quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

O mundo


Quando o professor Giannotti, da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo, publicou sua tradução para o português do Tractatus Logico Philosophicus, de Ludwig Wittgenstein, na primavera de 1.968, contribuiu para criar, nas páginas do jornal O Estado de São Paulo, o Estadão, uma candente polémica com Vilem Flusser, na época residente em São Paulo.
Giannotti começa a tradução assim:
O mundo é tudo o que ocorre.
Flusser, por essa frase, acusou Giannotti de distorcer o pensamento de Wittgenstein, impingindo-lhe uma compreensão heraclitiana do mundo. Para Flusser, essa dinâmica sugerida pelo uso do verbo ocorrer é estranha a Wittgenstein.
Flusser sugere, então, outra tradução para a primeira frase do Tractatus:
O mundo é tudo o que é o caso.
Pode ter ficado mais fiel ao filósofo, mas seguramente tornou-se mais incompreensível.

Tão incompreensível quanto esse mundo wittgensteiniano, é o mundo do Novo Testamento.
Primeiro porque não há apenas um mundo, no Novo Testamento. Durante quase toda a vida de Jesus o mundo é algo prestes a sofrer uma enorme transformação: o estabelecimento do Reino de Deus. Reino terrestre, mesmo.
Apesar de haver interpretações diversas, parece que no final da vida Jesus passou a esperar por algo mais transcendente. O que não deixa dúvidas é que o passar do tempo sem que o tal Reino de Deus viesse levou os primeiros cristãos a jogar o Reino para um futuro incerto e sem localização terrena.

A partir de então, o mundo, já sem esperança de ser transformado em Reino de Deus na Terra, passou a ser visto tal como se lê em I João:
Não ameis o mundo, nem o que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele.
Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não é do Pai, mas do mundo.
E o mundo passa, e a sua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre.
(1 João 2:15-17)

Por outro lado, os cristãos se deram a tarefa de evangelizar. Isto significa levar ao mundo a mensagem da salvação em Cristo.
Resta aos cristãos viver essa dialética: fugir do mundo para evitar o contágio da concupiscência, buscar o mundo para salvá-lo da ruína.

Ao que mostram os últimos muitos anos, o mundo está a ganhar essa batalha.
Afinal, é difícil resignar um mundo palpável e sensual para lançar-se a outra realidade etérea e incerta.

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