quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Linguagem e Eleições

Os marqueteiros do PT são eficazes. Demonstraram isso nesta eleição. Por exemplo, exploraram bem o deslize de Aécio ao chamar Dilma de "leviana", que em algumas regiões do Nordeste, ao que parece, significa "prostituta". Um candidato à Presidência da República, no Brasil, precisa inteirar-se até dos regionalismos linguísticos para não cair em esparrelas desse tipo.
Por outro lado, deixaram escapar oportunidades. Ou por não percebê-las ou por não achar conveniente utilizá-las.
Em todos os debates, Aécio bateu na tecla de que Dilma, como candidata, não apresentara um programa de governo. Ele sim.
Bem que Dilma poderia então dizer, com aquele seu típico ar de enfado:
- Candidato... meus parabéns por você ser um garoto de programa.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Ainda as eleições brasileiras

Apenas esse gráfico serve para mostrar que não existiu, nessa eleição, nenhuma divisão Norte - Sul ou qualquer outra desse tipo. Imaginem, então, se esse gráfico fosse subdividido por municípios. Mais ainda por zonas eleitorais etc. Ficaria todo pintadinho de vermelho e azul alternadamente.



Melhor ainda seria que lessem Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre. Entenderiam como os portugueses, ao contrário dos espanhóis, souberam desenhar esse colosso nas Américas. Deram-lhe unidade e personalidade. Criaram uma nação a partir dos três grupos étnicos que a compuseram. Índios, portugueses e negros se amalgamaram e propiciaram a assimilação de imigrantes de várias partes do mundo que vieram desfrutar esse país continente.
Dividi-lo não faz o menor sentido. Não respeita sua História.
É preciso aprimorá-lo.
Está difícil? Ninguém disse que seria fácil.

sábado, 25 de outubro de 2014

O primeiro piano de Cesar Camargo Mariano

Terminei de ler as Memórias desse músico notável. São quase quinhentas páginas de uma leitura muito agradável. Penso apenas que o livro deveria chamar-se Memórias Musicais, pois é evidente a intenção de Cesar de falar quase tão só de suas vivências ligadas à música.

O que se segue não substitui a leitura do livro. Cesar Camargo Mariano escreve quase tão bem quanto toca.



Ao completar 13 anos, ganhou seu primeiro piano. O pai instalou o dito cujo em casa de modo a que fosse uma surpresa para o aniversariante.

Ao ver o piano e ser informado de que era seu presente de aniversário, ele – que jamais encostara em qualquer piano – sentou-se à frente do seu e começou a tocar. No dizer dele:

“Eu estava tocando firme, com a sonoridade e a definição bem perto das que eu tenho hoje em dia. Não me lembro de que música era... talvez estivesse compondo... não sei... só sei que eu não conseguia parar de tocar...”

Seu pai caiu ao chão, abatido por um infarto que o manteria no hospital por 48 dias.


O pai dele, que era kardecista, entendeu aquilo como sendo a demonstração de que Cesar era a reencarnação de algum músico.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Contra factos, inventam-se argumentos

Quando do julgamento da Ação penal 470 ("mensalão"), os petistas e seus repetidores na imprensa, por não poderem negar os factos, passaram a travar uma discussão jurídica a respeito da tal "teoria do domínio do fato".(que, cá em Portugal, pode ser confundida com a defesa de uma predominância da moda  ). Isso por ter sido essa teoria um dos elementos justificadores da condenação de alguns medalhões petistas.
Agora que a delação premiada começa a revelar as multimilionárias falcatruas petistas (e de aliados) na Petrobrás, não há outra saída senão a de tentar desmoralizar o instrumento da delação premiada (ainda que Dilma o tenha elogiado no último debate com Aécio na Band).
Quanto aos factos revelados... são apenas factos.


terça-feira, 14 de outubro de 2014

Bolsa família e outras bolsas


Não conheço o município de Maricá, no estado brasileiro do Rio de Janeiro.
Se mal ouvi falar dele, agora ouvi falar mal dele.
Dele não. De sua elite. Elite política. E um bocadinho econômica, também.

Lá vem mais um petista falar mal da elite, dirá um eventual leitor, apressado.
Só que neste caso a tal elite é toda do Partido dos Trabalhadores (PT).

Acontece que minha mulher foi ao Brasil visitar familiares. Ficou na cidade do Rio de Janeiro.
Como em tempos idos viveu em Niterói, foi passar um fim de semana em casa de amigas que moram em Maricá.
Amigas de vida simples, muito simples. E de olhos e ouvidos muito atentos.
Contaram histórias apimentadas sobre a tal elite política de Maricá.
Tão apimentadas que resolvi conferir antes de passar adiante.
Pelo que pude verificar por meio da Internet, tudo que disseram é verdadeiro. Até alguma coisa é já pública. Eu é que não sabia de nada.

O prefeito de Maricá é o senhor Washington Luiz Cardoso Siqueira. Mas podem chamar de Washington Quaquá. É, digamos, seu nome de guerra.
Reeleito em 2012, foi condenado a ficar oito anos inelegível, pelo Tribunal Regional Eleitoral. E condenado duas vezes. Uma por ter aumentado em até 100% o salário dos servidores municipais 55 dias antes das eleições (a lei não permite isso dentro dos 90 dias anteriores à eleição). Outra vez por ter enviado mais de onze mil telegramas a eleitores convidando-os ao lançamento de um programa “Renda Melhor”., não constante do orçamento. Não se apoquentou com tamanho castigo. E continua a incorrer em delitos semelhantes a esses. Já chegaremos lá.

Não contente em ser prefeito de Maricá, ele é também o presidente estadual do PT no Rio de Janeiro.

Mais: sua esposa, Rosângela Zeidan, que no Facebook aparece como casada e na ficha de deputados estaduais eleitos agora em 2014 apresenta-se como divorciada, teve votação expressiva que lhe garantiu uma folgada eleição para a Assembléia Estadual do Rio de Janeiro. Já veremos como isso se tornou assim tão fácil.

Por fim, uma eminência parda para coroar toda a história: Lurian Lula da Silva. Ela mesma. A filha do impoluto ex-presidente em exercício.

Deixemos em segundo plano as questões picantes, que falam de relações extra-conjugais, de resto segredos de polichinelo na cidade.




A questão que me parece central, aqui, é a criação do cartão cidadão e da – como é mesmo? - moeda eletrônica social Mumbuca. Ao par com o Real (um mumbuca = um real), essa moeda recebeu esse nome em homenagem ao bairro Mumbuca, situado na margem norte do Lago de Maricá, de onde é Quaquá. Por coincidência o bairro em que vivem as minhas fontes.

O citado cartão dá a seu possuidor o direito de consumir noventa reais por mês (segundo o sítio da Prefeitura na Internet, seriam R$ 85,00. Tanto faz) e para exercer tal direito o feliz possuidor do cartão dispõe de uma vasta rede de lojas espalhadas por toda a cidade.

Só não consegui saber, no sítio da Prefeitura nem em qualquer lugar da Internet, como se faz para tornar-se beneficiário do tal cartão.

Acontece que uma das amigas de minha mulher é a feliz possuidora de um desses cartões. E explicou: basta você se apresentar à Prefeitura e exibir seu título de eleitor para provar que você vota no município. Agora na época anterior às eleições do dia 5 de Outubro o cidadão além de receber seu cartão era sutilmente informado de que o benefício seria extinto caso a primeira dama não fosse eleita.
Essa mesma amiga comentou que não votou na esposa de Quaquá por já ter a certeza de que ela teria uma enorme votação. Caso tivesse alguma dúvida quanto a isso, votaria nela.
A entrega dos cartões é sempre feita com muito estardalhaço, em cerimônias públicas.

Por fim: qual a relação de Lurian com tudo isso?
Ela não só reside em Maricá como é também amicíssima da neodeputada Zeidan, a primeira dama.
São tão amigas que Zeidan foi viver na mansão de Lurian.

Elite é isso.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Vacilações de alguém de dupla nacionalidade


Sou brasileiro e português. Vivo em Portugal há pouco mais de três anos. Vivi mais de sessenta no Brasil.
Vivo hoje um dilema. Se tento abrir os olhos dos portugueses aos perigos que o Brasil apresenta - e aos que, infelizmente, os brasileiros aqui residentes podem nos submeter - estou a dar tiro no pé.
Antes me incomodava a admiração que os portugueses devotavam ao Brasil. A seus sítios, a seus artistas etc e tal. 
Até que amigo meu, português de nascença, mas que conhece bem o Brasil, alertou-me:
-Não é bem assim. Os portugueses são gentis. Tratam bem os brasileiros mas têm noventa e nove pezinhos atrás, tal qual a centopeia, em relação a eles.
Fiquei um bocadinho mais sossegado. Mas me dei conta da hostilidade invisível que me rodeia.
No Brasil, alardeia-se que português é sinônimo de burro.
Em Portugal, preza-se muito o Brasil, afagam-se os brasileiros. mas no íntimo todo português sabe que lida com material radioativo.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Por que votar em Aécio Neves na segunda volta das eleições brasileiras


Digo logo que entendo ser difícil a vitória de Aécio.
Talvez seja minha vocação de pender para os mais fracos. Talvez um certo masoquismo Quem sabe.

Mas gostaria que ele ganhasse essas eleições no Brasil.
Já lá não vivo, mas de lá dependo. Então há que pensar na sobrevivência.
Por falar em sobrevivência, gostaria que ele ganhasse também para ver esses milhares e milhares de petistas que enfrentaram esses últimos doze anos encastelados em sinecuras, umas mais rentáveis, outras mais humildes, mas todas dadivosas, a preparar seus currículos e a buscar colocação no mercado.
Vamos lá, amigos!
Lembrar como é dura a vida no mundo capitalista.

Caso Aécio perca, paciência. Continuaremos a sustentar essa malta.

Além do mais, seria satisfatório voltar a ver o PT em sua versão antiga, udenista, de defensor de nossos valores morais e de nossas instituições.

Caso tal despropósito ocorra, a derrota do PT, pensarei seriamente em votar em deputados petistas nas próximas eleições. Eles serão nossa garantia de uma oposição acirrada e impiedosa. A acusar os desmandos do Poder Executivo.

Como seria bom, ter uma oposição assim combativa.


E menos bocas a sustentar.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Conversa mole em tarde de domingo

Já Caetano Veloso, em sua composição Língua, dizia:

Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar “
a recordar que o Português tem esses dois verbos que outras línguas fundem apenas em “to be” ou em “être”.
No último número da revista portuguesa Visão, o humorista Ricardo Araújo Pereira lembra:

Embora os franceses e os ingleses, aparentemente, não o saibam, ser bêbado é muito diferente de estar bêbado."

No Brasil, houve um ministro da Educação, final da década de 70 e início dos anos 80, Eduardo Portella, que cunhou uma frase tornada famosa:

Não sou ministro. Estou ministro.”

O “ser” indica permanência.
O “estar” conota transitoriedade.

Mas na conversa deste domingo com primos, depois de um magnífico almoço na aldeia em casa de Zelinda e Alípio, um deles mencionou o comentário de um inglês com o qual exercitava a conversação em língua inglesa:


- Mas em Português fala-se “ele está morto”. Por que não “ele é morto” ?

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Brasil: Por que votar em Dilma

Neste final de campanha eleitoral no Brasil, pipocam em páginas da Internet textos de variadas figuras, algumas bem conhecidas, outras com imensa vontade de o serem, a explicar por que irão votar em Dilma.

Há um aspecto nisso que é de irrecusável aceitação:

Uma atitude dessas exige mesmo explicação.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Cognacthèque

Quando estive, há dois anos, em Cognac, descobri algo que se me viesse à imaginação eu mesmo diria tratar-se de wishful thinking: a Cognacthèque.

Entrar nela, para mim, foi como entrar em uma catedral para um fiel.
Ao ver tamanha profusão de cognacs, lembrei-me de meu saudoso professor Di Tulio. E de como o cognac acompanhou-me ao longo da vida.
Para Vinicius, o whisky era o cão engarrafado.
Para Drummond, o cognac deixa a gente comovido como o diabo. Com a ajuda da Lua.

Para mim, cognac só se deixa empatar com banana com aveia. São meu néctar e minha ambrosia.

Em 2012, ao voltar da viagem em que conheci Cognac, tentei fazer um pedido pela Internet. Não fui atendido. Penso que, na época, só vendiam para a França.

Dia desses resolvi insistir. E consegui!
Fiquei ainda receoso em relação à entrega. Daria tudo certo?

Hoje recebi meus cognacs.



Aproveito a oportunidade para convidar os deuses do Olimpo a virem hoje cá em casa para brindarmos juntos tão fantástico acontecimento.


segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Papo dominical


Hoje foi dia de conversar com meu amigo Pardal. E conhecer sua esposa, Ana Maria.
Como estavam eles em Foz Coa, a gozar curtas férias, fui até lá para almoçar e papear.

Eles haviam reservado uma surpresa para mim. O almoço seria na Quinta Ervamoira, do grupo Ramos Pinto.
Deixei meu carro em Foz Coa e fomos no carro do Pardal até a aldeia de Muxagata. De lá seguimos, por oito quilômetros, em um jipe da Quinta por aquilo que Ana Maria negou ser uma estradinha. E é mesmo um “caminho de cabras”.
Como quase sempre onde há mal há bem, a dificuldade de acesso à Ervamoira a torna uma relíquia maior.
Almoçamos praticamente ao ar livre, banhados por uma paisagem de vinhedos e colinas e vinhedos e colinas... Ervamoira tem algo como 450 mil videiras. E estamos em plenas vindimas.

Fiquei a saber que há, perto dali, às margens do rio Coa, afluente do Douro, exemplares abundantes de arte rupestre que se constituem nos mais antigos registos de atividade de gravação da história da humanidade. São gravações em pedra feitos a partir de um passado de 25 mil anos. Representam animais, em sua maioria. Mas há também alguns desenhos de seres humanos.
Não posso deixar de visitar tal coisa.

Lembrei-me até de uma expressão que se usa quando se quer dizer que alguém é muito antigo: “não viveu o dilúvio mas pisou na lama”. De hoje em diante vou preferir dizer: “não chegou a desenhar nas pedras mas sujou as mãos na tinta fresca”.

É infame. Admito.

Mas há mais: na própria Quinta Ervamoira há ruínas de uma aldeia romana do primeiro século da era cristã. A Ramos Pinto tem planos de restaurá-la. Mas aguarda ter recursos suficientes para tanto. É trabalho dispendioso.

Visita-se também, na sede da Quinta, um pequeno museu da casa Adriano Ramos Pinto. Um dos protagonistas da casa é o Lacrima Christi.



A propósito, conta-me o Pardal que seu pai costumava dizer:

Se o vinho é o sangue de Cristo, bem haja quem o matou!

Se a frase me parece saborosa (afinal, estávamos também próximos à foz do rio Sabor...), talvez pareça herética aos ouvidos de um cristão fervoroso.
Alto lá! Não pode ser assim. Os cristãos devem ser gratos aos que crucificaram Jesus. Sem isso não teríamos a possibilidade da salvação.

E fico a imaginar um Jesus que fizesse de um tudo para ser sacrificado mas esbarrasse em um Estado Democrático que não permitisse seu sacrifício. Que o deixasse fazer seus sermões à vontade.
Isso daria uma boa história.

Mas alguém já deve tê-la posto no papel.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Debate Costa x Seguro


A TVI, canal aberto de Portugal, apresentou hoje, no horário do noticiário da noite, um debate entre os dois candidatos a líder do Partido Socialista (PS), em eleição do partido que se dará a 28 de Setembro. Como existe a possibilidade de o PS ganhar as eleições legislativas que se aproximam, quem for – na altura – líder do PS tornar-se-á Primeiro Ministro (PM) de Portugal.

Diga-se, desde já, que o debate conseguiu ser, ao mesmo tempo, bastante flexível e quase totalmente inútil.
Flexível, ao menos, para um português brasileiro (eu) acostumado a assistir a debates na TV do Brasil. Não foi um debate tão engessado como são os debates políticos que a TV transmite no Brasil.
Mas inútil ou por apresentar o que já se sabia ou por revelar a absoluta inaptidão para a governança de ambos os candidatos. Com o perdão da redundância.
Basta dizer que António José Seguro foi o mais claro e assertivo. E isso é dizer muito a respeito de António Costa.
Enquanto Costa equilibrava-se em circunlóquios, Seguro foi direto ao ponto. E deixou claro que pretende governar Portugal para gerar mais empregos e fazer crescer a economia.


Está claro que pretende que Portugal se eleve com o puxar dos cordões dos próprios sapatos.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O individualismo das Esquerdas e o culto à personalidade


Já meu opinador preferido, em Portugal, Alberto Gonçalves, dizia dia desses, ironicamente, da existência cá na terrinha de “setenta agremiações destinadas a unir a esquerda”.
Em toda parte, a esquerda tem uma irresistível tendência a subdividir-se em grupelhos, partições essas que tendem a igualar o número de agremiações de esquerda ao número de militantes dela.

O antídoto a tal força centrífuga vem a ser o culto à personalidade.

Assim como o indivíduo que admira suas virtudes e deplora seus defeitos idealiza um ser dotado das primeiras e livre dos segundos e o chama Deus, o socialista imagina seu próprio individualismo levado ao limite e passa a venerar algum Pai dos Povos.

Não há socialismo sem culto à personalidade. É esse culto a força centrípeta que torna possível a existência de partidos de esquerda, de movimentos de esquerda rumo ao poder. Não fora ele, e o socialismo se dissolveria em lenines individuais.
Marx, Lenin, Stalin, Mao, Fidel, Guevara foram algumas dessas forças de gravidade a conseguir reunir seguidores que compatibilizavam – graças ao culto a esses ídolos – seus pequenos grandes individualismos com o paroxismo individualista desses Pais dos Povos.
Até mesmo a América do Sul produziu seus arremedos de Guias Geniais dos Povos. No Brasil o esperto Lula; na Venezuela o caricatural Chavez.


Resta saber quais elementos da doutrina socialista levam a esse individualismo exacerbado de seus adeptos. Neste pequeno texto ficaremos apenas com a constatação factual de tal característica. Paradoxal mas verdadeira.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Forças plasmadoras do futuro brasileiro – 2


Escrevi há um mês em meu blogue  a respeito dos dois polos que considero serem os que vão modelar o futuro do Brasil: o Partido dos Trabalhadores (PT) e suas franjas sindicais, estudantis e intelectuais de um lado e, de outro, os evangélicos sob a predominância ideológica dos neopentecostais.

Em primeiro lugar, saliento que o facto da evangélica Marina Silva ter sido guindada à posição de candidata à Presidência da República não é – necessariamente – algo que aponte na direção da polarização de que falo. Aliás, publiquei o texto sobre esse assunto mais de uma semana antes da morte de Eduardo Campos. Além disso, é curioso notar que tanto Dilma Rousseff quanto Marina Silva não são representantes “pura gema” das duas correntes por mim mencionadas. Dilma bandeou-se para o PT tardiamente e até hoje enfrenta um ambiente um bocadinho hostil em seu novo partido. Marina Silva teve formação católica e só bem mais tarde tornou-se evangélica. Também não é prata da casa.

Contudo, tenho a convicção de que, mais adiante, a polarização que indico tornar-se-á mais nítida.
Mas ela já atua nos subterrâneos dos costumes brasileiros. E quero, agora, colocar em relevo as razões que  levam tal polarização, por exemplo, a uma exacerbação da corrupção.

Diga-se logo que corrupção é algo que existe em absolutamente todos os países e lugares. Daí, quando me ponho a discutir a corrupção no Brasil, discuto – na verdade – as razões que tornam a corrupção brasileira notável. Notável pelo volume de recursos que movimenta, notável pela quase total impunidade de seus atores, notável pela leniência do povo, em geral, em relação a ela.

Pois bem: penso que esse ambiente favorável à corrupção (melhor diria: ambiente incentivador da corrupção) decorre de uma característica comum aos dois polos plasmadores da brasilidade no atual momento histórico.

Essa característica é: os dois polos em questão não têm apreço verdadeiro pela sociedade em que vivem.

O PT e suas franjas têm, programaticamente, o socialismo como horizonte. Convivem com uma sociedade capitalista apenas enquanto não têm forças para destruí-la.
Os evangélicos enxergam nossa sociedade como aquilo que eles chamam, pejorativamente, “o mundo”. Algo no qual são obrigados a viver até que possam desfrutar da vida eterna.
Diga-se, de passagem, que mesmo assim nenhum dos dois polos despreza a boa vida desta sociedade podre. A esquerda é cada vez mais caviar e os evangélicos são cada vez mais adeptos da prosperidade. Mas dispõem-se a lutar pelo pão de cada dia com quaisquer armas, uma vez que a sociedade real não lhes impõe respeito.

Daí a impetuosidade em burlar as regras de uma tal sociedade. Daí a justificativa para a voracidade predatória: afinal, ao corrompermos a sociedade nós estamos a contribuir para sua derrocada final.

A corrupção apressa o apocalipse.

Seja ele terreno ou celestial.

domingo, 31 de agosto de 2014

Espiritismo e Antroposofia - 07

Nos textos anteriores procurei resumir o modo de conhecimento do mundo espiritual de cada um desses segmentos dedicados a conhecê-lo.
Apresentei esse resumo quase todo entre aspas. Como não sou adepto de nenhum desses dois grupos, deixei que seus líderes falassem.
Agora que já apresentei a questão como vista por Kardec e por Steiner, posso me permitir resumir o resumo.
Para Kardec, o contacto dos Espíritos com os humanos é feito por intermédio de pessoas dotadas de condições especiais, quase sempre não permanentes, pessoas essas chamadas médiuns. E a decisão de estabelecer contacto é sempre dos Espíritos. Eles é que decidem se querem ou não comunicar-se com os humanos.
Kardec alerta para a dificuldade cognitiva causada por espíritos inferiores, pois tais espíritos se comprazem em mentir para os humanos e em enganá-los das mais variadas formas. Segundo ele, é preciso não descurar do juízo crítico para não ser enganado por tais espíritos malévolos.
Para Steiner, o conhecimento dos mundos superiores pode ser efetuado, em princípio, por qualquer indivíduo. Basta que a pessoa se dedique a determinados exercícios que a levarão à ativação dos – por assim dizer – sentidos espirituais, por meio dos quais ela “verá” e “ouvirá” os mundos superiores (o anímico e o espiritual). Antes de atingir tal condição de clarividência, a pessoa pode fiar-se nos relatos dos mestres que já a alcançaram. Como, por exemplo de excelência, aceitar as descrições que dos mundos superiores faz o próprio Steiner.

Fiquemos, por agora, apenas na questão epistemológica. Ainda não entraremos na questão da própria constituição do mundo espiritual. Basta antecipar que ela é muito diferente nas concepções do Espiritismo e da Antroposofia. O que nos deixa na necessidade lógica de concluir que uma dessas correntes está a ver um mundo espiritual falso. Ou, quem sabe?, sejam ambas falsas. O que não é possível aceitar sem que se assassine a lógica é que ambas sejam verdadeiras, já que totalmente distintas.


Neste texto, vou comentar apenas uma questão ligada ao Espiritismo. E de caráter epistemológico.
Como o próprio Kardec enfatiza, é preciso tomar muito cuidado com as comunicações dos Espíritos. É necessário submetê-las sempre a análises comparativas, racionais, antes de concluir pela veracidade ou autenticidade das mesmas.
As mais importantes dessas comunicações me parecem ser as psicografadas. Um Espírito, que se identifica como sendo o espírito de alguém que já viveu cá na Terra, dita a um médium um texto qualquer. Segundo o próprio Kardec, não se pode aceitar tal comunicação sem uma análise crítica da mesma. É aí que a porca torce o rabo.
Vejamos, rapidamente, três casos de textos psicografados.
O primeiro que quero mencionar é o texto que o próprio Kardec adicionou a uma de suas obras fundamentais: A Gênese. São umas quarenta páginas ditadas por Galileu.
Já falei sobre isso em meu blogue, no texto Kardec e Galileu.   
Ora, só me parece importante receber uma comunicação de alguém do calibre de Galileu se for para que ele nos auxilie com suas luzes a compreender melhor o mundo. Acontece que as tais quarenta páginas são um amontoado de lugares comuns e obviedades, além de permitirem que Kardec acrescente a elas Notas Explicativas em que afirma absurdos como o de que o lado oculto da Lua é dotado de uma população e como o de que a peste bubônica é resultado de fluidos que contaminam as pessoas. Apenas 26 aninhos depois, em 1894, Alexandre Yersin isolou a bactéria responsável pela peste bubônica, que recebeu nome em sua homenagem: Yersinia Pestis.
Era de esperar-se que, se os seres superiores não deixavam Galileu esclarecer a Humanidade sobre tais assuntos, ao menos permitissem que ele sussurrasse aos ouvidos de Kardec para abster-se de emitir tais bobagens.
Outro texto psicografado que entendo ser um total absurdo é um atribuído à tal albanesa conhecida como Madre Teresa de Calcutá.
Também já falei em meu blogue a respeito do livro de Christopher Hitchens, The Missionary Position – Mother Teresa in Theory and Practice. Ele demonstra com riqueza de detalhes e de documentos que Anjezë Gonxhe Bojaxhiu – mais conhecida como Madre Teresa – não foi propriamente um modelo a ser seguido. Não vou entrar em detalhes. Quem quiser leia o livro. Parece que existe em Português.
Como o (a) médium que psicografou o texto dela não conhecia quem de facto era ela, conhecia apenas a lenda que em torno dela se construiu, comunicou ao mundo um texto do qual escorre mel e bondade. Penso que mesmo Kardec talvez desconfiasse de tal comunicação. Mas esse texto psicografado corre mundo e deixa os devotos arrepiados diante de tamanha santidade. Não tenho certeza, mas me parece que há outros textos dela também psicografados. Todos – de certeza – devem exalar perfumes florais. Acredite quem quiser.
Por fim, quero me referir ao texto psicografado que considero o mais grave de todos. Trata-se da vida de Jesus ditada por Ele mesmo.
São umas quatrocentas páginas que, digo logo, não consegui ler até o fim, recheadas de platitudes e de bobagens mesmo.
Tudo bem, podem dizer que isso é apenas a minha opinião. E é mesmo.
Mas o que mais me chamou a atenção foi: se eu fosse cristão, ou mesmo apenas um grande admirador do Cristo, e me visse diante de uma autobiografia dEle, quereria sorver suas palavras imediatamente, sem intermediários.
Pois bem. O livro que traz essa vida de Jesus por ele mesmo tem prefácios, introduções e apresentações escritas por várias pessoas e que ocupam as primeiras setenta páginas do livro.
Pra mim, isso me basta. A mim, isso diz tudo sobre o Espiritismo.
Mas, como sou teimoso, continuarei no tema.

Para irritação de meus amigos que detestam ter de pensar sobre tais assuntos.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Getúlio Vargas


Foi numa dessas casas da rua Dom Lara, em Santos, São Paulo, Brasil, aí no centro da imagem, na qual vivi meu nono ano de vida, que vi chegar junto ao portão, naquele tempo baixo como o muro em que se apoiava, Regina Evangelista, uma garota que talvez não tivesse ainda dezoito anos, filha do grande ponta esquerda Evangelista, da linha dos cem gols do Santos F.C. de 1.935 (Siriri, Camarão, Feitiço, Araken e Evangelista).
Era a manhã do dia 24 de Agosto de 1.954 e eu jogava botão no chão da entrada da casa de meus pais. Regina vinha a chorar. Pediu que eu chamasse minha mãe e informou a ela:
- Getúlio morreu. Suicidou-se.
Minha mãe fez uma expressão de perplexidade e as lágrimas começaram a lhe cair rosto abaixo. Do restante não me lembro.

Getúlio significava, para minha mãe, vim a saber mais tarde, a tábua de salvação do irmão que perdera braço e perna esquerdos aos quatro anos de idade, em desastre ferroviário em que faleceu o avô deles, por tentar salvar o neto. Salvou-lhe a vida, mas não conseguiu impedir que ela se tornasse mais difícil.
Minha mãe, meu tio já um jovem, entrou na fila que se formava às terças-feiras diante do Palácio do Catete, sede do governo federal, para ser atendida pela primeira-dama e pedir-lhe que arranjasse um lugar para meu tio no serviço público. Darcy Vargas colocou-o na Central do Brasil e lá ele trabalhou até se aposentar. Vive cercado por seus vários filhos até hoje, aos noventa e um anos.
Não é de estranhar-se que minha mãe tivesse por Getúlio uma infinita gratidão. E, com ela, grande parte do povo brasileiro. Ele que, depois de ter sido ditador, foi levado de volta ao poder central pelo voto popular.

Tenho a impressão de que Getúlio não se encaixaria, hoje, na política brasileira. Não haveria para ele lugar. Assim como não haveria lugar no futebol brasileiro para Evangelista e os demais campeões paulistas de 1.935.



quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Espiritismo e Antroposofia - 06

A comunicação com o mundo espiritual – a intuição

“A expressão 'intuição' se presta facilmente a mal-entendidos, pois aqueles que têm fantasia ou disposições poéticas também a empregam para designar as impressões sentimentais que têm do mundo. Porém esta é uma intuição confusa, apenas sentida. Nem por isso deixa de ter alguma afinidade com o que chamo de intuição. Pois assim como enquanto ser terrestre o homem possui a percepção por meio dos sentidos, por meio do sentimento e da vontade terrestres ele recebe um reflexo da intuição, modalidade suprema da cognição. (…) Como ser terrestre o homem possui, de fato, algo do que há de mais baixo e, ao mesmo tempo, um reflexo do que existe de mais elevado, acessível só à intuição. Faltam-lhe as regiões do meio, e estas ele deve conquistar por intermédio da imaginação e da inspiração. A intuição, com sua interioridade luminosa e pura, também deve ser adquirida, mas uma reprodução terrena desta intuição já se encontra no sentimento moral e no conteúdo da consciência ética.”
“O terceiro grau da cognição superior, imprescindível para se alcançar a região da intuição, só pode ser atingido pelo mais perfeito desenvolvimento de uma capacidade interior que a nossa era materialista nem considera como força de conhecimento. Com efeito, é a capacidade de amar, que deve ser desenvolvida e espiritualizada ao máximo para se poder chegar àquilo que se revela pela intuição. (…) Ora, um certo preparo para aquela capacidade de amor espiritualizado se realiza quando nos livramos, de certa maneira, de tudo o que nos prende às coisas exteriores – por exemplo, quando fazemos regularmente um exercício que consiste em representar os acontecimentos por nós vividos, não em sua sequência normal, mas seguindo o curso oposto (…) por exemplo, se subimos uma escada, imaginando estarmos no último degrau, depois no penúltimo, isto é, representando descer para trás o que na realidade realizamos subindo. (…) representemos o subir e o descer da escada em sentido contrário; primeiro o descer, depois o subir, da forma indicada. Fazendo isso, vamos adquirindo uma certa mobilidade interior até finalmente conseguirmos imaginar o decurso inteiro do dia, dentro de três ou quatro minutos.”
“Todavia essa é apenas uma parte – eu diria a parte negativa daquilo que devemos realizar para intensificar e aperfeiçoar aquela capacidade espiritual de amar. Ora, essa capacidade deve chegar até o ponto em que acompanhemos com nosso amor todo o crescimento de uma planta (na vida comum apenas observamos seu crescimento espacial, sem dele participar); devemos participar intimamente de tudo o que se manifesta no desabrochar vegetal, mergulhando para dentro da planta, identificando-nos animicamente com ela, crescendo, florescendo, frutificando como se fôssemos ela mesma, de forma a amá-la tanto quanto amamos a nós próprios. Daí devemos ascender, de forma análoga, à representação do animal e descender à do mineral; deveríamos sentir como a substância mineral toma a forma de um cristal e desenvolver um certo prazer íntimo ao vivenciar, desse modo, a formação de todas aquelas faces, arestas e cantos; ao mesmo tempo, temos como que um sentimento de dor a nos atravessar quando o mineral é destruído ou desintegrado. Não só com o sentimento, mas também com a vontade deveríamos, dessa forma, identificar-nos com tudo o que acontece na natureza.”
“Mas esse esforço deve ser precedido pelo desenvolvimento de uma capacidade de amor que abranja todos os homens. Não poderemos amar a natureza, da forma descrita, sem antes termos conquistado essa capacidade de amar a todos. Quando, por fim, chegarmos ao ponto de sentir esse amor cheio de compreensão para com os homens e para com toda a natureza, aquilo que antes nos era perceptível como cores da aura, como música das esferas, toma forma e revela, por seus contornos, a existência de autênticos seres espirituais.”
“Todavia, a vivência desses seres espirituais é diferente da maneira como vivemos as coisas físicas. (…) Não é dessa forma que se vivencia um ser espiritual. Para tal devemos 'mergulhar' totalmente nele, aplicando a capacidade de amar desenvolvida ao contato com a natureza. A intuição espiritual só é possível mediante as forças do amor desenvolvido para com a natureza e no silêncio obtido pelo vazio da consciência. Imaginem os Amigos que tenham desenvolvido essa capacidade de amar em contato com minerais, plantas, animais e homens. Em seu íntimo reina a consciência vazia, aquela tranquilidade negativa. Os Senhores sentem o sofrimento que está na base de toda a existência cósmica; ela é, ao mesmo tempo, a dor da solidão. Nada existe ainda. Mas o impulso infinitamente diferenciado de amor os leva a permear com seu próprio ser tudo o que se manifesta na inspiração, através da visão e da audição que descrevemos. Aí conseguimos penetrar num ser, identificar-nos com outro.”
“Temos a vivência num mundo espiritual concreto da mesma forma como a visão, o tato e o sentido do calor nos proporcionam a experiência de um mundo físico concreto. Mas é preciso ter chegado a esse nível caso se queira adquirir o conhecimento de algo particularmente importante para o homem. Já expus que a inspiração faz entrar em nossa alma nossa experiência pré-terrestre e puramente espiritual; que é pela inspiração que vimos a saber o que éramos antes de descer, por meio da comcepção, a um corpo terrestre. Quando aptos, devido ao impulso de amor, a penetrar como clarividentes nos mundos espirituais, temos a revelação daquilo que torna completa a autovivência do homem. Revela-se aquilo que precede nossa estada no mundo espiritual, revela-se o que éramos antes de ascender, entre a última morte e o novo nascimento, à última existência espiritual. Revela-se nossa vida terrestre passada e, pouco a pouco, as outras vidas terrestres precedentes. Pois esse verdadeiro eu, presente em sucessivas vidas terrestres, só pode manifestar-se quando a capacidade de amar é intensificada a tal ponto que o outro ser na natureza ou no mundo espiritual se nos torna tão caro como o somos para nós mesmos, movidos por amor-próprio.”.


“A vida terrestre completa consiste, pois, numa sequência de passagens limitadas por nascimentos e mortes, com existências intermediárias em mundos puramente espirituais. O conhecimento disso, real e adquirido por experiência própria, só se pode conseguir pela intuição.”.

sábado, 16 de agosto de 2014

O filme

Muitas vezes já se disse que, na iminência da morte, a pessoa vê passar diante de si um filme sobre sua vida. Uma espécie de Vale a Pena Ver de Novo.
Em minhas leituras de Rudolf Steiner, constato que, para ele, esse filme é o que primeiro acontece com quem morre.
Não tenho a menor intenção de morrer já. Aliás, nem daqui a algum tempo.
Mas gostaria imenso de poder assistir a esse filme.
Cada vez mais percebo as limitações de minha memória.
Há dez anos, por exemplo, comecei a escrever em meu blogue a respeito de minha militância política e – principalmente – a respeito de minha prisão e de minha sobrevivência no cárcere. Mas, aos poucos, minha memória começou a esgotar seu conteúdo a respeito.
Por sorte, antigos companheiros de militância descobriram meu blogue e reatámos nossos contactos. Passei a desfrutar com eles algumas rodadas de chopps (/finos) e eles me ajudaram a reavivar em minha memória factos que, para mim, estavam totalmente esquecidos.
Isso me levou a escrever novos textos sobre velhos episódios. Até que um amigo dos tempos de militância me ligou um dia, aflito:
-  Apague, por favor, esse texto de seu blogue! Ele pode me prejudicar!
Apaguei o texto imediatamente.
Mas, a partir desse incidente, fiquei como que bloqueado. Minha memória já não me ajuda. E eu não quero prejudicar, com meus textos, pessoas que admiro (e mesmo as que não admiro...).

A esquerda é território pantanoso. Encontram-se nela pessoas dóceis e de boa índole mas que aplaudem o justiçamento de companheiros, o assassinato de dissidentes. Mesmo sendo todos pretensamente não stalinistas. Tudo em nome de uma revolução que não virá.

Quanto ao filme de minha vida, gostaria de assistir a ele desde o comecinho. E que fosse detalhado, minucioso. Quereria ver como foi minha infância, como a desfrutei; ficaria contente em presenciar o que de minha adolescência não recordo. E é muito.

Meus amores, minhas perdas, meus temores.

Queria assistir a tudo isso a comer pipoca doce.


E se depois tivesse de morrer, morreria satisfeito. Levaria comigo apenas a vontade de viver mais um bocadinho.