quinta-feira, 30 de junho de 2011

Ventiladores


No Brasil, quando se quer dizer que alguém, em hospital, está a receber ajuda de equipamentos para respirar, diz-se que respira por aparelhos.
Descobri agora, com o episódio da morte do cantor e ator Angélico, que em Portugal diz-se que o indivíduo está ligado ao ventilador.
Para alguém criado no Brasil, estar ligado ao ventilador só evoca a cena de alguém amarrado a um ventilador, daqueles de pé ou daqueles de mesa.

Como se vê, o cão está ligadão no ventilador

domingo, 26 de junho de 2011

50 anos sem pai


Há exatos 50 anos morria meu pai. Sem mais nem menos.
Deixou-me, de início, uma sensação de liberdade, de alívio.
Por ser pai de muitas ordens, ao partir propiciou-me a desordem.
Aos poucos sua morte trouxe-me dúvidas: como teriam sido nossas relações futuras? Poderíamos ser amigos? Ou romperíamos relações logo, logo?
Veio depois a certeza da inutilidade de tais questões. A morte interrompe a vida e arrebata expectativas.
Hoje, quando ele me parece quase um garoto, comparadas nossas idades, a minha de hoje, a dele de quando se foi, avalio suas fraquezas e suas forças.
E sorrio por suas ingenuidades. E me orgulho de sua grandeza.

Nada me resta, além da memória e da imaginação, que me reponha em seus braços.

Pergunta


Se o tabaco, o álcool e a religião já estão liberados, por que não liberar as demais drogas (aliás,na prática, já liberadas)?

sexta-feira, 24 de junho de 2011

O totalitarismo da dor


A dor, dor de dente, dor de amor traído, dor pra valer, quando se instala, não cede espaço a mais nada.
Absoluta, domina o sofredor por inteiro.
Pra sempre, ao menos naquele instante.

As artimanhas da covardia


Ficou famoso na família de minha mãe o episódio em que um tio qualquer, casado com Dona Mariquinha, em debate com desafeto, gritava:
- Me segura, Mariquinha, me segura! Senão eu mato esse cara!
E se deixava apoiar na dita cuja, tal qual um atacante, no futebol, se derrama sobre o zagueiro pra cavar uma falta.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Brasil: um país invertido


Já começa pelo mapa. Quase qualquer coisa, pra ter estabilidade e firmeza, precisa ter uma base ampla. O mapa do Brasil é de cabeça pra baixo. Largo em cima e estreito na base. Sem falar que o sonho da base - o Rio Grande do Sul - sempre foi o de se livrar do resto do país.

Mas, até aí, é tudo metafórico.

No duro, no duro, na real, a instituição brasileira mais confiável é a do jogo do bicho.
De resto, quanto mais nobre o setor, mais corrupto.
Outro dia contei aqui minha aventura no mundo da cardiologia. Minha cara blogueira Regina disse que não entendeu a história que contei.
Vou tentar ser mais claro e sucinto:
Cardiologistas de uma Clínica me recomendaram um exame para verificar o aumento do diâmetro de minha aorta.
Os especialistas (nem todos, felizmente) costumam dizer que se a dilatação chega a 50 mm é preciso operar.
As imagens do exame apontaram diâmetro máximo de 46,3 mm. Isso foi registado em uma das imagens com caracteres bem grandes.
O médico que preparou o Laudo baseado nas imagens escreveu que a dilatação atingira 50 mm.
Levei os resultados do exame ao cirurgião. Ele olhou o Laudo, examinou as imagens e afirmou que, como a dilatação alcançara o "número mágico de 50 mm" (expressão dele), era preciso operar. E operar o quanto antes.

Resumindo um pouquinho mais: o resultado do exame, contido nas imagens, foi falsificado no Laudo (ou por negligência ou por má-fé). O cirurgião, mesmo tendo visto as imagens, preferiu ficar com o número do Laudo, para faturar mais uma cirurgia ou por algum dogma da numerologia.

Para sorte minha, nem todos os médicos são criminosos. Ao consultar outro cardiologista tudo ficou esclarecido. Inclusivamente a desnecessidade da cirurgia. Cirurgia essa, diga-se, de altíssimo risco.

Vários amigos me perguntam por que não processo o hospital onde foi realizado o exame e o cirurgião que recomendou a cirurgia.

Simples: eles vão ganhar; eu vou perder. Estamos no país do avesso. Reparem que nem publico o nome do hospital nem o nome do cirurgião. Caso o fizesse, quase certamente seria processado por eles, com as conseqüências imagináveis. Mesmo tendo as provas da tramóia.

Consegui esclarecer?

segunda-feira, 20 de junho de 2011

René e Erich Fromm


No final do curso primário, lá pelo longínquo ano de 1.954, meus colegas de Colégio Marçal, Santos, São Paulo, combinámos de aproveitar o último dia de aulas para fazer um torneio de futebol de botão na casa de um dos alunos, o René.
Terminado o curso, lá fomos nós para a casa do René, mais precisamente para a garagem da casa do René. No chão da garagem é que funcionava o campo de futebol de botão.
Enquanto acompanhava as primeiras partidas, fui notando que uma vontade de fazer xixi aumentava paulatinamente. Como era uma criança bastante tímida, fiquei na minha. Claro que, a certa altura, mijei nas calças.
Foi um pega pra capar. Ligaram pra minha casa, a Júlia, que era meio empregada meio membro da família, foi até a casa do René pra levar roupas secas pra mim.
O vexame foi minha despedida da turma do primário.

Alguns poucos anos depois, no curso ginasial, Colégio Canadá, o mesmo René protagonizou cena hilária – pra todos, menos pra ele – em um exame final de francês. O professor Sólon era o terror do Canadá.
René colava durante o exame, o professor Sólon percebeu, foi até a carteira dele e recolheu a prova.
Voltou à mesa de professor e sapecou um sonoro Zero na prova. René procurou explicar:
- Professor, eu estava estudando!
- Esse não era mais o momento de estudar, respondeu Sólon didaticamente.

Anos mais tarde, mais exatamente 1.968, eu era um engenheiro recém formado, aluno do curso de filosofia da USP.
Morava na lendária Rua Maria Antônia. Mais precisamente no quarto andar do Edifício Canadá. Mera coincidência.
Num dia qualquer, encontro na rua o René.
Atualizámos nossas informações e o convidei a subir a meu apartamento para continuarmos a conversa.
Já lá dentro de meu reduto, René encantou-se com minha biblioteca. Em particular, gostou dos livros de Erich Fromm, que estavam na moda.
Deixei que levasse, por empréstimo, uns dois ou três dos livros do dito cujo.

Nunca mais vi o René.

Hoje me parece que fiz uma troca: dois ou três livrinhos de Erich Fromm por uma mijada na garagem da casa dele.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Koldeway Feitosa Chaves


Ele nasceu na Bahia mas foi registado em Santos, São Paulo, Brasil, em 02 de dezembro de 1.939.
Muito cedo na vida, ele e minha irmã se reconheceram como partes indissolúveis de uma unidade.
Não houve nada que conseguisse separá-los.
Casaram, tiveram dois filhos, três netas e iam completar 50 anos de vida em comum agora, no dia 4 de julho próximo.
A vida não quis assim.
Sábado ele se foi.
Enquanto viver, guardarei a lembrança de sua bondade.
Ele foi - sem dúvida - a pessoa mais generosa que conheci.
Como era dono de um nome invulgar, do qual tinha enorme orgulho, tive de ensinar a meus filhos um apelido que ele adquirira na infância: Cócó. Mais tarde, aprendi que, em Portugal, essa alcunha não soa bem. Mas era tarde: meus filhos e netos o conhecem como o tio Cócó.
Ele que, de família nordestina, começou como Cóldévai (oxítona), transformou-se mais adiante em Côlduêi (proparoxítona). Para minha irmã era o Codinho.

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Vamos todos sentir muita saudade de ti, meu irmão.

sábado, 11 de junho de 2011

Partir não é fácil


Bastava ser concedida minha aposentadoria e pronto.
Lá iria eu para Bragança de uma vez por todas.

Trabalhei durante os últimos cinqüenta anos. Para aposentar-me do serviço público me bastaria comprovar 35 anos de contribuição à Previdência. Mas era preciso que desses 35 anos, ao menos 20 fossem dedicados ao serviço público.
Parecia fácil.
Para os 15 anos de trabalho em empresas privadas sobravam-me comprovantes.
Os 20 anos de serviço público inteiravam-se em 12 de abril deste ano.
Nesse mesmo dia entrei com meu pedido de aposentadoria.
Jogaram os meus dados em um sistema (ou seja, um programa de computador) e receberam a informação de que ainda me faltavam alguns meses. Tudo graças a um período de 3 meses de serviço público que o tal sistema não considerou como tal.

O curioso é que todos concordam que o tal período de exatos 88 dias deveria ser computado como de serviço público.

Diagnóstico: o sistema está errado.

Até aí, nada demais. Trabalhei muitos anos com sistemas computacionais e sei bem que todos eles – por mais testados que sejam – apresentam erros.

O nó está em que nenhum burocrata pode contrariar o sistema. Daí que tudo leva a crer que o sistema terá de ser corrigido para que esses fatídicos 3 meses possam ser contados a meu favor. Até lá, já não precisarei deles...

Quem já assistiu ao filme Ardil 22 sabe do que se trata.

Agravante: dos 20 anos de serviço público, 2 e meio são do período em que trabalhei na USP (Universidade de São Paulo). Ocorre que lá trabalhei durante 4 anos. Esse 1 ano e meio que deixou de ser computado eu precisei solicitar à bendita Comissão de Anistia lá de Brasília. Entrei com pedido de reconhecimento desse tempo no remoto ano de 2.006.
Atualmente o processo já está no Setor de Julgamento, depois de feitas todas as análises julgadas necessárias pela Comissão. O tal Setor de Julgamento mantém meu processo em alguma gaveta desde o ano passado.

Tudo indica que só conseguirei minha aposentadoria lá pra 9 de julho. Isso se até lá alguma dor de barriga não provocar o afastamento do burocrata responsável por meu processo.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Médicos S.A.


Vou detalhar o caso de minha aorta sob o risco de ser impertinente. Penso que minha experiência pode ser útil a meus leitores.
Em 1.989 tomei ciência de que tinha uma dilatação na aorta. Isso ao tirar um raio X do tórax em função de uma pneumonia. Desde então passei a tratar minha hipertensão com mais cuidado. Até aquela data ia às vezes a um médico, por qualquer outro motivo, ele me informava de que minha pressão arterial estava um tanto alta e me receitava um remédio. Eu, do alto de meus trinta e tantos anos de (irresponsabil)idade, comprava uma caixa do dito remédio, tomava até o fim e pronto. Esquecia do assunto.
O problema em relação a coisas como hipertensão, dilatação de aorta, diabetes etc etc, é que são, quase sempre, assintomáticas. Dilatações da aorta, por exemplo, são normalmente descobertas por acaso.
Vai daí que, prestes a mudar para Portugal, resolvi verificar como estava o diâmetro da minha artéria preferida.
O cardiologista me recomendou uma angiotomografia e um ecocardiograma com stress farmacológico.
A angiotomografia, que te presenteia com irradiação equivalente a 500 chapas de raio X, é um procedimento simples: te enfiam naquele tubo e te esquadrinham o interior antes de te injetar o contraste. O tal contraste – dobutamina – é injetado na veia e dá um calorzinho durante alguns segundos. Pra mim, quase imperceptível. Voltam a te enterrar naquele tubo e fotografar todo o teu interior novamente. No total, o ritual dura uns 10 minutos.
O eco com stress farmacológico é um tanto desagradável. Vão te aplicando uma substância na veia para provocar aceleração das batidas do coração. Como uma simulação de corrida em esteira/passadeira. Só que você está deitado...
Resumo: se o diâmetro da aorta for superior a 39 mm você é o feliz possuidor de uma dilatação na aorta. Se a dilatação chega aos 50 mm você é informado de que chegou ao limite, ao número mágico. Chegou a hora da cirurgia.
Ora, há uns 7 anos fiz um ecocardiograma comum, que dá uma medida aproximada do tal diâmetro. Deu 42 ou 43 mm.
A angiotomografia é bastante mais precisa.
Ao sair da angiotomografia, antes de ir para o eco com stress, os médicos responsáveis pelos dois exames conversam pra saber se é possível fazer o eco. Logo ao final da angiotomografia, as imagens ainda não trabalhadas em computador, só é possível ter um resultado aproximado. Foi dito a mim que a dilatação da aorta estava em 48 mm. Mas que ficasse tranqüilo e aguardasse o resultado final do exame, alguns dias depois.
Quando fui buscar o resultado dos exames, claro que não olhei as imagens. Não entendo nada do assunto e olhar as imagens me pareceu inútil. Li o Laudo preparado a partir das imagens. Está registrado lá: dilatação de 50 mm.
Levei os exames ao cirurgião. Fui informado de que chegara a hora da cirurgia. Mais: se a dilatação da minha aorta fosse na parte descendente da dita cuja, a cirurgia seria aquela menos invasiva, com stent. Metem um stent pela virilha do pobre diabo. Com emprego de algum engenho e arte fazem o tal stent encaixar-se no lugar abaulado. O stent passará a ser, digamos assim, a nova parede da aorta naquela região.
No meu caso, dilatação da aorta ascendente, infelizmente – meu senhor – é preciso apelar para a ignorância. Ou seja: rasgam o peito do cidadão de alto a baixo, serram o osso (esterno), fazem um desvio do sangue por fora do coração que fica parado e geladinho durante uma hora, tempo suficiente pro açougueiro, ou melhor, o cirurgião cortar o pedaço dilatado da aorta e costurar um tubo no lugar do trecho estragado. A cereja do bolo é que há uma boa chance de ser preciso trocar também a valva aórtica. Se necessário, ela será trocada por uma válvula metálica ou por outra, dita biológica.
Tudo isso é descrito pelo amável cirurgião de forma quase cativante.

O cenário acima descrito me parece extremamente anti-intuitivo: o indivíduo não sente nada de anormal, não tem dor, não tem falta de ar, não tem dormência nos braços, nada, nadica de nada. Nesse clima de absoluta normalidade recebe a notícia de que tem de ser aberto, serrado etc etc.

Uma dúvida começou a insinuar-se em mim: quando, antes do ecocardiograma com stress, o médico responsável pela angiotomografia informou ao colega que a dilatação era de uns 48 mm, ele deve ter dado esse número jogando a favor da segurança. Portanto, feita depois a medição exata, o esperado seria que surgisse um número menor do que 48 mm. O Laudo final, contudo, cravou 50 mm.

Minha formação de engenheiro, apesar de já perdida na névoa do passado, desconfiou não só desse aumento como do número redondo e fatídico: 50.

Aconselhado por um amigo de bom currículo na área (dois infartos, três stents instalados), fui consultar um outro cardiologista.

Depois de exatos 80 minutos de consulta, ele não só garantiu que meu caso não é de cirurgia, como – depois de analisar com atenção as imagens – afirmou: o que consta aí é uma dilatação de 46,3 mm.

Ao chegar em casa, depois da devida comemoração com a Baixinha, fui examinar as imagens. Lá está, em uma das lâminas (aliás, duplicada, não sei a razão), um segmento de reta a marcar o maior diâmetro da aorta e, em caracteres bem grandes: 46,3 mm.

Vamos às conclusões:
1. Entendo natural – ou seja, não necessariamente de má-fé – que um cirurgião torácico tenha uma propensão a recomendar cirurgia. Afinal, ele confia nos métodos de que se utiliza.
2. Não consigo é compreender como é que ele analisa as imagens e não enxerga que o que lá consta é 46,3 mm.
3. Não consigo igualmente entender por qual motivo o médico que produziu o Laudo relativo à angiotomografia viu lá 46,3 mm e escreveu no Laudo: 50 mm.

Minha intenção com o relato um tanto prolixo que fiz não é a de culpar ninguém por nada. Afinal, no Brasil isso não adiantaria mesmo. Isto aqui deixou de ser país decente há muito tempo. Se é que o foi alguma vez.

Deixo apenas minha experiência como alerta.

sábado, 14 de maio de 2011

Problema adiado,
problema resolvido


Pronto.
O dr. José, cirurgião cardiovascular, concordou com minha ideia de acompanhar por algum tempo a evolução do expansionismo da minha aorta. Só não aceitou minha sugestão de aguardar um ano. Disse que não aconselhava que eu deixasse de fazer a cirurgia ainda neste ano.
Fechámos negócio: a operação fica para janeiro de 2.012, caso – claro – haja 2.012.
A aorta, pensando bem, devia chamar-se USA, como o país, aquele. Não só é, de longe, a mais importante artéria do planeta Corpo Humano. Tem também uma tendência inata a uma atitude imperialista. Gosta de expandir-se e ocupar espaços que não deveriam ser seus. Até eu já sei que aneurismas não diminuem. Na melhor das hipóteses não aumentam.
Logo que sair minha aposentadoria (deve sair ainda este mês) levo minha aorta espaçosa para passear em Bragança. Junto com a Baixinha e a Doga.
Lá, vou passear minha ociosidade pelos caminhos do Parque Natural de Montesinhos no qual a palavra recessão – que invadiu Portugal nos últimos tempos – não é conhecida.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Medicina - a falência de dogmas


Faz pouco tempo a imprensa noticiou que havia sido constatado que ovo não aumenta o colesterol (ou, como diz o povo em Passos de Lomba: o costrol). Nunca tive problema com colesterol e adoro ovo. Fiquei a imaginar a cara daqueles médicos que passaram anos a enfatizar o mal que o ovo representava para o aumento do colesterol. Tudo cultura do ouvir dizer. Como a nossa, os leigos.

Hoje a Folha de S.Paulo informa:

Consumir mais sal não aumenta a pressão, diz estudo

DA REUTERS - Pessoas que consomem muito sal não têm mais risco de desenvolver hipertensão e morrer do coração do que as que comem poucas quantidades do alimento, segundo um estudo feito pela Universidade de Leuven (Bélgica).
A pesquisa, com 3.700 europeus, contraria as atuais recomendações de limitar o consumo de sal para prevenir essas doenças. Elas se baseiam em trabalhos anteriores, que indicam o benefício cardiovascular de uma dieta com pouco sal. Porém, o autor do novo estudo, Jan Staessen, diz que a recomendação é baseada em pesquisas de curta duração, enquanto a sua acompanhou as pessoas por oito anos.


É verdade que essa pesquisa aí do belga pode muito bem estar errada, também.
Afinal, ninguém sabe muito.
Mas os doutores pontificam.

sábado, 30 de abril de 2011

Dia nada monótono


Justo no dia em que mais de 2 mil milhões de seres humanos se entretinham com o casamento de um príncipe inglês, dia em que Delúbio Soares (o tesoureiro do mensalão) voltava triunfalmente ao PT (Partido dos Trabalhadores [risos]), dia em que alguns milhões de brasileiros quebravam a cabeça para declarar seu Imposto de Renda, dia em que os Estados Unidos choravam por mais de três centenas de mortos no Alabama vítimas de tornados, dia em que mais de 60 pessoas morriam na Síria vítimas da repressão aos movimentos populares contra a ditadura, dia em que Lisboa sofria por inundações devidas a chuva de granizo, eu me preocupava com... minha aorta.
Levei meus exames ao clínico. A dilatação da aorta ascendente já chegou aos fatídicos 50 mm que recomendam cirurgia. Candidamente, o clínico me informou que aquela história de cirurgia pouco invasiva, com stent, provavelmente está descartada. Quase que certo que vai ter de ser na base de abrir tudo, serrar as costelas e resolver na porrada, ou seja, na ignorância.
Sutilezas descartadas, encaminhou-me a uma especialista em aneurisma da aorta e stent.
Acho isso curioso, ainda que não de todo mau: o clínico te manda fazer alguns exames; analisados os exames te encaminha para uma analista que vai recomendar a oportunidade ou não de cirurgia, o tipo de cirurgia etc etc.
Mas – surpresa! – a especialista determina o tipo de intervenção. Mas não a realiza. Encaminha o pobre coitado a um cirurgião. Este vai carregar o piano, ou seja, vai fazer a cirurgia. Sempre de acordo com as recomendações da especialista em aneurisma de aorta.
Haja especialização!
Depois dessas notícias não tão maravilhosas assim, fomos – a Baixinha e eu – descontrair um pouco no Bendito Bar, não sem antes dar os parabéns á filha australiana, que completa hoje 33 aninhos. Eu disse hoje? Sei lá. Quando conseguimos falar com ela pelo Skype, lá já era 30 de abril. Penso que o aniversário dela deve ser comemorado pelo horário de Brasília. Afinal, foi aqui que ela nasceu.
Vou resolver essa dúvida depois de consertar minha aorta.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Combate às drogas


O que você acha pior:

Collor ou Logan

FHC ou um baseado

Lula ou 51

Aécio ou uma carreira de pó

Dilma ou grana

Escolha.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Ditados impopulares


Os cães ladram e a caravana passa. Com todo esse barulho não consigo pegar no sono.

Depois da tempestade vem a bonança. Mas aí já está tudo destruído.

A fé remove montanhas. Mas é preciso solicitar antes licença ambiental.

domingo, 24 de abril de 2011

Semana Santíssima


Na terça, depois de sair de uma angiotomografia com contraste e de um ecocardiograma com stress farmacológico, fomos – a Baixinha e eu – jantar bife de tira no Rubaiyat.
Carne dos deuses.
Na quinta fomos ao La Marie. Salada de foie gras, maravilhosa, seguida de risoto de frutos do mar para a Baixinha e de suflê de camarão para mim. Pratos inesquecíveis, acompanhados de um Cartuxa.
Sexta, dita da paixão, entrecôte com fritas no Anquier, antecedido por salada deliciosa e acompanhado por vinho do Douro.
Hoje, sábado de aleluia, polpettone no Jardim de Napoli, regado a vinho do Alentejo.
Para amanhã, Páscoa, teremos de programar comida à altura das anteriores.
Decididamente, sou adepto da Igreja Estomacal do Reino de Deus.

sábado, 23 de abril de 2011

Não serei novo Moisés


Moisés levou o povo judeu através do deserto mas não entrou na Terra Prometida.
Às vésperas de mudar definitivamente para Bragança, Portugal, vejo-me às voltas com uma cirurgia de aorta. Justo eu, que nada tenho de vegetariano (concordo, o trocadilho é infame).
Mas tenho certeza: passo por essa e me mando pra Bragança.
Afinal, não sou judeu, não guio povo algum, persigo apenas minha própria felicidade.
Minhas irmãs oram por mim. Talvez oração não ajude, mas certamene não atrapalha.
E vamo qui vamo.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Imitando Millôr


Comportadornotebook que tem quem o carregue

Auto-falante – indivíduo que fala sozinho

Golta – problema nas articulações de centroavantes

iLustre – candelabro fabricado pela Apple

Tolomóvel – indivíduo que apesar de não ser inteligente se movimenta.

Méximo – o balido mais forte da cabra

Múnimo – o mugido mais fraco da vaca

Portugol – gol de Cristiano Ronaldo

Alfaçanha – lisboeta que realizou uma proeza

Grotosco – indivíduo ridículo e grosseiro

quarta-feira, 20 de abril de 2011

A mosca


A mosca é um animal muito mal avaliado pelos humanos. O que é virtude pra todo mundo, na mosca considera-se defeito: a persistência.
Poucos reparam que maldizer as moscas é negar a perfeição divina. Deus as criou tendo em mente alguma finalidade. Talvez a única falha do Criador, quanto à mosca, tenha sido a de não se aperceber da sua quase infinita capacidade de reprodução.
O gênio humano tem inventado formas cruéis de acabar com as pobres moscas, desde raquetes elétricas a papéis grudentos que as matam demorada e impiedosamente. Era de esperar-se que – nestes nossos tempos politicamente corretos – várias ONG já tivessem sido criadas para lutar contra essa forma de barbárie.
Reclamamos muitíssimo dos mosquitos, que nos perturbam o sono na escuridão da noite. Ninguém, contudo, lembra-se de elogiar as moscas por não voarem no escuro.
Mas ninguém jamais viu mosca a voar no escuro. Das duas uma: ou elas não voam em tais condições ou não as vemos justamente por estar escuro.
As moscas são, ao menos parcialmente, responsáveis por outra criação divina de rara beleza, pelo menos se esquecermos do porco: o rabo. Que seria da decantada graça do cavalo, não fora o rabo? Mesmo quanto ao porco, se o rabo não é propriamente belo ao menos é saboroso. O que poderia ser dito de outras espécies, acrescente-se. Não fossem as moscas, o rabo perderia muito de sua utilidade.
No livro de Gênesis, no qual é narrada a criação do mundo, nenhuma menção é feita à criação das moscas. Alguém lembrará que as aves foram criadas no quinto dia. Dirá, até, que o escritor do Gênesis fala em criação de “toda ave de asas conforme a sua espécie” talvez já a pensar nas moscas.
Data venia, permito discordar de tal interpretação. Primeiro, jamais ouvi alguém referir-se a moscas como aves.
Segundo, duvido que alguém dotado de um mínimo de senso crítico chamasse um lugar habitado por moscas de Paraíso, como ficou conhecido o jardim do Éden.
Terceiro: Deus não conseguiria descansar no sétimo dia a menos que apagasse as luzes do Universo.
Talvez as moscas tenham sido criadas em um duvidoso oitavo dia, sei lá.
De qualquer modo, se a mosca está mesmo incluída entre os seres criados no quinto dia, nenhuma ave levou tão a sério a ordem do Criador quanto ela: “E as aves se multipliquem na terra”.
Porque coelho – aí sim – não é ave.

domingo, 10 de abril de 2011

Uma decepção e outra nem tanto


Estava hoje sem a Baixinha. Ela foi ao Rio cumprimentar o filho por mais um ano de vida e conhecer a nova neta, a Isabel, que já começou sua carreira de Electra ao nascer no dia do aniversário do pai.
Resolvi almoçar no Gigetto. restaurante tradicional de São Paulo (fundado em 1.938 e no mesmo endereço da Rua Avanhandava desde 1.969). Há tempos não saboreava o estrogonofe de frango dele, preparado com carne escura.
Pois o dito cujo estrogonofe veio com carne de peito... Mesmo assim, bem saboroso. Pedi, para acompanhá-lo, um malbec argentino Familia Barberis, 2.008. Muito bom. O preço, como já é praxe nos restaurantes de São Paulo, uma exorbitância: R$ 82,00. Quando veio a conta ele aumentou para R$ 152,00. Reclamação feita, desculpas pedidas pelo garçom, paguei a conta e fui embora.
Não me cobraram nada por ter me sentado na mesa vizinha à da ex-prefeita Luiza Erundina, acompanhada de outra senhora. Ambas já com algum excesso de idade e de peso.
Mas Erundina ainda é dos poucos políticos brasileiros que merecem respeito.
Eu disse poucos? Pouquíssimos!