segunda-feira, 29 de abril de 2013

Soluções novas para velhos problemas

No Brasil, actualmente, discute-se a questão da idade adequada à responsabilização penal dos cidadãos.
Muito bem.
Deveríamos começar a discussão a partir da questão:
Há cidadãos no Brasil?
Mas, com isso, muitas pessoas ficariam chocadas, revoltadas, iriam revirar-se na cama antes de dormir.
Então vamos pular esse item.
Sugiramos logo a solução: as pessoas devem ser responsabilizadas criminalmente desde o nascimento.
Desse modo, um recém nascido que cometa um homicídio bárbaro, deverá sofrer as consequências.
Mas... quais consequências?
Tomar mamadeira (em Portugal diz-se biberão) só de 12 em 12 horas.
Não! dirão os adeptos de ideologias de esquerda. Afinal, o bebé é, apenas, uma vítima da iniquidade burguesa. Tornou-se assassino justamente por carência de biberão.
Além disso, os locais nos quais receberá sua dose de leite são de péssima qualidade. Neles não há nem TV a cabo.
Então tá.
Que mamem de 6 em 6 horas. Mas apenas pelo prazo máximo de 3 meses. Depois, que tudo se normalize. Ou seja: quem tem tem. Quem não tem não tem.
Já o grosso da população (ou os grossos da população, como queiram) prefere mesmo a pena de morte.
Acontece que essa mesma maioria se diz católica. Ou ao menos cristã. E, ipso facto, é contra o aborto. Ora, aborto e pena de morte para recém nascidos são coisas perigosamente próximas. Aí a discussão se embaralha. Melhor matar os recém nascidos criminosos de maneira informal, como se faz com boa parte dos adultos criminosos.
Ainda este último domingo, uma senhora revelou à Folha de SPaulo que foi estuprada aos 19 anos. Mas era no tempo da ditadura, o garoto estava subnutrido. Coisas assim. Por isso, ela é contra baixar a maioridade penal para 16 anos. Do ponto de vista lógico, perfeito!
O indivíduo estupra por estar subnutrido. Ergo, a maioridade tem de continuar nos tais 18 aninhos.

Que falta faz o Chacrinha!

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Sobre a Fé

É famosa a definição de fé que consta em Hebreus 11:1:

Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que se não vêem

Temos, então, uma definição bíblica de fé. Daquilo que é a Fé. Inclusivamente com muitos exemplos, no próprio capítulo 11 de Hebreus.
Muito bem. Meu interesse, neste post, é pensar um bocadinho sobre algumas coisas que a Fé não é.

Nos meus tempos de Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (IME-USP), meu orientador, o grande lógico Newton da Costa, costumava brincar - ele que se notabilizara mundo afora por sua tese sobre Lógicas Inconsistentes - a repetir que um de seus maiores desejos era o de provar que 2 + 2 = 5.
Mas atenção! O desejo dele era provar isso. E não, ter fé nisso. Além do mais, tratava-se de brincadeira.

Não é possível ter fé em que Lula não tenha sido presidente da República no Brasil ou que o inefável Cavaco não seja o presidente de Portugal. É apenas possível ter fé em que não voltem a ser o que já foram.
Não é possível ter fé em que a Terra seja plana. Outrora já foi possível ter fé nisso. Hoje não mais é.
Não é mais possível ter fé em que Moisés tenha escrito os livros do Pentateuco. Nem que as cartas atribuídas a Paulo sejam todas dele. Já está provado que nada disso é verdadeiro. O Catecismo diz o contrário? Pior para o Catecismo.
Enfim: não é possível ter fé em algo que já se sabe ser factualmente falso.

Maria pariu Jesus e continuou virgem. É possível ter fé nisso? É.
Há várias indicações de que isso não tenha sido facto. Mas não há prova disso. Então é possível ter fé nisso.
É possível ter fé na existência de seres extra-terrestres? Claro. Por mais mistificação que exista em torno desse tema, é possível que existam seres inteligentes fora de nosso planeta.
Quanto a mim, coloco alguma dúvida quanto à existência de vida inteligente cá na Terra...

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Utilidade Pública






Aliás a materna era Maria Amélia. Mas até que uma vovozinha Rúbrica não ficava de todo mau. Quando um burocrata qualquer pedisse a ela que apusesse rúbrica em um documento, ela sentava em cima.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Código da Auto-Ajuda

Às vezes alguns juristas se reúnem para elaborar um Código. Ou seja, uma compilação das leis a respeito de um determinado assunto que permita consultar toda a legislação referente ao tema em uma única fonte. Sem precisar garimpar leis e mais leis. A definição de Código é um bocadinho mais elaborada, mas fiquemos com essa ideia simples. Há Código Civil, Código Penal, Código Tributário etc etc.

Proponho a criação de um Código da Auto-Ajuda. Terá de resultar de elaboração coletiva de vários Paulos Coelhos espalhados mundo afora.

Sinto mesmo falta desse Código. Porque, atualmente, o terreno da Auto-Ajuda está confuso.
Um afirma que o verdadeiro amor não faz sofrer. Vem outro e diz que amar dói.
Um terceiro garante que a vida é bela. Vem um quarto e nos conclama a que sejamos fortes para enfrentar as amarguras da vida.
A lista é infindável.
Mas uma vez elaborado o Código toda essa ambiguidade será evitada.
E seremos estupidamente felizes. Ou felizmente estúpidos.

domingo, 14 de abril de 2013

Ser mau não é bom

Nos tempos vividos no Presídio Tiradentes, São Paulo, Brasil, gostávamos de gastar tempo a caçoar do mundo e de seus habitantes.
É verdade que não incluíamos nesse universo as centenas de baratas que insistiam em passear pelas madeiras das armações de nossas camas. Essas, na impossibilidade de matá-las a todas, nós ignorávamos.

Entre nossos alvos preferidos estavam as Esquerdas. Afinal, vivíamos o tempo todo cercados pelo que sobrara delas.

Meu companheiro de cela, o Mesquita, costumava brincar com o maniqueísmo da esquerda maoísta. Dizia que os simpatizantes da Revolução Chinesa tinham o lema:

Presidente Mao bom. Outros não bom.

Essas lembranças me acodem a propósito de uma dúvida que alimento há muito. 
A saber:  
Por que na França, terra de Hippolyte Léon Denizard Rivail, para os íntimos Allan Kardec, quase ninguém segue suas ideias e no Brasil há tanta gente que se diz espírita?
Adianto que continuo sem resposta a essa questão.

Mas arrisco alguns palpites.
O primeiro deles: brasileiro (muitos, não todos, é óbvio) não é chegado a fortes convicções teológicas e não quer meter-se em confusões a respeito de religião, assunto que ele prefere deixar de lado para dedicar atenção mais minuciosa a futebol, carnaval e telenovelas. Desse modo, aumentam os adeptos de variado número de sincretismos religiosos, por exemplo. Jogar no liquidificador as mais variadas crenças, de preferência de origens bem distintas (catolicismo, seitas de origem africana etc etc) costuma fornecer uma batida que impede maiores questionamentos. Coisas na linha sou devoto de Nossa Senhora dos Orixás ou algo parecido. Ou, como já disse a presidenta Dilma, sou devota de Nossa Senhora de Maneira Geral (e o disse ao vivo, no programa do inefável Datena, na TV Band).
O espiritismo vai um tanto nessa linha: mistura ideias da literatura de auto-ajuda com pitadas de religião, no sentido de ligação ao divino.
O lema dos cardecistas parece ser:
Como é bom ser bom.
Fora alguns malucos de plantão, há alguém que defenda o contrário?

Mais um palpite: o espiritismo é mesmo excelente para driblar qualquer discussão sobre religião.
Experimente dizer a alguém, no Brasil, que você é ateu. Verá que comprou no mínimo um olhar de espanto, no limite uma discussão barra pesada.
Ao contrário, diga que é espírita. Pronto. Assunto encerrado. Você não precisa frequentar igreja nenhuma (a menos que goste. E pode ser qualquer uma), não precisa explicar suas crenças nem falar a respeito de sua doutrina.

Afinal, todo mundo sabe que é bom ser bom.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Buraco sem fundo

Sempre que, no Brasil, é assassinado alguém de classe média, volta a discussão:  deve-se baixar a maioridade criminal para algo como 16 anos? As pessoas morrem como moscas, no Brasil, mas há certas mortes que valem mais a pena.

Desde que passei um tempinho na cadeia, lá na década de 70, me dei conta de alguns detalhes importantes. Afinal, na tranca sobra pouca coisa pra se fazer além de pensar.

A prisão não pode - até mesmo por uma questão de, digamos assim, mecânica dos fluidos - ser melhor do que a vida da maioria do lado de fora.
Desde que me conheço, as prisões, no Brasil, são verdadeiros infernos. Aliás, desconfio que assim foi desde 1.500 d.C.. Mesmo que as prisões sejam desse modo, conheci várias histórias de presos que, soltos, cometeram algum pequeno delito para poder voltar ao presídio.
Então, não adianta pensar em melhorar as condições carcerárias se - antes - não forem melhoradas as condições de vida do povo em geral.

Antes de prosseguir, é preciso que deixe claro que não tenho nenhuma opinião definida sobre toda essa questão. Tenho dúvidas. E já considero isso uma conquista.

Não entendo o porquê de raramente, no Brasil, considerar-se a possibilidade de não estabelecer uma idade fixa para a maioridade. Deixá-la ao talante da Justiça.
Será porque ninguém acredita no Poder Judiciário? Será mesmo esse Poder o mais corrupto da República?
Algum tempo atrás, na Inglaterra, dois garotos de 11 anos foram considerados adultos, do ponto de vista penal, ao terem raptado um bebé pela simples razão de queriam saber se um bebé explodiria quando uma composição do Metro passasse por cima dele. Viram. E foram condenados a 15 anos de prisão.

Esse é outro detalhe: 15 anos, na Inglaterra ou em quase qualquer outro lugar, são 15 anos. No Brasil, os condenados o são a centenas de anos. Cumprem 5 ou 6 e vão embora, em liberdade.

Outra questão complicada é a Pena de Morte (assim, em maiúsculas, pra dar mais importância). A avassaladora maioria da população brasileira é a favor. Mas, nesse aspecto, as tais elites conservadoras e as esquerdas revolucionárias (exagerei!) se unem para garantir que a voz do povo é a Voz de Deus mas nem sempre. Hay que caminar muy despacio...
Sá coméquié! O povo sabe quando sabe, e a gente sabe quando o povo não sabe.

Tem também a turma que tira da reta em relação à pena de morte e prefere a prisão perpétua. Claro, desse modo evita-se que um erro judicial se torne incorrigível. Se bem que criaria emprego de carrasco. E o pessoal anda ávido. Mas a prisão perpétua também gera empregos.

Outra possibilidade é o antigo olho por olho. Dia desses, na Arábia Saudita, um rapaz que deixou outro paraplégico foi condenado a ficar - ele também - paraplégico. Não sei o que vão fazer. Acho que lhe vão aplicar uma injecção que resolva a questão.
Confesso que isso me causa náuseas. Mas não sei o que resultaria de plebiscito a respeito no Brasil...

A única coisa de que tenho certeza, nisso tudo, é que nada vai acontecer, no Brasil varonil.

terça-feira, 9 de abril de 2013

O mundo é tudo aquilo que é o caso

Já escrevi em algum lugar, alguma hora, que o Tractatus, de Wittgenstein, foi traduzido para o português, no Brasil, pelo aloprado professor Giannotti. e que Vilem Flusser, outro maluquete, discordou da tradução - veja só - da primeira frase.
Para um, era: O mundo é tudo o que ocorre. (Giannotti)
Para o outro: O mundo é tudo o que é o caso.
Haja!
Nas traduções para o inglês:
The world is everything that is the case.
ou
The world is all that is the case.
O tradutor do Google concorda com Flusser. O que não significa quase nada...

Quanto ao original alemão: Die Welt ist alles, was der Fall ist.

Aliás, nada disso parece significar nada.
Enquanto a Coreia do Norte ameaça o mundo com aquilo que é o caso, no Brasil o caso é o deputado Feliciano, dublê de pastor do fim do mundo e seus ferrenhos adversários de sofá.
Em Portugal, discute-se se a austeridade grudou no fundo da panela, ou seja, se o fogo deveria ter sido abrandado um bocadinho antes.
E o primeiro ministro que colocou a panela a ferver torna-se agora comentarista da situação.
Haja!

Enquanto o frio não permite que a Primavera se estabeleça, Bragança continua a ser o caso.
Bem haja!

sábado, 6 de abril de 2013

Maturidade



Há sentimentos que ameaçados seguidamente por desejos acabam por naufragar. Alguns deles passam até a ser malvistos por quem os nutria. Mas jamais serão substituídos por nada.
Antes, deixarão vazio seu lugar.
Se é possível chamar vazio àquela nostalgia intitulada maturidade.




1º prémio do concurso Gentes, Usos e Costumes  (2003)
Publicado no livro homónimo organizado pela Câmara Municipal de Bragança

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Lume aceso


É agora uma mulher madura. Esposa, mãe, avó.
Nos tempos de menina teve uma paixão. Intensa como deve ser uma paixão. De curta duração, por desígnio do destino.
Com o crescimento veio a razão.
Manteve-se fiel a suas origens, casou-se com o homem adequado, teve os filhos que desejava.
Viveu e vive com a tranquilidade que se espera resultar da sensatez.
Só ela, nas entranhas, sabe ser a antiga paixão a manter o lume aceso do desejo de viver.


segunda-feira, 1 de abril de 2013

Notícias urgentes!

Cavaco Silva abandona a Presidência e a família
Declarou que, com o baixo valor das pensões que recebe, prefere entrar para o convento das carmelitas descalças.

Pastor Feliciano pede o fim do arco-íris
Em oração inflamada, durante o culto da Páscoa, o dublê de deputado e exorcista brasileiro pediu a Deus que não permita mais essa pouca vergonha nos céus.

Prefeito de São Paulo já quase consegue equilibrar-se
Lula prometeu que semana que vem tira as rodinhas auxiliares da bicicleta de Haddad.

Vem aí o Domingão do Platão!
Baseado na já quase centenária experiência vencedora do Domingão do Faustão, que cuida da educação dos brasileiros aos domingos, quando as escolas não funcionam, o ex-primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates, vai conduzir programa parecido, na RTP. Se o programa não der certo, ele já tem programado um curso de alta costura a fazer em Paris.




quinta-feira, 28 de março de 2013

Diogo, o Cristo



Agora que a série de TV A Bíblia explodiu nos Estados Unidos e vai ser exibida em Portugal (SIC) e no Brasil (Record), Cavaco Silva já pode ir ao Vaticano e completar a inteligente e inovadora fala de Dilma Rousseff ao novo Papa.
Ela disse a Jorge Mário:
- O Papa é argentino mas Deus é brasileiro.
Cavaco pode acrescentar:
- E Jesus é português.


quarta-feira, 27 de março de 2013

O banquete de (José) Sócrates

Hoje, às 21 horas, José Sócrates dá entrevista à RTP.
Até aí, tudo bem.
Acontece que Sócrates está já contratado pela emissora para apresentar um programa semanal. Ora, que ele tenha um programa de TV, tudo bem. Se quiser, pode levar a ele suas fadistas favoritas ou o que quer que lhe convenha.
O que já resvala para a baixaria é chamar-se de entrevista algo que é - evidentemente - um comercial de seu futuro programa.
Daqui a pouco veremos no que consiste a tal entrevista.
Mas lembro-me do que certa vez disse um apresentador de TV no Brasil, ao explicar a uma participante em seu programa qual a forma correcta de conduzir-se quando as câmeras fossem ligadas:
- Televisão é tudo mentira.

Actualização (22:43): José Sócrates acaba de fazer seu monólogo na RTP. De facto, o título deste post está errado. Nele, mencionei um diálogo. Diálogo não houve, como já era de se esperar.
O melhor, depois de uma hora e quarenta minutos de justificativas, foi o final:
- Há 25 anos que só tenho conta em um banco. Não tenho conta a prazo. Nem conta no estrangeiro. Para fazer esse ano e meio sabático pedi empréstimo no banco. Etc etc.

Não esqueça de deixar seu sapatinho na janela. Pai Natal vai lá deixar seu presentinho.

Valha-me deus!

Definitivamente, Sócrates é o Paulo Maluf português (os brasileiros sabem do que estou a falar).

terça-feira, 26 de março de 2013

No saco não vale!

As lutas de vale-tudo têm suas proibições. Não vale dedo nos olhos etc etc.
Mas isso vem de longa tradição.
Outro dia, ao pesquisar sobre o livro de Rut, encontrei em Deuteronômio uma regra básica:

Quando pelejarem dois homens, um contra o outro, e a mulher de um chegar para livrar a seu marido da mão do que o fere, e ela estender a sua mão, e lhe pegar pelas suas vergonhas,
Então cortar-lhe-ás a mão; não a poupará o teu olho. 
(Deuteronômio 25:11-12)

Lembrei-me de uma briga a que assisti no curso primário, no Colégio Marçal, em Santos. Dois colegas do quarto ano, todos na faixa dos 10 anos, juraram que se pegariam no intervalo das aulas.
Toda a turma foi com eles à casa de banho (/banheiro) e lá começou a luta. Lembro que se chamavam Marcelo e Feliciano. A luta ia equilibrada, até que um deles, penso que o Feliciano, caiu ao chão, no espaço entre um vaso sanitário e uma parede. O Marcelo aproveitou-se da queda e agarrou-lhe a bolsa escrotal, apertando-a. O outro uivava. Foi quando a plateia resolveu intervir. A briga foi suspensa.
Como o Marcelo não era mulher, sua mão foi preservada. Mesmo porque não valiam, ali, as regras do Pentateuco.
Valia, isso sim, o bom senso.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Ainda sobre Rut


Dizem que a História é sempre a versão dos vencedores.
Talvez seja a versão dos que conseguiram escrevê-la e publicá-la.
Na história de Rut (ver os posts anteriores), Orpá é relegada a segundo plano por não ter acompanhado Rut em sua decisão inabalável de ir com Noomi de volta a Belém.

Se, contudo, olhássemos para Orpá como aquela que não renegou seu povo, que retornou à casa de seus pais, enquanto Rut deixou suas origens de lado e resolveu começar nova vida ao lado da sogra, teríamos de inverter os nomes. Orpá passaria a ser Rut, pela ligação de afecto aos seus, enquanto Rut passaria a Orpá, por virar as costas à tradição, à família de origem.

Tudo se resume a olhar os factos como judeu ou como moavita.

domingo, 24 de março de 2013

RUT (2/2)


                                      (leia antes o post anterior)


Porque aonde quer que tu fores, irei eu.
 E onde quer que tu mores, morarei.
 Teu povo será meu povo:
 E teu Deus será meu Deus.



A decisão de Noomi de recomendar a suas noras que ficassem na terra de seus pais prende-se à chamada lei do levirato. Ou lei dos cunhados.
Quando um homem morria e deixava a esposa sem filhos, um irmão dele devia casar-se com a viúva para dar-lhe um filho que seria o herdeiro do falecido pai (Deuteronômio 25: 5-10). Na falta de irmão, que fosse um parente próximo.
Ora, Noomi não mais tinha filhos. Nem a idade lhe permitia tê-los. Se os tivesse, as viúvas de seus filhos não poderiam esperar tanto para com eles casarem. Por isso, liberou suas noras para que procurassem maridos em sua própria nação.
Como já vimos, Orpá seguiu a orientação de Noomi e voltou para a casa de seus pais, em Moav. Rut não abriu mão de continuar ao lado de Noomi.
E foram as duas para Belém, Judá.

Chegaram na época da colheita da cevada. Quem vive em regiões predominantemente agrícolas sabe que as épocas de colheitas são as mais festivas. Nem é preciso dizer por quais razões. Cá em Trás-os-Montes, por exemplo, festejam-se as vindimas, a colheita das cerejas, das castanhas, das azeitonas etc. Mas Noomi ainda trazia tristeza dentro de si, por todas as desventuras a que o destino a submetera. Ao ser reconhecida pelas pessoas que a viam, dizia:
- Não me chamem Noomi [agradável]. Digam Mara [amarga], pois grande amargura me tem dado o Todo Poderoso.

Havia um parente de Eli Mêler, valente e poderoso, da geração do finado marido de Noomi, chamado Boaz. Vinha a calhar para encaixar-se na lei dos cunhados. Noomi sugere então a Rut que aproveite a oportunidade das colheitas e vá às terras de Boaz.

Desenvolve-se, a partir daí, o desde sempre repetido ritual de aproximação entre futuros amantes.

Boaz termina por dar a Rut o filho que Marlon não tivera tempo de lhe dar: Oved.
E Oved foi pai de Ishaí (transliterado como Jessé). E Ishaí, o pai de David.

A importância de Rut reside nomeadamente no facto de ser bisavó do rei David. Eu, na minha incurável maledicência, penso que Rut tornou-se famosa porque não é todo dia que se vê uma nora gostar tanto assim da sogra. Vamos adiante.

Diga-se que é de uma saudável ironia que a bisavó da principal figura da história de Israel (ao menos uma das principais) seja oriunda de um povo arqui-inimigo do povo judeu. Os moavitas, quando da peregrinação dos judeus pelo deserto, não permitiram que Moisés [Moshé] deixasse o povo judeu repousar nas terras de Moav. Nem usufruir de suas águas. A tradição os consagrou, graças a isso, como um entre os principais inimigos de Israel.
Tal dado genealógico deveria servir como apoio aos esforços pela paz na região, em nossos dias.

Ainda no terreno da genealogia, Rut é também venerada pelos cristãos por ser bisavó de David, de cuja descendência – argumentam os cristãos – faz parte Jesus.
De facto, o evangelho de Mateus (que, diga-se de passagem, não é da autoria de Mateus), sempre preocupado em ligar Jesus às profecias do Antigo Testamento, começa por listar a cadeia das gerações desde Abraão até David (segundo ele, catorze gerações), de David até a deportação para a Babilônia (outras catorze gerações), da volta da Babilônia até Jesus (outras catorze gerações). Lá estão nossos conhecidos Oved e Ishaí.
Sem entrar na questão de se o evangelho de Mateus sumiu com algumas gerações para conseguir essa coincidência das catorze gerações, o engraçado – a meu ver – é que, no final da enumeração dos ancestrais de Jesus temos um “Jacó gerou a José, marido de Maria, da qual nasceu Jesus, que se chama o Cristo”. (Mateus 1:16).
Como diria o mineiro:
  • Uai!
Jesus, até onde aprendi na Escola Dominical, é filho do Espírito Santo. José nada tem a ver – em termos de sangue – com o Cristo.
Mas religião alguma nunca teve preocupações com a lógica. Ora, a lógica.

sábado, 23 de março de 2013

RUT (1/2)


Esse pequeno livro do Antigo Testamento e dos Escritos que integram os textos sagrados judaicos conta a história da mulher que lhe empresta o nome.
Nessa história, diga-se logo, os nomes têm significados relevantes para o enredo. Não sei por quais razões, a maioria deles foi transliterada ao português de um modo um tanto infeliz.

O texto começa por situar a ação na época em que julgavam os juízes.
Esse tipo de expressão, aparentemente redundante, é comum em hebraico. Já em português não é habitual dizer-se algo como perguntar uma pergunta.
O autor refere-se ao período em que as doze tribos de Israel eram lideradas por juízes, indivíduos que exerciam o poder administrativo, militar etc. Eram líderes de tribos. Eram os shofetim.
Além de situar a história na História, a expressão empresta ao texto um tom poético: julgavam os juízes é shefôt a-shofetim no texto original.

Por ser um período de fome em Belém de Judá (aliás Beit Lehem, ou seja Casa do Pão... haja ironia [esse h é aspirado, ou seja, soa como o j do espanhol europeu ou, se preferir, como o r dos cariocas. Vou utilizar um r sublinhado e em negrito para lembrar que se deve lê-lo do modo como o carioca descreve algo muito grande: enorme!]), a noroeste do Mar Morto, um senhor chamado Eli Mêler, com sua esposa Noomi (alguns judeus pronunciam Naomi) e seus dois filhos Marlon e Rilion foram viver a nordeste do Mar Morto, para os campos de Moav.
A questão dos nomes – e de suas transliterações para o português – é significativa. A começar pelo chefe da família. Nas Bíblias em português ele é tratado por Elimeleque, o que leva qualquer garoto a enxergar nele, logo de cara, um sujeito com o nariz a escorrer. Contudo, o nome dele, além de uma sonoridade muito melhor – Eli Mêler – significa meu Deus é o rei. Melhora um bocadinho, certo?
Também para a Noomi, que significa agradável, arrumaram a transliteração Noêmi, ou Noêmia. De onde tiraram esse e?
Quanto aos dois filhos, a raiz do nome Marlon significa doença e a do nome Rilion significa acabou por completo. A sequência da história explica o porquê de tais nomes. Também para eles reservaram transliterações sofríveis. Por exemplo, Malon e Quilion.

Mas voltemos à história. Eli Mêler morreu. Noomi ficou viúva mas acompanhada dos dois filhos.
Marlon e Rilion casaram-se com duas moavitas, Rut e Orpá, respectivamente.
Orpá significa nuca. Quanto ao nome Rut, o significado é duvidoso, mas a maioria prefere amizade.

Tudo corria muito bem, mas Marlon e Rilion também morreram.
Noomi, que já ouvira dizer que a abundância retornara a Beit Lerem (lembrar: r gutural, de carioca impressionado com o tamanho da coisa, da palavra enorme!), resolve voltar a sua terra. E libera suas noras para que retornem às casas de seus pais e continuem a viver junto a seu povo, pois ambas eram moavitas.
Ambas choram, não querem deixar de lado a sogra. Mas Orpá acaba por ceder e aceita voltar para a casa de seus pais. Daí seu nome, que quer dizer nuca, por ela ter dado as costas a Noomi.
Rut não acata a sugestão de Noomi. E, com sua atitude, produz um dos mais belos versículos da Bíblia:
Rut 1:16 (parcial)
Porque aonde quer que tu fores, irei eu.
E onde quer que tu mores, morarei.
Teu povo será meu povo:
E teu Deus será meu Deus.

(continua)

sexta-feira, 22 de março de 2013

Piada pronta

Costuma-se dizer que o Brasil é o país da piada pronta.
Parece que o mesmo cabe em relação à União Europeia.
Isso quando se observa, em meio à crise financeira que se alastra pelos países da Comunidade, que o governador do Banco Central de Chipre se chama Panicos.
Panicos Demetriades.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Emílio Santiago

Lá se foi mais um pedaço do Meu Brasil.
Morreu Emílio Santiago.
Queria agradecer a ele os momentos de emoção que ele me proporcionou.
Aquele cantor da noite. Da noite em que você sentava diante de um copo de whisky e deixava fluir a voz suave do cantor.
Paz.