domingo, 13 de setembro de 2009

Sábado de verão em Passos


Neste sábado acordei tarde e com uma preguiça do tamanho do mundo. Era tal, a preguiça, que, depois do pequeno almoço, passámos na farmácia para medir minha pressão arterial. Eu sempre trago comigo o aparelho para medir pressão. Como nunca o utilizo, não o trouxe, desta vez.
O resultado foi uma pressão um tantinho acima do normal mas nada alarmante.
E lá fomos nós, em direção a Vinhais.
Não quis ir ao restaurante do primo Isaías. O Rossio, na saída para Chaves. Se lá vou, não me deixa pagar.
Fomos ao Vasco da Gama, o melhor restaurante de Vinhais logo depois do Rossio, claro, claro.
A posta de vitela que lá comemos foi a melhor carne que já comi nos últimos tempos.
Lá, além de comermos, conversámos com um casal que tem um filho piloto da TAP e um genro que é o bam bam bam da engenharia: além de ter trabalhado na construção do metro do Porto, participou da construção do metro de Tel Aviv e participa, agora, do projeto do TGV de Lisboa-Madrid. É pouco?

Daí, depois de uma visita rápida ao Isaías, fomos a Passos.

Primeiro, casa de Zelinda (minha prima) e Alípio. Ambos de jeito ríspido e um tanto seco, mas doces como os tomates daqui. Alípio estava às voltas com a perseguição a uma toupeira que lhe arrasa a plantação. De Zelinda, ouvimos as últimas notícias do povo da aldeia.

Encontrámos o Kico, irmão da Fernanda, recém operado do coração. Colocaram-lhe umas peças novas no motor e tem toda a aparência de estar ótimo, do alto de seus 77 anos.

Em casa da Dora, minha outra prima, tomámos mais uma pinguinha (vinho tinto feito por eles), comemos presuntos, peras e pavias (espécie de pêssego. O termo parece derivar do galego).

Dora é pessoa rara. Criada no duro trabalho do campo, é de uma delicadeza que contrasta com suas mãos ásperas. Dela ouvi, há tempos, a afirmação de que gostaria de morrer após algum tempo de doença. Isso porque sabe que a morte súbita é mais doída para os que ficam. E ela prefere sofrer a que eles sofram.

Tenha certeza: ela não disse isso por demagogia. Tal categoria não habita seu mundo.

De lá, depois de a Baixinha insistir com o Arnaldo que só queria CINCO peras, fomos à casa de Maria Tereza.

Comi uvas, enquanto a Baixinha sorvia um chá bem quente.

Maria Tereza (Treza, pela pronúncia portuguesa) é uma típica viúva trasmontana. Veste-se sempre de preto, tem o rosto enrugado. Ao vê-la, assim, de relance, tem-se a impressão de tratar-se de alguém que só aguarda a morte. Apreciada com mais vagar, percebe-se uma pessoa de um amor à vida discreto mas intenso.

De volta à casa de Dora e Arnaldo, lá estava o saco plástico com as peras, a esperar-nos. Contei: eram dez.

Despedimo-nos deles, também de Alípio e Zelinda, que já jantavam e voltámos a Bragança.

Deixei para o final o melhor: estávamos a ver os porcos da Dora. São três. Dois ainda pequeninos, um já grande. Será este o sacrificado em dezembro, quando das matanças.

Sim, as matanças que horrorizam os politicamente corretos.

Chegou um casal que não conhecíamos. Dora apresentou-me à mulher do casal. A Baixinha se aproximava. A mulher perguntou-me, referindo-se à Baixinha:

- É sua filha?

Quer elogio maior?

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