terça-feira, 6 de dezembro de 2011
7Belo
Tenho um sobrinho que considero - já que os matemáticos preferem contar a partir do zero - meu filho zero. Depois vieram o primeiro, o segundo e o terceiro...
Eu tinha 17 anos quando ele nasceu. Meu pai morrera no ano anterior. Comecei, graças a ele, a aprender como se lida com uma criança.
E que criança!
Um dia desses, não faz muito tempo, mandou-me e-mail em que relata a visão que um garoto de nove anos teve das visitas que fazia, com os pais e a avó, ao tio preso no Presídio Tiradentes, em São Paulo, nos remotos anos de 1.971, 1.972.
Ele começa por sugerir o contexto da leitura:
Bom ... então ... agora ... toma duas doses da tua mais vagabunda bebida que estiver por perto ... e lê:
Daqui pra frente a palavra é toda dele:
Um cara com uma arma na cintura ia até quase no meio do pátio e aos berros mandava todos embora.
- O horário da visita acabô !!!
Este com certeza esbravejava outras frases não mais delicadas prá tirar todo mundo dalí.
Enquanto o milico berrava, ele, com seus + ou - oito anos, só conseguia prestar atenção nas famílias reunidas, uma a uma em "rodinhas" se despedindo dos que alí iriam ficar ...ao invés de ouvir o tal ...
Todo sábado era assim ..
Informação na cabeça dele era tudo ...
Via ... ouvia ...aliás, via mais do que deixavam ele ouvir.
Na época não tinha muito tempo prá sentir o que realmente acontecia . Mas não era de todo um tolo.
Só quem poderia dizer a data e a hora seria sua vó ... Quando a bomba estourou ... E a notícia chegou !
Ele estava no quintal de casa e viu ela, sua vó, receber a nova.
Com desespero ouviu, debruçada na janela de sua casa que ficava nos fundos do quintal, a notícia !
Foi um tal de: chora de um lado ... chora de outro ... cuidado com os vizinhos daqui ... cuidado com os vizinhos de lá ...
Enfim ... foi "o oh do borogodó do penacho roxo" !!!
E ele só ficou olhando ...
Tudo que ele queria era entender o que estava acontecendo !!!
Mas na verdade ... ninguém conseguia entender nada !!!
E ... então ... nos sábados iam todos prá lá.
Sua vó, seu pai, mãe, irmão ...
Com a idade que tinha ele só olhava ...filmava ... sim ... era tudo um filme ...
No fim de tudo ... na cabeça dele ... tudo isso virou um filme ... uma história ... este maldito roteiro ...
Não só na cabeça dele ... mas na cabeça de um monte de espertos que ganharam e continuam ganhando muita grana :
Músicas aos montes ... filmes .... muito confete e serpentina ...
Deram a "letra" prá neguinho "corrê" da Pátria mãe antes da "casa caí" - exilados -
Tomaram muito vinho aí por fora enquanto a "raça" aqui só tomava era muito choque e muita porrada !!!
Teve gente que até virou Presidente !!!
Quem é que não lembra da Copa de 70 ... Porra !!! Os caras jogavam muuuuiiitto !!!
Mas .. nas coxias desse teatro todo ... a história tava mais prá ginástica olímpica !!!
E ... nas coxias ... muitas famílias se encontravam ...
Lá na Tiradentes.
Estação do metrô ?
Não !
Na época não havia uma estação de metrô com todos os contornos, côres, cantos vivos que a arquitetura exibe hoje.
Na época famílias entravam alí por dentro de corredores intermináves.
E ele acompanhava a sua junto com outras tantas. !!
Tudo era muito curioso ... Pois ... chegada certa altura do circuito, depois de muita fila, era homem e menino prá um lado e mulher e menina prá outro.
E era gente prá caralho ...
O silêncio era o rei da festa, digo, da fila ...O que nos restava era olhar um nos olhos do outro como se fosse a última vez ... na real ninguém sabia ...
O mais louco é que a gente tinha que tirar a roupa e depois da "revista" colocar de novo ... umas duas ou até quatro vezes ... dependia da chefia da carceragem .
Prá ele e para os alí presentes isso não "pegava" nada ... Desde que no fim dessa travessia a gente "botasse os olhos" em cima de nossos amados !!!
E o prêmio era esse !!!
Era muito louco ...
Ao mesmo tempo que as famílias chegavam lá dentro do presídio, os presos encontravam não só com seus familiares mas também com suas caras metades, resultado:
Era beijo e abraço prá todo lado ... fora o que devia ser "disfarçado" ...
Dentro de um contexto era lindo de ver !!!
Presos políticos e suas famílias .. abraçados ... cada família formava uma rodinha ... todos abraçados pelos ombros ... todos alí em pé !!!
Ele pequeno, se enfiava no meio da roda ... Tinha Mário, Maria, tinha até baiano !
Uma coisa ele nunca entendeu:
O tio dele fumava a porra de um cigarro francês forte prá caralho - goloaze - sei lá como se escreve isso, nem filtro o bicho tinha, vinha num maço azul calcinha ... Enfim, o cara dava uma tragada atrás da outra, até aí tudo bem ... mais aí ele soltava a fumaça prá baixo no meio da bendita roda ... Vinha aquele fumaceiro de baixo prá cima !!!
Porra ! Por que ele não jogava a fumaça prá cima logo de uma vez ??? Vai sabê né ?!?
Tinha também umas coisas prá comer e beber. Cada família tinha sua festinha particular.
Em uma das tais rodas-famílias, tinha um cara que fazia questão de falar mais alto que todo mundo ... bem revoltadinho o rapaz. Diziam que era filho de milico, e também disseram que ele não falou alto por muito tempo ...
As histórias flutuavam por aquele pátio ... e sempre que ele chegava perto a conversa mudava ... era uma puta confusão prá ele "costurar" os assuntos ...
E ... nesse angu de caroço ... ele ficava andando prá lá e prá cá ... prá lá e prá cá ...
Havia um lugar que ele sempre ia. Enquanto Mários, Marias e baianos malhavam advogados, em um canto do pátio ele parava na frente da grade de entrada dos presos - no caminho das celas. Um corredor que ia escurecendo conforme a distância ia aumentando. Do lado de dentro da grade uma senhora negra ... bem negra ...e bem gorda.
Esta ficava sentada alí ... com as pernas abertas ... toda suada ... chegava a brilhar ... tão úmida como o corredor ...
E os dois ficavam se olhando nos olhos até que ele fugia o olhar.
Na cabeça só lembranças - passeio de barco no lago do ibirapuera ... Esterzita ... conversas ... o tio andando de bicicleta na vila ... banho de canequinha no tanque da casa da vovó ...passeio de fusca com o tio fazendo o maior esporro com a buzina de trem ...
Será que tudo isso acabou ?
Não ... claro que não !
Sempre que dava, com um cigarro recém aceso, aquele ...
Seu tio puxava ele de canto e andavam por alí.
Depois de muita conversa vazia e perguntas do tipo : "Como você anda indo na escola?" Os dois acabavam lá nas latrinas do pátio que, prá ele, eram peças muito estranhas:
Como alguém consegue cagar sentado no chão ???
A conversa vazia acabava ... o problema de cagar sentado no chão já não importava ...
Do alto de seus + ou - oito anos a ficha caía e ele lembrava que aquele cara com uma arma de tambor na cinta, logo começaria a gritar.
Era como se fosse um velório ...
Todo mundo chorando ... e sempre alguém não voltava prá casa.
Mas sempre, antes dos gritos, seu tio olhava dentro dos olhos dele ... oferecia um trago do seu cigarro francês ... e nos olhos do tio ele achava alguma paz que lhe acalmava o coração.
Dona Celina, que não usava nenhuma droga mas sempre foi ligada no 220V, as quartas feiras levava prô filho e prá nora as compras da semana ou como se diz no sul "rancho". Comida, muito cigarro, bebida não alcoólica e muita laranja ( ha! ha!).
Pilotando seu FUSCA 68 azul escuro, toda ou quase toda quarta feira (tinha quarta que o "Seo Mário" pai da Suzi ia - lógico que não ia com o fusca) entregava as compras lá na Tiradentes. Quando digo que ela pilotava não é exagero. A mulher dirigia prá caralho - com todo o respeito - Basta dizer que ela é responsável pela "alfabetização motorística" de alguns, muito em especial, dele seu neto.
Ela era muito boa de volante mesmo ... Ia prá todos os cantos de Sampa. Balizava, dava ré em ladeira, fazia de tudo ... e nas quartas feiras até algumas várias ultrapassagens perigosas. A velhinha no volante "dava nó em pingo de éter" !
E nessas quartas feiras antes de fazer a entregua das compras no presídio, pegava seus então só dois netos lá na usp.
O horário para a chegada na tiradentes era rigoroso. A carceragem pegava pesado.
Graças a alguma professorinha bem "não" comida filha da puta a saída do colégio atrasou.
Sabendo das consequências de um atraso na chegada com as compras no presídio, viu sua vó sair dalí "a milhão" enfiando uma marcha em cima da outra ... apavorada ...
Ele sempre ia na frente ... com a bunda na ponta do banco, as mãos no "puta merda!" com a cara grudada no para-brisa. (não esqueça - estamos nos anos 70 - não existiam cintos de segurança e o tal "puta merda !" ficava em cima do porta-luvas)
Se sentia dentro de um video game, enquanto o irmão, no banco de traseiro, mal respirava.
A velhinha aquele dia ia bater todos os seus tempos. Usou um atalho por dentro do Instituto Butantã, (aquele das cobras) atalho este que chega direto na av. Vital Brasil e então na av. Rebouças, aí é só seguir reto ("toda vida" como diz o manezinho) e chegar no centro, no centro da cidade.
Dona Celina conhecia todos os atalhos, com certeza muitos ela mesma inventou, tais como suas bonecas feitas de sobras de pano, brincadeiras e suas receitas culinárias.
Seus atalhos preferidos eram os que chegavam na igreja de Perdizes. Ninguém conhecia tão bem como ela as travessas, contornos, praças e até o tempo dos sinais das avenidas: Cerro Corá, Heitor Penteado, Dr. Arnaldo e Av. Pompéia.
Dona Celina só não conhecia o efeito do óleo diesel, que os ônibus da cmtc deixavam, sobre o calçamento de paralelelípedo, na última curva na saída do instituto (aquele das cobras).
O fusca rabiou prá direita ... e a danada ainda arrumou ... virou o volante (côr de marfim com aro meia lua de alumínio) numa manobra rápida ... aí o carro veio prô plumo ... só não veio como também passou
e foi com o rabo prá esquerda ... aí seguiu em frente ... desceu um pequeno declive de grama e só parou em um muro de tijolinhos à vista.
Foi coisa bonita de se ver. De se ver e ouvir ... foi uma puta porrada !
No carro todo mundo tonto ... o irmão caçula saiu voando prá cima dele ... ele meteu a cara no vidro ... com o "melado" correndo pelo nariz e pela boca, ajudava a vó se desencaixar do volante. Eles querendo sair do carro e uma multidão de curiosos do lado de fora perguntando prá eles : _ "Que qui aconteceu ?! Que qui aconteceu ??!!"
Era ônibus parando ... polícia ... dava de tudo ...
Era gente aparecendo de todo lado ...só não vieram as cobras do instituto !
Mas ... mesmo com esse rolo todo ... não foi nesta quarta feira que as compras não chegaram ... Dona Celina dava jeito prá tudo ...
Em sua casa as coisas ficaram mais corridas. Muitas visitas e muitas conversas.
Utensílios, pertences, móveis ... Tinha até uma caixa: ela era grande de madeira ... muito bonita ... chaveada. Colocaram num canto da sala e disseram prá ninguém mexer!
Era o maior mistério prá ele e seu irmão ... No fim era só um faqueiro ... hã ?!
Em uma noite ele e a família se arrumaram como se fosse domingo e foram prá um lugar parecido com igreja: um prédio grande, cinza, com escadarias na frente ... muita gente dentro. O deixaram prô lado de fora em um sacada.
Não demorou muito ... tentou entrar ... não deixaram .. aí subiu em alguma coisa, mas só via um monte de cabeças. Era um zum zum zum danado lá prá dentro. Desistiu e voltou prá sacada.
Ficou alí olhando a rua, pensando vai saber o quê ...
Lá pelas tantas viu, saindo pelo andar térreo, uma tripa de gente ... vários ... silhuetas mudas ... de cabeças baixas ... entravam em um carro que hoje ... carrega dinheiro prá bancos.
Muitos sábados passaram ... Muitas quartas também ...
E depois ... bem depois disso tudo ... Seu tio lá no Paraíso leu um artigo publicado em um jornal ... quem sabe a folha ou o estadão.
E entre uma garfada de strogonoff e um gole de conhaque ... seu tio chorou ...
As lágrimas secaram e a vida seguiu dalí em diante ... um pouco mais normal ...
Cigano.
sábado, 3 de dezembro de 2011
Vá lá que seja
Ainda é dia 2 no Brasil. Cá, começa o dia 3. Um sábado. Ontem, portanto, foi o dia em que comemoraríamos o aniversário de Koldeway.
E, eis que não há mais Koldeway.
O mundo vai em frente. A gente corre atrás.
Lá se foram meu pai, minha mãe. Agora meu cunhado. Disse cunhado? Balela. Irmão. E daqueles em que podes depositar tua vida. Ele segura.
Segurava.
É certo que deixou descendência que não decepciona.
E viva Koldeway Filho! Que adora ser tido por Cigano. Que seja.
Bola pra frente!
domingo, 27 de novembro de 2011
Amor pra ninguém botar defeito
Minha mãe, falecida no final de 1.992, deixou um caderno de anotações, do qual minha irmã me deu cópia de alguns trechos. O que vai a seguir, começa com a indicação de um versículo bíblico:
II Pedro 1:15 -
Mas procurarei diligentemente que também em toda ocasião depois da minha morte tenhais lembrança destas coisas.
Então, mãe, vamos lá lembrar.
O texto (do qual preservo a grafia original) que se segue à menção do versículo é auto-explicativo e, para mim, é música:
Para abrir este caderno de rabiscos meus, quero enfeitá-lo com o maior e mais belo elogio que uma esposa já recebeu.
Alberto escreveu isto quando ia viajar para Belém em companhia dos nossos três filhos e eu ia ficar sòzinha em Santos porque estava me preparando para o concurso de ingresso no magistério.
Eles viajaram em janeiro e iam passar o meu aniversário (31/1) longe de mim.
Ele deixou este escrito na agenda colado à página do dia 31 que, por sinal, estava rasgada. Eu o encontrei antes do dia 31 porque cada dia eu folheava a agenda para ver se havia alguma providência a tomar, pois Alberto havia deixado várias instruções sôbre pagamentos, pregadores a convidar, etc.
"No meu jardim
Numa linda madrugada, eu,
de insônia perseguido,
fui vagar no meu jardim.
A lua envolvia a terra -
noite linda para mim!
Em um cantinho, abandonada,
uma pequenina planta
sustentava meiga flor.
Logo dela fui cativo -
prêso de um imenso amor!
Cultivei-a com desvêlo;
molhei-a com muitas lágrimas,
cerquei-a de muito afeto.
Ela cresceu, desdobrou-se,
perfumou os meus caminhos,
parecia desfazer-se,
acabar-se em me servir.
Eu amei-a, cultivei-a.
Ela subiu, dominou;
tornou-se a mais linda flor do jardim de minha vida.
Muitos dias se passaram -
pressuroso o tempo foi.
E agora - que linda coisa -
na haste rija e mimosa,
aparecem três botões,
são rebentos dessa flor...
serão mais três lindas flores -
lembrança do nosso amor.
Santos, 2-1-1952
ass. Alberto Augusto
Para 31-1-1952
No verso da página, está escrito:
Estes versos não têm rima, nem métrica - são apenas pensamento. São cascata e não reprêsa, irregulares em sua forma, variados, como o que nos vem de Deus e não regulares, geométricos, como o que nos vem do homem. Digo isto, não aludindo à perfeição, que seria pretensão e irreverência, e mentira, mas falo do sentimento e da espontaneidade.
E dou graças a Deus, porque ainda encontrei poesia em minha alma, depois de 17 anos de casado. Nem todos têm esta ventura.
Presente de aniversário para a minha querida esposa.
Alberto.
Na página rasgada do dia 31/1/52 estava escrito:
Êste dia marca mais uma etapa na vida de minha dileta espôsa. De certo não estarei aqui, por isso que ela estará sozinha; mas nós, seu esposo e filhos, pensaremos nela e agradeceremos efusivamente ao Senhor a espôsa e mãe que nos deu. Pediremos ao Deus eterno que lhe prolongue a existência, porque, sem ela, a nossa vida seria como esta folha dilacerada: de menos utilidade, de menos beleza, porque ela torna estas vidas mais fecundas e mais belas.
assinado: Alberto Augusto, por êle e pelos filhos
14-1-52 (na mesma agenda, respondi:)
Quero escrever, mas não posso, as lágrimas me sufocam.
Você sabe que eu não sei dizer o que sinto escrevendo, por isso queria voar até Belém para abraçá-lo muito e muito para mostrar quanto bem me fizeram êstes versos que me falam tanto à alma e ao coração.
Choro de alegria por não ter apagado a poesia do seu coração, choro de arrependimento pelas muitas vezes que podia ter aumentado essa poesia e não o fiz e pelas vezes, mesmo, que concorri para que ela se enfraquecesse.
Mas não me esqueço nunca que se aquela tão frágil plantinha não tivesse sido tão bem amparada e tão cercada de amor, não teria se tornado, como você diz, em planta rija e forte.
Mas nós dois, unidos assim e amparados pela misericórdia divina que tão pródiga tem sido para conosco, havemos de fazer do nosso lar uma árvore frondosa e resistente e os nossos filhos hão de gloriar-se de serem frutos de uma árvore assim.
Recebi o presente antes do dia porque fui folheando o calendário mais para adeante para ver se havia alguma instrução que precisasse de providências anteriores, mas foi bom, porque achei o tesouro mais cedo.
Sua espôsa agradecida.
Dizer o quê?!
sábado, 26 de novembro de 2011
Aurora em Bragança
terça-feira, 22 de novembro de 2011
Efeméride
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
Sobre o teste da revista Sábado
Quando eu estudava nos cursos fundamentais, lá pelo início da adolescência, era comum ouvir meu pai vociferar contra o ensino da época. E não era só ele que praticava o esporte de louvar o ensino de antigamente, aquele pelo qual haviam passado os mais velhos.
E o hábito persiste: não me lembro de nenhuma época em que o estilo de ensino vigente tenha sido considerado por muita gente como superior aos estilos anteriores.
Parece que a avaliação do ensino ministrado à gurizada tem a sina de conviver de modo permanente com a decadência.
E, digo logo, não sou exceção à regra.
Mas, como dizia aquele personagem posto por acaso nu em um elevador:
- Primeiro, calma!
Essa conversa mole vem a propósito de uma pesquisa que a revista portuguesa Sábado (que circula às quintas; e isso não é piada de português) fez junto a estudantes de universidades de Lisboa.
Formularam-se dois questionários de 10 perguntas cada e os submeteram a cem alunos abordados à entrada (ou à saída) das aulas, em plena rua. Não entendi qual a distribuição dos dois questionários. Imagino que cada um deles foi utilizado na abordagem de metade da amostra de universitários.
A ideia foi apresentar aos universitários perguntas que exigissem conhecimentos rudimentares.
Eis o conteúdo dos dois questionários:
1.Quantos quilos tem uma tonelada?
2.Em que ano aconteceu o 25 de abril?
3.Como se chamava o maior campo de concentração nazi?
4.Que actor protagonizou O Padrinho?
5.Quem é Manoel de Oliveira?
6.Quem escreveu O Evangelho Segundo Jesus Cristo?
7.Quem escreveu Os Maias?
8.Como se chama a chanceler alemã?
9.Quem é o presidente da Comissão Europeia?
10.Quem é o presidente dos EUA?
1.Quem pintou o tecto da Capela Sistina?
2.Quem pintou Mona Lisa?
3.Qual é o maior mamífero do mundo?
4.Qual é o símbolo químico da água?
5.Qual é a capital dos EUA?
6.Qual é a capital de Itália?
7.Como se chama o fundador da Microsoft?
8.O que significa a sigla LOL?
9.Que instrumento toca Maria João Pires?
10.De que banda fez parte John Lennon?
A matéria publicada na revista Sábado tem um clima de escândalo. Algo na linha:
- Oh! Como são ignorantes esses universitários! A que ponto chegámos!
Deixem-me, antes de mais, dar um depoimento pessoal.
Fui criado no Brasil. Terminei meu curso de engenharia eletrônica em 1.967, já lá se vão bem mais de 40 anos. Cursei uma das três melhores escolas de engenharia do país (claro que alguns ex-alunos dirão ser a melhor...). Antes disso, fui sempre dos alunos mais aplicados no ensino fundamental (pré-universitário).
Pois bem: das 20 questões acima, não sabia responder a duas (não tinha a menor ideia de qual o maior mamífero do mundo e não lembrava a expressão em inglês resumida na sigla LOL, apesar de saber do que se tratava). Além disso, se abordado na rua e instado a responder a algum dos dois questionários, talvez confundisse o nome de quem pintou o tecto da Capela Sistina com o nome de quem pintou a Mona Lisa. E isso apesar de já ter disputado acirradamente espaço no Louvre com uma multidão de orientais para contemplar o bendito quadro.
Está bem que se o universitário português não tem a menor ideia do que tenha sido o 25 de abril, a coisa é grave. Mas se o dito cujo souber do que se trata e apenas não se lembrar se foi em 74 ou 75 ou 82, qual o problema? Além do que, apenas 14% não souberam acertar o ano. O que significa que 86 estudantes em 100 acertaram.
Aliás, por falar em percentagens, 2% não sabiam quantos quilos tem uma tonelada, 2% não acertaram o nome do presidente dos EUA, 6% não lembraram qual o símbolo químico da água e 12% não souberam dizer qual a verdadeira capital de Itália.
Ora, em qualquer pesquisa, sobre qualquer tema, em qualquer lugar, algo em torno de 10% da amostra sempre vai descambar para absurdos. Se você fizer uma pesquisa no noroeste da Noruega (espero que a Noruega tenha noroeste) sobre, digamos, religião, encontrará seguramente uns 10% de adoradores do Sol.
O facto de 34% de universitários não saberem a que banda pertencia John Lennon me deixa na dúvida: devo lastimar os 34% ou é mais adequado lastimar os 66% restantes?
E olha que gosto de muita coisa produzida pelos Beatles.
Quanto a O Evangelho Segundo Jesus Cristo, eu sabia que tinha sido escrito por Saramago. Isso não me ajudou a passar das primeiras páginas do livro em algumas tentativas que fiz de lê-lo.
Enfim, podem anotar: daqui a uns 20 anos esses mesmos universitários estarão a lastimar o nível do ensino ministrado a seus filhos.
E dirão, consternados:
- Que decadência! Ah! no meu tempo...
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
Plano de vôo
Faz tempo, imaginei uma viagem à região de Cognac, na França. Não sei por quais cargas d'água, cá em Bragança os whiskys oferecidos são dos bons e a preços excelentes, mas cognacs existem poucos em oferta e a preços um tanto salgados. Qualquer dia desses, vamos partir em direção a Cognac.
Basta sair daqui para o norte, passar uma primeira noite em San Sebastian (Donostia, em basco), ou em Biarritz, já na França, no dia seguinte seguir sempre ao norte e desembocar em Bordeaux, para visitar Cognac, logo ali, mais um pouco acima.
Feitas as devidas aquisições, voltar por caminho análogo.
Dá pra fazer a ida em apenas um dia, mas como sou descansado, pensei em dividir a ida (e depois, a volta) em duas etapas.
Ainda não chegou o momento de fazer essa viagem e eis que me surge a ideia de outra.
Trata-se de viagem ligada a vinho, não mais a cognac.
Consiste em sairmos daqui em direção a leste, até alcançar Valladolid. São exatos 201 km. Por estradas de primeira qualidade. Portanto, algo como menos de duas horas.
A partir de Valladolid, visitar as vinícolas da Ribera del Duero, produtoras dos vinhos mais sofisticados da Espanha.
Claro, não comprarei um Vega Sicilia Unico, o vinho espanhol mais caro. Afinal, minhas armas não são desse calibre. Mas algo um pouco abaixo desse nível deve ser possível.
Se a viagem for realizada ainda neste outono, será possível contemplar paisagens magníficas.
Como o frio intenso ainda não chegou, pode ser que possa ser...
A Doga, de certeza, vai adorar os ares de Valladolid.
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Acaso e crença
Já me aconteceu de conhecer alguém e ouvir dessa pessoa:
- Não foi por acaso que nos conhecemos.
É sempre a dificuldade de aceitar que os eventos se sucedem ao acaso.
Parece que aceitar isso é admitir a nossa enorme insignificância.
E, no entanto, essas mesmas pessoas gostam de lembrar, com freqüência, o quão insignificantes somos diante da vastidão do Universo. Isso quando se trata de enaltecer algum deus de plantão.
Há algum tempo aprendi que esperar uma postura com alguma lógica dessas pessoas (infelizmente, a grande maioria) é inútil.
A Internet, então, tornou-se o paraíso dos que adoram falar de flores, pássaros, sentimentos nobres e como tudo isso causa a felicidade.
E dá-lhe power point, com música melodiosa de fundo (ligue o som!).
Se eu fosse governante, principalmente em país europeu nesse momento de crise, instituía um imposto sobre power point criado e sobre seu repasse.
Das duas uma: ou resolvia a crise ou acabava com essa mania de criar e repassar power point.
Ora, se um indivíduo quer acreditar em um deus qualquer, isso é problema dele. Só se torna problema meu quando o mesmo indivíduo resolve que eu também devo acreditar no deus dele.
Quanto a mim, se me permitem, prefiro entender que cá estamos por acaso, nascemos ao acaso, vivemos ao acaso e morreremos por acaso. E isso me parece deslumbrante. Não preciso de causalidade que me explique nada disso.
Nesse aspecto, os portugueses têm o hábito salutar de usar uma expressão que enaltece o acaso: é o se calhar.
Usa-se o se calhar a propósito de quase tudo, nesta terra católica.
Se calhar, nem católica é.
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
O vinho e a salvação
Leio em algum lugar que o vinho foi introduzido na Espanha por comerciantes fenícios, há três mil anos.
Duvido que esses indivíduos tivessem plena noção da importância da contribuição que davam ao continente europeu. O que não lhes diminui o mérito.
E graças a essas associações de ideias que só ocorrem a ociosos, lembrei-me de meus primeiros passos rumo à descrença nas verdades cristãs.
Foi quando resolvi perguntar a meu pai como ficava a situação dos índios habitantes do Brasil antes dos descobrimentos, no quesito salvação.
Meu pai devolveu-me um meio sorriso carinhoso e ofereceu-me o conselho:
- Deixa pra lá os índios e preocupa-te contigo.
Claro que não estava eu preocupado com os índios. Estava, sim, preocupado com a lógica de uma doutrina que já começava a me parecer sem pé nem cabeça.
Se um indivíduo, qualquer um da espécie humana em qualquer época, só vai para o céu, usufruir do prazer eterno, se aceitar a Cristo como seu salvador, me parecia - já naquela época - totalmente injusto mandar para o inferno indivíduos que jamais tiveram qualquer remota possibilidade de se valerem do sacrifício do Calvário.
Ou então as inscrições para o céu por meio de Cristo deveriam ter data de início e mais algumas condicionantes, como por exemplo as geográficas.
Mas volto aos fenícios. No que me tange, terem sido os responsáveis últimos (ou primeiros...) por me ser dado usufruir do milagre do vinho já lhes reserva um belo sítio no paraíso eterno.
Quaisquer que tenham sido seus inevitáveis pecadilhos.
domingo, 6 de novembro de 2011
Acasos
Neste domingo, com sol em Bragança, fomos até Sendim (Miranda do Douro) almoçar no Gabriela, restaurante que serve alheiras fantásticas seguidas de posta mirandesa com um molho que é segredo antigo da casa.
Depois de algumas desavenças com o GPS, conseguimos chegar ao Gabriela.
No Largo da Igreja, onde fica o Gabriela, havia - seguramente - uma vintena de velhinhos a vigiar a vida.
Ao final da refeição, como não podia deixar de ser, pedi à senhora que nos atendeu que nos desse a receita do molho. Apenas para ouvir uma negativa imediata e sucinta:
- Não é possível. Resposta seguida de um sorriso.
Ao sair do restaurante, nossa acompanhante - uma amiga brasileira que vive cá há mais de dezesseis anos e ama esta terra - esclareceu:
- Está na hora dos velhinhos fazerem o lanche.
Perguntei:
- Como sabes que já é hora?
- Simples. Já não têm o palito à boca.
E detalhou:
- Quando acabam de almoçar, ficam todos a palitar os dentes. Como já não o fazem, é porque está na hora do lanche.
Saímos de Sendim e fomos orientados a seguir caminhos esdrúxulos pela locutora do GPS. Estranhos caminhos mas maravilhosos.
De repente, surge ao lado da estrada a Quinta dos Melros, com dezenas e dezenas de galinhas a passear em um relvado amplo.
Lá fomos nós.





Saímos de lá com ovos e mais ovos.
Há quem pretenda ter controle sobre seu atos.
Determinar o rumo de seus passos.
Nada disso.
O acaso é o melhor conselheiro.
sábado, 5 de novembro de 2011
Remoto passado
Fomos hoje à aldeia - a Passos.
Havia por lá alguma agitação.
O filho de minha prima caçula, que sempre vai às castanhas ajudar aos pais, mora no Alentejo, trabalha na GNR, mas anseia pelo dia em que poderá reformar-se e voltar às origens.
Estava ele a promover uma festança a propósito da colheita das castanhas. Incentivava uma enorme fogueira, enquanto outros punham a arder sardinhas e febras a serem saboreadas com pão e vinho.
Quanto a nós, lá tínhamos ido a cumprimentar minha prima, a outra, a mais velha, pelo aniversário. Um rápido exame do BI e eis que a efeméride fora dois dias atrás.
E quem se importa. Na aldeia, pelos vistos, não se comemoram aniversários.
A Baixinha não deixou de arrebatar duas sardinhas. E aproveitámos a passagem do vendedor para comprar cinco litros de azeite.
Na casa de outra prima todos tinham ido às castanhas. Menos o puto de uns dez anos.
- Por que não foi ele a colher castanhas? pergunta a Baixinha, curiosa como sempre.
- Porque não quer!, responde a avó, com naturalidade.
E o guri continua, entediado, a bisbilhotar a Internet.
A educação vai ladeira abaixo, em Portugal.
Fosse eu o pai, puxava-o pela orelha e o levava a catar castanhas. Quisesse ou não.
Mas, ao que todos os sinais indicam, isso faz parte de um remoto passado.
Quase
Estive hoje em uma livraria, no centro comercial de Bragança. Fora alguma ficção de Rentes de Carvalho, nada - ou quase nada - a aproveitar.
Vou ter de visitar o Porto com maior freqüência...
Nada é perfeito. Nem Bragança.
Mas quase, quase.
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Mistérios
terça-feira, 1 de novembro de 2011
domingo, 30 de outubro de 2011
Portugal é comer bacalhau em Lisboa
Para a grande maioria dos brasileiros, Portugal resume-se a Lisboa. O surpreendente é que para boa parte dos portugueses também.
Se tal simplificação (um antigo professor de Física já dizia a nós, seus alunos: não confundam simplificação com amputação!) é - ou deveria ser - inaceitável, há outra igualmente lastimável, espero que - neste caso - só cometida pelos brasileiros: a de que a comida, em Portugal, restringe-se a variações em torno do bacalhau.
Não conheço brasileiro (dos que nunca vieram a Portugal, ao menos) que não pergunte a quem visitou Portugal:
- Comeste muito bacalhau por lá?
Preocupado que sou com o nível cultural do povo brasileiro, enumero a seguir alguns pratos encontradiços no cotidiano deste retângulo ocidental da Europa, no qual come-se melhor e de modo mais variado que em quase toda parte do planeta.
Como não sou nenhum erudito no assunto, limito-me a copiar nomes de pratos servidos em restaurantes de Portugal e constantes do guia de restaurantes de 2.011, publicado pela revista Sábado (copiei alguns, ao acaso):
Arroz de cabidela, Cavala fumada com caviar, Sopa de tomate, Frango com alheira e polenta de sarrabulho, Perdiz estufada com grelos e castanhas (essa come-se aqui ao pé de casa, no Geadas de Bragança), Arroz de lebre, Leitão confitado e puré de batata-doce, Bife tártaro com alcaparras, Terrina de rabo de polvo das bruxas, Tortellini de massa de algas com lavagante, batata-doce e emulsão de champanhe e cebolinho, Arroz de entrecosto, Bochecha de bísaro guisada em verde tinto, acompanhada com canela e leite-creme com louro, limão e rojões, Capão recheado com enchidos, Pombo com chila e folhado de foie gras, Arroz de pato com passas e pinhões, Cabrito ao vinho do Porto com favas e alheira de caça, Pitéu de safio (um estufado do peixe com ervilhas), Anho assado, Sarrabulho e rojões, Vitela assada, Arroz de fumeiro etc etc.
Ah! Há bacalhau preparado das mais variadas maneiras.
sábado, 29 de outubro de 2011
O cuidado com as fontes
Não me parece necessário ler José Honório Rodrigues (História da História do Brasil ou Teoria da História do Brasil, por exemplo), ainda que seja desejável, para se perceber a importância de bem avaliar as fontes das quais se bebe informação.
Essa observação vem a propósito da enxurrada de e-mails que invade minha caixa postal a propósito dos mais variados assuntos, sempre com tons de final-de-mundo, ora a elogiar os dons curativos da limonada, ora a alertar para o uso de sandálias made in China.
Hoje, por exemplo, estava eu a ler os e-mails recebidos enquanto a Baixinha descongelava uns filetes de peixe-gato para nosso almoço.
De repente, leio horrores sobre os tais pangas. Para uns, peixes criados em pântanos fétidos do Vietname; para outros, peixes alimentados por rações recheadas de substâncias altamente tóxicas.
Corro à cozinha, relato tudo à Baixinha e resolvemos devolver os filetes ao congelador até pesquisas mais conclusivas.
Feitas algumas pesquisas no Google, logo descubro que tudo não passa de alarmismo ou interesseiro ou muito ingênuo.
Saboreamos filetes de pangas no almoço, acompanhados de um delicioso vinho alentejano, claro, claro.
Seria tão bom se as pessoas, antes de saírem a repassar todo e qualquer lixo electrónico que recebem, fizessem umas rápidas pesquisas via Google ou outro qualquer programa de busca disponível na internet.
Ora, ora. Há tanta coisa que seria "tão bom"...
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
Humor de Estado
Há tempos não me interesso quase nada pelos assuntos brasileiros, particularmente os políticos.
Contudo, hoje, resolvi ler alguns jornais brasileiros.
Na coluna Panorama Político (de Brasília), publicada sempre à página 2 do jornal O Globo, do Rio de Janeiro, leio:
Despacho roubado
O presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), determinou a abertura de investigação, pela Polícia Legislativa, para averiguar o roubo de um pé de arruda do hall do apartamento do deputado Paulo Magalhães (PSD-BA). "Esta Casa está obrigada a adotar um posicionamento firme para apurar o desaparecimento desse vaso de arruda, que nós colocamos com o objetivo de nos proteger dos maus-olhados e trazer alguns benefícios", disse Magalhães, na tribuna.
Ponto final.
terça-feira, 25 de outubro de 2011
Conversa de barbeiro
- Você é brasileiro, não?
- Sou português, mas vivi sempre no Brasil.
- Percebe-se, pelo sotaque.
- Pois é. Até tento imitar o português, mas é difícil.
- Nós aqui também tentamos imitar o brasileiro...
- E também não conseguem...
- É verdade que no Brasil barbeiro também significa o que conduz mal?
- Sim, é. E barbeiragem é o que faz o condutor do veículo ao executar mal uma manobra.
- Certa vez esteve cá um brasileiro e pediu-me que lhe cortasse as costeletas. Fiquei sem entender... Depois é que entendi que ele queria que lhe fizesse as patilhas.
Pensei mas não disse:
- E por que não lhe perguntou se as queria bem ou mal passadas?
sábado, 22 de outubro de 2011
Amarelas
No início, achava estranho que houvesse tantas vivendas amarelas em Bragança. E, diga-se, trata-se de um amarelo forte, intenso. Pra lá de gema de ovo.
Parecia-me um bocadinho de mau gosto.
Agora que vivo cá meu primeiro outono, começo a perceber que faz algum sentido pintá-las assim.
Devo essa mudança de apreciação ao convívio diário com multidões de folhas amarelas caídas ao chão.
Ainda bem que não as varrem.
Fazê-lo seria desonrar o outono.
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
Chantagem de mãe
Estava eu a passear o cão, no Parque da Braguinha, lá pelas 11 horas da manhã. Passa por mim uma senhora vestida em tons escuros, enormes botas em pele, pretas, daquelas de salto-agulha que cá em Bragança as mulheres utilizam para ir ao talho. Enquanto caminha fala ao telemóvel.
Os fragmentos de conversa que me chegam indicam que fala com a filha e a chama a almoçar. Parece que, do outro lado, a filha recusa o convite.
Diz então a mãe:
- Mas já comprei o frango...
E logo encerra a conversa, de certeza com o convite já aceito.
Fico a pensar: por que a mãe não telefonou à filha antes de comprar o frango?
E a resposta é óbvia:
Porque é mãe.
sábado, 15 de outubro de 2011
Formas
Se as montanhas, vales, planaltos, planícies, colinas e que tais fossem pirâmides, paralelepípedos, cones e demais formas ditas geométricas, talvez o ensino da matemática devesse ser alterado.
Começar-se-ia por complexas equações que descrevessem formas repletas de ondulações, de pequenas concavidades, de grandes abismos.
Só mais tarde, em cursos de matemática avançada, chegar-se-ia a fórmulas descritivas de cubos, esferas, dodecaedros.
Um mundo geométrico seria simples, mais compreensível.
Do modo como está, fica-se às voltas com superfícies não planeadas, irregulares, assimétricas, quase aleatórias.
Ainda bem que sobre tudo isso paira uma lua esférica, impecável:
Maria João
Como português fajuto que sou, não conhecia Maria João, a cantora.
Hoje, no Teatro Municipal de Bragança, pude ouvi-la, acompanhada pela Orquestra de Jazz de Matosinhos.
Dona de extensão vocal enorme, de emoção quase infinita, Maria João levou o espetáculo ao ápice ao interpretar Baden e Vinicius (Canto de Ossanha), Tom (Lígia) e - maravilha! - Edu e Chico (Beatriz).
Só pra ilustrar, aí vai uma amostra do balanço da cantora:
sábado, 8 de outubro de 2011
A Cópia
E havia um deus todo poderoso que morria de inveja de outro deus, um deus todo criativo, muito engenhoso e jeitoso.
Vai daí, o todo-criativo teve a ideia de criar um mundo.
E começou por iluminá-lo de modo deslumbrante.
Roído pela inveja, o todo-poderoso pôs-se a imitar o rival.
Por desgraça, seu projeto de iluminação foi mal calculado. A energia programada não permitia intensa iluminação ininterruptamente.
Havia blecaute todo santo dia. Os áulicos, para disfarçar, pediram ao marqueteiro do todo-poderoso que imaginasse algo para amenizar o fracasso.O marqueteiro começou por chamar os blecautes de noites. Muda-se o nome, muda-se a imagem, como todo publicitário sabe. E, em meio à escuridão, conseguiu – com um quase nada de gasto energético – que algumas luzinhas piscassem. Construiu até uma luminária de luz branca (para economizar energia) que se acende durante a tal noite, é verdade que nem sempre por inteiro.
Em uma segunda etapa, o todo-jeitoso separou as águas da terra das águas dos céus.
Já o poderosão se atrapalhou todo para imitar essa separação e terminou por inventar a chuva e seus derivados menos amistosos: granizo, nevasca etc etc. Em compensação, tornou-se o patrono da indústria de chapéus-de-chuva, capas impermeáveis e que tais.
Na terceira fase, aquela em que o todo-faceiro criou as ervas dos campos, as árvores e tudo aquilo que faz a alegria dos vegetarianos, o grosseirão, o outro, até que não fez tão feio. É certo que andou a criar as urtigas. Mas nada que se compare às bobagens posteriores.
Por ter o deus-artista-plástico dado uma paradinha pra repor energias, o omnisciente (mais tarde conhecido por Google) resolveu gastar a quarta etapa a tentar convencer toda a gente que essa história de dia e noite, sol e lua, estiagem e chuva, era o supra sumo.
Na quinta fase a lambança foi total. Enquanto o primeiro-designer criava pavões, pássaros deslumbrantes em sua plumagem, peixes coloridos etc etc, o todo-invejoso começou por criar o rato ao tentar construir um pássaro. Na segunda tentativa saiu-se pouco melhor: criou o morcego. E dá-lhe moscas, pernilongos, gafanhotos etc etc. Isso pra não falar em uns bichos totalmente desengonçados que Ele mesmo percebeu que haviam saído fora de esquadro e lançou-os ao fundo do mar, pra evitar maior vexame.
É ocioso enumerar a quantidade de asneiras produzidas pelo todo-imitador. O cúmulo ele o atingiu ao criar o homem.
Mal havia construído o cidadão, se deu conta de que não o havia dotado de forma alguma de reprodução.
Toca a construir um complemento que – ao ser-lhe acoplado – permita a perpetuação da espécie. Aliás, isso era necessário porque o homem foi criado com data de validade.
Uma digressão: tive um mestre que ensinava: quando algo começa errado, não tente consertar, desista.
Pois o omnipresente parece ter faltado a essa aula. A cada erro, uma tentativa de correção.
Para sanar as lacunas na construção do homem, criou a mulher.
Levou-os a habitar um Paraíso que paraíso não era. Ao menos a pedagogia moderna ensina que não há paraíso onde há qualquer proibição.
Sabe-se lá por quais motivos, o todo-atabalhoado inventou um paraíso em que uma fruta era para não ser comida.
Ainda por cima, quando Adão e Eva resolveram valer-se da melhor coisa que o todo-desastrado criara – o sexo – chutou-os do tal Paraíso e rogou-lhes várias pragas (trabalho, dor de parto etc etc).
Enfim, um desastre.
Já o Universo do todo-engenhoso ficou uma graça.
Não à toa, cada vez é maior o número de indivíduos nesse nosso mundo imperfeito que cultuam o deus todo-criativo.
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
A República, o Douro, o Jazz
Anteontem foi feriado da República aqui em Portugal (5 de outubro) e, só pra contrariar, fomos almoçar na monárquica Espanha.
Fomos à cidade de Zamora, que fica a 100 km aqui de casa.
A cidade é muito bonita. Além de guardar muita história: a independência de Portugal, com o reconhecimento do Reino de Portugal, deu-se pelo Tratado de Zamora, lá no ano de 1.143. Por incrível que pareça, eu ainda não havia nascido.
Almoçamos no restaurante Mirador, às margens do Duero, aquele mesmo que depois que entra em Portugal passa a ser chamado de rio Douro. Depois de uma deliciosa entrada de morcilla, parti para um arroz zamorano, uma espécie de paella com chouriças e outras maravilhas suínas no lugar dos ingredientes da paella.


E por falar em Douro, ontem à noite fomos a uma apresentação de jazz, no contexto do Douro Jazz. Aqui em Bragança são quatro noites. A de ontem foi com uma cantora de origem portuguesa mas nascida na Austrália, chamada Melissa Oliveira. Ela compõe suas próprias músicas, ou ao menos escreve as letras para melodias que interpreta. Ela foi acompanhada por quatro músicos: o americano Jason Palmer (trompete), o russo radicado nos EUA Alexei Tsiganov (piano/vibrafone), João Artur Moreira (bateria) e João Cação (contrabaixo).
Espetáculo de rara perfeição técnica. Melissa faz o que quer com a voz. Os demais músicos são - para usar imagem do mundo automóvel - topo de gama. Do baterista o grupo interpretou duas composições lindas. Os improvisos foram fantásticos, particularmente os de trompete (Jason Palmer) e os de voz (Melissa).
Jazz de gente grande.
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
Minhas lições de Espanhol
Não faz muito tempo, cheguei a Madrid, vindo do Brasil, e pretendia visitar Salamanca. A Baixinha foi acometida de uma violenta crise de sei-lá-o-quê. Espirrava sem parar. Pediu, então, que eu parasse em alguma farmácia para comprar lenços de papel.
Entrei na primeira cidadezinha espanhola que apareceu, parei diante de uma farmácia e lá fui eu.
Como pedir lenço de papel? Consegui explicar-me de algum modo. Já de posse da caixa de lenços de papel, perguntei à simpática atendente como se dizia lenços de papel em espanhol.
Candidamente, ela me elucidou:
- Kleenex.
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
O amor em Portugal
As diferenças entre o Português praticado em Portugal e o usual no Brasil são muitas.
No Brasil alguma ação ou providência pode vir a dar resultado. Em Portugal, pode resultar.
Lá a indústria que monta os carros é a indústria automobilística. Cá as viaturas são produzidas pela indústria automóvel.
No Brasil, restauração é o ato ou efeito de restaurar. Em Portugal também. Mas aqui pode ser, por influência do francês, o conjunto de atividades vinculadas a restaurantes e similares.
No Brasil as pessoas educadas falam por favor. Em Portugal diz-se faz favor ou se faz favor (que até se abrevia, na escrita, sff).
Não sei se o amor, em Portugal, é mais intenso. Mas seguramente os amantes, aqui, são melhores na colocação pronominal:
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
O Vinho
Esta tarde, sem razão aparente, resolvemos ir a Passos.
Lá chegados, encontrámos as primas vindas das vindimas. Ou seja, haviam colhido as uvas, tínham-nas já esmagado com a máquina eléctrica (o que não exime de completar o esmagamento com os pés) e deixado o resultado a repousar, melhor dito, a ferver.
Ao aproximar o ouvido dessa grande cuba de plástico na qual repousam as uvas esmagadas, ouve-se o ruído da fermentação, ruído grave, proveniente de séculos de tradição do cultivo do vinho.

Fiquei a imaginar (obviamente sem sucesso) o caminho percorrido pela humanidade até o domínio do processo completo da produção do vinho a partir da uva.
Essa massa fervente deve, ainda, passar por alguns tratamentos: tem de ser mexida periodicamente com a pá de madeira que aparece, discreta, no alto da foto. E outros detalhes que aqui não cabem (mesmo porque não os domino).
Tudo isso se origina dessas frutas aí embaixo:

Cada cacho desses é composto de uvas com nome próprio, como nós, humanos.
Ao contemplar parte do processo de fabricação do vinho, quase me sinto obrigado a ajoelhar-me e agradecer à humanidade essa dádiva.
Maravilhoso, o vinho.
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
Chuva usa chapéu?
Se no Brasil CPI não emplaca mais e os jornais continuam com o mesmo número de páginas, dá-lhe inovação. Nos jornais, nas rádios e na TV a ordem, agora, é correr atrás do lucro pra não incidir em risco de morte.
Desde que o Latim pariu o Português as pessoas normais correm risco de vida. Já nossos bravos jornalistas não.
Correr atrás do prejuízo, então, nem pensar. Deve-se correr atrás do lucro. Só pode ser influência do tal evangelho da prosperidade, aquele do pessoal que esconde dólar em bíblia.

Pois sugiro mais aos doutos jornalistas: parem de falar guarda-chuva. Cá em Portugal prefere-se chapéu-de-chuva. Afinal, o bicho não foi feito para guardar a água da chuva. Caso contrário seria balde.
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Para o rol das histórias incríveis
Já há muito tempo tínhamos nós (a Baixinha e eu) telemóveis pré-pagos, da tmn. Por não morarmos ainda em Portugal, não era conveniente termos pós-pagos.
Durante o tempo em que ficávamos no Brasil (a maior parte do tempo) mantinha meu telemóvel ligado para receber chamadas. Raramente recebia alguma. Mas, quando consultava meu saldo verificava que ele definhava como se tivesse sido acometido de alguma anemia. É verdade que recebia, com bastante freqüência, mensagens de uma entidade chamada Movilisto, a presentear-me com créditos para não sei qual finalidade.
Logo que viemos definitivamente para Portugal, fomos a uma loja tmn e convertemos nossos telemóveis em pós-pagos. Os créditos restantes de carregamentos anteriores - foi-nos informado - serviriam para abater débitos futuros. O telemóvel da Baixinha (que no Brasil permanecia desligado) tinha em torno de 70 euros de saldo. O meu, como já disse, sofria de algum mal que lhe furtava as energias.
Hoje fomos à Bluestore (é assim que se intitulam as lojas tmn/meo/sapo) para reclamar nossos saldos remanescentes da época dos pré-pagos, não considerados na primeira factura que recebemos.
Descobrimos que cada mensagem da tal Movilisto nos arranca 2 €.
A jovem que nos atendeu nos ensinou a mandar às favas a tal Movilisto: manda-se uma mensagem para 62226, com o texto: Sair
Recebe-se, em seguida, mensagem a informar que fomos desligados da tal Movilisto, perdemos todos os créditos que nos haviam sido outorgados e - caso nos arrependamos - basta enviar mensagem com o texto: Voltar
A ver se esse procedimento resulta.
Pelo que leio na Internet, essa maluquice já vem de longe. Há vários anos esse furto descarado ocorre.
Vou pedir ao Alberto João Jardim, da Madeira, que me ajude.
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Lá se vai o verão,
lá vêm as dúvidas
A temperatura, cá em Bragança, ainda é um bocadinho alta: são 23:30 e lá fora está um tempo aprazível, 21,5 ºC.
Há pouco fomos deitar fora o lixo. A Doga regalou-se com o passeio extra.
Será nosso primeiro outono totalmente passado em Bragança.
Deixo de lado essa conversa de elevador e falo de minha experiência inicial com o sistema de médico de família, neste estado europeu que - segundo os americanos do norte - é praticamente comunista.
A princípio gostei da ideia: ter um médico que te acompanha e orienta a consulta a especialistas, indica os exames básicos a fazer etc etc.
Quando visitei meu primeiro médico de família descobri a inevitável falha de qualquer sistema que envolva seres humanos: se eles falham, o sistema falha.
Meu primeiro médico de família era terrivelmente ruim. A experiência da primeira (e, felizmente, única) consulta foi traumática, jamais a esquecerei.
Percebi, então, que se o cidadão cai nas mãos (quase escrevia garras) de um médico ruim ele está em maus lençois.
Em meu caso, consegui mudar de médico por ter sido inaugurado um novo posto de saúde praticamente ao lado de casa. Meu novo médico de família é excelente.
Hoje me dei conta de um segundo defeito no sistema: ao ser cuidado pelo Estado, o cidadão passa a ser refém do mesmo. O médico determina que o indivíduo proceda assim ou assado, tome tais ou quais vacinas etc etc. Se o indivíduo não seguir as recomendações médicas sujeita-se a perder suas regalias (as consultas e remédios são praticamente gratuitos).
Minha vivência ainda não permite saber se existem - de facto - punições para os omissos. Talvez não as haja. Quanto a mim, diga-se, gosto de ser tutelado quanto à questão de saúde.
Levanto, aqui, uma questão de princípio, não uma reivindicação pessoal.
E se o indivíduo preferir contrariar as orientações médicas? Qual será a "reação" do sistema?
De bicicletas
Já contei, neste blog, como ganhei minha primeira bicicleta. Foi às vésperas de completar 11 anos.
Com ela vivi experiências fascinantes (ao menos para um guri de 11 anos).
Ao partir de Santos rumo a São Paulo, lá ficou minha bicicleta. Tinha eu, então, 16.
Chegado aos 37 anos, 21 anos depois, portanto, comprei nova bicicleta. Essa segunda não chegou a tornar-se companheira íntima. Tivemos uma relação efêmera, como, aliás, foram todas as minhas relações nessa época. Pra dizer a verdade, nem me lembro de como me desfiz dela. Mas deve ter sido por volta de 1.986, quando eu já somava 41 anos de idade.
Pois bem. Hoje, tomado de coragem, adquiri minha terceira bicicleta.

Faz algo como 25 anos que tive a segunda.
Ao levá-la a casa (ou a ser levado por ela, sei lá) senti uma emoção difícil de descrever. Algo parecido com um reatamento com a infância.
Diga-se: quando era garoto, conduzia muito melhor.
Pretendo aprimorar-me na condução da bicicleta. Quem sabe consigo chegar a ser tão bom quanto era aos 11, 12 anos.
Já seria qualquer coisa. Nisso e em tudo mais.
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Para emagrecer
Ontem a Baixinha foi a Vinhais arrumar cabelo e unhas. Voltou curiosa por saber o quanto de verdade existiria em uma história de pílulas de ovo de solitária que provocam o emagrecimento.
Passei um bom tempo a fuçar no Google à cata de informações a respeito.
Teria Maria Callas utilizado tal método para baixar de seus 90 kg para míseros 57 kg?
Parece ser lenda. Já a venda das tais pílulas nos Estados Unidos, inícios do século XX, tem jeito de ter ocorrido. É verdade que não se tem como saber se as pílulas que eram vendidas como contendo ovos de solitária portavam de facto tais ovos.

As informações passadas boca a boca no salão dão conta de que seria possível, nos dias de hoje, comprar tais pílulas pela Internet.
Mas é sabido que na atmosfera de um cabeleireiro realidade e fantasia são indistinguíveis.
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
A volta dos comentários
Dia desses retirei o recurso que permitia comentários no Blog. Expliquei que o sistema de comentários que eu estava a utilizar havia dado sinais de não estar a funcionar direito.
Minha irmã caçula passou por cima de minhas explicações e protestou contra a ausência do recurso.
Como (quase) tudo que minha irmã diz eu acato, voltei a permitir a inserção de comentários no Blog, só que - agora - com o sistema de comentários do próprio Blogger.
E segue o jogo!
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
Promessa cumprida
Antes de sair do Brasil (São Paulo), tive a ideia:
Quando estiver em casa, em Bragança, Portugal, vou sentar-me à varanda, diante do IP4 (estrada que leva do Porto a Bragança e daí à Espanha), lá pelas onze horas da noite, quando no Brasil são apenas sete horas da noite, vou ligar o portátil (que no Brasil é chamado de notebook), entrar na Internet e escolher a rádio Sulamérica Trânsito, rádio especializada em informações sobre o trânsito em São Paulo.
Enquanto contemplo o IP4, com o seu movimento de alguns poucos automóveis por minuto, ficarei a ouvir as informações que dão conta de que há congestionamento na Marginal Tietê, de que a Marginal Pinheiros está parada, no sentido de Interlagos, pelo atropelamento de um motoqueiro, que a ligação Norte-Sul está insuportável pelo excesso de veículos etc etc. E vou usufruir da delícia de estar aqui. E não parado em meio a uma balbúrdia daquelas, como tantas vezes já estive.
Hoje cumpri a promessa.
Pagano Sobrinho
Fioravante Pagano Sobrinho parece que nasceu em São Paulo, em 23 de outubro de 1.910. Fez muito sucesso como humorista, principalmente nas décadas de 50 e 60 e morreu em 1.972. Esse ano, aliás, foi o único na minha vida que atravessei inteirinho atrás das grades, no Presídio Tiradentes.
Ano passado ele completaria 100 anos. Não vi, não li, não ouvi nenhuma palavra sobre ele na imprensa brasileira.
É assim mesmo. Não está na moda, pas de espaço na media.
Mas me lembro bem de Pagano a retratar as mulheres da alta sociedade:
- Era uma mulher muito viajada, muito percorrida.
Até o que existe sobre ele no You Tube é fraco. Paciência.
Adeus, Pagano.
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
A força motriz sexual
Como todo mundo, tenho direito a desenvolver teorias. E percebo, cada vez com mais nitidez, que a força motriz da sociedade é o sexo.
Grande novidade, dirão quase todos. Já Freud fez disso seu ganha pão.
Mas não. Calma lá.
As teorias freudianas são mais sofisticadas.
Quanto à minha, é de uma simplicidade alvar:
Digo, com toda a clareza: o Zé Dirceu, aquele o do mensalão brasileiro, aquele que não se deve cutucar com vara curta pois pode ser fatal, é um belo exemplo. Entrou para a política estudantil por perceber que era o jeito mais fácil e rápido de papar todas as menininhas deslumbradas que circulavam pelas universidades paulistas.
Depois de um desastrado congresso da UNE em Ibiúna, e outras estrepolias do gênero, foi preso. Uns gabeiras e franklins martins o pediram em troca do embaixador americano que haviam seqüestrado e ei-lo a tomar aulas de tiro e coisas que tais em Cuba.
Daí a criar o PT e dar invólucro eleitoral a Lula foi um passo.
Por falar em Lula, é evidente que só entrou para a militância sindical para papar viúvas de operários que iam ao sindicato para inteirar-se de seus direitos trabalhistas.
E por aí vai.Qualquer dia desses desenvolvo mais pormenorizadamente essa ideia.
Por hora, vou até ali, bem, fazer algo mais importante.
domingo, 4 de setembro de 2011
O rústico e o urbano
Neste fim de semana experimentámos dois extremos muito agradáveis.
No sábado, fomos almoçar na casa de minha prima Zelinda, em Passos de Lomba.
Como decidimos que eu conduzia na ida e a Baixinha na volta, pude começar com um bagacinho. A comida, regada a vinho da aldeia, estava soberba: um cordeiro na panela, com batatas.
Hoje, domingo, fomos a Mirandela conhecer o Flor de Sal:
À entrada já se anuncia:
O interior do restaurante é sóbrio:
À guisa de entrada, enquanto a Baixinha pedia foie gras, fui de míscaros com alheira de caça. Imperdível. Aliás, imperdíveis, pois não deixei de experimentar o que a Baixinha pediu.
Regado a um vinho Quinta de Sobreiró de Cima Colheita 2004 (de Valpaços), saboreámos um arroz de peixe e gambas.
Completei com um gelado de azeite.
Fomos, então, apreciar o salão de baixo, sobre o rio Tua.
Pode-se sentar e conversar:
Ou passear pelo relvado ao lado do restaurante:
Ficou a dúvida: qual o melhor? O rústico ou o urbano?
Prefiro ambos.
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
Sem comentários
Penso que será melhor tirar os comentários. Comecei a pensar nisso quando eu mesmo não consegui meter um comentário em meu próprio blog.
Além do mais, são poucos amigos que inserem comentários. Poderão enviar-me seus pontos de vista por e-mail.
Há leitores fieis que jamais comentam nada.
Fazem o que mais me importa: lêem.
Estimulo a todos os que me lêem a fazerem seus comentários. Mas por e-mail.
Sempre que for cabível, responderei no próprio blog ou por e-mail.
Combinado?
quarta-feira, 31 de agosto de 2011
Fim de feira
Hoje parece final de feira, em Bragança. Talvez o mesmo se possa dizer em relação a quase todo Portugal. Os emigrantes já se vão. E os comerciantes daqui, em particular os da restauração, fecham suas casas e partem para vinte dias de descanso.
O que havia a facturar, o foi.
Lá para o dia 12 começa o ano lectivo.
Só então, lá para a segunda quinzena de setembro, reinicia-se a actividade em geral.
Quanto a mim, amanhã recebo meu primeiro salário de reformado.
Em Romanos 6:23 consta que o salário do pecado é a morte. Espero que o salário da reforma seja algo menos radical.
terça-feira, 30 de agosto de 2011
A Falência da Educação
Não percebo o porquê de ninguém se preocupar para valer com o descalabro da educação nos dias de hoje.
Fico horrorizado ao constatar que há alunos já chegados aos 12 anos de idade e que não sabem nem sequer demonstrar o Teorema de Gödel.
Pior: muitos nem sequer leram a Crítica da Razão Pura, de Kant.
Pergunto-me onde iremos parar se adolescentes mergulham na mais total ignorância do que seja um imperativo categórico.
Mesmo naquelas matérias que os conduzirão a boas colocações no mercado, o desconhecimento é gravíssimo. Muitos rapazitos, já com alguns pelos a despontar no rosto, ignoram solenemente as quatro equações fundamentais do electromagnetismo.
Poderia estender-me em exemplos tenebrosos.
Mas fico por aqui, antes que minha irritação atinja limites indesejáveis.
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
Abel e Olivier
Hoje fomos almoçar ao Abel, em Gimonde. São menos de 5 minutos de carro até lá.
Durante o almoço, a Baixinha teve o insight: isto aqui é como o L'Entrecôte de Ma Tante, do Olivier Anquier.
É verdade.
O restaurante da Mário Ferraz, em São Paulo, oferece apenas um prato: o entrecôte acompanhado de batatas fritas. Antes servem uma salada verde. Há alguns doces à sobremesa.
No Abel, pode-se escolher entre costeletas de vitela ou de cordeiro e posta de vitela. Tudo na brasa. Tudo feito pelo próprio Sr. Abel.
Servem antes uma salada verde e batatas fritas ou ao murro acompanham a carne.
Há também doces para a sobremesa.
Nos dois restaurantes a comida é excelente. A diferença está no preço. No Olivier a refeição sai R$ 53,00 por pessoa, sem bebida. Uma garrafa de vinho tinto não deve custar menos de R$ 50,00. Um casal gastará, no mínimo, uns R$ 150,00. Ou 65 euros.
Hoje, no Abel, comemos uma posta de vitela dos deuses, tomámos um delicioso vinho da casa. Deixámos lá 13,25 euros.
sábado, 27 de agosto de 2011
Lá se vai o verão
Dizem, cá em Bragança, que o verão acaba aquando da festa da Nossa Senhora da Serra, no início de setembro.
Parece, contudo, que o final do calor antecipou-se, este ano.
Depois de dois dias tórridos, quarta e quinta da semana passada, a temperatura começou a cair e ontem à noite, quando resolvemos sair para deitar fora o lixo, fazia um frio terrível na rua.
Lembrei-me dos versos populares que me ensinou o primo Alípio:
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
A Luta de Classes, quem diria,
acabou em Boletim Meteorológico
Avacalharam de uma vez por todas as ideologias.
Matéria de Filomena Naves publicada hoje no Diário de Notícias resume as conclusões de uma pesquisa divulgada pela revista Nature: existe uma correlação clara entre o fenómeno climático El Niño e o surgimento de guerras civis nos 90 países que sofrem a influência dele. Explica Filomena: “El Niño é um fenómeno periódico de aquecimento das águas do Pacífico, que ocorre a cada três a sete anos, e que tem repercussões à escala global, afectando os padrões meteorológicos em quase todo o continente africano, no Médio Oriente, Índia, sudoeste asiático, Austrália e Américas, onde vive metade da população do planeta. Nesses anos, a temperatura do solo sobe e as chuvas diminuem muito. No anos de La Niña, em que as águas do Pacífico arrefecem, acontece o contrário.”
Os pesquisadores chegaram mesmo a quantificar a tal influência:
“No estudo hoje publicado na revista Nature – que faz capa do artigo –, a equipa coordenada por Solomon Hsiang, da universidade de Columbia, escreve que os dados ‘ mostram que a probabilidade de surgirem novos conflitos civis nos países tropicais duplica nos anos de El Niño ’. “
Os mesmos pesquisadores fazem uma óbvia ressalva:
“Com prudência, a equipa sublinha que não é o clima apenas que desencadeia as guerras civis. Um mundo de problemas sociais e humanos conjuga-se sempre para que os conflitos aconteçam. Mas o estudo, dizem, mostra que o papel do clima é real e também mensurável. Em tempos de grande tensão, a meteorologia desfavorável pode ser o rastilho que ninguém queria. “
Mas a ressalva chega quando a vaca já se dirigiu ao brejo.
Ouso sugerir aos inefáveis cientistas políticos que passem a dedicar um tempo adicional ao estudo das previsões do tempo.
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
O viúvo
- Como vai essa força?!
Há muito tempo não o via. Talvez por isso, cumprimentou o velho amigo com misto de prazer e surpresa.
Recebeu a resposta habitual para essas situações, a menos do final:
- Minha mulher faleceu há um ano.
Vestiu a expressão de consternado e retrucou:
- Meus pêsames, amigo.
E veio a surpresa:
- Pêsames o caralho!!! Tirei a sorte grande!
E pôs-se a contar como sua vida passara por uma revolução. Como se tornara alegre, feliz mesmo.
Despediram-se pouco depois, não sem que o amigo o convidasse para acompanhá-lo em algumas aventuras. Agradeceu o convite de modo protocolar.
Antes de voltar para casa, sem que isso fosse hábito seu, passou na florista e comprou flores para a mulher.
Ida ao Porto
A viagem de Bragança ao Porto fazia-se em 2 horas e alguns 15 minutos. IP4 de Bragança a Amarante, A4 daí ao Porto.
Com a construção da A4 até a divisa com Espanha, o tempo pulou para 3 horas. Há muitos desvios. Por um lado, é bom: esses desvios passam por pequenas vilas e revelam paisagens lindas. Por outro, fica-se cansado pelo que se assemelha a corrida de obstáculos.
Fomos e voltámos quase que sempre à luz do dia. Pudera: no verão, o dia - aqui - tem 15 horas. A noite nos envolveu já próximos de Bragança, às 21 horas.
Problemas burocráticos resolvidos, fomos revisitar a Adega e Presuntaria Transmontana 2, em Vila Nova de Gaia.
Decepção. O vinho tinto, um Cabeça de Burro, Reserva, 2009, estava excelente, ainda que em temperatura acima da desejável. A comida, contudo, sofrível. Para quem já saboreou um javali ou um polvo nessa casa, ambos decepcionaram. É pena.
Depois de algumas compritas em El Corte Inglés, o retorno a Bragança.
Doga nos recebeu com a cauda a abanar. Seu típico sinal exterior de felicidade.
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
Castanhas à vista!
Daqui a pouco, em outubro, virá a colheita das castanhas.
Hoje fomos a Passos visitar as primas.
Por já não ser turista, senti-me sem pressa.
Ficámos um bom tempo a jogar conversa fora com a Dora. Maria Tereza não estava em casa (como quase sempre), mas encontrámos Fernanda, que ruminava algum ócio na varanda da casa de amigos. Durante algum tempo conversámos na rua. Por fim, fomos à Zelinda. Por não estar a conduzir, pude tomar algumas pinguinhas. Vinho tinto delicioso preparado na aldeia.
O castanheiro abaixo é mesmo ao pé da casa do Alípio e da Zelinda.
Também são do mesmo sítio as uvas que comporão futuro vinho.
Saúde!
domingo, 21 de agosto de 2011
Restaurante Chefe Ruca
Na mesa ao lado, casal com dois filhos de algo como 8 e 10 anos. Crianças civilizadas, raridade nos dias de hoje.
Em mesa próxima, crianças nem tanto.
Restaurante rapidamente lotado. Assim é agosto em Portugal.
Comemos uma excelente posta de vitela, acompanhada de arroz, fritas e batatas ao murro. Estas últimas, deliciosas.
Vinho da casa, tinto. Por estar a uma temperatura um bocadinho alta, foi trocado pelo mesmo vinho, mas fresco.
Toda essa festa custou-nos 15 euros (R$ 34,50).
7,5 euros por pessoa. Nada mau.
Boa semana a todos. Semana que, aliás, começa com feriado em Bragança.
sábado, 20 de agosto de 2011
Salazar e eu
Dia desses fui à Conservatória de Bragança para obter uma via de minha Certidão de Nascimento.
Tenho a mania de querer falar como todo português legítimo. E - óbvio - não consigo.
Ao ser atendido pedi uma via de meu assento de nascimento. Errei. Tinha de ter falado:
- Quero uma via de meu assento de naximento.
É preciso, para ser português legítimo, ou quase, saber que sc pronuncia-se x.
Mas esse não é o ponto.
Acontece que todo português que nasceu (naxeu) fora de Portugal tem sua certidão de nascimento nas Conservatórias Centrais, em Lisboa.
Melhor: tinha.
Um processo de digitalização dos assentos de nascimento foi desenvolvido. Sabe-se lá qual foi o critério. Mas segundo algum critério, os assentos de nascimento foram distribuídos pelas Conservatórias do país para serem digitalizados.
E aconteceu que o meu assento de nascimento foi parar em... Santa Comba Dão!
Alô, meu amigo virtual António Neves. Passei a ser teu conterrâneo!
Mais ainda: passei a ser conterrâneo do Salazar. Que foi eleito recentemente o camarada mais querido (ou algo semelhante) de Portugal.
Nada contra. Pelo menos quanto a meu amigo da Voz do Seven.
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
Portanto
Na primeira vez em que cheguei a Viana [do Castelo], por ter reservado quarto na Pousada do Monte de Santa Luzia, parei junto ao carro de um taxista e perguntei-lhe:
- Como chego à Pousada do Monte de Santa Luzia?
O homem colocou a mão a segurar o queixo e mergulhou em seu GPS interno.
Nada.
Depois de alguns instantes, pausadamente:
- Monte de Santa Luzia... Portanto...
E prosseguiu, sem saída:
- Portanto...
Mais algumas repetições e - finalmente - veio-lhe à cabeça o caminho.
Agradeci e rumei para a pousada.
Mas portanto passou a ser, para mim, um pedido de tempo para o download de alguma ideia, de algum texto armazenado em lugar recôndito da mente.
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
Diálogos bragançanos
Na loja PT (tmn, meo, sapo), como é praxe em Portugal, funcionários solícitos dão toda a atenção possível ao cliente que estão a atender. A contrapartida de toda essa gentileza é que os demais clientes aguardam um tempo infindável o doce momento de serem tão amavelmente tratados.
Chegara minha vez. Estava a explicar ao funcionário uma por uma de minhas pendências com a PT quando aproxima-se do balcão uma senhora, lá pelos cinqüenta anos, a carregar uma caixa de papelão.
- Por favor, diz ela ao funcionário, só quero devolver este equipamento.
- A senhora precisa pegar uma senha e aguardar a sua vez.
- Não posso deixá-lo cá em um canto?
- Não! Se fizer isso, vamos deitá-lo ao lixo.
- Então posso eu deitá-lo ao lixo?
- Não, senhora. É preciso devolver o equipamento e levar um recibo. Pegue uma senha e aguarde.
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
Coração em festa
Chego a Bragança no domingo, 14. Portugal está em festa. Há portugueses aos montes. Explico-me: como se sabe, há mais portugueses no exterior que em Portugal. E quase todos vêm, em agosto, passar férias com os que aqui ficaram. Restaurantes lotados de portugueses, em geral a falar francês.
O sol exagera.
O calor nos envolve.
A paisagem do Parque Natural de Montesinho combina com Rumor, o novo livro de poemas de José Carlos Barros que encontrei na caixa de correio, ao chegar.
Tomei um porre. Pudera. Merecido.
Hoje, 15, dia da assunção da Virgem, quem sobe aos céus sou eu.
Nada virgem. Totalmente vivo.
sábado, 13 de agosto de 2011
Brasil: ame-o e deixe-o
O Brasil, do modo como eu o vejo, resume-se assim: o Artigo 252, inciso I, do Código de Trânsito Brasileiro (CTB) estabelece:
Art. 252. Dirigir o veículo:
I - com o braço do lado de fora;
[...]
Infração - média;
Penalidade - multa.
Dia desses eu dirigia na Av. João Dias, São Paulo, capital. A meu lado ia um professor de auto-escola (em Portugal, escola de condução).
Vejam a forma como conduzia o professor.
Desse Brasil, despeço-me, despacho-me.
Adeus.
sexta-feira, 29 de julho de 2011
(D)evolução
Há ritos a cumprir quando se chega à reforma.
Há que se devolver a carteira funcional, o notebook, o crachá.
Pode-se ver tudo isso como rito de passagem.
Da obrigação ao prazer.
Do labor ao ócio.
É possível que tudo isso não seja devolução, mas avanço.
Que venha o futuro.
quarta-feira, 27 de julho de 2011
Reforma
Em Portugal e no Brasil os termos são muitos para denotar essa sensação de final de pagamento de longa dívida, de ter concluído o dever-de-casa: aposentação, aposentamento, aposentadoria, reforma.
Prefiro o último, não só por ser o que mais se usa em Portugal mas por trazer embutida nele a ideia de refazimento, de reconstrução.
O dia de hoje, em São Paulo, aparenta ser dia de outono. Em maio é que São Paulo costuma apresentar seus mais lindos dias: céu com poucas nuvens, muito sol, temperatura amena. Este ano esses ares outonais migraram para julho. E se tornaram cenário perfeito para o início de minha reforma.
Mãos à obra.
P.S.: O Diário Oficial da União publica, hoje, a portaria de concessão de minha reforma. Justamente no dia em que minha irmã caçula completa mais um ano de vida.
Pé quente, essa minha mana.
quinta-feira, 21 de julho de 2011
Conde de Sarzedas - 2
Os três: Fusco, Brandão e eu, estávamos sempre entre os melhores alunos do Di Tullio. Quando foi se aproximando o final do ano, o Fusco – que se apaixonara infinitamente por uma colega de curso colegial – levou o fora da dita cuja.
Passou a chorar em tempo integral.
O pior de tudo era a incongruência da situação. O Fusco era um camarada enorme, cara de mau, integrante da seleção paulista de judô. Com todo esse physique du role, ele se sentava para assistir às aulas, abria o caderno sobre a carteira e o deixava molhado pelas lágrimas que não paravam de cair sobre as páginas em branco. Páginas e cérebro em branco, diga-se. Não conseguia prestar a mínima atenção a aula alguma.
Resultado: Brandão e eu passámos no vestibular da Poli. O Fusco não.
Ano seguinte criou-se a rotina: aos sábados, dia de provinha no Di Tullio, lá íamos nós, Brandão e eu, esperar o Fusco sair do cursinho para consolá-lo e... ir comer croquetes de carne no alemão da rua Teodoro Sampaio.
Nunca mais na vida comi ou comerei croquetes iguais àqueles.
E o velho alemão nos servia, para acompanhar os croquetes, uma cerveja preta que lembrava os gênios de lâmpadas maravilhosas: a garrafa era sempre trazida à mesa com cuidado para que não fosse muito agitada. Ao abri-la, o velho apressava-se em encher nossos três copos. A pressão da cerveja era tanta que dificilmente nada se perdia sobre a mesa.
Cheguei a voltar nesse restaurante alemão alguns anos depois. O velho morrera, o restaurante era tocado pelos filhos. Os croquetes ainda eram bons, a cerveja ainda teimava em derramar-se pela mesa.
Eu é que – certamente – já não era o mesmo.
quarta-feira, 20 de julho de 2011
Conde de Sarzedas - 1
Para todos, título nobiliárquico. Para mim, rua próxima à Praça João Mendes, São Paulo, na qual reinava o Curso Di Tullio, no qual me preparei para entrar na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo.
Foi lá que conheci Vitorino, filho de cantora de ópera. Vez em quando cabulávamos alguma aula e íamos ouvir ópera em alguma loja de discos. Feliz ou infelizmente, ele não conseguiu elevar-me ao nível operístico.
No dia em que Di Tullio, irritado por Vitorino estar sussurrando a um aluno chamado à lousa a resposta a uma pergunta qualquer, jogou o caderno de Vitorino pela janela da sala de aula, percebi a profunda relação de afeto que havia entre os dois. Vitorino levantou-se calmamente e foi buscar seu caderno no meio da rua. Ao voltar, sentou-se e continuou a tomar notas da aula. Nossa sala, diga-se, ficava no segundo andar do prédio.
Como já contei
Se no primeiro ano convivi com Vitorino e com Imre Simon, uma das pessoas mais inteligentes que já conheci, no segundo estabeleci – junto com dois outros alunos do curso – um trio de amizade que perdurou por algumas décadas.
Éramos o Fusco, o Brandão e eu.
Francisco Brasiliense Fusco Júnior já morreu. A amizade com Brandão tornou-se fraternidade, mantida até hoje e para sempre.
Disputávamos palmo a palmo os primeiros lugares nas provinhas de sábado.
No dia a dia, gostávamos de aproveitar os intervalos entre aulas para irmos até a pastelaria dos chineses e pedir três pastéis e três Crushs (refrigerante sabor laranja). O chinês gritava para a cozinha:
- Tlês pastéis e tlês Clushs!
Isso valia como contrapartida da gordura que comeríamos.
(continua)
terça-feira, 19 de julho de 2011
Ainda mais comemoração
Hirondino da Paixão Fernandes vive, atualmente, em Bragança, Portugal. Antes, vivia em Coimbra.
É considerado «o estudioso e erudito que mais tem contribuído, no nosso tempo, para a salvaguarda da memória escrita desta terra [Bragança], oferecendo-lhe o seu labor incansável de investigador, continuando na senda da pesquisa histórica, a tradição dos grandes vultos da nossa referência cultural».
Tenho a alegria de ser seu primo, ainda que não o conheça pessoalmente. Na verdade, ele é primo de meu pai. Portanto primo meu, em segundo grau.
Hirondino completou, em 07 de junho deste ano, 80 anos.
Parabéns!
quarta-feira, 13 de julho de 2011
Critérios
O jogador de futebol entra no restaurante sofisticado.
Ao fazer o pedido, o garçom lhe sugere:
- Temos um vinho espanhol muito bom. Reserva!
- Tá bom. Mas traz aí o titular.
terça-feira, 12 de julho de 2011
Mais comemoração
Quinta-feira próxima o professor Hélio Guerra completa 81 anos.
Helinho, como nós, seus alunos, o chamávamos (apenas entre nós, claro), era diretor (penso que o cargo era esse) do Departamento de Engenharia Elétrica da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) na época em que eu terminava meu sofrido curso de engenharia eletrônica.
Corria o ano de 1.967.
Nas férias do meio de ano eu já estava convencido de nada ter a ver com engenharia e começara a estudar para o vestibular de Filosofia na mesma Universidade (USP).
Pensei seriamente em abandonar o curso. Colegas mais sensatos (naquela época, não era nada difícil ser mais sensato do que eu.) (Eu disse naquela época?!) me lembraram de que não fazia sentido abandonar quatro anos e meio de esforços quando faltava apenas um semestre para obter o diploma de engenheiro.
Continuei o curso, tendo de – para isso – fazer um esforço enorme.
Ao final, passados todos os exames, restou um exame oral de Televisão, no qual eu precisava tirar 2 ou 2,5 (num total de 10), não me lembro exatamente.
Percebi que não me restavam forças para estudar para esse exame.
Lá por agosto ou setembro, na Poli-USP, costumava-se dar pindura nos professores. Tudo muito civilizado, combinado previamente com eles. Pequenos grupos (5 ou 6) de alunos elegiam um professor e se ofereciam para um jantar na casa do dito cujo.
Alguns colegas e eu escolhemos o Helinho.
Tudo combinado, fomos recebidos – nós e as namoradas – de modo soberbo por ele e esposa, em uma aconchegante casa no Morumbi, São Paulo.
Essa experiência nos aproximou um tantinho do mestre.
Quando me debatia com minha incapacidade de enfrentar aquele exame oral de TV lembrei-me do professor Hélio Guerra. Quem aplicaria o exame era o professor Barradas. Mas Helinho era o chefe. Liguei para ele e solicitei um papo. Convidou-me a visitá-lo. Lá fui eu.
Já instalado em confortável sofá na sala de estar da residência do mestre, expliquei a ele minha situação e propus:
- Professor, preciso de 2( ou 2,5) no exame de TV para terminar meu curso. Minha proposta é: vocês me dão essa nota e eu prometo – solenemente – jamais exercer a profissão de engenheiro eletrônico. Quero apenas um diploma de curso superior.
Hélio Guerra sorriu e sapecou-me uma inevitável lição de moral. Algo na linha:
- Um homem tem de enfrentar os desafios que a vida coloca em seu caminho.
Não consigo reproduzir tudo que ele me disse. Até para não ser injusto com ele.
Apenas me recordo que foi uma repreensão suave mas firme.
Felizmente, a vida me presenteou com amigos incríveis. Sílvio Ursic foi um deles.
Sílvio já havia terminado o curso, com folga. Ofereceu-se para me ensinar as matérias do curso de TV.
Na véspera do exame oral, varámos a madrugada – ele e eu. Ele a ensinar, eu a aprender. Ou melhor, a registar tudo em arquivos temporários que seriam deletados logo obtivesse a nota almejada.
Prova feita, 8,5.
No ano seguinte, em meu aniversário (fevereiro), tocaram a campainha de meu apartamento do Edifício Canadá, rua Maria Antonia, São Paulo. Olhei pelo olho mágico e vi uma imagem colorida.
Ao abrir a porta me deparei com Sílvio Ursic a segurar com os dois braços uma enorme bola de plástico colorido. Era meu presente de aniversário.
Quanto ao professor Antonio Hélio Guerra Vieira, que depois foi até reitor da USP, meus parabéns pelo aniversário, meus votos de longa vida ( o Brasil não pode dar-se ao luxo de perder pessoas da estirpe dele) e a informação:
- Caro professor: apesar de não ter sido brindado com a outorga de uma nota imerecida no exame de TV, continuei firme em minha promessa: jamais me aventurei a exercer a profissão de engenheiro eletrônico.
domingo, 10 de julho de 2011
Comemoração
Enquanto no Brasil imprensa e povo em geral festejam seus ronaldinhos, seus lulas, vou ao Rio hoje comemorar o aniversário de Maurício Matos Peixoto.
Um dos maiores matemáticos que esse país já teve, engenheiro, presidente da Academia Brasileira de Ciências por dez anos, Maurício completou noventa anos em 15 de abril passado em plena atividade mundo afora. A comemoração ficou para hoje por ser a época em que seus filhos e netos têm oportunidade de vir ao Brasil.
Taí um belo motivo de alegria pra compensar minha tristeza por não ter podido, ainda, partir de vez para Portugal.
Parabéns, Maurício!
sábado, 9 de julho de 2011
Despedida
Despeço-me, aos poucos, deste país complexo. Grande em território, pequeno em qualidade humana.
A política atingiu, nos últimos tempos, o nível inimaginável da desfaçatez total. A política, que traduz o povo numa democracia.
O povo tem em seus representantes sua imagem e semelhança. O Congresso Nacional é o espelho da nação. E é o que é.
A educação chegou ao nível zero.
É o salve-se quem puder.
Torço para que alguma coisa mude para melhor, pois deixo aqui parentes queridos: filhos, irmãs, netos, sobrinhos, tios, primos.
E poucos, mas excelentes, amigos.
Mas não vejo luz em final de túnel algum.
sexta-feira, 1 de julho de 2011
Perfil
Nos moldes da tradição oriental, dedicou-se sem limites ao marido. Deu-lhe tudo, até o sustento, quando ele já não mostrava disposição para obtê-lo.
Foi mulher, mãe, mantenedora.
Do lar só lhe cabia esperar encargos.
Restou-lhe o prazer do trabalho.
A submissão caseira tornou-se em mandonismo na empresa.
Recusava objeções, retaliava os discordantes.
Como resultado de seus esforços profissionais, atingiu o mais alto grau da hierarquia.
Morreu a lavar – em um sábado, ao cair da tarde – uma cueca do marido.
Subscrever:
Mensagens (Atom)








