sábado, 25 de setembro de 2010

Recordação


Um de meus melhores professores foi o Baronão. Era (e ainda é) tratado assim por que tinha um irmão mais novo, o Baroninho, por sinal nascido no mesmo exato dia em que nasci. Baroninho, já falecido, foi meu colega na POLI. Depois, deixou a POLI de lado e se firmou como matemático, tal qual o irmão mais velho.
Baronão, que me deu aulas no Curso Di Tulio, costumava entrar em sala de aula, às vezes, e dizer:
- Recordar é viver, então, vamos recordar.
E toca a retomar resumidamente tudo o que já havia sido ensinado.
Pois é. A foto abaixo me foi enviada por minha tia Clarisse.
Nela aparece meu avô Vicente. Ele casou-se com minha avó Amélia, quando ela tinha seus 15 anos. Aos 16 nasceu minha mãe, Celina. Aos 17, meu tio Antero; aos 18, minha tia Olinda; aos 19, meu tio Silas. Tudo isso eu cito mais ou menos. Não tenho as datas certas. Minha irmã Léa vai me corrigir. Aos 21 ou 22 anos, morreu minha avó Amélia, de febre amarela, no Rio de Janeiro. Corria o ano de 1.919, pouco mais, pouco menos.
Vai daí, meu avô Vicente, filho de italianos, mas adotado por um padrasto português logo que minha bisavó ficou viúva e casou-se novamente, resolveu casar-se com a irmã de minha avó. Como dizia minha mãe, a tia Tuta.
Daí vieram tio Afrânio e tio Paulo. Como minha tia avó também morreu precocemente (aqui entre nós, meu querido avô Vicente era um tremendo pé frio, né não?), meu avô casou-se pela terceira e derradeira vez com Dona Chiquinha, mulher linda, que gerou meu tio Vadinho, na foto, e minha tia Clarisse, até hoje a compartilhar alegrias com a gente, junto a seu gaúcho, o Reguera.

Tudo isso para explicar a foto abaixo, carregada de recordações: nela estão Dona Chiquinha, meu tio Vadinho (que me ensinou que careca adora um pente) e meu avô Vicente.

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Taj e Allana


Allana nasceu na manhã de 15 de setembro de 2.010, em Townsville, Queensland, Austrália.
Parece que será tão linda quanto o irmão, Taj, que desde já a proteje.

Imagem obtida com Print Screen ao conversarmos pelo Skype

Saravá!

Obs: No canto baixo, à esquerda, a pequena imagem dos avós corujas.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Final de ano em Bragança


Pois é. Lá pra 20 ou 21 de dezembro vão começar a chegar a Bragança irmã, filhos, netos e sogra de um filho.
Vamos comemorar Natal e Ano Novo, ali, ao pé do Parque Natural de Montesinho, com neve ou sem neve. E já com os móveis que acabam de sair daqui de São Paulo rumo ao Velho Mundo.

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Vamos conhecer - pessoalmente - a Isabella, nossa segunda neta, que irá pra lá, a partir de New York.
Vamos conhecer Allana, nossa terceira neta, recém nascida na Austrália.
E vamos poder brincar na neve (se houver) com o Taj e a Bruna, os demais netos.
Ficará faltando o Rafael, primeiro neto, que não poderá ir.

Não nos esqueçamos da Doga, que ficaria ressentida se fosse deixada de lado.

E que tudo seja inesquecível. Por ser maravilhoso.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Comunicado imprescindível


Dia desses, penso que 15 de setembro (ou terá sido 16? esses fusos horários complicam minha vida) nasceu Allana, primeira neta australiana.
Nós ainda não a vimos. Dizem ser mais bonita que o irmão Taj. Se isso for verdade, preparem-se para uma nova Miss Australia 2.028.
A mãe, Lu, está super bem.
Bola pra frente.
Enquanto nós mandamos nossos móveis para Bragança, Allana traz suas esperanças para o planeta Terra.

Caos


Mudança é assim. O caos.
Mas, se é para o bem...

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Gostaria de ir já, dentro de uma dessas caixas. Mas ainda não é possível.
Esperemos por abril do próximo ano, se houver próximo ano...

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Velório de Romeu


(escrito em 9/10 de agosto de 1.975)

O café não está dos piores, quero ver é acordar às sete pra pegar aquela papelada toda e botar em ordem. Mas não havia jeito, Romeu era subordinado seu e se ele não aparecesse no velório iria ser uma falação dos diabos entre os colegas de trabalho.
Pois é, meu senhor, basta estar vivo, a-vida-é-assim-mesmo, ainda por cima essa velha carpideira resolver despejar sua catarata de lugares comuns justo em cima de mim, parece que hoje não é o meu dia. Convenceu-se logo de que não era mesmo pois a velha a seu lado atraiu para aquele canto da sala um animado grupo de matronas, todas muito seguras em seus papéis, verdadeiras profissionais naquele ambiente de lágrimas & condolências. E foi o dilúvio. O senhor era chefe do Romeu, não era?, pobrezinho, tão jovem, ainda ontem tão sadio, tão disposto. Quem diria!... Distribuía para as velhotas expressões que o constrangimento devia tornar estúpidas, mas de qualquer forma sobrevivia. O fato é que o molenga do Romeu nunca esteve muito vivo, o prazo para entregarem aquele projeto já se estava esgotando e o homem sempre no mesmo ritmo, incapaz de dar duro e resolver logo a coisa. Aceita um café? Parece que adivinhava que a bomba iria estourar na minha mão, o vidente. Virou o café aproveitando para examinar a sala, a televisão do outro lado dominando a cena, mesmo desligada, embutida em um móvel sobre o qual estava uma bandeja com xícaras e uma garrafa térmica. Aquele montão de cadeiras certamente tinha sido trazido pela vizinhança, normalmente as poltronas e o sofá também não deveriam ficar todos assim, ao longo das paredes, tudo devia girar em torno da televisão, os móveis e a família. Pensou, por falta de idéia melhor, que afinal a morte talvez fosse o único evento capaz de romper a mania das novelas e dos shows de TV. Ou talvez não, porque a mulherada que o cercava parecia estar em pleno debate a respeito de capítulos mais recentes das novelas preferidas. Pensou na viúva, sentada ao lado de pessoas da família, menos por pena, mais para não ouvir a conversa à sua volta. Não era uma mulher totalmente feia, ou melhor, nela a questão se situava em outros termos, não era bonita nem feia, parecia simplesmente um pouco mais medíocre que o normal das esposas-de-funcionários-de-nível-médio. Que era a morte do Romeu para ela? Provavelmente volta a morar com os pais. Uma vez por ano leva flores ao túmulo, talvez mais, sei lá. O terrível é que me parece que nada é capaz de abalar nela essa atmosfera de cotidiano, romper esse bloco de bom senso. Não vai passar por nenhuma reorientação essencial, apenas leves alterações de rotinas diárias. No entanto, morrera o homem com o qual construira todos os orgasmos de sua vida, para o qual cozinhara durante uns vinte anos, entra-dia-sai-dia, um lava-passa de cuecas, camisas, meias e o diabo! Mediocridades compartilhadas, ainda mais que a falta de filhos os deixara todos esses anos cara a cara, sem biombos, interfaces protetoras, que coisa linda que os filhos são!, como é que podia associar essas coisas todas com Vinicius, velório é isso, a gente começa a revirar memória, esforço pra não dar aqueles bocejos indelicados... de repente, não mais que de repente, a gente desenterra poemas, amigos esquecidos, mortos pra gente, cujas mortes - dessas sem velórios, enterros, mais efetivas porque menos rituais - ajudaram a alterar nossos rumos, de um jeito ou de outro nos arrastaram até aqui, ou teriam nos empurrado mais pra lá se não tivessem sido, se os amigos (se os poemas) tivessem vivido mais, se suas forças de gravidade nos tivessem por mais tempo segurado em órbitas passadas, mortas agora. O senhor está acompanhando também? O último capítulo estava apaixonante! Claro, claro, ainda bem que essas madames não exigem muito das respostas, não são como Isabel, que queria tudo explicadinho, espoleta a Isabel, só sossegava na cama, mas antes!, veja a ironia. Que bicho terá comido a danada, sumiu. Naquele tempo as pessoas iam e vinham sem muitas cerimônias, sem batizados nem velórios, passavam. A fase das grandes amizades já havia passado, ainda não surgira a época das amizades formais, de conveniência, era o vazio-de-final-de-adolescência. Qualquer dia teorizo isso. Estará fazendo o quê, a Isabel, certamente ouvindo explicações de algum outro, será que já aprendeu a trepar?, vai ver pensa que a culpa era minha. De qualquer jeito, outro mundo, de qualquer modo, morta, mais talvez do que o Romeu. Biscoito? Obrigado. A questão é que Isabel não lhe dizia mais nada, agora que ausente. Outros vazios doíam mais, amizades nas quais esgotara imprudentemente toda a sinceridade e paixão que deveria ter espalhado mais de modo homogêneo pela vida inteira. Caso do Gomes. Porra, o Gomes! Houve época em que não podia imaginar um dia sem um papo com o Gomes. Sofreram juntos os dramas seus e os do mundo, discutiram em detalhes intermináveis os absurdos da vida, tudo com muito conhaque (o Gomes sabia beber conhaque) e muita música pra catalisar tristeza. Pensando nisso, será que pega mal se eu pedir um conhaque aí pra alguma responsável pelos comes-e-bebes?, seria até um jeito de sair desta roda de galinhas estéreis. Com licença.
Conseguiu seu conhaque sem muita dificuldade, esgueirou-se para o jardim da frente da casa e aboletou-se no murinho que o separava da calçada já deserta. O conhaque era de quinta categoria, mas a noite estava soberba. Estivesse com o Gomes, estaria bebendo um Macieira, no mínimo. Mas não teríamos nada pra dizer. Aqueles planos de largar tudo, sair por aí escrevendo poemas, hoje isso soaria como uma proposta de sair da Via Láctea à procura da origem do cosmos. Agora que tudo era farsa, já não sabia estabelecer até que ponto falavam sério naqueles papos de antes. antes do quê, afinal. Gozado como não houve nenhum ponto de ruptura bem delimitado, essas coisas só existem nas teorias. Certamente o Gomes era mais sincero, parecia falar sempre mais de dentro, mais pra valer. Ele sempre puxava os temas, as variantes do mesmo Tema. A partir do terceiro copo os dois já estavam mergulhados vitalmente naquele mundo de projetos e desespero, mas no início era o Gomes que os arrastava para aqueles ódios sem objeto, aquela nostalgia sem passado. A viúva, lá dentro, começava a chorar mais alto. Olhou o céu pintadinho de estrelas, pra que canto teria ido o Romeu, pra que lado teria ido o Gomes, foram se encontrando cada vez menos, o Gomes muito preocupado com desigualdades sociais, exploração capitalista, sua fase política - como ele mesmo costumava dizer. Eu sempre achei esse tipo de coisa meio paranóica. Mas ele insistia que agora sim, que agora tinha conseguido abordar os problemas pelo lado certo, pobre Gomes, precisava mesmo era de mulher. Tentou ainda discutir com o Gomes, mas já não se acertavam mais, os pontos de referência distintos, uma bagunça. Tudo que ele dizia o Gomes classificava de ideológico. Porra, Gomes, mulher é ideológico!? Bebiam mais um conhaque num silêncio meio embasbacante, depois era aquela despedida murcha, aparece cara, nada como antes, ou com aquelas lágrimas inexplicáveis borrando os olhos, levantava em silêncio, um silêncio todo expressivo, dava uns tapinhas nas costas do Gomes imóvel, olhos no chão, no nada, saía lento, um tempo já perdido pela frente. Depois foi a vida profissional pra mim, a revolução pro Gomes, nossas órbitas foram se descolando, morremos mutuamente. Serei para o Gomes hoje uma encarnação da classe média, exemplo de conceito, abstração. De certo modo Romeu está mais vivo, sua ausência me dará um trabalhão amanhã. Morto ou não, terei de dar um jeito naquela papelada. Nenhum de nós dois dava a mínima pelo mundo, sentíamos tudo como massa indiferente, achávamos sem sentido que alguém corresse atrás de objetivos nesse universo absurdo. Não sabíamos (eu acho que já sabia) que fazíamos a crítica de nosso futuro. Que puta incoerência. E pensar que aquela adolescência foi a nossa, que deve haver algo daquilo tudo sedimentado em algum canto cinicamente escondido dessa minha cabeça oca. O Gomes tentando mudar tudo, debatendo-se contra o estabelecido, vai ver está com a razão, sempre ele mais perto do certo, sei lá, pelo menos deve ter pra onde ir, pra onde olhar, sem sentir-se nesse ciclo interminável que só faz girar pra nos dar a sensação de movimento. Serviços urgentes, menos urgentes, filmes melhores, piores, livros chatos, outros bons, mulheres loiras, morenas, pintas que se espalham diferentemente pelos corpos pra criar uma sensação de diferença, de variação, de surpresa. Mas Aquiles não alcança mesmo a tartaruga, não é mesmo?, Gomes, continuemos inertes, parados na adolescência, ir à frente é ilusório, tanto é que fomos e estamos mortos. Despeja aí um conhaque e vamos ficar parados no antes, antes que você subverta o mundo, antes que eu me acabe de tédio. Que idéia idiota foi essa de matar nossas convicções, enterrar a perplexidade, descobrir certezas. Veja só, até já consigo borrar de novo os olhos daquela maneira estúpida de antes, sem que nada seja dito, nem mesmo pensado. Onde está você, Gomes, pra gente partilhar esse sofrimento feliz.
Foi virar mais um gole, copo vazio. Ainda esticou maquinalmente a mão para pegar a garrafa, pegou foi a lembrança do velório, viúva chorando, velhas carpideiras de mortes reais e televisionadas, o Romeu, caramba!, a papelada amanhã... Já é tarde, hora de cumprir o ingrato dever das despedidas cheias de pêsames e silêncios constrangidos. Entrou na sala, aproximou-se da viúva. Ao abraçá-la pensou - satisfeito - que suas lágrimas vinham bem a calhar, dariam a impressão de estar realmente triste.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Lição de puericultura


(texto sem data, escrito em um dia qualquer do segundo semestre de 1.975. Por algum motivo de que não me lembro, quase todo o texto está em minúsculas)

conseguiu acalmar o guri sabe lá como, tantos os truques que tentou, tudo misturado, quem tem tempo nessas horas pra ficar isolando causas metodicamente, o que importa é o efeito. correu ao livro recém adquirido, Manual do Petiz, coisa do gênero, o nome não recomendava mas a inexperiência sim, de repente tendo de cuidar daquela miudice de exigências inadiáveis. procurou choro no índice remissivo e foi enviado a umas poucas tautologias do tipo "o choro do lactente indica frio ou calor ou cólicas ou febre ou fome ou ...". folheou mais um pouco aquele amontoado de frases vazias e desistiu, mesmo porque o guri já recomeçara o berreiro.
lembrou do pediatra que procurara na semana passada. já teria voltado de férias? afinal, se o médico examinasse a criança talvez pudesse dizer alguma coisa além das generalidades daquele livro inútil. onde estava com a cabeça quando comprara aquilo? a finalidade óbvia daquela geringonça era a de capitalizar a preocupação de pais inexperientes e reunir para o autor uns restos de salários esquecidos aqui e ali pela indústria do entupa-seu-bebê-com-os-produtos-da-mais-avançada-techologia. enrolou bem aqueles cinqüenta centímetros barulhentos e arrancou para o pediatra.
ficou pouco tempo no consultório de ar condicionado e bichinhos disney. o suficiente pra responder um questionário genérico, ver o moleque ser profissionalmente apalpado pelo médico e receber umas três receitas cheias de nomes horrorosos. ao sair pagou um dinheirão a uma secretária estrategicamente situada em uma mesa cercada de mamães aflitas e/ou aparvalhadas.
chegou a pensar em tomar o rumo da farmácia mais próxima mas estava assustado diante daquele ciclo interminável: um livro caça-níqueis que recomenda os produtos Vamos&Venhamos que causam problemas que só o pediatra pode resolver - ou melhor - pode encaminhar aos remédios dos laboratórios especializados em introduzir o recém nascido na rotina dos produtos e ante-produtos e metaprodutos. ainda tentou desculpar o pediatra: se todos procuravam lucrar ao máximo, não era culpa dele se o objeto de seu trabalho eram crianças doentes. Além disso, ele até que ficava com uma fatia pequena nesse rendoso negócio que faziam com a saúde das pessoas... Também, que podia fazer o pediatra se a pediatria continuava na estaca zero? Se nada se sabe com um mínimo de segurança a respeito de crianças recém nascidas, já que essa estória de conhecimento e ciência também é controlada pela indústria das doenças, por uma indústria doente, também precisando de remédios?... e desculpou o livro via pediatra e este através da indústria e esta graças à sociedade. voltou pra casa furioso e descontrolado, se bem que era o guri que gritava sem parar.
aquele sem fim de conexões impessoais e opressoras o agitava. pensava um pouco em tudo sem conseguir fixar-se em nada. os livros, médicos, indústrias, ciências, sociedade, tudo girava num turbilhão gigante. Pensou em lançar tudo fora e começou pelo livro. O Manual do Petiz foi minuciosamente picado e lançado janela afora. Jogou fora o pediatra, os pediatras, os remédios, as indústrias de remédios. Foi preso e condenado a cinco anos de reclusão quando tentava jogar fora a sociedade.

domingo, 12 de setembro de 2010

Escritos antigos


Isso é que dá, ter de arrumar tudo para a mudança. Encontram-se escritos esquecidos, soterrados por pastas, papéis...
Lá vai um poema de janeiro de 1.983:

Escrevo sobre força
E uma fraqueza ronda.
Os feitos que quero
Não quero.
Os fatos que posso
Não quero.
Quero o que escapa,
derrapa.
A dúvida solapa
toda certeza.

domingo, 5 de setembro de 2010

Alegrias globais e locais


Não há como negar. Hoje, para mim, foi um dia triste.
Amanhã vou ao Porto aguardar o embarque para o Brasil, na terça.
Mas dois acontecimentos deram um colorido alegre a esse domingo.
Primeiro é o que leio no Público on line: a ETA apresentou à BBC um vídeo com declaração de cessar-fogo.
Tomara seja pra valer e seja definitivo.
Segundo: estava esta manhã sentado diante do computador quando reparei que um passarinho havia entrado na varanda de casa.
Como as proteções da varanda são de vidro, o passarinho tentava sair e batia com o bico no vidro. Andava de um lado a outro, quase em desespero.
Fiquei com receio de lançá-lo para fora e ele se esborrachar lá no chão, pois tudo indicava que ele não conseguia voar.
Resolvi deixá-lo ali até depois do almoço.
No começo da tarde, ao voltar, percebi que o passarinho continuava no chão da varanda, já agora quietinho, parado.
Resolvi arriscar.
Peguei-o com algum esforço pois minha aproximação o assustava muito e ele corria de um lado para outro.
Com uma dúvida enorme, lancei-o ao ar.

Foi o vôo mais lindo que já vi um pássaro dar.

sábado, 4 de setembro de 2010

Mais uma despedida


Hoje fui a Passos despedir-me dos parentes. Ou seja, de todos.
Passei na casa de Maria Tereza, conversámos um bocadinho. Ela reclamava do calor. Pudera, com toda aquela indumentária preta, de viúva, há de sentir muito calor.
Da próxima vez, vou propor-lhe que lance a moda de roupas brancas para as viúvas.
Ficará indignada, claro. Mas que seria bom, seria.
Fui, depois, à Dora. Descansava na parte de baixo da casa, onde antes eram guardadas as vacas. É fresquinho, lá. Brinquei com ela que as vacas eram tão saudáveis porque viviam na melhor parte da casa. Dora transformou aquilo em uma agradável sala de estar.
Dali fui ao Café do Otávio. Encontrei o Irineu, da Gestosa, filho do Zindo. Aproveitámos o Café para tomar um fino. Gostei do brinde dele:
- Que nossas esposas não fiquem viúvas!
Andei à casa da Zelinda. Ela limpava feijão, enquanto o Alípio exercitava sua habilidade em matar moscas, munido daquela espécie de espátula de plástico, própria para esse tipo de assassinato.
Jogámos meia hora de conversa fora.
Voltei ao Café, na esperança de encontrar o Marciano, que anda por aqui. É mais fácil nos encontrarmos na aldeia do que em São Paulo, onde moramos em bairros vizinhos. Mas não houve hipótese. Parece que estava pra Vinhais. Se não terá sido ele que quase me abalroou, na estrada de Passos a Vinhais, quando de meu retorno a Bragança.
Antes de partir, encontrei o Kiko, que me prometera um garrafão de vinho e um pouco de bagaço. Pedi a ele que mos dê aquando do Natal, quando estiverem cá meus filhos e netos.
No retorno a Bragança, não resisti a uma paradinha e a esta foto.

Verão na Lomba

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O sumo da cultura


Quando criança, lia nos livros aquilo de donzela de lábios cor de romã. E ficava a imaginar que diabo de cor seria essa. Nunca vira uma romã.
Hoje, tomo sumo de romã e gosto de ver a Baixinha comer romã de verdade, com um prazer indisfarçável (e por que raios ela deveria disfarçar?).
Agora, decepção mesmo foi quando li na caixinha Tetra Pak do sumo de romã que, em espanhol, romã é granada.
Isso lá é cor pra lábios românticos?
Será (vou investigar) que nos romances em espanhol o mocinho comenta que a donzela tem lábios cor de granada?

Hoje saí às compras. Ou talvez seja mais correto dizer que saí à compra. Fui comprar apenas uma coisa: uma escada. A Baixinha pediu-me, na conversa de ontem pelo Skype, que comprasse uma escada maior do que a que já temos. Ela havia comprado uma de dois degraus. E se deu conta, agora, de que é necessária uma de cinco degraus. Não só por ela ser baixinha, mas para que eu, que não sou nenhum gigante mas sou bem maior que ela, possa alcançar livros na prateleira mais alta do escritório.
Entrei na loja, dei aquela volta de reconhecimento, vi que não havia escada alguma à venda. Por via das dúvidas, perguntei a uma atendente:
- Não têm escadas?
Que belo mico!
Para azar meu, a loja até tem uma escada mais ou menos no meio do salão, por ser este de dois níveis distintos.
Com um sorriso levemente irônico, a mocinha fulminou:
- Escadotes? Não, não temos.
Os dicionários trazem escadote sem nenhuma observação de ser termo usado em Portugal e não no Brasil. Mas, no Brasil, nunca ouvi ninguém utilizá-lo.
Sou, agora, o feliz proprietário de dois escadotes. O último dos quais paguei com pequena parte de minha inesgotável ignorância.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Calma e paixão


Estava ontem a reler o texto de uma caixinha de sumo de maracujá (observação: intelectual brasileiro jamais . Ele sempre relê) quando me surpreendi com o nome dessa fruta em um monte de outras línguas: passion fruit (inglês), fruit de la passion (francês), passievrucht (holandês), passionfrucht (alemão), passionfrukt (sueco).

CLIQUE PARA BEBER (um dia ainda será possível)

Em primeiro lugar, apesar de eu ser o primeiro a reconhecer uma caixinha de sumo de frutas como fonte importante de cultura (e de um monte de outras coisas, a julgar pela Informação Nutricional), não se deve concluir do que foi dito acima que quem sabe alemão consegue falar tranqüilamente holandês e sueco. Devagar com o andor.

Mas o importante, a meu ver, é a brutal discrepância do nome da fruta em tudo quanto é língua (não consultei o mirandês, é verdade) e o nome da dita cuja em português.

Mais: os dicionários e a vida ensinam que a paixão nada tem de calma. E eu vivi uma já longa existência a ouvir que o maracujá é excelente calmante. Na TV brasileira já houve até um comercial, protagonizado por Juca de Oliveira, notável ator e autor teatral (na TV todos são a lesma lerda), em que ele afirmava:
- Beba Maracujina e fique calmiiiinho, calminho.
Se esse bendito comercial devesse ser vertido para, digamos, o sueco, teria de ser assim (em sueco, mas vai em português que eu não sou o Janer Cristaldo):
- Beba Paixãozina e fique arrebatado e exaltado.
(talvez em sueco até soe melhor)

O Houaiss diz que maracujá vem do tupi moroku'ya. Vá lá.
Mas por que diabos as outras línguas chamam de fruta da paixão a uma fruta que acalma?!

Algo errado


Logo ao acordar verifico que Internet, TV e telefone, viva!, funcionam.

Vou até a cozinha e o frigorífico de época que consegui comprar me arrasta para o início da década de 60, quando minha mãe me emprestou a geladeira que nos acompanhara durante anos, em Santos. Ela ia morar com minha irmã no Rio e eu instalei a geladeira no quarto da república de estudantes em que morava, em São Paulo. Como era bom, chegar à noite a meu quarto e poder fazer uma vitamina de frutas com leite fresco. Era meu jantar. Quanto aos frigoríficos, há diferenças: este é vermelho, aquele era branco. Este é Bosch, aquele era Frigidaire, se não me falha a memória (e como falha). Mas eu também mudei. E quanto.

CLIQUE NELE PARA ABRI-LO

Volto ao computador. E aprecio Diana Krall no Bic Laranja.
Ainda hoje duvido um bocadinho da existência dessa mulher. O que não me impede de apreciar sua música.

A luz do céu de Bragança está simplesmente maravilhosa.

É aí que me parece haver algo de errado em tudo isso.

Afinal, segundas-feiras não foram feitas pra deixar ninguém tão feliz.

domingo, 29 de agosto de 2010

Um domingo de mixed feelings


Fui a Passos, hoje. Almocei com Zelinda, Alípio, sua filha, genro e neta.
Não poderia ter sido melhor. Não a comida, que foi boa, mas o convívio.
Depois, fui ver Maria Tereza, fui ao café do Otavio e voltei à Zelinda, depois do Kiko me empurrar uma rifa de 20 euros para uma finalidade pra lá de nobre: um centro de convívio que será construído no terreno da escola (desativada), para permitir que os idosos façam suas refeições (pequeno almoço, almoço e jantar) lá, ou que recebam tudo isso em casa, se a locomoção já for difícil.
É a aldeia a preparar-se para o tempo final dos velhos habitantes.
Quando é que alguém vai acordar pra reavivar esses paraísos que são as aldeias trasmontanas?
Fiquei também a saber que morreu minha tia Juventina, no Brasil. Meia-irmã de meu pai. Nenhum de seus filhos ou sobrinhos dignou-se a avisar-me.
Paciência.
Voltei a Bragança e fiquei a saber que a Baixinha está com pneumonia. Já tive esse dissabor. Basta uma semana de repouso absoluto e pronto. Tudo resolvido. Só duvido que ela tenha capacidade de manter repouso absoluto por um dia que seja.
Mas tudo se resolve. Ou não.

sábado, 28 de agosto de 2010

Ainda sobre a Albufeira do Azibo


Dia destes, escrevi, aqui, sobre as praias fluviais da barragem do Azibo.
Eu não as conhecia. Aproveitei este sábado, de muito sol e calor, para ir até lá. É certo que deixei pra ir lá pras cinco da tarde. Mesmo assim, tratei de passar protetor solar nos antebraços e no rosto (o resto, devidamente coberto. Já chega minha neta, que se queimou toda, lá em Westport, e está de molho, à espera de melhoras).
De Bragança até lá são uns 25 km, pelo IP4. Mas isso é contado a partir de Bragança Sul. Como resido no extremo norte da cidade, de minha casa até lá são 40 km.Isso se faz em 20 ou 25 minutos, já que a velocidade permitida nos IP é de 110 km/h.
Vai-se pelo IP4 até encontrar-se a placa para Azibo. Entra-se, então, em uma estrada secundária bem cuidada, como podem constatar nas duas fotos abaixo:

Foto tirada na ida
Foto tirada na volta
Mas não se empolgue: vai andar apenas uns 200 metros nela e já está no Azibo.
O restante as fotos contam:








Casal Sombra e Sol

E agora, esta


Estava eu a ler a Sábado e encontro isto:
Diz ele que eram usados [blusões que tinham gola em pelúcia] pelos betos que tinham mota e provocavam tremenda inveja nos outros [...].
(Sábado, nº 330, pag. 19, in crônica de Nuno Markl)

Meu apelido de infância é Beto.
Fui ao dicionário:

beto
nome masculino e adjectivo
coloquial jovem bem comportado, geralmente um pouco presumido


presumido
adjectivo
1. vaidoso; presunçoso
2. afectado
3. que é uma hipótese; suposto; conjecturado

nome masculino
indivíduo com presunção ou vaidade



Ainda bem que pouca gente me trata por Beto.
Parece que, aqui em Portugal, Beto é o mesmo que Mauricinho, no Brasil.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Minha Luta (contra a PT)


Não. Este post não se refere, a não ser como blague, ao livrinho do Adolf.
Acontece que cheguei ao Porto na quarta de manhã, depois de vôo tranqüilo (às favas, a reforma ortográfica), a não ser por uma freada um tanto abrupta na aterrissagem no aeroporto da Maia. Sozinho. A Baixinha e a Doga ficaram em São Paulo.
Duas horas e meia até Bragança. Sol a todo vapor (essa expressão faz sentido?).
Já perto de Mirandela percebi que meus antebraços estavam vermelhos. Passei a dirigir tentando deixar os braços à sombra. Ainda bem que a Baixinha meteu em minha bagagem um protetor solar que vai me socorrer. Mas só depois de chegar em casa e abrir a mala.
Por falar em casa, estava por aqui tudo direitinho. Ou melhor, quase tudo.
A TV, a Internet e o telefone (que algum dia, pra provar que sou português, vou conseguir chamar de tulufone) não funcionavam.
Ocorre que contratei a MEO, da PT. E como isto aqui é a parte mais atrasada de Portugal, nada de fibra. Isso de fibra ainda é requinte de alfacinhas. Pra deixar tudo mais claro: a qualidade da Internet, cá em Bragança, talvez seja a pior de Portugal. E é equivalente (ou pouco superior) à melhor de que se dispõe no Brasil.
Como se percebe, nós, os brasileiros, temos toda a razão quando ridicularizamos a nós, os portugueses. Segue o jogo.
Ligo, então, à PT. Isto ainda na quarta-feira. Descobrem, sabe-se lá de que modo, que o problema é externo à minha morada. Por via das dúvidas (e nem Descartes conseguiu ter tantas dúvidas), fazem o agendamento (detesto essa palavra) de uma visita técnica para o caso de o problema persistir depois da intervenção na parte externa de minha residência: será na quinta, entre 14 e 18 horas. Isso significa que ficarei preso a meu apartamento durante toda a tarde de quinta-feira. Para quem passou um bom tempo (ou terá sido mau?) em uma cela de prisão, isso não deveria constituir nenhum drama. Acontece que vim até Bragança pra resolver uma porção de probleminhas. Uma tarde trancado em casa não era exatamente o que eu tinha pedido aos deuses. E, last but not least, eu tinha de 26 a 28 anos quando fiquei sob tranca no presídio Tiradentes. Agora, sou um ancião de 65 anos que não dispõe de muito tempo pra ver a banda passar.
Como todo mundo já adivinhou, o problema não foi resolvido e a visita não deu as caras. E nem satisfação.
Toca a ligar pro tal 16200 da PT, que - registe-se - é gratuito [alô pessoal do horário eleitoral da TV brasileira: é gratúito e não gratuíto] só pra quem liga de um telefone da PT. Mas justamente por eu estar a ligar por causa da falência múltipla de órgãos de meu sistema MEO, inclua-se aí o tulufone, tive de ligar do meu telemóvel TMN. E gastei, acreditem, DEZENAS de euros. É um tal de transferir a sua ligação (muito importante para nós) para outro lugar, que chego a pensar que a ideia era promover algum tipo de gincana, com prêmios ao final.
Que foi feito? Ora, claro!, agendou-se outra visita técnica para hoje, sexta-feira, entre 14 e 18 horas.
Penso que, afinal, a PT entende não ser justo eu ter ficado dois anos trancafiado no Brasil e - cá em Portugal - passar todo o tempo livre e solto. É preciso um certo equilíbrio.
Quase às 16 horas, recebo uma simpática ligação no telemóvel. Trata-se do visitante PT. Quer vir à minha residência. Fico à beira de sentir-me lisonjeado.
Logo muda de ideia. Diz que, se calhar (os portugueses adoram essa expressão), pode resolver o problema remotamente. Pena. Quase já havia aberto o vinho com que o receberia. Para respirar.
De facto, a TV e a Internet voltam ao meu convívio.
O tulufone é que insiste em não fazer ligações.
Meu quase futuro visitante diz que vai resolver também isso.
E desaparece de cena.
Ligo à PT, reporto o problema do tulufone e me dizem que vou ser contatado para as devidas providências.
Ainda bem que amanhã é sábado. Vou passear e deixar o tulufone pra segunda.
Que me encontrem no telemóvel.
A batalha continua na segunda-feira. Ainda de manhã, vou procurar um representante Zon.

sábado, 14 de agosto de 2010

O anti-herói de Salgueirais


Li sobre ele no Diário de Notícias de hoje.
Jorge, é o nome dele.
Foi detido pela segunda vez por conduzir com uma taxa de álcool acima do permitido.
Conduzir uma carroça atrelada por um burro, diga-se.
O que dele contam seus vizinhos de aldeia é que é digno de nota:
Tem 34 anos, não sabe ler nem escrever e de leis pouco percebe.
Jorge nasceu na Velosa, uma aldeia do outro lado da serra e foi viver para os Salgueirais com uma mulher mais velha que ficou viúva e tem uma pequena pensão.
O casal são uns pilha-galinhas. Deitam a mão a tudo quanto podem.
Chega a dizer um tal de Pedro Santos:
Uma ocasião vim a casa e vou dar com ele deitado na minha cama. Veio para roubar e adormeceu.
Outros ressaltam o tanto que sofrem os animais do casal:
Têm uma cadela que é pele e osso.
O burro leva cada enxerto de porrada que mete dó
.
Mas Jorge é homem de princípios rígidos:
Posso deixar de conduzir o burro, mas o vinho não deixo.

Íntegra aqui.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Da série Mordam-se de inveja


A Albufeira do Azibo, no nordeste trasmontano, que tem uma praia com o maior número de bandeiras azuis na Europa, fica a menos de 30 km de casa.

E isso porque moro longe do mar.

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Atualização: E, vai daí, até campeonato nacional de volei de praia vai haver lá neste final de semana.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Fragmentos de um discurso escatológico - 2


Em 1.968, recém formado em Engenharia, mas estudando para o vestibular de Filosofia, na USP, fui morar no centro do movimento estudantil daquela época: a R. Maria Antonia, em São Paulo. Ainda lá funcionava a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo.
Ao prestar vestibular, conheci o Eliandro, um rapaz que havia abandonado o ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica), considerado uma das três melhores escolas de engenharia do país (as três eram: POLI-USP, onde me formei, o ITA e o IME - Instituto Militar de Engenharia, no Rio de Janeiro). Era um excelente aluno no ITA, o Eliandro, mas abandonara a escola por considerá-la uma fábrica de loucos. E, como eu, resolvera fazer Filosofia na USP. Procurava um lugar para morar. Claro, convidei-o a dividir comigo o apartamento que acabara de alugar. A família dele era de Vitória, no Espírito Santo.
Graças a ele, recebíamos, nos finais de semana, a visita de vários alunos do ITA. Alguns deles tinham um hábito digno de nota. Vamos a ele:

É preciso começar por lembrar que, naquela época, (quase) todo mundo fumava. Logo, (quase) todo mundo carregava consigo um isqueiro.
Não sei o que o pessoal comia lá no ITA. O fato é que a turma peidava com uma freqüência assustadora.
Para eliminar os terríveis odores resultantes da reiterada prática, usavam o isqueiro. Bastava o indivíduo querer peidar, sacava o isqueiro, colocava-o próximo ao próprio rabo, e - ao eliminar os gases - acionava o isqueiro.
Dois eram os resultados benéficos:
1. Eliminavam-se os maus odores;
2. Provocavam-se chamas de beleza às vezes surpreendente.

Caso você ainda guarde aquele velho isqueiro, experimente.