sábado, 16 de janeiro de 2010

Passagens de ano


Aqui em Bragança, Portugal, a passagem de 2.009 para 2.010 foi tranqüila.
Ficámos os dois, a Baixinha e eu – perdão, os três: havia a Doga – a beliscar frutas frescas ou secas e a bebericar. O silêncio era total. Lá fora, claro. Cá dentro, não parávamos de falar.

Nem sempre foi assim. Em dezembro de 2.003 estávamos na aldeia (Passos de Lomba) quando minha prima Dora chegou à casa da irmã Zelinda um tanto agitada:
Prenderam o sadame! Prenderam o sadame!
Eu, às voltas com chouriços e alheiras, pensei que Dora se referia a algum salame.
Não. Tratava-se de Saddam Hussein, que no Brasil tem o nome pronunciado Sadã.

Ano seguinte, mesmo mês de dezembro, foi o tsunami do Oceano Índico.

Enfim, quase todo final de ano acontece alguma desgraça de grandes proporções.

Desta vez a desgraça foi adiada pra janeiro. O Haiti quase desapareceu.

No fim do dia da grande tragédia de Port au Prince, passámos um bom tempo a ver e ouvir as notícias do desastre nos telejornais portugueses e espanhóis.

Quando fomos dormir, o vento que aqui costuma ser da ordem de 6 a 16 km/hora resolveu soprar em torno dos 90 km/hora. A noite – que é sempre absolutamente silenciosa, aqui – foi ruidosa pra ninguém botar defeito. Fiquei a madrugada toda, na cama, lembrando de minhas aulas de Resistência dos Materiais, nos idos de 1.964, e pedindo aos deuses que os calculistas do prédio tivessem sido conservadores nos cálculos da força dos ventos sobre a estrutura.

Ao contrário do que ocorreu em Port au Prince, o edifício – aqui – resistiu.

Não só o vento diminuiu seu ímpeto, nos últimos dias. O frio também. Agora, por exemplo, a temperatura lá fora é de 10º C. E já são quase oito da noite.

A última tragédia foi provocada não pela natureza mas pela Baixinha. Há pouco, deixou desabar uma lata de extrato de tomate no chão da cozinha. Lá fui eu, sem saber se limpava o chão ou acalmava a desesperada esposa.

Melhor assim. Desgraças localizadas e brandas. Que em 2.010, daqui pra frente, seja assim.

O Haiti já produziu desgraça suficiente para o ano inteiro.

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