sexta-feira, 25 de maio de 2012

Henrique Setti Neto

Do Brasil me vem a notícia de que Henricão morreu.

Conhecemo-nos no início de 1.968. Dávamos aulas no mesmo cursinho preparatório para vestibulares. Eu de matemática. Henrique de Português.
Mais do que professor, era poeta.
Na falta do pai, cuidou da mãe e dos irmãos até quando foi preciso.

Quando a vida lhe concedeu uma certa tranquilidade, utilizou alguns recursos para editar um livro de poemas seus, Do Zero ao Tempo (1.977). Pedia aos amigos, entre eles eu, que vendessem exemplares do livro. Fiz o que outros devem também ter feito: os exemplares que não conseguia vender, eu os comprava e dizia a ele que os vendera. Truque baixo, mas útil...

Pouco tempo depois começaram os surtos psicóticos. E a vida de Henricão desandou.

Prefiro lembrar dele nos tempos antigos. Certa vez, raspei meu bigode e deixei a barba. Ele chegou em minha casa e assustou-se com meu aspecto.
Argumentei:
- Ora! O Soljenitsin não usa a barba assim?!
E ele:
- Acontece que você não é judeu. Muito menos intelectual!

Ainda não localizei nenhum exemplar de Do Zero ao Tempo em meio à bagunça em que ainda se encontram meus livros. Mas copio de uma página da internet um poema dele:

Serei o que quiser
o que me vier
o que me der
Serei o que eu sou
e o que devo ser
viverei a minha vida
sendo sempre eu
Não saindo de mim
eu serei a vida
eu serei a morte
serei alegria
e dor
Viverei a vida
sendo eu
o tempo todo


Atualização (25 de Julho de 2.013): Um comentário a este post esclareceu:  esse poema não é de Henrique. É de Maria Stella Vidigal Barbosa de Almeida. E ela o escreveu aos 11 anos de idade.
Disse acima que não havia achado o livro de Henrique ao escrever este post. Achei o poema na Internet, atribuído a ele. 
Agora que tenho nas mãos o livro, verifico que Henrique mencionou a correta autoria do poema.  O poema fecha o livro e tem como título: SEMPRE SEREI.
Vai abaixo outro poema, esse sim, de Henrique. É o poema HISTÓRIA, mencionado em outro comentário por Marisa Schmidt.

Eu e você estávamos
lá estávamos
quando infinitas partículas
povoaram o caos

Eu e você
quase sem sentir
inventamos nossas luzes
duas crianças
enfeitiçadas
e rimos
rimos muito

Mas agora
nos perdemos
nesses caminhos de rato
e ficamos chorando o dia todo

8 comentários:

Marisa disse...

Boa tarde, Alberto!



Não conhecia seu blog, mas por casualidade, ao procurar no Google pelo nome de um muito antigo amigo, ele me trouxe até aqui.Casualidade apenas? Talvez...O que sei é que hoje teve fim minha procura pelo velho e querido amigo;você me diz que o Henricão morreu. O moço que conheci em seu baile de calouros da São Francisco e que me apresentou a poesia e me ensinou a gostar dela, fez parte da minha vida por algum tempo, depois sumiu porque eu cresci, porque ele acresceu. Acresceu as responsabilidades, os novos objetivos, as mudanças. Perdi-o de vista, mas não o esqueci jamais. Há uns dois anos encontrei num sebo o seu único livro ,” O zero e o tempo”, numa raquítica brochura amarelada e que me custou dois míseros reais!
Ali me achei (coisas da imaginação, certamente) no poema História e mais curiosa ainda fiquei em saber o que teria sido feito do querido poeta. Por isso, entre um poema e outro que rabisco, várias vezes vou ao Google e digito o nome do Henrique Setti Neto e hoje, neste sábado de carnaval, você me conta que ele não está mais aqui. Fiquei triste com a notícia? Não propriamente, diria antes, ter ficado ciente de algo que intuía porque sendo hoje uma avó e sendo ele um tanto mais velho que eu, seria razoável supor que talvez já estivesse morto. Só me entristeceu saber que aquela mente privilegiada um belo dia surtou...Mas até isso faz um certo sentido, pela lucidez com que ele me explicava as coisas difíceis da vida . Permanecer lúcido, entendendo isso é mesmo tarefa hercúlea!
De qualquer modo, foi através do Henricão que conheci seu blog. A ele voltarei com certeza, como sempre volto ao Vinicius e ao Drummond que ele, generosamente, me apresentou.

Obrigada, grande abraço!

Marisa Schmidt

Alberto disse...

Marisa: que grande alegria você me deu hoje! Nem sei dizer o por quê. Talvez seja por ter encontrado alguém que também sabe que Henrique era uma pessoa especial. É verdade que seus últimos anos foram apagados, embora sem sofrimentos. Mas fica a lembrança dos tempos em que ele era inteiro. Com todas as virtudes e defeitos que conseguia abraçar. Gostaria muito que ele pudesse saber que hoje vivo em um país que foge do gerúndio, algo de que ele evitava o quanto podia.

Marisa disse...

lberto, eis-me de volta. Fiquei curiosa em saber se você deixaria aqui uma resposta. O fez e eu agradeço a gentileza. Por influência do nosso amigo Henrique, fiz-me poeta. Modestíssima, pequena, de rimas paupérrimas, mas assim mesmo poeta e ontem saiu-me uma pequena poesia que ficará como despedida e, para honrar-lhe a memória, sem um gerúndio a lamentar...Boa semana!

Stella Vidigal disse...

Fico feliz em saber que minha poesia marcou a vida de Henrique, mas de fato esta poesia nao e de autoria dele, mas sim minha. Ele publicou em seu livro, na ultima pagina esta pequena poesia, escrita na epoca em que eu tinha apenas 11 anos de idade e publicada aos meus 12 anos e abaixo escreveu o meu nome e acrescentou : " aos seus 12 anos de alegre utopia" E eu fiquei muito brava, primeiro porque eu nao tinha 12 anos quando escrevi a poesia mas sim apenas onze, e depois porque aquilo tudo o que eu dizia nao era e nao seria jamais utopia. Mas de certa forma ele tinha razao, me parece hoje, aos meus 49 anos de nao tao alegre utopia, que nao e tao facil quanto me parecia na epoca, viver assim. O nome da poesia e: Sempre Serei.
Stella Vidigal

isabelsalvagnini@gmail.com disse...

Conheci Henrique Setti na Faculdade de Direito (que ele nunca terminou). Para nós da faculdade nunca foi Henricão, mas Henrique Setti porque havia outros Henriques na turma.
foi desde o início e para sempre meu melhor amigo. Frequentávamos o clube de cinema da Faculdade de Medicina, morávamos em Pinheiros, eu na João Moura e ele na Lisboa. Orientava minha leituras, comentava os jornais (ele lia dois ou três diariamente). Escutava minhas "angústias" de jovem da época e sempre achava um jeito de me dar razão, mesmo que eu estivesse completamente errada. Às vezes trocávamos cartas, que entregávamos pessoalmente um ao outro. Ainda nem imaginávamos a existência de e-mail... Os livros que ele me dava tinham dedicatórias imensas, muito especiais. A amizade continuou a mesma mesmo depois que me casei. Quando precisava de dinheiro, vendia-me seus livros pela metade do preço que o sebo pagava. Estão té hoje na minha biblioteca. Frequentou minha casa por muito tempo, até que um dia desapareceu. Imaginei que estivesse internado em alguma clínica. Hoje, coloquei o nome dele no computador e tive a confirmação do que eu já tinha quase certeza. Não sei se é tristeza o que sinto, é saudade e alguma outra coisa indefinível. Obrigada pelas notícias. Você tem ideia do paradeiro do seu filho André? Parece que também escreve versos.

hilton barroso disse...

Pois é. Nem conheci o Henrique e já estou gostando dele. Os comentários me parecem extremamente sinceros e verdadeiros. Estou aqui porque um dos meus irmãos, tocador de violão e compositor nas horas vagas, como eu, construiu uma das melhores canções que eu conheço - SEMPRE SEREI. Apesar da letra não ser dele, é da Maria Stella Vidigal, foi através de seu livro, comprado em um barzinho, que a obra se fez. Eu gostaria muito de tê-lo conhecido.

Gabi disse...

Boa tarde,
em busca de rastros para documentação dos meus parentes, coloquei o nome do meu avó o henrique filho e achei este texto.
Não sei se verás esse comentário por ser uma publicação antiga.
Sou uma moça jovem, quando nasci meu tio já estava em crises, de quando era pequena lembro apenas ele na casa de repouso no interior, em festas e enterros familiares e quando estava na metade do colégio lembro que voltou para a capital e me incentivava a estudar e a gostar do português e a literatura em si.
Hoje só tenho a agradecer a ele por influenciar nos meus estudos e fico muito feliz que ele teve amigos como você e leitores como pude ver nos comentários.
Obrigada

Pichu Inca disse...

Olá Alberto!
O poema "Sempre Serei", publicado na última página de ” O zero e o tempo”, na verdade é de autoria da Stella Vidigal, como mencionado no próprio livro. Na internet, às vezes, acaba por se perder algumas das autorias originais...