segunda-feira, 2 de abril de 2012

Salpicões e chouriças


Ainda me surpreende a enxurrada de crenças que amigos e conhecidos meus carregam vida afora.
Uns se agarram a salvadores, como aquele de Nazaré, por exemplo. Outros, menos exigentes, se satisfazem com Chico Xavier, Kardec, curandeiros e vigaristas de todo quilate. Pra não falar nos que se entregam à sanha arrecadadora das Universais, Mundiais etc etc.
E há os crentes nas salvações vindas do reino da política. Se já não é mais elegante glorificar Stalin, Lenin, Trotsky etc etc (mas ainda há muitos que o fazem), agarram-se aos que não tiveram tempo e oportunidade de mostrar a que vieram: Rosa Luxemburgo, Karl Liebknecht e outros anjinhos enterrados em caixões brancos.

Minha vinda para o nordeste trasmontano teve o mérito - mais um! - de me afastar desse mundo de crenças as mais variadas. Convivo com elas, agora, apenas por meio da internet.
Ora, dirá alguém. Trás-os-Montes é terra profundamente católica.
Sim e não, digo eu.

Aqui, de facto toda aldeia tem seu santo de estimação, respeitam-se as festas dos santos. Mas atenção! Tudo isso se efectua no mesmo diapasão das matanças, do cuidado com o fumeiro, da feitura das chouriças e dos salpicões e das alheiras, da caça ao javali e da pesca à truta.

É parte da tradição que pontua a passagem do tempo e lhe confere densidade. É parte de uma liturgia do real.

Para o trasmontano, o Além é o logo ali, depois daquele monte.

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