segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Mesmo


Façamos justiça: não foi o Facebook que inventou a estupidez.
Ele apenas propiciou a exposição democrática da mesma.

Aliás, a Mesma deve ser a mulher do Mesmo, aquele que sempre nos ameaça quando estamos diante da porta de um elevador, no Brasil:
“Antes de entrar no elevador, verifique se o Mesmo se encontra nesse andar.”
Medo!
No meu tempo de criança havia o Bicho Papão. Agora há o Mesmo.

E por falar nisso. As pessoinhas, no Facebook, gostam de ficar em zona de conforto. Todas aconchegadinhas naquilo que as dispensa de pensar. Gostam do Mesmo.

Um cristão não se pergunta por que guarda o domingo.
Domingo, Sunday. Dia do Sol.
As principais características do Jesus construído pela Santa Igreja – e reverenciado até hoje por todos os cristãos – foram copiadas dos deuses pagãos.
O nascimento no dia 25 de Dezembro, por exemplo.

Há os socialistas que nasceram socialistas e planejam morrer como tais. O Muro caiu, a humanidade acordou do pesadelo soviético, mas na crença deles ninguém mexe. Sempre o Mesmo. E brincam de tentar redefinir seu sonho.

Para gozar da companhia do Mesmo é preciso fechar os olhos e entrar no elevador. Esteja ele naquele piso ou não. Para tanto, acredita-se em qualquer coisa. Levam-se a sério artigos do Diário Pernambucano, do Piauí Herald e do Sensacionalista. Tudo dá no Mesmo.
Chico Buarque é pai de Eduardo Campos. Deu no Diário Pernambucano.
Levam-se a sério os textos que vieram a compor aquilo que atende pelo nome de Bíblia.
“(...) e verão o Filho do homem, vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória. (…) Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que todas estas coisas aconteçam.”
Aconteceu? Não. Mas dá no Mesmo.

Os Espiritistas são outro capítulo curioso. Há pouco, tive a ideia de colocá-los não em confronto com minhas ideias, mas comparar as ideias deles (ou seja, as ideias de Kardec) com as ideias da Antroposofia de Steiner. Afinal, ambos acreditam na existência de um “mundo dos espíritos”. Acontece que são mundos muito distintos entre si. Das duas uma: ou um deles está errado ou os dois. Gastei meu latim à toa. Os espiritistas, se leram o que escrevi, não quiseram dizer nada. Afinal, esse Steiner é um bocadinho complicado. Kardec é mais fácil.

Já tive momentos de tristeza graças a essa inércia dominante. Hoje me divirto com isso.

Mesmo.

domingo, 7 de dezembro de 2014

Condenação


O eurodeputado Silva Pereira visitou o ex-Primeiro-ministro José Sócrates na cadeia.

O eurodeputado foi ministro da Presidência durante os governos de José Sócrates.
Diz "acreditar em sua inocência".
Ora, alguém que conviveu tão intimamente com um Primeiro-Ministro ou é parvo integral ou sabe se o PM é ou não é inocente.
Penso ser a primeira vez em minha já longa existência em que "acreditar na inocência" funciona como acusação.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Paradoxos


No Brasil as empresas podem fazer doações para os partidos políticos.
Vai daí, o Partido dos Trabalhadores (PT), ao cobrar das empreiteiras uma “comissão” para lhes conceder contratos com as empresas estatais, resolveu receber a tal comissão por meio de doações (legais) ao PT.
Essa de receber suborno por meio de doações legais, convenhamos, é muito bem bolada. O PT está a sofisticar-se.
Ironias: o Collor acabou com o cheque ao portador; o PT quer acabar com as doações legais de empresas.

Quem sabe, o PT queira acabar com as doações legais de empresas assim como o menino a quem o padre dissera que a masturbação era pecado passava pimenta nas mãos.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Formas antigas de amor


Thomas Cahill, em seu excelente The Gifts of the Jews (1.998, tradução portuguesa de 1.999 – A Herança Judaica, editora Contexto), trabalha a tese de nossa total imersão na cultura criada por “uma tribo de nómadas do deserto”.

Para poder criar o fundo sobre o qual construirá sua forma, começa por uma reconstrução da mentalidade primeva, da civilização suméria. E para tanto, faz-nos retroceder pouco mais de cinco milênios, com a criação da escrita e o consequente início da História.

Não é o caso, aqui, de nem mesmo resumir as características da civilização suméria, plantada junto aos rios Tigre e Eufrates, na Mesopotâmia. Fico na Epopeia do herói Gilgamesh. Dele o que se sabe são os fragmentos contidos em pequenas tábuas de argila.
Por exemplo:
Filho de Lugalbanda, Gilgamesh, perfeito em força,
Filho da soberba vaca, a vaca selvagem Ninsun.
Ele é Gilgamesh, perfeito em esplendor,
Que rasgou passagens nas montanhas,
Que era capaz de abrir fossos até nos flancos dos montes,
Que atravessou o oceano,
os vastos mares, até onde o Sol nasce.”

Os deuses criam alguém para enfrentá-lo:
Aruru – a mãe universal - “pega  'num pedaço de barro, lança-o para o campo aberto', onde ele se transforma em 'Enkidu, o guerreiro, filho do silêncio e raio de Ninurta' ”.

Enkidu é o “homem natural”, mais próximo dos animais do que dos humanos. E será por seu envolvimento com a meretriz Shamhat que ele fará a inversão:
As gazelas viram Enkidu e fugiram,
O gado do campo aberto afastava-se do seu corpo.
Porque Enkidu tornara-se suave, o seu corpo estava demasiado limpo.
As suas pernas, que costumavam acompanhar o passo do gado, estavam imóveis.
Enkidu estava diminuído, já não podia correr como antes.
No entanto adquirira discernimento, tornara-se mais sensato.”

Afinal, a luta entre Gilgamesh e Enkidu:
Bateram-se na rua, na praça pública.
Os umbrais das portas tremiam, as paredes vacilavam.”

Um deus interrompe a luta. Gilgamesh faz um discurso que o estado das tabuinhas de argila não permite compreender. Em seguida:
Enkidu, de pé, ouviu-o falar,
Pensou, e então sentou-se, começou a chorar.
Os seus olhos toldaram-se de lágrimas.
Os seus braços penderam, a sua força […]
Então agarraram-se um ao outro,
Abraçaram-se e deram-se as mãos.”.

Gilgamesh e Enkidu, “agora grandes amigos, mais estreitamente unidos do que marido e mulher, tendo jurado defenderem-se um ao outro até à morte (...)”:
"Segura a minha mão, meu amigo, e vamos!
O teu coração em breve arderá por combater; esquece a morte e pensa apenas na vida.”

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Cony e a propagação de bobagens


O imortal Carlos Heitor Cony, escritor brasileiro que foi seminarista na juventude, gosta de alardear que nada sabe.
Aqui não se desmente ninguém. Ele deve ter toda razão.
Mesmo em relação a assuntos dos quais deveria entender qualquer coisinha, consegue difundir asneiras.
Em seu artigo de ontem na Folha de SPaulo, fala do Evangelho de João como tendo sido escrito pelo apóstolo de mesmo nome. E revela certo espanto por “um humilde pescador” iniciar “seu depoimento com um intróito filosófico que até hoje não foi completamente entendido”.



Já não é de agora que se sabe que nenhum dos evangelhos canônicos é de autoria de pessoas que tenham tido contato direto com Jesus. Como lembra Bart D. Ehrman em seu “Jesus, interrupted” (tradução Ediouro “Quem Jesus foi? Quem Jesus não foi?”) “Os autores dos Evangelhos eram cristãos altamente educados, falantes de língua grega, que provavelmente viviam fora da Palestina”.
Já em relação aos discípulos contemporâneos de Jesus:
“(...) eram camponeses de classe baixa da Galileia rural. A maioria deles – certamente Simão Pedro, André, Tiago e João – era diarista (pescadores e assemelhados); Mateus seria coletor de impostos, mas não é clara sua posição na organização desse trabalho: se era uma espécie de empreiteiro que trabalhava diretamente com as autoridades governamentais para garantir o faturamento dos impostos ou, mais provavelmente, o tipo de pessoa que esmurrava sua porta para obrigá-lo a pagar. Nesse último caso, nada indica que ele pudesse ter precisado de muita educação.
O mesmo certamente pode ser dito dos outros. Temos algumas informações sobre o que era ser um camponês de classe baixa nas regiões rurais da Palestina no século I. Significava, para começar, que você quase certamente era analfabeto. O próprio Jesus era altamente excepcional, no sentido de que é claro que sabia ler (Lucas 4:16-20), mas nada indica que soubesse escrever. Na Antiguidade, essas eram habilidades distintas, e muitas pessoas que sabiam ler eram incapazes de escrever.”.


É isso, Cony. Não há contradição nenhuma em João apóstolo ser um “humilde pescador” e João evangelista ser um refinado escritor. Eles eram pessoas distintas.

O SporTv e eu


Em um retrospecto dos jogos do campeonato português de futebol deste fim de semana, o narrador de um jogo (salvo engano, Paços de Ferreira e Estoril) perpetrou:
Foi um jogo com muitas ocasiões.
Mais não disse nem lhe foi perguntado.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

O Bloco de Esquerda e a Cartografia de Borges


Um célebre conto de Borges refere-se a um país em que a cartografia era muito cultivada.
Os cartógrafos dessa nação esmeravam-se em elaborar mapas cada vez mais detalhados.
O ápice foi atingido quando conseguiram produzir um mapa de todo o território pátrio em escala 1x1.
Até hoje, relata Borges, quem viaja pelo tal país encontra aqui e ali pedaços do tal mapa, sobrepondo-se à paisagem.

O Bloco de Esquerda (BE), em Portugal, tinha uma liderança marcante na figura de Francisco Louçã.
Há pouco tempo, preferiu entronizar um comando bicéfalo. Assumiram o leme da embarcação João Semedo e Catarina Martins.
Agora, o BE ampliou sua direção para cinco elementos. Catarina passa a ser apenas a porta-voz do grupo dirigente.
O próximo passo, presumo, será o de transformar em Direção do BE todo o conjunto de militantes.

Ter-se-á alcançado a democracia radical. Em escala 1x1.

domingo, 30 de novembro de 2014

Historinhas do Porto

Aconteceu em um domingo festivo.
Representantes de bairros da cidade e de cidades vizinhas, como Matosinhos, disputariam uma competição de natação no Douro.
Para incentivar seu representante, a mulherada da zona peixeira de Matosinhos foi toda para o Cais da Ribeira.
Quando lá vinha ele a nadar rio acima, todas elas trataram de levantar seus vestidos para entusiasmá-lo e lhe emprestar vigor.
Mas o nadador ia cada vez mais lento e chegou em último lugar.
Seus adeptos correram a perguntar-lhe o que ocorrera.
Ele explicou:
- Como as mulheres levantavam as saias, o meu "coiso" atolou no lodo do fundo do rio e me vi em dificuldades para nadar mais rápido.
- Mas então por que não nadaste de costas.
E ele:
- Mas e a ponte?!

sábado, 29 de novembro de 2014

Quase Borges


Hoje recebemos dois casais amigos para uma feijoada brasileira.
Até com caipirinha.
Só não entendi ainda por que aqui na Europa só chega cachaça ruim. Fiz o que me foi possível com a cachaça disponível. Uma Seleta ou uma Boazinha seriam muito bem-vindas.

Como um dos amigos é médico, algumas histórias sobre assuntos médicos foram inevitáveis.
Para mim, a melhor foi a que garante que jamais será possível o transplante de cabeça.

Simples: se o indivíduo implanta em seu corpo uma nova cabeça, o que de facto ocorre é que a cabeça é que recebeu um novo corpo.


sexta-feira, 28 de novembro de 2014

As voltas que a Dilma dá


Os analistas pró governo – oh função perigosa! - dão tratos à cachola para explicar a escolha da nova equipe econômica de Dilma 2.
Será isso? Será aquilo? Será aquiloutro?

Dilma faz quase o mesmo que Lula fez no início de seus oito anos de governo.

Agarra-se à salvadora corda da ortodoxia, como é mesmo?, “neoliberal”, ao ver que estava a afundar o país no pântano da irresponsabilidade das esquerdas.

Novembro 28

O dia 28 de Novembro de 1.975 talvez tenha sido o dia mais importante de minha vida. Digo “talvez” porque houve um dia, cuja data não sei precisar, lá pelos meus sete anos de idade, em que comprei cromos para um álbum de jogadores e me saiu uma “figurinha substitutiva”. Era um cromo vinculado a uma determinada página do álbum e que podia ser utilizado para substituir qualquer cromo faltante na página. Troquei-o por quarenta figurinhas que até então não tinha e levei uma descompostura de minha irmã. Garantiu-me ela que eu era um péssimo negociador de cromos. Até hoje não vislumbrei critérios que me permitam saber se ela estava certa. Quanto a mim, certo ou errado, fiquei feliz.
Também naquele ano da graça de 75, ao sair lá pelo meio-dia da Maternidade São Paulo para ir até minha casa buscar roupas para a recém promovida a mãe que me aguardava em um dos quartos daquele enorme edifício que servia de entrada do Mundo para um bando de novos seres humanos, liguei o rádio do carro na rádio Jovem Pan, que mandava ao ar seu noticiário da hora de almoço, e ouvi a voz cheia e redonda do locutor a dizer:
28 de Novembro de 1.975.
E essa data, assim sonora, grudou em algum lugar de meu cérebro para nunca mais dali sair.

Nascia uma menina avessa à técnica da tentativa e erro. Que nunca falou tatibitáti. Que só andou quando já sabia fazer curva. Que faz tudo que planeou para a própria vida, dentro dos prazos que se concedeu.

Vivemos, já há um bom tempo, separados por grande distância.

Para mim, ela está sempre pertinho. Defino as minhas próprias topologias.

E hoje dou-lhe um beijo. Um entre os muitos que ela receberá da família e d@s amig@s.
Mas o meu é especial. Afinal, quando o dr. Roberto quis me mostrar a placenta eu preferi fixar minha atenção nela.
A placenta que se dane.


quarta-feira, 26 de novembro de 2014

A Justiça e seus paradoxos


O Real Madrid acaba de vencer o Basileia por 1 golo.
O comentarista do Sportv cá de Portugal, cujo nome imperdoavelmente me escapa, disse que o resultado era justo para o Real mas injusto para o Basileia.

Esse rapaz já poderia ser promovido a teólogo.


terça-feira, 25 de novembro de 2014

De cicuta ainda não se cogita

Sócrates vai ficar em prisão preventiva por ao menos três meses. Espero que António Costa lhe envie uns bolinhos de bacalhau. A solidariedade - em Portugal - reside primordialmente no paladar.


segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Perna, para que te quero?

O motorista João Perna pode quebrar as duas do ex-primeiro-ministro.



Para que serve o PS?

Será que entendi bem?!
Para o novo secretário.geral do Partido Socialista (PS) a incursão do ex-primeiro-ministro Sócrates no noticiário policial não é algo que caiba ao PS apreciar?!
Trata-se tão somente de um caso de Photoshop?



quarta-feira, 19 de novembro de 2014

O Petrolão e Berlusconi

O Partido dos Trabalhadores (PT) brasileiro funciona um bocadinho como os telemóveis. Seu sinal é espalhado por meio de torres repetidoras, espalhadas por todo lado.

Agora que o Petrolão - roubo de bilhões perpetrado contra a estatal Petrobrás pelo próprio PT e alguns de seus aliados - ameaça tisnar a festa da vitória nas eleições de Outubro, foi enviado às torres repetidoras um sinal:

Comparem a situação italiana que fez resultar da operação Mãos Limpas, na década de 90, a ascensão de Berlusconi com o movimento de indignação diante do Petrolão. A lógica elementar levará a malta a entender que combater a roubalheira na Petrobrás poderá significar a vitória do fascismo. E estaremos safos.   

E saíram as torres a fazer o que seu mestre manda.
Faltou combinar com os investigadores. Aliás, já devidamente enxovalhados.


segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Daqui não saio, daqui ninguém me tira

Em Portugal o “até agora ministro da Administração Interna sai do Executivo afirmando que nada tem a ver com os vistos gold, mas reconhece que o caso diminuiu a sua autoridade política.” (Público online)
É certo que Miguel Macedo, o ministro demissionário, fez apenas o que tinha de ser feito. Afinal, mesmo que ele nada tenha a ver com as irregularidades ligadas à atribuição de vistos gold, a questão é vinculada ao ministério que ele chefiava.

No Brasil, um escândalo de dimensões apocalípticas a envolver a maior empresa brasileira, a Petrobrás, nem sequer fez passar pelas cabeças da presidente da empresa, do ministro das Minas e Energia e da própria presidente da República – que presidia o Conselho da empresa quando a bandalheira já corria solta por lá – a ideia de no mínimo uma licença temporária dos dois primeiros.


A presidente da empresa, a senhora Graça Foster, veio a público a informar que vai aumentar os controles internos. Melhor que isso só se ela prometesse eliminá-los por completo. Teria piada.

Tuta-e-meia

No Brasil, o ano de 2013 foi monopolizado pelo julgamento do chamado Mensalão.
A respeito dele, falaram em 50 milhões de reais. Também em 150 milhões de reais. Alguma quantia dessa ordem seria o total envolvido na falcatrua.

Já agora, no decorrer de uma investigação a respeito de bandalheira alcunhada de Petrolão, um subordinado do diretor da Petrobrás Renato Duque, um tal de Pedro Barusco, propõe-se a devolver - só ele - a bagatela de 252 milhões de reais.


O Mensalão passou a valer tuta-e-meia, como se diz cá em Portugal.

Sim ou sopas


O pior legado do PT ao debate político no Brasil talvez seja a imposição de um tudo ou nada em qualquer discussão.

O país saiu dos eufemismos tucanos, que deram origem ao verbo “tucanar”, para entrar na pueril batalha de sim ou não. Ou, como se diz cá em Portugal, sim ou sopas.

domingo, 16 de novembro de 2014

Pra falar a verdade

Durante muitos anos trabalhei em empresas privadas, no Brasil. Empresas sérias.
Antes de passar ao serviço público, como Auditor-Fiscal da Receita Federal, fui diretor de uma empresa que começou séria e acabou em um emaranhado de contravenções. Como diria Dilma, a presidenta, malfeitos.
Antes de cair fora, pude presenciar o diabo. Aquilo que a presidenta Dilma diz que se deve fazer em lutas eleitorais.
Corria o ano da graça de 1.988. Governo Sarney.
Alguns garotões envelhecidos dizem que para conhecer a política é preciso ler Platão e visitar o Congresso. Trancados em seus gabinetes, elucubram o futuro socialista da pátria amada. Eu usava e abusava das salas do Secretário da Receita Federal e do assessor especial do ministro das Comunicações, na época o ACM (Antônio Carlos Magalhães).
Vivi o intestino da República.
Nunca visitei o Congresso. Os congressistas e mesmo alguns ministros vinham a nossas suítes no Hotel Nacional.
Alguma coisa aprendi.
Sei, por exemplo, que é impossível que Lula e Dilma não saibam do que ocorria na Petrobrás.
Aliás, "saber" funciona aqui como eufemismo, quase mentira deslavada.

Adaptação abrupta ou gradual?


Os chefões da Camargo Corrêa se entregaram em São Paulo e foram levados a Curitiba em carros da Polícia Federal.
Já o manda-chuva da Mendes Júnior preferiu ir em seu jatinho particular entregar-se na capital paranaense.
Qual a melhor decisão?
Partamos do princípio de que todos estão acostumados a viver no luxo e no conforto. Princípio de fácil constatação empírica.
Os da Camargo Corrêa escolheram uma adaptação gradual à prisão. O da Mendes Jr preferiu passar direto do jatinho para a cela.
Qual a decisão mais sábia?

sábado, 15 de novembro de 2014

Zambujo e um Manual de Estética


Em meu tempo de criança, minha irmã mais velha gostava de mexer constantemente nos móveis da casa. Era guarda-roupa pra cá, cama pra lá, cristaleira de um jeito, depois de outro. Tudo mudava segundo o humor dela.
Meu pai, que trabalhava em casa, vivia a implicar com as alterações que ela promovia.
E as discussões eram inevitáveis.
- Isso assim não fica bem!
- O senhor não entende nada disso!
- E você! Acaso já leu algum Manual de Estética?
E por aí avançava a discussão.

À noite, costumávamos ficar ao lado de minha irmã ao piano. Eu de um lado, minha irmã mais nova do outro. Meus pais sentavam-se no sofá da sala para ouvir. A garotada da vizinhança vinha às vezes aboletar-se no murinho do jardim de casa para ouvir. Cantávamos de tudo um pouco.
Uma das músicas de que eu gostava era Risque. E a cantava a plenos pulmões. Pulmões fortes, aos nove anos de idade.



Um dia, meu pai – sem mencionar nenhum Manual de Estética – disse-me:
- Ouvi no rádio um cantor italiano a cantar uma versão de Risque em voz baixa, suavemente. Lindo!
Era uma sugestão. Que eu jamais acatei.


Descobri agora, tardiamente, que meu pai sugeria que eu ouvisse António Zambujo, anacronicamente.

Mais estrepolias de Chico Buarque


Não quis colocar aqui essa história antes das eleições brasileiras porque iriam pensar que eu estava a criticar Chico por ele ser cabo eleitoral da Dilma. É verdade que o clima continua o mesmo em terras tupiniquins. Mas como agora Inês já é morta, vamos aos factos.

Antes de mais, deixo claro que distingo autor e obra. É que gosto muito das canções compostas por Chico. Quanto ao próprio, comentei uma vez, em um texto, o facto de ele ter furtado carros quando jovem, junto com amigos que queriam divertir-se. Fui admoestado por atentos defensores de tudo que diz respeito à Esquerda. “Cuidado com a reputação das pessoas!”, diziam. Como se tais estrepolias não fossem de domínio público.

Li recentemente o livro Solo, de memórias de Cesar Camargo Mariano. Dele consta um episódio protagonizado por Chico. Raras são as críticas que Cesar Mariano faz a alguém em seu livro. E este episódio não se inclui entre elas. Ao contrário, ele o conta por considerá-lo um facto engraçado.

É verdade que até velório tem piada. Mas reproduzo aqui o relato de Cesar Mariano para salientar uma faceta do caráter de Chico Buarque.

Avaliações, é claro, são do leitor.

“Roberto [Colossi, empresário de Simonal e do SOM 3] tinha ido à Itália para administrar a produção de alguns shows do Chico com o Toquinho. Ele sabia que nós estaríamos viajando naquele período, mas jamais imaginamos nos encontrar em Roma, do jeito que foi, na rua.
Depois de rirmos muito com aquela coincidência, Chico nos convenceu, Simonal e eu, de que tínhamos de mudar para o hotel onde eles estavam.
- Por quê, Chico?
- É que tenho alguns planos.
Mudamos para o hotel onde os quatro estavam hospedados e começamos a execução do plano, depois de um longo ensaio, naquela mesma madrugada.
Passava da meia-noite, e Chico achou que estava na hora de começar. Cada um foi para o seu quarto. Colossi, Marieta e eu nos posicionamos, cada um à frente de seu próprio quarto, com a porta aberta. Nossa tarefa era de apoio. Tínhamos de vigiar.
O hotel inteiro, a essa altura, dormia. Silêncio total.
Pé ante pé, saíram de seus quartos Chico, Toquinho e Simonal, nus, somente com uma toalha amarrada na cintura, e começaram a recolher os pares de sapatos deixados do lado de fora de cada quarto, para serem engraxados. Trocaram os sapatos do nosso andar inteiro, inclusive os nossos. O par que fosse do quarto 23, por exemplo, ia para o 32, do andar de cima; o do 32 ia para o 16, no andar abaixo do nosso. Além disso, eles separavam os pares: o direito subia, e o esquerdo ficava ou descia. Os avisos de “não perturbe” eram trocados por “despertar às 3h...”, e os pedidos de café da manhã eram preenchidos com os cardápios mais loucos.
(…)
Tudo tinha de ser muito rápido, porque, às 4h da manhã, começava um verdadeiro pandemônio naquele hotel. Todos gritando, brigando... E nós também, no meio deles. A cena era indescritível.
Porém, no terceiro dia de ação, ouvimos a campainha do elevador, que era exatamente em frente ao quarto do Colossi e do meu, bem na hora em que os três estavam executando a tarefa no nosso próprio andar. Nus. Era um garçom do hotel. Não houve a menor chance de avisá-los. Foi muito rápido.
Foi muito rápida também a nossa saída do hotel, naquela mesma manhã, a convite da gerência e da polícia.
Dias depois daquela missão naquele hotel chiquérrimo de Roma (…) retornamos ao Brasil. “

(Solo - memórias, Cesar Camargo Mariano, pág. 182 a 184)

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Breve contribuição ao esforço de alfabetização


Foi no tempo em que eu vivia meu 12º ou 13º ano de vida.
Dona Yolanda, professora de Canto Orfeônico no Colégio Canadá, escolheu-me para representar o colégio em um concurso na rádio Cacique de Santos a respeito dos hinos pátrios.
O programa foi realizado no auditório da rádio e transmitido ao vivo.
Na plateia os adeptos de cada escola faziam sua algazarra.
As perguntas não respondidas desclassificavam o concorrente.
Ao final, sobramos uma garota de não me lembro qual colégio e eu.
Os organizadores do concurso resolveram, então, que duas perguntas extras seriam feitas para provocar o desempate.
A menina conseguiu responder a dela.
Era minha vez. Pediram, então, que eu dissesse os primeiros versos do Hino Nacional Brasileiro em ordem direta. Não consegui responder no tempo concedido e perdi o concurso.
O pessoal do Canadá protestou. A alegação era a de que aquela não era uma pergunta referente aos hinos pátrios mas uma pergunta “de Português”.
Restaria explicar para que serve saber a letra de todos os hinos pátrios se não se tem claro o significado delas.

Para redimir-me parcialmente da falha de umas tantas décadas passadas, aí vai o início do Ouvirundum em ordem direta. Quem sabe ajudo com isso muita gente a finalmente entender o que ele diz.

As margens plácidas do Ipiranga
ouviram o brado retumbante
do povo heróico.

O Infinito


As religiões metem-se nesse assunto sem perceber o sarilho que as espreita.

Vejam a biblioteca infinita citada por Borges. Nela os livros são compostos ao acaso. As letras de todos os alfabetos são neles lançadas sem nenhum critério. O número de páginas de cada livro é também obra do Acaso. Isso parece prenunciar uma balbúrdia. Mas ela é infinita.

Nela estão infinitos livros sem sentido algum.
Mas em suas prateleiras estão, igualmente, todas as obras primas da literatura mundial. Traduzidas para todas as línguas.
Lá estão todos os manuscritos dos textos bíblicos, inclusivamente os originais, desconhecidos para nós.
Todos os livros já escritos e todos que ainda a capacidade humana produzirá.

Deixem, portanto, de falar em deuses. Ou, ao menos, de lhes atribuir caracteres absolutos, infinitos, e – ao mesmo tempo – querer decifrar suas vontades e decisões.

Quem somos nós para entender o infinito?

Entre dois pontos de uma reta há uma infinidade de outros pontos. Por mais próximos que eles estejam, um do outro, sempre haverá uma infinidade de outros pontos entre eles.
Se preferir, pense em números. Entre dois números reais sempre haverá uma infinidade de outros números reais.

Quando eu era menino, olhava o rótulo da lata de Toddy. Nesse rótulo havia um garoto que segurava uma lata de Toddy. E nessa lata de Toddy que ele segurava havia um garoto que segurava uma lata de Toddy na qual havia um garoto que segurava uma lata de Toddy na qual...


Tenham cuidado, crianças. O infinito é algo a ser tratado apenas pela Matemática e pelas Artes.

sábado, 8 de novembro de 2014

Palavras curiosas

Há palavras com histórias tristes. Histórias como as de pessoas que tinham tudo para dar certo na vida e, contudo, deslizaram para um pântano sem saída.

Puntual, por exemplo.
No início da década de 60 do século passado, quando comecei a estudar Mecânica, aprendi que “puntual” era algo relativo a ponto. A velocidade, por exemplo, era uma grandeza puntual. Quando o indivíduo está a conduzir em uma estrada, a cada ponto ele está a uma determinada velocidade. Ao final do percurso ele pode determinar a velocidade média com a qual percorreu seu caminho. Essa já não é algo puntual. É relativa a todo o trecho percorrido.
Os modernos dicionários de Português sumiram com o termo “puntual”. Tenho um antigo Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, de 1.972. O mais próximo de “puntual” que ele regista é “puntiforme” ou “punctiforme” - aquilo que tem forma ou aparência de ponto.
Achei na Internet, felizmente, o termo “puntual” no Wikcionário (figura).



Hoje em dia diz-se, por exemplo, que a velocidade é grandeza pontual.
Ora, pontual é quem chega na hora. A qualquer velocidade.


Outra palavra que sofreu com as intempéries da vida foi “caráter”.
Essa palavrinha é mesmo curiosa. No singular ela tem mesmo uma conotação moral. Já no plural não. Se digo "O caráter deste indivíduo é..." isso já nos leva para o lado da moral. Mas se digo "Os caracteres deste indivíduo são...", aí não. Por isso é que quando, nas décadas de 60 e 70, os manuais de computadores (em inglês) referiam-se a letras, números e símbolos especiais, no singular como "character", no plural como "characters", o pessoal da área de informática conseguia traduzir o plural para "caracteres" mas achava errado traduzir o singular para "caráter". Passaram, então, a falar e a escrever bisonhamente "caractere". Pouco depois o Aurélio consagrou a bobagem...

Déjà pensé


Toda quinta-feira chegam a nossa casa as revistas Sábado e Visão.
Esta semana só esvaziamos a caixa de correio na sexta, ontem.
À noite comecei a ler a Sábado, que sempre começo a ler a partir do fim, onde fica a página de Alberto Gonçalves. Quanto à Visão, nem a toquei.

Não sei se a ideia surgiu ontem mesmo, à noite.
O de que tenho certeza é que acordei hoje a organizar na cabeça um pequeno conto.
Já ao pequeno almoço ele estava esquematizado. Começo, meio, fim.
Faltava formalizá-lo. Sentar ao computador e escrevê-lo.

Levei para a casa de banho a revista Visão. Pus-me a ler o conto de Lobo Antunes: Amadeu.
Não demorei a dar-me conta: era exatamente o conto que eu imaginara.

Teve a sorte de ser escrito por ele e não por mim.


quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Linguagem e Eleições

Os marqueteiros do PT são eficazes. Demonstraram isso nesta eleição. Por exemplo, exploraram bem o deslize de Aécio ao chamar Dilma de "leviana", que em algumas regiões do Nordeste, ao que parece, significa "prostituta". Um candidato à Presidência da República, no Brasil, precisa inteirar-se até dos regionalismos linguísticos para não cair em esparrelas desse tipo.
Por outro lado, deixaram escapar oportunidades. Ou por não percebê-las ou por não achar conveniente utilizá-las.
Em todos os debates, Aécio bateu na tecla de que Dilma, como candidata, não apresentara um programa de governo. Ele sim.
Bem que Dilma poderia então dizer, com aquele seu típico ar de enfado:
- Candidato... meus parabéns por você ser um garoto de programa.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Ainda as eleições brasileiras

Apenas esse gráfico serve para mostrar que não existiu, nessa eleição, nenhuma divisão Norte - Sul ou qualquer outra desse tipo. Imaginem, então, se esse gráfico fosse subdividido por municípios. Mais ainda por zonas eleitorais etc. Ficaria todo pintadinho de vermelho e azul alternadamente.



Melhor ainda seria que lessem Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre. Entenderiam como os portugueses, ao contrário dos espanhóis, souberam desenhar esse colosso nas Américas. Deram-lhe unidade e personalidade. Criaram uma nação a partir dos três grupos étnicos que a compuseram. Índios, portugueses e negros se amalgamaram e propiciaram a assimilação de imigrantes de várias partes do mundo que vieram desfrutar esse país continente.
Dividi-lo não faz o menor sentido. Não respeita sua História.
É preciso aprimorá-lo.
Está difícil? Ninguém disse que seria fácil.

sábado, 25 de outubro de 2014

O primeiro piano de Cesar Camargo Mariano

Terminei de ler as Memórias desse músico notável. São quase quinhentas páginas de uma leitura muito agradável. Penso apenas que o livro deveria chamar-se Memórias Musicais, pois é evidente a intenção de Cesar de falar quase tão só de suas vivências ligadas à música.

O que se segue não substitui a leitura do livro. Cesar Camargo Mariano escreve quase tão bem quanto toca.



Ao completar 13 anos, ganhou seu primeiro piano. O pai instalou o dito cujo em casa de modo a que fosse uma surpresa para o aniversariante.

Ao ver o piano e ser informado de que era seu presente de aniversário, ele – que jamais encostara em qualquer piano – sentou-se à frente do seu e começou a tocar. No dizer dele:

“Eu estava tocando firme, com a sonoridade e a definição bem perto das que eu tenho hoje em dia. Não me lembro de que música era... talvez estivesse compondo... não sei... só sei que eu não conseguia parar de tocar...”

Seu pai caiu ao chão, abatido por um infarto que o manteria no hospital por 48 dias.


O pai dele, que era kardecista, entendeu aquilo como sendo a demonstração de que Cesar era a reencarnação de algum músico.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Contra factos, inventam-se argumentos

Quando do julgamento da Ação penal 470 ("mensalão"), os petistas e seus repetidores na imprensa, por não poderem negar os factos, passaram a travar uma discussão jurídica a respeito da tal "teoria do domínio do fato".(que, cá em Portugal, pode ser confundida com a defesa de uma predominância da moda  ). Isso por ter sido essa teoria um dos elementos justificadores da condenação de alguns medalhões petistas.
Agora que a delação premiada começa a revelar as multimilionárias falcatruas petistas (e de aliados) na Petrobrás, não há outra saída senão a de tentar desmoralizar o instrumento da delação premiada (ainda que Dilma o tenha elogiado no último debate com Aécio na Band).
Quanto aos factos revelados... são apenas factos.


terça-feira, 14 de outubro de 2014

Bolsa família e outras bolsas


Não conheço o município de Maricá, no estado brasileiro do Rio de Janeiro.
Se mal ouvi falar dele, agora ouvi falar mal dele.
Dele não. De sua elite. Elite política. E um bocadinho econômica, também.

Lá vem mais um petista falar mal da elite, dirá um eventual leitor, apressado.
Só que neste caso a tal elite é toda do Partido dos Trabalhadores (PT).

Acontece que minha mulher foi ao Brasil visitar familiares. Ficou na cidade do Rio de Janeiro.
Como em tempos idos viveu em Niterói, foi passar um fim de semana em casa de amigas que moram em Maricá.
Amigas de vida simples, muito simples. E de olhos e ouvidos muito atentos.
Contaram histórias apimentadas sobre a tal elite política de Maricá.
Tão apimentadas que resolvi conferir antes de passar adiante.
Pelo que pude verificar por meio da Internet, tudo que disseram é verdadeiro. Até alguma coisa é já pública. Eu é que não sabia de nada.

O prefeito de Maricá é o senhor Washington Luiz Cardoso Siqueira. Mas podem chamar de Washington Quaquá. É, digamos, seu nome de guerra.
Reeleito em 2012, foi condenado a ficar oito anos inelegível, pelo Tribunal Regional Eleitoral. E condenado duas vezes. Uma por ter aumentado em até 100% o salário dos servidores municipais 55 dias antes das eleições (a lei não permite isso dentro dos 90 dias anteriores à eleição). Outra vez por ter enviado mais de onze mil telegramas a eleitores convidando-os ao lançamento de um programa “Renda Melhor”., não constante do orçamento. Não se apoquentou com tamanho castigo. E continua a incorrer em delitos semelhantes a esses. Já chegaremos lá.

Não contente em ser prefeito de Maricá, ele é também o presidente estadual do PT no Rio de Janeiro.

Mais: sua esposa, Rosângela Zeidan, que no Facebook aparece como casada e na ficha de deputados estaduais eleitos agora em 2014 apresenta-se como divorciada, teve votação expressiva que lhe garantiu uma folgada eleição para a Assembléia Estadual do Rio de Janeiro. Já veremos como isso se tornou assim tão fácil.

Por fim, uma eminência parda para coroar toda a história: Lurian Lula da Silva. Ela mesma. A filha do impoluto ex-presidente em exercício.

Deixemos em segundo plano as questões picantes, que falam de relações extra-conjugais, de resto segredos de polichinelo na cidade.




A questão que me parece central, aqui, é a criação do cartão cidadão e da – como é mesmo? - moeda eletrônica social Mumbuca. Ao par com o Real (um mumbuca = um real), essa moeda recebeu esse nome em homenagem ao bairro Mumbuca, situado na margem norte do Lago de Maricá, de onde é Quaquá. Por coincidência o bairro em que vivem as minhas fontes.

O citado cartão dá a seu possuidor o direito de consumir noventa reais por mês (segundo o sítio da Prefeitura na Internet, seriam R$ 85,00. Tanto faz) e para exercer tal direito o feliz possuidor do cartão dispõe de uma vasta rede de lojas espalhadas por toda a cidade.

Só não consegui saber, no sítio da Prefeitura nem em qualquer lugar da Internet, como se faz para tornar-se beneficiário do tal cartão.

Acontece que uma das amigas de minha mulher é a feliz possuidora de um desses cartões. E explicou: basta você se apresentar à Prefeitura e exibir seu título de eleitor para provar que você vota no município. Agora na época anterior às eleições do dia 5 de Outubro o cidadão além de receber seu cartão era sutilmente informado de que o benefício seria extinto caso a primeira dama não fosse eleita.
Essa mesma amiga comentou que não votou na esposa de Quaquá por já ter a certeza de que ela teria uma enorme votação. Caso tivesse alguma dúvida quanto a isso, votaria nela.
A entrega dos cartões é sempre feita com muito estardalhaço, em cerimônias públicas.

Por fim: qual a relação de Lurian com tudo isso?
Ela não só reside em Maricá como é também amicíssima da neodeputada Zeidan, a primeira dama.
São tão amigas que Zeidan foi viver na mansão de Lurian.

Elite é isso.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Vacilações de alguém de dupla nacionalidade


Sou brasileiro e português. Vivo em Portugal há pouco mais de três anos. Vivi mais de sessenta no Brasil.
Vivo hoje um dilema. Se tento abrir os olhos dos portugueses aos perigos que o Brasil apresenta - e aos que, infelizmente, os brasileiros aqui residentes podem nos submeter - estou a dar tiro no pé.
Antes me incomodava a admiração que os portugueses devotavam ao Brasil. A seus sítios, a seus artistas etc e tal. 
Até que amigo meu, português de nascença, mas que conhece bem o Brasil, alertou-me:
-Não é bem assim. Os portugueses são gentis. Tratam bem os brasileiros mas têm noventa e nove pezinhos atrás, tal qual a centopeia, em relação a eles.
Fiquei um bocadinho mais sossegado. Mas me dei conta da hostilidade invisível que me rodeia.
No Brasil, alardeia-se que português é sinônimo de burro.
Em Portugal, preza-se muito o Brasil, afagam-se os brasileiros. mas no íntimo todo português sabe que lida com material radioativo.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Por que votar em Aécio Neves na segunda volta das eleições brasileiras


Digo logo que entendo ser difícil a vitória de Aécio.
Talvez seja minha vocação de pender para os mais fracos. Talvez um certo masoquismo Quem sabe.

Mas gostaria que ele ganhasse essas eleições no Brasil.
Já lá não vivo, mas de lá dependo. Então há que pensar na sobrevivência.
Por falar em sobrevivência, gostaria que ele ganhasse também para ver esses milhares e milhares de petistas que enfrentaram esses últimos doze anos encastelados em sinecuras, umas mais rentáveis, outras mais humildes, mas todas dadivosas, a preparar seus currículos e a buscar colocação no mercado.
Vamos lá, amigos!
Lembrar como é dura a vida no mundo capitalista.

Caso Aécio perca, paciência. Continuaremos a sustentar essa malta.

Além do mais, seria satisfatório voltar a ver o PT em sua versão antiga, udenista, de defensor de nossos valores morais e de nossas instituições.

Caso tal despropósito ocorra, a derrota do PT, pensarei seriamente em votar em deputados petistas nas próximas eleições. Eles serão nossa garantia de uma oposição acirrada e impiedosa. A acusar os desmandos do Poder Executivo.

Como seria bom, ter uma oposição assim combativa.


E menos bocas a sustentar.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Conversa mole em tarde de domingo

Já Caetano Veloso, em sua composição Língua, dizia:

Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar “
a recordar que o Português tem esses dois verbos que outras línguas fundem apenas em “to be” ou em “être”.
No último número da revista portuguesa Visão, o humorista Ricardo Araújo Pereira lembra:

Embora os franceses e os ingleses, aparentemente, não o saibam, ser bêbado é muito diferente de estar bêbado."

No Brasil, houve um ministro da Educação, final da década de 70 e início dos anos 80, Eduardo Portella, que cunhou uma frase tornada famosa:

Não sou ministro. Estou ministro.”

O “ser” indica permanência.
O “estar” conota transitoriedade.

Mas na conversa deste domingo com primos, depois de um magnífico almoço na aldeia em casa de Zelinda e Alípio, um deles mencionou o comentário de um inglês com o qual exercitava a conversação em língua inglesa:


- Mas em Português fala-se “ele está morto”. Por que não “ele é morto” ?

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Brasil: Por que votar em Dilma

Neste final de campanha eleitoral no Brasil, pipocam em páginas da Internet textos de variadas figuras, algumas bem conhecidas, outras com imensa vontade de o serem, a explicar por que irão votar em Dilma.

Há um aspecto nisso que é de irrecusável aceitação:

Uma atitude dessas exige mesmo explicação.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Cognacthèque

Quando estive, há dois anos, em Cognac, descobri algo que se me viesse à imaginação eu mesmo diria tratar-se de wishful thinking: a Cognacthèque.

Entrar nela, para mim, foi como entrar em uma catedral para um fiel.
Ao ver tamanha profusão de cognacs, lembrei-me de meu saudoso professor Di Tulio. E de como o cognac acompanhou-me ao longo da vida.
Para Vinicius, o whisky era o cão engarrafado.
Para Drummond, o cognac deixa a gente comovido como o diabo. Com a ajuda da Lua.

Para mim, cognac só se deixa empatar com banana com aveia. São meu néctar e minha ambrosia.

Em 2012, ao voltar da viagem em que conheci Cognac, tentei fazer um pedido pela Internet. Não fui atendido. Penso que, na época, só vendiam para a França.

Dia desses resolvi insistir. E consegui!
Fiquei ainda receoso em relação à entrega. Daria tudo certo?

Hoje recebi meus cognacs.



Aproveito a oportunidade para convidar os deuses do Olimpo a virem hoje cá em casa para brindarmos juntos tão fantástico acontecimento.


segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Papo dominical


Hoje foi dia de conversar com meu amigo Pardal. E conhecer sua esposa, Ana Maria.
Como estavam eles em Foz Coa, a gozar curtas férias, fui até lá para almoçar e papear.

Eles haviam reservado uma surpresa para mim. O almoço seria na Quinta Ervamoira, do grupo Ramos Pinto.
Deixei meu carro em Foz Coa e fomos no carro do Pardal até a aldeia de Muxagata. De lá seguimos, por oito quilômetros, em um jipe da Quinta por aquilo que Ana Maria negou ser uma estradinha. E é mesmo um “caminho de cabras”.
Como quase sempre onde há mal há bem, a dificuldade de acesso à Ervamoira a torna uma relíquia maior.
Almoçamos praticamente ao ar livre, banhados por uma paisagem de vinhedos e colinas e vinhedos e colinas... Ervamoira tem algo como 450 mil videiras. E estamos em plenas vindimas.

Fiquei a saber que há, perto dali, às margens do rio Coa, afluente do Douro, exemplares abundantes de arte rupestre que se constituem nos mais antigos registos de atividade de gravação da história da humanidade. São gravações em pedra feitos a partir de um passado de 25 mil anos. Representam animais, em sua maioria. Mas há também alguns desenhos de seres humanos.
Não posso deixar de visitar tal coisa.

Lembrei-me até de uma expressão que se usa quando se quer dizer que alguém é muito antigo: “não viveu o dilúvio mas pisou na lama”. De hoje em diante vou preferir dizer: “não chegou a desenhar nas pedras mas sujou as mãos na tinta fresca”.

É infame. Admito.

Mas há mais: na própria Quinta Ervamoira há ruínas de uma aldeia romana do primeiro século da era cristã. A Ramos Pinto tem planos de restaurá-la. Mas aguarda ter recursos suficientes para tanto. É trabalho dispendioso.

Visita-se também, na sede da Quinta, um pequeno museu da casa Adriano Ramos Pinto. Um dos protagonistas da casa é o Lacrima Christi.



A propósito, conta-me o Pardal que seu pai costumava dizer:

Se o vinho é o sangue de Cristo, bem haja quem o matou!

Se a frase me parece saborosa (afinal, estávamos também próximos à foz do rio Sabor...), talvez pareça herética aos ouvidos de um cristão fervoroso.
Alto lá! Não pode ser assim. Os cristãos devem ser gratos aos que crucificaram Jesus. Sem isso não teríamos a possibilidade da salvação.

E fico a imaginar um Jesus que fizesse de um tudo para ser sacrificado mas esbarrasse em um Estado Democrático que não permitisse seu sacrifício. Que o deixasse fazer seus sermões à vontade.
Isso daria uma boa história.

Mas alguém já deve tê-la posto no papel.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Debate Costa x Seguro


A TVI, canal aberto de Portugal, apresentou hoje, no horário do noticiário da noite, um debate entre os dois candidatos a líder do Partido Socialista (PS), em eleição do partido que se dará a 28 de Setembro. Como existe a possibilidade de o PS ganhar as eleições legislativas que se aproximam, quem for – na altura – líder do PS tornar-se-á Primeiro Ministro (PM) de Portugal.

Diga-se, desde já, que o debate conseguiu ser, ao mesmo tempo, bastante flexível e quase totalmente inútil.
Flexível, ao menos, para um português brasileiro (eu) acostumado a assistir a debates na TV do Brasil. Não foi um debate tão engessado como são os debates políticos que a TV transmite no Brasil.
Mas inútil ou por apresentar o que já se sabia ou por revelar a absoluta inaptidão para a governança de ambos os candidatos. Com o perdão da redundância.
Basta dizer que António José Seguro foi o mais claro e assertivo. E isso é dizer muito a respeito de António Costa.
Enquanto Costa equilibrava-se em circunlóquios, Seguro foi direto ao ponto. E deixou claro que pretende governar Portugal para gerar mais empregos e fazer crescer a economia.


Está claro que pretende que Portugal se eleve com o puxar dos cordões dos próprios sapatos.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O individualismo das Esquerdas e o culto à personalidade


Já meu opinador preferido, em Portugal, Alberto Gonçalves, dizia dia desses, ironicamente, da existência cá na terrinha de “setenta agremiações destinadas a unir a esquerda”.
Em toda parte, a esquerda tem uma irresistível tendência a subdividir-se em grupelhos, partições essas que tendem a igualar o número de agremiações de esquerda ao número de militantes dela.

O antídoto a tal força centrífuga vem a ser o culto à personalidade.

Assim como o indivíduo que admira suas virtudes e deplora seus defeitos idealiza um ser dotado das primeiras e livre dos segundos e o chama Deus, o socialista imagina seu próprio individualismo levado ao limite e passa a venerar algum Pai dos Povos.

Não há socialismo sem culto à personalidade. É esse culto a força centrípeta que torna possível a existência de partidos de esquerda, de movimentos de esquerda rumo ao poder. Não fora ele, e o socialismo se dissolveria em lenines individuais.
Marx, Lenin, Stalin, Mao, Fidel, Guevara foram algumas dessas forças de gravidade a conseguir reunir seguidores que compatibilizavam – graças ao culto a esses ídolos – seus pequenos grandes individualismos com o paroxismo individualista desses Pais dos Povos.
Até mesmo a América do Sul produziu seus arremedos de Guias Geniais dos Povos. No Brasil o esperto Lula; na Venezuela o caricatural Chavez.


Resta saber quais elementos da doutrina socialista levam a esse individualismo exacerbado de seus adeptos. Neste pequeno texto ficaremos apenas com a constatação factual de tal característica. Paradoxal mas verdadeira.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Forças plasmadoras do futuro brasileiro – 2


Escrevi há um mês em meu blogue  a respeito dos dois polos que considero serem os que vão modelar o futuro do Brasil: o Partido dos Trabalhadores (PT) e suas franjas sindicais, estudantis e intelectuais de um lado e, de outro, os evangélicos sob a predominância ideológica dos neopentecostais.

Em primeiro lugar, saliento que o facto da evangélica Marina Silva ter sido guindada à posição de candidata à Presidência da República não é – necessariamente – algo que aponte na direção da polarização de que falo. Aliás, publiquei o texto sobre esse assunto mais de uma semana antes da morte de Eduardo Campos. Além disso, é curioso notar que tanto Dilma Rousseff quanto Marina Silva não são representantes “pura gema” das duas correntes por mim mencionadas. Dilma bandeou-se para o PT tardiamente e até hoje enfrenta um ambiente um bocadinho hostil em seu novo partido. Marina Silva teve formação católica e só bem mais tarde tornou-se evangélica. Também não é prata da casa.

Contudo, tenho a convicção de que, mais adiante, a polarização que indico tornar-se-á mais nítida.
Mas ela já atua nos subterrâneos dos costumes brasileiros. E quero, agora, colocar em relevo as razões que  levam tal polarização, por exemplo, a uma exacerbação da corrupção.

Diga-se logo que corrupção é algo que existe em absolutamente todos os países e lugares. Daí, quando me ponho a discutir a corrupção no Brasil, discuto – na verdade – as razões que tornam a corrupção brasileira notável. Notável pelo volume de recursos que movimenta, notável pela quase total impunidade de seus atores, notável pela leniência do povo, em geral, em relação a ela.

Pois bem: penso que esse ambiente favorável à corrupção (melhor diria: ambiente incentivador da corrupção) decorre de uma característica comum aos dois polos plasmadores da brasilidade no atual momento histórico.

Essa característica é: os dois polos em questão não têm apreço verdadeiro pela sociedade em que vivem.

O PT e suas franjas têm, programaticamente, o socialismo como horizonte. Convivem com uma sociedade capitalista apenas enquanto não têm forças para destruí-la.
Os evangélicos enxergam nossa sociedade como aquilo que eles chamam, pejorativamente, “o mundo”. Algo no qual são obrigados a viver até que possam desfrutar da vida eterna.
Diga-se, de passagem, que mesmo assim nenhum dos dois polos despreza a boa vida desta sociedade podre. A esquerda é cada vez mais caviar e os evangélicos são cada vez mais adeptos da prosperidade. Mas dispõem-se a lutar pelo pão de cada dia com quaisquer armas, uma vez que a sociedade real não lhes impõe respeito.

Daí a impetuosidade em burlar as regras de uma tal sociedade. Daí a justificativa para a voracidade predatória: afinal, ao corrompermos a sociedade nós estamos a contribuir para sua derrocada final.

A corrupção apressa o apocalipse.

Seja ele terreno ou celestial.