sexta-feira, 10 de maio de 2013

Propaganda e Verdade


Quando era menino, perguntei certo dia a minha mãe se havia manteiga de 2ª qualidade. Na mercearia da esquina eu só via manteiga de 1ª qualidade.
Foi meu primeiro esbarrão na propaganda.
É evidente que propaganda é mentira.
Um dos melhores pleonasmos correntes é o tal propaganda enganosa.
Ora, toda e qualquer propaganda é necessariamente enganosa. Ou seria desnecessária.
Claro: estabeleceram-se certos limites para separar a propaganda normal da enganosa.
Por exemplo, se uma propaganda afirmar que a geleia XPTO cura o cancro, é enganosa.
Mas se afirmar que a geleia XPTO é excelente coadjuvante no tratamento do cancro, é normal.
Mesmo que a tal geleia nada tenha a ver com cancro.

Mesmo quando nada se diz quanto ao produto propagandeado mas cria-se um clima que venha ao encontro dos sonhos do consumidor, a propaganda continua a ser, em certo sentido, enganosa. Ou seria melhor dizer, dissimuladora. O que não nos tira do terreno da mentira.
Quanto a isso, basta lembrar das famosas propagandas de margarina, a mostrar pequenos-almoços idílicos, com todos os membros da família a distribuir sorrisos nos primeiros minutos de um novo dia, em ambientes quase paradisíacos.
Uma propaganda assim seria capaz de convencer muita gente a comer veneno.

A partir de tais reflexões, ponho-me a pensar em como seria um mundo moderno mas desprovido de propaganda.
É facto que tal mundo é quase impensável. Mas vamos fazer um esforço.

Ligo a TV e assisto a informações precisas sobre todo tipo de objecto.
Quanto às margarinas, para ficar no exemplo, fico a saber quantas calorias nos fornecem, quais os benefícios e quais os inconvenientes de seu consumo.
Se falam de móveis, alertam para os vários tipos de mesas e cadeiras para salas de jantar. Suas vantagens e desvantagens. Mostram-me comparações de preços e analisam as relações custo/benefício.
E por aí vamos.
Tudo verdadeiro. Tudo às claras.

E me interrogo:
Não seria esse mundo muito enjoado?
Um bocadinho de mentira, de ilusão, não nos faz falta?
Afinal, não é essa necessidade que dá longa vida também às religiões?

1 comentário:

Suzie Q Motta disse...

Esse mundo seria enjoadísssimo e além do mais ficaríamos sem a possibilidade de nos sentirmos capazes do livre arbítrio... Quer coisa melhor do que dizerem que ovo faz mal e ainda assim optarmos por uma fritada que minha avó fazia divinamente? Não é horrível a impressão de que tudo que é bom faz mal, engorda ou é ilícito? A propaganda tem de ser obrigatóriamente enganosa pq é disso que gostamos; quer pela ilusão de que necessitamos, ou pela prepotencia de acharmos que somos mais espertos do que pensam!