sábado, 28 de novembro de 2015
Cometem-se erros
Tentei ler editorial de hoje no Público.
Parei ao pisar nesta pedra:
"No Parlamento, ontem percebeu-se as dificuldades..."
E o que me doeu nem foi a colocação de vírgulas.
Enquanto morei no Brasil, tropeçava com frequência nesse desprezo pelo valor apassivante do pronome Se.
Com algum espanto, percebo que em Portugal esse pouco caso é também corriqueiro.
Pergunto a meus amigos professores: consta de algum programa do ensino básico essa questão?
quinta-feira, 26 de novembro de 2015
Que máfia é essa?
O Senado brasileiro reuniu-se neste dia 25/11/2015 para decidir se mantinha preso o senador Delcídio do Amaral ou se mandava soltá-lo.
Como a audiência da sessão do Senado devia estar alta na TV, quase todos os senadores quiseram manifestar-se. Ou melhor: quiseram aparecer na transmissão.
A decisão acabou por ser a única possível: Delcídio vai continuar preso.
Mas o protagonismo ficou para a nota do Partido dos Trabalhadores (PT) a respeito de seu senador.
O PT, por meio de seu presidente, apressou-se em desvincular-se de seu membro.
"1- Nenhuma das tratativas atribuídas ao senador têm qualquer relação com sua atividade partidária, seja como parlamentar ou como simples filiado;
2- Por isso mesmo, o PT não se julga obrigado a qualquer gesto de solidariedade;"
Pergunta-se: que se pode esperar de máfia que não socorre seus delinquentes?
A tendência inevitável é o desaparecimento.
quarta-feira, 11 de novembro de 2015
Cartilha do Partido dos Trabalhadores (PT)
O PT lançou hoje um texto para orientar seus militantes na defesa do Partido.
De maneira um tanto surpreendente, o documento pretende também guiar seus leitores na defesa da Verdade e da Democracia.
Fiquei curioso para saber como é possível fazer a defesa de tudo isso ao mesmo tempo.
Se Verdade e Democracia nem sempre coincidem, conciliá-las com o PT já é tarefa para super-heróis.
Já na apresentação do trabalho, o Presidente Nacional da sigla me fez sentir um odor a ditadura militar.
Explico: os que já se consideravam gente nos tempos da ditadura militar brasileira hão de lembrar que era muito difícil encontrar manifestação de militar que não utilizasse o adjetivo "solerte".
Pelo que se vê, o PT pretende ressuscitar o termo. Aliás, diga-se, adjetivo de ambiguidade preciosa.
Os dicionários lhe reconhecem dois significados: dotado de sabedoria, iniciativa, por um lado. Mas que usa meios desonestos para conseguir algo, por outro.
Perfeito para quem defendia a mentira sob ditadura.
Perfeito para quem tenta defender-se da verdade em democracia.
De maneira um tanto surpreendente, o documento pretende também guiar seus leitores na defesa da Verdade e da Democracia.
Fiquei curioso para saber como é possível fazer a defesa de tudo isso ao mesmo tempo.
Se Verdade e Democracia nem sempre coincidem, conciliá-las com o PT já é tarefa para super-heróis.
Já na apresentação do trabalho, o Presidente Nacional da sigla me fez sentir um odor a ditadura militar.
Explico: os que já se consideravam gente nos tempos da ditadura militar brasileira hão de lembrar que era muito difícil encontrar manifestação de militar que não utilizasse o adjetivo "solerte".
Pelo que se vê, o PT pretende ressuscitar o termo. Aliás, diga-se, adjetivo de ambiguidade preciosa.
Os dicionários lhe reconhecem dois significados: dotado de sabedoria, iniciativa, por um lado. Mas que usa meios desonestos para conseguir algo, por outro.
Perfeito para quem defendia a mentira sob ditadura.
Perfeito para quem tenta defender-se da verdade em democracia.
terça-feira, 10 de novembro de 2015
Dói no orgulho
Sempre que utilizo o Google lembro de meu maior fracasso.
Trabalhava em uma grande e conceituada empresa de projetos de engenharia, no Brasil.
Formei uma equipe de excelentes analistas/programadores para desenvolver um programa de pesquisa de dados para a empresa. Éramos uns cinco profissionais.
Gastamos algo da ordem de dois anos para chegar a um produto final.
Em um fim de tarde, colocamos nele uma palavra para pesquisar no banco de dados da empresa e fomos descansar.
O sistema demorou a noite toda pra chegar a um resultado.
Ficou claro que nosso trabalho havia sido em vão.
Sim. O computador que usávamos, na época, não comportava um sistema desse porte.
Era o início dos anos 80.
Mas lembro sempre disso quando recordo os versos de Pessoa (Álvaro de Campos):
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
(...)
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Hoje digito lá uma coisa qualquer e o Google me devolve logo centenas ou milhares de endereços.
Isso me dói em algum lugar de meu orgulho.
Trabalhava em uma grande e conceituada empresa de projetos de engenharia, no Brasil.
Formei uma equipe de excelentes analistas/programadores para desenvolver um programa de pesquisa de dados para a empresa. Éramos uns cinco profissionais.
Gastamos algo da ordem de dois anos para chegar a um produto final.
Em um fim de tarde, colocamos nele uma palavra para pesquisar no banco de dados da empresa e fomos descansar.
O sistema demorou a noite toda pra chegar a um resultado.
Ficou claro que nosso trabalho havia sido em vão.
Sim. O computador que usávamos, na época, não comportava um sistema desse porte.
Era o início dos anos 80.
Mas lembro sempre disso quando recordo os versos de Pessoa (Álvaro de Campos):
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
(...)
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Hoje digito lá uma coisa qualquer e o Google me devolve logo centenas ou milhares de endereços.
Isso me dói em algum lugar de meu orgulho.
segunda-feira, 9 de novembro de 2015
Governo esvaziado.
A Esquerda sempre lutou para transformar greves de reivindicações pontuais de uma ou várias categorias em greves políticas.
Agora, quando caminhoneiros (camionistas, em Portugal) brasileiros fazem paralisação de âmbito nacional e deixam claro que querem a derrubada de Dilma Rousseff, vem a público o ministro Edinho Silva a afirmar que greve deve tão somente buscar o atendimento de reivindicações da categoria.
Esse governo está com todos os pneus vazios.
Esse governo está com todos os pneus vazios.
domingo, 8 de novembro de 2015
Minha implicância com "implicar"
Depois de quase cinco anos de residência em Portugal, torna-se mais evidente para mim o quanto os jornalistas brasileiros (os de agora e os de pijama) torturam a língua portuguesa.
Claro. Nem todos. Mas a maioria deles.
Se o meu caro leitor-jornalista (se é que os há. Quase sempre eles só escrevem) costuma dizer que alguma coisa implica em..., saiba que implico com.
sábado, 7 de novembro de 2015
Apenas Outono
No inevitável Outono, as folhas caem,
a obedecer à lei da gravidade e
ao ritmo das Estações.
Não se perguntam por que caem.
Não constroem explicações.
Apenas realizam o Outono.
a obedecer à lei da gravidade e
ao ritmo das Estações.
Não se perguntam por que caem.
Não constroem explicações.
Apenas realizam o Outono.
sexta-feira, 6 de novembro de 2015
Conversa de esquecer
O Bloco de Esquerda (BE) fechou acordo com o Partido Socialista (PS)..
Falta agora a António Costa um acordo com o Partido Comunista (PCP).
Meu stalinista de estimação, o Jerónimo de Souza, anda um bocadinho escondido.
Deve andar a escutar os conselhos de Vinícius de Moraes, em Canto de Ossanha:
Que eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer
Falta agora a António Costa um acordo com o Partido Comunista (PCP).
Meu stalinista de estimação, o Jerónimo de Souza, anda um bocadinho escondido.
Deve andar a escutar os conselhos de Vinícius de Moraes, em Canto de Ossanha:
Que eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer
quarta-feira, 4 de novembro de 2015
Pé de pato, mangalô três vezes
Para comemorar meus setenta anos, redondinhos, comprei ingressos para o show de António Zambujo nas vésperas de meu aniversário. Coliseu do Porto, Fevereiro de 2015.
No dia anterior ao show recebo a notícia de que minha aposentadoria havia sido considerada ilegal pelo Tribunal de Contas da União (TCU), órgão do Legislativo brasileiro que eu imaginava ter algo mais importante com que se preocupar.
Lá se foi o show do Zambujo.
Só depois de me certificar de que a bobagem seria corrigida, corri a assistir ao Zambujo em Coimbra.
Eis que agora, com minha aposentadoria já legalizada (o TCU corrigiu a situação em Agosto), fico a saber que haverá novo show de Zambujo no mesmo Coliseu do Porto, no dia seguinte a meu aniversário, em 2016.
Como não sou supersticioso, comprei já os ingressos.
Como é mesmo? Pé de pato, mangalô três vezes.
No dia anterior ao show recebo a notícia de que minha aposentadoria havia sido considerada ilegal pelo Tribunal de Contas da União (TCU), órgão do Legislativo brasileiro que eu imaginava ter algo mais importante com que se preocupar.
Lá se foi o show do Zambujo.
Só depois de me certificar de que a bobagem seria corrigida, corri a assistir ao Zambujo em Coimbra.
Eis que agora, com minha aposentadoria já legalizada (o TCU corrigiu a situação em Agosto), fico a saber que haverá novo show de Zambujo no mesmo Coliseu do Porto, no dia seguinte a meu aniversário, em 2016.
Como não sou supersticioso, comprei já os ingressos.
Como é mesmo? Pé de pato, mangalô três vezes.
terça-feira, 3 de novembro de 2015
Do Brasil caipira
O Brasil é um país tão caipira, tão dedicado a seu mundinho circundante, que para se assinar jornal ou revista brasileira estando fora do Brasil percorre-se uma via crucis.
O indivíduo informa que vive em Portugal, para citar meu caso, mas continua a ter de fornecer CPF, Estado da Federação em que reside (a selecionar em elenco dos Estados brasileiros) e código postal com o número de dígitos vigente no Brasil. Além de número de telefone com DDD brasileiro.
Até hoje não consegui fazer uma assinatura da revista Veja.
Assinatura do Estadão foi um parto complicado.
Renovação da Piauí fui impedido de fazer porque estão a reformular o atendimento ao exterior.
E depois reclamam que o mundo pensa que a capital do Brasil é Buenos Aires.
Ou Rio de Janeiro.
O indivíduo informa que vive em Portugal, para citar meu caso, mas continua a ter de fornecer CPF, Estado da Federação em que reside (a selecionar em elenco dos Estados brasileiros) e código postal com o número de dígitos vigente no Brasil. Além de número de telefone com DDD brasileiro.
Até hoje não consegui fazer uma assinatura da revista Veja.
Assinatura do Estadão foi um parto complicado.
Renovação da Piauí fui impedido de fazer porque estão a reformular o atendimento ao exterior.
E depois reclamam que o mundo pensa que a capital do Brasil é Buenos Aires.
Ou Rio de Janeiro.
segunda-feira, 2 de novembro de 2015
Dos mortos
Os vivos tornam vivos os mortos.
Nessa lida erigem religiões e crenças.
Matam e morrem por elas,
para se fazerem vivos.
Nessa lida erigem religiões e crenças.
Matam e morrem por elas,
para se fazerem vivos.
domingo, 1 de novembro de 2015
Coligação delirante
Ao redor de um cozido à portuguesa na aldeia de Passos de Lomba conversamos. Eu, português de arribação, dois agricultores, um doutor que vive mergulhado em seu Instituto Politécnico e um homem da GNR.
Não sei o valor estatístico disso, mas concordamos todos a respeito da estupidez da delirante coligação à esquerda arquitetada por António Costa.
quinta-feira, 29 de outubro de 2015
Nova trindade para Portugal
A entrevista a Jerónimo de Souza (Partido Comunista) na SIC/SIC Notícias leva à conclusão de que Portugal passará a ser governado por uma nova trindade.
O PS entra com seus Dez Mandamentos, o PCP limita-se a um "Passa de mim este cálice" e o Bloco de Esquerda, ungido em novo Espírito Santo, incita os portugueses a falar línguas estranhas.
segunda-feira, 26 de outubro de 2015
Humor socrático
O jornal das oito da SIC, hoje (26/10/2015), resumiu as estranhezas relativas ao caso José Sócrates, o ex-Primeiro-Ministro português.
A mim, basta uma.
Era uma vez um grande amigo do ex-PM - Carlos Santos Silva.
Tão grande que lhe fornecia vultosas somas em dinheiro para que as torrasse como bem lhe aprouvesse.
Tendo tão chegado amigo adquirido obras de arte de elevado valor, descobriu-se que várias dessas obras foram parar nas paredes da residência do ex-PM.
Mais: algumas foram achadas na casa de empregada de Sócrates.
Questionado a respeito, este teria afirmado:
- Não me dei conta disso.
Era uma vez um grande amigo do ex-PM - Carlos Santos Silva.
Tão grande que lhe fornecia vultosas somas em dinheiro para que as torrasse como bem lhe aprouvesse.
Tendo tão chegado amigo adquirido obras de arte de elevado valor, descobriu-se que várias dessas obras foram parar nas paredes da residência do ex-PM.
Mais: algumas foram achadas na casa de empregada de Sócrates.
Questionado a respeito, este teria afirmado:
- Não me dei conta disso.
terça-feira, 6 de outubro de 2015
Novilíngua
Ao final das
legislativas portuguesas de 2015 escrevi no Facebook que os
comunistas estavam a afirmar que a coligação Portugal à Frente
(PàF = PSD/CDS) perdera as eleições quando – de facto –
ganharam.
Diziam isso ao comparar
os resultados da coligação PàF agora com os resultados da mesma
coligação nas legislativas de 2011. E é verdade que, em relação
a 2011, essa coligação teve menos votos, elegeu menos deputados e
perdeu a maioria absoluta.
Qualquer raciocínio
vale quando se quer adoçar o dissabor de uma derrota.
O defeito dessa
comparação é o de relevar os quatro anos que medeiam os dois
eventos eleitorais.
Em 2011 Portugal
afundara em profunda crise e o governo era socialista. Sem discutir
se o Partido Socialista tenha sido em algum grau responsável por tal
crise, é natural esperar-se que o eleitorado corresse em grande
parte para os braços da centro-direita.
O governo da coligação
PSD/CDS foi um período de aplicação de medidas de austeridade,
medidas altamente impopulares, mesmo que as consideremos necessárias.
Isso, é claro, elevou a cotação do PS na bolsa eleitoral.
Tanto que, ao vencerem
as eleições europeias de 2014, os socialistas consideraram tal
vitória insuficiente (quase 32% contra menos de 28% da coligação),
uma “vitoriazinha”. E defenestraram seu secretário-geral António
José Seguro. Colocaram em seu lugar o autarca de Lisboa, António
Costa, fadado a mostrar ao mundo o que é uma vitória de bom
tamanho.
Desde que começaram as
campanhas eleitorais para esta últimas legislativas, o PS quase só
experimentou descidas. Já a coligação PàF ainda perdeu intenções
de voto durante algum tempo, mas nos últimos meses começou a
crescer e suplantou os socialistas.
A observação do
gráfico das sondagens nos mostra duas grandes disputas: PS versus
coligação PàF, na parte alta do gráfico; CDU (comunistas e
verdes) versus Bloco de Esquerda na parte de baixo.
No final, a coligação
PàF venceu o PS e o Bloco derrotou a CDU.
É pura ironia que
muitos sugiram a formação de um governo de coalizão PS/CDU.
Seria unir o roto ao
esfarrapado.
De resto, considerar a
vitória da coligação PàF como derrota, em face dos resultados de
2.011, é comparar laranjas com parafusos.
segunda-feira, 5 de outubro de 2015
O português estatístico
A coligação Portugal à Frente (PSD/CDS) ganhou as eleições com algo como 39% dos votos. O Partido Socialista (PS) ficou em segundo com qualquer coisa como 32%.
Não houve, portanto, maioria absoluta.
Os analistas, na TV, afirmam que os portugueses quiseram dizer, com isso, que querem uma continuidade governamental, mas com "humildade". Ou seja, com atenção às exigências do PS.
Não consigo imaginar um português que tenha ido votar com essa ideia na cabeça. Pra mim, quem foi votar no PS queria que o PS vencesse, de preferência com maioria absoluta. Idem para o eleitor da coligação.
O eleitor que votou na coligação mas a exigir "humildade" é um mero português estatístico.
Os analistas, na TV, afirmam que os portugueses quiseram dizer, com isso, que querem uma continuidade governamental, mas com "humildade". Ou seja, com atenção às exigências do PS.
Não consigo imaginar um português que tenha ido votar com essa ideia na cabeça. Pra mim, quem foi votar no PS queria que o PS vencesse, de preferência com maioria absoluta. Idem para o eleitor da coligação.
O eleitor que votou na coligação mas a exigir "humildade" é um mero português estatístico.
segunda-feira, 28 de setembro de 2015
A corrupção estética
A presidente Dilma, do
país chamado Brasil, foi estes dias a NY para discursar na ONU.
Há pouco já lá
esteve e ficou em uma suíte carézima de um hotel idem.
Voltou agora, com o
dólar a beirar os cinco reais, e decidiu ficar na mesma suíte, do
mesmo hotel.
Isso não é imoral.
Isso é feio. É
kitsch. É cafona.
Tenho amigos que defendem Dilma e seu governo com unhas e dentes.
São pessoas de gostos
refinados. Um adora e cria cavalos. Outro tem como passatempo dançar
tango. Um terceiro cultiva a literatura inglesa. Etc.
Enfim, seres
sofisticados.
Peço a eles que nos
ajudem: digam a Dilma o quanto é cafona escolher o mais caro
aposento do mais caro hotel para hospedar-se nele. Mormente quando
quem paga é o Tesouro.
Imaginemos uma situação
hipotética. Fico a saber, certo dia, que pessoa de minhas relações
gostaria de rever familiares que moram em NY. Mas não dispõe de
recursos para viajar até lá e lá ficar alguns dias. Eu, dispondo
de recursos acima de minhas necessidades, ofereço a essa pessoa a
viagem. E, confiando no discernimento dela, digo que faça suas
escolhas e que vá visitar os parentes por minha conta.
Essa pessoa informa-se,
então, em busca do hotel mais caro em NY. E reserva para si o
aposento mais caro desse mais caro hotel.
Que juízo faria você,
meu eventual leitor, do caráter de tal pessoa?
Você a taxaria de
imoral? Não. Afinal, ela foi autorizada a escolher as acomodações
que bem entendesse.
Seria difícil,
contudo, não nutrir – em relação a tal pessoa – um certo
desprezo.
A meu ver, um desprezo
estético.
quarta-feira, 23 de setembro de 2015
Notícias de uma viagem ao Brasil
No Rio de Janeiro, na
Barra, durante almoço com parentes cariocas, converso com o único
tio que me resta.
Tio que, diga-se logo,
jamais sucumbiu à separação entre realidade e fantasia. Passeia
por ambas sem perceber fronteiras, com a experiência que oitenta e
sete anos de vida lhe outorgaram.
Disse-me, à guisa de
introdução, que já nada o assombra, coisa alguma o abala.
Só enxerga o
sem-sentido à sua volta.
Para ilustrar o que
afirmava, contou-me o que presenciou há pouco :
Morreu-lhe um
conhecido. Foi ao velório prestar a última homenagem ao amigo.
Estava sentado na sala
em que se velava o corpo, quando chega um rapaz e aproxima-se do
caixão. Começa a chorar, abraça-se ao falecido e clama que era seu
desejo ser com ele enterrado, dele não queria separar-se.
O exagero da cena era
tal que meu tio deixou a sala para não se emocionar demasiado.
Esperou que o enterro
se realizasse e foi ao estacionamento buscar seu carro para voltar a
casa.
Estava a abrir a porta
do veículo quando viu o rapaz da cena do velório junto a um
automóvel vizinho. Eis que o dramático rapaz, já recomposto, acena
para outro indivíduo a pouca distância e com o polegar a fazer
sinal de positivo:
- Não se esqueça!
Amanhã, às oito, na academia, ok?
sexta-feira, 4 de setembro de 2015
Um voo fatídico
O comandante boceja, abre os braços em um longo espreguiçar-se.
O céu é de brigadeiro, com as commodities lá no alto.
Liga o piloto automático e, furtivamente, sorve uns goles do whisky que traz em uma garrafinha discretamente guardada no bolso do paletó.
A seu lado, a co-piloto prepara sofregamente apresentações gerenciais em powerpoint, não sem um certo ar estranho. Uma comissária de bordo, a Erenice, traz-lhe, de tempos em tempos, café quentinho.
Como tudo está mesmo muito tranquilo, o comandante resolve dar um pulinho ao Instituto Lula para fazer lobby.
Deixa o comando a cargo da co-piloto.
A tripulação comenta que a co-piloto parece ter obtido, de maneira um tanto oblíqua, em uma universidade de Campinas, sua habilitação para voar. Verdade ou não, ela é mesmo um bocadinho esquisita. A ponto de exigir - por ser mulher – que os comissários de bordo a tratem por ca-pilôta.
Ao se ver sozinha na cabine de comando, altera os controles e põe a aeronave em descida quase vertical.
O comandante volta e encontra a cabine trancada por dentro. Esmurra a porta. Nada.
Já desesperado, até porque os passageiros ameaçam inflá-lo, grita, grita, mas a co-piloto finge não ouvi-lo.
Alguns comissários de bordo e muitos passageiros sugerem que se use uma picareta para permitir que se entre na cabine de comando, mas o comandante alega que isso pode danificar a porta da cabine.
O avião continua seu trajeto rumo ao solo.
O céu é de brigadeiro, com as commodities lá no alto.
Liga o piloto automático e, furtivamente, sorve uns goles do whisky que traz em uma garrafinha discretamente guardada no bolso do paletó.
A seu lado, a co-piloto prepara sofregamente apresentações gerenciais em powerpoint, não sem um certo ar estranho. Uma comissária de bordo, a Erenice, traz-lhe, de tempos em tempos, café quentinho.
Como tudo está mesmo muito tranquilo, o comandante resolve dar um pulinho ao Instituto Lula para fazer lobby.
Deixa o comando a cargo da co-piloto.
A tripulação comenta que a co-piloto parece ter obtido, de maneira um tanto oblíqua, em uma universidade de Campinas, sua habilitação para voar. Verdade ou não, ela é mesmo um bocadinho esquisita. A ponto de exigir - por ser mulher – que os comissários de bordo a tratem por ca-pilôta.
Ao se ver sozinha na cabine de comando, altera os controles e põe a aeronave em descida quase vertical.
O comandante volta e encontra a cabine trancada por dentro. Esmurra a porta. Nada.
Já desesperado, até porque os passageiros ameaçam inflá-lo, grita, grita, mas a co-piloto finge não ouvi-lo.
Alguns comissários de bordo e muitos passageiros sugerem que se use uma picareta para permitir que se entre na cabine de comando, mas o comandante alega que isso pode danificar a porta da cabine.
O avião continua seu trajeto rumo ao solo.
Acordei suado e
ofegante.
sábado, 29 de agosto de 2015
Portugal e os que fogem para a Europa
Há momentos em que
dois problemas podem combinar-se para uma solução.
A Europa está às
voltas com a invasão de grandes contingentes de asiáticos e
africanos.
Portugal, por seu
turno, está às voltas com o fenômeno da desertificação do
interior.
Para falar mais
amplamente, com a drástica redução de sua população.
Por que não ligar os
pontos e desenhar uma solução?
Por que não aceitar a
entrada de largos grupos de sobreviventes de barbáries e dar-lhes a
oportunidade de ocupar aldeias e trabalhar na agricultura?
Seria possível
utilizar a experiência de agricultores portugueses reformados para
ensinar aos recém chegados as técnicas agrícolas e pastoris.
Há problemas difíceis
em um programa desses? Há.
Mas os políticos
teriam, com isso, a oportunidade de não se ocuparem unicamente com
os processos eleitorais, com a micropolítica.
Poderiam equacionar e
resolver os problemas que surgiriam de tal projeto.
Onde estarão os
líderes de um processo assim audacioso?
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