Os marqueteiros do PT são eficazes. Demonstraram isso nesta eleição. Por exemplo, exploraram bem o deslize de Aécio ao chamar Dilma de "leviana", que em algumas regiões do Nordeste, ao que parece, significa "prostituta". Um candidato à Presidência da República, no Brasil, precisa inteirar-se até dos regionalismos linguísticos para não cair em esparrelas desse tipo.
Por outro lado, deixaram escapar oportunidades. Ou por não percebê-las ou por não achar conveniente utilizá-las.
Em todos os debates, Aécio bateu na tecla de que Dilma, como candidata, não apresentara um programa de governo. Ele sim.
Bem que Dilma poderia então dizer, com aquele seu típico ar de enfado:
- Candidato... meus parabéns por você ser um garoto de programa.
quarta-feira, 29 de outubro de 2014
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
Ainda as eleições brasileiras
Apenas esse gráfico serve para mostrar que não existiu, nessa eleição, nenhuma divisão Norte - Sul ou qualquer outra desse tipo. Imaginem, então, se esse gráfico fosse subdividido por municípios. Mais ainda por zonas eleitorais etc. Ficaria todo pintadinho de vermelho e azul alternadamente.
Melhor ainda seria que lessem Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre. Entenderiam como os portugueses, ao contrário dos espanhóis, souberam desenhar esse colosso nas Américas. Deram-lhe unidade e personalidade. Criaram uma nação a partir dos três grupos étnicos que a compuseram. Índios, portugueses e negros se amalgamaram e propiciaram a assimilação de imigrantes de várias partes do mundo que vieram desfrutar esse país continente.
Dividi-lo não faz o menor sentido. Não respeita sua História.
É preciso aprimorá-lo.
Está difícil? Ninguém disse que seria fácil.
sábado, 25 de outubro de 2014
O primeiro piano de Cesar Camargo Mariano
Terminei de ler as Memórias desse
músico notável. São quase quinhentas páginas de uma leitura muito
agradável. Penso apenas que o livro deveria chamar-se Memórias
Musicais, pois é evidente a intenção de Cesar de falar quase tão
só de suas vivências ligadas à música.
O que se segue não substitui a leitura
do livro. Cesar Camargo Mariano escreve quase tão bem quanto toca.
Ao completar 13 anos, ganhou seu
primeiro piano. O pai instalou o dito cujo em casa de modo a que
fosse uma surpresa para o aniversariante.
Ao ver o piano e ser informado de que
era seu presente de aniversário, ele – que jamais encostara em
qualquer piano – sentou-se à frente do seu e começou a tocar. No
dizer dele:
“Eu estava tocando firme, com a
sonoridade e a definição bem perto das que eu tenho hoje em dia.
Não me lembro de que música era... talvez estivesse compondo... não
sei... só sei que eu não conseguia parar de tocar...”
Seu pai caiu ao chão, abatido por um
infarto que o manteria no hospital por 48 dias.
O pai dele, que era kardecista,
entendeu aquilo como sendo a demonstração de que Cesar era a
reencarnação de algum músico.
quinta-feira, 16 de outubro de 2014
Contra factos, inventam-se argumentos
Quando do julgamento da Ação penal 470 ("mensalão"), os petistas e seus repetidores na imprensa, por não poderem negar os factos, passaram a travar uma discussão jurídica a respeito da tal "teoria do domínio do fato".(que, cá em Portugal, pode ser confundida com a defesa de uma predominância da moda ). Isso por ter sido essa teoria um dos elementos justificadores da condenação de alguns medalhões petistas.
Agora que a delação premiada começa a revelar as multimilionárias falcatruas petistas (e de aliados) na Petrobrás, não há outra saída senão a de tentar desmoralizar o instrumento da delação premiada (ainda que Dilma o tenha elogiado no último debate com Aécio na Band).
Quanto aos factos revelados... são apenas factos.
Quanto aos factos revelados... são apenas factos.
quarta-feira, 15 de outubro de 2014
terça-feira, 14 de outubro de 2014
Bolsa família e outras bolsas
Não conheço o município de Maricá,
no estado brasileiro do Rio de Janeiro.
Se mal ouvi falar dele, agora ouvi
falar mal dele.
Dele não. De sua elite. Elite
política. E um bocadinho econômica, também.
Lá vem mais um petista falar mal da
elite, dirá um eventual leitor, apressado.
Só que neste caso a tal elite é toda
do Partido dos Trabalhadores (PT).
Acontece que minha mulher foi ao Brasil
visitar familiares. Ficou na cidade do Rio de Janeiro.
Como em tempos idos viveu em Niterói,
foi passar um fim de semana em casa de amigas que moram em Maricá.
Amigas de vida simples, muito simples.
E de olhos e ouvidos muito atentos.
Contaram histórias apimentadas sobre a
tal elite política de Maricá.
Tão apimentadas que resolvi conferir
antes de passar adiante.
Pelo que pude verificar por meio da
Internet, tudo que disseram é verdadeiro. Até alguma coisa é já
pública. Eu é que não sabia de nada.
O prefeito de Maricá é o senhor
Washington Luiz Cardoso Siqueira. Mas podem chamar de Washington
Quaquá. É, digamos, seu nome de guerra.
Reeleito em 2012, foi condenado a ficar
oito anos inelegível, pelo Tribunal Regional Eleitoral. E condenado
duas vezes. Uma por ter aumentado em até 100% o salário dos
servidores municipais 55 dias antes das eleições (a lei não
permite isso dentro dos 90 dias anteriores à eleição). Outra vez
por ter enviado mais de onze mil telegramas a eleitores convidando-os
ao lançamento de um programa “Renda Melhor”., não constante do
orçamento. Não se apoquentou com tamanho castigo. E continua a
incorrer em delitos semelhantes a esses. Já chegaremos lá.
Não contente em ser prefeito de
Maricá, ele é também o presidente estadual do PT no Rio de
Janeiro.
Mais: sua esposa, Rosângela Zeidan,
que no Facebook aparece como casada e na ficha de deputados estaduais
eleitos agora em 2014 apresenta-se como divorciada, teve votação
expressiva que lhe garantiu uma folgada eleição para a Assembléia
Estadual do Rio de Janeiro. Já veremos como isso se tornou assim tão
fácil.
Por fim, uma eminência parda para
coroar toda a história: Lurian Lula da Silva. Ela mesma. A filha do
impoluto ex-presidente em exercício.
Deixemos em segundo plano as questões
picantes, que falam de relações extra-conjugais, de resto segredos
de polichinelo na cidade.
A questão que me parece central, aqui,
é a criação do cartão cidadão e da – como é mesmo? - moeda
eletrônica social Mumbuca. Ao par com o Real (um mumbuca = um real),
essa moeda recebeu esse nome em homenagem ao bairro Mumbuca, situado
na margem norte do Lago de Maricá, de onde é Quaquá. Por
coincidência o bairro em que vivem as minhas fontes.
O citado cartão dá a seu possuidor o
direito de consumir noventa reais por mês (segundo o sítio da
Prefeitura na Internet, seriam R$ 85,00. Tanto faz) e para exercer
tal direito o feliz possuidor do cartão dispõe de uma vasta rede de
lojas espalhadas por toda a cidade.
Só não consegui saber, no sítio da
Prefeitura nem em qualquer lugar da Internet, como se faz para
tornar-se beneficiário do tal cartão.
Acontece que uma das amigas de minha
mulher é a feliz possuidora de um desses cartões. E explicou: basta
você se apresentar à Prefeitura e exibir seu título de eleitor
para provar que você vota no município. Agora na época anterior às
eleições do dia 5 de Outubro o cidadão além de receber seu cartão
era sutilmente informado de que o benefício seria extinto caso a
primeira dama não fosse eleita.
Essa mesma amiga comentou que não
votou na esposa de Quaquá por já ter a certeza de que ela teria uma
enorme votação. Caso tivesse alguma dúvida quanto a isso, votaria
nela.
A entrega dos cartões é sempre feita
com muito estardalhaço, em cerimônias públicas.
Por fim: qual a relação de Lurian com
tudo isso?
Ela não só reside em Maricá como é
também amicíssima da neodeputada Zeidan, a primeira dama.
São tão amigas que Zeidan foi viver
na mansão de Lurian.
Elite é isso.
sexta-feira, 10 de outubro de 2014
Vacilações de alguém de dupla nacionalidade
Sou brasileiro e português. Vivo em Portugal há pouco mais de três anos. Vivi mais de sessenta no Brasil.
Vivo hoje um dilema. Se tento abrir os olhos dos portugueses aos perigos que o Brasil apresenta - e aos que, infelizmente, os brasileiros aqui residentes podem nos submeter - estou a dar tiro no pé.
Antes me incomodava a admiração que os portugueses devotavam ao Brasil. A seus sítios, a seus artistas etc e tal.
Até que amigo meu, português de nascença, mas que conhece bem o Brasil, alertou-me:
-Não é bem assim. Os portugueses são gentis. Tratam bem os brasileiros mas têm noventa e nove pezinhos atrás, tal qual a centopeia, em relação a eles.
Fiquei um bocadinho mais sossegado. Mas me dei conta da hostilidade invisível que me rodeia.
No Brasil, alardeia-se que português é sinônimo de burro.
Em Portugal, preza-se muito o Brasil, afagam-se os brasileiros. mas no íntimo todo português sabe que lida com material radioativo.
segunda-feira, 6 de outubro de 2014
Por que votar em Aécio Neves na segunda volta das eleições brasileiras
Digo logo que entendo ser difícil a
vitória de Aécio.
Talvez seja minha vocação de pender
para os mais fracos. Talvez um certo masoquismo Quem sabe.
Mas gostaria que ele ganhasse essas
eleições no Brasil.
Já lá não vivo, mas de lá dependo.
Então há que pensar na sobrevivência.
Por falar em sobrevivência, gostaria
que ele ganhasse também para ver esses milhares e milhares de
petistas que enfrentaram esses últimos doze anos encastelados em
sinecuras, umas mais rentáveis, outras mais humildes, mas todas
dadivosas, a preparar seus currículos e a buscar colocação no
mercado.
Vamos lá, amigos!
Lembrar como é dura a vida no mundo
capitalista.
Caso Aécio perca, paciência.
Continuaremos a sustentar essa malta.
Além do mais, seria satisfatório
voltar a ver o PT em sua versão antiga, udenista, de defensor de
nossos valores morais e de nossas instituições.
Caso tal despropósito ocorra, a
derrota do PT, pensarei seriamente em votar em deputados petistas nas
próximas eleições. Eles serão nossa garantia de uma oposição
acirrada e impiedosa. A acusar os desmandos do Poder Executivo.
Como seria bom, ter uma oposição
assim combativa.
E menos bocas a sustentar.
terça-feira, 30 de setembro de 2014
Conversa mole em tarde de domingo
Já Caetano Veloso, em sua composição
Língua, dizia:
“Gosto
de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar “
Gosto de ser e de estar “
a
recordar que o Português tem esses dois verbos que outras línguas
fundem apenas em “to be” ou em “être”.
No
último número da revista portuguesa Visão, o humorista Ricardo
Araújo Pereira lembra:
“Embora
os franceses e os ingleses, aparentemente, não o saibam, ser bêbado
é muito diferente de estar bêbado."
No
Brasil, houve um ministro da Educação, final da década de 70 e
início dos anos 80, Eduardo Portella, que cunhou uma frase tornada
famosa:
“Não
sou ministro. Estou ministro.”
O
“ser” indica permanência.
O
“estar” conota transitoriedade.
Mas
na conversa deste domingo com primos, depois de um magnífico almoço
na aldeia em casa de Zelinda e Alípio, um deles mencionou o
comentário de um inglês com o qual exercitava a conversação em
língua inglesa:
-
Mas em Português fala-se “ele está morto”. Por que não “ele
é morto” ?
domingo, 28 de setembro de 2014
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
Brasil: Por que votar em Dilma
Neste final de campanha eleitoral no Brasil, pipocam em páginas da Internet textos de variadas figuras, algumas bem conhecidas, outras com imensa vontade de o serem, a explicar por que irão votar em Dilma.
Há um aspecto nisso que é de irrecusável aceitação:
Uma atitude dessas exige mesmo explicação.
terça-feira, 23 de setembro de 2014
Cognacthèque
Quando estive, há dois anos, em
Cognac, descobri algo que se me viesse à imaginação eu mesmo diria
tratar-se de wishful thinking: a Cognacthèque.
Entrar nela, para mim, foi como entrar
em uma catedral para um fiel.
Ao ver tamanha profusão de cognacs,
lembrei-me de meu saudoso professor Di Tulio. E de como o cognac
acompanhou-me ao longo da vida.
Para Vinicius, o whisky era o cão
engarrafado.
Para Drummond, o cognac deixa a gente
comovido como o diabo. Com a ajuda da Lua.
Para mim, cognac só se deixa empatar
com banana com aveia. São meu néctar e minha ambrosia.
Em 2012, ao voltar da viagem em que
conheci Cognac, tentei fazer um pedido pela Internet. Não fui
atendido. Penso que, na época, só vendiam para a França.
Dia desses resolvi insistir. E
consegui!
Fiquei ainda receoso em relação à
entrega. Daria tudo certo?
Hoje recebi meus cognacs.
Aproveito a oportunidade para convidar
os deuses do Olimpo a virem hoje cá em casa para brindarmos juntos
tão fantástico acontecimento.
segunda-feira, 22 de setembro de 2014
Papo dominical
Hoje foi dia de conversar com meu amigo
Pardal. E conhecer sua esposa, Ana Maria.
Como estavam eles em Foz Coa, a gozar
curtas férias, fui até lá para almoçar e papear.
Eles haviam reservado uma surpresa para
mim. O almoço seria na Quinta Ervamoira, do grupo Ramos Pinto.
Deixei meu carro em Foz Coa e fomos no
carro do Pardal até a aldeia de Muxagata. De lá seguimos, por oito
quilômetros, em um jipe da Quinta por aquilo que Ana Maria negou ser
uma estradinha. E é mesmo um “caminho de cabras”.
Como quase sempre onde há mal há bem,
a dificuldade de acesso à Ervamoira a torna uma relíquia maior.
Almoçamos praticamente ao ar livre,
banhados por uma paisagem de vinhedos e colinas e vinhedos e
colinas... Ervamoira tem algo como 450 mil videiras. E estamos em
plenas vindimas.
Fiquei a saber que há, perto dali, às
margens do rio Coa, afluente do Douro, exemplares abundantes de arte
rupestre que se constituem nos mais antigos registos de atividade de
gravação da história da humanidade. São gravações em pedra
feitos a partir de um passado de 25 mil anos. Representam animais, em
sua maioria. Mas há também alguns desenhos de seres humanos.
Não posso deixar de visitar tal coisa.
Lembrei-me até de uma expressão que
se usa quando se quer dizer que alguém é muito antigo: “não
viveu o dilúvio mas pisou na lama”. De hoje em diante vou preferir
dizer: “não chegou a desenhar nas pedras mas sujou as mãos na
tinta fresca”.
É infame. Admito.
Mas há mais: na própria Quinta
Ervamoira há ruínas de uma aldeia romana do primeiro século da era
cristã. A Ramos Pinto tem planos de restaurá-la. Mas aguarda ter
recursos suficientes para tanto. É trabalho dispendioso.
Visita-se também, na sede da Quinta,
um pequeno museu da casa Adriano Ramos Pinto. Um dos protagonistas da
casa é o Lacrima Christi.
A propósito, conta-me o Pardal que seu
pai costumava dizer:
Se o vinho é o sangue de Cristo, bem
haja quem o matou!
Se a frase me parece saborosa (afinal,
estávamos também próximos à foz do rio Sabor...), talvez pareça
herética aos ouvidos de um cristão fervoroso.
Alto lá! Não pode ser assim. Os
cristãos devem ser gratos aos que crucificaram Jesus. Sem isso não
teríamos a possibilidade da salvação.
E fico a imaginar um Jesus que fizesse
de um tudo para ser sacrificado mas esbarrasse em um Estado
Democrático que não permitisse seu sacrifício. Que o deixasse
fazer seus sermões à vontade.
Isso daria uma boa história.
Mas alguém já deve tê-la posto no
papel.
terça-feira, 9 de setembro de 2014
Debate Costa x Seguro
A TVI, canal aberto de Portugal,
apresentou hoje, no horário do noticiário da noite, um debate entre
os dois candidatos a líder do Partido Socialista (PS), em eleição
do partido que se dará a 28 de Setembro. Como existe a possibilidade
de o PS ganhar as eleições legislativas que se aproximam, quem for
– na altura – líder do PS tornar-se-á Primeiro Ministro (PM) de
Portugal.
Diga-se, desde já, que o debate
conseguiu ser, ao mesmo tempo, bastante flexível e quase totalmente
inútil.
Flexível, ao menos, para um português
brasileiro (eu) acostumado a assistir a debates na TV do Brasil. Não
foi um debate tão engessado como são os debates políticos que a TV
transmite no Brasil.
Mas inútil ou por apresentar o que já
se sabia ou por revelar a absoluta inaptidão para a governança de
ambos os candidatos. Com o perdão da redundância.
Basta dizer que António José Seguro
foi o mais claro e assertivo. E isso é dizer muito a respeito de
António Costa.
Enquanto Costa equilibrava-se em circunlóquios, Seguro foi direto ao ponto. E deixou claro que pretende governar Portugal para gerar mais empregos e fazer crescer a economia.
Enquanto Costa equilibrava-se em circunlóquios, Seguro foi direto ao ponto. E deixou claro que pretende governar Portugal para gerar mais empregos e fazer crescer a economia.
Está claro que pretende que Portugal
se eleve com o puxar dos cordões dos próprios sapatos.
quinta-feira, 4 de setembro de 2014
O individualismo das Esquerdas e o culto à personalidade
Já meu opinador preferido, em
Portugal, Alberto Gonçalves, dizia dia desses, ironicamente, da
existência cá na terrinha de “setenta agremiações destinadas a
unir a esquerda”.
Em toda parte, a esquerda tem uma
irresistível tendência a subdividir-se em grupelhos, partições
essas que tendem a igualar o número de agremiações de esquerda ao
número de militantes dela.
O antídoto a tal força centrífuga
vem a ser o culto à personalidade.
Assim como o indivíduo que admira suas
virtudes e deplora seus defeitos idealiza um ser dotado das primeiras
e livre dos segundos e o chama Deus, o socialista imagina seu próprio
individualismo levado ao limite e passa a venerar algum Pai dos
Povos.
Não há socialismo sem culto à
personalidade. É esse culto a força centrípeta que torna possível
a existência de partidos de esquerda, de movimentos de esquerda rumo
ao poder. Não fora ele, e o socialismo se dissolveria em lenines
individuais.
Marx, Lenin, Stalin, Mao, Fidel,
Guevara foram algumas dessas forças de gravidade a conseguir reunir
seguidores que compatibilizavam – graças ao culto a esses ídolos
– seus pequenos grandes individualismos com o paroxismo
individualista desses Pais dos Povos.
Até mesmo a América do Sul produziu
seus arremedos de Guias Geniais dos Povos. No Brasil o esperto Lula;
na Venezuela o caricatural Chavez.
Resta saber quais elementos da doutrina
socialista levam a esse individualismo exacerbado de seus adeptos.
Neste pequeno texto ficaremos apenas com a constatação factual de
tal característica. Paradoxal mas verdadeira.
terça-feira, 2 de setembro de 2014
Forças plasmadoras do futuro brasileiro – 2
Escrevi há um mês em meu blogue
a respeito dos dois polos que considero serem os que vão modelar o
futuro do Brasil: o Partido dos Trabalhadores (PT) e suas franjas
sindicais, estudantis e intelectuais de um lado e, de outro, os
evangélicos sob a predominância ideológica dos neopentecostais.
Em primeiro lugar, saliento que o facto
da evangélica Marina Silva ter sido guindada à posição de
candidata à Presidência da República não é – necessariamente –
algo que aponte na direção da polarização de que falo. Aliás,
publiquei o texto sobre esse assunto mais de uma semana antes da
morte de Eduardo Campos. Além disso, é curioso notar que tanto
Dilma Rousseff quanto Marina Silva não são representantes “pura
gema” das duas correntes por mim mencionadas. Dilma bandeou-se para
o PT tardiamente e até hoje enfrenta um ambiente um bocadinho hostil
em seu novo partido. Marina Silva teve formação católica e só bem
mais tarde tornou-se evangélica. Também não é prata da casa.
Contudo, tenho a convicção de que,
mais adiante, a polarização que indico tornar-se-á mais nítida.
Mas ela já atua nos subterrâneos dos
costumes brasileiros. E quero, agora, colocar em relevo as razões
que levam tal polarização, por exemplo, a uma exacerbação da
corrupção.
Diga-se logo que corrupção é algo
que existe em absolutamente todos os países e lugares. Daí, quando
me ponho a discutir a corrupção no Brasil, discuto – na verdade –
as razões que tornam a corrupção brasileira notável. Notável
pelo volume de recursos que movimenta, notável pela quase total
impunidade de seus atores, notável pela leniência do povo, em
geral, em relação a ela.
Pois bem: penso que esse ambiente
favorável à corrupção (melhor diria: ambiente incentivador da
corrupção) decorre de uma característica comum aos dois polos
plasmadores da brasilidade no atual momento histórico.
Essa característica é: os dois polos
em questão não têm apreço verdadeiro pela sociedade em que vivem.
O PT e suas franjas têm,
programaticamente, o socialismo como horizonte. Convivem com uma
sociedade capitalista apenas enquanto não têm forças para
destruí-la.
Os evangélicos enxergam nossa
sociedade como aquilo que eles chamam, pejorativamente, “o mundo”.
Algo no qual são obrigados a viver até que possam desfrutar da vida
eterna.
Diga-se, de passagem, que mesmo assim
nenhum dos dois polos despreza a boa vida desta sociedade podre. A
esquerda é cada vez mais caviar e os evangélicos são cada vez mais
adeptos da prosperidade. Mas dispõem-se a lutar pelo pão de cada dia
com quaisquer armas, uma vez que a sociedade real não lhes impõe
respeito.
Daí a impetuosidade em burlar as
regras de uma tal sociedade. Daí a justificativa para a voracidade
predatória: afinal, ao corrompermos a sociedade nós estamos a
contribuir para sua derrocada final.
A corrupção apressa o apocalipse.
Seja ele terreno ou celestial.
domingo, 31 de agosto de 2014
Espiritismo e Antroposofia - 07
Nos textos anteriores procurei resumir
o modo de conhecimento do mundo espiritual de cada um desses
segmentos dedicados a conhecê-lo.
Apresentei esse resumo quase todo entre
aspas. Como não sou adepto de nenhum desses dois grupos, deixei que
seus líderes falassem.
Agora que já apresentei a questão
como vista por Kardec e por Steiner, posso me permitir resumir o
resumo.
Para Kardec, o contacto dos Espíritos
com os humanos é feito por intermédio de pessoas dotadas de
condições especiais, quase sempre não permanentes, pessoas essas
chamadas médiuns. E a decisão de estabelecer contacto é sempre dos
Espíritos. Eles é que decidem se querem ou não comunicar-se com os
humanos.
Kardec alerta para a dificuldade
cognitiva causada por espíritos inferiores, pois tais espíritos se
comprazem em mentir para os humanos e em enganá-los das mais
variadas formas. Segundo ele, é preciso não descurar do juízo
crítico para não ser enganado por tais espíritos malévolos.
Para Steiner, o conhecimento dos mundos
superiores pode ser efetuado, em princípio, por qualquer indivíduo.
Basta que a pessoa se dedique a determinados exercícios que a
levarão à ativação dos – por assim dizer – sentidos
espirituais, por meio dos quais ela “verá” e “ouvirá” os
mundos superiores (o anímico e o espiritual). Antes de atingir tal
condição de clarividência, a pessoa pode fiar-se nos relatos dos
mestres que já a alcançaram. Como, por exemplo de excelência,
aceitar as descrições que dos mundos superiores faz o próprio
Steiner.
Fiquemos, por agora, apenas na questão
epistemológica. Ainda não entraremos na questão da própria
constituição do mundo espiritual. Basta antecipar que ela é muito
diferente nas concepções do Espiritismo e da Antroposofia. O que
nos deixa na necessidade lógica de concluir que uma dessas correntes
está a ver um mundo espiritual falso. Ou, quem sabe?, sejam ambas
falsas. O que não é possível aceitar sem que se assassine a lógica
é que ambas sejam verdadeiras, já que totalmente distintas.
Neste texto, vou comentar apenas uma
questão ligada ao Espiritismo. E de caráter epistemológico.
Como o próprio Kardec enfatiza, é
preciso tomar muito cuidado com as comunicações dos Espíritos. É
necessário submetê-las sempre a análises comparativas, racionais,
antes de concluir pela veracidade ou autenticidade das mesmas.
As mais importantes dessas comunicações
me parecem ser as psicografadas. Um Espírito, que se identifica como
sendo o espírito de alguém que já viveu cá na Terra, dita a um
médium um texto qualquer. Segundo o próprio Kardec, não se pode
aceitar tal comunicação sem uma análise crítica da mesma. É aí
que a porca torce o rabo.
Vejamos, rapidamente, três casos de
textos psicografados.
O primeiro que quero mencionar é o
texto que o próprio Kardec adicionou a uma de suas obras
fundamentais: A Gênese. São umas quarenta páginas ditadas por
Galileu.
Já falei sobre isso em meu blogue, no
texto Kardec e Galileu.
Ora, só me parece importante receber
uma comunicação de alguém do calibre de Galileu se for para que
ele nos auxilie com suas luzes a compreender melhor o mundo. Acontece
que as tais quarenta páginas são um amontoado de lugares comuns e
obviedades, além de permitirem que Kardec acrescente a elas Notas
Explicativas em que afirma absurdos como o de que o lado oculto da
Lua é dotado de uma população e como o de que a peste bubônica é
resultado de fluidos que contaminam as pessoas. Apenas
26 aninhos depois, em 1894, Alexandre Yersin isolou a bactéria
responsável pela peste bubônica, que recebeu nome em sua homenagem:
Yersinia Pestis.
Era
de esperar-se que, se os seres superiores não deixavam Galileu
esclarecer a Humanidade sobre tais assuntos, ao menos permitissem que
ele sussurrasse aos ouvidos de Kardec para abster-se de emitir tais
bobagens.
Outro
texto psicografado que entendo ser um total absurdo é um atribuído
à tal albanesa conhecida como Madre Teresa de Calcutá.
Também
já falei em meu blogue a respeito do livro de Christopher Hitchens,
The Missionary Position – Mother Teresa in Theory and Practice. Ele
demonstra com riqueza de detalhes e de documentos que Anjezë
Gonxhe Bojaxhiu
– mais conhecida como Madre Teresa – não foi propriamente um
modelo a ser seguido. Não vou entrar em detalhes. Quem quiser leia o
livro. Parece que existe em Português.
Como
o (a) médium que psicografou o texto dela não conhecia quem de
facto era ela, conhecia apenas a lenda que em torno dela se
construiu, comunicou ao mundo um texto do qual escorre mel e bondade.
Penso que mesmo Kardec talvez desconfiasse de tal comunicação. Mas
esse texto psicografado corre mundo e deixa os devotos arrepiados
diante de tamanha santidade. Não tenho certeza, mas me parece que há
outros textos dela também psicografados. Todos – de certeza –
devem exalar perfumes florais. Acredite quem quiser.
Por
fim, quero me referir ao texto psicografado que considero o mais
grave de todos. Trata-se da vida de Jesus ditada por Ele mesmo.
São
umas quatrocentas páginas que, digo logo, não consegui ler até o
fim, recheadas de platitudes e de bobagens mesmo.
Tudo
bem, podem dizer que isso é apenas a minha opinião. E é mesmo.
Mas
o que mais me chamou a atenção foi: se eu fosse cristão, ou mesmo
apenas um grande admirador do Cristo, e me visse diante de uma
autobiografia dEle, quereria sorver suas palavras imediatamente, sem
intermediários.
Pois
bem. O livro que traz essa vida de Jesus por ele mesmo tem prefácios,
introduções e apresentações escritas por várias pessoas e que
ocupam as primeiras setenta páginas do livro.
Pra
mim, isso me basta. A mim, isso diz tudo sobre o Espiritismo.
Mas,
como sou teimoso, continuarei no tema.
Para
irritação de meus amigos que detestam ter de pensar sobre tais
assuntos.
quarta-feira, 27 de agosto de 2014
Getúlio Vargas
Foi numa dessas casas da rua Dom Lara,
em Santos, São Paulo, Brasil, aí no centro da imagem, na qual vivi
meu nono ano de vida, que vi chegar junto ao portão, naquele tempo
baixo como o muro em que se apoiava, Regina Evangelista, uma garota
que talvez não tivesse ainda dezoito anos, filha do grande ponta
esquerda Evangelista, da linha dos cem gols do Santos F.C. de 1.935
(Siriri, Camarão, Feitiço, Araken e Evangelista).
Era a manhã do dia 24 de Agosto de
1.954 e eu jogava botão no chão da entrada da casa de meus pais.
Regina vinha a chorar. Pediu que eu chamasse minha mãe e informou a
ela:
- Getúlio morreu. Suicidou-se.
Minha mãe fez uma expressão de
perplexidade e as lágrimas começaram a lhe cair rosto abaixo. Do
restante não me lembro.
Getúlio significava, para minha mãe,
vim a saber mais tarde, a tábua de salvação do irmão que perdera
braço e perna esquerdos aos quatro anos de idade, em desastre
ferroviário em que faleceu o avô deles, por tentar salvar o neto.
Salvou-lhe a vida, mas não conseguiu impedir que ela se tornasse
mais difícil.
Minha mãe, meu tio já um jovem,
entrou na fila que se formava às terças-feiras diante do Palácio
do Catete, sede do governo federal, para ser atendida pela
primeira-dama e pedir-lhe que arranjasse um lugar para meu tio no
serviço público. Darcy Vargas colocou-o na Central do Brasil e lá
ele trabalhou até se aposentar. Vive cercado por seus vários filhos
até hoje, aos noventa e um anos.
Não é de estranhar-se que minha mãe
tivesse por Getúlio uma infinita gratidão. E, com ela, grande parte
do povo brasileiro. Ele que, depois de ter sido ditador, foi levado
de volta ao poder central pelo voto popular.
Tenho a impressão de que Getúlio não
se encaixaria, hoje, na política brasileira. Não haveria para ele
lugar. Assim como não haveria lugar no futebol brasileiro para
Evangelista e os demais campeões paulistas de 1.935.
quarta-feira, 20 de agosto de 2014
Espiritismo e Antroposofia - 06
A comunicação com o mundo espiritual
– a intuição
“A expressão 'intuição' se presta
facilmente a mal-entendidos, pois aqueles que têm fantasia ou
disposições poéticas também a empregam para designar as
impressões sentimentais que têm do mundo. Porém esta é uma
intuição confusa, apenas sentida. Nem por isso deixa de ter alguma
afinidade com o que chamo de intuição. Pois assim como enquanto ser
terrestre o homem possui a percepção por meio dos sentidos, por
meio do sentimento e da vontade terrestres ele recebe um reflexo da
intuição, modalidade suprema da cognição. (…) Como ser
terrestre o homem possui, de fato, algo do que há de mais baixo e,
ao mesmo tempo, um reflexo do que existe de mais elevado, acessível
só à intuição. Faltam-lhe as regiões do meio, e estas ele deve
conquistar por intermédio da imaginação e da inspiração. A
intuição, com sua interioridade luminosa e pura, também deve ser
adquirida, mas uma reprodução terrena desta intuição já se
encontra no sentimento moral e no conteúdo da consciência ética.”
“O terceiro grau da cognição
superior, imprescindível para se alcançar a região da intuição,
só pode ser atingido pelo mais perfeito desenvolvimento de uma
capacidade interior que a nossa era materialista nem considera como
força de conhecimento. Com efeito, é a capacidade de amar, que deve
ser desenvolvida e espiritualizada ao máximo para se poder chegar
àquilo que se revela pela intuição. (…) Ora, um certo preparo
para aquela capacidade de amor espiritualizado se realiza quando nos
livramos, de certa maneira, de tudo o que nos prende às coisas
exteriores – por exemplo, quando fazemos regularmente um exercício
que consiste em representar os acontecimentos por nós vividos, não
em sua sequência normal, mas seguindo o curso oposto (…) por
exemplo, se subimos uma escada, imaginando estarmos no último
degrau, depois no penúltimo, isto é, representando descer para trás
o que na realidade realizamos subindo. (…) representemos o subir e
o descer da escada em sentido contrário; primeiro o descer, depois o
subir, da forma indicada. Fazendo isso, vamos adquirindo uma certa
mobilidade interior até finalmente conseguirmos imaginar o decurso
inteiro do dia, dentro de três ou quatro minutos.”
“Todavia essa é apenas uma parte –
eu diria a parte negativa daquilo que devemos realizar para
intensificar e aperfeiçoar aquela capacidade espiritual de amar.
Ora, essa capacidade deve chegar até o ponto em que acompanhemos com
nosso amor todo o crescimento de uma planta (na vida comum apenas
observamos seu crescimento espacial, sem dele participar); devemos
participar intimamente de tudo o que se manifesta no desabrochar
vegetal, mergulhando para dentro da planta, identificando-nos
animicamente com ela, crescendo, florescendo, frutificando como se
fôssemos ela mesma, de forma a amá-la tanto quanto amamos a nós
próprios. Daí devemos ascender, de forma análoga, à representação
do animal e descender à do mineral; deveríamos sentir como a
substância mineral toma a forma de um cristal e desenvolver um certo
prazer íntimo ao vivenciar, desse modo, a formação de todas
aquelas faces, arestas e cantos; ao mesmo tempo, temos como que um
sentimento de dor a nos atravessar quando o mineral é destruído ou
desintegrado. Não só com o sentimento, mas também com a vontade
deveríamos, dessa forma, identificar-nos com tudo o que acontece na
natureza.”
“Mas esse esforço deve ser precedido
pelo desenvolvimento de uma capacidade de amor que abranja todos os
homens. Não poderemos amar a natureza, da forma descrita, sem antes
termos conquistado essa capacidade de amar a todos. Quando, por fim,
chegarmos ao ponto de sentir esse amor cheio de compreensão para com
os homens e para com toda a natureza, aquilo que antes nos era
perceptível como cores da aura, como música das esferas, toma forma
e revela, por seus contornos, a existência de autênticos seres
espirituais.”
“Todavia, a vivência desses seres
espirituais é diferente da maneira como vivemos as coisas físicas.
(…) Não é dessa forma que se vivencia um ser espiritual. Para tal
devemos 'mergulhar' totalmente nele, aplicando a capacidade de amar
desenvolvida ao contato com a natureza. A intuição espiritual só é
possível mediante as forças do amor desenvolvido para com a
natureza e no silêncio obtido pelo vazio da consciência. Imaginem
os Amigos que tenham desenvolvido essa capacidade de amar em contato
com minerais, plantas, animais e homens. Em seu íntimo reina a
consciência vazia, aquela tranquilidade negativa. Os Senhores sentem
o sofrimento que está na base de toda a existência cósmica; ela é,
ao mesmo tempo, a dor da solidão. Nada existe ainda. Mas o impulso
infinitamente diferenciado de amor os leva a permear com seu próprio
ser tudo o que se manifesta na inspiração, através da visão e da
audição que descrevemos. Aí conseguimos penetrar num ser,
identificar-nos com outro.”
“Temos a vivência num mundo
espiritual concreto da mesma forma como a visão, o tato e o sentido
do calor nos proporcionam a experiência de um mundo físico
concreto. Mas é preciso ter chegado a esse nível caso se queira
adquirir o conhecimento de algo particularmente importante para o
homem. Já expus que a inspiração faz entrar em nossa alma nossa
experiência pré-terrestre e puramente espiritual; que é pela
inspiração que vimos a saber o que éramos antes de descer, por
meio da comcepção, a um corpo terrestre. Quando aptos, devido ao
impulso de amor, a penetrar como clarividentes nos mundos
espirituais, temos a revelação daquilo que torna completa a
autovivência do homem. Revela-se aquilo que precede nossa estada no
mundo espiritual, revela-se o que éramos antes de ascender, entre a
última morte e o novo nascimento, à última existência espiritual.
Revela-se nossa vida terrestre passada e, pouco a pouco, as outras
vidas terrestres precedentes. Pois esse verdadeiro eu, presente em
sucessivas vidas terrestres, só pode manifestar-se quando a
capacidade de amar é intensificada a tal ponto que o outro ser na
natureza ou no mundo espiritual se nos torna tão caro como o somos
para nós mesmos, movidos por amor-próprio.”.
“A vida terrestre completa consiste,
pois, numa sequência de passagens limitadas por nascimentos e
mortes, com existências intermediárias em mundos puramente
espirituais. O conhecimento disso, real e adquirido por experiência
própria, só se pode conseguir pela intuição.”.
sábado, 16 de agosto de 2014
O filme
Muitas vezes já se disse que, na
iminência da morte, a pessoa vê passar diante de si um filme sobre
sua vida. Uma espécie de Vale a Pena Ver de Novo.
Em minhas leituras de Rudolf Steiner,
constato que, para ele, esse filme é o que primeiro acontece com
quem morre.
Não tenho a menor intenção de morrer
já. Aliás, nem daqui a algum tempo.
Mas gostaria imenso de poder assistir a
esse filme.
Cada vez mais percebo as limitações
de minha memória.
Há dez anos, por exemplo, comecei a
escrever em meu blogue a respeito de minha militância política e –
principalmente – a respeito de minha prisão e de minha
sobrevivência no cárcere. Mas, aos poucos, minha memória começou
a esgotar seu conteúdo a respeito.
Por sorte, antigos companheiros de
militância descobriram meu blogue e reatámos nossos contactos.
Passei a desfrutar com eles algumas rodadas de chopps (/finos) e eles me
ajudaram a reavivar em minha memória factos que, para mim, estavam totalmente esquecidos.
Isso me levou a escrever novos textos
sobre velhos episódios. Até que um amigo dos tempos de militância
me ligou um dia, aflito:
- Apague, por favor, esse texto de
seu blogue! Ele pode me prejudicar!
Apaguei o texto imediatamente.
Mas, a partir desse incidente, fiquei
como que bloqueado. Minha memória já não me ajuda. E eu não quero
prejudicar, com meus textos, pessoas que admiro (e mesmo as que não
admiro...).
A esquerda é território pantanoso.
Encontram-se nela pessoas dóceis e de boa índole mas que aplaudem o
justiçamento de companheiros, o assassinato de dissidentes. Mesmo
sendo todos pretensamente não stalinistas. Tudo em nome de uma
revolução que não virá.
Quanto ao filme de minha vida, gostaria
de assistir a ele desde o comecinho. E que fosse detalhado,
minucioso. Quereria ver como foi minha infância, como a desfrutei;
ficaria contente em presenciar o que de minha adolescência não
recordo. E é muito.
Meus amores, minhas perdas, meus
temores.
Queria assistir a tudo isso a comer
pipoca doce.
E se depois tivesse de morrer,
morreria satisfeito. Levaria comigo apenas a vontade de viver mais um
bocadinho.
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