domingo, 31 de agosto de 2014

Espiritismo e Antroposofia - 07

Nos textos anteriores procurei resumir o modo de conhecimento do mundo espiritual de cada um desses segmentos dedicados a conhecê-lo.
Apresentei esse resumo quase todo entre aspas. Como não sou adepto de nenhum desses dois grupos, deixei que seus líderes falassem.
Agora que já apresentei a questão como vista por Kardec e por Steiner, posso me permitir resumir o resumo.
Para Kardec, o contacto dos Espíritos com os humanos é feito por intermédio de pessoas dotadas de condições especiais, quase sempre não permanentes, pessoas essas chamadas médiuns. E a decisão de estabelecer contacto é sempre dos Espíritos. Eles é que decidem se querem ou não comunicar-se com os humanos.
Kardec alerta para a dificuldade cognitiva causada por espíritos inferiores, pois tais espíritos se comprazem em mentir para os humanos e em enganá-los das mais variadas formas. Segundo ele, é preciso não descurar do juízo crítico para não ser enganado por tais espíritos malévolos.
Para Steiner, o conhecimento dos mundos superiores pode ser efetuado, em princípio, por qualquer indivíduo. Basta que a pessoa se dedique a determinados exercícios que a levarão à ativação dos – por assim dizer – sentidos espirituais, por meio dos quais ela “verá” e “ouvirá” os mundos superiores (o anímico e o espiritual). Antes de atingir tal condição de clarividência, a pessoa pode fiar-se nos relatos dos mestres que já a alcançaram. Como, por exemplo de excelência, aceitar as descrições que dos mundos superiores faz o próprio Steiner.

Fiquemos, por agora, apenas na questão epistemológica. Ainda não entraremos na questão da própria constituição do mundo espiritual. Basta antecipar que ela é muito diferente nas concepções do Espiritismo e da Antroposofia. O que nos deixa na necessidade lógica de concluir que uma dessas correntes está a ver um mundo espiritual falso. Ou, quem sabe?, sejam ambas falsas. O que não é possível aceitar sem que se assassine a lógica é que ambas sejam verdadeiras, já que totalmente distintas.


Neste texto, vou comentar apenas uma questão ligada ao Espiritismo. E de caráter epistemológico.
Como o próprio Kardec enfatiza, é preciso tomar muito cuidado com as comunicações dos Espíritos. É necessário submetê-las sempre a análises comparativas, racionais, antes de concluir pela veracidade ou autenticidade das mesmas.
As mais importantes dessas comunicações me parecem ser as psicografadas. Um Espírito, que se identifica como sendo o espírito de alguém que já viveu cá na Terra, dita a um médium um texto qualquer. Segundo o próprio Kardec, não se pode aceitar tal comunicação sem uma análise crítica da mesma. É aí que a porca torce o rabo.
Vejamos, rapidamente, três casos de textos psicografados.
O primeiro que quero mencionar é o texto que o próprio Kardec adicionou a uma de suas obras fundamentais: A Gênese. São umas quarenta páginas ditadas por Galileu.
Já falei sobre isso em meu blogue, no texto Kardec e Galileu.   
Ora, só me parece importante receber uma comunicação de alguém do calibre de Galileu se for para que ele nos auxilie com suas luzes a compreender melhor o mundo. Acontece que as tais quarenta páginas são um amontoado de lugares comuns e obviedades, além de permitirem que Kardec acrescente a elas Notas Explicativas em que afirma absurdos como o de que o lado oculto da Lua é dotado de uma população e como o de que a peste bubônica é resultado de fluidos que contaminam as pessoas. Apenas 26 aninhos depois, em 1894, Alexandre Yersin isolou a bactéria responsável pela peste bubônica, que recebeu nome em sua homenagem: Yersinia Pestis.
Era de esperar-se que, se os seres superiores não deixavam Galileu esclarecer a Humanidade sobre tais assuntos, ao menos permitissem que ele sussurrasse aos ouvidos de Kardec para abster-se de emitir tais bobagens.
Outro texto psicografado que entendo ser um total absurdo é um atribuído à tal albanesa conhecida como Madre Teresa de Calcutá.
Também já falei em meu blogue a respeito do livro de Christopher Hitchens, The Missionary Position – Mother Teresa in Theory and Practice. Ele demonstra com riqueza de detalhes e de documentos que Anjezë Gonxhe Bojaxhiu – mais conhecida como Madre Teresa – não foi propriamente um modelo a ser seguido. Não vou entrar em detalhes. Quem quiser leia o livro. Parece que existe em Português.
Como o (a) médium que psicografou o texto dela não conhecia quem de facto era ela, conhecia apenas a lenda que em torno dela se construiu, comunicou ao mundo um texto do qual escorre mel e bondade. Penso que mesmo Kardec talvez desconfiasse de tal comunicação. Mas esse texto psicografado corre mundo e deixa os devotos arrepiados diante de tamanha santidade. Não tenho certeza, mas me parece que há outros textos dela também psicografados. Todos – de certeza – devem exalar perfumes florais. Acredite quem quiser.
Por fim, quero me referir ao texto psicografado que considero o mais grave de todos. Trata-se da vida de Jesus ditada por Ele mesmo.
São umas quatrocentas páginas que, digo logo, não consegui ler até o fim, recheadas de platitudes e de bobagens mesmo.
Tudo bem, podem dizer que isso é apenas a minha opinião. E é mesmo.
Mas o que mais me chamou a atenção foi: se eu fosse cristão, ou mesmo apenas um grande admirador do Cristo, e me visse diante de uma autobiografia dEle, quereria sorver suas palavras imediatamente, sem intermediários.
Pois bem. O livro que traz essa vida de Jesus por ele mesmo tem prefácios, introduções e apresentações escritas por várias pessoas e que ocupam as primeiras setenta páginas do livro.
Pra mim, isso me basta. A mim, isso diz tudo sobre o Espiritismo.
Mas, como sou teimoso, continuarei no tema.

Para irritação de meus amigos que detestam ter de pensar sobre tais assuntos.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Getúlio Vargas


Foi numa dessas casas da rua Dom Lara, em Santos, São Paulo, Brasil, aí no centro da imagem, na qual vivi meu nono ano de vida, que vi chegar junto ao portão, naquele tempo baixo como o muro em que se apoiava, Regina Evangelista, uma garota que talvez não tivesse ainda dezoito anos, filha do grande ponta esquerda Evangelista, da linha dos cem gols do Santos F.C. de 1.935 (Siriri, Camarão, Feitiço, Araken e Evangelista).
Era a manhã do dia 24 de Agosto de 1.954 e eu jogava botão no chão da entrada da casa de meus pais. Regina vinha a chorar. Pediu que eu chamasse minha mãe e informou a ela:
- Getúlio morreu. Suicidou-se.
Minha mãe fez uma expressão de perplexidade e as lágrimas começaram a lhe cair rosto abaixo. Do restante não me lembro.

Getúlio significava, para minha mãe, vim a saber mais tarde, a tábua de salvação do irmão que perdera braço e perna esquerdos aos quatro anos de idade, em desastre ferroviário em que faleceu o avô deles, por tentar salvar o neto. Salvou-lhe a vida, mas não conseguiu impedir que ela se tornasse mais difícil.
Minha mãe, meu tio já um jovem, entrou na fila que se formava às terças-feiras diante do Palácio do Catete, sede do governo federal, para ser atendida pela primeira-dama e pedir-lhe que arranjasse um lugar para meu tio no serviço público. Darcy Vargas colocou-o na Central do Brasil e lá ele trabalhou até se aposentar. Vive cercado por seus vários filhos até hoje, aos noventa e um anos.
Não é de estranhar-se que minha mãe tivesse por Getúlio uma infinita gratidão. E, com ela, grande parte do povo brasileiro. Ele que, depois de ter sido ditador, foi levado de volta ao poder central pelo voto popular.

Tenho a impressão de que Getúlio não se encaixaria, hoje, na política brasileira. Não haveria para ele lugar. Assim como não haveria lugar no futebol brasileiro para Evangelista e os demais campeões paulistas de 1.935.



quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Espiritismo e Antroposofia - 06

A comunicação com o mundo espiritual – a intuição

“A expressão 'intuição' se presta facilmente a mal-entendidos, pois aqueles que têm fantasia ou disposições poéticas também a empregam para designar as impressões sentimentais que têm do mundo. Porém esta é uma intuição confusa, apenas sentida. Nem por isso deixa de ter alguma afinidade com o que chamo de intuição. Pois assim como enquanto ser terrestre o homem possui a percepção por meio dos sentidos, por meio do sentimento e da vontade terrestres ele recebe um reflexo da intuição, modalidade suprema da cognição. (…) Como ser terrestre o homem possui, de fato, algo do que há de mais baixo e, ao mesmo tempo, um reflexo do que existe de mais elevado, acessível só à intuição. Faltam-lhe as regiões do meio, e estas ele deve conquistar por intermédio da imaginação e da inspiração. A intuição, com sua interioridade luminosa e pura, também deve ser adquirida, mas uma reprodução terrena desta intuição já se encontra no sentimento moral e no conteúdo da consciência ética.”
“O terceiro grau da cognição superior, imprescindível para se alcançar a região da intuição, só pode ser atingido pelo mais perfeito desenvolvimento de uma capacidade interior que a nossa era materialista nem considera como força de conhecimento. Com efeito, é a capacidade de amar, que deve ser desenvolvida e espiritualizada ao máximo para se poder chegar àquilo que se revela pela intuição. (…) Ora, um certo preparo para aquela capacidade de amor espiritualizado se realiza quando nos livramos, de certa maneira, de tudo o que nos prende às coisas exteriores – por exemplo, quando fazemos regularmente um exercício que consiste em representar os acontecimentos por nós vividos, não em sua sequência normal, mas seguindo o curso oposto (…) por exemplo, se subimos uma escada, imaginando estarmos no último degrau, depois no penúltimo, isto é, representando descer para trás o que na realidade realizamos subindo. (…) representemos o subir e o descer da escada em sentido contrário; primeiro o descer, depois o subir, da forma indicada. Fazendo isso, vamos adquirindo uma certa mobilidade interior até finalmente conseguirmos imaginar o decurso inteiro do dia, dentro de três ou quatro minutos.”
“Todavia essa é apenas uma parte – eu diria a parte negativa daquilo que devemos realizar para intensificar e aperfeiçoar aquela capacidade espiritual de amar. Ora, essa capacidade deve chegar até o ponto em que acompanhemos com nosso amor todo o crescimento de uma planta (na vida comum apenas observamos seu crescimento espacial, sem dele participar); devemos participar intimamente de tudo o que se manifesta no desabrochar vegetal, mergulhando para dentro da planta, identificando-nos animicamente com ela, crescendo, florescendo, frutificando como se fôssemos ela mesma, de forma a amá-la tanto quanto amamos a nós próprios. Daí devemos ascender, de forma análoga, à representação do animal e descender à do mineral; deveríamos sentir como a substância mineral toma a forma de um cristal e desenvolver um certo prazer íntimo ao vivenciar, desse modo, a formação de todas aquelas faces, arestas e cantos; ao mesmo tempo, temos como que um sentimento de dor a nos atravessar quando o mineral é destruído ou desintegrado. Não só com o sentimento, mas também com a vontade deveríamos, dessa forma, identificar-nos com tudo o que acontece na natureza.”
“Mas esse esforço deve ser precedido pelo desenvolvimento de uma capacidade de amor que abranja todos os homens. Não poderemos amar a natureza, da forma descrita, sem antes termos conquistado essa capacidade de amar a todos. Quando, por fim, chegarmos ao ponto de sentir esse amor cheio de compreensão para com os homens e para com toda a natureza, aquilo que antes nos era perceptível como cores da aura, como música das esferas, toma forma e revela, por seus contornos, a existência de autênticos seres espirituais.”
“Todavia, a vivência desses seres espirituais é diferente da maneira como vivemos as coisas físicas. (…) Não é dessa forma que se vivencia um ser espiritual. Para tal devemos 'mergulhar' totalmente nele, aplicando a capacidade de amar desenvolvida ao contato com a natureza. A intuição espiritual só é possível mediante as forças do amor desenvolvido para com a natureza e no silêncio obtido pelo vazio da consciência. Imaginem os Amigos que tenham desenvolvido essa capacidade de amar em contato com minerais, plantas, animais e homens. Em seu íntimo reina a consciência vazia, aquela tranquilidade negativa. Os Senhores sentem o sofrimento que está na base de toda a existência cósmica; ela é, ao mesmo tempo, a dor da solidão. Nada existe ainda. Mas o impulso infinitamente diferenciado de amor os leva a permear com seu próprio ser tudo o que se manifesta na inspiração, através da visão e da audição que descrevemos. Aí conseguimos penetrar num ser, identificar-nos com outro.”
“Temos a vivência num mundo espiritual concreto da mesma forma como a visão, o tato e o sentido do calor nos proporcionam a experiência de um mundo físico concreto. Mas é preciso ter chegado a esse nível caso se queira adquirir o conhecimento de algo particularmente importante para o homem. Já expus que a inspiração faz entrar em nossa alma nossa experiência pré-terrestre e puramente espiritual; que é pela inspiração que vimos a saber o que éramos antes de descer, por meio da comcepção, a um corpo terrestre. Quando aptos, devido ao impulso de amor, a penetrar como clarividentes nos mundos espirituais, temos a revelação daquilo que torna completa a autovivência do homem. Revela-se aquilo que precede nossa estada no mundo espiritual, revela-se o que éramos antes de ascender, entre a última morte e o novo nascimento, à última existência espiritual. Revela-se nossa vida terrestre passada e, pouco a pouco, as outras vidas terrestres precedentes. Pois esse verdadeiro eu, presente em sucessivas vidas terrestres, só pode manifestar-se quando a capacidade de amar é intensificada a tal ponto que o outro ser na natureza ou no mundo espiritual se nos torna tão caro como o somos para nós mesmos, movidos por amor-próprio.”.


“A vida terrestre completa consiste, pois, numa sequência de passagens limitadas por nascimentos e mortes, com existências intermediárias em mundos puramente espirituais. O conhecimento disso, real e adquirido por experiência própria, só se pode conseguir pela intuição.”.

sábado, 16 de agosto de 2014

O filme

Muitas vezes já se disse que, na iminência da morte, a pessoa vê passar diante de si um filme sobre sua vida. Uma espécie de Vale a Pena Ver de Novo.
Em minhas leituras de Rudolf Steiner, constato que, para ele, esse filme é o que primeiro acontece com quem morre.
Não tenho a menor intenção de morrer já. Aliás, nem daqui a algum tempo.
Mas gostaria imenso de poder assistir a esse filme.
Cada vez mais percebo as limitações de minha memória.
Há dez anos, por exemplo, comecei a escrever em meu blogue a respeito de minha militância política e – principalmente – a respeito de minha prisão e de minha sobrevivência no cárcere. Mas, aos poucos, minha memória começou a esgotar seu conteúdo a respeito.
Por sorte, antigos companheiros de militância descobriram meu blogue e reatámos nossos contactos. Passei a desfrutar com eles algumas rodadas de chopps (/finos) e eles me ajudaram a reavivar em minha memória factos que, para mim, estavam totalmente esquecidos.
Isso me levou a escrever novos textos sobre velhos episódios. Até que um amigo dos tempos de militância me ligou um dia, aflito:
-  Apague, por favor, esse texto de seu blogue! Ele pode me prejudicar!
Apaguei o texto imediatamente.
Mas, a partir desse incidente, fiquei como que bloqueado. Minha memória já não me ajuda. E eu não quero prejudicar, com meus textos, pessoas que admiro (e mesmo as que não admiro...).

A esquerda é território pantanoso. Encontram-se nela pessoas dóceis e de boa índole mas que aplaudem o justiçamento de companheiros, o assassinato de dissidentes. Mesmo sendo todos pretensamente não stalinistas. Tudo em nome de uma revolução que não virá.

Quanto ao filme de minha vida, gostaria de assistir a ele desde o comecinho. E que fosse detalhado, minucioso. Quereria ver como foi minha infância, como a desfrutei; ficaria contente em presenciar o que de minha adolescência não recordo. E é muito.

Meus amores, minhas perdas, meus temores.

Queria assistir a tudo isso a comer pipoca doce.


E se depois tivesse de morrer, morreria satisfeito. Levaria comigo apenas a vontade de viver mais um bocadinho.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Do Abuso das Metáforas


O Boletim Carta Maior, um dos Pravdas da imprensa brasileira, perpetrou agora, dia 09/08/2014, um Editorial para malhar um dos candidatos da oposição  No caso, o já conhecido como Aéreo Never. 



Mesmo dada a existência de um sortido elenco de acontecimentos reais à disposição de quem queira provar o grotesco da candidatura em questão, o citado Granma resolveu apelar às metáforas. E mandou ver:
"As pesquisas de intenção de voto exalam um cheiro de queimado e a fumaça ondula na direção do palanque conservador."

Como não sou bom nesses mistérios metafóricos, fui ao pé das letras:
Ora, se há fumaça que chega ao palanque conservador e sabendo-se que o caráter 'bipolar' da esquerda exige que existam sempre e apenas dois palanques, o conservador e o progressista, algo me indica que é neste último que o fogo se alastra.

Espiritismo e Antroposofia - 05


A comunicação com o mundo espiritual

Ainda sobre os dois primeiros passos da cognição por iniciação:
“O discípulo (…) não tem mais, à sua frente, os pensamentos sem vida adquiridos na cognição passiva, mas um mundo interior dinâmico que ele sente tal como o sangue que o percorre ou a respiração que o permeia.”.
“Aí aquelas imagens – os pensamentos de antes - (…) transformaram-se em autênticas imaginações vivenciadas (…) em duas dimensões; mas não como se estivéssemos diante de um quadro pintado no mundo físico – quem os vê assim tem visões, mas não imaginações -, mas como se nós, com nosso próprio ser (que teria perdido sua terceira dimensão), nos estivéssemos movendo dentro delas.”
“O autêntico conhecimento superior só existe quando, por exemplo, as cores vividas numa imaginação real não são vistas, como o seriam no mundo físico, e sim vivenciadas. (…) Sentimos o vermelho como algo que nos ataca, que investe contra nós. (…) A cor verde nos proporciona uma experiência de serenidade que não acarreta nem dor nem prazer. No azul temos a sensação da devoção, do abandono. (…) quando algo no mundo espiritual vem ao nosso encontro de um modo agressivo, sentimos que isso corresponde à cor vermelha. Se algo provoca em nós uma sensação de devoção, essa vivência corresponde àquela que temos no mundo físico com as cores azul ou azul-violeta. Abreviando nossa maneira de expressar-nos, dizemos então que tivemos, no mundo espiritual, a experiência de um vermelho ou de um azul.”
“(...) essa passagem para o supra-sensível, esse abandono visual que ao mesmo tempo constitui uma vivência concreta, está sempre presente. É nessa vivência concreta que sentimos o pensar vindo a ser um órgão tátil que preenche todo o organismo humano: sentimo-nos como que espiritualmente apalpando um mundo novo, que, na realidade, ainda não é o verdadeiro mundo espiritual, mas aquele que eu chamaria de mundo das forças plasmadoras, ou etérico.”
“Eu gostaria de descrever, por meio de uma comparação, a maneira como se vive no mundo etérico:
Um dedo é parte viva de nosso organismo. Se o cortamos, ele deixa de ser o que era: deixa de viver e morre. Se esse dedo tivesse consciência, diria: 'Eu sou algo apenas quando faço parte do organismo, mas não possuo essência autônoma.' é assim que deveríamos falar no momento em que o conhecimento imaginativo nos fizesse participar do mundo etérico. Aí não nos sentimos mais como seres separados e individualizados, mas como membros de todo o mundo ou cosmo etérico. Aprendemos que o que faz de nós indivíduos e personalidades é o fato de possuirmos um corpo físico. O corpo físico individualiza; faz de cada um de nós uma entidade isolada.
Mais tarde veremos que podemos ser individualizados também no plano espiritual.”

“ (…) o discípulo deve, mediante um esforço próprio, fazer desaparecer de sua consciência tudo o que havia conquistado: a imaginação, a visão do próprio panorama da vida; deve fazer com que a consciência se torne vazia. Só quando tivermos adquirido essa consciência esvaziada é que compreenderemos a verdadeira maneira de ser das coisas no mundo espiritual. Então ficamos sabendo que o que havíamos percebido antes não era ainda o mundo espiritual, mas apenas uma visão imaginativa desse mundo. Só agora, na etapa da consciência vazia, o mundo espiritual flui para dentro de nós, por meio do pensar 'apalpador', tal como o mundo físico entra em nós através dos sentidos.”

“Quando, porém, alcançamos a consciência vazia, nossa alma é tomada por um mero estado de vigília, e este pressupõe um certo silêncio e repouso. Este repouso pode ser caracterizado da seguinte maneira:
Imaginemos estarmos numa cidade barulhenta. (…) Resolvemos então sair da cidade e, a cada passo, o barulho diminui. (…) No fim, chegaremos a um bosque absolutamente silencioso, onde nada mais escutamos. Chegamos, por assim dizer, ao ponto zero da audibilidade.
(…) Imaginemos termos dinheiro na carteira; gastando cada dia uma parte, a quantidade diminui, da mesma forma como a audibilidade diminui ao nos afastarmos do centro da cidade. Chegará o dia em que nossa carteira estará vazia, situação que comparamos ao grau zero de audibilidade. Mas se quisermos continuar a comer, que deveremos fazer? Faremos dívidas. (…) Quanto dinheiro teremos então no bolso? Menos que zero. (…) Imaginemos nesta altura uma situação idêntica para o silêncio. Não haveria apenas a tranquilidade absoluta, o ponto zero do silêncio, mas o caminho continuaria – haveria o negativo da audibilidade, mais silencioso que o silêncio.
(…) Quando chegamos a essa audibilidade interior negativa, a esse silêncio mais intenso que o silêncio total, então estamos penetrando no mundo espiritual de uma forma tal que ele não apenas se nos torna visível, mas começa a soar. O que antes era apenas visto intensifica-se, através do som, para um mundo ainda mais vivo. Aí estamos bem dentro do mundo espiritual.”

“O grande sentimento cósmico de felicidade, que descrevi há pouco, transforma-se, neste momento em que estabelecemos aquela consciência vazia acompanhada de silêncio, numa dor não menos intensa, num sofrimento imenso da alma. Então passamos pela experiência de que o mundo é feito sobre o fundamento de uma dor cósmica, ou melhor, de um elemento cósmico que o homem só pode experimentar com profunda dor. E aprendemos a verdade (…) de que toda existência nasce, em última análise, da dor.”
“O plano em que ora chegamos depois de alcançar, além da imaginação, o silêncio total – esse plano em que se manifesta o mundo espiritual através das cores e dos sons, conforme indiquei -, é essencialmente diferente daquele que percebemos com os sentidos físicos. (…) É possível nos ambientarmos nesse mundo da inspiração, encontrando nele as origens de todas as coisas terrestres. Conforme já mencionei, nele encontramos nossa própria existência pré-terrestre. Precisando de uma terminologia (embora o nome em si não tenha relevância), tenho chamado esse mundo, situado além do imaginativo, de astral (…) e aquilo que carregamos em nós proveniente daquele plano e trazido para os corpos físico e etérico pode, por isso, ser chamado de corpo astral. Inserida neste encontramos, finalmente, a verdadeira organização para o eu humano. /...) o ser humano aparece, pois, composto de quatro membros, ou seja: os corpos físico, etérico (ou das forças plasmadoras), astral e a organização para o eu. Para se conhecer o eu é preciso fazer mais um passo na cognição superior, passo que tenho chamado de intuição em meus livros anteriores, notadamente em O conhecimento dos mundos superiores (A iniciação).


[continua]

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Espiritismo e Antroposofia - 04


A comunicação com o mundo espiritual

Para a Antroposofia, o que descrevemos até aqui constitui o primeiro passo na cognição por iniciação.
“Pois bem, o que primeiro se vivencia dessa maneira é o verdadeiro autoconhecimento. (…) Tudo aquilo que vivenciamos no passado – e que normalmente só pode ser ressuscitado como representação mental – se nos oferece como um panorama atual, onde acontecimentos há muito tempo esquecidos se tornam presentes. Situações idênticas são descritas por pessoas que sofreram um choque devido a um perigo de morte, em caso de afogamento, etc. (…) Tal panorama coloca-se de fato, à frente de quem ativou seu pensar, qual um quadro abrangendo todo o período desde que se aprendeu a pensar até o presente momento. O tempo se transforma em espaço, o passado em presente. Estamos diante de uma imagem. A característica nesta situação (…) é ter-se ainda uma espécie de sensação de espaço (já que a visão se parece com um quadro), mas apenas uma sensação – pois a esse espaço que se vivencia nesse instante falta a terceira dimensão. (…) em toda parte esse espaço é percebido em duas dimensões apenas, de forma que o conhecimento é pictórico. Por isso chamo essa cognição de imaginativa (…) É uma cognição em imagens, e que se apresenta em duas dimensões.”
“A verdade é que, ao se progredir do físico para o espiritual, não é uma quarta dimensão que nasce, mas é a terceira que desaparece. (…) para penetrar no espiritual, não se acrescenta uma quarta dimensão às três já existentes, mas volta-se à segunda. E veremos que se acabará voltando à primeira dimensão.”
“O que está ligado a essa cognição imaginativa é um sentimento subjetivo de imensa bem-aventurança.”
“Quando se chega a essa experiência, torna-se necessário progredir mais um passo, que ninguém gosta de dar”.

“Quando se quer dar o próximo passo, essa sensação de felicidade deve primeiro ser esquecida, pois nessa altura, depois de se ter ativado voluntariamente o pensar por meio da meditação e da concentração do pensar, e de ter, a partir daí, chegado à visão da própria vida, mister se torna eliminar tudo isso da pr´pria consciência com toda a energia. (…) Os Senhores certamente sabem que um indivíduo acaba adormecendo quando o privamos, pouco a pouco, de todas as impressões sensoriais, escurecendo e silenciando o ambiente para que ele nada ouça – enfim, suprimindo todas as impressões da vida cotidiana. Mas essa consciência vazia, que normalmente conduz ao sono, deve ser provocada voluntariamente – e todavia o homem, depois de apagar todas as impressões gravadas em sua consciência, deve permanecer acordado. (…) Essa é a obtenção da consciência vazia, mas de uma consciência vazia plenamente vigilante.”
“Ora, quando é estabelecida a consciência vazia, graças à supressão de tudo o que nela foi introduzido mediante energia redobrada, essa consciência não permanece vazia, concretiza-se a segunda etapa da cognição, a qual, em contraste com o conhecimento imaginativo, pode ser chamada de inspiração. Depois desses preparativos, o mundo espiritual pode apresentar-se diante de nossa alma da mesma forma como o mundo visível se oferece à vista, ou o audível ao ouvido. Passamos a ter, diante de nós, não a própria vivência, mas o mundo espiritual, que investe contra nós. (…) então aquilo que primeiro penetra em nossa consciência vazia é nossa existência pré-terrestre, aquela que tivemos antes de descermos, por meio da concepção, a um corpo terrestre.”
“(...) nãp chegamos à imortalidade, isto é, à negação da morte, mas à inatalidade, isto é, à negação do nascimento. Ser inato faz parte da essência humana tanto quanto ser imortal. (…) Todas as línguas modernas possuem a palavra 'imortalidade'; mas a 'inatalidade', que as línguas antigas possuíam, foi perdida.”


[continua]

Espiritismo e Antroposofia - 03


A comunicação com o mundo espiritual

No texto nº 2 resumi a forma como se dá a comunicação dos Espíritos conosco, segundo o Espiritismo.
Vou procurar resumir como se dá a comunicação com o mundo espiritual, de acordo com a Antroposofia.
Neste caso, resumir é ainda mais difícil. Corre-se o risco de confundir “resumir” com “amputar”. Por isso, peço que encarem o que segue apenas como estímulo para leituras mais prolongadas. O que vai a seguir é tirado de uma série de conferências que Steiner proferiu em 1.923, na Inglaterra. Elas foram reunidas no livro “O Conhecimento Iniciático”. Mas o mesmo assunto é tratado em outras obras do criador da Antroposofia.

Antroposofia:
Em todas as épocas, “o tipo de cognição que conduz do sensível ao supra-sensível foi chamado (…) de cognição por iniciação.” Qual a maneira pela qual se pode chegar a esse conhecimento iniciático nos dias de hoje?
Steiner parte de uma reflexão sobre o pensar. Para ele, “em toda a nossa existência terrena, ele [o pensar] exerce uma função inteiramente passiva.” Isso quer dizer: “Do despertar até o adormecer, o homem se abre ao mundo em redor. Deixa que lhe advenham as impressões sensórias, com as quais vêm combinar-se as representações mentais. As impressões sensoriais vêm e vão; o que fica na alma são as representações, que paulatinamente se transformam em recordações. (…) As representações obtidas da vida ordinária nada contêm que não haja penetrado na alma a partir do mundo exterior, isto é, da observação pelos sentidos.”
O primeiro passo na senda do conhecimento iniciático consiste em “a transição do pensamento meramente passivo para a ativação íntima do pensar.”.
Como efetuar tal transição? Steiner especifica três modos. O último deles: “Tomemos e abramos em qualquer página um livro que, temos certeza, nunca tivemos em nossas mãos; lendo então uma frase qualquer, a esmo, podemos estar seguros de tratar-se de uma sentença que devemos abordar por uma atividade interior. Façamos de tal sentença, ou de um personagem de tal livro, o conteúdo da nossa meditação: que seja algo com que nunca antes nos tenhamos deparado. (…) Em toda meditação realizável hoje em dia, o importante é que seja feita a partir da atividade interior, da vontade no âmbito do pensar, o que é justamente o menos apreciado na contemplação exterior passiva e na ciência moderna.”.
“Desta forma alcançamos um pensar ativo. A rapidez com que essa evolução se realiza depende da natureza da própria pessoa. Um pode atingir a meta em três semanas, caso sempre repita os exercícios – de preferência sempre os mesmos; outro precisará de cinco, sete, dezenove ou mais anos.(...) Em dado momento, chega-se realmente a conhecer uma maneira de pensar diferente da habitual. Conhecemos então um pensar que não se desenrola em imagens passivas, como normalmente acontece, mas que está interiormente ativo (…) Conhecemos um pensar – e aqui não estou falando simbolicamente, mas dizendo a verdade real e concreta – capaz de chocar-se com algo e do qual sabemos que pode esbarrar em alguma coisa. Do pensar comum sabemos que nunca esbarra em nada. Quando bato numa parede a ponto de formar-se um galo, é meu corpo físico que esbarro, por intermédio de minha força tátil. (…) O novo pensar a que chegamos é algo real dentro do qual vivemos. Esbarra como o dedo esbarraria numa parede. (…) Este é o primeiro passo a ser dado: ativar o pensar até transformá-lo num órgão anímico de tato.”
“E aquilo que se desenvolve graças à atividade do pensar é o primeiro membro supra-sensível do homem.(...) Temos inicialmente o corpo físico. (…) Temos depois o primeiro membro supra-sensível. Precisando de uma terminologia, chamemo-lo de corpo etérico.(...) O pensar se transforma num tatear supra-sensível, e este percebe e vê num sentido superior o corpo etérico ou plasmador do homem. Este é, por assim dizer, o primeiro passo real para dentro do mundo superior.”
“Quem entrou num mundo espiritual por meio do caminho descrito por nós, adquirindo a capacidade de tocá-lo ou apalpá-lo, sabe distinguir muito bem se apenas representa as coisas a posteriori, com seu pensar ativado, ou se este realmente lhe abre novas percepções. Na vida cotidiana, temos um paralelo eloquente quando colocamos por inadvertência o dedo numa chama ou se mentalizamos a seguir: eis a chama, agora penetro nela com o dedo. Aí a diferença é viva: num caso sofremos uma dor real; no outro, apenas a imaginamos. Essa diferença é experimentada, num plano superior, conforme vivenciamos ou apenas representamos mentalmente os mundos superiores.”.


[continua]

sábado, 9 de agosto de 2014

Espiritismo e Antroposofia - 02


A comunicação com o mundo espiritual

Começo por essa questão por uma razão epistemológica. Ou seja, se vou perguntar ao Espiritismo e à Antroposofia como cada um deles entende ser o mundo espiritual, é importante saber como cada uma dessas correntes de pensamento adquiriu tal conhecimento.
As formas de que tais correntes se utilizam para conhecer o mundo espiritual pode nos dizer algo a respeito do grau de validade das informações que elas nos transmitem.
Além disso, é evidente que nosso juízo a respeito do que delas ouvirmos dependerá bastante da coerência interna daquilo que nos apresentarem.
Vamos, então, explicitar resumidamente o modo como o Espiritismo e a Antroposofia adquirem o conhecimento do mundo espiritual.

Espiritismo:
Para ser o mais sintético possível, valho-me do livro de Allan Kardec “O Que é o Espiritismo”, um resumo das obras básicas do mesmo autor.
Os espíritos “são as próprias almas dos que viveram na terra onde deixaram o seu invólucro corporal, que povoam os espaços, nos rodeiam e nos acotovelam constantemente (...)”. “Não são seres abstractos,(...) possuem um invólucro a que damos o nome de perespírito, espécie de corpo fluídico, vaporoso, diáfano, invisível no estado normal”.
“Quanto aos meios [de comunicação conosco], são muito variados.(...) O mais vulgar (…) consiste na intuição, quer dizer, nas ideias e nos pensamentos que nos sugerem; mas este meio é muito pouco apreciável na generalidade dos casos; existem outros mais materiais.”
“Certos Espíritos comunicam através de pancadas dadas respondendo sim ou não ou designando as letras que devem formar as palavras. As pancadas podem ser obtidas pelo movimento de báscula de um objecto, uma mesa por exemplo, que bate com o pé. (…) Esta forma primitiva é demorada e dificilmente se presta a desenvolvimentos de uma certa extensão; a escrita substituiu-a.”
“Os Espíritos manifestam-se ainda e podem transmitir os seus pensamentos através de sons articulados que se repercutem quer no vago do ar, quer no ouvido, pela voz do médium, pela vista, por desenhos, pela música e por outros meios que um estudo completo dá a conhecer.”

Apareceu aí a figura do “médium”, que é pessoa dotada da capacidade de receber tais comunicações dos Espíritos e escrevê-las ou transmiti~las por voz etc. Temos, então, “os médiuns auditivos, falantes, videntes, desenhadores, músicos, escritores.”.

A questão que me parece crucial, aí, é a da confiabilidade das informações passadas pelos Espíritos aos médiuns. Como alerta o próprio Kardec: “As comunicações de além-túmulo estão rodeadas de mais dificuldades do que se pensa; não estão isentas de inconvenientes, nem mesmo de perigos, para os que não possuem a experiência necessária.”.

As dificuldades encontram-se dos dois lados: do lado do médium e do lado dos Espíritos.
Em relação ao médium: “Até agora não se conhece nenhum diagnóstico para a mediunidade (…); tentar é a única maneira de saber se somos dotados. (…) Se a mediunidade se traduzisse por um sinal exterior qualquer, isso implicaria a permanência da faculdade, enquanto que ela é essencialmente móvel e fugitiva.”.
Em relação aos Espíritos: “Os Espíritos levianos (…) muitas vezes troçam dos assistentes e respondem a tudo sem se preocuparem com a verdade.”.

Como se percebe, a confiabilidade das informações é de difícil verificação. Ainda teremos oportunidade de conversar sobre vários casos que ilustram essa dificuldade.

No próximo texto veremos como a mesma questão se coloca para a Antroposofia.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

A intransigência da Fé


Como escrevo sobre assuntos religiosos ou afins, sou criticado por alguns por querer destruir a fé das pessoas.
Tenho a dizer sobre isso:
Primeiro – Se a fé é tão pouca que possa ser por outrem destruída, então talvez ela nada valha mesmo.
Segundo – Não quero destruir fé alguma. Gostaria, sim, de contribuir para diminuir a intransigência.

Explico por meio de um exemplo: já várias vezes vi citado, no Facebook, o famoso Salmo 23.
Segundo a maioria das traduções, ele começa assim:
O Senhor é o meu pastor, nada me faltará.

Pois bem. Comecemos por dizer que, no original hebraico, não há esse “nada”.
Uma tradução literal seria bem diversa da habitual. O ambiente do poema – e se trata de um poema . Um salmo – é pastoril. Fala-se de um rebanho e de seu pastor. O salmista é um membro do rebanho, digamos uma ovelha, e se refere ao Eterno, seu pastor.
Literalmente teríamos: “O Senhor é meu pastor, não me desgarrarei.”
Ora, quem já viu um rebanho de ovelhas em movimento – e eu assisto a isso todos os dias da janela de minha casa – sabe que a ovelha não se desgarra não por vontade própria (que deveria ser a sua, para sua própria proteção) mas pelo cuidado do pastor (e de seus cães).
Por isso, é plausível adotar-se uma tradução que mantenha o sentido original do texto e se aproxime o mais possível da tradução tradicional. Ficaria assim:
O Senhor é meu pastor e não me faltará.
Ou seja, não deixará que eu me desgarre, que me perca. Ele e seus cães. Ou, se quiserem, seus anjos.
Essa imagem me parece linda.

Mas as pessoas insistem na versão do “nada me faltará”. Que é mais adequada à atual teologia da prosperidade.
Ora, o pastor preserva o rebanho. Mas não garante um pasto verdejante.
Há momentos de fome, de angústia, de sofrimento.

Mas muitas vezes a fé adquire uma feição intransigente. A História é repleta de exemplos.

E há os que chamam Fé ao que é apenas Teimosia.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Espiritismo e Antroposofia - 01


O Espiritismo foi criado na França em meados do séculos 19.
Mas pegou no breu, mesmo, foi no Brasil.
O Brasil é o maior país espírita do mundo. O segundo é Cuba. Vejam que as afinidades entre os dois países são variadas.
Tentei descobrir os números das populações espíritas mundo afora mas não consegui. Se alguém puder ajudar, agradeço desde já.
Aliás, detalhe curioso: Allan Kardec, ao criar o Espiritismo, chamou seus adeptos de “spiritistes”. Mas em Francês “espírito” é “esprit”. Já em Português ficou tudo igual: “espírito”, “espírita” ou “espiritista”.

Em relação à Antroposofia, não consegui informações sobre o número de adeptos. Mas certamente são números bem menores. O que é mais um elemento que corrobora, digamos assim, a comparação que fiz: o Espiritismo está para a Antroposofia assim como Paulo Coelho está para Guimarães Rosa.

As comparações que vou procurar fazer aqui serão o mais possível objetivas e isentas, até porque não sou adepto nem de uma nem de outra dessas duas correntes de pensamento. Isso não significa que eu não atribua diferentes valores às realizações de cada uma delas. Por exemplo, quanto à possível contribuição de cada uma ao desenvolvimento do conhecimento humano, não tenho informação a respeito de nada que possa ser creditado à conta do Espiritismo. Isso não significa desmerecer as obras de caridade empreendidas por essa corrente, mas refiro-me aqui a progressos no conhecimento humano. Em relação à Antroposofia, podemos mencionar a agricultura biodinâmica, a medicina antroposófica, a pedagogia Waldorf e muitas outras contribuições em outros ramos do conhecimento (arquitetura, artes etc). E a Antroposofia é uns 50 anos mais “jovem” que o Espiritismo...

Por que comparar essas duas correntes? Porque ambas afirmam a existência de um “mundo espiritual”, povoado por “espíritos”. E garantem haver íntima ligação entre os homens e esse mundo espiritual. E sustentam a possibilidade de colocarmo-nos em contacto com tal mundo.
Cada uma delas nos fornece descrições desse mundo espiritual. E esses relatos não são coincidentes. Ao contrário, diferem profundamente entre si.

Começaremos, no próximo texto, por falar a respeito do modo como cada uma delas faz para conectar-se a esse mundo espiritual.


Uma última palavra: escrevo sobre esses temas perché me piace. Aos que se irritam com meus escritos tenho uma sugestão simples: não leiam o que escrevo. Gosto que leiam o que escrevo, é verdade. E gosto que comentem. Mesmo que seja para discordar completamente do que digo. Apenas prefiro que o façam sem agressões pessoais, o que não é fácil para alguns. Mas não apago comentários, mesmo os agressivos.  

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Forças plasmadoras do futuro brasileiro


Penso já ter ficado evidente - para os que não têm interesse direto na questão – que o dilema político entre PT e PSDB (e adjacências) é absolutamente falso.

Mas quais são os reais polos que disputam o poder de orientar o futuro do Brasil?

A meu ver, tais forças opostas são o PT e sua franja sindical e intelectual [risos] de um lado. De outro as seitas religiosas, cada vez mais subordinadas doutrinariamente aos neopentecostais. Neste segundo grupo, incluam-se os espiritistas, ainda que professem ideias diversas em questões de doutrina.

A Igreja Católica, apesar de dispor de grande número de adeptos, tem-nos divididos entre os dois polos especificados. Por isso, vem a ter influência diminuta nessa disputa, ou – no máximo – influência desproporcional a seu tamanho na sociedade.

Não digo, com isso, que tais correntes já sejam claramente opostas nos dias de hoje. Nem mesmo tem – a corrente religiosa – uma unidade que se expresse politicamente de modo uníssono. Aliás, tampouco o PT e suas franjas apresentam tal unidade.

Falo de tendências. E que não são de longo prazo. Há, em curso, um claro processo de condensação de cada um desses polos.

Quem, como eu, não participar de um desses polos tende inexoravelmente a ficar à margem do processo político brasileiro.

A inauguração recente do tal Templo de Salomão pode confundir o observador. Afinal, quase todas as forças político-institucionais acorreram pressurosas ao evento.
Natural. Em época eleitoral não se desprezam fontes de votos.

Mas essa inauguração talvez fique como marco da constituição de um bloco político que, aos poucos, ganhará homogeneidade.
É certo que tal homogeneidade dar-se-á à custa da qualidade. Também do lado petista esse nivelamento por baixo se completará. Já anda adiantado o estado de putrefação desse polo.

Mas também isso deve ser lançado à conta do crescimento dos dois polos. O nível de cada um deles será mais ou menos (se possível menos) o nível que se percebe na disputa eleitoral deste ano da graça de 2014.

Alguém fatalmente dirá: e a luta de classes?

Como não sou médico legista, nada entendo de cadáveres.

sábado, 2 de agosto de 2014

Agosto


Nesse início do oitavo mês, é preciso dizer algumas coisitas.
É verdade que, em Portugal, ninguém vai ver isto.
Estamos todos em férias.
Dia desses, o ex-presidente brasileiro Fernando Henrique comentou, em entrevista, que Portugal não tem PIB e, no entanto, é mais primeiro mundo que o Brasil.
Meia verdade. Ou, pra ser rigoroso, um doze avos da verdade.
Portugal só não tem PIB em Agosto.
Em Agosto o País – assim, em maiúscula – sai de férias.
A senhora que mantém nossa casa habitável, em Bragança, saiu de férias. Meu médico de família está a gozar merecidas férias. A solícita senhora que zela pelo edifício em que resido, férias. A marisqueira onde gosto de saborear frutos do mar, em Matosinhos, estará fechada durante este mês. Em resumo, Portugal está a gozar de suas indefectíveis férias.
Haja ou não crise.
E férias representam, sem elementos de ligação, diretamente, viagens.
Há os que descem ao Algarve. Também os há os que sobem às praias da Galícia, das Astúrias, da Cantábria, dos Países Bascos.
Os do interior vão às praias, os do litoral vão ao Portugal Profundo.

Mas... que digo eu?
Talvez seja Agosto o mês de maior PIB em Portugal.
Todos esses portugueses que saem de um lugar e vão a outro deixarão – onde forem – preciosos euros.
E é preciso lembrar dos “avecs”. Os emigrantes que não falham um Agosto sem vir a visitar sua terra e seus familiares.
E não vêm só de França. Vêm de toda parte. E deixam cá boa parte do que amealharam durante o ano anterior.
O que levam de volta a seus forçados destinos não se mede em euros.


quinta-feira, 31 de julho de 2014

O Reino do Imaginário


Um dos grandes causadores de guerras e morticínios, através da História, tem sido o conflito entre as diversas religiões.
Como todas elas reivindicam a posse da Verdade, fica mesmo difícil impedir que elas se esmurrem até jorrar sangue.
Mas tudo tem solução.
Inventei uma teoria que poderá acabar com todas essas disputas.

Vivemos em um mundo no qual impera a Realidade. Muitos pretendem ignorá-la, mas ela sempre acaba por impor-se.
É verdade que os seres humanos (não sei se também os animais e mesmo as plantas) têm momentos de fuga à Realidade, por meio da Imaginação. São breves momentos, sem maiores consequências, mas que proporcionam quase sempre um certo prazer.

Percebi, a partir disso, que depois da morte, o que nos espera é esse mundo já entrevisto no exercício fugaz da Imaginação.
Depois de mortos, abandonamos o mundo da Realidade e ingressamos no mundo da Imaginação.

É verdade que alguns grupos, particularmente alguns sul-americanos vinculados à Esquerda já conseguem vivenciar o mundo da Imaginação antes mesmo de morrer. Ou, quem sabe, já morreram e ninguém os alertou em relação a isso.

Quanto à maioria dos seres humanos, o reino do Imaginário só será acessível depois da morte.
Ou seja, o indivíduo morre e ingressa no terreno da Imaginação.

Que significa viver no mundo da Imaginação?
Significa que o indivíduo irá viver naquilo que ele imaginava, quando vivo, como sendo a vida após a morte.
Desde logo, adianto já, um ateu como eu deixará de existir. Era o que ele, em vida, imaginava como sendo seu estado após a morte.
Já um homem-bomba muçulmano, por exemplo, terá o desfrute de suas 21 virgens prometidas por Alá.
Um católico passará uma temporada no Purgatório e, caso a família que lhe restou no mundo da Realidade pague as devidas missas post mortem, ingressará depois no Paraíso.
Paraíso que, para evangélicos de todos os matizes será imediatamente franqueado. Sentar-se-ão junto aos anjos e entoarão hinos de louvor a Deus e a Jesus. Este estará sentado à direita do Eterno, caso o crente tenha sido, em vida, um neoliberal, ou à esquerda do Criador, caso se trate de algum adepto da Esquerda.
Quanto ao judeus, talvez tenham de curtir o Sheol por algum período.

O importante nisso tudo é que – de algum modo – todas as religiões se mostrarão verdadeiras. Tudo o que os fiéis de qualquer uma delas imaginar tornar-se-á efetivo na vida após a morte.


Só ainda não sei muito bem aonde irá parar o bispo Macedo.

domingo, 27 de julho de 2014

Elogio de Lula


Lula viveu uma infância difícil mas muito instrutiva.
Com os conhecimentos adquiridos na adversidade, logo percebeu que ser operário era muito ruim.
Enfronhou-se no sindicato.
Seu primeiro grande feito foi o de ter se tornado líder sem ser taxado de pelego. Isso deve ter exigido muita habilidade. Em um ambiente de total peleguismo, ele foi dos primeiros a afastar-se desse padrão. E talvez o único que, em seguida, não exagerou na dose e foi cair direto na clandestinidade. Ele soube dosar a coragem.
Além de ter demonstrado senso de oportunidade, contou com o momento histórico certo. Era a hora de alguém ocupar o lugar que ele ocupou.

Mais adiante, percebeu que a intelectualidade tupiniquim salivava por um operário que se dispusesse a travar uma luta contra a ditadura militar e – glória das glórias – talvez até batalhar pelo socialismo. E – desta vez com mais facilidade – venceu mais uma etapa em sua ascensão: enfiou grande parte da intelligentsia brasileira no bolso.

Com companheiros sindicais e com a maioria dos intelectuais, estava pronto o quadro para a criação de um partido político que lhe servisse de base para sua pretensão de mais altos voos.

Nessa fase, foram muitas as derrotas. Mas a cada uma delas ele aprendia mais lições.

Depois que, com a capacidade burocrática de José Dirceu, conseguiu adequar sua máquina partidária às necessidades eleitorais, chegou a seu primeiro grande objetivo: a Presidência da República.

Instalado no Palácio do Planalto, passou a enfrentar os desafios de governo. Pela primeira vez deixava de ser pedra e passava a ser vidraça.

Foi então que demonstrou invulgar capacidade de adaptação. Aquilo que chamamos de inteligência.

Dou um exemplo de algo que vivi de perto: em 2003 eu já trabalhava na Receita Federal havia dez anos. Presenciei colegas petistas a babar na ânsia de botar as mãos no butim.
Lula frustrou tais expectativas. No Ministério da Fazenda colocou Palocci e um receituário ortodoxo. Na Receita Federal só tirou o Secretário, Everardo Maciel, para disfarçar a continuidade. Manteve toda a equipe da administração da era Fernando Henrique.
Os camaradas ficaram a ver navios. Tudo continuou como estava. Afinal, é por meio da Receita que entram recursos no Tesouro. O restante é centro de custos.
E Lula sabia que líder sindical e intelectual são excelentes pra bater bumbo, mas muito ruins pra empurrar carro alegórico. Só muito lentamente o PT começou a desfrutar das delícias do Poder.

A partir daí, Lula passou a fazer qualquer coisa que lhe apeteça.
Elegeu a neófita Dilma para nada mais nada menos que Presidente da República.
Elegeu outro desconhecido para a Prefeitura de São Paulo.
Manda e desmanda no país.

Sei que é pouco cabível fazer comparações entre personagens pertencentes a momentos históricos diferentes. Mas não me impeço de afirmar que Lula já é – a essa altura – mais importante que Getúlio Vargas na História do Brasil.


O que – a meu ver – diz imenso a respeito do país em que nasci.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

CONVERSA DE BOTECO


Já agora, desculpem o desabafo.
É que acabo de ocupar algum tempo a ler “Os Fluidos”, quarenta páginas que compõem o capítulo 14 do livro “A Gênese – os milagres e as predições segundo o Espiritismo”.

Para Kardec, tudo é “fluido”. É fluido elétrico, fluido magnético, fluido sonoro, fluido cósmico, fluido espiritual etc etc.
Para a ciência, fluido é uma substância que, quando em repouso, não oferece resistência a uma força de cisalhamento.
Os tais “fluidos” do século 19 são os “campos” da ciência.
Algum apressadinho burgesso dirá: ora, é só uma nomenclatura diferente.
Não. Não é “só” isso.
A ciência não tem pretensões ontológicas. Em miúdos: a ciência não busca “o que é” isso ou aquilo. A ciência contenta-se com o “como é”, “como funciona”.
Quando se trata, por exemplo, de um campo magnético, fala-se de algo que se traduz por um certo número de equações matemáticas. Com elas, posso calcular os exatos valores do campo magnético em qualquer ponto.
Já o fluido espiritual ou o fluido cósmico são conversa de boteco depois da décima cerveja.
Ou, se preferem uma imagem mais culinária, são pastéis de vento.
Quanto a mim, já que é pra viver do passado, escolheria a expressão típica do romantismo do século XVIII: “um não sei que de...”.

Alguns definem uma pessoa desagradável pela característica de que, quando tem tosse, ao invés de ir ao médico vai ao teatro.

Se me permitem a ousadia de um conselho, se quiserem falar em ciência, ao invés de sessão espírita procurem um bom curso de Física, por exemplo.



quarta-feira, 23 de julho de 2014

O governo brasileiro e seu amor às ditaduras

A Guiné Equatorial vai, enfim, ser aceita na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Portugal foi o único dos membros da CPLP que ofereceu alguma resistência a isso. Acabou por concordar para não isolar-se demasiado.

Deixo logo claro que não estou aqui a criticar a decisão do governo brasileiro - que me parece estúpida - de apoiar essa admissão, por ser o governo de predominância petista. Não estou a fazer campanha eleitoral. Nunca tive simpatia pelos tucanos e Eduardo Campos já deu mesmo mostras de ser um novo Collor.

Dito isso, acrescento que tenho consciência de que diplomacia se faz, no mais das vezes, guiada pela busca da satisfação dos interesses geopolíticos ou econômicos do país.

Mas, como jamais diria um matemático, tudo tem limite.

A Guiné Equatorial tem como língua efetiva o Espanhol. Sua segunda língua oficial, desconhecida da quase totalidade de sua população é o Francês. O Português passa a ser sua terceira língua, que jamais será falada por seus habitantes enquanto as coisas continuarem como são naquele país.

E como são as coisas na Guiné Equatorial?

O ditador Obiang impera há 35 anos. É um dos ditadores mais ricos do mundo. Canibalizou toda a oposição.
Seu filho, vice-presidente por decreto do pai, está acima das leis do país. Se ele vir uma mulher que considere bonita, manda buscá-la para usufruir dela.
É colecionador de preciosidades caríssimas e tem residências espalhadas pelo mundo, inclusivamente em São Paulo.
O país é o terceiro país da África subsaariana em produção de petróleo, atrás de Angola e Nigéria.
A renda per capita do pequeno país, graças a isso, é enorme. Mas beneficia apenas a família do ditador. O restante dos habitantes vive uma miséria escandalosa.
Obiang procura canais que lhe deem alguma respeitabilidade internacional e que lhe facilitem a lavagem de dinheiro.

Acaba de encontrar.

Sei que quase ninguém no Brasil vai dar importância a tudo isso. Afinal, uma das poucas coisas inteligentes que me lembro de ter ouvido da boca de FHC foi que o brasileiro costuma ser caipira. Ou seja, voltado para seu pequeno mundinho circundante.

Não importa. Deixo aqui meus parabéns aos governantes brasileiros. Tantos anos de luta por uma sociedade melhor nos levaram ao ponto de prestigiar um carniceiro hediondo apenas por algumas gotas de petróleo.

Bom proveito!

domingo, 20 de julho de 2014

Kardec e Galileu

O livro de Kardec, A Gênese, um dos cinco pilares do Espiritismo, deve ter sido pensado com o objetivo de esclarecer a maneira de o Espiritismo enxergar a origem das coisas. Do Universo, da humanidade etc.
Eu imaginava que seria recheado de ideias sussurradas a Kardec por espíritos evoluídos, que levantassem o véu de sobre nossas raízes.
Ledo engano. As primeiras 235 páginas (sic!) são uma dissertação a respeito daquilo que a ciência apurou até a redação do livro. E mal digerida. Alguém dirá: mas o que tens contra a ciência? E eu respondo: o facto de ser o estado-da-arte da ciência em meados do século 19. E transmitido por um leigo.
Ao invés de ler a respeito de camadas geológicas, por exemplo, explicadas pela ciência de meados do século 19, seria mais produtivo ler sobre isso um texto científico atual.
Mas há mais. Muito mais.
A certa altura, Kardec passa a transcrever um texto psicografado, cuja autoria é atribuída a ninguém menos que Galileu, aquele. Trata-se do capítulo VI: Uranografia Geral.

Aliás, sobre psicografia tenho muito a comentar. Mas fica pra outra oportunidade. Vamos adiante.

Kardec explica, várias vezes, que os espíritos são proibidos por Deus de nos revelar coisas que ainda desconhecemos para não nos furtar o trabalho de descobri-las por conta própria.
Muito bem.
No século 19 era corrente a teoria dos “fluidos”. Esses permeavam toda a matéria. E os havia de vários tipos: o fluido elétrico, o fluido magnético etc etc.
Kardec usa e abusa dessa teoria. É fluido pra cá, fluido pra lá.
As pestes que assolaram a Europa, por exemplo, como a peste bubônica, eram atribuídas a fluidos que contaminavam as pessoas.
Ora, Kardec escreveu A Gênese em 1868. Apenas 26 aninhos depois, em 1894, Alexandre Yersin isolou a bactéria que recebeu nome em sua homenagem: Yersinia Pestis. É a bactéria responsável pela peste bubônica. Lá se foi ralo abaixo a teoria dos fluidos. Com o desenvolvimento científico que se operou nessa mesma época, a eletricidade, o magnetismo etc deixaram de ser “fluidos”.
Pois bem. Galileu, que contribuiu com o livro de Kardec fornecendo-lhe umas quarenta páginas, não poderia – por determinação divina – ter-lhe antecipado todas essas descobertas da ciência. Mas poderia, ao menos, dizer-lhe:
  • Allan, meu filho, não fala essas coisas que logo logo elas vão pegar mal.
Não só ele não falou nada como até hoje os espiritistas se utilizam dessa terminologia dos fluidos. Sem qualquer pudor.
Mas tem mais. Galileu, que agora (em 1868) já era espírito, podia viajar por todo o cosmo. Mas não se dignou a dizer a Kardec para não falar que a Lua era habitada. Deixou que Kardec quebrasse a cara nesta nota de rodapé ao texto de Galileu, ao falar da Lua:
“O hemisfério inferior, o único que vemos, seria desprovido de tais fluidos e, por isso, impróprio à vida que, entretanto, reinaria no outro. Se, pois, o hemisfério superior é habitado, seus habitantes jamais viram a Terra, a menos que excursionem pelo outro, o que lhes seria impossível, desde que este carece das condições indispensáveis à vitalidade.” (capítulo VI, item 25, Nota, pág. 140)
É facto que Kardec afirma que tal “teoria” ainda não foi confirmada por nenhuma observação direta (nem poderia...). Mas acrescenta: “Não se pode, porém, deixar de convir em que é a única, até ao presente, que dá uma explicação satisfatória das particularidades que apresenta o globo lunar.” (pág. 140).

Afinal, se Galileu não podia nem dizer a Kardec que isso era uma imensa besteira, pra que serve o depoimento dele?

Mas há mais: se você vai ouvir o depoimento de um espírito evoluído como deveria ser o de Galileu, é razoável que você aguarde revelações no mínimo instigantes.
Mas o que se lê é uma imensa verborragia. Vou citar apenas dois trechos da fala de Galileu:
  1. “Que mortal poderia dizer das magnificências desconhecidas e soberbamente veladas sob a noite das idades que se desdobraram nesses tempos antigos, em que nenhuma das maravilhas do Universo atual existia; nessa época primitiva em que, tendo-se feito ouvir a voz do Senhor, os materiais que no futuro haviam de agregar-se por si mesmos e simetricamente, para formar o templo da Natureza, se encontraram de súbito no seio dos vácuos infinitos; quando aquela voz misteriosa, que toda criatura venera e estima como a de uma mãe, produziu notas harmoniosamente variadas, para irem vibrar juntas e modular o concerto dos céus imensos!” (item 14, pág. 133)
  2. “E, quando esses períodos da nossa imortalidade nos houverem passado sobre as cabeças, quando a história atual da Terra nos aparecer qual sombra vaporosa no fundo da nossa lembrança; quando, durante séculos incontáveis, houvermos habitado esses diversos degraus da nossa hierarquia cosmológica; quando os mais longínquos domínios das idades futuras tiverem sido por nós perlustrados em inúmeras peregrinações, teremos diante de nós a sucessão ilimitada dos mundos e por perspectiva a eternidade imóvel.” (item 52, pág. 155).

Não sei dizer se Paulo Coelho ou Lya Luft fariam melhor. Nunca li nenhum deles.
Mas me causa imensa tristeza perceber que tantas pessoas vêem nessas cataratas de termos imponentes e vazios uma revelação divina.

Valha-me deus!


sábado, 19 de julho de 2014

Ainda o racismo em Kardec

Dia desses escrevi que Kardec tinha concepções racistas. A tal ponto que a publicação de suas obras, no Brasil, foi condicionada pelo Ministério Público Federal à publicação, junto a cada obra dele, de Nota Explicativa que tenta dizer que não é o que é.
As citações que fiz, eu as tirei de um artigo na Revista Espírita Ano V - 1862, mês de Abril (Perfectibilidade da Raça Negra).
Meus amigos espiritistas acorreram a dizer que nessa revista saíam artigos que ainda não tinham sua validade confirmada etc e tal.
Isso não deixa de ser verdade. Mas, então, vamos às considerações racistas de Kardec tiradas de A Gênese, um dos livros basilares da doutrina espírita.
As páginas que menciono referem-se à 52ª edição brasileira da Federação Espírita Brasileira (FEB).

A questão das raças é abordada por Kardec no capítulo XI (Gênese Espiritual):
É assim que as raças adiantadas têm um organismo ou, se quiserem, um aparelhamento cerebral mais aperfeiçoado do que as raças primitivas. Desse modo igualmente se explica o cunho especial que o caráter do Espírito imprime aos traços da fisionomia e às linhas do corpo.” (item 11, pág. 242).
Recebendo os corpos a impressão do caráter do Espírito e procriando-se esses corpos na conformidade dos respectivos tipos, resultaram daí diferentes raças, quer quanto ao físico, quer quanto ao moral.” (item 30, pág. 252).
Não foi, portanto, uniforme o progresso em toda a espécie humana. Como era natural, as raças mais inteligentes adiantaram-se às outras, […] Fora, com efeito, impossível atribuir-se a mesma ancianidade de criação aos selvagens, que mal se distinguem do macaco, e aos chineses, nem, ainda menos, aos europeus civilizados. […] os Espíritos dos selvagens também fazem parte da Humanidade e alcançarão um dia o nível em que se acham seus irmãos mais velhos. Mas, sem dúvida, não será em corpos da mesma raça física, impróprios a um certo desenvolvimento intelectual e moral.” (grifos no original) (item 32, pág. 253).
Do ponto de vista fisiológico, algumas raças apresentam característicos tipos particulares, que não permitem se lhes assinale uma origem comum. Há diferenças que evidentemente não são simples efeito do clima, pois que os brancos que se reproduzem nos países dos negros não se tornam negros e reciprocamente. […] Sabe-se hoje que a cor do negro provém de um tecido especial subcutâneo peculiar à espécie.” (item 39, pág. 259)
Adão e seus descendentes são apresentados na Gênese como homens sobremaneira inteligentes […] Não se conceberia, portanto, que esse tronco tenha tido, como ramos, numerosos povos tão atrasados, de inteligência tão rudimentar, que ainda em nossos dias rastejam a animalidade [...]” (item 40, pág. 260).


Tentar fugir das evidências de racismo acima explicitadas é enxugar gelo com toalha quente.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

O Bem e o Mal na Antroposofia


Tento fazer, aqui, um resumo de uma conferência proferida por Rudolf Steiner em 11 de Novembro de 1.904, em Berlim. Valho-me da tradução brasileira de Paula Bennink, publicada pela Editora Antroposófica em 2.012, sob o título “O Maniqueísmo – A genuína missão do Bem e do Mal no contexto evolutivo da humanidade”. Essa publicação traz, além do texto da conferência, uma excelente Introdução da dra. Sonia Setzer.

O maniqueísmo surge no século III, na Pérsia, fundado por Mani (216 – 276). Reunia elementos do zoroastrismo, do hinduísmo, do budismo, do judaísmo e do cristianismo. É, por isso, considerado um sincretismo religioso. Espalhou-se logo por boa parte do mundo conhecido.
No século IV foi considerado uma heresia por Santo Agostinho e pela Igreja Católica (ICAR).
Como em muitos outros casos, foi duramente perseguido pela ICAR e seus seguidores foram completamente eliminados no Ocidente no século VI. A ICAR tentou destruir os escritos maniqueus e no mundo ocidental apenas ficou uma concepção deturpada de seus conceitos.

Um parêntese: outro caso digno de nota em relação a esse tratamento dado pela ICAR a seus opositores é o de Celso. Esse filósofo pagão (século II) produziu uma crítica ao cristianismo sob o título de “O Discurso Verdadeiro”. A ICAR conseguiu sumir com todos os exemplares da obra de Celso. Contudo, Orígenes, em seu afã de defender o cristianismo, escreveu, já em meados do século III, a obra Contra Celso, que até hoje perdura e da qual há tradução em Português. Adotou ele o método de reproduzir quase que página por página a obra de Celso para melhor refutá-la. Com isso, temos hoje acesso a essa obra... Ironias. Fecha parêntese.

Durante o século XX foram encontrados diversos textos maniqueus. Aquando da conferência aqui tratada, Steiner talvez já tivesse conhecimento dos primeiros achados.

“Normalmente, o que se conhece da doutrina maniqueísta é que ela se diferencia do cristianismo ocidental por sua diferente concepção do Mal. […] o maniqueísmo ensina que o Mal é tão eterno quanto o Bem; que não há ressurreição do corpo, e que o Mal, como tal, não terá fim. Portanto, ele não tem começo, e sim a mesma origem do Bem, e nem tampouco terá fim” (pág. 22).

Isso parece a quem vem a conhecer o maniqueísmo dessa maneira algo radicalmente anticristão e totalmente incompreensível. Mas vamos examinar isso de acordo com as tradições que devem provir do próprio Mani e verificar do que se trata efetivamente.

Comecemos pela Lenda do Templo, uma grande lenda cósmica do maniqueísmo:
“Certa vez os espíritos das Trevas queriam atacar o Reino da Luz. Eles chegaram, de fato, até as fronteiras do Reino da Luz e quiseram conquistá-lo. Entretanto, nada conseguiram fazer contra o Reino da luz. Deveriam então – e aqui existe um traço especialmente marcante, para o qual peço sua atenção – ser castigados pelo Reino da Luz. Contudo, no Reino da Luz não havia nenhum Mal, só o Bem. Portanto, os demônios das Trevas só poderiam ser castigados com algo de bom. O que aconteceu então? Aconteceu o seguinte: os espíritos do Reino da Luz tomaram uma parte de seu próprio reino e o misturaram com o reino material das Trevas. Essa mistura de uma parte do Reino da Luz com o Reino das Trevas fez surgir um elemento fermentativo, que transformou o Reino das Trevas num rodopio caótico. Esse fato trouxe um novo elemento: a morte. Assim, esse reino vem-se autoconsumindo continuamente, trazendo em si o germe de sua própria destruição. Conta-se também que a espécie humana surgiu pelo fato de isso ter acontecido. O homem primordial seria justamente aquilo que havia sido enviado pelo Reino da Luz para misturar-se ao Reino das Trevas e superar, por meio da morte, o que não deveria existir no Reino das Trevas – ou seja, superá-lo em si mesmo.” (pág. 23).

“O profundo pensamento aí implícito é que o Reino das Trevas deve ser superado pelo Reino da Luz por meio da brandura, e não pelo castigo; não contrariando o Mal, mas misturando-se a ele, para redimir o Mal como tal.” (pág. 23).

Daí a concepção teosófica do Mal:
[nessa altura Steiner ainda não fundara a Sociedade Antroposófica e era secretário-geral da seção alemã da Sociedade Teosófica]
O Mal não é nada mais do que um Bem no momento errado.

Se as forças condutoras de uma determinada época se imiscuíssem por mais tempo na evolução, “naquele instante elas representariam o Mal no desenvolvimento terreno. Assim, o Mal não é outra coisa senão o Divino, pois em outros tempos a expressão da perfeição e do Divino era aquilo que agora, no presente, é o Mal.” (pág. 25).

É assim que se deve entender a ideia de Mal em Mani.

Também é preciso entender por que Mani se intitulava “filho da viúva”.
O que é que se passou no atual estágio evolutivo da humanidade?
Nos estágios anteriores a maneira como a humanidade adquiria conhecimentos era outra. No estágio atual (a quinta raça-raiz), a condução da alma, que era até então realizada do alto, “se retraiu pouco a pouco, deixando a humanidade seguir seu próprio caminho para tornar-se seu próprio guia.” (pág. 26).
A alma passou a ser chamada “mãe” em todas as linhas esotéricas. O orientador, o “pai”.
O orientador, Osíris, aquele que representa a parte imediatamente divina, é o Pai.
A alma, Ísis, que concebe e recebe o Divino-espiritual é a Mãe.
No atual estágio evolutivo o Pai passa a se retrair. “A alma se torna viúva – precisa tornar-se viúva. A humanidade é deixada por conta própria.” (pág. 26).
Essa alma é chamada de “viúva” por Mani. E ele se considera “filho da viúva”.
Daí as palavras de Mani: “Deveis desfazer-se de tudo o que vos é trazido pela autoridade externa; depois tereis de amadurecer a fim de olhar para a própria alma.” (pág. 27).

Agostinho não concorda com isso: “Eu não aceitaria os ensinamentos de Cristo caso estes não se baseassem na autoridade da Igreja”. (pág. 27)

Como se dá a atuação conjunta de Bem e Mal?
Explica-se pela sintonia entre vida e forma.
Como a vida chega à forma?
Por não se expressar de uma só vez, numa única figura.
“Observem como a vida numa planta – digamos, no lírio – passa de uma forma a outra. A vida do lírio construiu, aperfeiçoou uma forma de lírio.
Quando essa forma está aperfeiçoada, a vida a supera e passa ao germe, para mais tarde renascer em nova forma, como a mesma vida. E assim a vida caminha de forma em forma. A vida em si não possui forma alguma, e não poderia levar uma vida própria de maneira perceptível” (pág. 28).
“A vida, enquanto forma, é sempre revestida pela vida de uma época anterior. Vejamos, por exemplo, a Igreja Católica. A vida que se desenrolou na Igreja Católica desde Agostinho até o século XV era uma vida cristã. A vida, naquele contexto, é o cristianismo. […] A forma – de onde vem a forma? Ela não é outra coisa senão a vida do velho Império Romano. Aquilo que ainda era vida nesse antigo Império Romano petrificou-se em forma. O que antes era república, depois império – tudo o que ali viveu, em suas manifestações exteriores, como Estado Romano – legou sua vida, enrijecida em forma, ao cristianismo posterior até na capital, Roma, que era antigamente a capital do Império Romano Universal. Até os prefeitos romanos tiveram sua continuidade nos presbíteros e bispos. O que antigamente era vida tornou-se mais tarde forma, para um patamar superior da vida.” (pág. 29).

“A vida de uma época anterior sempre se torna a forma de uma época posterior. Na consonância entre vida e forma surgiu ao mesmo tempo o outro problema: o do Bem e do Mal – pelo fato de o Bem de uma época anterior ter-se associado ao Bem de uma nova época. Basicamente, isso nada mais é do que a consonância entre o progresso e sua própria inibição. É também a possibilidade da manifestação material, a possibilidade de vir à existência exterior. Esta é nossa presença humana no âmbito da Terra sólido-mineral: a vida interior e a vida retardatária de tempos passados petrificada numa forma inibitória. Esta é também a doutrina do maniqueísmo sobre o Mal.” (pág. 30).

No final da conferência, Steiner aborda a criação de uma forma para a vida do próximo estágio evolutivo da humanidade (a sexta raça-raiz), ainda valendo-se das ideias de Mani.

Mas como penso ter ficado clara a conceituação do Bem e do Mal no âmbito da Antroposofia, fiquemos por aqui, que este texto já está longo demais.