sexta-feira, 29 de julho de 2011
(D)evolução
Há ritos a cumprir quando se chega à reforma.
Há que se devolver a carteira funcional, o notebook, o crachá.
Pode-se ver tudo isso como rito de passagem.
Da obrigação ao prazer.
Do labor ao ócio.
É possível que tudo isso não seja devolução, mas avanço.
Que venha o futuro.
quarta-feira, 27 de julho de 2011
Reforma
Em Portugal e no Brasil os termos são muitos para denotar essa sensação de final de pagamento de longa dívida, de ter concluído o dever-de-casa: aposentação, aposentamento, aposentadoria, reforma.
Prefiro o último, não só por ser o que mais se usa em Portugal mas por trazer embutida nele a ideia de refazimento, de reconstrução.
O dia de hoje, em São Paulo, aparenta ser dia de outono. Em maio é que São Paulo costuma apresentar seus mais lindos dias: céu com poucas nuvens, muito sol, temperatura amena. Este ano esses ares outonais migraram para julho. E se tornaram cenário perfeito para o início de minha reforma.
Mãos à obra.
P.S.: O Diário Oficial da União publica, hoje, a portaria de concessão de minha reforma. Justamente no dia em que minha irmã caçula completa mais um ano de vida.
Pé quente, essa minha mana.
quinta-feira, 21 de julho de 2011
Conde de Sarzedas - 2
Os três: Fusco, Brandão e eu, estávamos sempre entre os melhores alunos do Di Tullio. Quando foi se aproximando o final do ano, o Fusco – que se apaixonara infinitamente por uma colega de curso colegial – levou o fora da dita cuja.
Passou a chorar em tempo integral.
O pior de tudo era a incongruência da situação. O Fusco era um camarada enorme, cara de mau, integrante da seleção paulista de judô. Com todo esse physique du role, ele se sentava para assistir às aulas, abria o caderno sobre a carteira e o deixava molhado pelas lágrimas que não paravam de cair sobre as páginas em branco. Páginas e cérebro em branco, diga-se. Não conseguia prestar a mínima atenção a aula alguma.
Resultado: Brandão e eu passámos no vestibular da Poli. O Fusco não.
Ano seguinte criou-se a rotina: aos sábados, dia de provinha no Di Tullio, lá íamos nós, Brandão e eu, esperar o Fusco sair do cursinho para consolá-lo e... ir comer croquetes de carne no alemão da rua Teodoro Sampaio.
Nunca mais na vida comi ou comerei croquetes iguais àqueles.
E o velho alemão nos servia, para acompanhar os croquetes, uma cerveja preta que lembrava os gênios de lâmpadas maravilhosas: a garrafa era sempre trazida à mesa com cuidado para que não fosse muito agitada. Ao abri-la, o velho apressava-se em encher nossos três copos. A pressão da cerveja era tanta que dificilmente nada se perdia sobre a mesa.
Cheguei a voltar nesse restaurante alemão alguns anos depois. O velho morrera, o restaurante era tocado pelos filhos. Os croquetes ainda eram bons, a cerveja ainda teimava em derramar-se pela mesa.
Eu é que – certamente – já não era o mesmo.
quarta-feira, 20 de julho de 2011
Conde de Sarzedas - 1
Para todos, título nobiliárquico. Para mim, rua próxima à Praça João Mendes, São Paulo, na qual reinava o Curso Di Tullio, no qual me preparei para entrar na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo.
Foi lá que conheci Vitorino, filho de cantora de ópera. Vez em quando cabulávamos alguma aula e íamos ouvir ópera em alguma loja de discos. Feliz ou infelizmente, ele não conseguiu elevar-me ao nível operístico.
No dia em que Di Tullio, irritado por Vitorino estar sussurrando a um aluno chamado à lousa a resposta a uma pergunta qualquer, jogou o caderno de Vitorino pela janela da sala de aula, percebi a profunda relação de afeto que havia entre os dois. Vitorino levantou-se calmamente e foi buscar seu caderno no meio da rua. Ao voltar, sentou-se e continuou a tomar notas da aula. Nossa sala, diga-se, ficava no segundo andar do prédio.
Como já contei
Se no primeiro ano convivi com Vitorino e com Imre Simon, uma das pessoas mais inteligentes que já conheci, no segundo estabeleci – junto com dois outros alunos do curso – um trio de amizade que perdurou por algumas décadas.
Éramos o Fusco, o Brandão e eu.
Francisco Brasiliense Fusco Júnior já morreu. A amizade com Brandão tornou-se fraternidade, mantida até hoje e para sempre.
Disputávamos palmo a palmo os primeiros lugares nas provinhas de sábado.
No dia a dia, gostávamos de aproveitar os intervalos entre aulas para irmos até a pastelaria dos chineses e pedir três pastéis e três Crushs (refrigerante sabor laranja). O chinês gritava para a cozinha:
- Tlês pastéis e tlês Clushs!
Isso valia como contrapartida da gordura que comeríamos.
(continua)
terça-feira, 19 de julho de 2011
Ainda mais comemoração
Hirondino da Paixão Fernandes vive, atualmente, em Bragança, Portugal. Antes, vivia em Coimbra.
É considerado «o estudioso e erudito que mais tem contribuído, no nosso tempo, para a salvaguarda da memória escrita desta terra [Bragança], oferecendo-lhe o seu labor incansável de investigador, continuando na senda da pesquisa histórica, a tradição dos grandes vultos da nossa referência cultural».
Tenho a alegria de ser seu primo, ainda que não o conheça pessoalmente. Na verdade, ele é primo de meu pai. Portanto primo meu, em segundo grau.
Hirondino completou, em 07 de junho deste ano, 80 anos.
Parabéns!
quarta-feira, 13 de julho de 2011
Critérios
O jogador de futebol entra no restaurante sofisticado.
Ao fazer o pedido, o garçom lhe sugere:
- Temos um vinho espanhol muito bom. Reserva!
- Tá bom. Mas traz aí o titular.
terça-feira, 12 de julho de 2011
Mais comemoração
Quinta-feira próxima o professor Hélio Guerra completa 81 anos.
Helinho, como nós, seus alunos, o chamávamos (apenas entre nós, claro), era diretor (penso que o cargo era esse) do Departamento de Engenharia Elétrica da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) na época em que eu terminava meu sofrido curso de engenharia eletrônica.
Corria o ano de 1.967.
Nas férias do meio de ano eu já estava convencido de nada ter a ver com engenharia e começara a estudar para o vestibular de Filosofia na mesma Universidade (USP).
Pensei seriamente em abandonar o curso. Colegas mais sensatos (naquela época, não era nada difícil ser mais sensato do que eu.) (Eu disse naquela época?!) me lembraram de que não fazia sentido abandonar quatro anos e meio de esforços quando faltava apenas um semestre para obter o diploma de engenheiro.
Continuei o curso, tendo de – para isso – fazer um esforço enorme.
Ao final, passados todos os exames, restou um exame oral de Televisão, no qual eu precisava tirar 2 ou 2,5 (num total de 10), não me lembro exatamente.
Percebi que não me restavam forças para estudar para esse exame.
Lá por agosto ou setembro, na Poli-USP, costumava-se dar pindura nos professores. Tudo muito civilizado, combinado previamente com eles. Pequenos grupos (5 ou 6) de alunos elegiam um professor e se ofereciam para um jantar na casa do dito cujo.
Alguns colegas e eu escolhemos o Helinho.
Tudo combinado, fomos recebidos – nós e as namoradas – de modo soberbo por ele e esposa, em uma aconchegante casa no Morumbi, São Paulo.
Essa experiência nos aproximou um tantinho do mestre.
Quando me debatia com minha incapacidade de enfrentar aquele exame oral de TV lembrei-me do professor Hélio Guerra. Quem aplicaria o exame era o professor Barradas. Mas Helinho era o chefe. Liguei para ele e solicitei um papo. Convidou-me a visitá-lo. Lá fui eu.
Já instalado em confortável sofá na sala de estar da residência do mestre, expliquei a ele minha situação e propus:
- Professor, preciso de 2( ou 2,5) no exame de TV para terminar meu curso. Minha proposta é: vocês me dão essa nota e eu prometo – solenemente – jamais exercer a profissão de engenheiro eletrônico. Quero apenas um diploma de curso superior.
Hélio Guerra sorriu e sapecou-me uma inevitável lição de moral. Algo na linha:
- Um homem tem de enfrentar os desafios que a vida coloca em seu caminho.
Não consigo reproduzir tudo que ele me disse. Até para não ser injusto com ele.
Apenas me recordo que foi uma repreensão suave mas firme.
Felizmente, a vida me presenteou com amigos incríveis. Sílvio Ursic foi um deles.
Sílvio já havia terminado o curso, com folga. Ofereceu-se para me ensinar as matérias do curso de TV.
Na véspera do exame oral, varámos a madrugada – ele e eu. Ele a ensinar, eu a aprender. Ou melhor, a registar tudo em arquivos temporários que seriam deletados logo obtivesse a nota almejada.
Prova feita, 8,5.
No ano seguinte, em meu aniversário (fevereiro), tocaram a campainha de meu apartamento do Edifício Canadá, rua Maria Antonia, São Paulo. Olhei pelo olho mágico e vi uma imagem colorida.
Ao abrir a porta me deparei com Sílvio Ursic a segurar com os dois braços uma enorme bola de plástico colorido. Era meu presente de aniversário.
Quanto ao professor Antonio Hélio Guerra Vieira, que depois foi até reitor da USP, meus parabéns pelo aniversário, meus votos de longa vida ( o Brasil não pode dar-se ao luxo de perder pessoas da estirpe dele) e a informação:
- Caro professor: apesar de não ter sido brindado com a outorga de uma nota imerecida no exame de TV, continuei firme em minha promessa: jamais me aventurei a exercer a profissão de engenheiro eletrônico.
domingo, 10 de julho de 2011
Comemoração
Enquanto no Brasil imprensa e povo em geral festejam seus ronaldinhos, seus lulas, vou ao Rio hoje comemorar o aniversário de Maurício Matos Peixoto.
Um dos maiores matemáticos que esse país já teve, engenheiro, presidente da Academia Brasileira de Ciências por dez anos, Maurício completou noventa anos em 15 de abril passado em plena atividade mundo afora. A comemoração ficou para hoje por ser a época em que seus filhos e netos têm oportunidade de vir ao Brasil.
Taí um belo motivo de alegria pra compensar minha tristeza por não ter podido, ainda, partir de vez para Portugal.
Parabéns, Maurício!
sábado, 9 de julho de 2011
Despedida
Despeço-me, aos poucos, deste país complexo. Grande em território, pequeno em qualidade humana.
A política atingiu, nos últimos tempos, o nível inimaginável da desfaçatez total. A política, que traduz o povo numa democracia.
O povo tem em seus representantes sua imagem e semelhança. O Congresso Nacional é o espelho da nação. E é o que é.
A educação chegou ao nível zero.
É o salve-se quem puder.
Torço para que alguma coisa mude para melhor, pois deixo aqui parentes queridos: filhos, irmãs, netos, sobrinhos, tios, primos.
E poucos, mas excelentes, amigos.
Mas não vejo luz em final de túnel algum.
sexta-feira, 1 de julho de 2011
Perfil
Nos moldes da tradição oriental, dedicou-se sem limites ao marido. Deu-lhe tudo, até o sustento, quando ele já não mostrava disposição para obtê-lo.
Foi mulher, mãe, mantenedora.
Do lar só lhe cabia esperar encargos.
Restou-lhe o prazer do trabalho.
A submissão caseira tornou-se em mandonismo na empresa.
Recusava objeções, retaliava os discordantes.
Como resultado de seus esforços profissionais, atingiu o mais alto grau da hierarquia.
Morreu a lavar – em um sábado, ao cair da tarde – uma cueca do marido.
quinta-feira, 30 de junho de 2011
Ventiladores
No Brasil, quando se quer dizer que alguém, em hospital, está a receber ajuda de equipamentos para respirar, diz-se que respira por aparelhos.
Descobri agora, com o episódio da morte do cantor e ator Angélico, que em Portugal diz-se que o indivíduo está ligado ao ventilador.
Para alguém criado no Brasil, estar ligado ao ventilador só evoca a cena de alguém amarrado a um ventilador, daqueles de pé ou daqueles de mesa.
domingo, 26 de junho de 2011
50 anos sem pai
Há exatos 50 anos morria meu pai. Sem mais nem menos.
Deixou-me, de início, uma sensação de liberdade, de alívio.
Por ser pai de muitas ordens, ao partir propiciou-me a desordem.
Aos poucos sua morte trouxe-me dúvidas: como teriam sido nossas relações futuras? Poderíamos ser amigos? Ou romperíamos relações logo, logo?
Veio depois a certeza da inutilidade de tais questões. A morte interrompe a vida e arrebata expectativas.
Hoje, quando ele me parece quase um garoto, comparadas nossas idades, a minha de hoje, a dele de quando se foi, avalio suas fraquezas e suas forças.
E sorrio por suas ingenuidades. E me orgulho de sua grandeza.
Nada me resta, além da memória e da imaginação, que me reponha em seus braços.
Pergunta
Se o tabaco, o álcool e a religião já estão liberados, por que não liberar as demais drogas (aliás,na prática, já liberadas)?
sexta-feira, 24 de junho de 2011
O totalitarismo da dor
A dor, dor de dente, dor de amor traído, dor pra valer, quando se instala, não cede espaço a mais nada.
Absoluta, domina o sofredor por inteiro.
Pra sempre, ao menos naquele instante.
As artimanhas da covardia
Ficou famoso na família de minha mãe o episódio em que um tio qualquer, casado com Dona Mariquinha, em debate com desafeto, gritava:
- Me segura, Mariquinha, me segura! Senão eu mato esse cara!
E se deixava apoiar na dita cuja, tal qual um atacante, no futebol, se derrama sobre o zagueiro pra cavar uma falta.
quarta-feira, 22 de junho de 2011
Brasil: um país invertido
Já começa pelo mapa. Quase qualquer coisa, pra ter estabilidade e firmeza, precisa ter uma base ampla. O mapa do Brasil é de cabeça pra baixo. Largo em cima e estreito na base. Sem falar que o sonho da base - o Rio Grande do Sul - sempre foi o de se livrar do resto do país.
Mas, até aí, é tudo metafórico.
No duro, no duro, na real, a instituição brasileira mais confiável é a do jogo do bicho.
De resto, quanto mais nobre o setor, mais corrupto.
Outro dia contei aqui minha aventura no mundo da cardiologia. Minha cara blogueira Regina disse que não entendeu a história que contei.
Vou tentar ser mais claro e sucinto:
Cardiologistas de uma Clínica me recomendaram um exame para verificar o aumento do diâmetro de minha aorta.
Os especialistas (nem todos, felizmente) costumam dizer que se a dilatação chega a 50 mm é preciso operar.
As imagens do exame apontaram diâmetro máximo de 46,3 mm. Isso foi registado em uma das imagens com caracteres bem grandes.
O médico que preparou o Laudo baseado nas imagens escreveu que a dilatação atingira 50 mm.
Levei os resultados do exame ao cirurgião. Ele olhou o Laudo, examinou as imagens e afirmou que, como a dilatação alcançara o "número mágico de 50 mm" (expressão dele), era preciso operar. E operar o quanto antes.
Resumindo um pouquinho mais: o resultado do exame, contido nas imagens, foi falsificado no Laudo (ou por negligência ou por má-fé). O cirurgião, mesmo tendo visto as imagens, preferiu ficar com o número do Laudo, para faturar mais uma cirurgia ou por algum dogma da numerologia.
Para sorte minha, nem todos os médicos são criminosos. Ao consultar outro cardiologista tudo ficou esclarecido. Inclusivamente a desnecessidade da cirurgia. Cirurgia essa, diga-se, de altíssimo risco.
Vários amigos me perguntam por que não processo o hospital onde foi realizado o exame e o cirurgião que recomendou a cirurgia.
Simples: eles vão ganhar; eu vou perder. Estamos no país do avesso. Reparem que nem publico o nome do hospital nem o nome do cirurgião. Caso o fizesse, quase certamente seria processado por eles, com as conseqüências imagináveis. Mesmo tendo as provas da tramóia.
Consegui esclarecer?
segunda-feira, 20 de junho de 2011
René e Erich Fromm
No final do curso primário, lá pelo longínquo ano de 1.954, meus colegas de Colégio Marçal, Santos, São Paulo, combinámos de aproveitar o último dia de aulas para fazer um torneio de futebol de botão na casa de um dos alunos, o René.
Terminado o curso, lá fomos nós para a casa do René, mais precisamente para a garagem da casa do René. No chão da garagem é que funcionava o campo de futebol de botão.
Enquanto acompanhava as primeiras partidas, fui notando que uma vontade de fazer xixi aumentava paulatinamente. Como era uma criança bastante tímida, fiquei na minha. Claro que, a certa altura, mijei nas calças.
Foi um pega pra capar. Ligaram pra minha casa, a Júlia, que era meio empregada meio membro da família, foi até a casa do René pra levar roupas secas pra mim.
O vexame foi minha despedida da turma do primário.
Alguns poucos anos depois, no curso ginasial, Colégio Canadá, o mesmo René protagonizou cena hilária – pra todos, menos pra ele – em um exame final de francês. O professor Sólon era o terror do Canadá.
René colava durante o exame, o professor Sólon percebeu, foi até a carteira dele e recolheu a prova.
Voltou à mesa de professor e sapecou um sonoro Zero na prova. René procurou explicar:
- Professor, eu estava estudando!
- Esse não era mais o momento de estudar, respondeu Sólon didaticamente.
Anos mais tarde, mais exatamente 1.968, eu era um engenheiro recém formado, aluno do curso de filosofia da USP.
Morava na lendária Rua Maria Antônia. Mais precisamente no quarto andar do Edifício Canadá. Mera coincidência.
Num dia qualquer, encontro na rua o René.
Atualizámos nossas informações e o convidei a subir a meu apartamento para continuarmos a conversa.
Já lá dentro de meu reduto, René encantou-se com minha biblioteca. Em particular, gostou dos livros de Erich Fromm, que estavam na moda.
Deixei que levasse, por empréstimo, uns dois ou três dos livros do dito cujo.
Nunca mais vi o René.
Hoje me parece que fiz uma troca: dois ou três livrinhos de Erich Fromm por uma mijada na garagem da casa dele.
terça-feira, 14 de junho de 2011
Koldeway Feitosa Chaves
Ele nasceu na Bahia mas foi registado em Santos, São Paulo, Brasil, em 02 de dezembro de 1.939.
Muito cedo na vida, ele e minha irmã se reconheceram como partes indissolúveis de uma unidade.
Não houve nada que conseguisse separá-los.
Casaram, tiveram dois filhos, três netas e iam completar 50 anos de vida em comum agora, no dia 4 de julho próximo.
A vida não quis assim.
Sábado ele se foi.
Enquanto viver, guardarei a lembrança de sua bondade.
Ele foi - sem dúvida - a pessoa mais generosa que conheci.
Como era dono de um nome invulgar, do qual tinha enorme orgulho, tive de ensinar a meus filhos um apelido que ele adquirira na infância: Cócó. Mais tarde, aprendi que, em Portugal, essa alcunha não soa bem. Mas era tarde: meus filhos e netos o conhecem como o tio Cócó.
Ele que, de família nordestina, começou como Cóldévai (oxítona), transformou-se mais adiante em Côlduêi (proparoxítona). Para minha irmã era o Codinho.

Vamos todos sentir muita saudade de ti, meu irmão.
sábado, 11 de junho de 2011
Partir não é fácil
Bastava ser concedida minha aposentadoria e pronto.
Lá iria eu para Bragança de uma vez por todas.
Trabalhei durante os últimos cinqüenta anos. Para aposentar-me do serviço público me bastaria comprovar 35 anos de contribuição à Previdência. Mas era preciso que desses 35 anos, ao menos 20 fossem dedicados ao serviço público.
Parecia fácil.
Para os 15 anos de trabalho em empresas privadas sobravam-me comprovantes.
Os 20 anos de serviço público inteiravam-se em 12 de abril deste ano.
Nesse mesmo dia entrei com meu pedido de aposentadoria.
Jogaram os meus dados em um sistema (ou seja, um programa de computador) e receberam a informação de que ainda me faltavam alguns meses. Tudo graças a um período de 3 meses de serviço público que o tal sistema não considerou como tal.
O curioso é que todos concordam que o tal período de exatos 88 dias deveria ser computado como de serviço público.
Diagnóstico: o sistema está errado.
Até aí, nada demais. Trabalhei muitos anos com sistemas computacionais e sei bem que todos eles – por mais testados que sejam – apresentam erros.
O nó está em que nenhum burocrata pode contrariar o sistema. Daí que tudo leva a crer que o sistema terá de ser corrigido para que esses fatídicos 3 meses possam ser contados a meu favor. Até lá, já não precisarei deles...
Quem já assistiu ao filme Ardil 22 sabe do que se trata.
Agravante: dos 20 anos de serviço público, 2 e meio são do período em que trabalhei na USP (Universidade de São Paulo). Ocorre que lá trabalhei durante 4 anos. Esse 1 ano e meio que deixou de ser computado eu precisei solicitar à bendita Comissão de Anistia lá de Brasília. Entrei com pedido de reconhecimento desse tempo no remoto ano de 2.006.
Atualmente o processo já está no Setor de Julgamento, depois de feitas todas as análises julgadas necessárias pela Comissão. O tal Setor de Julgamento mantém meu processo em alguma gaveta desde o ano passado.
Tudo indica que só conseguirei minha aposentadoria lá pra 9 de julho. Isso se até lá alguma dor de barriga não provocar o afastamento do burocrata responsável por meu processo.
quarta-feira, 25 de maio de 2011
Médicos S.A.
Vou detalhar o caso de minha aorta sob o risco de ser impertinente. Penso que minha experiência pode ser útil a meus leitores.
Em 1.989 tomei ciência de que tinha uma dilatação na aorta. Isso ao tirar um raio X do tórax em função de uma pneumonia. Desde então passei a tratar minha hipertensão com mais cuidado. Até aquela data ia às vezes a um médico, por qualquer outro motivo, ele me informava de que minha pressão arterial estava um tanto alta e me receitava um remédio. Eu, do alto de meus trinta e tantos anos de (irresponsabil)idade, comprava uma caixa do dito remédio, tomava até o fim e pronto. Esquecia do assunto.
O problema em relação a coisas como hipertensão, dilatação de aorta, diabetes etc etc, é que são, quase sempre, assintomáticas. Dilatações da aorta, por exemplo, são normalmente descobertas por acaso.
Vai daí que, prestes a mudar para Portugal, resolvi verificar como estava o diâmetro da minha artéria preferida.
O cardiologista me recomendou uma angiotomografia e um ecocardiograma com stress farmacológico.
A angiotomografia, que te presenteia com irradiação equivalente a 500 chapas de raio X, é um procedimento simples: te enfiam naquele tubo e te esquadrinham o interior antes de te injetar o contraste. O tal contraste – dobutamina – é injetado na veia e dá um calorzinho durante alguns segundos. Pra mim, quase imperceptível. Voltam a te enterrar naquele tubo e fotografar todo o teu interior novamente. No total, o ritual dura uns 10 minutos.
O eco com stress farmacológico é um tanto desagradável. Vão te aplicando uma substância na veia para provocar aceleração das batidas do coração. Como uma simulação de corrida em esteira/passadeira. Só que você está deitado...
Resumo: se o diâmetro da aorta for superior a 39 mm você é o feliz possuidor de uma dilatação na aorta. Se a dilatação chega aos 50 mm você é informado de que chegou ao limite, ao número mágico. Chegou a hora da cirurgia.
Ora, há uns 7 anos fiz um ecocardiograma comum, que dá uma medida aproximada do tal diâmetro. Deu 42 ou 43 mm.
A angiotomografia é bastante mais precisa.
Ao sair da angiotomografia, antes de ir para o eco com stress, os médicos responsáveis pelos dois exames conversam pra saber se é possível fazer o eco. Logo ao final da angiotomografia, as imagens ainda não trabalhadas em computador, só é possível ter um resultado aproximado. Foi dito a mim que a dilatação da aorta estava em 48 mm. Mas que ficasse tranqüilo e aguardasse o resultado final do exame, alguns dias depois.
Quando fui buscar o resultado dos exames, claro que não olhei as imagens. Não entendo nada do assunto e olhar as imagens me pareceu inútil. Li o Laudo preparado a partir das imagens. Está registrado lá: dilatação de 50 mm.
Levei os exames ao cirurgião. Fui informado de que chegara a hora da cirurgia. Mais: se a dilatação da minha aorta fosse na parte descendente da dita cuja, a cirurgia seria aquela menos invasiva, com stent. Metem um stent pela virilha do pobre diabo. Com emprego de algum engenho e arte fazem o tal stent encaixar-se no lugar abaulado. O stent passará a ser, digamos assim, a nova parede da aorta naquela região.
No meu caso, dilatação da aorta ascendente, infelizmente – meu senhor – é preciso apelar para a ignorância. Ou seja: rasgam o peito do cidadão de alto a baixo, serram o osso (esterno), fazem um desvio do sangue por fora do coração que fica parado e geladinho durante uma hora, tempo suficiente pro açougueiro, ou melhor, o cirurgião cortar o pedaço dilatado da aorta e costurar um tubo no lugar do trecho estragado. A cereja do bolo é que há uma boa chance de ser preciso trocar também a valva aórtica. Se necessário, ela será trocada por uma válvula metálica ou por outra, dita biológica.
Tudo isso é descrito pelo amável cirurgião de forma quase cativante.
O cenário acima descrito me parece extremamente anti-intuitivo: o indivíduo não sente nada de anormal, não tem dor, não tem falta de ar, não tem dormência nos braços, nada, nadica de nada. Nesse clima de absoluta normalidade recebe a notícia de que tem de ser aberto, serrado etc etc.
Uma dúvida começou a insinuar-se em mim: quando, antes do ecocardiograma com stress, o médico responsável pela angiotomografia informou ao colega que a dilatação era de uns 48 mm, ele deve ter dado esse número jogando a favor da segurança. Portanto, feita depois a medição exata, o esperado seria que surgisse um número menor do que 48 mm. O Laudo final, contudo, cravou 50 mm.
Minha formação de engenheiro, apesar de já perdida na névoa do passado, desconfiou não só desse aumento como do número redondo e fatídico: 50.
Aconselhado por um amigo de bom currículo na área (dois infartos, três stents instalados), fui consultar um outro cardiologista.
Depois de exatos 80 minutos de consulta, ele não só garantiu que meu caso não é de cirurgia, como – depois de analisar com atenção as imagens – afirmou: o que consta aí é uma dilatação de 46,3 mm.
Ao chegar em casa, depois da devida comemoração com a Baixinha, fui examinar as imagens. Lá está, em uma das lâminas (aliás, duplicada, não sei a razão), um segmento de reta a marcar o maior diâmetro da aorta e, em caracteres bem grandes: 46,3 mm.
Vamos às conclusões:
1. Entendo natural – ou seja, não necessariamente de má-fé – que um cirurgião torácico tenha uma propensão a recomendar cirurgia. Afinal, ele confia nos métodos de que se utiliza.
2. Não consigo é compreender como é que ele analisa as imagens e não enxerga que o que lá consta é 46,3 mm.
3. Não consigo igualmente entender por qual motivo o médico que produziu o Laudo relativo à angiotomografia viu lá 46,3 mm e escreveu no Laudo: 50 mm.
Minha intenção com o relato um tanto prolixo que fiz não é a de culpar ninguém por nada. Afinal, no Brasil isso não adiantaria mesmo. Isto aqui deixou de ser país decente há muito tempo. Se é que o foi alguma vez.
Deixo apenas minha experiência como alerta.
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