sábado, 14 de maio de 2011
Problema adiado,
problema resolvido
Pronto.
O dr. José, cirurgião cardiovascular, concordou com minha ideia de acompanhar por algum tempo a evolução do expansionismo da minha aorta. Só não aceitou minha sugestão de aguardar um ano. Disse que não aconselhava que eu deixasse de fazer a cirurgia ainda neste ano.
Fechámos negócio: a operação fica para janeiro de 2.012, caso – claro – haja 2.012.
A aorta, pensando bem, devia chamar-se USA, como o país, aquele. Não só é, de longe, a mais importante artéria do planeta Corpo Humano. Tem também uma tendência inata a uma atitude imperialista. Gosta de expandir-se e ocupar espaços que não deveriam ser seus. Até eu já sei que aneurismas não diminuem. Na melhor das hipóteses não aumentam.
Logo que sair minha aposentadoria (deve sair ainda este mês) levo minha aorta espaçosa para passear em Bragança. Junto com a Baixinha e a Doga.
Lá, vou passear minha ociosidade pelos caminhos do Parque Natural de Montesinhos no qual a palavra recessão – que invadiu Portugal nos últimos tempos – não é conhecida.
quinta-feira, 5 de maio de 2011
Medicina - a falência de dogmas
Faz pouco tempo a imprensa noticiou que havia sido constatado que ovo não aumenta o colesterol (ou, como diz o povo em Passos de Lomba: o costrol). Nunca tive problema com colesterol e adoro ovo. Fiquei a imaginar a cara daqueles médicos que passaram anos a enfatizar o mal que o ovo representava para o aumento do colesterol. Tudo cultura do ouvir dizer. Como a nossa, os leigos.
Hoje a Folha de S.Paulo informa:
Consumir mais sal não aumenta a pressão, diz estudo
DA REUTERS - Pessoas que consomem muito sal não têm mais risco de desenvolver hipertensão e morrer do coração do que as que comem poucas quantidades do alimento, segundo um estudo feito pela Universidade de Leuven (Bélgica).
A pesquisa, com 3.700 europeus, contraria as atuais recomendações de limitar o consumo de sal para prevenir essas doenças. Elas se baseiam em trabalhos anteriores, que indicam o benefício cardiovascular de uma dieta com pouco sal. Porém, o autor do novo estudo, Jan Staessen, diz que a recomendação é baseada em pesquisas de curta duração, enquanto a sua acompanhou as pessoas por oito anos.
É verdade que essa pesquisa aí do belga pode muito bem estar errada, também.
Afinal, ninguém sabe muito.
Mas os doutores pontificam.
sábado, 30 de abril de 2011
Dia nada monótono
Justo no dia em que mais de 2 mil milhões de seres humanos se entretinham com o casamento de um príncipe inglês, dia em que Delúbio Soares (o tesoureiro do mensalão) voltava triunfalmente ao PT (Partido dos Trabalhadores [risos]), dia em que alguns milhões de brasileiros quebravam a cabeça para declarar seu Imposto de Renda, dia em que os Estados Unidos choravam por mais de três centenas de mortos no Alabama vítimas de tornados, dia em que mais de 60 pessoas morriam na Síria vítimas da repressão aos movimentos populares contra a ditadura, dia em que Lisboa sofria por inundações devidas a chuva de granizo, eu me preocupava com... minha aorta.
Levei meus exames ao clínico. A dilatação da aorta ascendente já chegou aos fatídicos 50 mm que recomendam cirurgia. Candidamente, o clínico me informou que aquela história de cirurgia pouco invasiva, com stent, provavelmente está descartada. Quase que certo que vai ter de ser na base de abrir tudo, serrar as costelas e resolver na porrada, ou seja, na ignorância.
Sutilezas descartadas, encaminhou-me a uma especialista em aneurisma da aorta e stent.
Acho isso curioso, ainda que não de todo mau: o clínico te manda fazer alguns exames; analisados os exames te encaminha para uma analista que vai recomendar a oportunidade ou não de cirurgia, o tipo de cirurgia etc etc.
Mas – surpresa! – a especialista determina o tipo de intervenção. Mas não a realiza. Encaminha o pobre coitado a um cirurgião. Este vai carregar o piano, ou seja, vai fazer a cirurgia. Sempre de acordo com as recomendações da especialista em aneurisma de aorta.
Haja especialização!
Depois dessas notícias não tão maravilhosas assim, fomos – a Baixinha e eu – descontrair um pouco no Bendito Bar, não sem antes dar os parabéns á filha australiana, que completa hoje 33 aninhos. Eu disse hoje? Sei lá. Quando conseguimos falar com ela pelo Skype, lá já era 30 de abril. Penso que o aniversário dela deve ser comemorado pelo horário de Brasília. Afinal, foi aqui que ela nasceu.
Vou resolver essa dúvida depois de consertar minha aorta.
terça-feira, 26 de abril de 2011
Combate às drogas
O que você acha pior:
Collor ou Logan
FHC ou um baseado
Lula ou 51
Aécio ou uma carreira de pó
Dilma ou grana
Escolha.
segunda-feira, 25 de abril de 2011
Ditados impopulares
Os cães ladram e a caravana passa. Com todo esse barulho não consigo pegar no sono.
Depois da tempestade vem a bonança. Mas aí já está tudo destruído.
A fé remove montanhas. Mas é preciso solicitar antes licença ambiental.
domingo, 24 de abril de 2011
Semana Santíssima
Na terça, depois de sair de uma angiotomografia com contraste e de um ecocardiograma com stress farmacológico, fomos – a Baixinha e eu – jantar bife de tira no Rubaiyat.
Carne dos deuses.
Na quinta fomos ao La Marie. Salada de foie gras, maravilhosa, seguida de risoto de frutos do mar para a Baixinha e de suflê de camarão para mim. Pratos inesquecíveis, acompanhados de um Cartuxa.
Sexta, dita da paixão, entrecôte com fritas no Anquier, antecedido por salada deliciosa e acompanhado por vinho do Douro.
Hoje, sábado de aleluia, polpettone no Jardim de Napoli, regado a vinho do Alentejo.
Para amanhã, Páscoa, teremos de programar comida à altura das anteriores.
Decididamente, sou adepto da Igreja Estomacal do Reino de Deus.
sábado, 23 de abril de 2011
Não serei novo Moisés
Moisés levou o povo judeu através do deserto mas não entrou na Terra Prometida.
Às vésperas de mudar definitivamente para Bragança, Portugal, vejo-me às voltas com uma cirurgia de aorta. Justo eu, que nada tenho de vegetariano (concordo, o trocadilho é infame).
Mas tenho certeza: passo por essa e me mando pra Bragança.
Afinal, não sou judeu, não guio povo algum, persigo apenas minha própria felicidade.
Minhas irmãs oram por mim. Talvez oração não ajude, mas certamene não atrapalha.
E vamo qui vamo.
quinta-feira, 21 de abril de 2011
Imitando Millôr
Comportador – notebook que tem quem o carregue
Auto-falante – indivíduo que fala sozinho
Golta – problema nas articulações de centroavantes
iLustre – candelabro fabricado pela Apple
Tolomóvel – indivíduo que apesar de não ser inteligente se movimenta.
Méximo – o balido mais forte da cabra
Múnimo – o mugido mais fraco da vaca
Portugol – gol de Cristiano Ronaldo
Alfaçanha – lisboeta que realizou uma proeza
Grotosco – indivíduo ridículo e grosseiro
quarta-feira, 20 de abril de 2011
A mosca
A mosca é um animal muito mal avaliado pelos humanos. O que é virtude pra todo mundo, na mosca considera-se defeito: a persistência.
Poucos reparam que maldizer as moscas é negar a perfeição divina. Deus as criou tendo em mente alguma finalidade. Talvez a única falha do Criador, quanto à mosca, tenha sido a de não se aperceber da sua quase infinita capacidade de reprodução.
O gênio humano tem inventado formas cruéis de acabar com as pobres moscas, desde raquetes elétricas a papéis grudentos que as matam demorada e impiedosamente. Era de esperar-se que – nestes nossos tempos politicamente corretos – várias ONG já tivessem sido criadas para lutar contra essa forma de barbárie.
Reclamamos muitíssimo dos mosquitos, que nos perturbam o sono na escuridão da noite. Ninguém, contudo, lembra-se de elogiar as moscas por não voarem no escuro.
Mas ninguém jamais viu mosca a voar no escuro. Das duas uma: ou elas não voam em tais condições ou não as vemos justamente por estar escuro.
As moscas são, ao menos parcialmente, responsáveis por outra criação divina de rara beleza, pelo menos se esquecermos do porco: o rabo. Que seria da decantada graça do cavalo, não fora o rabo? Mesmo quanto ao porco, se o rabo não é propriamente belo ao menos é saboroso. O que poderia ser dito de outras espécies, acrescente-se. Não fossem as moscas, o rabo perderia muito de sua utilidade.
No livro de Gênesis, no qual é narrada a criação do mundo, nenhuma menção é feita à criação das moscas. Alguém lembrará que as aves foram criadas no quinto dia. Dirá, até, que o escritor do Gênesis fala em criação de “toda ave de asas conforme a sua espécie” talvez já a pensar nas moscas.
Data venia, permito discordar de tal interpretação. Primeiro, jamais ouvi alguém referir-se a moscas como aves.
Segundo, duvido que alguém dotado de um mínimo de senso crítico chamasse um lugar habitado por moscas de Paraíso, como ficou conhecido o jardim do Éden.
Terceiro: Deus não conseguiria descansar no sétimo dia a menos que apagasse as luzes do Universo.
Talvez as moscas tenham sido criadas em um duvidoso oitavo dia, sei lá.
De qualquer modo, se a mosca está mesmo incluída entre os seres criados no quinto dia, nenhuma ave levou tão a sério a ordem do Criador quanto ela: “E as aves se multipliquem na terra”.
Porque coelho – aí sim – não é ave.
domingo, 10 de abril de 2011
Uma decepção e outra nem tanto
Estava hoje sem a Baixinha. Ela foi ao Rio cumprimentar o filho por mais um ano de vida e conhecer a nova neta, a Isabel, que já começou sua carreira de Electra ao nascer no dia do aniversário do pai.
Resolvi almoçar no Gigetto. restaurante tradicional de São Paulo (fundado em 1.938 e no mesmo endereço da Rua Avanhandava desde 1.969). Há tempos não saboreava o estrogonofe de frango dele, preparado com carne escura.
Pois o dito cujo estrogonofe veio com carne de peito... Mesmo assim, bem saboroso. Pedi, para acompanhá-lo, um malbec argentino Familia Barberis, 2.008. Muito bom. O preço, como já é praxe nos restaurantes de São Paulo, uma exorbitância: R$ 82,00. Quando veio a conta ele aumentou para R$ 152,00. Reclamação feita, desculpas pedidas pelo garçom, paguei a conta e fui embora.
Não me cobraram nada por ter me sentado na mesa vizinha à da ex-prefeita Luiza Erundina, acompanhada de outra senhora. Ambas já com algum excesso de idade e de peso.
Mas Erundina ainda é dos poucos políticos brasileiros que merecem respeito.
Eu disse poucos? Pouquíssimos!
sábado, 2 de abril de 2011
Inacreditável
Já há muito não mais me surpreende o tratamento dispensado a Portugal pelos media brasileiros. Quase nada se noticia a respeito da terrinha. Quando se noticia algo, é coisa ruim. Da política ao futebol, o desprezo pelas coisas portuguesas é total.
Mesmo assim, quando assisti, na coluna de Claudio Humberto, a pequeno trecho da entrevista de Dilma a Miguel Souza Tavares, não pude acreditar que aquilo a que assistia pudesse ser verdadeiro. Certamente era resultado de alguma montagem. Fui, então, procurar em sítios portugueses o vídeo completo da entrevista. E lá estava a entrevista apresentada pela SIC (TV).
Não se trata de alguma piada sobre algum brasileiro comum, algum matuto do sertão ou coisa que o valha. Trata-se da - vá lá - presidenta do Brasil.
O ridículo começa aos 11:26 minutos. Dura pouco tempo. Quem quiser pode assistir à entrevista completa.
Meus deuses! A que ponto chegámos!
Melhor: a que ponto chegaram.
Quanto a mim, tô fora.
Se preferir, aí vai um vídeo com o trecho da piada de brasileiro (ops! brasileira)
segunda-feira, 21 de março de 2011
Está a chegar o dia
Falta pouco para que me vá a Bragança. De vez. Para sempre.
Esta semana que entra, minha caçula faz 32 aninhos. Vamos almoçar na quarta feira, na Casa da Fazenda, aqui no Morumbi, São Paulo.
Essa pequenina, já com seus 32 anos, ficará aqui em São Paulo,. O outro filho, com minha fantástica nora, irá morar em Toronto, Canadá, por uns dois anos.
Minha primogênita vive em Connecticut e trabalha em New York.
Eu, coçarei o saco em Bragança.
E, assim, segue a vida.
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
Fotos de Bragança
Neste período em que aguardo minha aposentadoria para ir definitivamente para Bragança não tenho tido disposição para escrever.
Ontem, ao apreciar fotos tiradas pelos familiares durante os dias em que lá estiveram para comemorar o Natal e a entrada do novo ano, selecionei algumas das fotos de autoria de minha nora para postar.
Comecemos pelo Castelo, símbolo maior de Bragança. A seqüência abaixo mostra o anoitecer no Castelo:






Outro local importante, em Bragança, é a Praça Prof. Cavaleiro Ferreira.
Nela estão vários edifícios de órgãos públicos.
Como quase toda praça que se preza, ela tem seu chafariz:

Nela está o Teatro Municipal:

Próximo a ela fica o Shopping:
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
A Austrália não existe
A Austrália foi vítima, esta semana, do maior ciclone tropical que já passou por seu território (cobertura 24 horas, aqui).
A edição de hoje da Folha de S.Paulo, jornal que cobra R$ 52,90 (23 euros) por mês pela assinatura, não traz uma palavra sobre o assunto. Nada.
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
As eleições presidenciais em Portugal
Como tinha nossa volta a São Paulo marcada para dia 22 de janeiro, sabia que não poderia votar nas eleições presidenciais de 23, domingo.
Em função disso, acompanhei as notícias sobre os candidatos com certo desinteresse.
Quando, graças à Doga (ou melhor, graças à minha falha de memória), percebi que ficaria em Portugal no domingo, 23, percebi também que não sabia em quem votar. Sabia, quando muito, em quem não votar.
O presidente atual (e, agora se sabe, reeleito) não me agrada. Só o ouço a proferir obviedades com ar grave.
No Alegre não voto. Simplesmente por ser - ou dizer-se - socialista. Mesmo depois de meu neto de 3 anos ter achado que era eu que lá estava, em um outdoor do Alegre. Já esgotei minha paciência com as esquerdas. Portanto, fica excluído - mais ainda - o candidato do Partido Comunista. Aliás, é surrealista que ainda haja partido comunista em país democrático. E, salvo engano, em Portugal há dois!
Quanto ao Defensor, prestei relativa atenção a uma entrevista que ele concedeu à RTP. A única coisa que consegui saber dele é que tem caspa. Quem manda ir à TV de paletó preto?
Quanto ao Coelho, o Tiririca português, não acho graça em suas arengas. O Tiririca original, brasileiro, é incomparavelmente mais engraçado. E mesmo assim não votei nele.
Sobrou o Nobre. Quanto a esse, acabei por ficar sem saber de quem se trata. Por culpa minha, diga-se.
Daqui a 5 anos talvez eu esteja um pouco mais esclarecido a respeito da política portuguesa.
Talvez. Ou, como repetem constantemente os portugueses: se calhar...
domingo, 23 de janeiro de 2011
Pequeno detalhe
Anteontem, sexta, 21, alugámos um carro e partimos para o Porto. Claro que, antes disso, verificámos exaustivamente se estávamos a levar todo o necessário.
Deixámos Bragança com um céu impecavelmente azul, sol a brilhar e um frio danado, com muito vento. Vento gelado.
Nosso voo para o Brasil partia às 10:15 do sábado, 22. Por isso, preferimos ir ao Porto na véspera, caso contrário teríamos de sair muito cedo de Bragança no próprio dia do voo.
Ficámos hospedados no Hotel Castelo de Santa Catarina. Aceitam cães, desde que aceitemos ficar em quarto do jardim e não em quarto do castelo. O preço é bom: € 43 com pequeno-almoço incluído.
À noite, deixámos a Doga no quarto e fomos à pé jantar no Majestic. Fica na mesma rua Santa Catarina.
Jantar magnífico seguido de caminhada ladeira acima.
Tínhamos de acordar às 7 e pouco, o que - para nós - é bastante cedo.
Bem antes disso, exatamente às 4:08, acordei e me dei conta de que deixáramos toda a documentação da Doga guardadinha em Bragança.
Já devolvêramos o carro. Não havia forma de retornar a Bragança e voltar a tempo de embarcar.
Depois do pequeno-almoço fomos de táxi ao aeroporto, alterámos nossas reservas para o próximo voo - terço, 25, mesmo horário, alugámos outro carro e... de volta a Bragança.
O envelope com os documentos da Doga - agora - já está na mala.
domingo, 9 de janeiro de 2011
Uma coisa ou outra
As festas de final de ano, em casa, foram movimentadas. Afinal, eram 16 pessoas com idades entre 0 e 65 anos.
Graças às atuais facilidades de captação e transmissão de imagens e - é preciso dizer - graças também à influência de minha nora de origem nipônica, foram milhares de fotos tiradas durante pouco mais de 10 dias.
Houve momentos em que todos tiravam fotos de todos:

Os compreensivos leitores deste blog sabem que não é recomendável publicar fotos familiares em um blog de acesso irrestrito.
Mas alguma coisa pode ser posta aqui.
Por exemplo, esta cena do banho do neto australiano Taj. Enquanto se limpa, aproveita para gastar parte de sua infindável energia:

Já o neto carioca Rafael enfrentou a chuva, em Rio de Onor, para colocar o pé direito em Portugal enquanto o esquerdo se apóia em Espanha:

Por fim, um arroz de bogavante, saboreado avidamente por todos no restaurante La Rua, em Zamora:
sábado, 8 de janeiro de 2011
O primeiro ano de minha nova vida
É verdade que ainda há alguns meses de trabalho pela frente.
Mas a partir de algo como início de junho o ócio poderá ser total.
E, para iniciar tão auspicioso ano, passei de 31 de dezembro a primeiro de janeiro deitadinho na cama, enquanto a família festejava o novo ano na sala.
Acontece que o antibiótico que tomei errou o alvo. E a infecção voltou com força total.
Comecei o dia primeiro com nova visita à Urgência. E como não há males que não venham pra bem, pude conhecer o dr. Raul Mora, que é - mais que médico - sacerdote. Fica claro que sacerdote no antigo sentido da palavra, no tempo em que ela se dava ao respeito.
Corrigidos os rumos do tratamento, chego amanhã ao último dia de antibiótico. E já quase pronto pra outra.
Enquanto isso, em Brasília, parece que a turma lá da Comissão de Anistia passou a interessar-se por meu processo, no qual reivindico o reconhecimento de ano e meio em que trabalhei na USP sem contrato, por razões políticas.
Caso esse tempo seja reconhecido, terei já tempo de folga para a aposentadoria.
Bom demais para ser verdade? Pode ser, pode ser.
Cá em Bragança, chuva, chuva e mais chuva.
É o tempo delas, as chuvas.
Vez em quando, como agora, um tímido solzinho ilumina alguma colina próxima.
Agora que todos se foram, restam-nos duas semanas para aproveitar este paraíso, antes de retornar a São Paulo.
Vou aproveitar esse tempo para visitar meu médico de família.
É aquela velha história:
Dos 20 aos 30 anos:
- Nem te conto as mulheres que tenho conhecido! [no sentido bíblico de conhecer]
Dos 30 aos 50:
- Não sabes o restaurante a que fui ontem!
A partir dos 60:
- Conheci um médico que nem te conto!
Pois é. É hora de conhecer o meu. Mesmo porque um remédio que custa - digamos - € 55, passa a custar € 5 caso comprado com a receita do médico de família.
Continuação de bom ano!
domingo, 26 de dezembro de 2010
E 2.011 promete ser inigualável
Faz algum tempinho que cá não venho.
Pudera!
Saí de São Paulo no sábado, 11 de dezembro, com uma terrível infecção urinária e uma gripe monumental.
Como não há mal que não traga algum benefício (será?), pude começar a testar os serviços de saúde cá de Bragança.
Fui maravilhosamente bem atendido, queriam até que me internasse no hospital, mas consegui autorização para ir recuperar-me em casa.
Entre consulta médica, exames de urina, exame de sangue, aplicação de soro, tive que pagar a fortuna de €7,75.
Preciso agora ir ao médico de família para consolidar os tratamentos recomendados.
E começaram a chegar filhos e netos. Da Austrália, dos USA, do Brasil. Ao todo, 16 pessoas: 11 adultos, dois quase adolescentes (10 anos), um garoto de 3 anos, uma menina de quase 2 anos e um bebé de 3 meses.
Fomos a Passos de Lomba para que a maioria conhecesse os parentes que lá vivem. As crianças se encantaram com porcos, patos e galinhas.
Eu me encantei - mais uma vez - com o vinho feito por meus primos, sem conservantes, nem acidulantes, nem civilizantes.
A consoada foi cá em casa. O almoço de hoje, 25, também. O bobó de camarão estava ótimo.
Amanhã, 26, começa a debandada. Afinal, todos os filhos fizeram sacrifícios profissionais para virem cá, juntar-se a nós.
Alguns partem para Madrid, outros para o Porto.
Restam ainda outros que ficarão até inícios de Janeiro.
O presente que me deram, com a presença, foi maior do que o que eu poderia almejar.
Meus filhos, genros e noras são maravilhosos. Os netos são encantadores.
Que mais poderia eu pedir ao destino?
Talvez um derradeiro gole de cognac.
sábado, 4 de dezembro de 2010
Predestinado
Sou da turma da POLI-USP de 1.967.
Ontem à noite fui visitar um colega de turma. Visita muito agradável e cheia de histórias antigas, do pessoal de nossa turma.
E até de turmas anteriores.
Eu não sabia que Luiz Carlos Mendonça de Barros fora da turma anterior à nossa, a que se formou em 1.966.
Se quiser saber um pouco mais sobre ele, clique no nome do rapaz. Verá que logo em 1.967 ele já se enfronhou no mundo financeiro e foi em frente.
O que eu também não sabia é que ele foi presidente da Equipe de Recepção aos Bichos (não sei se o nome era exatamente esse) da minha turma, que chegou à POLI em 1.963.
Vai daí, o pessoal da minha turma costumava jogar partidas de futebol de salão (hoje se diz futsal). E um problema recorrente era conseguir bola.
Mendonção, como hoje é conhecido, soube da carência e não hesitou: comprou uma bola e passou a alugá-la para os bichos que jogavam futsal.
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Um tipo inesquecível
Quando era criança, eu costumava ler vários artigos em Seleções. Meu pai era assinante.
Uma seção permanente da revista era o “Meu tipo inesquecível”.
Vai daí, lembrei-me, hoje, de uma figura gravada em minha memória para sempre.
Tratava-se de um goês radicado em Santos. Constava que fora alto funcionário sei lá do quê. A bebida o levou à ruína.
Hoje sei que a bebida não leva ninguém à ruína. É a ruína que às vezes leva o indivíduo à bebida.
Mas vamos adiante.
Não lembro o nome dele. Minha irmã mais nova talvez lembre.
Tinha aquela cor cinza característica dos indianos. Vivia a mendigar e, a partir de uma certa época, passou a fazer da entrada da Primeira Igreja Batista de Santos a sua residência.
Era aquele mendigo que sempre usa um paletó. Imundo, mas paletó.
A despeito de seu estado lastimável, transmitia uma imagem altiva, quase imponente, ao menos para crianças como eu, lá pelos nove ou dez anos.
Volta e meia abordava a mim e a meus amigos da Igreja com perguntas sobre gramática, aritmética, coisas assim. E distribuía balas.
Meu pai, é óbvio, presenteou-o com alguns livros de catequese.
Lia-os e os comentava ao reencontrar meu pai. Sempre com a ressalva de que lera com atenção mas – infelizmente – sem os confortos que uma verdadeira casa poderia oferecer.
Lembro-me, em particular, de um dia em que o tesoureiro da Igreja, o Nestor, lhe deu uma nota de dois cruzeiros (se não me falha a memória era uma nota amarela), que mal dava para pagar um cafezinho.
Preocupado com a utilização que dela faria o goês, o tesoureiro advertiu:
- Veja lá o que vai fazer com esse dinheiro!
Como calhou que eu estivesse por perto, pude perceber o que murmurou o goês ao retirar-se:
- Dá-me dois cruzeiros e me diz para não esbanjar!
De pessoas assim, tenho saudade.
terça-feira, 16 de novembro de 2010
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
Ainda no clima das eleições brasileiras
Pensando bem, é claro que a nova presidente é a favor do aborto. Ela tem DIU até no nome!
terça-feira, 2 de novembro de 2010
Gêneros
Parece que Dilma gostaria de ser tratada por presidenta.
Os presidentes anteriores deveriam, então, passar a ser ditos presidentos.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Era uma vez - XXXVIII
A importância dos presos políticos dos anos 70
No tempo em que eu estava na cela 12, no chamado fundão do Pavilhão 2 do Presídio Tiradentes, houve um dia em que discutimos a respeito da eventual importância daquele nosso grupo de presos políticos no futuro do país.
Antes de falar sobre essa discussão, faço pequena digressão:
Ainda no Dops, conheci um senhor, lá pelos seus sessenta anos, preso por ser estelionatário.
Em conversa com ele, soube que, na juventude, já tinha puxado cana pelo mesmo motivo. E havia ficado preso no Presídio Tiradentes junto com o escritor Monteiro Lobato.
Ele me afirmava:
- Vocês que estão presos hoje, aqui, serão os que vão mandar no país daqui a alguns anos.
Reencontrei esse senhor no Presídio Tiradentes. Nas visitas de familiares ele segurava no colo um de seus netos e chorava por estar na situação em que estava.
Pois bem. Na discussão da cela defendi um ponto de vista inspirado nas premonições daquele simpático estelionatário.
- Vários de nós [presos políticos aqui encarcerados] seremos responsáveis por este país daqui a alguns anos. Aqui está a nata política da nação.
Meu companheiro de cela, o Jonas, sempre bastante cético, contraditava:
- Imagine! Nós somos um grupo de despreparados. Jamais teremos condição de assumir grandes responsabilidades na política nacional. As pessoas-chave sairão de outras áreas, não deste presídio.
Eu tinha de reconhecer que o grupo todo era muito fraquinho.
- - - - - - -
O tempo passou. Vários dos meus companheiros de infortúnio carcerário tornaram-se figuras proeminentes da política nacional:
Frei Betto, Paulo Vanucchi etc etc.
Finalmente, a Dilma – moradora da Torre, a parte feminina do Presídio Tiradentes – torna-se, hoje, presidente do Brasil.
- - - - - - -
Eu tinha razão.
Mas o Jonas também tinha: éramos – e somos – muito fraquinhos.
Ou mais precisamente: fraquinhos na qualificação para a direção da nação. Mas vários de nós – daquela turma encarcerada – tornaram-se fortíssimos em outras artes.
Se é que me entendem.
Brasil Norte, Brasil Sul
domingo, 31 de outubro de 2010
Olhar de Poliana
Uma das virtudes das atuais eleições brasileiras é que muito petista aprendeu o significado de tergiversar.
Não que não soubessem tergiversar.
Apenas não ligavam o nome à p'ssoa.
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Perigos da fronteira
Daqui a pouco tempo estarei a morar praticamente na fronteira de Portugal e Espanha. Mas não me parece que Bragança seja um lugar de muitos perigos.
O título deste post refere-se à fronteira lingüística, se me permitem a imagem.
O Português e o Espanhol, justamente por serem um tanto parecidos, escondem armadilhas terríveis quando se transita de uma das línguas para a outra.
Já escrevi, aqui, a respeito do mico que paguei em Madrid por não saber que plaza, além de corresponder a praça, em Português, significa também vaga (em garagem).
Hoje descobri outra armadilha: recebi um e-mail da Iberia a anunciar novo número de sua revista Plus. É esse aí abaixo:
Fiquei intrigado. Afinal, chulo, em Português, significa grosseiro, vulgar.
Por mais criativos que sejam os marqueteiros contratados pela Iberia, penso que não chegariam ao ponto de convidar alguém para ler uma revista por ser chula.
Corri a um dicionário e descobri que chulo, em Espanhol, quer dizer legal, bacana.
Portanto, cara(o)s amiga(o)s, se ao encontrarem um(a) espanholito (a) ouvirem dele(a):
- Estás más chula(o) que nunca!
não chutem o balde.
Agradeçam o elogio.
Elogio da religião
Como se fazia no rádio, antigamente:
Dedico este vídeo a todos os meus queridos parentes profundamente religiosos.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Meus progressos na prosódia
Continuo sem saber por que os portugueses falam télémóvel e tulufone (ou até tufone). Mas aprendi há pouco tempo que o bebê do Brasil é bebé em Portugal.
O cocô brasileiro vira cocó em Portugal. O grande prejudicado, neste caso, é um cunhado meu que por ter um nome um tanto complicado, obrigou-me a ensinar meus filhos, quando pequenos, a chamá-lo de Tio Cocó (Cocó era a alcunha dele na infância).
Paciência.
Como sobremesa, aprendi que bebé (ou bebê) vem do nome de um anão da corte de Stanisław Leszczyński, rei da República das Duas Nações.
Ao menos é o que informa a Infopédia.
Não entendo como vivi mais de 65 anos sem saber disso.
sábado, 23 de outubro de 2010
Bullying ontem e hoje
Quando eu tinha meus 9 anos e freqüentava o quarto ano do curso primário no Colégio Marçal, em Santos, fazia sempre o caminho de casa à escola com o coração na mão.
É que havia um garoto gordota e maior que eu que me encontrava pelo caminho e me atormentava com tapas nas costas, na cara e me desafiava. Eu, menor que ele, fugia a correr para a escola. Isso durou alguns meses. Ninguém em minha casa nunca soube nada a respeito disso. O problema era meu.
Um ano e meio depois entrei para o ginásio, no Colégio Canadá.
No início do segundo ano do Ginásio, eis que vejo o gordota a fazer parte da turma do primeiro ano, recém entrada no colégio.
Por alguma razão qualquer eu ficara maior que ele. Além de ser veterano, com todas as vantagens que isso acarreta.
Esperei um recreio propício e o enchi de porrada.
Problema resolvido. Garanto que a família dele também nunca ouviu falar do assunto.
Hoje não.
O chamado bullying é tratado por psicólogos e pedagogos.
E aplica-se até a animais, como se pode ver no post anterior.
Se o pessoal deixasse as crianças resolverem seus problemas por conta própria e aprenderem a viver a vida, tudo seria mais fácil.
Mas...
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Sujeitinho desagradável
Esse tal de Knut deve ser um chato de galocha, apesar do jeitinho bonitinho.

Primeiro foi a mãe que não o agüentou. Agora as namoradas. Três ursinhas, com as quais ele deveria começar a transar no ano que vem, resolveram sacaneá-lo sem parar. O coitado está a ser vítima de bullying por parte delas.
Ora, se nem a mãe quis saber dele, por que diabos as moçoilas deveriam aturá-lo?!
domingo, 17 de outubro de 2010
Da Idade Média ao presente em 10 horas de voo
O Brasil, nestas eleições presidenciais, mergulhou em uma discussão travada em clima medieval. Aborto, casamento de homossexuais, adoção de crianças por casais homossexuais etc etc são temas discutidos da maneira mais canhestra imaginável.
Por isso, o colunista da Folha de S.Paulo, José Simão passou a sugerir:
E quem é a favor da descriminalização do aborto, vota em quem? No bicho papão, no cão, no coisa ruim. Ou então se muda pra Europa.
É o que vou fazer.
Só pra dar uma ideia, a legislação brasileira a respeito do aborto é:
O aborto no Brasil é tipificado como crime contra a vida pelo Código Penal Brasileiro, prevendo detenção de 1 a 10 anos, de acordo com a situação. O artigo 128 do Código Penal dispõe que não se pune o crime de aborto nas seguintes hipóteses:
1. quando não há outro meio para salvar a vida da mãe;
2. quando a gravidez resulta de estupro.
Ler mais aqui.
Já a legislação portuguesa a respeito do mesmo tema evoluiu assim:
Até 1984, o aborto era proibido em Portugal em todas as situações. A lei 6/84 veio permitir a realização da interrupção voluntária da gravidez nos casos de perigo de vida para a mulher, perigo de lesão grave e duradoura para a saúde física e psíquica da mulher, quando existe malformação fetal ou quando a gravidez resultou duma violação.
Em 1997 esta legislação foi modificada, tendo existido um alargamento no prazo em situações de malformação fetal e do que até então era chamado de “violação”, actualmente denominado por “crime contra a liberdade e autodeterminação sexual da mulher” (lei 90/97). A restrição da lei e a não resposta por parte dos estabelecimentos públicos ou publicamente reconhecidos, levou à existência de uma actividade de aborto clandestino especulativo e perigoso. Como consequência desta situação, o aborto foi, durante todos estes anos, a primeira causa de morte materna e a razão que levou milhares de mulheres aos hospitais com abortos retidos/incompletos ou com complicações resultantes desta prática.
Ao longo de mais de três décadas, muitas organizações, personalidades e profissionais de saúde lutaram por mudanças na lei, de forma a combater o aborto inseguro e ilegal. Com a lei 16/2007, a interrupção da gravidez pode, hoje, ser feita por opção da mulher até às 10 semanas.
Principais disposições legais
A alínea e) do n.º 1 do artigo 142.º do Código Penal em Portugal permite a interrupção da gravidez até às 10 semanas a todas as mulheres grávidas que o solicitem, desde que realizado em estabelecimento de saúde oficial ou oficialmente reconhecido.
Qual é o prazo legal para a interrupção da gravidez por opção da mulher? Em Portugal, a interrupção da gravidez por opção da mulher pode ser efectuada nas primeiras 10 semanas de gravidez, calculadas a partir da data da última menstruação.
Quem pode solicitar uma interrupção da gravidez? Apenas a própria mulher poderá fazer o pedido de interrupção da gravidez, salvo no caso de ser psiquicamente incapaz.
Quem pode fazer a interrupção da gravidez? A interrupção da gravidez só pode ser realizada por médico, ou sob sua orientação e com o consentimento da mulher.
Onde se pode fazer uma interrupção da gravidez? As interrupções da gravidez podem ser efectuadas em estabelecimentos de saúde oficiais ou oficialmente reconhecidos.
As mulheres estrangeiras poderão fazer uma interrupção da gravidez em Portugal? As mulheres imigrantes têm os mesmos direitos de acesso à interrupção da gravidez, independentemente da sua situação legal.
Qualquer prestação de cuidados de saúde está sujeita a confidencialidade e ao segredo profissional, incluindo todas as etapas do processo de interrupção da gravidez descritas.
Ler mais aqui.
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
O sumô e o marketing político
No dia em que fiquei a saber que existia a profissão de limpador de bunda de lutador de sumô, passei rapidamente da perplexidade para a racional constatação da óbvia necessidade da função.

O mesmo ocorreu comigo quando começaram a surgir os marqueteiros políticos, tais como o conhecido Duda Mendonça, que vende tanto Lulas quanto Pingos Doces ou qualquer outro produto.
Sem eles - assessores de lutadores de sumô e marqueteiros de políticos - seria difícil esconder a merda produzida por seus clientes.
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Heróis e heróis
Pra mim, os maiores heróis nesse episódio dos mineiros chilenos foram os tais socorristas, que desceram para ajudar no resgate dos mineiros.
Claro que os mineiros se comportaram de maneira extraordinária durante os setenta dias debaixo da terra. Mas o termo herói - a meu ver - não é o que melhor os qualifica. A menos que se adote a genial e sarcástica definição de Millor Fernandes:
Herói é aquele que não teve tempo de fugir.
Já os tais socorristas se prontificaram a correr o mesmo risco que corriam os mineiros com o objetivo de salvá-los. Correram um enorme risco de modo voluntário.
No entanto, tão logo foi retirado lá do fundo o último mineiro, tudo virou festa e o presidente chileno pôs-se a falar sem parar, para comemorar o sucesso da operação. Ao fundo, via-se a roldana ainda a girar para retirar os socorristas.
E se alguma desgraça ocorresse durante o retorno dos socorristas? Todos continuariam a considerar a operação um sucesso?
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Partida
Hoje fiquei a saber que minha mudança já está em alto mar.
Muito bom.
Apenas lastimo que - eu - ainda estou em baixa terra.
Pra não dizer que não gosto de nada
Dos últimos 20 anos da música popular brasileira, salvo Renato Russo.
Fiquem com Eduardo e Mônica, retrato fantástico de uma época:
Acompanhe com a letra:
Eduardo e Monica
Composição: (Renato Russo)
Quem um dia irá dizer
Que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração?
E quem irá dizer
Que não existe razão?
Eduardo abriu os olhos mas não quis se levantar:
Ficou deitado e viu que horas eram
Enquanto Mônica tomava um conhaque,
Noutro canto da cidade
Como eles disseram.
Eduardo e Mônica um dia se encontraram sem querer
E conversaram muito mesmo pra tentar se conhecer.
Foi um carinha do cursinho do Eduardo que disse:
- Tem uma festa legal e a gente quer se divertir.
Festa estranha, com gente esquisita:
- Eu não estou legal. Não agüento mais birita.
E a Mônica riu e quis saber um pouco mais
Sobre o boyzinho que tentava impressionar
E o Eduardo, meio tonto, só pensava em ir p'rá casa:
- É quase duas eu vou me ferrar.
Eduardo e Mônica trocaram telefone
Depois telefonaram e decidiram se encontrar.
O Eduardo sugeriu uma lanchonete
Mas a Mônica queria ver o filme do Godard.
Se encontraram então no parque da cidade
A Mônica de moto e o Eduardo de camelo
O Eduardo achou estranho e melhor não comentar
Mas a menina tinha tinta no cabelo.
Eduardo e Mônica eram nada parecidos -
Ela era de Leão e ele tinha dezesseis.
Ela fazia Medicina e falava alemão
E ele ainda nas aulinhas de inglês.
Ela gostava do Bandeira e do Bauhaus,
De Van Gogh e dos Mutantes,
De Caetano e de Rimbaud
E o Eduardo gostava de novela
E jogava futebol de botão com seu avô.
Ela falava coisas sobre o Planalto Central,
Também magia e meditação.
E o Eduardo ainda estava
No esquema "escola-cinema-clube-televisão".
E, mesmo com tudo diferente,
Veio mesmo, de repente,
Uma vontade de se ver
E os dois se encontravam todo dia
E a vontade crescia,
Como tinha de ser.
Eduardo e Mônica fizeram natação, fotografia,
Teatro, artesanato e foram viajar.
A Mônica explicava p'ro Eduardo
Coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar:
Ele aprendeu a beber, deixou o cabelo crescer
E decidiu trabalhar;
E ela se formou no mesmo mês
Em que ele passou no vestibular
E os dois comemoraram juntos
E também brigaram juntos, muitas vezes depois
E todo mundo diz que ele completa ela e vice-versa,
Que nem feijão com arroz.
Construíram uma casa uns dois anos atrás,
Mais ou menos quando os gêmeos vieram -
Batalharam grana e seguraram legal
A barra mais pesada que tiveram.
Eduardo e Mônica voltaram p'rá Brasília
E a nossa amizade dá saudade no verão.
Só que nessas férias não vão viajar
Porque o filhinho do Eduardo
Tá de recuperação.
E quem um dia irá dizer
Que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração?
E quem irá dizer
Que não existe razão?
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Cadê a solidariedade?
Em um post de 2.006, contei a história de minha saída do CAPI Vestibulares. Fui mandado embora, de maneira absolutamente injusta, e toda (TODA) a equipe de professores demitiu-se em solidariedade.
Um dos comentários, de Danilo Melo (que não sei quem é), afirmava:
Em 1968 com emprego saindo pelo ladrão era bem mais fácil ser solidário às injustiças da vida...
Pois bem. Hoje, pelo que alardeia o governo (e a oposição não desmente), há emprego saindo pelo ladrão, como dizia Danilo em 2.006.
E - me pergunto - haverá exemplos de solidariedade como aquela de que fui beneficiário?
Duvido.
domingo, 3 de outubro de 2010
Meu (pen)último voto no Brasil
Acabo de votar. No mesmo Colégio Costa Manso no qual voto há quase 30 anos.
Talvez esse seja meu último voto no Brasil. Basta que não haja segundo turno.
Como voto em São Paulo, as pesquisas indicam vitória folgada do candidato tucano, já no primeiro turno. Restam as eleições presidenciais, nas quais há a ameaça (para alguns) ou esperança (para outros) de segundo turno.
Anulei o voto de ponta a ponta.
Não me resta nenhum interesse pela política brasileira. Apenas me sobrou uma certa curiosidade a respeito de até onde poderá descer a prática política no Brasil.
O fato de muitos candidatos serem incrivelmente desqualificados não quer dizer nada. A questão gritante é que vários deles serão eleitos. E, alguns, arrastarão vários desconhecidos e/ou pouco votados para a Câmara Federal e para as Assembleias estaduais.
Mas o eleitor, em sua grande maioria, não tem a menor condição de entender o sistema de voto proporcional.
E nossos maravilhosos ministros do Supremo Tribunal Federal transformaram o Título de Eleitor no único documento oficial que não permite que se vote.
E gostam de contar piadas sobre o que consideram ser a burrice dos portugueses.
Tenho pena dos que continuarão a viver nesta terra. Em particular, me preocupo por meus familiares que aqui permanecerão. Principalmente os mais jovens.
Mas pouco ou nada posso fazer para levá-los daqui.
Terão de viver sob as leis que o palhaço Tiririca aprovará.
Terão de viver sob uma justiça em que se negocia até o impedimento de voto de ministro do Supremo.
Terão de viver sob as ordens de um Executivo comprometido até a medula com o crime.
Quanto a mim, encerrei minha longa e inútil carreira de eleitor, nestepaiz.
sábado, 25 de setembro de 2010
Recordação
Um de meus melhores professores foi o Baronão. Era (e ainda é) tratado assim por que tinha um irmão mais novo, o Baroninho, por sinal nascido no mesmo exato dia em que nasci. Baroninho, já falecido, foi meu colega na POLI. Depois, deixou a POLI de lado e se firmou como matemático, tal qual o irmão mais velho.
Baronão, que me deu aulas no Curso Di Tulio, costumava entrar em sala de aula, às vezes, e dizer:
- Recordar é viver, então, vamos recordar.
E toca a retomar resumidamente tudo o que já havia sido ensinado.
Pois é. A foto abaixo me foi enviada por minha tia Clarisse.
Nela aparece meu avô Vicente. Ele casou-se com minha avó Amélia, quando ela tinha seus 15 anos. Aos 16 nasceu minha mãe, Celina. Aos 17, meu tio Antero; aos 18, minha tia Olinda; aos 19, meu tio Silas. Tudo isso eu cito mais ou menos. Não tenho as datas certas. Minha irmã Léa vai me corrigir. Aos 21 ou 22 anos, morreu minha avó Amélia, de febre amarela, no Rio de Janeiro. Corria o ano de 1.919, pouco mais, pouco menos.
Vai daí, meu avô Vicente, filho de italianos, mas adotado por um padrasto português logo que minha bisavó ficou viúva e casou-se novamente, resolveu casar-se com a irmã de minha avó. Como dizia minha mãe, a tia Tuta.
Daí vieram tio Afrânio e tio Paulo. Como minha tia avó também morreu precocemente (aqui entre nós, meu querido avô Vicente era um tremendo pé frio, né não?), meu avô casou-se pela terceira e derradeira vez com Dona Chiquinha, mulher linda, que gerou meu tio Vadinho, na foto, e minha tia Clarisse, até hoje a compartilhar alegrias com a gente, junto a seu gaúcho, o Reguera.
Tudo isso para explicar a foto abaixo, carregada de recordações: nela estão Dona Chiquinha, meu tio Vadinho (que me ensinou que careca adora um pente) e meu avô Vicente.
Taj e Allana
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
Final de ano em Bragança
Pois é. Lá pra 20 ou 21 de dezembro vão começar a chegar a Bragança irmã, filhos, netos e sogra de um filho.
Vamos comemorar Natal e Ano Novo, ali, ao pé do Parque Natural de Montesinho, com neve ou sem neve. E já com os móveis que acabam de sair daqui de São Paulo rumo ao Velho Mundo.

Vamos conhecer - pessoalmente - a Isabella, nossa segunda neta, que irá pra lá, a partir de New York.
Vamos conhecer Allana, nossa terceira neta, recém nascida na Austrália.
E vamos poder brincar na neve (se houver) com o Taj e a Bruna, os demais netos.
Ficará faltando o Rafael, primeiro neto, que não poderá ir.
Não nos esqueçamos da Doga, que ficaria ressentida se fosse deixada de lado.
E que tudo seja inesquecível. Por ser maravilhoso.
terça-feira, 21 de setembro de 2010
Comunicado imprescindível
Dia desses, penso que 15 de setembro (ou terá sido 16? esses fusos horários complicam minha vida) nasceu Allana, primeira neta australiana.
Nós ainda não a vimos. Dizem ser mais bonita que o irmão Taj. Se isso for verdade, preparem-se para uma nova Miss Australia 2.028.
A mãe, Lu, está super bem.
Bola pra frente.
Enquanto nós mandamos nossos móveis para Bragança, Allana traz suas esperanças para o planeta Terra.
Caos
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Velório de Romeu
(escrito em 9/10 de agosto de 1.975)
O café não está dos piores, quero ver é acordar às sete pra pegar aquela papelada toda e botar em ordem. Mas não havia jeito, Romeu era subordinado seu e se ele não aparecesse no velório iria ser uma falação dos diabos entre os colegas de trabalho.
Pois é, meu senhor, basta estar vivo, a-vida-é-assim-mesmo, ainda por cima essa velha carpideira resolver despejar sua catarata de lugares comuns justo em cima de mim, parece que hoje não é o meu dia. Convenceu-se logo de que não era mesmo pois a velha a seu lado atraiu para aquele canto da sala um animado grupo de matronas, todas muito seguras em seus papéis, verdadeiras profissionais naquele ambiente de lágrimas & condolências. E foi o dilúvio. O senhor era chefe do Romeu, não era?, pobrezinho, tão jovem, ainda ontem tão sadio, tão disposto. Quem diria!... Distribuía para as velhotas expressões que o constrangimento devia tornar estúpidas, mas de qualquer forma sobrevivia. O fato é que o molenga do Romeu nunca esteve muito vivo, o prazo para entregarem aquele projeto já se estava esgotando e o homem sempre no mesmo ritmo, incapaz de dar duro e resolver logo a coisa. Aceita um café? Parece que adivinhava que a bomba iria estourar na minha mão, o vidente. Virou o café aproveitando para examinar a sala, a televisão do outro lado dominando a cena, mesmo desligada, embutida em um móvel sobre o qual estava uma bandeja com xícaras e uma garrafa térmica. Aquele montão de cadeiras certamente tinha sido trazido pela vizinhança, normalmente as poltronas e o sofá também não deveriam ficar todos assim, ao longo das paredes, tudo devia girar em torno da televisão, os móveis e a família. Pensou, por falta de idéia melhor, que afinal a morte talvez fosse o único evento capaz de romper a mania das novelas e dos shows de TV. Ou talvez não, porque a mulherada que o cercava parecia estar em pleno debate a respeito de capítulos mais recentes das novelas preferidas. Pensou na viúva, sentada ao lado de pessoas da família, menos por pena, mais para não ouvir a conversa à sua volta. Não era uma mulher totalmente feia, ou melhor, nela a questão se situava em outros termos, não era bonita nem feia, parecia simplesmente um pouco mais medíocre que o normal das esposas-de-funcionários-de-nível-médio. Que era a morte do Romeu para ela? Provavelmente volta a morar com os pais. Uma vez por ano leva flores ao túmulo, talvez mais, sei lá. O terrível é que me parece que nada é capaz de abalar nela essa atmosfera de cotidiano, romper esse bloco de bom senso. Não vai passar por nenhuma reorientação essencial, apenas leves alterações de rotinas diárias. No entanto, morrera o homem com o qual construira todos os orgasmos de sua vida, para o qual cozinhara durante uns vinte anos, entra-dia-sai-dia, um lava-passa de cuecas, camisas, meias e o diabo! Mediocridades compartilhadas, ainda mais que a falta de filhos os deixara todos esses anos cara a cara, sem biombos, interfaces protetoras, que coisa linda que os filhos são!, como é que podia associar essas coisas todas com Vinicius, velório é isso, a gente começa a revirar memória, esforço pra não dar aqueles bocejos indelicados... de repente, não mais que de repente, a gente desenterra poemas, amigos esquecidos, mortos pra gente, cujas mortes - dessas sem velórios, enterros, mais efetivas porque menos rituais - ajudaram a alterar nossos rumos, de um jeito ou de outro nos arrastaram até aqui, ou teriam nos empurrado mais pra lá se não tivessem sido, se os amigos (se os poemas) tivessem vivido mais, se suas forças de gravidade nos tivessem por mais tempo segurado em órbitas passadas, mortas agora. O senhor está acompanhando também? O último capítulo estava apaixonante! Claro, claro, ainda bem que essas madames não exigem muito das respostas, não são como Isabel, que queria tudo explicadinho, espoleta a Isabel, só sossegava na cama, mas antes!, veja a ironia. Que bicho terá comido a danada, sumiu. Naquele tempo as pessoas iam e vinham sem muitas cerimônias, sem batizados nem velórios, passavam. A fase das grandes amizades já havia passado, ainda não surgira a época das amizades formais, de conveniência, era o vazio-de-final-de-adolescência. Qualquer dia teorizo isso. Estará fazendo o quê, a Isabel, certamente ouvindo explicações de algum outro, será que já aprendeu a trepar?, vai ver pensa que a culpa era minha. De qualquer jeito, outro mundo, de qualquer modo, morta, mais talvez do que o Romeu. Biscoito? Obrigado. A questão é que Isabel não lhe dizia mais nada, agora que ausente. Outros vazios doíam mais, amizades nas quais esgotara imprudentemente toda a sinceridade e paixão que deveria ter espalhado mais de modo homogêneo pela vida inteira. Caso do Gomes. Porra, o Gomes! Houve época em que não podia imaginar um dia sem um papo com o Gomes. Sofreram juntos os dramas seus e os do mundo, discutiram em detalhes intermináveis os absurdos da vida, tudo com muito conhaque (o Gomes sabia beber conhaque) e muita música pra catalisar tristeza. Pensando nisso, será que pega mal se eu pedir um conhaque aí pra alguma responsável pelos comes-e-bebes?, seria até um jeito de sair desta roda de galinhas estéreis. Com licença.
Conseguiu seu conhaque sem muita dificuldade, esgueirou-se para o jardim da frente da casa e aboletou-se no murinho que o separava da calçada já deserta. O conhaque era de quinta categoria, mas a noite estava soberba. Estivesse com o Gomes, estaria bebendo um Macieira, no mínimo. Mas não teríamos nada pra dizer. Aqueles planos de largar tudo, sair por aí escrevendo poemas, hoje isso soaria como uma proposta de sair da Via Láctea à procura da origem do cosmos. Agora que tudo era farsa, já não sabia estabelecer até que ponto falavam sério naqueles papos de antes. antes do quê, afinal. Gozado como não houve nenhum ponto de ruptura bem delimitado, essas coisas só existem nas teorias. Certamente o Gomes era mais sincero, parecia falar sempre mais de dentro, mais pra valer. Ele sempre puxava os temas, as variantes do mesmo Tema. A partir do terceiro copo os dois já estavam mergulhados vitalmente naquele mundo de projetos e desespero, mas no início era o Gomes que os arrastava para aqueles ódios sem objeto, aquela nostalgia sem passado. A viúva, lá dentro, começava a chorar mais alto. Olhou o céu pintadinho de estrelas, pra que canto teria ido o Romeu, pra que lado teria ido o Gomes, foram se encontrando cada vez menos, o Gomes muito preocupado com desigualdades sociais, exploração capitalista, sua fase política - como ele mesmo costumava dizer. Eu sempre achei esse tipo de coisa meio paranóica. Mas ele insistia que agora sim, que agora tinha conseguido abordar os problemas pelo lado certo, pobre Gomes, precisava mesmo era de mulher. Tentou ainda discutir com o Gomes, mas já não se acertavam mais, os pontos de referência distintos, uma bagunça. Tudo que ele dizia o Gomes classificava de ideológico. Porra, Gomes, mulher é ideológico!? Bebiam mais um conhaque num silêncio meio embasbacante, depois era aquela despedida murcha, aparece cara, nada como antes, ou com aquelas lágrimas inexplicáveis borrando os olhos, levantava em silêncio, um silêncio todo expressivo, dava uns tapinhas nas costas do Gomes imóvel, olhos no chão, no nada, saía lento, um tempo já perdido pela frente. Depois foi a vida profissional pra mim, a revolução pro Gomes, nossas órbitas foram se descolando, morremos mutuamente. Serei para o Gomes hoje uma encarnação da classe média, exemplo de conceito, abstração. De certo modo Romeu está mais vivo, sua ausência me dará um trabalhão amanhã. Morto ou não, terei de dar um jeito naquela papelada. Nenhum de nós dois dava a mínima pelo mundo, sentíamos tudo como massa indiferente, achávamos sem sentido que alguém corresse atrás de objetivos nesse universo absurdo. Não sabíamos (eu acho que já sabia) que fazíamos a crítica de nosso futuro. Que puta incoerência. E pensar que aquela adolescência foi a nossa, que deve haver algo daquilo tudo sedimentado em algum canto cinicamente escondido dessa minha cabeça oca. O Gomes tentando mudar tudo, debatendo-se contra o estabelecido, vai ver está com a razão, sempre ele mais perto do certo, sei lá, pelo menos deve ter pra onde ir, pra onde olhar, sem sentir-se nesse ciclo interminável que só faz girar pra nos dar a sensação de movimento. Serviços urgentes, menos urgentes, filmes melhores, piores, livros chatos, outros bons, mulheres loiras, morenas, pintas que se espalham diferentemente pelos corpos pra criar uma sensação de diferença, de variação, de surpresa. Mas Aquiles não alcança mesmo a tartaruga, não é mesmo?, Gomes, continuemos inertes, parados na adolescência, ir à frente é ilusório, tanto é que fomos e estamos mortos. Despeja aí um conhaque e vamos ficar parados no antes, antes que você subverta o mundo, antes que eu me acabe de tédio. Que idéia idiota foi essa de matar nossas convicções, enterrar a perplexidade, descobrir certezas. Veja só, até já consigo borrar de novo os olhos daquela maneira estúpida de antes, sem que nada seja dito, nem mesmo pensado. Onde está você, Gomes, pra gente partilhar esse sofrimento feliz.
Foi virar mais um gole, copo vazio. Ainda esticou maquinalmente a mão para pegar a garrafa, pegou foi a lembrança do velório, viúva chorando, velhas carpideiras de mortes reais e televisionadas, o Romeu, caramba!, a papelada amanhã... Já é tarde, hora de cumprir o ingrato dever das despedidas cheias de pêsames e silêncios constrangidos. Entrou na sala, aproximou-se da viúva. Ao abraçá-la pensou - satisfeito - que suas lágrimas vinham bem a calhar, dariam a impressão de estar realmente triste.
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
Lição de puericultura
(texto sem data, escrito em um dia qualquer do segundo semestre de 1.975. Por algum motivo de que não me lembro, quase todo o texto está em minúsculas)
conseguiu acalmar o guri sabe lá como, tantos os truques que tentou, tudo misturado, quem tem tempo nessas horas pra ficar isolando causas metodicamente, o que importa é o efeito. correu ao livro recém adquirido, Manual do Petiz, coisa do gênero, o nome não recomendava mas a inexperiência sim, de repente tendo de cuidar daquela miudice de exigências inadiáveis. procurou choro no índice remissivo e foi enviado a umas poucas tautologias do tipo "o choro do lactente indica frio ou calor ou cólicas ou febre ou fome ou ...". folheou mais um pouco aquele amontoado de frases vazias e desistiu, mesmo porque o guri já recomeçara o berreiro.
lembrou do pediatra que procurara na semana passada. já teria voltado de férias? afinal, se o médico examinasse a criança talvez pudesse dizer alguma coisa além das generalidades daquele livro inútil. onde estava com a cabeça quando comprara aquilo? a finalidade óbvia daquela geringonça era a de capitalizar a preocupação de pais inexperientes e reunir para o autor uns restos de salários esquecidos aqui e ali pela indústria do entupa-seu-bebê-com-os-produtos-da-mais-avançada-techologia. enrolou bem aqueles cinqüenta centímetros barulhentos e arrancou para o pediatra.
ficou pouco tempo no consultório de ar condicionado e bichinhos disney. o suficiente pra responder um questionário genérico, ver o moleque ser profissionalmente apalpado pelo médico e receber umas três receitas cheias de nomes horrorosos. ao sair pagou um dinheirão a uma secretária estrategicamente situada em uma mesa cercada de mamães aflitas e/ou aparvalhadas.
chegou a pensar em tomar o rumo da farmácia mais próxima mas estava assustado diante daquele ciclo interminável: um livro caça-níqueis que recomenda os produtos Vamos&Venhamos que causam problemas que só o pediatra pode resolver - ou melhor - pode encaminhar aos remédios dos laboratórios especializados em introduzir o recém nascido na rotina dos produtos e ante-produtos e metaprodutos. ainda tentou desculpar o pediatra: se todos procuravam lucrar ao máximo, não era culpa dele se o objeto de seu trabalho eram crianças doentes. Além disso, ele até que ficava com uma fatia pequena nesse rendoso negócio que faziam com a saúde das pessoas... Também, que podia fazer o pediatra se a pediatria continuava na estaca zero? Se nada se sabe com um mínimo de segurança a respeito de crianças recém nascidas, já que essa estória de conhecimento e ciência também é controlada pela indústria das doenças, por uma indústria doente, também precisando de remédios?... e desculpou o livro via pediatra e este através da indústria e esta graças à sociedade. voltou pra casa furioso e descontrolado, se bem que era o guri que gritava sem parar.
aquele sem fim de conexões impessoais e opressoras o agitava. pensava um pouco em tudo sem conseguir fixar-se em nada. os livros, médicos, indústrias, ciências, sociedade, tudo girava num turbilhão gigante. Pensou em lançar tudo fora e começou pelo livro. O Manual do Petiz foi minuciosamente picado e lançado janela afora. Jogou fora o pediatra, os pediatras, os remédios, as indústrias de remédios. Foi preso e condenado a cinco anos de reclusão quando tentava jogar fora a sociedade.
domingo, 12 de setembro de 2010
Escritos antigos
Isso é que dá, ter de arrumar tudo para a mudança. Encontram-se escritos esquecidos, soterrados por pastas, papéis...
Lá vai um poema de janeiro de 1.983:
Escrevo sobre força
E uma fraqueza ronda.
Os feitos que quero
Não quero.
Os fatos que posso
Não quero.
Quero o que escapa,
derrapa.
A dúvida solapa
toda certeza.
domingo, 5 de setembro de 2010
Alegrias globais e locais
Não há como negar. Hoje, para mim, foi um dia triste.
Amanhã vou ao Porto aguardar o embarque para o Brasil, na terça.
Mas dois acontecimentos deram um colorido alegre a esse domingo.
Primeiro é o que leio no Público on line: a ETA apresentou à BBC um vídeo com declaração de cessar-fogo.
Tomara seja pra valer e seja definitivo.
Segundo: estava esta manhã sentado diante do computador quando reparei que um passarinho havia entrado na varanda de casa.
Como as proteções da varanda são de vidro, o passarinho tentava sair e batia com o bico no vidro. Andava de um lado a outro, quase em desespero.
Fiquei com receio de lançá-lo para fora e ele se esborrachar lá no chão, pois tudo indicava que ele não conseguia voar.
Resolvi deixá-lo ali até depois do almoço.
No começo da tarde, ao voltar, percebi que o passarinho continuava no chão da varanda, já agora quietinho, parado.
Resolvi arriscar.
Peguei-o com algum esforço pois minha aproximação o assustava muito e ele corria de um lado para outro.
Com uma dúvida enorme, lancei-o ao ar.
Foi o vôo mais lindo que já vi um pássaro dar.
sábado, 4 de setembro de 2010
Mais uma despedida
Hoje fui a Passos despedir-me dos parentes. Ou seja, de todos.
Passei na casa de Maria Tereza, conversámos um bocadinho. Ela reclamava do calor. Pudera, com toda aquela indumentária preta, de viúva, há de sentir muito calor.
Da próxima vez, vou propor-lhe que lance a moda de roupas brancas para as viúvas.
Ficará indignada, claro. Mas que seria bom, seria.
Fui, depois, à Dora. Descansava na parte de baixo da casa, onde antes eram guardadas as vacas. É fresquinho, lá. Brinquei com ela que as vacas eram tão saudáveis porque viviam na melhor parte da casa. Dora transformou aquilo em uma agradável sala de estar.
Dali fui ao Café do Otávio. Encontrei o Irineu, da Gestosa, filho do Zindo. Aproveitámos o Café para tomar um fino. Gostei do brinde dele:
- Que nossas esposas não fiquem viúvas!
Andei à casa da Zelinda. Ela limpava feijão, enquanto o Alípio exercitava sua habilidade em matar moscas, munido daquela espécie de espátula de plástico, própria para esse tipo de assassinato.
Jogámos meia hora de conversa fora.
Voltei ao Café, na esperança de encontrar o Marciano, que anda por aqui. É mais fácil nos encontrarmos na aldeia do que em São Paulo, onde moramos em bairros vizinhos. Mas não houve hipótese. Parece que estava pra Vinhais. Se não terá sido ele que quase me abalroou, na estrada de Passos a Vinhais, quando de meu retorno a Bragança.
Antes de partir, encontrei o Kiko, que me prometera um garrafão de vinho e um pouco de bagaço. Pedi a ele que mos dê aquando do Natal, quando estiverem cá meus filhos e netos.
No retorno a Bragança, não resisti a uma paradinha e a esta foto.
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
O sumo da cultura
Quando criança, lia nos livros aquilo de donzela de lábios cor de romã. E ficava a imaginar que diabo de cor seria essa. Nunca vira uma romã.
Hoje, tomo sumo de romã e gosto de ver a Baixinha comer romã de verdade, com um prazer indisfarçável (e por que raios ela deveria disfarçar?).
Agora, decepção mesmo foi quando li na caixinha Tetra Pak do sumo de romã que, em espanhol, romã é granada.
Isso lá é cor pra lábios românticos?
Será (vou investigar) que nos romances em espanhol o mocinho comenta que a donzela tem lábios cor de granada?
Hoje saí às compras. Ou talvez seja mais correto dizer que saí à compra. Fui comprar apenas uma coisa: uma escada. A Baixinha pediu-me, na conversa de ontem pelo Skype, que comprasse uma escada maior do que a que já temos. Ela havia comprado uma de dois degraus. E se deu conta, agora, de que é necessária uma de cinco degraus. Não só por ela ser baixinha, mas para que eu, que não sou nenhum gigante mas sou bem maior que ela, possa alcançar livros na prateleira mais alta do escritório.
Entrei na loja, dei aquela volta de reconhecimento, vi que não havia escada alguma à venda. Por via das dúvidas, perguntei a uma atendente:
- Não têm escadas?
Que belo mico!
Para azar meu, a loja até tem uma escada mais ou menos no meio do salão, por ser este de dois níveis distintos.
Com um sorriso levemente irônico, a mocinha fulminou:
- Escadotes? Não, não temos.
Os dicionários trazem escadote sem nenhuma observação de ser termo usado em Portugal e não no Brasil. Mas, no Brasil, nunca ouvi ninguém utilizá-lo.
Sou, agora, o feliz proprietário de dois escadotes. O último dos quais paguei com pequena parte de minha inesgotável ignorância.
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Calma e paixão
Estava ontem a reler o texto de uma caixinha de sumo de maracujá (observação: intelectual brasileiro jamais lê. Ele sempre relê) quando me surpreendi com o nome dessa fruta em um monte de outras línguas: passion fruit (inglês), fruit de la passion (francês), passievrucht (holandês), passionfrucht (alemão), passionfrukt (sueco).

Em primeiro lugar, apesar de eu ser o primeiro a reconhecer uma caixinha de sumo de frutas como fonte importante de cultura (e de um monte de outras coisas, a julgar pela Informação Nutricional), não se deve concluir do que foi dito acima que quem sabe alemão consegue falar tranqüilamente holandês e sueco. Devagar com o andor.
Mas o importante, a meu ver, é a brutal discrepância do nome da fruta em tudo quanto é língua (não consultei o mirandês, é verdade) e o nome da dita cuja em português.
Mais: os dicionários e a vida ensinam que a paixão nada tem de calma. E eu vivi uma já longa existência a ouvir que o maracujá é excelente calmante. Na TV brasileira já houve até um comercial, protagonizado por Juca de Oliveira, notável ator e autor teatral (na TV todos são a lesma lerda), em que ele afirmava:
- Beba Maracujina e fique calmiiiinho, calminho.
Se esse bendito comercial devesse ser vertido para, digamos, o sueco, teria de ser assim (em sueco, mas vai em português que eu não sou o Janer Cristaldo):
- Beba Paixãozina e fique arrebatado e exaltado.
(talvez em sueco até soe melhor)
O Houaiss diz que maracujá vem do tupi moroku'ya. Vá lá.
Mas por que diabos as outras línguas chamam de fruta da paixão a uma fruta que acalma?!
Algo errado
Logo ao acordar verifico que Internet, TV e telefone, viva!, funcionam.
Vou até a cozinha e o frigorífico de época que consegui comprar me arrasta para o início da década de 60, quando minha mãe me emprestou a geladeira que nos acompanhara durante anos, em Santos. Ela ia morar com minha irmã no Rio e eu instalei a geladeira no quarto da república de estudantes em que morava, em São Paulo. Como era bom, chegar à noite a meu quarto e poder fazer uma vitamina de frutas com leite fresco. Era meu jantar. Quanto aos frigoríficos, há diferenças: este é vermelho, aquele era branco. Este é Bosch, aquele era Frigidaire, se não me falha a memória (e como falha). Mas eu também mudei. E quanto.

Volto ao computador. E aprecio Diana Krall no Bic Laranja.
Ainda hoje duvido um bocadinho da existência dessa mulher. O que não me impede de apreciar sua música.
A luz do céu de Bragança está simplesmente maravilhosa.
É aí que me parece haver algo de errado em tudo isso.
Afinal, segundas-feiras não foram feitas pra deixar ninguém tão feliz.
domingo, 29 de agosto de 2010
Um domingo de mixed feelings
Fui a Passos, hoje. Almocei com Zelinda, Alípio, sua filha, genro e neta.
Não poderia ter sido melhor. Não a comida, que foi boa, mas o convívio.
Depois, fui ver Maria Tereza, fui ao café do Otavio e voltei à Zelinda, depois do Kiko me empurrar uma rifa de 20 euros para uma finalidade pra lá de nobre: um centro de convívio que será construído no terreno da escola (desativada), para permitir que os idosos façam suas refeições (pequeno almoço, almoço e jantar) lá, ou que recebam tudo isso em casa, se a locomoção já for difícil.
É a aldeia a preparar-se para o tempo final dos velhos habitantes.
Quando é que alguém vai acordar pra reavivar esses paraísos que são as aldeias trasmontanas?
Fiquei também a saber que morreu minha tia Juventina, no Brasil. Meia-irmã de meu pai. Nenhum de seus filhos ou sobrinhos dignou-se a avisar-me.
Paciência.
Voltei a Bragança e fiquei a saber que a Baixinha está com pneumonia. Já tive esse dissabor. Basta uma semana de repouso absoluto e pronto. Tudo resolvido. Só duvido que ela tenha capacidade de manter repouso absoluto por um dia que seja.
Mas tudo se resolve. Ou não.
sábado, 28 de agosto de 2010
Ainda sobre a Albufeira do Azibo
Dia destes, escrevi, aqui, sobre as praias fluviais da barragem do Azibo.
Eu não as conhecia. Aproveitei este sábado, de muito sol e calor, para ir até lá. É certo que deixei pra ir lá pras cinco da tarde. Mesmo assim, tratei de passar protetor solar nos antebraços e no rosto (o resto, devidamente coberto. Já chega minha neta, que se queimou toda, lá em Westport, e está de molho, à espera de melhoras).
De Bragança até lá são uns 25 km, pelo IP4. Mas isso é contado a partir de Bragança Sul. Como resido no extremo norte da cidade, de minha casa até lá são 40 km.Isso se faz em 20 ou 25 minutos, já que a velocidade permitida nos IP é de 110 km/h.
Vai-se pelo IP4 até encontrar-se a placa para Azibo. Entra-se, então, em uma estrada secundária bem cuidada, como podem constatar nas duas fotos abaixo:


Mas não se empolgue: vai andar apenas uns 200 metros nela e já está no Azibo.
O restante as fotos contam:








E agora, esta
Estava eu a ler a Sábado e encontro isto:
Diz ele que eram usados [blusões que tinham gola em pelúcia] pelos betos que tinham mota e provocavam tremenda inveja nos outros [...].
(Sábado, nº 330, pag. 19, in crônica de Nuno Markl)
Meu apelido de infância é Beto.
Fui ao dicionário:
beto
nome masculino e adjectivo
coloquial jovem bem comportado, geralmente um pouco presumido
presumido
adjectivo
1. vaidoso; presunçoso
2. afectado
3. que é uma hipótese; suposto; conjecturado
nome masculino
indivíduo com presunção ou vaidade
Ainda bem que pouca gente me trata por Beto.
Parece que, aqui em Portugal, Beto é o mesmo que Mauricinho, no Brasil.
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
Minha Luta (contra a PT)
Não. Este post não se refere, a não ser como blague, ao livrinho do Adolf.
Acontece que cheguei ao Porto na quarta de manhã, depois de vôo tranqüilo (às favas, a reforma ortográfica), a não ser por uma freada um tanto abrupta na aterrissagem no aeroporto da Maia. Sozinho. A Baixinha e a Doga ficaram em São Paulo.
Duas horas e meia até Bragança. Sol a todo vapor (essa expressão faz sentido?).
Já perto de Mirandela percebi que meus antebraços estavam vermelhos. Passei a dirigir tentando deixar os braços à sombra. Ainda bem que a Baixinha meteu em minha bagagem um protetor solar que vai me socorrer. Mas só depois de chegar em casa e abrir a mala.
Por falar em casa, estava por aqui tudo direitinho. Ou melhor, quase tudo.
A TV, a Internet e o telefone (que algum dia, pra provar que sou português, vou conseguir chamar de tulufone) não funcionavam.
Ocorre que contratei a MEO, da PT. E como isto aqui é a parte mais atrasada de Portugal, nada de fibra. Isso de fibra ainda é requinte de alfacinhas. Pra deixar tudo mais claro: a qualidade da Internet, cá em Bragança, talvez seja a pior de Portugal. E é equivalente (ou pouco superior) à melhor de que se dispõe no Brasil.
Como se percebe, nós, os brasileiros, temos toda a razão quando ridicularizamos a nós, os portugueses. Segue o jogo.
Ligo, então, à PT. Isto ainda na quarta-feira. Descobrem, sabe-se lá de que modo, que o problema é externo à minha morada. Por via das dúvidas (e nem Descartes conseguiu ter tantas dúvidas), fazem o agendamento (detesto essa palavra) de uma visita técnica para o caso de o problema persistir depois da intervenção na parte externa de minha residência: será na quinta, entre 14 e 18 horas. Isso significa que ficarei preso a meu apartamento durante toda a tarde de quinta-feira. Para quem passou um bom tempo (ou terá sido mau?) em uma cela de prisão, isso não deveria constituir nenhum drama. Acontece que vim até Bragança pra resolver uma porção de probleminhas. Uma tarde trancado em casa não era exatamente o que eu tinha pedido aos deuses. E, last but not least, eu tinha de 26 a 28 anos quando fiquei sob tranca no presídio Tiradentes. Agora, sou um ancião de 65 anos que não dispõe de muito tempo pra ver a banda passar.
Como todo mundo já adivinhou, o problema não foi resolvido e a visita não deu as caras. E nem satisfação.
Toca a ligar pro tal 16200 da PT, que - registe-se - é gratuito [alô pessoal do horário eleitoral da TV brasileira: é gratúito e não gratuíto] só pra quem liga de um telefone da PT. Mas justamente por eu estar a ligar por causa da falência múltipla de órgãos de meu sistema MEO, inclua-se aí o tulufone, tive de ligar do meu telemóvel TMN. E gastei, acreditem, DEZENAS de euros. É um tal de transferir a sua ligação (muito importante para nós) para outro lugar, que chego a pensar que a ideia era promover algum tipo de gincana, com prêmios ao final.
Que foi feito? Ora, claro!, agendou-se outra visita técnica para hoje, sexta-feira, entre 14 e 18 horas.
Penso que, afinal, a PT entende não ser justo eu ter ficado dois anos trancafiado no Brasil e - cá em Portugal - passar todo o tempo livre e solto. É preciso um certo equilíbrio.
Quase às 16 horas, recebo uma simpática ligação no telemóvel. Trata-se do visitante PT. Quer vir à minha residência. Fico à beira de sentir-me lisonjeado.
Logo muda de ideia. Diz que, se calhar (os portugueses adoram essa expressão), pode resolver o problema remotamente. Pena. Quase já havia aberto o vinho com que o receberia. Para respirar.
De facto, a TV e a Internet voltam ao meu convívio.
O tulufone é que insiste em não fazer ligações.
Meu quase futuro visitante diz que vai resolver também isso.
E desaparece de cena.
Ligo à PT, reporto o problema do tulufone e me dizem que vou ser contatado para as devidas providências.
Ainda bem que amanhã é sábado. Vou passear e deixar o tulufone pra segunda.
Que me encontrem no telemóvel.
A batalha continua na segunda-feira. Ainda de manhã, vou procurar um representante Zon.
sábado, 14 de agosto de 2010
O anti-herói de Salgueirais
Li sobre ele no Diário de Notícias de hoje.
Jorge, é o nome dele.
Foi detido pela segunda vez por conduzir com uma taxa de álcool acima do permitido.
Conduzir uma carroça atrelada por um burro, diga-se.
O que dele contam seus vizinhos de aldeia é que é digno de nota:
Tem 34 anos, não sabe ler nem escrever e de leis pouco percebe.
Jorge nasceu na Velosa, uma aldeia do outro lado da serra e foi viver para os Salgueirais com uma mulher mais velha que ficou viúva e tem uma pequena pensão.
O casal são uns pilha-galinhas. Deitam a mão a tudo quanto podem.
Chega a dizer um tal de Pedro Santos:
Uma ocasião vim a casa e vou dar com ele deitado na minha cama. Veio para roubar e adormeceu.
Outros ressaltam o tanto que sofrem os animais do casal:
Têm uma cadela que é pele e osso.
O burro leva cada enxerto de porrada que mete dó.
Mas Jorge é homem de princípios rígidos:
Posso deixar de conduzir o burro, mas o vinho não deixo.
Íntegra aqui.
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
Da série Mordam-se de inveja
A Albufeira do Azibo, no nordeste trasmontano, que tem uma praia com o maior número de bandeiras azuis na Europa, fica a menos de 30 km de casa.
E isso porque moro longe do mar.


Atualização: E, vai daí, até campeonato nacional de volei de praia vai haver lá neste final de semana.
terça-feira, 3 de agosto de 2010
Fragmentos de um discurso escatológico - 2
Em 1.968, recém formado em Engenharia, mas estudando para o vestibular de Filosofia, na USP, fui morar no centro do movimento estudantil daquela época: a R. Maria Antonia, em São Paulo. Ainda lá funcionava a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo.
Ao prestar vestibular, conheci o Eliandro, um rapaz que havia abandonado o ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica), considerado uma das três melhores escolas de engenharia do país (as três eram: POLI-USP, onde me formei, o ITA e o IME - Instituto Militar de Engenharia, no Rio de Janeiro). Era um excelente aluno no ITA, o Eliandro, mas abandonara a escola por considerá-la uma fábrica de loucos. E, como eu, resolvera fazer Filosofia na USP. Procurava um lugar para morar. Claro, convidei-o a dividir comigo o apartamento que acabara de alugar. A família dele era de Vitória, no Espírito Santo.
Graças a ele, recebíamos, nos finais de semana, a visita de vários alunos do ITA. Alguns deles tinham um hábito digno de nota. Vamos a ele:
É preciso começar por lembrar que, naquela época, (quase) todo mundo fumava. Logo, (quase) todo mundo carregava consigo um isqueiro.
Não sei o que o pessoal comia lá no ITA. O fato é que a turma peidava com uma freqüência assustadora.
Para eliminar os terríveis odores resultantes da reiterada prática, usavam o isqueiro. Bastava o indivíduo querer peidar, sacava o isqueiro, colocava-o próximo ao próprio rabo, e - ao eliminar os gases - acionava o isqueiro.
Dois eram os resultados benéficos:
1. Eliminavam-se os maus odores;
2. Provocavam-se chamas de beleza às vezes surpreendente.
Caso você ainda guarde aquele velho isqueiro, experimente.
Fragmentos de um discurso escatológico
Não sou o Barthes, mas lanço meus fragmentos.
Quando você começar a sair com aquela pessoa, não espere demais: as soon as possible, coloque a questão:
- A gente pode peidar sem problema?
Talvez a pessoa fique um tanto desconcertada. Talvez até proteste pela sua falta de romantismo.
Deixe claro:
- Meu bem, se pergunto isso é porque pretendo uma relação duradoura. E - você há de convir - não há relação duradoura sem flatulência liberada.
Pronto. Ganhou a parada.
E nunca mais use flatulência. É peido, mesmo. Se quiser ser um tanto erudito(a), prefira peidorrada.
É vernáculo.
Ah! E nada de xixi, cocô, bumbum, pum etc etc (etc pode).
Isso é linguagem de criança. Você está iniciando uma relação adulta.
Portanto, mije, cague, peide. De preferência pela bunda. Ou, como dizem os portugueses, usuários da (pen)última flor do Lácio há muito mais tempo, pelo cu.
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