terça-feira, 12 de julho de 2011

Mais comemoração


Quinta-feira próxima o professor Hélio Guerra completa 81 anos.
Helinho, como nós, seus alunos, o chamávamos (apenas entre nós, claro), era diretor (penso que o cargo era esse) do Departamento de Engenharia Elétrica da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) na época em que eu terminava meu sofrido curso de engenharia eletrônica.
Corria o ano de 1.967.
Nas férias do meio de ano eu já estava convencido de nada ter a ver com engenharia e começara a estudar para o vestibular de Filosofia na mesma Universidade (USP).
Pensei seriamente em abandonar o curso. Colegas mais sensatos (naquela época, não era nada difícil ser mais sensato do que eu.) (Eu disse naquela época?!) me lembraram de que não fazia sentido abandonar quatro anos e meio de esforços quando faltava apenas um semestre para obter o diploma de engenheiro.
Continuei o curso, tendo de – para isso – fazer um esforço enorme.
Ao final, passados todos os exames, restou um exame oral de Televisão, no qual eu precisava tirar 2 ou 2,5 (num total de 10), não me lembro exatamente.
Percebi que não me restavam forças para estudar para esse exame.

Lá por agosto ou setembro, na Poli-USP, costumava-se dar pindura nos professores. Tudo muito civilizado, combinado previamente com eles. Pequenos grupos (5 ou 6) de alunos elegiam um professor e se ofereciam para um jantar na casa do dito cujo.
Alguns colegas e eu escolhemos o Helinho.
Tudo combinado, fomos recebidos – nós e as namoradas – de modo soberbo por ele e esposa, em uma aconchegante casa no Morumbi, São Paulo.
Essa experiência nos aproximou um tantinho do mestre.

Quando me debatia com minha incapacidade de enfrentar aquele exame oral de TV lembrei-me do professor Hélio Guerra. Quem aplicaria o exame era o professor Barradas. Mas Helinho era o chefe. Liguei para ele e solicitei um papo. Convidou-me a visitá-lo. Lá fui eu.

Já instalado em confortável sofá na sala de estar da residência do mestre, expliquei a ele minha situação e propus:

- Professor, preciso de 2( ou 2,5) no exame de TV para terminar meu curso. Minha proposta é: vocês me dão essa nota e eu prometo – solenemente – jamais exercer a profissão de engenheiro eletrônico. Quero apenas um diploma de curso superior.

Hélio Guerra sorriu e sapecou-me uma inevitável lição de moral. Algo na linha:
- Um homem tem de enfrentar os desafios que a vida coloca em seu caminho.

Não consigo reproduzir tudo que ele me disse. Até para não ser injusto com ele.
Apenas me recordo que foi uma repreensão suave mas firme.

Felizmente, a vida me presenteou com amigos incríveis. Sílvio Ursic foi um deles.
Sílvio já havia terminado o curso, com folga. Ofereceu-se para me ensinar as matérias do curso de TV.
Na véspera do exame oral, varámos a madrugada – ele e eu. Ele a ensinar, eu a aprender. Ou melhor, a registar tudo em arquivos temporários que seriam deletados logo obtivesse a nota almejada.

Prova feita, 8,5.

No ano seguinte, em meu aniversário (fevereiro), tocaram a campainha de meu apartamento do Edifício Canadá, rua Maria Antonia, São Paulo. Olhei pelo olho mágico e vi uma imagem colorida.
Ao abrir a porta me deparei com Sílvio Ursic a segurar com os dois braços uma enorme bola de plástico colorido. Era meu presente de aniversário.

Quanto ao professor Antonio Hélio Guerra Vieira, que depois foi até reitor da USP, meus parabéns pelo aniversário, meus votos de longa vida ( o Brasil não pode dar-se ao luxo de perder pessoas da estirpe dele) e a informação:
- Caro professor: apesar de não ter sido brindado com a outorga de uma nota imerecida no exame de TV, continuei firme em minha promessa: jamais me aventurei a exercer a profissão de engenheiro eletrônico.

Clique para ler sobre ele

domingo, 10 de julho de 2011

Comemoração


Enquanto no Brasil imprensa e povo em geral festejam seus ronaldinhos, seus lulas, vou ao Rio hoje comemorar o aniversário de Maurício Matos Peixoto.
Um dos maiores matemáticos que esse país já teve, engenheiro, presidente da Academia Brasileira de Ciências por dez anos, Maurício completou noventa anos em 15 de abril passado em plena atividade mundo afora. A comemoração ficou para hoje por ser a época em que seus filhos e netos têm oportunidade de vir ao Brasil.

Taí um belo motivo de alegria pra compensar minha tristeza por não ter podido, ainda, partir de vez para Portugal.

Clique para ler sobre Maurício, por ele mesmo


Parabéns, Maurício!

sábado, 9 de julho de 2011

Despedida


Despeço-me, aos poucos, deste país complexo. Grande em território, pequeno em qualidade humana.
A política atingiu, nos últimos tempos, o nível inimaginável da desfaçatez total. A política, que traduz o povo numa democracia.
O povo tem em seus representantes sua imagem e semelhança. O Congresso Nacional é o espelho da nação. E é o que é.
A educação chegou ao nível zero.
É o salve-se quem puder.

Torço para que alguma coisa mude para melhor, pois deixo aqui parentes queridos: filhos, irmãs, netos, sobrinhos, tios, primos.

E poucos, mas excelentes, amigos.

Mas não vejo luz em final de túnel algum.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Perfil


Nos moldes da tradição oriental, dedicou-se sem limites ao marido. Deu-lhe tudo, até o sustento, quando ele já não mostrava disposição para obtê-lo.
Foi mulher, mãe, mantenedora.
Do lar só lhe cabia esperar encargos.
Restou-lhe o prazer do trabalho.
A submissão caseira tornou-se em mandonismo na empresa.
Recusava objeções, retaliava os discordantes.
Como resultado de seus esforços profissionais, atingiu o mais alto grau da hierarquia.
Morreu a lavar – em um sábado, ao cair da tarde – uma cueca do marido.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Ventiladores


No Brasil, quando se quer dizer que alguém, em hospital, está a receber ajuda de equipamentos para respirar, diz-se que respira por aparelhos.
Descobri agora, com o episódio da morte do cantor e ator Angélico, que em Portugal diz-se que o indivíduo está ligado ao ventilador.
Para alguém criado no Brasil, estar ligado ao ventilador só evoca a cena de alguém amarrado a um ventilador, daqueles de pé ou daqueles de mesa.

Como se vê, o cão está ligadão no ventilador

domingo, 26 de junho de 2011

50 anos sem pai


Há exatos 50 anos morria meu pai. Sem mais nem menos.
Deixou-me, de início, uma sensação de liberdade, de alívio.
Por ser pai de muitas ordens, ao partir propiciou-me a desordem.
Aos poucos sua morte trouxe-me dúvidas: como teriam sido nossas relações futuras? Poderíamos ser amigos? Ou romperíamos relações logo, logo?
Veio depois a certeza da inutilidade de tais questões. A morte interrompe a vida e arrebata expectativas.
Hoje, quando ele me parece quase um garoto, comparadas nossas idades, a minha de hoje, a dele de quando se foi, avalio suas fraquezas e suas forças.
E sorrio por suas ingenuidades. E me orgulho de sua grandeza.

Nada me resta, além da memória e da imaginação, que me reponha em seus braços.

Pergunta


Se o tabaco, o álcool e a religião já estão liberados, por que não liberar as demais drogas (aliás,na prática, já liberadas)?

sexta-feira, 24 de junho de 2011

O totalitarismo da dor


A dor, dor de dente, dor de amor traído, dor pra valer, quando se instala, não cede espaço a mais nada.
Absoluta, domina o sofredor por inteiro.
Pra sempre, ao menos naquele instante.

As artimanhas da covardia


Ficou famoso na família de minha mãe o episódio em que um tio qualquer, casado com Dona Mariquinha, em debate com desafeto, gritava:
- Me segura, Mariquinha, me segura! Senão eu mato esse cara!
E se deixava apoiar na dita cuja, tal qual um atacante, no futebol, se derrama sobre o zagueiro pra cavar uma falta.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Brasil: um país invertido


Já começa pelo mapa. Quase qualquer coisa, pra ter estabilidade e firmeza, precisa ter uma base ampla. O mapa do Brasil é de cabeça pra baixo. Largo em cima e estreito na base. Sem falar que o sonho da base - o Rio Grande do Sul - sempre foi o de se livrar do resto do país.

Mas, até aí, é tudo metafórico.

No duro, no duro, na real, a instituição brasileira mais confiável é a do jogo do bicho.
De resto, quanto mais nobre o setor, mais corrupto.
Outro dia contei aqui minha aventura no mundo da cardiologia. Minha cara blogueira Regina disse que não entendeu a história que contei.
Vou tentar ser mais claro e sucinto:
Cardiologistas de uma Clínica me recomendaram um exame para verificar o aumento do diâmetro de minha aorta.
Os especialistas (nem todos, felizmente) costumam dizer que se a dilatação chega a 50 mm é preciso operar.
As imagens do exame apontaram diâmetro máximo de 46,3 mm. Isso foi registado em uma das imagens com caracteres bem grandes.
O médico que preparou o Laudo baseado nas imagens escreveu que a dilatação atingira 50 mm.
Levei os resultados do exame ao cirurgião. Ele olhou o Laudo, examinou as imagens e afirmou que, como a dilatação alcançara o "número mágico de 50 mm" (expressão dele), era preciso operar. E operar o quanto antes.

Resumindo um pouquinho mais: o resultado do exame, contido nas imagens, foi falsificado no Laudo (ou por negligência ou por má-fé). O cirurgião, mesmo tendo visto as imagens, preferiu ficar com o número do Laudo, para faturar mais uma cirurgia ou por algum dogma da numerologia.

Para sorte minha, nem todos os médicos são criminosos. Ao consultar outro cardiologista tudo ficou esclarecido. Inclusivamente a desnecessidade da cirurgia. Cirurgia essa, diga-se, de altíssimo risco.

Vários amigos me perguntam por que não processo o hospital onde foi realizado o exame e o cirurgião que recomendou a cirurgia.

Simples: eles vão ganhar; eu vou perder. Estamos no país do avesso. Reparem que nem publico o nome do hospital nem o nome do cirurgião. Caso o fizesse, quase certamente seria processado por eles, com as conseqüências imagináveis. Mesmo tendo as provas da tramóia.

Consegui esclarecer?

segunda-feira, 20 de junho de 2011

René e Erich Fromm


No final do curso primário, lá pelo longínquo ano de 1.954, meus colegas de Colégio Marçal, Santos, São Paulo, combinámos de aproveitar o último dia de aulas para fazer um torneio de futebol de botão na casa de um dos alunos, o René.
Terminado o curso, lá fomos nós para a casa do René, mais precisamente para a garagem da casa do René. No chão da garagem é que funcionava o campo de futebol de botão.
Enquanto acompanhava as primeiras partidas, fui notando que uma vontade de fazer xixi aumentava paulatinamente. Como era uma criança bastante tímida, fiquei na minha. Claro que, a certa altura, mijei nas calças.
Foi um pega pra capar. Ligaram pra minha casa, a Júlia, que era meio empregada meio membro da família, foi até a casa do René pra levar roupas secas pra mim.
O vexame foi minha despedida da turma do primário.

Alguns poucos anos depois, no curso ginasial, Colégio Canadá, o mesmo René protagonizou cena hilária – pra todos, menos pra ele – em um exame final de francês. O professor Sólon era o terror do Canadá.
René colava durante o exame, o professor Sólon percebeu, foi até a carteira dele e recolheu a prova.
Voltou à mesa de professor e sapecou um sonoro Zero na prova. René procurou explicar:
- Professor, eu estava estudando!
- Esse não era mais o momento de estudar, respondeu Sólon didaticamente.

Anos mais tarde, mais exatamente 1.968, eu era um engenheiro recém formado, aluno do curso de filosofia da USP.
Morava na lendária Rua Maria Antônia. Mais precisamente no quarto andar do Edifício Canadá. Mera coincidência.
Num dia qualquer, encontro na rua o René.
Atualizámos nossas informações e o convidei a subir a meu apartamento para continuarmos a conversa.
Já lá dentro de meu reduto, René encantou-se com minha biblioteca. Em particular, gostou dos livros de Erich Fromm, que estavam na moda.
Deixei que levasse, por empréstimo, uns dois ou três dos livros do dito cujo.

Nunca mais vi o René.

Hoje me parece que fiz uma troca: dois ou três livrinhos de Erich Fromm por uma mijada na garagem da casa dele.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Koldeway Feitosa Chaves


Ele nasceu na Bahia mas foi registado em Santos, São Paulo, Brasil, em 02 de dezembro de 1.939.
Muito cedo na vida, ele e minha irmã se reconheceram como partes indissolúveis de uma unidade.
Não houve nada que conseguisse separá-los.
Casaram, tiveram dois filhos, três netas e iam completar 50 anos de vida em comum agora, no dia 4 de julho próximo.
A vida não quis assim.
Sábado ele se foi.
Enquanto viver, guardarei a lembrança de sua bondade.
Ele foi - sem dúvida - a pessoa mais generosa que conheci.
Como era dono de um nome invulgar, do qual tinha enorme orgulho, tive de ensinar a meus filhos um apelido que ele adquirira na infância: Cócó. Mais tarde, aprendi que, em Portugal, essa alcunha não soa bem. Mas era tarde: meus filhos e netos o conhecem como o tio Cócó.
Ele que, de família nordestina, começou como Cóldévai (oxítona), transformou-se mais adiante em Côlduêi (proparoxítona). Para minha irmã era o Codinho.

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Vamos todos sentir muita saudade de ti, meu irmão.

sábado, 11 de junho de 2011

Partir não é fácil


Bastava ser concedida minha aposentadoria e pronto.
Lá iria eu para Bragança de uma vez por todas.

Trabalhei durante os últimos cinqüenta anos. Para aposentar-me do serviço público me bastaria comprovar 35 anos de contribuição à Previdência. Mas era preciso que desses 35 anos, ao menos 20 fossem dedicados ao serviço público.
Parecia fácil.
Para os 15 anos de trabalho em empresas privadas sobravam-me comprovantes.
Os 20 anos de serviço público inteiravam-se em 12 de abril deste ano.
Nesse mesmo dia entrei com meu pedido de aposentadoria.
Jogaram os meus dados em um sistema (ou seja, um programa de computador) e receberam a informação de que ainda me faltavam alguns meses. Tudo graças a um período de 3 meses de serviço público que o tal sistema não considerou como tal.

O curioso é que todos concordam que o tal período de exatos 88 dias deveria ser computado como de serviço público.

Diagnóstico: o sistema está errado.

Até aí, nada demais. Trabalhei muitos anos com sistemas computacionais e sei bem que todos eles – por mais testados que sejam – apresentam erros.

O nó está em que nenhum burocrata pode contrariar o sistema. Daí que tudo leva a crer que o sistema terá de ser corrigido para que esses fatídicos 3 meses possam ser contados a meu favor. Até lá, já não precisarei deles...

Quem já assistiu ao filme Ardil 22 sabe do que se trata.

Agravante: dos 20 anos de serviço público, 2 e meio são do período em que trabalhei na USP (Universidade de São Paulo). Ocorre que lá trabalhei durante 4 anos. Esse 1 ano e meio que deixou de ser computado eu precisei solicitar à bendita Comissão de Anistia lá de Brasília. Entrei com pedido de reconhecimento desse tempo no remoto ano de 2.006.
Atualmente o processo já está no Setor de Julgamento, depois de feitas todas as análises julgadas necessárias pela Comissão. O tal Setor de Julgamento mantém meu processo em alguma gaveta desde o ano passado.

Tudo indica que só conseguirei minha aposentadoria lá pra 9 de julho. Isso se até lá alguma dor de barriga não provocar o afastamento do burocrata responsável por meu processo.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Médicos S.A.


Vou detalhar o caso de minha aorta sob o risco de ser impertinente. Penso que minha experiência pode ser útil a meus leitores.
Em 1.989 tomei ciência de que tinha uma dilatação na aorta. Isso ao tirar um raio X do tórax em função de uma pneumonia. Desde então passei a tratar minha hipertensão com mais cuidado. Até aquela data ia às vezes a um médico, por qualquer outro motivo, ele me informava de que minha pressão arterial estava um tanto alta e me receitava um remédio. Eu, do alto de meus trinta e tantos anos de (irresponsabil)idade, comprava uma caixa do dito remédio, tomava até o fim e pronto. Esquecia do assunto.
O problema em relação a coisas como hipertensão, dilatação de aorta, diabetes etc etc, é que são, quase sempre, assintomáticas. Dilatações da aorta, por exemplo, são normalmente descobertas por acaso.
Vai daí que, prestes a mudar para Portugal, resolvi verificar como estava o diâmetro da minha artéria preferida.
O cardiologista me recomendou uma angiotomografia e um ecocardiograma com stress farmacológico.
A angiotomografia, que te presenteia com irradiação equivalente a 500 chapas de raio X, é um procedimento simples: te enfiam naquele tubo e te esquadrinham o interior antes de te injetar o contraste. O tal contraste – dobutamina – é injetado na veia e dá um calorzinho durante alguns segundos. Pra mim, quase imperceptível. Voltam a te enterrar naquele tubo e fotografar todo o teu interior novamente. No total, o ritual dura uns 10 minutos.
O eco com stress farmacológico é um tanto desagradável. Vão te aplicando uma substância na veia para provocar aceleração das batidas do coração. Como uma simulação de corrida em esteira/passadeira. Só que você está deitado...
Resumo: se o diâmetro da aorta for superior a 39 mm você é o feliz possuidor de uma dilatação na aorta. Se a dilatação chega aos 50 mm você é informado de que chegou ao limite, ao número mágico. Chegou a hora da cirurgia.
Ora, há uns 7 anos fiz um ecocardiograma comum, que dá uma medida aproximada do tal diâmetro. Deu 42 ou 43 mm.
A angiotomografia é bastante mais precisa.
Ao sair da angiotomografia, antes de ir para o eco com stress, os médicos responsáveis pelos dois exames conversam pra saber se é possível fazer o eco. Logo ao final da angiotomografia, as imagens ainda não trabalhadas em computador, só é possível ter um resultado aproximado. Foi dito a mim que a dilatação da aorta estava em 48 mm. Mas que ficasse tranqüilo e aguardasse o resultado final do exame, alguns dias depois.
Quando fui buscar o resultado dos exames, claro que não olhei as imagens. Não entendo nada do assunto e olhar as imagens me pareceu inútil. Li o Laudo preparado a partir das imagens. Está registrado lá: dilatação de 50 mm.
Levei os exames ao cirurgião. Fui informado de que chegara a hora da cirurgia. Mais: se a dilatação da minha aorta fosse na parte descendente da dita cuja, a cirurgia seria aquela menos invasiva, com stent. Metem um stent pela virilha do pobre diabo. Com emprego de algum engenho e arte fazem o tal stent encaixar-se no lugar abaulado. O stent passará a ser, digamos assim, a nova parede da aorta naquela região.
No meu caso, dilatação da aorta ascendente, infelizmente – meu senhor – é preciso apelar para a ignorância. Ou seja: rasgam o peito do cidadão de alto a baixo, serram o osso (esterno), fazem um desvio do sangue por fora do coração que fica parado e geladinho durante uma hora, tempo suficiente pro açougueiro, ou melhor, o cirurgião cortar o pedaço dilatado da aorta e costurar um tubo no lugar do trecho estragado. A cereja do bolo é que há uma boa chance de ser preciso trocar também a valva aórtica. Se necessário, ela será trocada por uma válvula metálica ou por outra, dita biológica.
Tudo isso é descrito pelo amável cirurgião de forma quase cativante.

O cenário acima descrito me parece extremamente anti-intuitivo: o indivíduo não sente nada de anormal, não tem dor, não tem falta de ar, não tem dormência nos braços, nada, nadica de nada. Nesse clima de absoluta normalidade recebe a notícia de que tem de ser aberto, serrado etc etc.

Uma dúvida começou a insinuar-se em mim: quando, antes do ecocardiograma com stress, o médico responsável pela angiotomografia informou ao colega que a dilatação era de uns 48 mm, ele deve ter dado esse número jogando a favor da segurança. Portanto, feita depois a medição exata, o esperado seria que surgisse um número menor do que 48 mm. O Laudo final, contudo, cravou 50 mm.

Minha formação de engenheiro, apesar de já perdida na névoa do passado, desconfiou não só desse aumento como do número redondo e fatídico: 50.

Aconselhado por um amigo de bom currículo na área (dois infartos, três stents instalados), fui consultar um outro cardiologista.

Depois de exatos 80 minutos de consulta, ele não só garantiu que meu caso não é de cirurgia, como – depois de analisar com atenção as imagens – afirmou: o que consta aí é uma dilatação de 46,3 mm.

Ao chegar em casa, depois da devida comemoração com a Baixinha, fui examinar as imagens. Lá está, em uma das lâminas (aliás, duplicada, não sei a razão), um segmento de reta a marcar o maior diâmetro da aorta e, em caracteres bem grandes: 46,3 mm.

Vamos às conclusões:
1. Entendo natural – ou seja, não necessariamente de má-fé – que um cirurgião torácico tenha uma propensão a recomendar cirurgia. Afinal, ele confia nos métodos de que se utiliza.
2. Não consigo é compreender como é que ele analisa as imagens e não enxerga que o que lá consta é 46,3 mm.
3. Não consigo igualmente entender por qual motivo o médico que produziu o Laudo relativo à angiotomografia viu lá 46,3 mm e escreveu no Laudo: 50 mm.

Minha intenção com o relato um tanto prolixo que fiz não é a de culpar ninguém por nada. Afinal, no Brasil isso não adiantaria mesmo. Isto aqui deixou de ser país decente há muito tempo. Se é que o foi alguma vez.

Deixo apenas minha experiência como alerta.

sábado, 14 de maio de 2011

Problema adiado,
problema resolvido


Pronto.
O dr. José, cirurgião cardiovascular, concordou com minha ideia de acompanhar por algum tempo a evolução do expansionismo da minha aorta. Só não aceitou minha sugestão de aguardar um ano. Disse que não aconselhava que eu deixasse de fazer a cirurgia ainda neste ano.
Fechámos negócio: a operação fica para janeiro de 2.012, caso – claro – haja 2.012.
A aorta, pensando bem, devia chamar-se USA, como o país, aquele. Não só é, de longe, a mais importante artéria do planeta Corpo Humano. Tem também uma tendência inata a uma atitude imperialista. Gosta de expandir-se e ocupar espaços que não deveriam ser seus. Até eu já sei que aneurismas não diminuem. Na melhor das hipóteses não aumentam.
Logo que sair minha aposentadoria (deve sair ainda este mês) levo minha aorta espaçosa para passear em Bragança. Junto com a Baixinha e a Doga.
Lá, vou passear minha ociosidade pelos caminhos do Parque Natural de Montesinhos no qual a palavra recessão – que invadiu Portugal nos últimos tempos – não é conhecida.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Medicina - a falência de dogmas


Faz pouco tempo a imprensa noticiou que havia sido constatado que ovo não aumenta o colesterol (ou, como diz o povo em Passos de Lomba: o costrol). Nunca tive problema com colesterol e adoro ovo. Fiquei a imaginar a cara daqueles médicos que passaram anos a enfatizar o mal que o ovo representava para o aumento do colesterol. Tudo cultura do ouvir dizer. Como a nossa, os leigos.

Hoje a Folha de S.Paulo informa:

Consumir mais sal não aumenta a pressão, diz estudo

DA REUTERS - Pessoas que consomem muito sal não têm mais risco de desenvolver hipertensão e morrer do coração do que as que comem poucas quantidades do alimento, segundo um estudo feito pela Universidade de Leuven (Bélgica).
A pesquisa, com 3.700 europeus, contraria as atuais recomendações de limitar o consumo de sal para prevenir essas doenças. Elas se baseiam em trabalhos anteriores, que indicam o benefício cardiovascular de uma dieta com pouco sal. Porém, o autor do novo estudo, Jan Staessen, diz que a recomendação é baseada em pesquisas de curta duração, enquanto a sua acompanhou as pessoas por oito anos.


É verdade que essa pesquisa aí do belga pode muito bem estar errada, também.
Afinal, ninguém sabe muito.
Mas os doutores pontificam.

sábado, 30 de abril de 2011

Dia nada monótono


Justo no dia em que mais de 2 mil milhões de seres humanos se entretinham com o casamento de um príncipe inglês, dia em que Delúbio Soares (o tesoureiro do mensalão) voltava triunfalmente ao PT (Partido dos Trabalhadores [risos]), dia em que alguns milhões de brasileiros quebravam a cabeça para declarar seu Imposto de Renda, dia em que os Estados Unidos choravam por mais de três centenas de mortos no Alabama vítimas de tornados, dia em que mais de 60 pessoas morriam na Síria vítimas da repressão aos movimentos populares contra a ditadura, dia em que Lisboa sofria por inundações devidas a chuva de granizo, eu me preocupava com... minha aorta.
Levei meus exames ao clínico. A dilatação da aorta ascendente já chegou aos fatídicos 50 mm que recomendam cirurgia. Candidamente, o clínico me informou que aquela história de cirurgia pouco invasiva, com stent, provavelmente está descartada. Quase que certo que vai ter de ser na base de abrir tudo, serrar as costelas e resolver na porrada, ou seja, na ignorância.
Sutilezas descartadas, encaminhou-me a uma especialista em aneurisma da aorta e stent.
Acho isso curioso, ainda que não de todo mau: o clínico te manda fazer alguns exames; analisados os exames te encaminha para uma analista que vai recomendar a oportunidade ou não de cirurgia, o tipo de cirurgia etc etc.
Mas – surpresa! – a especialista determina o tipo de intervenção. Mas não a realiza. Encaminha o pobre coitado a um cirurgião. Este vai carregar o piano, ou seja, vai fazer a cirurgia. Sempre de acordo com as recomendações da especialista em aneurisma de aorta.
Haja especialização!
Depois dessas notícias não tão maravilhosas assim, fomos – a Baixinha e eu – descontrair um pouco no Bendito Bar, não sem antes dar os parabéns á filha australiana, que completa hoje 33 aninhos. Eu disse hoje? Sei lá. Quando conseguimos falar com ela pelo Skype, lá já era 30 de abril. Penso que o aniversário dela deve ser comemorado pelo horário de Brasília. Afinal, foi aqui que ela nasceu.
Vou resolver essa dúvida depois de consertar minha aorta.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Combate às drogas


O que você acha pior:

Collor ou Logan

FHC ou um baseado

Lula ou 51

Aécio ou uma carreira de pó

Dilma ou grana

Escolha.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Ditados impopulares


Os cães ladram e a caravana passa. Com todo esse barulho não consigo pegar no sono.

Depois da tempestade vem a bonança. Mas aí já está tudo destruído.

A fé remove montanhas. Mas é preciso solicitar antes licença ambiental.

domingo, 24 de abril de 2011

Semana Santíssima


Na terça, depois de sair de uma angiotomografia com contraste e de um ecocardiograma com stress farmacológico, fomos – a Baixinha e eu – jantar bife de tira no Rubaiyat.
Carne dos deuses.
Na quinta fomos ao La Marie. Salada de foie gras, maravilhosa, seguida de risoto de frutos do mar para a Baixinha e de suflê de camarão para mim. Pratos inesquecíveis, acompanhados de um Cartuxa.
Sexta, dita da paixão, entrecôte com fritas no Anquier, antecedido por salada deliciosa e acompanhado por vinho do Douro.
Hoje, sábado de aleluia, polpettone no Jardim de Napoli, regado a vinho do Alentejo.
Para amanhã, Páscoa, teremos de programar comida à altura das anteriores.
Decididamente, sou adepto da Igreja Estomacal do Reino de Deus.

sábado, 23 de abril de 2011

Não serei novo Moisés


Moisés levou o povo judeu através do deserto mas não entrou na Terra Prometida.
Às vésperas de mudar definitivamente para Bragança, Portugal, vejo-me às voltas com uma cirurgia de aorta. Justo eu, que nada tenho de vegetariano (concordo, o trocadilho é infame).
Mas tenho certeza: passo por essa e me mando pra Bragança.
Afinal, não sou judeu, não guio povo algum, persigo apenas minha própria felicidade.
Minhas irmãs oram por mim. Talvez oração não ajude, mas certamene não atrapalha.
E vamo qui vamo.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Imitando Millôr


Comportadornotebook que tem quem o carregue

Auto-falante – indivíduo que fala sozinho

Golta – problema nas articulações de centroavantes

iLustre – candelabro fabricado pela Apple

Tolomóvel – indivíduo que apesar de não ser inteligente se movimenta.

Méximo – o balido mais forte da cabra

Múnimo – o mugido mais fraco da vaca

Portugol – gol de Cristiano Ronaldo

Alfaçanha – lisboeta que realizou uma proeza

Grotosco – indivíduo ridículo e grosseiro

quarta-feira, 20 de abril de 2011

A mosca


A mosca é um animal muito mal avaliado pelos humanos. O que é virtude pra todo mundo, na mosca considera-se defeito: a persistência.
Poucos reparam que maldizer as moscas é negar a perfeição divina. Deus as criou tendo em mente alguma finalidade. Talvez a única falha do Criador, quanto à mosca, tenha sido a de não se aperceber da sua quase infinita capacidade de reprodução.
O gênio humano tem inventado formas cruéis de acabar com as pobres moscas, desde raquetes elétricas a papéis grudentos que as matam demorada e impiedosamente. Era de esperar-se que – nestes nossos tempos politicamente corretos – várias ONG já tivessem sido criadas para lutar contra essa forma de barbárie.
Reclamamos muitíssimo dos mosquitos, que nos perturbam o sono na escuridão da noite. Ninguém, contudo, lembra-se de elogiar as moscas por não voarem no escuro.
Mas ninguém jamais viu mosca a voar no escuro. Das duas uma: ou elas não voam em tais condições ou não as vemos justamente por estar escuro.
As moscas são, ao menos parcialmente, responsáveis por outra criação divina de rara beleza, pelo menos se esquecermos do porco: o rabo. Que seria da decantada graça do cavalo, não fora o rabo? Mesmo quanto ao porco, se o rabo não é propriamente belo ao menos é saboroso. O que poderia ser dito de outras espécies, acrescente-se. Não fossem as moscas, o rabo perderia muito de sua utilidade.
No livro de Gênesis, no qual é narrada a criação do mundo, nenhuma menção é feita à criação das moscas. Alguém lembrará que as aves foram criadas no quinto dia. Dirá, até, que o escritor do Gênesis fala em criação de “toda ave de asas conforme a sua espécie” talvez já a pensar nas moscas.
Data venia, permito discordar de tal interpretação. Primeiro, jamais ouvi alguém referir-se a moscas como aves.
Segundo, duvido que alguém dotado de um mínimo de senso crítico chamasse um lugar habitado por moscas de Paraíso, como ficou conhecido o jardim do Éden.
Terceiro: Deus não conseguiria descansar no sétimo dia a menos que apagasse as luzes do Universo.
Talvez as moscas tenham sido criadas em um duvidoso oitavo dia, sei lá.
De qualquer modo, se a mosca está mesmo incluída entre os seres criados no quinto dia, nenhuma ave levou tão a sério a ordem do Criador quanto ela: “E as aves se multipliquem na terra”.
Porque coelho – aí sim – não é ave.

domingo, 10 de abril de 2011

Uma decepção e outra nem tanto


Estava hoje sem a Baixinha. Ela foi ao Rio cumprimentar o filho por mais um ano de vida e conhecer a nova neta, a Isabel, que já começou sua carreira de Electra ao nascer no dia do aniversário do pai.
Resolvi almoçar no Gigetto. restaurante tradicional de São Paulo (fundado em 1.938 e no mesmo endereço da Rua Avanhandava desde 1.969). Há tempos não saboreava o estrogonofe de frango dele, preparado com carne escura.
Pois o dito cujo estrogonofe veio com carne de peito... Mesmo assim, bem saboroso. Pedi, para acompanhá-lo, um malbec argentino Familia Barberis, 2.008. Muito bom. O preço, como já é praxe nos restaurantes de São Paulo, uma exorbitância: R$ 82,00. Quando veio a conta ele aumentou para R$ 152,00. Reclamação feita, desculpas pedidas pelo garçom, paguei a conta e fui embora.
Não me cobraram nada por ter me sentado na mesa vizinha à da ex-prefeita Luiza Erundina, acompanhada de outra senhora. Ambas já com algum excesso de idade e de peso.
Mas Erundina ainda é dos poucos políticos brasileiros que merecem respeito.
Eu disse poucos? Pouquíssimos!

sábado, 2 de abril de 2011

Inacreditável


Já há muito não mais me surpreende o tratamento dispensado a Portugal pelos media brasileiros. Quase nada se noticia a respeito da terrinha. Quando se noticia algo, é coisa ruim. Da política ao futebol, o desprezo pelas coisas portuguesas é total.
Mesmo assim, quando assisti, na coluna de Claudio Humberto, a pequeno trecho da entrevista de Dilma a Miguel Souza Tavares, não pude acreditar que aquilo a que assistia pudesse ser verdadeiro. Certamente era resultado de alguma montagem. Fui, então, procurar em sítios portugueses o vídeo completo da entrevista. E lá estava a entrevista apresentada pela SIC (TV).
Não se trata de alguma piada sobre algum brasileiro comum, algum matuto do sertão ou coisa que o valha. Trata-se da - vá lá - presidenta do Brasil.
O ridículo começa aos 11:26 minutos. Dura pouco tempo. Quem quiser pode assistir à entrevista completa.
Meus deuses! A que ponto chegámos!
Melhor: a que ponto chegaram.
Quanto a mim, tô fora.



Se preferir, aí vai um vídeo com o trecho da piada de brasileiro (ops! brasileira)

segunda-feira, 21 de março de 2011

Está a chegar o dia


Falta pouco para que me vá a Bragança. De vez. Para sempre.
Esta semana que entra, minha caçula faz 32 aninhos. Vamos almoçar na quarta feira, na Casa da Fazenda, aqui no Morumbi, São Paulo.

Essa pequenina, já com seus 32 anos, ficará aqui em São Paulo,. O outro filho, com minha fantástica nora, irá morar em Toronto, Canadá, por uns dois anos.

Minha primogênita vive em Connecticut e trabalha em New York.

Eu, coçarei o saco em Bragança.

E, assim, segue a vida.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Fotos de Bragança


Neste período em que aguardo minha aposentadoria para ir definitivamente para Bragança não tenho tido disposição para escrever.
Ontem, ao apreciar fotos tiradas pelos familiares durante os dias em que lá estiveram para comemorar o Natal e a entrada do novo ano, selecionei algumas das fotos de autoria de minha nora para postar.
Comecemos pelo Castelo, símbolo maior de Bragança. A seqüência abaixo mostra o anoitecer no Castelo:

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Outro local importante, em Bragança, é a Praça Prof. Cavaleiro Ferreira.
Nela estão vários edifícios de órgãos públicos.
Como quase toda praça que se preza, ela tem seu chafariz:

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Nela está o Teatro Municipal:

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Próximo a ela fica o Shopping:

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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

A Austrália não existe


A Austrália foi vítima, esta semana, do maior ciclone tropical que já passou por seu território (cobertura 24 horas, aqui).

A edição de hoje da Folha de S.Paulo, jornal que cobra R$ 52,90 (23 euros) por mês pela assinatura, não traz uma palavra sobre o assunto. Nada.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

As eleições presidenciais em Portugal


Como tinha nossa volta a São Paulo marcada para dia 22 de janeiro, sabia que não poderia votar nas eleições presidenciais de 23, domingo.
Em função disso, acompanhei as notícias sobre os candidatos com certo desinteresse.
Quando, graças à Doga (ou melhor, graças à minha falha de memória), percebi que ficaria em Portugal no domingo, 23, percebi também que não sabia em quem votar. Sabia, quando muito, em quem não votar.
O presidente atual (e, agora se sabe, reeleito) não me agrada. Só o ouço a proferir obviedades com ar grave.
No Alegre não voto. Simplesmente por ser - ou dizer-se - socialista. Mesmo depois de meu neto de 3 anos ter achado que era eu que lá estava, em um outdoor do Alegre. Já esgotei minha paciência com as esquerdas. Portanto, fica excluído - mais ainda - o candidato do Partido Comunista. Aliás, é surrealista que ainda haja partido comunista em país democrático. E, salvo engano, em Portugal há dois!
Quanto ao Defensor, prestei relativa atenção a uma entrevista que ele concedeu à RTP. A única coisa que consegui saber dele é que tem caspa. Quem manda ir à TV de paletó preto?
Quanto ao Coelho, o Tiririca português, não acho graça em suas arengas. O Tiririca original, brasileiro, é incomparavelmente mais engraçado. E mesmo assim não votei nele.
Sobrou o Nobre. Quanto a esse, acabei por ficar sem saber de quem se trata. Por culpa minha, diga-se.
Daqui a 5 anos talvez eu esteja um pouco mais esclarecido a respeito da política portuguesa.
Talvez. Ou, como repetem constantemente os portugueses: se calhar...

domingo, 23 de janeiro de 2011

Pequeno detalhe


Anteontem, sexta, 21, alugámos um carro e partimos para o Porto. Claro que, antes disso, verificámos exaustivamente se estávamos a levar todo o necessário.
Deixámos Bragança com um céu impecavelmente azul, sol a brilhar e um frio danado, com muito vento. Vento gelado.
Nosso voo para o Brasil partia às 10:15 do sábado, 22. Por isso, preferimos ir ao Porto na véspera, caso contrário teríamos de sair muito cedo de Bragança no próprio dia do voo.
Ficámos hospedados no Hotel Castelo de Santa Catarina. Aceitam cães, desde que aceitemos ficar em quarto do jardim e não em quarto do castelo. O preço é bom: € 43 com pequeno-almoço incluído.
À noite, deixámos a Doga no quarto e fomos à pé jantar no Majestic. Fica na mesma rua Santa Catarina.
Jantar magnífico seguido de caminhada ladeira acima.
Tínhamos de acordar às 7 e pouco, o que - para nós - é bastante cedo.
Bem antes disso, exatamente às 4:08, acordei e me dei conta de que deixáramos toda a documentação da Doga guardadinha em Bragança.
Já devolvêramos o carro. Não havia forma de retornar a Bragança e voltar a tempo de embarcar.
Depois do pequeno-almoço fomos de táxi ao aeroporto, alterámos nossas reservas para o próximo voo - terço, 25, mesmo horário, alugámos outro carro e... de volta a Bragança.
O envelope com os documentos da Doga - agora - já está na mala.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Uma coisa ou outra


As festas de final de ano, em casa, foram movimentadas. Afinal, eram 16 pessoas com idades entre 0 e 65 anos.
Graças às atuais facilidades de captação e transmissão de imagens e - é preciso dizer - graças também à influência de minha nora de origem nipônica, foram milhares de fotos tiradas durante pouco mais de 10 dias.
Houve momentos em que todos tiravam fotos de todos:

Fora os fotógrafos que não aparecem

Os compreensivos leitores deste blog sabem que não é recomendável publicar fotos familiares em um blog de acesso irrestrito.
Mas alguma coisa pode ser posta aqui.
Por exemplo, esta cena do banho do neto australiano Taj. Enquanto se limpa, aproveita para gastar parte de sua infindável energia:



Já o neto carioca Rafael enfrentou a chuva, em Rio de Onor, para colocar o pé direito em Portugal enquanto o esquerdo se apóia em Espanha:

A Península Ibérica sob os pés

Por fim, um arroz de bogavante, saboreado avidamente por todos no restaurante La Rua, em Zamora:

Hummmmm!

sábado, 8 de janeiro de 2011

O primeiro ano de minha nova vida


É verdade que ainda há alguns meses de trabalho pela frente.
Mas a partir de algo como início de junho o ócio poderá ser total.
E, para iniciar tão auspicioso ano, passei de 31 de dezembro a primeiro de janeiro deitadinho na cama, enquanto a família festejava o novo ano na sala.
Acontece que o antibiótico que tomei errou o alvo. E a infecção voltou com força total.
Comecei o dia primeiro com nova visita à Urgência. E como não há males que não venham pra bem, pude conhecer o dr. Raul Mora, que é - mais que médico - sacerdote. Fica claro que sacerdote no antigo sentido da palavra, no tempo em que ela se dava ao respeito.
Corrigidos os rumos do tratamento, chego amanhã ao último dia de antibiótico. E já quase pronto pra outra.
Enquanto isso, em Brasília, parece que a turma lá da Comissão de Anistia passou a interessar-se por meu processo, no qual reivindico o reconhecimento de ano e meio em que trabalhei na USP sem contrato, por razões políticas.
Caso esse tempo seja reconhecido, terei já tempo de folga para a aposentadoria.
Bom demais para ser verdade? Pode ser, pode ser.

Cá em Bragança, chuva, chuva e mais chuva.
É o tempo delas, as chuvas.
Vez em quando, como agora, um tímido solzinho ilumina alguma colina próxima.
Agora que todos se foram, restam-nos duas semanas para aproveitar este paraíso, antes de retornar a São Paulo.
Vou aproveitar esse tempo para visitar meu médico de família.
É aquela velha história:
Dos 20 aos 30 anos:
- Nem te conto as mulheres que tenho conhecido! [no sentido bíblico de conhecer]
Dos 30 aos 50:
- Não sabes o restaurante a que fui ontem!
A partir dos 60:
- Conheci um médico que nem te conto!

Pois é. É hora de conhecer o meu. Mesmo porque um remédio que custa - digamos - € 55, passa a custar € 5 caso comprado com a receita do médico de família.

Continuação de bom ano!

domingo, 26 de dezembro de 2010

E 2.011 promete ser inigualável


Faz algum tempinho que cá não venho.
Pudera!
Saí de São Paulo no sábado, 11 de dezembro, com uma terrível infecção urinária e uma gripe monumental.
Como não há mal que não traga algum benefício (será?), pude começar a testar os serviços de saúde cá de Bragança.
Fui maravilhosamente bem atendido, queriam até que me internasse no hospital, mas consegui autorização para ir recuperar-me em casa.
Entre consulta médica, exames de urina, exame de sangue, aplicação de soro, tive que pagar a fortuna de €7,75.
Preciso agora ir ao médico de família para consolidar os tratamentos recomendados.

E começaram a chegar filhos e netos. Da Austrália, dos USA, do Brasil. Ao todo, 16 pessoas: 11 adultos, dois quase adolescentes (10 anos), um garoto de 3 anos, uma menina de quase 2 anos e um bebé de 3 meses.

Fomos a Passos de Lomba para que a maioria conhecesse os parentes que lá vivem. As crianças se encantaram com porcos, patos e galinhas.
Eu me encantei - mais uma vez - com o vinho feito por meus primos, sem conservantes, nem acidulantes, nem civilizantes.

A consoada foi cá em casa. O almoço de hoje, 25, também. O bobó de camarão estava ótimo.
Amanhã, 26, começa a debandada. Afinal, todos os filhos fizeram sacrifícios profissionais para virem cá, juntar-se a nós.
Alguns partem para Madrid, outros para o Porto.
Restam ainda outros que ficarão até inícios de Janeiro.

O presente que me deram, com a presença, foi maior do que o que eu poderia almejar.

Meus filhos, genros e noras são maravilhosos. Os netos são encantadores.

Que mais poderia eu pedir ao destino?

Talvez um derradeiro gole de cognac.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Predestinado


Sou da turma da POLI-USP de 1.967.
Ontem à noite fui visitar um colega de turma. Visita muito agradável e cheia de histórias antigas, do pessoal de nossa turma.
E até de turmas anteriores.
Eu não sabia que Luiz Carlos Mendonça de Barros fora da turma anterior à nossa, a que se formou em 1.966.
Se quiser saber um pouco mais sobre ele, clique no nome do rapaz. Verá que logo em 1.967 ele já se enfronhou no mundo financeiro e foi em frente.
O que eu também não sabia é que ele foi presidente da Equipe de Recepção aos Bichos (não sei se o nome era exatamente esse) da minha turma, que chegou à POLI em 1.963.
Vai daí, o pessoal da minha turma costumava jogar partidas de futebol de salão (hoje se diz futsal). E um problema recorrente era conseguir bola.
Mendonção, como hoje é conhecido, soube da carência e não hesitou: comprou uma bola e passou a alugá-la para os bichos que jogavam futsal.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Um tipo inesquecível


Quando era criança, eu costumava ler vários artigos em Seleções. Meu pai era assinante.
Uma seção permanente da revista era o “Meu tipo inesquecível”.
Vai daí, lembrei-me, hoje, de uma figura gravada em minha memória para sempre.
Tratava-se de um goês radicado em Santos. Constava que fora alto funcionário sei lá do quê. A bebida o levou à ruína.
Hoje sei que a bebida não leva ninguém à ruína. É a ruína que às vezes leva o indivíduo à bebida.
Mas vamos adiante.
Não lembro o nome dele. Minha irmã mais nova talvez lembre.
Tinha aquela cor cinza característica dos indianos. Vivia a mendigar e, a partir de uma certa época, passou a fazer da entrada da Primeira Igreja Batista de Santos a sua residência.
Era aquele mendigo que sempre usa um paletó. Imundo, mas paletó.
A despeito de seu estado lastimável, transmitia uma imagem altiva, quase imponente, ao menos para crianças como eu, lá pelos nove ou dez anos.
Volta e meia abordava a mim e a meus amigos da Igreja com perguntas sobre gramática, aritmética, coisas assim. E distribuía balas.
Meu pai, é óbvio, presenteou-o com alguns livros de catequese.
Lia-os e os comentava ao reencontrar meu pai. Sempre com a ressalva de que lera com atenção mas – infelizmente – sem os confortos que uma verdadeira casa poderia oferecer.
Lembro-me, em particular, de um dia em que o tesoureiro da Igreja, o Nestor, lhe deu uma nota de dois cruzeiros (se não me falha a memória era uma nota amarela), que mal dava para pagar um cafezinho.
Preocupado com a utilização que dela faria o goês, o tesoureiro advertiu:
- Veja lá o que vai fazer com esse dinheiro!
Como calhou que eu estivesse por perto, pude perceber o que murmurou o goês ao retirar-se:
- Dá-me dois cruzeiros e me diz para não esbanjar!

De pessoas assim, tenho saudade.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Gêneros


Parece que Dilma gostaria de ser tratada por presidenta.
Os presidentes anteriores deveriam, então, passar a ser ditos presidentos.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Era uma vez - XXXVIII
A importância dos presos políticos dos anos 70


No tempo em que eu estava na cela 12, no chamado fundão do Pavilhão 2 do Presídio Tiradentes, houve um dia em que discutimos a respeito da eventual importância daquele nosso grupo de presos políticos no futuro do país.
Antes de falar sobre essa discussão, faço pequena digressão:
Ainda no Dops, conheci um senhor, lá pelos seus sessenta anos, preso por ser estelionatário.
Em conversa com ele, soube que, na juventude, já tinha puxado cana pelo mesmo motivo. E havia ficado preso no Presídio Tiradentes junto com o escritor Monteiro Lobato.
Ele me afirmava:
- Vocês que estão presos hoje, aqui, serão os que vão mandar no país daqui a alguns anos.
Reencontrei esse senhor no Presídio Tiradentes. Nas visitas de familiares ele segurava no colo um de seus netos e chorava por estar na situação em que estava.
Pois bem. Na discussão da cela defendi um ponto de vista inspirado nas premonições daquele simpático estelionatário.
- Vários de nós [presos políticos aqui encarcerados] seremos responsáveis por este país daqui a alguns anos. Aqui está a nata política da nação.
Meu companheiro de cela, o Jonas, sempre bastante cético, contraditava:
- Imagine! Nós somos um grupo de despreparados. Jamais teremos condição de assumir grandes responsabilidades na política nacional. As pessoas-chave sairão de outras áreas, não deste presídio.
Eu tinha de reconhecer que o grupo todo era muito fraquinho.

- - - - - - -

O tempo passou. Vários dos meus companheiros de infortúnio carcerário tornaram-se figuras proeminentes da política nacional:
Frei Betto, Paulo Vanucchi etc etc.
Finalmente, a Dilma – moradora da Torre, a parte feminina do Presídio Tiradentes – torna-se, hoje, presidente do Brasil.

- - - - - - -

Eu tinha razão.
Mas o Jonas também tinha: éramos – e somos – muito fraquinhos.
Ou mais precisamente: fraquinhos na qualificação para a direção da nação. Mas vários de nós – daquela turma encarcerada – tornaram-se fortíssimos em outras artes.
Se é que me entendem.

Brasil Norte, Brasil Sul


O mapa abaixo mostra com alguma nitidez que o país se dividiu em Norte e Sul, com poucas exceções (Rio de Janeiro, Roraima).

CLIQUE PARA VER O MAPA COM OS ESTADOS

Não deixa de ser uma ideia.

Atualização (06/11/2010): Minha irmã me alertou para o erro que eu havia cometido: a exceção, ao Norte, não era o Amapá. Era Roraima.

domingo, 31 de outubro de 2010

Olhar de Poliana


Uma das virtudes das atuais eleições brasileiras é que muito petista aprendeu o significado de tergiversar.
Não que não soubessem tergiversar.
Apenas não ligavam o nome à p'ssoa.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Perigos da fronteira


Daqui a pouco tempo estarei a morar praticamente na fronteira de Portugal e Espanha. Mas não me parece que Bragança seja um lugar de muitos perigos.
O título deste post refere-se à fronteira lingüística, se me permitem a imagem.
O Português e o Espanhol, justamente por serem um tanto parecidos, escondem armadilhas terríveis quando se transita de uma das línguas para a outra.
Já escrevi, aqui, a respeito do mico que paguei em Madrid por não saber que plaza, além de corresponder a praça, em Português, significa também vaga (em garagem).
Hoje descobri outra armadilha: recebi um e-mail da Iberia a anunciar novo número de sua revista Plus. É esse aí abaixo:

CLIQUE PARA AMPLIAR

Fiquei intrigado. Afinal, chulo, em Português, significa grosseiro, vulgar.
Por mais criativos que sejam os marqueteiros contratados pela Iberia, penso que não chegariam ao ponto de convidar alguém para ler uma revista por ser chula.
Corri a um dicionário e descobri que chulo, em Espanhol, quer dizer legal, bacana.
Portanto, cara(o)s amiga(o)s, se ao encontrarem um(a) espanholito (a) ouvirem dele(a):
- Estás más chula(o) que nunca!
não chutem o balde.
Agradeçam o elogio.

Elogio da religião



Como se fazia no rádio, antigamente:
Dedico este vídeo a todos os meus queridos parentes profundamente religiosos.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Meus progressos na prosódia


Continuo sem saber por que os portugueses falam télémóvel e tulufone (ou até tufone). Mas aprendi há pouco tempo que o bebê do Brasil é bebé em Portugal.
O cocô brasileiro vira cocó em Portugal. O grande prejudicado, neste caso, é um cunhado meu que por ter um nome um tanto complicado, obrigou-me a ensinar meus filhos, quando pequenos, a chamá-lo de Tio Cocó (Cocó era a alcunha dele na infância).
Paciência.
Como sobremesa, aprendi que bebé (ou bebê) vem do nome de um anão da corte de Stanisław Leszczyński, rei da República das Duas Nações.
Ao menos é o que informa a Infopédia.
Não entendo como vivi mais de 65 anos sem saber disso.

sábado, 23 de outubro de 2010

Bullying ontem e hoje


Quando eu tinha meus 9 anos e freqüentava o quarto ano do curso primário no Colégio Marçal, em Santos, fazia sempre o caminho de casa à escola com o coração na mão.
É que havia um garoto gordota e maior que eu que me encontrava pelo caminho e me atormentava com tapas nas costas, na cara e me desafiava. Eu, menor que ele, fugia a correr para a escola. Isso durou alguns meses. Ninguém em minha casa nunca soube nada a respeito disso. O problema era meu.
Um ano e meio depois entrei para o ginásio, no Colégio Canadá.
No início do segundo ano do Ginásio, eis que vejo o gordota a fazer parte da turma do primeiro ano, recém entrada no colégio.
Por alguma razão qualquer eu ficara maior que ele. Além de ser veterano, com todas as vantagens que isso acarreta.
Esperei um recreio propício e o enchi de porrada.
Problema resolvido. Garanto que a família dele também nunca ouviu falar do assunto.

Hoje não.
O chamado bullying é tratado por psicólogos e pedagogos.
E aplica-se até a animais, como se pode ver no post anterior.

Se o pessoal deixasse as crianças resolverem seus problemas por conta própria e aprenderem a viver a vida, tudo seria mais fácil.
Mas...

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Sujeitinho desagradável


Esse tal de Knut deve ser um chato de galocha, apesar do jeitinho bonitinho.

Quem vê cara não vê coração
Primeiro foi a mãe que não o agüentou. Agora as namoradas. Três ursinhas, com as quais ele deveria começar a transar no ano que vem, resolveram sacaneá-lo sem parar. O coitado está a ser vítima de bullying por parte delas.

Ora, se nem a mãe quis saber dele, por que diabos as moçoilas deveriam aturá-lo?!

domingo, 17 de outubro de 2010

Da Idade Média ao presente em 10 horas de voo


O Brasil, nestas eleições presidenciais, mergulhou em uma discussão travada em clima medieval. Aborto, casamento de homossexuais, adoção de crianças por casais homossexuais etc etc são temas discutidos da maneira mais canhestra imaginável.
Por isso, o colunista da Folha de S.Paulo, José Simão passou a sugerir:
E quem é a favor da descriminalização do aborto, vota em quem? No bicho papão, no cão, no coisa ruim. Ou então se muda pra Europa.

É o que vou fazer.

Só pra dar uma ideia, a legislação brasileira a respeito do aborto é:

O aborto no Brasil é tipificado como crime contra a vida pelo Código Penal Brasileiro, prevendo detenção de 1 a 10 anos, de acordo com a situação. O artigo 128 do Código Penal dispõe que não se pune o crime de aborto nas seguintes hipóteses:
1. quando não há outro meio para salvar a vida da mãe;
2. quando a gravidez resulta de estupro.
Ler mais aqui.


Já a legislação portuguesa a respeito do mesmo tema evoluiu assim:

Até 1984, o aborto era proibido em Portugal em todas as situações. A lei 6/84 veio permitir a realização da interrupção voluntária da gravidez nos casos de perigo de vida para a mulher, perigo de lesão grave e duradoura para a saúde física e psíquica da mulher, quando existe malformação fetal ou quando a gravidez resultou duma violação.
Em 1997 esta legislação foi modificada, tendo existido um alargamento no prazo em situações de malformação fetal e do que até então era chamado de “violação”, actualmente denominado por “crime contra a liberdade e autodeterminação sexual da mulher” (lei 90/97). A restrição da lei e a não resposta por parte dos estabelecimentos públicos ou publicamente reconhecidos, levou à existência de uma actividade de aborto clandestino especulativo e perigoso. Como consequência desta situação, o aborto foi, durante todos estes anos, a primeira causa de morte materna e a razão que levou milhares de mulheres aos hospitais com abortos retidos/incompletos ou com complicações resultantes desta prática.

Ao longo de mais de três décadas, muitas organizações, personalidades e profissionais de saúde lutaram por mudanças na lei, de forma a combater o aborto inseguro e ilegal. Com a lei 16/2007, a interrupção da gravidez pode, hoje, ser feita por opção da mulher até às 10 semanas.

Principais disposições legais
A alínea e) do n.º 1 do artigo 142.º do Código Penal em Portugal permite a interrupção da gravidez até às 10 semanas a todas as mulheres grávidas que o solicitem, desde que realizado em estabelecimento de saúde oficial ou oficialmente reconhecido.

Qual é o prazo legal para a interrupção da gravidez por opção da mulher? Em Portugal, a interrupção da gravidez por opção da mulher pode ser efectuada nas primeiras 10 semanas de gravidez, calculadas a partir da data da última menstruação.

Quem pode solicitar uma interrupção da gravidez? Apenas a própria mulher poderá fazer o pedido de interrupção da gravidez, salvo no caso de ser psiquicamente incapaz.

Quem pode fazer a interrupção da gravidez? A interrupção da gravidez só pode ser realizada por médico, ou sob sua orientação e com o consentimento da mulher.

Onde se pode fazer uma interrupção da gravidez? As interrupções da gravidez podem ser efectuadas em estabelecimentos de saúde oficiais ou oficialmente reconhecidos.

As mulheres estrangeiras poderão fazer uma interrupção da gravidez em Portugal? As mulheres imigrantes têm os mesmos direitos de acesso à interrupção da gravidez, independentemente da sua situação legal.

Qualquer prestação de cuidados de saúde está sujeita a confidencialidade e ao segredo profissional, incluindo todas as etapas do processo de interrupção da gravidez descritas.
Ler mais aqui.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

O sumô e o marketing político


No dia em que fiquei a saber que existia a profissão de limpador de bunda de lutador de sumô, passei rapidamente da perplexidade para a racional constatação da óbvia necessidade da função.

copiado de:http://www.muitolegal.net

O mesmo ocorreu comigo quando começaram a surgir os marqueteiros políticos, tais como o conhecido Duda Mendonça, que vende tanto Lulas quanto Pingos Doces ou qualquer outro produto.

Sem eles - assessores de lutadores de sumô e marqueteiros de políticos - seria difícil esconder a merda produzida por seus clientes.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Heróis e heróis


Pra mim, os maiores heróis nesse episódio dos mineiros chilenos foram os tais socorristas, que desceram para ajudar no resgate dos mineiros.

Claro que os mineiros se comportaram de maneira extraordinária durante os setenta dias debaixo da terra. Mas o termo herói - a meu ver - não é o que melhor os qualifica. A menos que se adote a genial e sarcástica definição de Millor Fernandes:
Herói é aquele que não teve tempo de fugir.
Já os tais socorristas se prontificaram a correr o mesmo risco que corriam os mineiros com o objetivo de salvá-los. Correram um enorme risco de modo voluntário.

No entanto, tão logo foi retirado lá do fundo o último mineiro, tudo virou festa e o presidente chileno pôs-se a falar sem parar, para comemorar o sucesso da operação. Ao fundo, via-se a roldana ainda a girar para retirar os socorristas.
E se alguma desgraça ocorresse durante o retorno dos socorristas? Todos continuariam a considerar a operação um sucesso?

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Partida


Hoje fiquei a saber que minha mudança já está em alto mar.
Muito bom.
Apenas lastimo que - eu - ainda estou em baixa terra.

Pra não dizer que não gosto de nada


Dos últimos 20 anos da música popular brasileira, salvo Renato Russo.
Fiquem com Eduardo e Mônica, retrato fantástico de uma época:



Acompanhe com a letra:

Eduardo e Monica

Composição: (Renato Russo)

Quem um dia irá dizer
Que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração?
E quem irá dizer
Que não existe razão?
Eduardo abriu os olhos mas não quis se levantar:
Ficou deitado e viu que horas eram
Enquanto Mônica tomava um conhaque,
Noutro canto da cidade
Como eles disseram.
Eduardo e Mônica um dia se encontraram sem querer
E conversaram muito mesmo pra tentar se conhecer.
Foi um carinha do cursinho do Eduardo que disse:
- Tem uma festa legal e a gente quer se divertir.
Festa estranha, com gente esquisita:
- Eu não estou legal. Não agüento mais birita.
E a Mônica riu e quis saber um pouco mais
Sobre o boyzinho que tentava impressionar
E o Eduardo, meio tonto, só pensava em ir p'rá casa:
- É quase duas eu vou me ferrar.
Eduardo e Mônica trocaram telefone
Depois telefonaram e decidiram se encontrar.
O Eduardo sugeriu uma lanchonete
Mas a Mônica queria ver o filme do Godard.
Se encontraram então no parque da cidade
A Mônica de moto e o Eduardo de camelo
O Eduardo achou estranho e melhor não comentar
Mas a menina tinha tinta no cabelo.
Eduardo e Mônica eram nada parecidos -
Ela era de Leão e ele tinha dezesseis.
Ela fazia Medicina e falava alemão
E ele ainda nas aulinhas de inglês.
Ela gostava do Bandeira e do Bauhaus,
De Van Gogh e dos Mutantes,
De Caetano e de Rimbaud
E o Eduardo gostava de novela
E jogava futebol de botão com seu avô.
Ela falava coisas sobre o Planalto Central,
Também magia e meditação.
E o Eduardo ainda estava
No esquema "escola-cinema-clube-televisão".
E, mesmo com tudo diferente,
Veio mesmo, de repente,
Uma vontade de se ver
E os dois se encontravam todo dia
E a vontade crescia,
Como tinha de ser.
Eduardo e Mônica fizeram natação, fotografia,
Teatro, artesanato e foram viajar.
A Mônica explicava p'ro Eduardo
Coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar:
Ele aprendeu a beber, deixou o cabelo crescer
E decidiu trabalhar;
E ela se formou no mesmo mês
Em que ele passou no vestibular
E os dois comemoraram juntos
E também brigaram juntos, muitas vezes depois
E todo mundo diz que ele completa ela e vice-versa,
Que nem feijão com arroz.
Construíram uma casa uns dois anos atrás,
Mais ou menos quando os gêmeos vieram -
Batalharam grana e seguraram legal
A barra mais pesada que tiveram.
Eduardo e Mônica voltaram p'rá Brasília
E a nossa amizade dá saudade no verão.
Só que nessas férias não vão viajar
Porque o filhinho do Eduardo
Tá de recuperação.
E quem um dia irá dizer
Que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração?
E quem irá dizer
Que não existe razão?

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Cadê a solidariedade?


Em um post de 2.006, contei a história de minha saída do CAPI Vestibulares. Fui mandado embora, de maneira absolutamente injusta, e toda (TODA) a equipe de professores demitiu-se em solidariedade.
Um dos comentários, de Danilo Melo (que não sei quem é), afirmava:

Em 1968 com emprego saindo pelo ladrão era bem mais fácil ser solidário às injustiças da vida...

Pois bem. Hoje, pelo que alardeia o governo (e a oposição não desmente), há emprego saindo pelo ladrão, como dizia Danilo em 2.006.

E - me pergunto - haverá exemplos de solidariedade como aquela de que fui beneficiário?

Duvido.

domingo, 3 de outubro de 2010

Meu (pen)último voto no Brasil


Acabo de votar. No mesmo Colégio Costa Manso no qual voto há quase 30 anos.
Talvez esse seja meu último voto no Brasil. Basta que não haja segundo turno.
Como voto em São Paulo, as pesquisas indicam vitória folgada do candidato tucano, já no primeiro turno. Restam as eleições presidenciais, nas quais há a ameaça (para alguns) ou esperança (para outros) de segundo turno.
Anulei o voto de ponta a ponta.
Não me resta nenhum interesse pela política brasileira. Apenas me sobrou uma certa curiosidade a respeito de até onde poderá descer a prática política no Brasil.
O fato de muitos candidatos serem incrivelmente desqualificados não quer dizer nada. A questão gritante é que vários deles serão eleitos. E, alguns, arrastarão vários desconhecidos e/ou pouco votados para a Câmara Federal e para as Assembleias estaduais.
Mas o eleitor, em sua grande maioria, não tem a menor condição de entender o sistema de voto proporcional.
E nossos maravilhosos ministros do Supremo Tribunal Federal transformaram o Título de Eleitor no único documento oficial que não permite que se vote.
E gostam de contar piadas sobre o que consideram ser a burrice dos portugueses.

Tenho pena dos que continuarão a viver nesta terra. Em particular, me preocupo por meus familiares que aqui permanecerão. Principalmente os mais jovens.

Mas pouco ou nada posso fazer para levá-los daqui.
Terão de viver sob as leis que o palhaço Tiririca aprovará.
Terão de viver sob uma justiça em que se negocia até o impedimento de voto de ministro do Supremo.
Terão de viver sob as ordens de um Executivo comprometido até a medula com o crime.

Quanto a mim, encerrei minha longa e inútil carreira de eleitor, nestepaiz.

sábado, 25 de setembro de 2010

Recordação


Um de meus melhores professores foi o Baronão. Era (e ainda é) tratado assim por que tinha um irmão mais novo, o Baroninho, por sinal nascido no mesmo exato dia em que nasci. Baroninho, já falecido, foi meu colega na POLI. Depois, deixou a POLI de lado e se firmou como matemático, tal qual o irmão mais velho.
Baronão, que me deu aulas no Curso Di Tulio, costumava entrar em sala de aula, às vezes, e dizer:
- Recordar é viver, então, vamos recordar.
E toca a retomar resumidamente tudo o que já havia sido ensinado.
Pois é. A foto abaixo me foi enviada por minha tia Clarisse.
Nela aparece meu avô Vicente. Ele casou-se com minha avó Amélia, quando ela tinha seus 15 anos. Aos 16 nasceu minha mãe, Celina. Aos 17, meu tio Antero; aos 18, minha tia Olinda; aos 19, meu tio Silas. Tudo isso eu cito mais ou menos. Não tenho as datas certas. Minha irmã Léa vai me corrigir. Aos 21 ou 22 anos, morreu minha avó Amélia, de febre amarela, no Rio de Janeiro. Corria o ano de 1.919, pouco mais, pouco menos.
Vai daí, meu avô Vicente, filho de italianos, mas adotado por um padrasto português logo que minha bisavó ficou viúva e casou-se novamente, resolveu casar-se com a irmã de minha avó. Como dizia minha mãe, a tia Tuta.
Daí vieram tio Afrânio e tio Paulo. Como minha tia avó também morreu precocemente (aqui entre nós, meu querido avô Vicente era um tremendo pé frio, né não?), meu avô casou-se pela terceira e derradeira vez com Dona Chiquinha, mulher linda, que gerou meu tio Vadinho, na foto, e minha tia Clarisse, até hoje a compartilhar alegrias com a gente, junto a seu gaúcho, o Reguera.

Tudo isso para explicar a foto abaixo, carregada de recordações: nela estão Dona Chiquinha, meu tio Vadinho (que me ensinou que careca adora um pente) e meu avô Vicente.

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Taj e Allana


Allana nasceu na manhã de 15 de setembro de 2.010, em Townsville, Queensland, Austrália.
Parece que será tão linda quanto o irmão, Taj, que desde já a proteje.

Imagem obtida com Print Screen ao conversarmos pelo Skype

Saravá!

Obs: No canto baixo, à esquerda, a pequena imagem dos avós corujas.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Final de ano em Bragança


Pois é. Lá pra 20 ou 21 de dezembro vão começar a chegar a Bragança irmã, filhos, netos e sogra de um filho.
Vamos comemorar Natal e Ano Novo, ali, ao pé do Parque Natural de Montesinho, com neve ou sem neve. E já com os móveis que acabam de sair daqui de São Paulo rumo ao Velho Mundo.

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Vamos conhecer - pessoalmente - a Isabella, nossa segunda neta, que irá pra lá, a partir de New York.
Vamos conhecer Allana, nossa terceira neta, recém nascida na Austrália.
E vamos poder brincar na neve (se houver) com o Taj e a Bruna, os demais netos.
Ficará faltando o Rafael, primeiro neto, que não poderá ir.

Não nos esqueçamos da Doga, que ficaria ressentida se fosse deixada de lado.

E que tudo seja inesquecível. Por ser maravilhoso.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Comunicado imprescindível


Dia desses, penso que 15 de setembro (ou terá sido 16? esses fusos horários complicam minha vida) nasceu Allana, primeira neta australiana.
Nós ainda não a vimos. Dizem ser mais bonita que o irmão Taj. Se isso for verdade, preparem-se para uma nova Miss Australia 2.028.
A mãe, Lu, está super bem.
Bola pra frente.
Enquanto nós mandamos nossos móveis para Bragança, Allana traz suas esperanças para o planeta Terra.

Caos


Mudança é assim. O caos.
Mas, se é para o bem...

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Gostaria de ir já, dentro de uma dessas caixas. Mas ainda não é possível.
Esperemos por abril do próximo ano, se houver próximo ano...

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Velório de Romeu


(escrito em 9/10 de agosto de 1.975)

O café não está dos piores, quero ver é acordar às sete pra pegar aquela papelada toda e botar em ordem. Mas não havia jeito, Romeu era subordinado seu e se ele não aparecesse no velório iria ser uma falação dos diabos entre os colegas de trabalho.
Pois é, meu senhor, basta estar vivo, a-vida-é-assim-mesmo, ainda por cima essa velha carpideira resolver despejar sua catarata de lugares comuns justo em cima de mim, parece que hoje não é o meu dia. Convenceu-se logo de que não era mesmo pois a velha a seu lado atraiu para aquele canto da sala um animado grupo de matronas, todas muito seguras em seus papéis, verdadeiras profissionais naquele ambiente de lágrimas & condolências. E foi o dilúvio. O senhor era chefe do Romeu, não era?, pobrezinho, tão jovem, ainda ontem tão sadio, tão disposto. Quem diria!... Distribuía para as velhotas expressões que o constrangimento devia tornar estúpidas, mas de qualquer forma sobrevivia. O fato é que o molenga do Romeu nunca esteve muito vivo, o prazo para entregarem aquele projeto já se estava esgotando e o homem sempre no mesmo ritmo, incapaz de dar duro e resolver logo a coisa. Aceita um café? Parece que adivinhava que a bomba iria estourar na minha mão, o vidente. Virou o café aproveitando para examinar a sala, a televisão do outro lado dominando a cena, mesmo desligada, embutida em um móvel sobre o qual estava uma bandeja com xícaras e uma garrafa térmica. Aquele montão de cadeiras certamente tinha sido trazido pela vizinhança, normalmente as poltronas e o sofá também não deveriam ficar todos assim, ao longo das paredes, tudo devia girar em torno da televisão, os móveis e a família. Pensou, por falta de idéia melhor, que afinal a morte talvez fosse o único evento capaz de romper a mania das novelas e dos shows de TV. Ou talvez não, porque a mulherada que o cercava parecia estar em pleno debate a respeito de capítulos mais recentes das novelas preferidas. Pensou na viúva, sentada ao lado de pessoas da família, menos por pena, mais para não ouvir a conversa à sua volta. Não era uma mulher totalmente feia, ou melhor, nela a questão se situava em outros termos, não era bonita nem feia, parecia simplesmente um pouco mais medíocre que o normal das esposas-de-funcionários-de-nível-médio. Que era a morte do Romeu para ela? Provavelmente volta a morar com os pais. Uma vez por ano leva flores ao túmulo, talvez mais, sei lá. O terrível é que me parece que nada é capaz de abalar nela essa atmosfera de cotidiano, romper esse bloco de bom senso. Não vai passar por nenhuma reorientação essencial, apenas leves alterações de rotinas diárias. No entanto, morrera o homem com o qual construira todos os orgasmos de sua vida, para o qual cozinhara durante uns vinte anos, entra-dia-sai-dia, um lava-passa de cuecas, camisas, meias e o diabo! Mediocridades compartilhadas, ainda mais que a falta de filhos os deixara todos esses anos cara a cara, sem biombos, interfaces protetoras, que coisa linda que os filhos são!, como é que podia associar essas coisas todas com Vinicius, velório é isso, a gente começa a revirar memória, esforço pra não dar aqueles bocejos indelicados... de repente, não mais que de repente, a gente desenterra poemas, amigos esquecidos, mortos pra gente, cujas mortes - dessas sem velórios, enterros, mais efetivas porque menos rituais - ajudaram a alterar nossos rumos, de um jeito ou de outro nos arrastaram até aqui, ou teriam nos empurrado mais pra lá se não tivessem sido, se os amigos (se os poemas) tivessem vivido mais, se suas forças de gravidade nos tivessem por mais tempo segurado em órbitas passadas, mortas agora. O senhor está acompanhando também? O último capítulo estava apaixonante! Claro, claro, ainda bem que essas madames não exigem muito das respostas, não são como Isabel, que queria tudo explicadinho, espoleta a Isabel, só sossegava na cama, mas antes!, veja a ironia. Que bicho terá comido a danada, sumiu. Naquele tempo as pessoas iam e vinham sem muitas cerimônias, sem batizados nem velórios, passavam. A fase das grandes amizades já havia passado, ainda não surgira a época das amizades formais, de conveniência, era o vazio-de-final-de-adolescência. Qualquer dia teorizo isso. Estará fazendo o quê, a Isabel, certamente ouvindo explicações de algum outro, será que já aprendeu a trepar?, vai ver pensa que a culpa era minha. De qualquer jeito, outro mundo, de qualquer modo, morta, mais talvez do que o Romeu. Biscoito? Obrigado. A questão é que Isabel não lhe dizia mais nada, agora que ausente. Outros vazios doíam mais, amizades nas quais esgotara imprudentemente toda a sinceridade e paixão que deveria ter espalhado mais de modo homogêneo pela vida inteira. Caso do Gomes. Porra, o Gomes! Houve época em que não podia imaginar um dia sem um papo com o Gomes. Sofreram juntos os dramas seus e os do mundo, discutiram em detalhes intermináveis os absurdos da vida, tudo com muito conhaque (o Gomes sabia beber conhaque) e muita música pra catalisar tristeza. Pensando nisso, será que pega mal se eu pedir um conhaque aí pra alguma responsável pelos comes-e-bebes?, seria até um jeito de sair desta roda de galinhas estéreis. Com licença.
Conseguiu seu conhaque sem muita dificuldade, esgueirou-se para o jardim da frente da casa e aboletou-se no murinho que o separava da calçada já deserta. O conhaque era de quinta categoria, mas a noite estava soberba. Estivesse com o Gomes, estaria bebendo um Macieira, no mínimo. Mas não teríamos nada pra dizer. Aqueles planos de largar tudo, sair por aí escrevendo poemas, hoje isso soaria como uma proposta de sair da Via Láctea à procura da origem do cosmos. Agora que tudo era farsa, já não sabia estabelecer até que ponto falavam sério naqueles papos de antes. antes do quê, afinal. Gozado como não houve nenhum ponto de ruptura bem delimitado, essas coisas só existem nas teorias. Certamente o Gomes era mais sincero, parecia falar sempre mais de dentro, mais pra valer. Ele sempre puxava os temas, as variantes do mesmo Tema. A partir do terceiro copo os dois já estavam mergulhados vitalmente naquele mundo de projetos e desespero, mas no início era o Gomes que os arrastava para aqueles ódios sem objeto, aquela nostalgia sem passado. A viúva, lá dentro, começava a chorar mais alto. Olhou o céu pintadinho de estrelas, pra que canto teria ido o Romeu, pra que lado teria ido o Gomes, foram se encontrando cada vez menos, o Gomes muito preocupado com desigualdades sociais, exploração capitalista, sua fase política - como ele mesmo costumava dizer. Eu sempre achei esse tipo de coisa meio paranóica. Mas ele insistia que agora sim, que agora tinha conseguido abordar os problemas pelo lado certo, pobre Gomes, precisava mesmo era de mulher. Tentou ainda discutir com o Gomes, mas já não se acertavam mais, os pontos de referência distintos, uma bagunça. Tudo que ele dizia o Gomes classificava de ideológico. Porra, Gomes, mulher é ideológico!? Bebiam mais um conhaque num silêncio meio embasbacante, depois era aquela despedida murcha, aparece cara, nada como antes, ou com aquelas lágrimas inexplicáveis borrando os olhos, levantava em silêncio, um silêncio todo expressivo, dava uns tapinhas nas costas do Gomes imóvel, olhos no chão, no nada, saía lento, um tempo já perdido pela frente. Depois foi a vida profissional pra mim, a revolução pro Gomes, nossas órbitas foram se descolando, morremos mutuamente. Serei para o Gomes hoje uma encarnação da classe média, exemplo de conceito, abstração. De certo modo Romeu está mais vivo, sua ausência me dará um trabalhão amanhã. Morto ou não, terei de dar um jeito naquela papelada. Nenhum de nós dois dava a mínima pelo mundo, sentíamos tudo como massa indiferente, achávamos sem sentido que alguém corresse atrás de objetivos nesse universo absurdo. Não sabíamos (eu acho que já sabia) que fazíamos a crítica de nosso futuro. Que puta incoerência. E pensar que aquela adolescência foi a nossa, que deve haver algo daquilo tudo sedimentado em algum canto cinicamente escondido dessa minha cabeça oca. O Gomes tentando mudar tudo, debatendo-se contra o estabelecido, vai ver está com a razão, sempre ele mais perto do certo, sei lá, pelo menos deve ter pra onde ir, pra onde olhar, sem sentir-se nesse ciclo interminável que só faz girar pra nos dar a sensação de movimento. Serviços urgentes, menos urgentes, filmes melhores, piores, livros chatos, outros bons, mulheres loiras, morenas, pintas que se espalham diferentemente pelos corpos pra criar uma sensação de diferença, de variação, de surpresa. Mas Aquiles não alcança mesmo a tartaruga, não é mesmo?, Gomes, continuemos inertes, parados na adolescência, ir à frente é ilusório, tanto é que fomos e estamos mortos. Despeja aí um conhaque e vamos ficar parados no antes, antes que você subverta o mundo, antes que eu me acabe de tédio. Que idéia idiota foi essa de matar nossas convicções, enterrar a perplexidade, descobrir certezas. Veja só, até já consigo borrar de novo os olhos daquela maneira estúpida de antes, sem que nada seja dito, nem mesmo pensado. Onde está você, Gomes, pra gente partilhar esse sofrimento feliz.
Foi virar mais um gole, copo vazio. Ainda esticou maquinalmente a mão para pegar a garrafa, pegou foi a lembrança do velório, viúva chorando, velhas carpideiras de mortes reais e televisionadas, o Romeu, caramba!, a papelada amanhã... Já é tarde, hora de cumprir o ingrato dever das despedidas cheias de pêsames e silêncios constrangidos. Entrou na sala, aproximou-se da viúva. Ao abraçá-la pensou - satisfeito - que suas lágrimas vinham bem a calhar, dariam a impressão de estar realmente triste.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Lição de puericultura


(texto sem data, escrito em um dia qualquer do segundo semestre de 1.975. Por algum motivo de que não me lembro, quase todo o texto está em minúsculas)

conseguiu acalmar o guri sabe lá como, tantos os truques que tentou, tudo misturado, quem tem tempo nessas horas pra ficar isolando causas metodicamente, o que importa é o efeito. correu ao livro recém adquirido, Manual do Petiz, coisa do gênero, o nome não recomendava mas a inexperiência sim, de repente tendo de cuidar daquela miudice de exigências inadiáveis. procurou choro no índice remissivo e foi enviado a umas poucas tautologias do tipo "o choro do lactente indica frio ou calor ou cólicas ou febre ou fome ou ...". folheou mais um pouco aquele amontoado de frases vazias e desistiu, mesmo porque o guri já recomeçara o berreiro.
lembrou do pediatra que procurara na semana passada. já teria voltado de férias? afinal, se o médico examinasse a criança talvez pudesse dizer alguma coisa além das generalidades daquele livro inútil. onde estava com a cabeça quando comprara aquilo? a finalidade óbvia daquela geringonça era a de capitalizar a preocupação de pais inexperientes e reunir para o autor uns restos de salários esquecidos aqui e ali pela indústria do entupa-seu-bebê-com-os-produtos-da-mais-avançada-techologia. enrolou bem aqueles cinqüenta centímetros barulhentos e arrancou para o pediatra.
ficou pouco tempo no consultório de ar condicionado e bichinhos disney. o suficiente pra responder um questionário genérico, ver o moleque ser profissionalmente apalpado pelo médico e receber umas três receitas cheias de nomes horrorosos. ao sair pagou um dinheirão a uma secretária estrategicamente situada em uma mesa cercada de mamães aflitas e/ou aparvalhadas.
chegou a pensar em tomar o rumo da farmácia mais próxima mas estava assustado diante daquele ciclo interminável: um livro caça-níqueis que recomenda os produtos Vamos&Venhamos que causam problemas que só o pediatra pode resolver - ou melhor - pode encaminhar aos remédios dos laboratórios especializados em introduzir o recém nascido na rotina dos produtos e ante-produtos e metaprodutos. ainda tentou desculpar o pediatra: se todos procuravam lucrar ao máximo, não era culpa dele se o objeto de seu trabalho eram crianças doentes. Além disso, ele até que ficava com uma fatia pequena nesse rendoso negócio que faziam com a saúde das pessoas... Também, que podia fazer o pediatra se a pediatria continuava na estaca zero? Se nada se sabe com um mínimo de segurança a respeito de crianças recém nascidas, já que essa estória de conhecimento e ciência também é controlada pela indústria das doenças, por uma indústria doente, também precisando de remédios?... e desculpou o livro via pediatra e este através da indústria e esta graças à sociedade. voltou pra casa furioso e descontrolado, se bem que era o guri que gritava sem parar.
aquele sem fim de conexões impessoais e opressoras o agitava. pensava um pouco em tudo sem conseguir fixar-se em nada. os livros, médicos, indústrias, ciências, sociedade, tudo girava num turbilhão gigante. Pensou em lançar tudo fora e começou pelo livro. O Manual do Petiz foi minuciosamente picado e lançado janela afora. Jogou fora o pediatra, os pediatras, os remédios, as indústrias de remédios. Foi preso e condenado a cinco anos de reclusão quando tentava jogar fora a sociedade.

domingo, 12 de setembro de 2010

Escritos antigos


Isso é que dá, ter de arrumar tudo para a mudança. Encontram-se escritos esquecidos, soterrados por pastas, papéis...
Lá vai um poema de janeiro de 1.983:

Escrevo sobre força
E uma fraqueza ronda.
Os feitos que quero
Não quero.
Os fatos que posso
Não quero.
Quero o que escapa,
derrapa.
A dúvida solapa
toda certeza.

domingo, 5 de setembro de 2010

Alegrias globais e locais


Não há como negar. Hoje, para mim, foi um dia triste.
Amanhã vou ao Porto aguardar o embarque para o Brasil, na terça.
Mas dois acontecimentos deram um colorido alegre a esse domingo.
Primeiro é o que leio no Público on line: a ETA apresentou à BBC um vídeo com declaração de cessar-fogo.
Tomara seja pra valer e seja definitivo.
Segundo: estava esta manhã sentado diante do computador quando reparei que um passarinho havia entrado na varanda de casa.
Como as proteções da varanda são de vidro, o passarinho tentava sair e batia com o bico no vidro. Andava de um lado a outro, quase em desespero.
Fiquei com receio de lançá-lo para fora e ele se esborrachar lá no chão, pois tudo indicava que ele não conseguia voar.
Resolvi deixá-lo ali até depois do almoço.
No começo da tarde, ao voltar, percebi que o passarinho continuava no chão da varanda, já agora quietinho, parado.
Resolvi arriscar.
Peguei-o com algum esforço pois minha aproximação o assustava muito e ele corria de um lado para outro.
Com uma dúvida enorme, lancei-o ao ar.

Foi o vôo mais lindo que já vi um pássaro dar.

sábado, 4 de setembro de 2010

Mais uma despedida


Hoje fui a Passos despedir-me dos parentes. Ou seja, de todos.
Passei na casa de Maria Tereza, conversámos um bocadinho. Ela reclamava do calor. Pudera, com toda aquela indumentária preta, de viúva, há de sentir muito calor.
Da próxima vez, vou propor-lhe que lance a moda de roupas brancas para as viúvas.
Ficará indignada, claro. Mas que seria bom, seria.
Fui, depois, à Dora. Descansava na parte de baixo da casa, onde antes eram guardadas as vacas. É fresquinho, lá. Brinquei com ela que as vacas eram tão saudáveis porque viviam na melhor parte da casa. Dora transformou aquilo em uma agradável sala de estar.
Dali fui ao Café do Otávio. Encontrei o Irineu, da Gestosa, filho do Zindo. Aproveitámos o Café para tomar um fino. Gostei do brinde dele:
- Que nossas esposas não fiquem viúvas!
Andei à casa da Zelinda. Ela limpava feijão, enquanto o Alípio exercitava sua habilidade em matar moscas, munido daquela espécie de espátula de plástico, própria para esse tipo de assassinato.
Jogámos meia hora de conversa fora.
Voltei ao Café, na esperança de encontrar o Marciano, que anda por aqui. É mais fácil nos encontrarmos na aldeia do que em São Paulo, onde moramos em bairros vizinhos. Mas não houve hipótese. Parece que estava pra Vinhais. Se não terá sido ele que quase me abalroou, na estrada de Passos a Vinhais, quando de meu retorno a Bragança.
Antes de partir, encontrei o Kiko, que me prometera um garrafão de vinho e um pouco de bagaço. Pedi a ele que mos dê aquando do Natal, quando estiverem cá meus filhos e netos.
No retorno a Bragança, não resisti a uma paradinha e a esta foto.

Verão na Lomba

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O sumo da cultura


Quando criança, lia nos livros aquilo de donzela de lábios cor de romã. E ficava a imaginar que diabo de cor seria essa. Nunca vira uma romã.
Hoje, tomo sumo de romã e gosto de ver a Baixinha comer romã de verdade, com um prazer indisfarçável (e por que raios ela deveria disfarçar?).
Agora, decepção mesmo foi quando li na caixinha Tetra Pak do sumo de romã que, em espanhol, romã é granada.
Isso lá é cor pra lábios românticos?
Será (vou investigar) que nos romances em espanhol o mocinho comenta que a donzela tem lábios cor de granada?

Hoje saí às compras. Ou talvez seja mais correto dizer que saí à compra. Fui comprar apenas uma coisa: uma escada. A Baixinha pediu-me, na conversa de ontem pelo Skype, que comprasse uma escada maior do que a que já temos. Ela havia comprado uma de dois degraus. E se deu conta, agora, de que é necessária uma de cinco degraus. Não só por ela ser baixinha, mas para que eu, que não sou nenhum gigante mas sou bem maior que ela, possa alcançar livros na prateleira mais alta do escritório.
Entrei na loja, dei aquela volta de reconhecimento, vi que não havia escada alguma à venda. Por via das dúvidas, perguntei a uma atendente:
- Não têm escadas?
Que belo mico!
Para azar meu, a loja até tem uma escada mais ou menos no meio do salão, por ser este de dois níveis distintos.
Com um sorriso levemente irônico, a mocinha fulminou:
- Escadotes? Não, não temos.
Os dicionários trazem escadote sem nenhuma observação de ser termo usado em Portugal e não no Brasil. Mas, no Brasil, nunca ouvi ninguém utilizá-lo.
Sou, agora, o feliz proprietário de dois escadotes. O último dos quais paguei com pequena parte de minha inesgotável ignorância.