segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Banana com aveia


Quando eu era criança, por ser sofrível a comida que lá em casa se servia, refugiei-me na banana com aveia.
A culpa não era de minha mãe. Durante muitos anos ela trabalhou nos três períodos do dia, de segunda a sábado. Como professora de matemática. Os domingos, claro, eram dedicados à igreja. A cozinha ficava entregue a empregadas que, salvo raríssimas exceções, não eram propriamente o supra sumo em matéria de culinária.
Bom. Talvez o problema não fosse exatamente a falta de expertise das empregadas. Certa vez meu pai contratou uma que era o que na época se intitulava de forno e fogão. Passados alguns dias de usufruto de sabores novos e deliciosos, meu pai pediu à Mestre Cuca mil desculpas e demitiu-a. Ela estava estourando o orçamento doméstico.
Éramos pobres, diga-se logo.
Quanto a mim, continuei a almoçar um quase nada e, lá pelas 3 ou 4 horas da tarde, pegava um prato fundo, colocava nele seis bananas descascadas, amassava-as com capricho, adoçava a maçaroca resultante e a cobria com perto de 300 gramas de aveia em flocos. Tudo muito bem misturado, devorava a ambrosia resultante. Ambrosia, aqui, denota comida dos deuses, não o doce, aquele.

Anos depois, por desfrutar de alimentação mais elaborada, deixei a banana com aveia um tanto de lado. Mas voltava a recorrer a ela sempre que algo de diferente acontecia. Por exemplo, no Presídio Tiradentes, logo que minha mãe me enviou caixas de aveia e banana e algo para adoçar a mistura, voltei a me valer do recurso.
Na primeira vez em que me muni de um prato e comecei a preparar a banana com aveia, os cinco que dividiam comigo a cela pararam o que faziam e começaram a olhar minha atividade, num misto de curiosidade e surpresa. Pronta a banana com aveia, um deles, mais corajoso, perguntou se podia experimentar.
Dali em diante, sempre que me dispunha a preparar banana com aveia, tinha de providenciar seis porções.

Seria importante esclarecer alguns aspectos referentes ao modo de adoçar a banana com aveia. Pode ser com açúcar (refinado, mascavo etc), com leite condensado, com mel, com adoçante...

Como passei a pertencer ao clube dos diabéticos, adoço a banana com aveia, agora, com mel.
Aliás, se me dão licença...

domingo, 8 de janeiro de 2012

Deus e a doença - 2


LEIA ANTES O POST ABAIXO

26/10/2011

Clamor pela Nenê



Queridos,

A Nenê foi ou está sendo operada neste momento, no Hospital MM.
Qdo tiver mais notícias enviarei.
Eu e a SS iremos agora para S.Paulo para ficar com meus sobrinhos e cunhado.
Orem por eles, por nós e principalmente pela Nenê.
Nossa participação nisto tudo é a oração, e sabendo que Deus ouviu nossa oração antes mesmo de falarmos, e que Ele está operando, já podemos agradecer Sua resposta.
Orem pela mamãe também.
KA

"Podemos passar por momentos difíceis, de grande tristeza, mas Deus logo nos devolve a alegria" Sl. 30:5 - Amém!


Há aqui uma promessa importante: podemos estar em situação momentaneamente angustiante, mas logo Ele nos devolverá a alegria.
Pelo visto, esse “logo” tem o mesmo significado da promessa contida nos evangelhos, a de que Jesus voltaria logo, antes que aquela geração passasse (Mateus 24:34)...

Como no segundo e-mail, o de 08/10, a situação agravada exige mais oração. Se bem que Deus ouve nossa oração “antes mesmo de falarmos”... Lidar com o infinito costuma dar nisso: a lógica se ergue puxada pelos cordões dos próprios sapatos...


30/10/2011

Clamor pela Nenê



Queridos,


Estávamos esperando a alta da UTI para enviar notícias sobre a Nenê.


Mas recebi ligação do FF, agora há pouco, informando que houve
modificações do quadro, do entardecer para cá.
Peço que intensifiquem conosco seus apelos ao Pai.
Não tenho as palavras técnicas mas parece que há um foco de infecção, provocando piora no seu estado.
Já está medicada, mas ainda faltam resultados de exames.

É a hora de colocarmos em prática o que aprendemos nas Escrituras:
"Entrega o teu caminho ao Senhor, confia nele e Ele tudo fará", e também " Esperemos com paciência no Senhor".

Não é muito fácil, mas este é o momento de agirmos assim.
Que o Senhor seja em tudo glorificado!

abrçs
KA.


Parece ter chegado o momento da resignação.
A seqüência recomendada é notável: diante do quadro agravado, primeiro intensificar os apelos a Deus; segundo, confiar nEle e esperar – com paciência – que ele “tudo faça”. Por último, e sempre, glorificá-lo.

Quanto aos médicos, nunca muito paparicados nesta história toda, literalmente sumiram.
Ao menos não se lhes está a atribuir culpa... Não é pouco.


01/11/2011



Nenê - Batalha vencida!


Queridos,

Quero lhes contar sobre o dia 30 do mês de outubro.
As notícias sobre o agravamento da saúde de minha irmã foram
confirmadas. Nosso coração ficou partido. Havia realmente um quadro infeccioso e com suspeita de ser no pulmões, porque estavam cheios de líquido, a ponto de prejudicar muito, muito, a respiração da Nenê.
RR, FF e NN ouvindo as explicações do médico, precisaram muito da Graça de Deus para que os sustentasse.
Mamãe e eu, ligamos para os familiares e, às 16:30h estávamos aqui em casa para pedir livramento ao Senhor.
Abrimos nossos corações diante de Deus. Lemos a Sua Palavra, choramos e entoamos cânticos cujas letras, coincidentemente (coincidentemente?), eram trechos tirados da própria Palavra de Deus.
Conversamos também sobre nossas emoções, sentimo-nos fortalecidos e confiantes no poder de Deus.
Naquela noite RR e FF disseram que foram drenados quase 2 litros de fluídos dos pulmões e estes fluídos não eram infecciosos.
Apesar de continuar a busca pelo local da infecção (o que fazia com que o estado ainda fosse grave), graças a Deus, imediatamente, a respiração voltou ao normal, fazendo com que fossem retirados os aparelhos de oxigênio. E a Nenê dormiu em paz por 7 horas seguidas!!
"Senhor! somos-te agradecidos"!
E o efeito do antibiótico administrado, que seria sentido somente em 14 ou 24 horas (não lembro), fez com que as taxas começassem a cair em apenas 6 horas. "Senhor, muito obrigada"!
Logo após esta melhora o médico considerou que não seria necessária outra cirurgia como havia pensado.
E assim, lentamente, vão acontecendo bênçãos e mais bênçãos sobre a Nenê, nesta situação especial, dando-nos chance a ela e a nós, de refletirmos humildemente sobre nossas vidas, e conheçamos ou reconheçamos o Deus Onisciente, Onipotente, cheio de amor por nós, pois "Deus é amor".
Tudo o que aconteceu foi no domingo, quando além de vocês, muitas igrejas, reunidas, clamaram pela vida da minha irmã.
Usando a frase do meu primo Pr. TT, posso dizer :"A oração é a alavanca que move a mão de Deus".
A Nenê, sua família e nós, dividimos a vitória daquele dia, e pedimos a Deus o Seu amor e o Seu cuidado para suas vidas e seus lares.
KA.

"Cantemos ao Senhor um cântico novo, porque Ele operou maravilhas.
Sua mão e Seu santo braço nos deram a vitória". Sl 98:1


Foi só dizer que os médicos haviam sumido e eles reaparecem: a primeira vez para oferecer uma descrição tenebrosa do quadro da paciente, a ponto de os familiares “precisarem muito da Graça de Deus para se sustentarem”. Ah! Esses médicos! Sempre muito vinculados à realidade, alheios aos milagres que se operam sob seus narizes!
Em uma segunda aparição, um médico considera desnecessária outra cirurgia, “como havia pensado”.


02/11/2011



PREVISAO DE ALTA


Boa tarde pra todos os familiares e amigos,

Esta prevista para amanhã, dia 2, quarta-feira, a alta hospitalar.
Foi retirada a "bolsinha" e o intestino deve se normalizar dentro em breve.
A região abdominal esta muito dolorida! Ainda preciso de uns 3 meses sem levantar peso, etc...

Gracas a Deus o Senhor cuidou de nos nesse pedaco dificil de passar!!!
Deus eh bom e faz tudo perfeito!!!

Deus abencoe a todos,
Abraco,
Neide

(Estou no Hospital, computador emprestado, acentuacao faltando...)


Como a situação melhorou, a ponto de ser a própria Neide quem escreve, Deus retornou a seu papel de provedor: “o Senhor cuidou de nós nesse pedaço difícil”. Os médicos? Ora os médicos...



09/11/2011


Notícias - Nenê


Queridos,
As 48:00h (críticas) seguintes a 3ª cirurgia foram vencidas!
Que o nome do Senhor seja louvado e glorificado!
Foi uma cirurgia de grande risco, mas os médicos conseguiram fazer tudo o que era necessário, drenar, suturar, coisas muito delicadas, arriscadíssimas.
Embora seu estado ainda seja grave, a notícia de hoje é que ela está se sentindo muito bem, já conversou com a RR, tomou sorvete!! e teve o dia inteiro a companhia do DD (seu maridão). Ele, e todos, estão mais aliviados e contentes com mais esta demonstração do amor de Deus.
beijos a todos,
KA.
“Aos que sofrem ele os livra em meio ao sofrimento; em sua aflição Ele lhes fala.” Jó 36.15
As visitas serão liberadas a partir da alta da UTI.


Desta vez, viva!, uma menção aos médicos: eles “conseguiram fazer tudo o que era necessário”. É certo que, ao final, tudo mostrou-se como mais uma “demonstração do amor de Deus”.



12/11/2011

A semana da Nenê



Queridos,
Esta semana tem sido muito difícil para nós.
A Nenê passou por mais uma cirurgia e a infecção é mesmo o maior perigo.
Agora ela tem também um dreno no pulmão. Graças a Deus não estava infectado.
No entanto seus exames e sinais vitais acusavam que em algum lugar ainda há infecção,
e com isto, por 2 vezes pensamos em perdê-la.
Mas ontem, descobriram que ela está com uma bactéria muuiiitto resistente. Enquanto não recebem o resultado do infectologista, já começaram com um antibiótico dos mais fortes.
E, realmente, hoje ela já se sente melhor e isto é um bom sinal do efeito do medicamento.
Graças a Deus, não tem dores, mas o desconforto de ficar na mesma posição (só pode levantar a cama um pouquinho) está sendo dificílimo para ela aguentar. Quem convive com a Nenê, sabe que não fica parada de jeito nenhum!
Com a novidade desta bactéria resistente, a partir de ontem está em isolamento de contato.
Continua no mesmo lugar (na UTI), mas agora os cuidados estarão redobrados e se o DD, a RR ou FF puderem entrar, estarão todos paramentados para sua própria segurança.
Em tudo damos graças. Tudo o que ofereceu perigo, teve o procedimento e resultado positivo.
Estamos contando tudo o que Deus já nos deu a vitória, esperando o mesmo para o que ainda virá.
.
Muito obrigada a todos e orem pelas próximas 24 horas, pois a situação ainda é muito grave.
Não sei se vou cometer um erro teológico, mas penso que esta é a provação mais difícil que temos passado . Isto fortalecerá nossa fé e certamente estaremos todos aprendendo a ser mais parecidos com o Senhor Jesus, aquele que sofreu no nosso lugar, a quem prestamos toda a Glória!
Um grande abraço,
KA
O Hospital MM está pedindo doadores de sangue.
Se há alguém que more em São Paulo, e tiver condições , agradeceremos muito.


Mais uma vez, a piora do quadro clínico nos remete à oração. Tudo se passa, me parece, como se – de vez em quando – Deus se ausentasse uns instantes. Aí o paciente regride e é preciso chamar o Senhor, clamar por sua ajuda.
Outra observação: considera-se “vitória” tudo que represente melhora do estado da paciente (“tudo o que Deus já nos deu a vitória”). Veremos, já, já, uma mudança nesse conceito de “vitória”.




19/11/2011


Nenê já está ao lado de Jesus

Jó 1:21b "o SENHOR o deu, e o SENHOR o tomou: bendito seja o nome do SENHOR."

Senhor nos deu a Nenê, e o Senhor a tomou: bendito seja o nome do Senhor.
Ela já está com o seu Criador e Salvador, aproximadamento às 17:00h.
Depois teremos mais notícias.
A família está conosco e estamos chorando a nossa perda, que é a de vocês também.
KA


25/11/2011

Nenê

Queridos,
É ainda com lágrimas nos olhos que venho até vocês para agradecer todo o carinho demonstrado: orações, telefonemas, emails, pedido de doadores de sangue, enfim a companhia de vocês neste período triste de sofrimento da Nenê e nosso também.
Nossas orações não foram em vão!
Nossas lágrimas não foram ignoradas por Deus. Sl. 56:8.
Ele esteve conosco, não foi indiferente, ao contrário, sentiu todo o nosso pesar porque Ele mesmo sofreu como homem e conhece as nossas dores e nosso coração. Ele ouviu todas as nossas orações e respondeu com a Sua Soberania, dando a Nenê, o prêmio da vitória, no momento em que abriu os olhos e viu o seu Salvador e Senhor!
Somos o barro. Deus o Oleiro. Que pode o barro reclamar para o Oleiro?
A Nenê nos foi emprestada para viver uma vida tão linda e abençoadora.
Sigamos seu exemplo até nos últimos dias de UTI, quando agradecia por mais um dia de vida e sempre, sempre cantava louvores a Deus, até mesmo quando isto era possível somente com o mover dos seus lábios.
"Bendirei o Senhor o tempo todo!
Os meus lábios sempre o louvarão!"
Salmo 34:1
É o desejo de Deus e nosso também.
Por favor, gostaria que esta mensagem fosse repassada às igrejas e pessoas que, embora desconhecidas, pediram a Deus pela Nenê e por nós.
Serei sempre grata.


Até a morte de Neide, ficava claro que lutava-se pela vida. E quando digo “vida”, refiro-me a esta uma aqui, a meu ver a única.
Considerava-se “vitória” toda e qualquer superação da doença e recuperação da saúde.
Dentro da lógica tradicional, a morte seria, então, a derrota.
Mas qual! Deus não pode ser derrotado.
E toca a contrariar os factos:
“Nossas orações não foram em vão!
Nossas lágrimas não foram ignoradas por Deus.”

Ora, durante todo o processo da doença de Neide pedia-se claramente a Deus que a curasse; agradecia-se a Ele quando ela melhorava; clamava-se a Ele quando ela piorava.

Ela morre, tudo muda: a morte passa a ser o “prêmio da vitória”.

Ora, eu e outros seres submetidos à lógica tradicional não conseguimos entender como um prêmio de vitória pode ser tão veementemente repelido ao longo de dois meses de sofrimento.


Nas lógicas tradicionais, se uma sentença A é verdadeira e sua negação (não A) também o é, tudo se trivializa, ou seja, tudo passa a ser verdadeiro.
Meu mestre, Dr. Newton da Costa, notabilizou-se por desenvolver a ideia de lógicas inconsistentes, isto é, lógicas nas quais A e não A podem ser ambas verdadeiras sem que isso trivialize o conjunto de sentenças.
Durante muito tempo, enquanto o socialismo ainda era senhor do leste Europeu, os lógicos dos países socialistas tentaram utilizar-se das ideias do prof. Newton para formalizar a tal dialética marxista.

Sugiro que teólogos se debrucem sobre os trabalhos relativos às lógicas inconsistentes para ver se as aproveitam para formalizar essa mentalidade cristã exemplificada acima.

Nós, ateus, consideramos – sim – a morte como derrota. Talvez a palavra mais adequada seja “fim”. Sem conotações morais.

E lutamos como podemos para prolongar a vida. Ela é a única de que dispomos.

E é maravilhosa.

Mas, em relação aos que acreditam em uma vida maravilhosa no além, nos é difícil entender o esforço enorme que fazem para evitar o desfrute desse prazer infinito.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Deus e a doença - 1


Atualização (12/01/2012): Recebi de minha irmã mais nova a explicação que segue abaixo:
Querido mano:
Não sei onde vc quer chegar, mas vc confundiu 2 casos de câncer de pessoas igualmente cheias de fé.
Qdo vc pensou que a irmã estava escrevendo sobre o caso anterior, vc se enganou. Veja lá os nomes reais e vai verificar que a primeira paciente que vc chamou de Neide não é a mesma que vc chamou de Nenê. A "Nenê", de fato, já se foi, mas a "Neide" me manda e-mails até hoje sobre os mais variados assuntos, com lindas flores e paisagens. Não me consta que o Google tenha chegado aos céus...
Beijos da irmã que entende sua procura de lógica onde ela não se aplica, mas reconhece os benefícios da fé para quem a tem.

Recebi os e-mails em seqüência, enviados por uma mesma pessoa. Entendi que se tratava de um único caso. Fica aí a correção. No entanto, isso não altera em nada a questão que analiso: a lógica (ou ausência dela) de pessoas religiosas diante de uma doença grave. Serem na verdade dois casos, não um, ressalta a questão de os comportamentos evidenciados nos e-mails que se seguem não serem caso isolado. Ao contrário, são amostras da regra, não exceção.

* * *



Em um intervalo de aproximadamente 2 meses, recebi 14 e-mails a respeito do tratamento do cancro de pessoa conhecida de minha família, em São Paulo, Brasil.
Por tratar-se de pessoa (e sua família) profundamente cristã (baptista), os e-mails foram muito reveladores do modo de encarar a relação ser humano – Deus, no contexto de doença grave.
Meu interesse em analisar tais e-mails e em dar-lhes publicidade prende-se ao meu desejo de compreender a lógica subjacente às crenças das pessoas envolvidas.
Espero que ninguém veja em minha análise qualquer sinal de desdém pelo sofrimento da paciente e de seus familiares e amigos.
Sou filho de mulher que sofreu durante um ano, antes de sucumbir diante do cancro. Acompanhei seu calvário e ajudei no que me foi possível.
Nada do que vem a seguir tem a ver com o sofrimento que a doença acarreta. Tem a ver com a lógica das pessoas que a vivenciam, direta ou indiretamente.
Quero analisá-la para desvelar seu significado contraditório e, a meu ver, inútil.
Diga-se, também, que todos os dados passíveis de permitir identificação dos envolvidos foram substituídos. A protagonista foi chamada de Neide, com a alcunha usada pela família trocada para Nenê.



05/10/2011
ALTA HOSPITALAR


Querido irmão WW,
desculpe-me por demorar a responder-lhe.
Passei dias 3 e 4 no hospital, foi muito cansativo... Exames de sangue, tomografia, consulta com os oncologistas... Mas recebi mais um presente de Deus: NÃO SERÁ NECESSÁRIO FAZER QUIMIOTERAPIA!!!
Deus efetuou um milagre! As imagens do pré-operatório mostravam um quadro violento de câncer, mas durante a cirurgia não foi localizada a tal agressividade... Então concluiu-se que a quimio é desnecessária.
Só precisarei fazer acompanhamento (novos exames) a cada 3 meses.

Depois da alta hospitalar estive na "quitinete" da minha filha, que estuda violino na XX e mora há 5 anos em São Paulo. É um minúsculo lugar, perto do metrô Marechal Deodoro. Fiquei um pouco desconfortável por diminuir ainda mais o pouco espaço que ela tem, mas Deus usou essa garota (que ontem fez 23 anos) como um anjo pra ministrar a meu favor. Muito responsável, trocava curativos, dava a injeção na barriga (anticoagulante), e dormiu no chão pois me cedeu sua cama... Foi mais um presente de Deus, pois não tenho como pagar hotel, e nem podia sair de São Paulo até que as funções biológicas fossem restabelecidas. Estive lá até ontem, 04/10.

Hoje, 05/10, estou em YY. Devo voltar a São Paulo dia 18, para mais exames e para marcar a cirurgia da retirada da "bolsinha das fezes" (provisória) para a correção do intestino...

Fiquei muito feliz com o e-mail do Pr. ZZ
[Pr é abreviação de Pastor]. Amo esse servo de Deus. Esteve em KK, para a instalação do "Tele-Amor" há muuuuuuuuito tempo... Estou enviando cópia para ele.

Mais uma vez, agradeço por suas orações. Tenho muito a agradecer a Deus, que esteve comigo nessa situação tão delicada. Deus é maravilhoso!!!
Obrigada por seus e-mails.
Deus o abençoe,
Neide
[alcunha familiar Nenê]

Neste primeiro e-mail, Deus é considerado o autor de tudo de bom que aconteceu à Neide, a saber: o cancro não era tão grave quanto se supunha inicialmente e a filha lhe deu abrigo e cuidados.
Quanto à questão da gravidade do cancro, considera ela que Deus operou um milagre. Ele tornou desnecessária a quimioterapia. Sobre o papel dos médicos, nada. Eles foram meros figurantes.
Quanto às atenções que lhe prestou a filha, demonstram que foi instrumento nas mãos de Deus. Ainda chega a considerá-la “muito responsável”, mas é tudo.



08/10/2011



NOTICIAS DA SEMANA - QUIMIOTERAPIA

Dia 03/10, segunda-feira estive no Hospital para consulta com oncologista, curativos, etc.

Dia 04/10, terça-feira, estive no Hospital desde cedo até 17h. Fiz exames de sangue, mais tomografia, consulta com mais oncologistas, etc... Foi muito cansativooooooooooo!!... Foram 5 médicos que estudaram o caso, revisaram todos os exames anteriores (pois pelas imagens esperava-se um caso agressivo da doença), analisaram outros casos de câncer semelhantes, e concluíram que a quimioterapia não será necessária. O câncer estava localizado no apêndice, que foi totalmente retirado, e a "massa"... sei lá... acho que ela só queria "si inzibí"... Deus é maravilhoso!!!! Com certeza Deus realizou um milagre aí!! Agora precisamos agradecer a Deus pelo Seu cuidado e proteção!!! Eu precisarei voltar a São Paulo a cada 3 meses para fazer os exames de acompanhamento da doença.

Á noite, voltei pra YY.

Dia 05 e 06 estive muito cansada, tentando recuperar as forças.
Internação dia 15/9... cirurgia dia 16/9... alta dia 24/09... e mais 10 dias no Ap. da filha... 19 dias se passaram... Apesar de que a gente não gosta de hospital, Deus cuidou de mim em cada detalhe!

Devo voltar a São Paulo dia 18/10, para mais exames, pra verificar a "borsinha"(ostomia), e marcar a próxima cirurgia pra colocar o intestino no lugar.

Cada bolsinha custa cerca de R$ 50,00 e deve ser trocada a cada 3 ou 4 dias. Mas até neste item Deus foi maravilhoso comigo!!! Minha conhada descobriu uma ONG que faz doação de borsinha, e, enquanto eu fiquei 3 horas esperando pra fazer a tomografia, ela foi até a ONG, recebeu a doação de 10 bolsinhas, aproveitou pra fazer uma doação pra ONG, etc... Essa conhada HH é demaaaaaaaaais!!! Essa ONG foi criada por uma senhora chamada Amélia Yocico Arakaki, que usa ostomia definitiva há 18 anos!!

Dia 07 levantei-me com febre e a urina está bem turva. Sob o efeito do remédio indicado a febre baixa, mas depois volta... Eu não poderia ter essa febre, pode ser algo grave... Tenho orado pedindo a orientação de Deus. Um médico cristão daqui de YY, o Dr GG, solicitou exames de urina, que só ficarão prontos no final da próxima semana... O JJ quer me levar pra São Paulo, mas eu acho que ainda não agüento essa viagem... Me ajudem em oração!!! Deus pode tirar essa infecção do meu corpo!!!

Por hoje é só. Agradeço pelas orações de todos. Grande abraço. Deus os abençoe.

Neide

ATÉ AGORA, QUASE MEIO-DIA, ESTOU SEM FEBRE. QUE DEUS ME AJUDE!!

Neide


Aqui, Neide começa por nos contar o tratamento pelo qual passou no Hospital. Apesar de informar que 5 médicos estudaram o seu caso, revisaram todos os exames, compararam com outros casos semelhantes, concluindo que a químio não seria necessária, termina por concluir que “Deus cuidou de mim em cada detalhe”.

Deus até faz surgir uma ONG providencial que lhe presenteia com “bolsinhas” necessárias em função da ostomia.

Agora surge o primeiro ponto de inflexão. Tudo estava a desenvolver-se no rumo da melhora. Isso porque Deus cuidava detalhadamente do caso.

De repente, talvez porque Deus tenha afrouxado um bocadinho a vigilância, o quadro volta a piorar. Surge febre, a urina está bem turva.

Recorre-se, então, à oração. Tanto Neide ora quanto solicita que todos a ajudem em oração. Parece que Deus precisa ser alertado com urgência. Surge até um “médico cristão”. Será uma nova especialidade da medicina?

Neide continua a confiar na providência divina (“Deus pode tirar essa infecção do meu corpo!!!”), mas é necessário provocar sua intervenção por meio de orações.


17/10/2011

UM MÊS DE CIRURGIA


Queridos irmãos, amigos e familiares,

Hoje, 16/10/2011, está fazendo “aniversário” de um mês da cirurgia de câncer de apêndice a que me submeti.

Tenho tanto a agradecer a Deus:

a autorização do convênio para essa cirurgia de grande porte...

a recuperação na UTI (4 dias)...

a alta com 8 dias (antes do previsto de 14 dias)...

a ajuda que recebi de colegas e amigos para injeções (19 na barriga...) e remédios...

a cicatrização dos pontos (42...)

a libertação da quimioterapia,

e muitos outros itens!!!

Enfim, a cada dia que passa sinto-me com um pouco mais de disposição.
Já não fico tanto tempo deitada, e comecei a fazer pequenos serviços...

Mesmo assim, ainda há mais etapas importantes a vencer.

Dia 18, terça-feira próxima, devo voltar a São Paulo para consulta com o medico proctologista, que pedirá novos exames e, dependendo da cicatrização dos pontos internos no intestino grosso, deverá marcar a nova cirurgia para a correção do intestino delgado (pra tirar a “bolsinha” (ostomia) provisória). Estou com um cateter (do rim à bexiga) que também precisará ser retirado quando a situação de saúde permitir.

Novos exames... cansaço... outra cirurgia... UTI... recuperação... Só Deus pra nos ajudar!


Agradeço a todos vocês pelas orações, por outras ajuda$ que enviaram, e peço que Deus abençoe a cada um! Boa semana a todos.

Abraço,

Neide


Completado um mês da primeira cirurgia, parece que a situação se estabiliza, graças – é claro – a Deus.
Neide enumera as bênçãos recebidas:

O convênio [plano de saúde] ter autorizado a cirurgia. O facto de isso ser uma obrigação contratual do convênio parece não vir ao caso;
A recuperação na UTI (unidade de terapia intensiva), a alta em apenas oito dias, bem menos do que inicialmente previsto, a cicatrização dos pontos, a desnecessidade de quimioterapia, nada disso diz respeito a médicos e enfermeiros e medicamentos etc, tudo é dádiva divina;
A ajuda recebida de colegas e amigos (certamente inspirados por Deus);

Para todas as etapas futuras, que explicita, ela só enxerga a ajuda de... Deus.



20/10/2011


CIRURGIA 28 DE OUTUBRO


Notícias do Boletim da Saúde...
Boa tarde a todos vocês.
Não consegui marcar as consultas para o dia 18, nem encaixe...
Então a consulta no Hospital foi marcada pra hoje, dia 19. Fui cedo à capital, e graças a Deus, antes das 17 cheguei de volta em YY. Deus nos guardou na ótima viagem, e, apesar de um congestionamentozinho na Bandeirantes, cumprimos todas as tarefas agendadas.
A cirurgia para a retirada da ostomia provisória está agendada para 28 de outubro, sexta-feira da próxima semana. Apesar de ser uma cirurgia simples, a internação poderá ser de até 4 dias.
Por ora é isso...
Bom "restê" de semana pra todos.
Deus os abençoe.
Neide


A partir daqui, os e-mails passam a ser escritos por uma irmã de Neide, que chamaremos de KA (com exceção de um, ainda assinado por Neide). Mas a lógica subjacente continua a mesma, até mesmo intensificada. Ela trata a irmã pela carinhosa alcunha de Nenê.


22/10/2011



Notícias da Nenê!

Queridos,
Houve uma pequena pausa, não foi
[neste ponto parece faltar algo].
Principalmente para mim, que não sabia o que era ter uma irmã querida doente...
Mas, creio que estas pausas que Deus nos dá, tem o mesmo efeito que produzem nas melodias, deixando-as muito mais bonitas e harmoniosas.
Deus sempre faz o trabalho perfeito, mesmo que não entendamos muito bem no momento.
E agora, vamos às notícias:
Ontem a Nenê passou pelo médico cirurgião, em São Paulo, tirou os 3 pontos (externos, é claro!), e tirou 47 grampos que prendiam a cicatriz. Não posso nem imaginar qual foi o "extrator" que ele usou!!
Mas nossa Nenê é forte e graças a Deus não sentiu dor.
Neste tempo em casa, ela esteve bem, mas passou uma noite acordada (e o DD também!!) com tanta dor que foi preciso ir para o hospital. Ficou somente algumas horas para ser medicada e voltar para casa! Graças a Deus, desde então, não sentiu mais nenhuma dor!
A RR (sua filha, minha amada sobrinha) explicou tudo direitinho pra mim.
Será necessário ficar com o dreno mais 1 mês, mas já podemos ver as melhoras!
O tratamento provavelmente será complementado com quimioterapia, e talvez ela possa fazer na mesma clínica que eu! Desta vez, sou eu quem vai acompanhá-la (um ínfimo do que ela me fez!)
Então... louvemos a Deus, mais uma vez! e sempre!
Ela está se sentindo bem, está linda e loira! RR já providenciou isto também!
Bem, além de vocês, deixei de mencionar algumas igrejas, a quem agradeço agora, como Ig Vila Mariana, Ig. Paulistana, às igrejas dos nossos queridos Almeida/Cardoso, também dos queridos Silveira/Almeida e outras que podem não estar vindo à minha mente agora.
Ah! o grupo de amigas da Nenê não são amigas!! São irmãs!! Obrigada, queridas!
E as minhas amigas também, já são quase irmãs da Nenê, também!
E todos, rendamos gratidão ao Deus de Misericórdia, que tem nossas vidas em suas mãos, conhece todos os nossos dias e trabalha para que estas vidas sejam abundantes, repletas de Seu amor! Incomensurável amor!
com muito carinho,
KA.

"Bendito seja Deus que não nos rejeita a oração, nem afasta de nós a Sua Graça.
Pois nos tem ouvido e tem-nos respondido. Bendito seja Deus"!!


Para KA, tudo pode ser resumido nesta frase:
Deus sempre faz o trabalho perfeito, mesmo que não entendamos muito bem no momento.

Apesar da crença de KA, vou continuar a tentar entender como funciona essa lógica.


24/10/2011



Deus logo nos devolve a alegria!



Queridos,

Faz duas horas que mandei a mensagem de intercessão, e já recebemos a resposta!
A cirurgia foi necessária e urgente, pois algo estava impedindo a saída de todo líquido (dreno), e a Nenê estava passando muito mal, com seu abdomem estendido.
Foi feita uma ótima limpeza e colocação de mais 3 drenos para a saída do líquido acumulado, que estava impedindo sua recuperação.
Havia uma fístula e foi suturada.
O médico oncologista também esteve presente e verficou com cuidado, concluindo que podemos nos tranquilizar pois tudo está perfeito.
Não tenho mais detalhes, mas fiquei por aqui mesmo, visto que ela ficará alguns dias na UTI.
Poucas horas depois da operação ela já estava acordada, e para alívio do DD e do FF puderam falar com ela um pouquinho.
Glória a Deus. Sempre glória a Deus.
E obrigada por estarem nos dando todo apoio.
KA

"O Senhor é bom, um refúgio nos tempos de angústia" Naum 1: 7a


Não sei se percebo bem, mas me parece que Deus acaba de ser um bocadinho rebaixado. De provedor incansável a refúgio nos momentos de angústia.

Antes, quando os procedimentos estavam a dar resultados mais animadores, Ele era quem tudo fazia.
Agora, quando a situação já não é tão favorável, ao invés de correr ao hospital e pôr tudo a funcionar, nos eixos, Ele se oferece como refúgio.
Angustiem-se, mas sob a minha proteção.

[CONTINUA]

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Jesus de Nazaré


Talvez por ter lido Com os Holandeses, na seqüência do maravilhoso Ernestina (ambos de J. Rentes de Carvalho), comecei o ano mergulhado em Jesus de Nazaré, do cineasta holandês Paul Verhoeven.

Não sou teólogo. Portanto não farei uma crítica do livro.

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Deixo, aqui, apenas algumas observações de leigo: impressionou-me o rigor do autor na análise das fontes; a erudição que demonstra ter com relação ao tema, resultado de vinte anos de estudos do assunto junto aos componentes do Jesus Seminar.

O autor procura construir o perfil de Jesus do modo mais fidedigno que as fontes permitem. Nos episódios em que não é possível pisar em chão de certezas, arrisca eventualmente especulações, sempre deixando claro que é de especulações que se trata.

O resultado desse esforço de (re)construção me parece que premia os muitos anos de dedicação do autor ao tema.
E brinda o leitor com uma história fascinante e com uma magnífica aula de metodologia da História.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Cones de luz

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À hora em que escrevo, 11 da manhã, o nevoeiro é denso.
Mas no início do dia, logo após a meia-noite, a névoa começava a formar-se. As lâmpadas dos postes de iluminação aproveitavam para formar cones de luz.
Ou seriam cones de névoa?

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Eppur si mangia!


No último post, comentei que ainda não tínhamos conseguido comer bem em Ourense.
Pois bem. Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe.
No domingo, fomos ao Galileo.

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Fica em uma estradinha local (são as chamadas OU) e, apesar de ser adepto das espumas e das reduções, serve comida dos deuses, em ambiente muito agradável. O salão em que ficámos é todo envidraçado e, dele, podem-se ver os fundos do imóvel, onde as crianças que já almoçaram vão andar de patinete etc etc.

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Na segunda-feira, dia de nosso retorno a Bragança, procurámos algum lugar para almoçar no qual fosse possível deixar o carro com mala, Doga e vidro um bocadinho aberto (a Doga tem o péssimo hábito de respirar).Encontrámos este lugar:

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Muito bom, o O'Colmear!

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Doguinha ficou na espera. Almoçámos (eu, umas gambas, a Baixinha, um linguado en la plancha)
Terminado o almoço, enveredámos pela Autoestrada das Rias Baixas até a entrada 84, para Puebla de Sanabria. Daí até nossa casa.
Que venga 2.1012!

Obs: Nas fotos, troque am por pm.

domingo, 1 de janeiro de 2012

No ano novo, vida de sempre


Pois bem. Aproveitámos estes dias festivos pra passear cá pela Galícia.
Estamos em Ourense. 2.012 já começou, por aqui. Aliás, uma hora depois começou também em Portugal. Isso já diz muito sobre a artificialidade do tal ano novo. No Brasil 2.012 só chegará daqui a uma meia hora.
Nossa filha que vive na Austrália já está quase no meio do dia primeiro.

Apesar de Ourense ser uma cidade bonita, ainda não conseguimos comer bem por aqui. Acabo de fazer uma pesquisa no Google e, de manhã, vou verificar se algum dos restaurantes que parecem ser bons abrem hoje para almoço.

De resto, estou em guerra com as línguas: se já era difícil falar um espanhol correto, justamente pela dificuldade da semelhança, agora - com o galego - me arrebentei todo.
Sem dúvida, as semelhanças entre as línguas são muito peligrosas, perigosas...

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Guerra sutil


Depois de ouvirmos besteiras monumentais ditas durante anos por Lula, por Dilma, por Cristina, por Hugo, por Lugo, chegamos à inevitável conclusão:
Idiotice, aliada a esperteza, pode provocar cancro.

POR EXEMPLO

sábado, 24 de dezembro de 2011

Mistérios (2)


Nesta época de mistérios tais como a concepção de um menino por uma virgem, bem antes da fertilização in vitro, lanço a pergunta que, para mim, questiona um enorme mistério:
Por que as casas de banho, em Portugal, têm o interruptor da luz instalado do lado de fora?!

Natal


Amanhã comemora-se o nascimento do presumível filho de Pantera, soldado romano, com Maria.
E (quase) toda a gente vai comer, beber e trocar presentes e gentilezas.

Bom Natal!

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Nevoeiro



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Agora de manhã, cá em Bragança, o cenário é esse que aí (não) se vê.
Mais ou menos o mesmo de um inverno em São Paulo, 1.963.
Luiz e eu teríamos prova de Cálculo na Cidade Universitária. Era nosso primeiro ano na Escola Politécnica da USP. Quem conduzia o fusquinha era eu. Melhor, tacteava em meio à névoa, a tentar adivinhar o que vinha à frente.
Luiz ainda me perguntou como eu conseguia dirigir sem enxergar quase nada. Comecei a dar-lhe uma explicação quando veio a pancada. Fora um pequeno corte no supercílio de um rapaz que viajava no outro automóvel, também um fusca, nada aconteceu às pessoas envolvidas. Apenas os estragos materiais é que foram grandes.
Além de todos os aborrecimentos que um evento desses acarreta, perdemos a prova de Cálculo.
Dada a falta de gravidade da ocorrência, o inquérito policial descansou em alguma gaveta e parecia que não teria conseqüências.
Mas, quase dez anos adiante, eu perderia mais alguma coisa.

* * *

Dezembro de 1.972. Final de um ano vivido atrás das grades. Por já ter sido condenado e já ter cumprido mais de metade da pena, eu tinha direito à liberdade condicional.
Meu advogado, José Carlos Dias, quis aproveitar o clima de Natal para solicitar minha soltura. Quanto a mim, sonhava sem parar com o passar as festas junto à família, solto no mundão.
Às vésperas do Natal veio a notícia: não iriam soltar-me. Havia a informação de um processo contra mim e seria necessário verificar do que se tratava antes de autorizar minha libertação. Tal verificação só poderia ser feita no início do ano.
Era o processo do acidente de 1.963.

* * *

Só pude respirar o ar da liberdade em 5 de janeiro de 1.973.
Em pleno verão paulistano. Sem névoa.

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segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Boas Festas


Estendo aos leitores do blog os cumprimentos que os brigantinos iluminaram na rotunda dos touros...


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e na pracinha dos caretos:

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De resto, brindo a todos com uma imagem de Bragança banhada pelo sol. Ao fundo a avenida Cidade de Leon. A câmera está na avenida das Forças Armadas, junto a mim e à Doga, ambos desarmados, claro.

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sábado, 17 de dezembro de 2011

Pílulas de língua portuguesa


Não sou profundo conhecedor da língua portuguesa. Mas imaginava ao menos conhecer o alfabeto.
Eis que, ao percorrer os corredores de um mercado, em Bragança, descobri em uma prateleira o produto abaixo:


Imediatamente pensei:
- Como são ingênuos, os portugueses! No Brasil, um produto com esse nome não venderia nem uma unidade. Aliás, mais: nenhum publicitário sugeriria para um produto um nome que se lê Caga Sete!
Não demorou, descobri que o que imaginava ser ingenuidade portuguesa, era ignorância minha: em Portugal, a letra K é pronunciada Kapa. No Brasil é que se diz Ka. Portanto, aqui, o produto pode ser tranqüilamente comercializado. É o Capa Agá Sete.
Pronto.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Imaculada Conceição


Portugal e Espanha param, todo ano, no dia 8 de dezembro, pra comemorar a conceição imaculada. Ou a concepção pura. Ou o nascimento sem sexo.

E eu, que pensava que adultos não mais acreditavam em cegonhas a trazer bebés.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

7Belo


Tenho um sobrinho que considero - já que os matemáticos preferem contar a partir do zero - meu filho zero. Depois vieram o primeiro, o segundo e o terceiro...
Eu tinha 17 anos quando ele nasceu. Meu pai morrera no ano anterior. Comecei, graças a ele, a aprender como se lida com uma criança.
E que criança!

Um dia desses, não faz muito tempo, mandou-me e-mail em que relata a visão que um garoto de nove anos teve das visitas que fazia, com os pais e a avó, ao tio preso no Presídio Tiradentes, em São Paulo, nos remotos anos de 1.971, 1.972.

Ele começa por sugerir o contexto da leitura:

Bom ... então ... agora ... toma duas doses da tua mais vagabunda bebida que estiver por perto ... e lê:

Daqui pra frente a palavra é toda dele:

Um cara com uma arma na cintura ia até quase no meio do pátio e aos berros mandava todos embora.
- O horário da visita acabô !!!
Este com certeza esbravejava outras frases não mais delicadas prá tirar todo mundo dalí.
Enquanto o milico berrava, ele, com seus + ou - oito anos, só conseguia prestar atenção nas famílias reunidas, uma a uma em "rodinhas" se despedindo dos que alí iriam ficar ...ao invés de ouvir o tal ...
Todo sábado era assim ..
Informação na cabeça dele era tudo ...
Via ... ouvia ...aliás, via mais do que deixavam ele ouvir.
Na época não tinha muito tempo prá sentir o que realmente acontecia . Mas não era de todo um tolo.
Só quem poderia dizer a data e a hora seria sua vó ... Quando a bomba estourou ... E a notícia chegou !
Ele estava no quintal de casa e viu ela, sua vó, receber a nova.
Com desespero ouviu, debruçada na janela de sua casa que ficava nos fundos do quintal, a notícia !
Foi um tal de: chora de um lado ... chora de outro ... cuidado com os vizinhos daqui ... cuidado com os vizinhos de lá ...
Enfim ... foi "o oh do borogodó do penacho roxo" !!!
E ele só ficou olhando ...
Tudo que ele queria era entender o que estava acontecendo !!!
Mas na verdade ... ninguém conseguia entender nada !!!
E ... então ... nos sábados iam todos prá lá.
Sua vó, seu pai, mãe, irmão ...
Com a idade que tinha ele só olhava ...filmava ... sim ... era tudo um filme ...
No fim de tudo ... na cabeça dele ... tudo isso virou um filme ... uma história ... este maldito roteiro ...
Não só na cabeça dele ... mas na cabeça de um monte de espertos que ganharam e continuam ganhando muita grana :
Músicas aos montes ... filmes .... muito confete e serpentina ...
Deram a "letra" prá neguinho "corrê" da Pátria mãe antes da "casa caí" - exilados -
Tomaram muito vinho aí por fora enquanto a "raça" aqui só tomava era muito choque e muita porrada !!!
Teve gente que até virou Presidente !!!
Quem é que não lembra da Copa de 70 ... Porra !!! Os caras jogavam muuuuiiitto !!!
Mas .. nas coxias desse teatro todo ... a história tava mais prá ginástica olímpica !!!
E ... nas coxias ... muitas famílias se encontravam ...
Lá na Tiradentes.
Estação do metrô ?
Não !
Na época não havia uma estação de metrô com todos os contornos, côres, cantos vivos que a arquitetura exibe hoje.
Na época famílias entravam alí por dentro de corredores intermináves.
E ele acompanhava a sua junto com outras tantas. !!
Tudo era muito curioso ... Pois ... chegada certa altura do circuito, depois de muita fila, era homem e menino prá um lado e mulher e menina prá outro.
E era gente prá caralho ...
O silêncio era o rei da festa, digo, da fila ...O que nos restava era olhar um nos olhos do outro como se fosse a última vez ... na real ninguém sabia ...
O mais louco é que a gente tinha que tirar a roupa e depois da "revista" colocar de novo ... umas duas ou até quatro vezes ... dependia da chefia da carceragem .
Prá ele e para os alí presentes isso não "pegava" nada ... Desde que no fim dessa travessia a gente "botasse os olhos" em cima de nossos amados !!!
E o prêmio era esse !!!
Era muito louco ...
Ao mesmo tempo que as famílias chegavam lá dentro do presídio, os presos encontravam não só com seus familiares mas também com suas caras metades, resultado:
Era beijo e abraço prá todo lado ... fora o que devia ser "disfarçado" ...
Dentro de um contexto era lindo de ver !!!
Presos políticos e suas famílias .. abraçados ... cada família formava uma rodinha ... todos abraçados pelos ombros ... todos alí em pé !!!
Ele pequeno, se enfiava no meio da roda ... Tinha Mário, Maria, tinha até baiano !
Uma coisa ele nunca entendeu:
O tio dele fumava a porra de um cigarro francês forte prá caralho - goloaze - sei lá como se escreve isso, nem filtro o bicho tinha, vinha num maço azul calcinha ... Enfim, o cara dava uma tragada atrás da outra, até aí tudo bem ... mais aí ele soltava a fumaça prá baixo no meio da bendita roda ... Vinha aquele fumaceiro de baixo prá cima !!!
Porra ! Por que ele não jogava a fumaça prá cima logo de uma vez ??? Vai sabê né ?!?
Tinha também umas coisas prá comer e beber. Cada família tinha sua festinha particular.
Em uma das tais rodas-famílias, tinha um cara que fazia questão de falar mais alto que todo mundo ... bem revoltadinho o rapaz. Diziam que era filho de milico, e também disseram que ele não falou alto por muito tempo ...
As histórias flutuavam por aquele pátio ... e sempre que ele chegava perto a conversa mudava ... era uma puta confusão prá ele "costurar" os assuntos ...
E ... nesse angu de caroço ... ele ficava andando prá lá e prá cá ... prá lá e prá cá ...
Havia um lugar que ele sempre ia. Enquanto Mários, Marias e baianos malhavam advogados, em um canto do pátio ele parava na frente da grade de entrada dos presos - no caminho das celas. Um corredor que ia escurecendo conforme a distância ia aumentando. Do lado de dentro da grade uma senhora negra ... bem negra ...e bem gorda.
Esta ficava sentada alí ... com as pernas abertas ... toda suada ... chegava a brilhar ... tão úmida como o corredor ...
E os dois ficavam se olhando nos olhos até que ele fugia o olhar.
Na cabeça só lembranças - passeio de barco no lago do ibirapuera ... Esterzita ... conversas ... o tio andando de bicicleta na vila ... banho de canequinha no tanque da casa da vovó ...passeio de fusca com o tio fazendo o maior esporro com a buzina de trem ...
Será que tudo isso acabou ?
Não ... claro que não !
Sempre que dava, com um cigarro recém aceso, aquele ...
Seu tio puxava ele de canto e andavam por alí.
Depois de muita conversa vazia e perguntas do tipo : "Como você anda indo na escola?" Os dois acabavam lá nas latrinas do pátio que, prá ele, eram peças muito estranhas:
Como alguém consegue cagar sentado no chão ???
A conversa vazia acabava ... o problema de cagar sentado no chão já não importava ...
Do alto de seus + ou - oito anos a ficha caía e ele lembrava que aquele cara com uma arma de tambor na cinta, logo começaria a gritar.
Era como se fosse um velório ...
Todo mundo chorando ... e sempre alguém não voltava prá casa.
Mas sempre, antes dos gritos, seu tio olhava dentro dos olhos dele ... oferecia um trago do seu cigarro francês ... e nos olhos do tio ele achava alguma paz que lhe acalmava o coração.

Dona Celina, que não usava nenhuma droga mas sempre foi ligada no 220V, as quartas feiras levava prô filho e prá nora as compras da semana ou como se diz no sul "rancho". Comida, muito cigarro, bebida não alcoólica e muita laranja ( ha! ha!).

Pilotando seu FUSCA 68 azul escuro, toda ou quase toda quarta feira (tinha quarta que o "Seo Mário" pai da Suzi ia - lógico que não ia com o fusca) entregava as compras lá na Tiradentes. Quando digo que ela pilotava não é exagero. A mulher dirigia prá caralho - com todo o respeito - Basta dizer que ela é responsável pela "alfabetização motorística" de alguns, muito em especial, dele seu neto.

Ela era muito boa de volante mesmo ... Ia prá todos os cantos de Sampa. Balizava, dava ré em ladeira, fazia de tudo ... e nas quartas feiras até algumas várias ultrapassagens perigosas. A velhinha no volante "dava nó em pingo de éter" !

E nessas quartas feiras antes de fazer a entregua das compras no presídio, pegava seus então só dois netos lá na usp.

O horário para a chegada na tiradentes era rigoroso. A carceragem pegava pesado.

Graças a alguma professorinha bem "não" comida filha da puta a saída do colégio atrasou.

Sabendo das consequências de um atraso na chegada com as compras no presídio, viu sua vó sair dalí "a milhão" enfiando uma marcha em cima da outra ... apavorada ...

Ele sempre ia na frente ... com a bunda na ponta do banco, as mãos no "puta merda!" com a cara grudada no para-brisa. (não esqueça - estamos nos anos 70 - não existiam cintos de segurança e o tal "puta merda !" ficava em cima do porta-luvas)

Se sentia dentro de um video game, enquanto o irmão, no banco de traseiro, mal respirava.

A velhinha aquele dia ia bater todos os seus tempos. Usou um atalho por dentro do Instituto Butantã, (aquele das cobras) atalho este que chega direto na av. Vital Brasil e então na av. Rebouças, aí é só seguir reto ("toda vida" como diz o manezinho) e chegar no centro, no centro da cidade.

Dona Celina conhecia todos os atalhos, com certeza muitos ela mesma inventou, tais como suas bonecas feitas de sobras de pano, brincadeiras e suas receitas culinárias.

Seus atalhos preferidos eram os que chegavam na igreja de Perdizes. Ninguém conhecia tão bem como ela as travessas, contornos, praças e até o tempo dos sinais das avenidas: Cerro Corá, Heitor Penteado, Dr. Arnaldo e Av. Pompéia.

Dona Celina só não conhecia o efeito do óleo diesel, que os ônibus da cmtc deixavam, sobre o calçamento de paralelelípedo, na última curva na saída do instituto (aquele das cobras).

O fusca rabiou prá direita ... e a danada ainda arrumou ... virou o volante (côr de marfim com aro meia lua de alumínio) numa manobra rápida ... aí o carro veio prô plumo ... só não veio como também passou
e foi com o rabo prá esquerda ... aí seguiu em frente ... desceu um pequeno declive de grama e só parou em um muro de tijolinhos à vista.

Foi coisa bonita de se ver. De se ver e ouvir ... foi uma puta porrada !

No carro todo mundo tonto ... o irmão caçula saiu voando prá cima dele ... ele meteu a cara no vidro ... com o "melado" correndo pelo nariz e pela boca, ajudava a vó se desencaixar do volante. Eles querendo sair do carro e uma multidão de curiosos do lado de fora perguntando prá eles : _ "Que qui aconteceu ?! Que qui aconteceu ??!!"

Era ônibus parando ... polícia ... dava de tudo ...

Era gente aparecendo de todo lado ...só não vieram as cobras do instituto !

Mas ... mesmo com esse rolo todo ... não foi nesta quarta feira que as compras não chegaram ... Dona Celina dava jeito prá tudo ...

Em sua casa as coisas ficaram mais corridas. Muitas visitas e muitas conversas.

Utensílios, pertences, móveis ... Tinha até uma caixa: ela era grande de madeira ... muito bonita ... chaveada. Colocaram num canto da sala e disseram prá ninguém mexer!

Era o maior mistério prá ele e seu irmão ... No fim era só um faqueiro ... hã ?!

Em uma noite ele e a família se arrumaram como se fosse domingo e foram prá um lugar parecido com igreja: um prédio grande, cinza, com escadarias na frente ... muita gente dentro. O deixaram prô lado de fora em um sacada.

Não demorou muito ... tentou entrar ... não deixaram .. aí subiu em alguma coisa, mas só via um monte de cabeças. Era um zum zum zum danado lá prá dentro. Desistiu e voltou prá sacada.

Ficou alí olhando a rua, pensando vai saber o quê ...

Lá pelas tantas viu, saindo pelo andar térreo, uma tripa de gente ... vários ... silhuetas mudas ... de cabeças baixas ... entravam em um carro que hoje ... carrega dinheiro prá bancos.

Muitos sábados passaram ... Muitas quartas também ...

E depois ... bem depois disso tudo ... Seu tio lá no Paraíso leu um artigo publicado em um jornal ... quem sabe a folha ou o estadão.

E entre uma garfada de strogonoff e um gole de conhaque ... seu tio chorou ...

As lágrimas secaram e a vida seguiu dalí em diante ... um pouco mais normal ...


Cigano.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Vá lá que seja


Ainda é dia 2 no Brasil. Cá, começa o dia 3. Um sábado. Ontem, portanto, foi o dia em que comemoraríamos o aniversário de Koldeway.
E, eis que não há mais Koldeway.
O mundo vai em frente. A gente corre atrás.
Lá se foram meu pai, minha mãe. Agora meu cunhado. Disse cunhado? Balela. Irmão. E daqueles em que podes depositar tua vida. Ele segura.
Segurava.
É certo que deixou descendência que não decepciona.
E viva Koldeway Filho! Que adora ser tido por Cigano. Que seja.

Bola pra frente!

domingo, 27 de novembro de 2011

Amor pra ninguém botar defeito


Minha mãe, falecida no final de 1.992, deixou um caderno de anotações, do qual minha irmã me deu cópia de alguns trechos. O que vai a seguir, começa com a indicação de um versículo bíblico:
II Pedro 1:15 -
Mas procurarei diligentemente que também em toda ocasião depois da minha morte tenhais lembrança destas coisas.

Então, mãe, vamos lá lembrar.
O texto (do qual preservo a grafia original) que se segue à menção do versículo é auto-explicativo e, para mim, é música:

Para abrir este caderno de rabiscos meus, quero enfeitá-lo com o maior e mais belo elogio que uma esposa já recebeu.
Alberto escreveu isto quando ia viajar para Belém em companhia dos nossos três filhos e eu ia ficar sòzinha em Santos porque estava me preparando para o concurso de ingresso no magistério.
Eles viajaram em janeiro e iam passar o meu aniversário (31/1) longe de mim.
Ele deixou este escrito na agenda colado à página do dia 31 que, por sinal, estava rasgada. Eu o encontrei antes do dia 31 porque cada dia eu folheava a agenda para ver se havia alguma providência a tomar, pois Alberto havia deixado várias instruções sôbre pagamentos, pregadores a convidar, etc.


"No meu jardim
Numa linda madrugada, eu,
de insônia perseguido,
fui vagar no meu jardim.
A lua envolvia a terra -
noite linda para mim!
Em um cantinho, abandonada,
uma pequenina planta
sustentava meiga flor.
Logo dela fui cativo -
prêso de um imenso amor!
Cultivei-a com desvêlo;
molhei-a com muitas lágrimas,
cerquei-a de muito afeto.
Ela cresceu, desdobrou-se,
perfumou os meus caminhos,
parecia desfazer-se,
acabar-se em me servir.
Eu amei-a, cultivei-a.
Ela subiu, dominou;
tornou-se a mais linda flor do jardim de minha vida.
Muitos dias se passaram -
pressuroso o tempo foi.
E agora - que linda coisa -
na haste rija e mimosa,
aparecem três botões,
são rebentos dessa flor...
serão mais três lindas flores -
lembrança do nosso amor.
Santos, 2-1-1952
ass. Alberto Augusto
Para 31-1-1952


No verso da página, está escrito:

Estes versos não têm rima, nem métrica - são apenas pensamento. São cascata e não reprêsa, irregulares em sua forma, variados, como o que nos vem de Deus e não regulares, geométricos, como o que nos vem do homem. Digo isto, não aludindo à perfeição, que seria pretensão e irreverência, e mentira, mas falo do sentimento e da espontaneidade.
E dou graças a Deus, porque ainda encontrei poesia em minha alma, depois de 17 anos de casado. Nem todos têm esta ventura.
Presente de aniversário para a minha querida esposa.
Alberto.


Na página rasgada do dia 31/1/52 estava escrito:

Êste dia marca mais uma etapa na vida de minha dileta espôsa. De certo não estarei aqui, por isso que ela estará sozinha; mas nós, seu esposo e filhos, pensaremos nela e agradeceremos efusivamente ao Senhor a espôsa e mãe que nos deu. Pediremos ao Deus eterno que lhe prolongue a existência, porque, sem ela, a nossa vida seria como esta folha dilacerada: de menos utilidade, de menos beleza, porque ela torna estas vidas mais fecundas e mais belas.
assinado: Alberto Augusto, por êle e pelos filhos


14-1-52 (na mesma agenda, respondi:)
Quero escrever, mas não posso, as lágrimas me sufocam.
Você sabe que eu não sei dizer o que sinto escrevendo, por isso queria voar até Belém para abraçá-lo muito e muito para mostrar quanto bem me fizeram êstes versos que me falam tanto à alma e ao coração.
Choro de alegria por não ter apagado a poesia do seu coração, choro de arrependimento pelas muitas vezes que podia ter aumentado essa poesia e não o fiz e pelas vezes, mesmo, que concorri para que ela se enfraquecesse.
Mas não me esqueço nunca que se aquela tão frágil plantinha não tivesse sido tão bem amparada e tão cercada de amor, não teria se tornado, como você diz, em planta rija e forte.
Mas nós dois, unidos assim e amparados pela misericórdia divina que tão pródiga tem sido para conosco, havemos de fazer do nosso lar uma árvore frondosa e resistente e os nossos filhos hão de gloriar-se de serem frutos de uma árvore assim.
Recebi o presente antes do dia porque fui folheando o calendário mais para adeante para ver se havia alguma instrução que precisasse de providências anteriores, mas foi bom, porque achei o tesouro mais cedo.
Sua espôsa agradecida.


Dizer o quê?!

sábado, 26 de novembro de 2011

Aurora em Bragança


São 7:16 da manhã. O sol não surgiu no horizonte mas já clareou o dia.
A temperatura, lá fora, é de 3,5 ºC. Abro a janela apenas o tempo suficiente para furtar esse instante à natureza.

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terça-feira, 22 de novembro de 2011

Efeméride


Comunico solenemente a toda gente que dona Doga Pitucha, que mais uns dias completa 8 anos de vida intensa (talvez nem tanto), acaba de receber seu passaporte da União Europeia.
Sei que (quase) ninguém vai interessar-se por isso, mas garanto que tampouco ela o fará.

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segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Sobre o teste da revista Sábado


Quando eu estudava nos cursos fundamentais, lá pelo início da adolescência, era comum ouvir meu pai vociferar contra o ensino da época. E não era só ele que praticava o esporte de louvar o ensino de antigamente, aquele pelo qual haviam passado os mais velhos.
E o hábito persiste: não me lembro de nenhuma época em que o estilo de ensino vigente tenha sido considerado por muita gente como superior aos estilos anteriores.
Parece que a avaliação do ensino ministrado à gurizada tem a sina de conviver de modo permanente com a decadência.
E, digo logo, não sou exceção à regra.
Mas, como dizia aquele personagem posto por acaso nu em um elevador:
- Primeiro, calma!
Essa conversa mole vem a propósito de uma pesquisa que a revista portuguesa Sábado (que circula às quintas; e isso não é piada de português) fez junto a estudantes de universidades de Lisboa.
Formularam-se dois questionários de 10 perguntas cada e os submeteram a cem alunos abordados à entrada (ou à saída) das aulas, em plena rua. Não entendi qual a distribuição dos dois questionários. Imagino que cada um deles foi utilizado na abordagem de metade da amostra de universitários.
A ideia foi apresentar aos universitários perguntas que exigissem conhecimentos rudimentares.
Eis o conteúdo dos dois questionários:

1.Quantos quilos tem uma tonelada?
2.Em que ano aconteceu o 25 de abril?
3.Como se chamava o maior campo de concentração nazi?
4.Que actor protagonizou O Padrinho?
5.Quem é Manoel de Oliveira?
6.Quem escreveu O Evangelho Segundo Jesus Cristo?
7.Quem escreveu Os Maias?
8.Como se chama a chanceler alemã?
9.Quem é o presidente da Comissão Europeia?
10.Quem é o presidente dos EUA?



1.Quem pintou o tecto da Capela Sistina?
2.Quem pintou Mona Lisa?
3.Qual é o maior mamífero do mundo?
4.Qual é o símbolo químico da água?
5.Qual é a capital dos EUA?
6.Qual é a capital de Itália?
7.Como se chama o fundador da Microsoft?
8.O que significa a sigla LOL?
9.Que instrumento toca Maria João Pires?
10.De que banda fez parte John Lennon?

A matéria publicada na revista Sábado tem um clima de escândalo. Algo na linha:

- Oh! Como são ignorantes esses universitários! A que ponto chegámos!

Deixem-me, antes de mais, dar um depoimento pessoal.

Fui criado no Brasil. Terminei meu curso de engenharia eletrônica em 1.967, já lá se vão bem mais de 40 anos. Cursei uma das três melhores escolas de engenharia do país (claro que alguns ex-alunos dirão ser a melhor...). Antes disso, fui sempre dos alunos mais aplicados no ensino fundamental (pré-universitário).
Pois bem: das 20 questões acima, não sabia responder a duas (não tinha a menor ideia de qual o maior mamífero do mundo e não lembrava a expressão em inglês resumida na sigla LOL, apesar de saber do que se tratava). Além disso, se abordado na rua e instado a responder a algum dos dois questionários, talvez confundisse o nome de quem pintou o tecto da Capela Sistina com o nome de quem pintou a Mona Lisa. E isso apesar de já ter disputado acirradamente espaço no Louvre com uma multidão de orientais para contemplar o bendito quadro.
Está bem que se o universitário português não tem a menor ideia do que tenha sido o 25 de abril, a coisa é grave. Mas se o dito cujo souber do que se trata e apenas não se lembrar se foi em 74 ou 75 ou 82, qual o problema? Além do que, apenas 14% não souberam acertar o ano. O que significa que 86 estudantes em 100 acertaram.
Aliás, por falar em percentagens, 2% não sabiam quantos quilos tem uma tonelada, 2% não acertaram o nome do presidente dos EUA, 6% não lembraram qual o símbolo químico da água e 12% não souberam dizer qual a verdadeira capital de Itália.
Ora, em qualquer pesquisa, sobre qualquer tema, em qualquer lugar, algo em torno de 10% da amostra sempre vai descambar para absurdos. Se você fizer uma pesquisa no noroeste da Noruega (espero que a Noruega tenha noroeste) sobre, digamos, religião, encontrará seguramente uns 10% de adoradores do Sol.
O facto de 34% de universitários não saberem a que banda pertencia John Lennon me deixa na dúvida: devo lastimar os 34% ou é mais adequado lastimar os 66% restantes?
E olha que gosto de muita coisa produzida pelos Beatles.
Quanto a O Evangelho Segundo Jesus Cristo, eu sabia que tinha sido escrito por Saramago. Isso não me ajudou a passar das primeiras páginas do livro em algumas tentativas que fiz de lê-lo.
Enfim, podem anotar: daqui a uns 20 anos esses mesmos universitários estarão a lastimar o nível do ensino ministrado a seus filhos.
E dirão, consternados:
- Que decadência! Ah! no meu tempo...

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Plano de vôo


Faz tempo, imaginei uma viagem à região de Cognac, na França. Não sei por quais cargas d'água, cá em Bragança os whiskys oferecidos são dos bons e a preços excelentes, mas cognacs existem poucos em oferta e a preços um tanto salgados. Qualquer dia desses, vamos partir em direção a Cognac.
Basta sair daqui para o norte, passar uma primeira noite em San Sebastian (Donostia, em basco), ou em Biarritz, já na França, no dia seguinte seguir sempre ao norte e desembocar em Bordeaux, para visitar Cognac, logo ali, mais um pouco acima.
Feitas as devidas aquisições, voltar por caminho análogo.
Dá pra fazer a ida em apenas um dia, mas como sou descansado, pensei em dividir a ida (e depois, a volta) em duas etapas.
Ainda não chegou o momento de fazer essa viagem e eis que me surge a ideia de outra.

Trata-se de viagem ligada a vinho, não mais a cognac.
Consiste em sairmos daqui em direção a leste, até alcançar Valladolid. São exatos 201 km. Por estradas de primeira qualidade. Portanto, algo como menos de duas horas.
A partir de Valladolid, visitar as vinícolas da Ribera del Duero, produtoras dos vinhos mais sofisticados da Espanha.
Claro, não comprarei um Vega Sicilia Unico, o vinho espanhol mais caro. Afinal, minhas armas não são desse calibre. Mas algo um pouco abaixo desse nível deve ser possível.
Se a viagem for realizada ainda neste outono, será possível contemplar paisagens magníficas.
Como o frio intenso ainda não chegou, pode ser que possa ser...

A Doga, de certeza, vai adorar os ares de Valladolid.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Acaso e crença


Já me aconteceu de conhecer alguém e ouvir dessa pessoa:
- Não foi por acaso que nos conhecemos.
É sempre a dificuldade de aceitar que os eventos se sucedem ao acaso.
Parece que aceitar isso é admitir a nossa enorme insignificância.
E, no entanto, essas mesmas pessoas gostam de lembrar, com freqüência, o quão insignificantes somos diante da vastidão do Universo. Isso quando se trata de enaltecer algum deus de plantão.
Há algum tempo aprendi que esperar uma postura com alguma lógica dessas pessoas (infelizmente, a grande maioria) é inútil.
A Internet, então, tornou-se o paraíso dos que adoram falar de flores, pássaros, sentimentos nobres e como tudo isso causa a felicidade.
E dá-lhe power point, com música melodiosa de fundo (ligue o som!).
Se eu fosse governante, principalmente em país europeu nesse momento de crise, instituía um imposto sobre power point criado e sobre seu repasse.
Das duas uma: ou resolvia a crise ou acabava com essa mania de criar e repassar power point.
Ora, se um indivíduo quer acreditar em um deus qualquer, isso é problema dele. Só se torna problema meu quando o mesmo indivíduo resolve que eu também devo acreditar no deus dele.
Quanto a mim, se me permitem, prefiro entender que cá estamos por acaso, nascemos ao acaso, vivemos ao acaso e morreremos por acaso. E isso me parece deslumbrante. Não preciso de causalidade que me explique nada disso.

Nesse aspecto, os portugueses têm o hábito salutar de usar uma expressão que enaltece o acaso: é o se calhar.
Usa-se o se calhar a propósito de quase tudo, nesta terra católica.

Se calhar, nem católica é.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O vinho e a salvação


Leio em algum lugar que o vinho foi introduzido na Espanha por comerciantes fenícios, há três mil anos.
Duvido que esses indivíduos tivessem plena noção da importância da contribuição que davam ao continente europeu. O que não lhes diminui o mérito.
E graças a essas associações de ideias que só ocorrem a ociosos, lembrei-me de meus primeiros passos rumo à descrença nas verdades cristãs.
Foi quando resolvi perguntar a meu pai como ficava a situação dos índios habitantes do Brasil antes dos descobrimentos, no quesito salvação.
Meu pai devolveu-me um meio sorriso carinhoso e ofereceu-me o conselho:
- Deixa pra lá os índios e preocupa-te contigo.
Claro que não estava eu preocupado com os índios. Estava, sim, preocupado com a lógica de uma doutrina que já começava a me parecer sem pé nem cabeça.
Se um indivíduo, qualquer um da espécie humana em qualquer época, só vai para o céu, usufruir do prazer eterno, se aceitar a Cristo como seu salvador, me parecia - já naquela época - totalmente injusto mandar para o inferno indivíduos que jamais tiveram qualquer remota possibilidade de se valerem do sacrifício do Calvário.

Ou então as inscrições para o céu por meio de Cristo deveriam ter data de início e mais algumas condicionantes, como por exemplo as geográficas.

Mas volto aos fenícios. No que me tange, terem sido os responsáveis últimos (ou primeiros...) por me ser dado usufruir do milagre do vinho já lhes reserva um belo sítio no paraíso eterno.
Quaisquer que tenham sido seus inevitáveis pecadilhos.

domingo, 6 de novembro de 2011

Acasos


Neste domingo, com sol em Bragança, fomos até Sendim (Miranda do Douro) almoçar no Gabriela, restaurante que serve alheiras fantásticas seguidas de posta mirandesa com um molho que é segredo antigo da casa.
Depois de algumas desavenças com o GPS, conseguimos chegar ao Gabriela.
No Largo da Igreja, onde fica o Gabriela, havia - seguramente - uma vintena de velhinhos a vigiar a vida.
Ao final da refeição, como não podia deixar de ser, pedi à senhora que nos atendeu que nos desse a receita do molho. Apenas para ouvir uma negativa imediata e sucinta:
- Não é possível. Resposta seguida de um sorriso.
Ao sair do restaurante, nossa acompanhante - uma amiga brasileira que vive cá há mais de dezesseis anos e ama esta terra - esclareceu:
- Está na hora dos velhinhos fazerem o lanche.
Perguntei:
- Como sabes que já é hora?
- Simples. Já não têm o palito à boca.
E detalhou:
- Quando acabam de almoçar, ficam todos a palitar os dentes. Como já não o fazem, é porque está na hora do lanche.
Saímos de Sendim e fomos orientados a seguir caminhos esdrúxulos pela locutora do GPS. Estranhos caminhos mas maravilhosos.
De repente, surge ao lado da estrada a Quinta dos Melros, com dezenas e dezenas de galinhas a passear em um relvado amplo.
Lá fomos nós.


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Saímos de lá com ovos e mais ovos.

Há quem pretenda ter controle sobre seu atos.
Determinar o rumo de seus passos.

Nada disso.
O acaso é o melhor conselheiro.

sábado, 5 de novembro de 2011

Remoto passado


Fomos hoje à aldeia - a Passos.
Havia por lá alguma agitação.
O filho de minha prima caçula, que sempre vai às castanhas ajudar aos pais, mora no Alentejo, trabalha na GNR, mas anseia pelo dia em que poderá reformar-se e voltar às origens.
Estava ele a promover uma festança a propósito da colheita das castanhas. Incentivava uma enorme fogueira, enquanto outros punham a arder sardinhas e febras a serem saboreadas com pão e vinho.
Quanto a nós, lá tínhamos ido a cumprimentar minha prima, a outra, a mais velha, pelo aniversário. Um rápido exame do BI e eis que a efeméride fora dois dias atrás.
E quem se importa. Na aldeia, pelos vistos, não se comemoram aniversários.
A Baixinha não deixou de arrebatar duas sardinhas. E aproveitámos a passagem do vendedor para comprar cinco litros de azeite.
Na casa de outra prima todos tinham ido às castanhas. Menos o puto de uns dez anos.
- Por que não foi ele a colher castanhas? pergunta a Baixinha, curiosa como sempre.
- Porque não quer!, responde a avó, com naturalidade.
E o guri continua, entediado, a bisbilhotar a Internet.
A educação vai ladeira abaixo, em Portugal.
Fosse eu o pai, puxava-o pela orelha e o levava a catar castanhas. Quisesse ou não.

Mas, ao que todos os sinais indicam, isso faz parte de um remoto passado.

Quase


Estive hoje em uma livraria, no centro comercial de Bragança. Fora alguma ficção de Rentes de Carvalho, nada - ou quase nada - a aproveitar.
Vou ter de visitar o Porto com maior freqüência...
Nada é perfeito. Nem Bragança.
Mas quase, quase.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Mistérios


A árvore abaixo é uma oliveira. Até aí, tudo bem.

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Ora, a laranjeira dá laranja, a bananeira dá banana, por que raios a oliveira dá azeitona?!

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As vagas para os veículos foram cuidadosamente demarcadas. Por que diabos a segunda faixa ficou menor que as demais?!

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domingo, 30 de outubro de 2011

Portugal é comer bacalhau em Lisboa


Para a grande maioria dos brasileiros, Portugal resume-se a Lisboa. O surpreendente é que para boa parte dos portugueses também.
Se tal simplificação (um antigo professor de Física já dizia a nós, seus alunos: não confundam simplificação com amputação!) é - ou deveria ser - inaceitável, há outra igualmente lastimável, espero que - neste caso - só cometida pelos brasileiros: a de que a comida, em Portugal, restringe-se a variações em torno do bacalhau.
Não conheço brasileiro (dos que nunca vieram a Portugal, ao menos) que não pergunte a quem visitou Portugal:
- Comeste muito bacalhau por lá?
Preocupado que sou com o nível cultural do povo brasileiro, enumero a seguir alguns pratos encontradiços no cotidiano deste retângulo ocidental da Europa, no qual come-se melhor e de modo mais variado que em quase toda parte do planeta.
Como não sou nenhum erudito no assunto, limito-me a copiar nomes de pratos servidos em restaurantes de Portugal e constantes do guia de restaurantes de 2.011, publicado pela revista Sábado (copiei alguns, ao acaso):
Arroz de cabidela, Cavala fumada com caviar, Sopa de tomate, Frango com alheira e polenta de sarrabulho, Perdiz estufada com grelos e castanhas (essa come-se aqui ao pé de casa, no Geadas de Bragança), Arroz de lebre, Leitão confitado e puré de batata-doce, Bife tártaro com alcaparras, Terrina de rabo de polvo das bruxas, Tortellini de massa de algas com lavagante, batata-doce e emulsão de champanhe e cebolinho, Arroz de entrecosto, Bochecha de bísaro guisada em verde tinto, acompanhada com canela e leite-creme com louro, limão e rojões, Capão recheado com enchidos, Pombo com chila e folhado de foie gras, Arroz de pato com passas e pinhões, Cabrito ao vinho do Porto com favas e alheira de caça, Pitéu de safio (um estufado do peixe com ervilhas), Anho assado, Sarrabulho e rojões, Vitela assada, Arroz de fumeiro etc etc.

Ah! Há bacalhau preparado das mais variadas maneiras.

sábado, 29 de outubro de 2011

O cuidado com as fontes


Não me parece necessário ler José Honório Rodrigues (História da História do Brasil ou Teoria da História do Brasil, por exemplo), ainda que seja desejável, para se perceber a importância de bem avaliar as fontes das quais se bebe informação.

Essa observação vem a propósito da enxurrada de e-mails que invade minha caixa postal a propósito dos mais variados assuntos, sempre com tons de final-de-mundo, ora a elogiar os dons curativos da limonada, ora a alertar para o uso de sandálias made in China.
Hoje, por exemplo, estava eu a ler os e-mails recebidos enquanto a Baixinha descongelava uns filetes de peixe-gato para nosso almoço.
De repente, leio horrores sobre os tais pangas. Para uns, peixes criados em pântanos fétidos do Vietname; para outros, peixes alimentados por rações recheadas de substâncias altamente tóxicas.
Corro à cozinha, relato tudo à Baixinha e resolvemos devolver os filetes ao congelador até pesquisas mais conclusivas.
Feitas algumas pesquisas no Google, logo descubro que tudo não passa de alarmismo ou interesseiro ou muito ingênuo.

Saboreamos filetes de pangas no almoço, acompanhados de um delicioso vinho alentejano, claro, claro.

Seria tão bom se as pessoas, antes de saírem a repassar todo e qualquer lixo electrónico que recebem, fizessem umas rápidas pesquisas via Google ou outro qualquer programa de busca disponível na internet.

Ora, ora. Há tanta coisa que seria "tão bom"...

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Humor de Estado


Há tempos não me interesso quase nada pelos assuntos brasileiros, particularmente os políticos.
Contudo, hoje, resolvi ler alguns jornais brasileiros.
Na coluna Panorama Político (de Brasília), publicada sempre à página 2 do jornal O Globo, do Rio de Janeiro, leio:

Despacho roubado


O presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), determinou a abertura de investigação, pela Polícia Legislativa, para averiguar o roubo de um pé de arruda do hall do apartamento do deputado Paulo Magalhães (PSD-BA). "Esta Casa está obrigada a adotar um posicionamento firme para apurar o desaparecimento desse vaso de arruda, que nós colocamos com o objetivo de nos proteger dos maus-olhados e trazer alguns benefícios", disse Magalhães, na tribuna.


Ponto final.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Conversa de barbeiro


- Você é brasileiro, não?
- Sou português, mas vivi sempre no Brasil.
- Percebe-se, pelo sotaque.
- Pois é. Até tento imitar o português, mas é difícil.
- Nós aqui também tentamos imitar o brasileiro...
- E também não conseguem...

- É verdade que no Brasil barbeiro também significa o que conduz mal?
- Sim, é. E barbeiragem é o que faz o condutor do veículo ao executar mal uma manobra.

- Certa vez esteve cá um brasileiro e pediu-me que lhe cortasse as costeletas. Fiquei sem entender... Depois é que entendi que ele queria que lhe fizesse as patilhas.
Pensei mas não disse:
- E por que não lhe perguntou se as queria bem ou mal passadas?

sábado, 22 de outubro de 2011

Amarelas


No início, achava estranho que houvesse tantas vivendas amarelas em Bragança. E, diga-se, trata-se de um amarelo forte, intenso. Pra lá de gema de ovo.
Parecia-me um bocadinho de mau gosto.
Agora que vivo cá meu primeiro outono, começo a perceber que faz algum sentido pintá-las assim.
Devo essa mudança de apreciação ao convívio diário com multidões de folhas amarelas caídas ao chão.
Ainda bem que não as varrem.
Fazê-lo seria desonrar o outono.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Chantagem de mãe


Estava eu a passear o cão, no Parque da Braguinha, lá pelas 11 horas da manhã. Passa por mim uma senhora vestida em tons escuros, enormes botas em pele, pretas, daquelas de salto-agulha que cá em Bragança as mulheres utilizam para ir ao talho. Enquanto caminha fala ao telemóvel.
Os fragmentos de conversa que me chegam indicam que fala com a filha e a chama a almoçar. Parece que, do outro lado, a filha recusa o convite.
Diz então a mãe:
- Mas já comprei o frango...
E logo encerra a conversa, de certeza com o convite já aceito.
Fico a pensar: por que a mãe não telefonou à filha antes de comprar o frango?
E a resposta é óbvia:
Porque é mãe.

sábado, 15 de outubro de 2011

Formas


Se as montanhas, vales, planaltos, planícies, colinas e que tais fossem pirâmides, paralelepípedos, cones e demais formas ditas geométricas, talvez o ensino da matemática devesse ser alterado.
Começar-se-ia por complexas equações que descrevessem formas repletas de ondulações, de pequenas concavidades, de grandes abismos.
Só mais tarde, em cursos de matemática avançada, chegar-se-ia a fórmulas descritivas de cubos, esferas, dodecaedros.
Um mundo geométrico seria simples, mais compreensível.
Do modo como está, fica-se às voltas com superfícies não planeadas, irregulares, assimétricas, quase aleatórias.
Ainda bem que sobre tudo isso paira uma lua esférica, impecável:

Clique para chegar à lua

Maria João


Como português fajuto que sou, não conhecia Maria João, a cantora.
Hoje, no Teatro Municipal de Bragança, pude ouvi-la, acompanhada pela Orquestra de Jazz de Matosinhos.
Dona de extensão vocal enorme, de emoção quase infinita, Maria João levou o espetáculo ao ápice ao interpretar Baden e Vinicius (Canto de Ossanha), Tom (Lígia) e - maravilha! - Edu e Chico (Beatriz).
Só pra ilustrar, aí vai uma amostra do balanço da cantora:

sábado, 8 de outubro de 2011

A Cópia


E havia um deus todo poderoso que morria de inveja de outro deus, um deus todo criativo, muito engenhoso e jeitoso.
Vai daí, o todo-criativo teve a ideia de criar um mundo.
E começou por iluminá-lo de modo deslumbrante.

Roído pela inveja, o todo-poderoso pôs-se a imitar o rival.
Por desgraça, seu projeto de iluminação foi mal calculado. A energia programada não permitia intensa iluminação ininterruptamente.
Havia blecaute todo santo dia. Os áulicos, para disfarçar, pediram ao marqueteiro do todo-poderoso que imaginasse algo para amenizar o fracasso.O marqueteiro começou por chamar os blecautes de noites. Muda-se o nome, muda-se a imagem, como todo publicitário sabe. E, em meio à escuridão, conseguiu – com um quase nada de gasto energético – que algumas luzinhas piscassem. Construiu até uma luminária de luz branca (para economizar energia) que se acende durante a tal noite, é verdade que nem sempre por inteiro.

Em uma segunda etapa, o todo-jeitoso separou as águas da terra das águas dos céus.
Já o poderosão se atrapalhou todo para imitar essa separação e terminou por inventar a chuva e seus derivados menos amistosos: granizo, nevasca etc etc. Em compensação, tornou-se o patrono da indústria de chapéus-de-chuva, capas impermeáveis e que tais.

Na terceira fase, aquela em que o todo-faceiro criou as ervas dos campos, as árvores e tudo aquilo que faz a alegria dos vegetarianos, o grosseirão, o outro, até que não fez tão feio. É certo que andou a criar as urtigas. Mas nada que se compare às bobagens posteriores.

Por ter o deus-artista-plástico dado uma paradinha pra repor energias, o omnisciente (mais tarde conhecido por Google) resolveu gastar a quarta etapa a tentar convencer toda a gente que essa história de dia e noite, sol e lua, estiagem e chuva, era o supra sumo.

Na quinta fase a lambança foi total. Enquanto o primeiro-designer criava pavões, pássaros deslumbrantes em sua plumagem, peixes coloridos etc etc, o todo-invejoso começou por criar o rato ao tentar construir um pássaro. Na segunda tentativa saiu-se pouco melhor: criou o morcego. E dá-lhe moscas, pernilongos, gafanhotos etc etc. Isso pra não falar em uns bichos totalmente desengonçados que Ele mesmo percebeu que haviam saído fora de esquadro e lançou-os ao fundo do mar, pra evitar maior vexame.

É ocioso enumerar a quantidade de asneiras produzidas pelo todo-imitador. O cúmulo ele o atingiu ao criar o homem.
Mal havia construído o cidadão, se deu conta de que não o havia dotado de forma alguma de reprodução.
Toca a construir um complemento que – ao ser-lhe acoplado – permita a perpetuação da espécie. Aliás, isso era necessário porque o homem foi criado com data de validade.

Uma digressão: tive um mestre que ensinava: quando algo começa errado, não tente consertar, desista.
Pois o omnipresente parece ter faltado a essa aula. A cada erro, uma tentativa de correção.

Para sanar as lacunas na construção do homem, criou a mulher.

Levou-os a habitar um Paraíso que paraíso não era. Ao menos a pedagogia moderna ensina que não há paraíso onde há qualquer proibição.
Sabe-se lá por quais motivos, o todo-atabalhoado inventou um paraíso em que uma fruta era para não ser comida.
Ainda por cima, quando Adão e Eva resolveram valer-se da melhor coisa que o todo-desastrado criara – o sexo – chutou-os do tal Paraíso e rogou-lhes várias pragas (trabalho, dor de parto etc etc).

Enfim, um desastre.

Já o Universo do todo-engenhoso ficou uma graça.
Não à toa, cada vez é maior o número de indivíduos nesse nosso mundo imperfeito que cultuam o deus todo-criativo.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

A República, o Douro, o Jazz


Anteontem foi feriado da República aqui em Portugal (5 de outubro) e, só pra contrariar, fomos almoçar na monárquica Espanha.

Fomos à cidade de Zamora, que fica a 100 km aqui de casa.

A cidade é muito bonita. Além de guardar muita história: a independência de Portugal, com o reconhecimento do Reino de Portugal, deu-se pelo Tratado de Zamora, lá no ano de 1.143. Por incrível que pareça, eu ainda não havia nascido.

Almoçamos no restaurante Mirador, às margens do Duero, aquele mesmo que depois que entra em Portugal passa a ser chamado de rio Douro. Depois de uma deliciosa entrada de morcilla, parti para um arroz zamorano, uma espécie de paella com chouriças e outras maravilhas suínas no lugar dos ingredientes da paella.


O Mirador fica na parte histórica de Zamora
Vista desde o salão de refeições do Mirador

E por falar em Douro, ontem à noite fomos a uma apresentação de jazz, no contexto do Douro Jazz. Aqui em Bragança são quatro noites. A de ontem foi com uma cantora de origem portuguesa mas nascida na Austrália, chamada Melissa Oliveira. Ela compõe suas próprias músicas, ou ao menos escreve as letras para melodias que interpreta. Ela foi acompanhada por quatro músicos: o americano Jason Palmer (trompete), o russo radicado nos EUA Alexei Tsiganov (piano/vibrafone), João Artur Moreira (bateria) e João Cação (contrabaixo).

Espetáculo de rara perfeição técnica. Melissa faz o que quer com a voz. Os demais músicos são - para usar imagem do mundo automóvel - topo de gama. Do baterista o grupo interpretou duas composições lindas. Os improvisos foram fantásticos, particularmente os de trompete (Jason Palmer) e os de voz (Melissa).

Jazz de gente grande.