quarta-feira, 19 de novembro de 2014

O Petrolão e Berlusconi

O Partido dos Trabalhadores (PT) brasileiro funciona um bocadinho como os telemóveis. Seu sinal é espalhado por meio de torres repetidoras, espalhadas por todo lado.

Agora que o Petrolão - roubo de bilhões perpetrado contra a estatal Petrobrás pelo próprio PT e alguns de seus aliados - ameaça tisnar a festa da vitória nas eleições de Outubro, foi enviado às torres repetidoras um sinal:

Comparem a situação italiana que fez resultar da operação Mãos Limpas, na década de 90, a ascensão de Berlusconi com o movimento de indignação diante do Petrolão. A lógica elementar levará a malta a entender que combater a roubalheira na Petrobrás poderá significar a vitória do fascismo. E estaremos safos.   

E saíram as torres a fazer o que seu mestre manda.
Faltou combinar com os investigadores. Aliás, já devidamente enxovalhados.


segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Daqui não saio, daqui ninguém me tira

Em Portugal o “até agora ministro da Administração Interna sai do Executivo afirmando que nada tem a ver com os vistos gold, mas reconhece que o caso diminuiu a sua autoridade política.” (Público online)
É certo que Miguel Macedo, o ministro demissionário, fez apenas o que tinha de ser feito. Afinal, mesmo que ele nada tenha a ver com as irregularidades ligadas à atribuição de vistos gold, a questão é vinculada ao ministério que ele chefiava.

No Brasil, um escândalo de dimensões apocalípticas a envolver a maior empresa brasileira, a Petrobrás, nem sequer fez passar pelas cabeças da presidente da empresa, do ministro das Minas e Energia e da própria presidente da República – que presidia o Conselho da empresa quando a bandalheira já corria solta por lá – a ideia de no mínimo uma licença temporária dos dois primeiros.


A presidente da empresa, a senhora Graça Foster, veio a público a informar que vai aumentar os controles internos. Melhor que isso só se ela prometesse eliminá-los por completo. Teria piada.

Tuta-e-meia

No Brasil, o ano de 2013 foi monopolizado pelo julgamento do chamado Mensalão.
A respeito dele, falaram em 50 milhões de reais. Também em 150 milhões de reais. Alguma quantia dessa ordem seria o total envolvido na falcatrua.

Já agora, no decorrer de uma investigação a respeito de bandalheira alcunhada de Petrolão, um subordinado do diretor da Petrobrás Renato Duque, um tal de Pedro Barusco, propõe-se a devolver - só ele - a bagatela de 252 milhões de reais.


O Mensalão passou a valer tuta-e-meia, como se diz cá em Portugal.

Sim ou sopas


O pior legado do PT ao debate político no Brasil talvez seja a imposição de um tudo ou nada em qualquer discussão.

O país saiu dos eufemismos tucanos, que deram origem ao verbo “tucanar”, para entrar na pueril batalha de sim ou não. Ou, como se diz cá em Portugal, sim ou sopas.

domingo, 16 de novembro de 2014

Pra falar a verdade

Durante muitos anos trabalhei em empresas privadas, no Brasil. Empresas sérias.
Antes de passar ao serviço público, como Auditor-Fiscal da Receita Federal, fui diretor de uma empresa que começou séria e acabou em um emaranhado de contravenções. Como diria Dilma, a presidenta, malfeitos.
Antes de cair fora, pude presenciar o diabo. Aquilo que a presidenta Dilma diz que se deve fazer em lutas eleitorais.
Corria o ano da graça de 1.988. Governo Sarney.
Alguns garotões envelhecidos dizem que para conhecer a política é preciso ler Platão e visitar o Congresso. Trancados em seus gabinetes, elucubram o futuro socialista da pátria amada. Eu usava e abusava das salas do Secretário da Receita Federal e do assessor especial do ministro das Comunicações, na época o ACM (Antônio Carlos Magalhães).
Vivi o intestino da República.
Nunca visitei o Congresso. Os congressistas e mesmo alguns ministros vinham a nossas suítes no Hotel Nacional.
Alguma coisa aprendi.
Sei, por exemplo, que é impossível que Lula e Dilma não saibam do que ocorria na Petrobrás.
Aliás, "saber" funciona aqui como eufemismo, quase mentira deslavada.

Adaptação abrupta ou gradual?


Os chefões da Camargo Corrêa se entregaram em São Paulo e foram levados a Curitiba em carros da Polícia Federal.
Já o manda-chuva da Mendes Júnior preferiu ir em seu jatinho particular entregar-se na capital paranaense.
Qual a melhor decisão?
Partamos do princípio de que todos estão acostumados a viver no luxo e no conforto. Princípio de fácil constatação empírica.
Os da Camargo Corrêa escolheram uma adaptação gradual à prisão. O da Mendes Jr preferiu passar direto do jatinho para a cela.
Qual a decisão mais sábia?

sábado, 15 de novembro de 2014

Zambujo e um Manual de Estética


Em meu tempo de criança, minha irmã mais velha gostava de mexer constantemente nos móveis da casa. Era guarda-roupa pra cá, cama pra lá, cristaleira de um jeito, depois de outro. Tudo mudava segundo o humor dela.
Meu pai, que trabalhava em casa, vivia a implicar com as alterações que ela promovia.
E as discussões eram inevitáveis.
- Isso assim não fica bem!
- O senhor não entende nada disso!
- E você! Acaso já leu algum Manual de Estética?
E por aí avançava a discussão.

À noite, costumávamos ficar ao lado de minha irmã ao piano. Eu de um lado, minha irmã mais nova do outro. Meus pais sentavam-se no sofá da sala para ouvir. A garotada da vizinhança vinha às vezes aboletar-se no murinho do jardim de casa para ouvir. Cantávamos de tudo um pouco.
Uma das músicas de que eu gostava era Risque. E a cantava a plenos pulmões. Pulmões fortes, aos nove anos de idade.



Um dia, meu pai – sem mencionar nenhum Manual de Estética – disse-me:
- Ouvi no rádio um cantor italiano a cantar uma versão de Risque em voz baixa, suavemente. Lindo!
Era uma sugestão. Que eu jamais acatei.


Descobri agora, tardiamente, que meu pai sugeria que eu ouvisse António Zambujo, anacronicamente.

Mais estrepolias de Chico Buarque


Não quis colocar aqui essa história antes das eleições brasileiras porque iriam pensar que eu estava a criticar Chico por ele ser cabo eleitoral da Dilma. É verdade que o clima continua o mesmo em terras tupiniquins. Mas como agora Inês já é morta, vamos aos factos.

Antes de mais, deixo claro que distingo autor e obra. É que gosto muito das canções compostas por Chico. Quanto ao próprio, comentei uma vez, em um texto, o facto de ele ter furtado carros quando jovem, junto com amigos que queriam divertir-se. Fui admoestado por atentos defensores de tudo que diz respeito à Esquerda. “Cuidado com a reputação das pessoas!”, diziam. Como se tais estrepolias não fossem de domínio público.

Li recentemente o livro Solo, de memórias de Cesar Camargo Mariano. Dele consta um episódio protagonizado por Chico. Raras são as críticas que Cesar Mariano faz a alguém em seu livro. E este episódio não se inclui entre elas. Ao contrário, ele o conta por considerá-lo um facto engraçado.

É verdade que até velório tem piada. Mas reproduzo aqui o relato de Cesar Mariano para salientar uma faceta do caráter de Chico Buarque.

Avaliações, é claro, são do leitor.

“Roberto [Colossi, empresário de Simonal e do SOM 3] tinha ido à Itália para administrar a produção de alguns shows do Chico com o Toquinho. Ele sabia que nós estaríamos viajando naquele período, mas jamais imaginamos nos encontrar em Roma, do jeito que foi, na rua.
Depois de rirmos muito com aquela coincidência, Chico nos convenceu, Simonal e eu, de que tínhamos de mudar para o hotel onde eles estavam.
- Por quê, Chico?
- É que tenho alguns planos.
Mudamos para o hotel onde os quatro estavam hospedados e começamos a execução do plano, depois de um longo ensaio, naquela mesma madrugada.
Passava da meia-noite, e Chico achou que estava na hora de começar. Cada um foi para o seu quarto. Colossi, Marieta e eu nos posicionamos, cada um à frente de seu próprio quarto, com a porta aberta. Nossa tarefa era de apoio. Tínhamos de vigiar.
O hotel inteiro, a essa altura, dormia. Silêncio total.
Pé ante pé, saíram de seus quartos Chico, Toquinho e Simonal, nus, somente com uma toalha amarrada na cintura, e começaram a recolher os pares de sapatos deixados do lado de fora de cada quarto, para serem engraxados. Trocaram os sapatos do nosso andar inteiro, inclusive os nossos. O par que fosse do quarto 23, por exemplo, ia para o 32, do andar de cima; o do 32 ia para o 16, no andar abaixo do nosso. Além disso, eles separavam os pares: o direito subia, e o esquerdo ficava ou descia. Os avisos de “não perturbe” eram trocados por “despertar às 3h...”, e os pedidos de café da manhã eram preenchidos com os cardápios mais loucos.
(…)
Tudo tinha de ser muito rápido, porque, às 4h da manhã, começava um verdadeiro pandemônio naquele hotel. Todos gritando, brigando... E nós também, no meio deles. A cena era indescritível.
Porém, no terceiro dia de ação, ouvimos a campainha do elevador, que era exatamente em frente ao quarto do Colossi e do meu, bem na hora em que os três estavam executando a tarefa no nosso próprio andar. Nus. Era um garçom do hotel. Não houve a menor chance de avisá-los. Foi muito rápido.
Foi muito rápida também a nossa saída do hotel, naquela mesma manhã, a convite da gerência e da polícia.
Dias depois daquela missão naquele hotel chiquérrimo de Roma (…) retornamos ao Brasil. “

(Solo - memórias, Cesar Camargo Mariano, pág. 182 a 184)

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Breve contribuição ao esforço de alfabetização


Foi no tempo em que eu vivia meu 12º ou 13º ano de vida.
Dona Yolanda, professora de Canto Orfeônico no Colégio Canadá, escolheu-me para representar o colégio em um concurso na rádio Cacique de Santos a respeito dos hinos pátrios.
O programa foi realizado no auditório da rádio e transmitido ao vivo.
Na plateia os adeptos de cada escola faziam sua algazarra.
As perguntas não respondidas desclassificavam o concorrente.
Ao final, sobramos uma garota de não me lembro qual colégio e eu.
Os organizadores do concurso resolveram, então, que duas perguntas extras seriam feitas para provocar o desempate.
A menina conseguiu responder a dela.
Era minha vez. Pediram, então, que eu dissesse os primeiros versos do Hino Nacional Brasileiro em ordem direta. Não consegui responder no tempo concedido e perdi o concurso.
O pessoal do Canadá protestou. A alegação era a de que aquela não era uma pergunta referente aos hinos pátrios mas uma pergunta “de Português”.
Restaria explicar para que serve saber a letra de todos os hinos pátrios se não se tem claro o significado delas.

Para redimir-me parcialmente da falha de umas tantas décadas passadas, aí vai o início do Ouvirundum em ordem direta. Quem sabe ajudo com isso muita gente a finalmente entender o que ele diz.

As margens plácidas do Ipiranga
ouviram o brado retumbante
do povo heróico.

O Infinito


As religiões metem-se nesse assunto sem perceber o sarilho que as espreita.

Vejam a biblioteca infinita citada por Borges. Nela os livros são compostos ao acaso. As letras de todos os alfabetos são neles lançadas sem nenhum critério. O número de páginas de cada livro é também obra do Acaso. Isso parece prenunciar uma balbúrdia. Mas ela é infinita.

Nela estão infinitos livros sem sentido algum.
Mas em suas prateleiras estão, igualmente, todas as obras primas da literatura mundial. Traduzidas para todas as línguas.
Lá estão todos os manuscritos dos textos bíblicos, inclusivamente os originais, desconhecidos para nós.
Todos os livros já escritos e todos que ainda a capacidade humana produzirá.

Deixem, portanto, de falar em deuses. Ou, ao menos, de lhes atribuir caracteres absolutos, infinitos, e – ao mesmo tempo – querer decifrar suas vontades e decisões.

Quem somos nós para entender o infinito?

Entre dois pontos de uma reta há uma infinidade de outros pontos. Por mais próximos que eles estejam, um do outro, sempre haverá uma infinidade de outros pontos entre eles.
Se preferir, pense em números. Entre dois números reais sempre haverá uma infinidade de outros números reais.

Quando eu era menino, olhava o rótulo da lata de Toddy. Nesse rótulo havia um garoto que segurava uma lata de Toddy. E nessa lata de Toddy que ele segurava havia um garoto que segurava uma lata de Toddy na qual havia um garoto que segurava uma lata de Toddy na qual...


Tenham cuidado, crianças. O infinito é algo a ser tratado apenas pela Matemática e pelas Artes.

sábado, 8 de novembro de 2014

Palavras curiosas

Há palavras com histórias tristes. Histórias como as de pessoas que tinham tudo para dar certo na vida e, contudo, deslizaram para um pântano sem saída.

Puntual, por exemplo.
No início da década de 60 do século passado, quando comecei a estudar Mecânica, aprendi que “puntual” era algo relativo a ponto. A velocidade, por exemplo, era uma grandeza puntual. Quando o indivíduo está a conduzir em uma estrada, a cada ponto ele está a uma determinada velocidade. Ao final do percurso ele pode determinar a velocidade média com a qual percorreu seu caminho. Essa já não é algo puntual. É relativa a todo o trecho percorrido.
Os modernos dicionários de Português sumiram com o termo “puntual”. Tenho um antigo Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, de 1.972. O mais próximo de “puntual” que ele regista é “puntiforme” ou “punctiforme” - aquilo que tem forma ou aparência de ponto.
Achei na Internet, felizmente, o termo “puntual” no Wikcionário (figura).



Hoje em dia diz-se, por exemplo, que a velocidade é grandeza pontual.
Ora, pontual é quem chega na hora. A qualquer velocidade.


Outra palavra que sofreu com as intempéries da vida foi “caráter”.
Essa palavrinha é mesmo curiosa. No singular ela tem mesmo uma conotação moral. Já no plural não. Se digo "O caráter deste indivíduo é..." isso já nos leva para o lado da moral. Mas se digo "Os caracteres deste indivíduo são...", aí não. Por isso é que quando, nas décadas de 60 e 70, os manuais de computadores (em inglês) referiam-se a letras, números e símbolos especiais, no singular como "character", no plural como "characters", o pessoal da área de informática conseguia traduzir o plural para "caracteres" mas achava errado traduzir o singular para "caráter". Passaram, então, a falar e a escrever bisonhamente "caractere". Pouco depois o Aurélio consagrou a bobagem...

Déjà pensé


Toda quinta-feira chegam a nossa casa as revistas Sábado e Visão.
Esta semana só esvaziamos a caixa de correio na sexta, ontem.
À noite comecei a ler a Sábado, que sempre começo a ler a partir do fim, onde fica a página de Alberto Gonçalves. Quanto à Visão, nem a toquei.

Não sei se a ideia surgiu ontem mesmo, à noite.
O de que tenho certeza é que acordei hoje a organizar na cabeça um pequeno conto.
Já ao pequeno almoço ele estava esquematizado. Começo, meio, fim.
Faltava formalizá-lo. Sentar ao computador e escrevê-lo.

Levei para a casa de banho a revista Visão. Pus-me a ler o conto de Lobo Antunes: Amadeu.
Não demorei a dar-me conta: era exatamente o conto que eu imaginara.

Teve a sorte de ser escrito por ele e não por mim.


quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Linguagem e Eleições

Os marqueteiros do PT são eficazes. Demonstraram isso nesta eleição. Por exemplo, exploraram bem o deslize de Aécio ao chamar Dilma de "leviana", que em algumas regiões do Nordeste, ao que parece, significa "prostituta". Um candidato à Presidência da República, no Brasil, precisa inteirar-se até dos regionalismos linguísticos para não cair em esparrelas desse tipo.
Por outro lado, deixaram escapar oportunidades. Ou por não percebê-las ou por não achar conveniente utilizá-las.
Em todos os debates, Aécio bateu na tecla de que Dilma, como candidata, não apresentara um programa de governo. Ele sim.
Bem que Dilma poderia então dizer, com aquele seu típico ar de enfado:
- Candidato... meus parabéns por você ser um garoto de programa.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Ainda as eleições brasileiras

Apenas esse gráfico serve para mostrar que não existiu, nessa eleição, nenhuma divisão Norte - Sul ou qualquer outra desse tipo. Imaginem, então, se esse gráfico fosse subdividido por municípios. Mais ainda por zonas eleitorais etc. Ficaria todo pintadinho de vermelho e azul alternadamente.



Melhor ainda seria que lessem Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre. Entenderiam como os portugueses, ao contrário dos espanhóis, souberam desenhar esse colosso nas Américas. Deram-lhe unidade e personalidade. Criaram uma nação a partir dos três grupos étnicos que a compuseram. Índios, portugueses e negros se amalgamaram e propiciaram a assimilação de imigrantes de várias partes do mundo que vieram desfrutar esse país continente.
Dividi-lo não faz o menor sentido. Não respeita sua História.
É preciso aprimorá-lo.
Está difícil? Ninguém disse que seria fácil.

sábado, 25 de outubro de 2014

O primeiro piano de Cesar Camargo Mariano

Terminei de ler as Memórias desse músico notável. São quase quinhentas páginas de uma leitura muito agradável. Penso apenas que o livro deveria chamar-se Memórias Musicais, pois é evidente a intenção de Cesar de falar quase tão só de suas vivências ligadas à música.

O que se segue não substitui a leitura do livro. Cesar Camargo Mariano escreve quase tão bem quanto toca.



Ao completar 13 anos, ganhou seu primeiro piano. O pai instalou o dito cujo em casa de modo a que fosse uma surpresa para o aniversariante.

Ao ver o piano e ser informado de que era seu presente de aniversário, ele – que jamais encostara em qualquer piano – sentou-se à frente do seu e começou a tocar. No dizer dele:

“Eu estava tocando firme, com a sonoridade e a definição bem perto das que eu tenho hoje em dia. Não me lembro de que música era... talvez estivesse compondo... não sei... só sei que eu não conseguia parar de tocar...”

Seu pai caiu ao chão, abatido por um infarto que o manteria no hospital por 48 dias.


O pai dele, que era kardecista, entendeu aquilo como sendo a demonstração de que Cesar era a reencarnação de algum músico.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Contra factos, inventam-se argumentos

Quando do julgamento da Ação penal 470 ("mensalão"), os petistas e seus repetidores na imprensa, por não poderem negar os factos, passaram a travar uma discussão jurídica a respeito da tal "teoria do domínio do fato".(que, cá em Portugal, pode ser confundida com a defesa de uma predominância da moda  ). Isso por ter sido essa teoria um dos elementos justificadores da condenação de alguns medalhões petistas.
Agora que a delação premiada começa a revelar as multimilionárias falcatruas petistas (e de aliados) na Petrobrás, não há outra saída senão a de tentar desmoralizar o instrumento da delação premiada (ainda que Dilma o tenha elogiado no último debate com Aécio na Band).
Quanto aos factos revelados... são apenas factos.


terça-feira, 14 de outubro de 2014

Bolsa família e outras bolsas


Não conheço o município de Maricá, no estado brasileiro do Rio de Janeiro.
Se mal ouvi falar dele, agora ouvi falar mal dele.
Dele não. De sua elite. Elite política. E um bocadinho econômica, também.

Lá vem mais um petista falar mal da elite, dirá um eventual leitor, apressado.
Só que neste caso a tal elite é toda do Partido dos Trabalhadores (PT).

Acontece que minha mulher foi ao Brasil visitar familiares. Ficou na cidade do Rio de Janeiro.
Como em tempos idos viveu em Niterói, foi passar um fim de semana em casa de amigas que moram em Maricá.
Amigas de vida simples, muito simples. E de olhos e ouvidos muito atentos.
Contaram histórias apimentadas sobre a tal elite política de Maricá.
Tão apimentadas que resolvi conferir antes de passar adiante.
Pelo que pude verificar por meio da Internet, tudo que disseram é verdadeiro. Até alguma coisa é já pública. Eu é que não sabia de nada.

O prefeito de Maricá é o senhor Washington Luiz Cardoso Siqueira. Mas podem chamar de Washington Quaquá. É, digamos, seu nome de guerra.
Reeleito em 2012, foi condenado a ficar oito anos inelegível, pelo Tribunal Regional Eleitoral. E condenado duas vezes. Uma por ter aumentado em até 100% o salário dos servidores municipais 55 dias antes das eleições (a lei não permite isso dentro dos 90 dias anteriores à eleição). Outra vez por ter enviado mais de onze mil telegramas a eleitores convidando-os ao lançamento de um programa “Renda Melhor”., não constante do orçamento. Não se apoquentou com tamanho castigo. E continua a incorrer em delitos semelhantes a esses. Já chegaremos lá.

Não contente em ser prefeito de Maricá, ele é também o presidente estadual do PT no Rio de Janeiro.

Mais: sua esposa, Rosângela Zeidan, que no Facebook aparece como casada e na ficha de deputados estaduais eleitos agora em 2014 apresenta-se como divorciada, teve votação expressiva que lhe garantiu uma folgada eleição para a Assembléia Estadual do Rio de Janeiro. Já veremos como isso se tornou assim tão fácil.

Por fim, uma eminência parda para coroar toda a história: Lurian Lula da Silva. Ela mesma. A filha do impoluto ex-presidente em exercício.

Deixemos em segundo plano as questões picantes, que falam de relações extra-conjugais, de resto segredos de polichinelo na cidade.




A questão que me parece central, aqui, é a criação do cartão cidadão e da – como é mesmo? - moeda eletrônica social Mumbuca. Ao par com o Real (um mumbuca = um real), essa moeda recebeu esse nome em homenagem ao bairro Mumbuca, situado na margem norte do Lago de Maricá, de onde é Quaquá. Por coincidência o bairro em que vivem as minhas fontes.

O citado cartão dá a seu possuidor o direito de consumir noventa reais por mês (segundo o sítio da Prefeitura na Internet, seriam R$ 85,00. Tanto faz) e para exercer tal direito o feliz possuidor do cartão dispõe de uma vasta rede de lojas espalhadas por toda a cidade.

Só não consegui saber, no sítio da Prefeitura nem em qualquer lugar da Internet, como se faz para tornar-se beneficiário do tal cartão.

Acontece que uma das amigas de minha mulher é a feliz possuidora de um desses cartões. E explicou: basta você se apresentar à Prefeitura e exibir seu título de eleitor para provar que você vota no município. Agora na época anterior às eleições do dia 5 de Outubro o cidadão além de receber seu cartão era sutilmente informado de que o benefício seria extinto caso a primeira dama não fosse eleita.
Essa mesma amiga comentou que não votou na esposa de Quaquá por já ter a certeza de que ela teria uma enorme votação. Caso tivesse alguma dúvida quanto a isso, votaria nela.
A entrega dos cartões é sempre feita com muito estardalhaço, em cerimônias públicas.

Por fim: qual a relação de Lurian com tudo isso?
Ela não só reside em Maricá como é também amicíssima da neodeputada Zeidan, a primeira dama.
São tão amigas que Zeidan foi viver na mansão de Lurian.

Elite é isso.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Vacilações de alguém de dupla nacionalidade


Sou brasileiro e português. Vivo em Portugal há pouco mais de três anos. Vivi mais de sessenta no Brasil.
Vivo hoje um dilema. Se tento abrir os olhos dos portugueses aos perigos que o Brasil apresenta - e aos que, infelizmente, os brasileiros aqui residentes podem nos submeter - estou a dar tiro no pé.
Antes me incomodava a admiração que os portugueses devotavam ao Brasil. A seus sítios, a seus artistas etc e tal. 
Até que amigo meu, português de nascença, mas que conhece bem o Brasil, alertou-me:
-Não é bem assim. Os portugueses são gentis. Tratam bem os brasileiros mas têm noventa e nove pezinhos atrás, tal qual a centopeia, em relação a eles.
Fiquei um bocadinho mais sossegado. Mas me dei conta da hostilidade invisível que me rodeia.
No Brasil, alardeia-se que português é sinônimo de burro.
Em Portugal, preza-se muito o Brasil, afagam-se os brasileiros. mas no íntimo todo português sabe que lida com material radioativo.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Por que votar em Aécio Neves na segunda volta das eleições brasileiras


Digo logo que entendo ser difícil a vitória de Aécio.
Talvez seja minha vocação de pender para os mais fracos. Talvez um certo masoquismo Quem sabe.

Mas gostaria que ele ganhasse essas eleições no Brasil.
Já lá não vivo, mas de lá dependo. Então há que pensar na sobrevivência.
Por falar em sobrevivência, gostaria que ele ganhasse também para ver esses milhares e milhares de petistas que enfrentaram esses últimos doze anos encastelados em sinecuras, umas mais rentáveis, outras mais humildes, mas todas dadivosas, a preparar seus currículos e a buscar colocação no mercado.
Vamos lá, amigos!
Lembrar como é dura a vida no mundo capitalista.

Caso Aécio perca, paciência. Continuaremos a sustentar essa malta.

Além do mais, seria satisfatório voltar a ver o PT em sua versão antiga, udenista, de defensor de nossos valores morais e de nossas instituições.

Caso tal despropósito ocorra, a derrota do PT, pensarei seriamente em votar em deputados petistas nas próximas eleições. Eles serão nossa garantia de uma oposição acirrada e impiedosa. A acusar os desmandos do Poder Executivo.

Como seria bom, ter uma oposição assim combativa.


E menos bocas a sustentar.