira diz respeito ao conteúdo latente dos sonhos: ele nos é dado como conjunto de interpretações, conjunto infinito, até onde se pode vislumbrar. Nesse sentido, teórico apenas, trata-se de infinito atual.
Já nossa exploração desse tesouro onírico infinito se dá nos moldes de infinito potencial. As interpretações se sucedem, indefinidamente. Isso não nos permite concluir que todas sejam de igual peso. Há hierarquia nesse universo. Há as que se mostram mais significativas.

A segunda consideração refere-se àquilo que senti ao vivenciar – de modo onírico mas não menos real – o momento de meu parto.
É como se minha vida, até então algo que se desdobrava com o passar do tempo e na qual cada momento era “vencido” pelo momento seguinte, em direção ao infinito (outro nome da morte), é como se minha vida, repito, acabasse por se ter tornado uma infinitude atual, embora só aplicável ao passado.

De qualquer modo, algo se completou. Até então, a lembrança mais remota que me pertencia era uma cena de festa junina, rua Pego Junior, Vila Mathias, Santos, seu Raul e muitos meninos a preparar a soltura de um enorme balão. Naquela época isso não era considerado um ato perigoso (e talvez não o fosse, mesmo). Eu estou sentado no meio fio, pés na sarjeta seca, a observar tudo. Afinal, era o que me permitiam, na insignificância de meus 3 ou 4 anos.

De hoje em diante, tenho lembrança mais remota. O mundo onírico quis me presentear com a vivência de meu nascimento. E essa interpretação se impôs como principal. Mais: única. Tal qual a profunda tomada de ar que dei ao acordar e que me uniu àquele recém-nascido que lutou mais de duas horas para vir à luz.

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