Como todos os bairros de São Paulo, o meu também tem vários jornaizinhos e revistinhas de propagandas dos estabelecimentos comerciais da região. Hoje, recebi um deles. Dois anúncios chamaram minha atenção: Um implora que você matricule seus filhos na escolinha de inglês:
Até aí, vá lá. Afinal, com três anos uma criança não tem obrigação de saber como se escreve Universidade. Mas um outro quer me queimar vivo:
Lula compara dissidentes cubanos a bandidos paulistas. Glauco, o cartunista, é assassinado e a gente passa a saber que ele era bispo de uma religião centrada no tal de Santo Daime. E, parece, um pouquinho de maconha. O novo presidente toma posse no Chile e a terra não pára de tremer. Em Pernambuco, também agora se sabe, treme sempre. Até na minha pacata Bragança, Portugal, bateu – noite dessas – um vento de uns 140 km/h. Em meio a tudo isso, 2.010 é – para mim – o último ano de trabalho no Brasil. É verdade que comecei a trabalhar aos 15 anos. Certo que foi só um aluno particular de matemática que me forneceu meus primeiros trocados. Trabalhar, trabalhar, mesmo, só a partir dos dezoito. Daí pra frente não parei mais. Quase cinqüenta anos. Mas, pra contar tempo para aposentadoria, ainda preciso de mais um ano pra chegar aos trinta e cinco. Foram vários anos de trabalho sem qualquer registro. Uma carteira profissional furtada, sem que eu conseguisse recuperar todos os registros contidos nela. Além disso, houve o tempo de prisão e o tempo imediatamente posterior. Quando fui preso, era contratado pelo Instituto de Matemática e Estatística da USP (IME). Voltei a dar aulas no IME quando saí do presídio Tiradentes. Fiquei lá um ano e meio sem que ninguém se aventurasse a solicitar à Reitoria um novo contrato para mim. Claro, quem fizesse isso ficaria imediatamente queimado. Pelo crime de pedir recontratação de ex-preso político, ainda com os direitos políticos cassados por 10 anos. Quando pedi contagem de tempo para aposentadoria na USP, me reconheceram o tempo decorrido desde o início de meu contrato até minha prisão. Entrei com pedido, na Reitoria, para que contassem o restante do tempo. Comprovei tudo direitinho. Disseram-me que reconheceriam o tempo em que estive preso até o final de meu contrato. Quanto ao resto, deveria solicitar à tal Comissão de Anistia. Ou seja, reconheceram que – por ter sido preso (melhor seria dizer: seqüestrado) – era justo contar o tempo em que estive preso. Bem. Só que apenas até o final de agosto de 1.972, quando venceu meu contrato. O fato de ter ficado preso até início de 1.973 já não é problema deles. Talvez pensem que fiquei preso por gosto. Sei lá. E depois de sair da prisão? Dei aulas, fiz cursos de pós-graduação, passei no exame de qualificação para o mestrado, trabalhei na dissertação de mestrado. Mas, como ninguém teve coragem de sequer pedir minha recontratação (disseram que eu ficasse vivendo de bolsa do CNPq até que viesse a anistia), a Reitoria entende que não tenho direito a nada. Ou melhor, resta-me o direito de solicitar o reconhecimento desse período à Comissão de Anistia. Fiz isso há mais de 2 anos. Meu processo continua parado no protocolo da Comissão. Se a tal Comissão reconhecesse o ano e meio em que trabalhei sem registro (além dos últimos meses de prisão) eu já estaria aposentado. Como já perdi a esperança de que algo aconteça saído dessa Comissão, vou aguardar o início de março de 2.011 para ir embora desse arremedo de país.
Dia desses pensei: não faz sentido ficar angustiado, à espera de que chegue março do ano que vem. Melhor é curtir este ano de trabalho pois será o último. Imagino que, uma vez aposentado, bata vez em quando uma saudadezinha do tempo em que trabalhava. Afinal, foi o que fiz quase a vida toda. Aí, poderei lembrar deste último ano e curtir meus mixed feelings: que bom estar aposentado/que bom ter trabalhado.
Eis senão quando, do nada, nossa cadelinha, ela, a Doga, aparece arrastando as patas traseiras sem poder andar. Diagnóstico: hérnia de disco. Depois de alguns dias tristes, com o espectro de ter de sacrificá-la a rondar nossas cabeças, hoje uma especialista garantiu que ela volta a andar em poucos dias. Começou a fazer acupuntura e parece já demonstrar sinais tênues de recuperação.
Pode parecer incrível, mas – diante disso – tudo mais virou pano de fundo.
Pra recuperar um pouco da alegria da Doga em movimento, lá vai mais um filminho dela a brincar na neve de Bragança:
Como tudo no Brasil anda muito chato, sugiro uma leitura divertida: O blogueiro de Veja, Reinaldo Azevedo, e Janer Cristaldo, parece que blogueiro sem Veja, terçam lanças por Dulcinéia. Janer chama Reinaldo de “recórter tucanopapista hidrófobo”. Reinaldo devolve a bola com “a Criada Juliana, a louca barbuda que tem delírios eróticos comigo”. Ambos garantem não dar a mínima bola para o outro, mas a baba que escorre dos posts os contraria. Só pra começar, leia isto, isto e isto.
Mas há mais. É só procurar.
A menos que você seja aquele sujeito positivo da frase: Enquanto Dom Quixote terçava lanças por Dulcinéia, esta esquentava a cama com um cavaleiro menos andante e mais positivo.
De uns tempos pra cá, a subprefeita da Lapa, em São Paulo, Soninha Francine, começou a se deixar fotografar nua – ou quase – por algumas revistas. A imprensa passou, então, a cobrir o assunto (eta expressãozinha chegada a um trocadilho), sempre roçando muito de leve a questão central.
Dois exemplos:
Na coluna de Mônica Bergamo, ontem, na Folha, lê-se a certa altura da entrevista com Soninha justamente a propósito das tais fotos:
FOLHA: O prefeito Gilberto Kassab soube dessa foto? SONINHA: Ah, não, não. Nem me ocorreu [conversar com ele sobre isso] O prefeito é meu chefe na subprefeitura, não no que mais eu faça por aí. FOLHA: E o governador José Serra, que é seu grande conselheiro? Você o consultou? Ele viu as fotos? SONINHA: Ah, também não. Eu consulto os amigos várias vezes quando eu tenho dúvida. Tipo: “O que você acha que eu faço?”. [Desta vez] Eu não tinha dúvidas, não consultei ninguém
(a entrevista completa aqui, para assinantes Folha ou UOL)
Na edição de 5 de março de 2.010 de seu site na Internet, Giba Um dá a seguinte nota:
Provocação Como a subprefeita da Lapa, em São Paulo, Soninha Francine, vai aparecer seminua na seção Mulheres que Amamos, na próxima Playboy e já disse que, se for para tirar tudo, preferiria a revista Trip, onde as fotos seriam “mais artísticas”, a publicação já está acertando com ela o ensaio, com direito a uma entrevista. Aos mais íntimos, contudo, Soninha confessa: “Ele deve estar se roendo de ciúmes”. Em toda essa novela de nudez, está incluída uma legitima vendetta feminina para provocar um romance secreto.
Junte uma nota à outra e você perceberá do que todos (não) estão falando.
Não tenho fé. Ao menos no sentido de crença em Deus. Ou em Jesus, como filho de Deus.
Isso não me impede de ter paixão pela música evangélica. Particularmente quando dirigida por Bill Gaither.
Vão aí algumas poucas amostras do que o homem é capaz de produzir. Seguem duas composições dele e da esposa, Gloria.
Because He lives interpretada pelo quarteto de Bill Gaither (com a formação, da esquerda pra direita: David Phelps, Guy Penrod, Marshall Hall e, claro, ele, Bill Gaither) e, depois, pela incrível Allison Durham Speer:
E The King is coming, com o quarteto (com a formação: David Phelps - reparem no alcance da voz dele -, Guy Penrod, Mark Lowry e Bill Gaither). O vídeo começa com a esposa de Billy Graham contando que sua mãe, antes de morrer, pedia sempre a ela que colocasse pra tocar essa música. Ao final Bill Gaither, que faz o baixo, chama George Younce (baixo profundo) pra reforçar os graves:
No post acima disse para prestarem atenção na amplitude da voz de David Phelps. Talvez não tenha dado pra preceber, no meio do quarteto. Não custa nada mostrar David Phelps esbanjando voz no It is well with my soul, que eu - na infância - aprendi como Sou feliz com Jesus. Sente só:
Pois é. Luciana e Jairzinho (filhos do cantor Jair Rodrigues, que durante anos fez dupla com Elis Regina no Fino da Bossa, na TV) foram alunos do Colégio Rio Branco, em São Paulo, quando meus filhos estudavam lá. Havia (deve haver ainda) o prêmio Rotary, que premiava anualmente os melhores alunos de cada turma. Os filhos de Jair Rodrigues sempre ganhavam o prêmio. Mais: Jairzinho era, simplesmente, o melhor aluno de todo o colégio. Por isso, e por que interpreta maravilhosamente, aí vai Luciana interpretando Cartola:
Título de uma das músicas mais fantásticas da MPB (música popular brasileira). Cartola, seu compositor, fez outras tão lindas quanto. As Rosas não Falam, por exemplo. Isso, sendo morador de morro no Rio de Janeiro, negro, tendo trabalhado até como guardador de carros na rua. Comecei a ouvir, no You Tube, algumas gravações de O mundo é um moinho. A do próprio Cartola é cheia de erros de português. Ele tinha crédito. Tudo bem.
Depois, a interpretação de Cazuza. Fora alguns exageros, gostei dela. Só que ele poderia ter tido o cuidado de consultar alguém para arrumar as concordâncias da letra. Nada. Ficou tudo bastante errado. Paciência.
A interpretação de Ney Matogrosso corrige os erros de português (vá lá...). É boa.
Há, também, uma interpretação de Beth Carvalho. Convencional, como tudo mais nessa cantora/empresária-de-esquerda.
Pro meu gosto, falta uma interpretação de pai pra filha. Uma voz grave, amadurecida, que cante esse conselho de um pai a uma filha afoita e desgarrada. Deve existir. Alguém conhece?
Durante muitos anos fui um cara cheio de convicções. Minha irmã mais nova dizia, com razão, que eu era missionário. Aquele que assume missões. Que procura convencer todo mundo da validade de suas idéias. Esse tempo desmanchou-se aos poucos. Restam dele alguns retalhos. Meu pai, esse sim, era missionário. Centrava no fundamental e deixava o acessório de lado. Hoje, gosto mais do acessório. Mas me fascina lembrar de meu pai, com suas idéias inabaláveis, suas convicções invencíveis. Certo que isso custava a ele meia hora por dia de “repouso”. O médico recomendou que ficasse nu (a menos de uma pudica cueca samba-canção), deitasse na cama como Cristo pregado na cruz, com a vantagem de travesseiros de apoio ao invés dos incômodos pregos que devem ter atormentado Jesus. Isso ele fazia com religiosa assiduidade. Não adiantou muito. Aos 55 anos um derrame fulminante na nuca acabou com ele. Mais valia ter tomado remédios para hipertensão com regularidade.
Quanto a mim, depois de querer ter sido Billy Graham, depois de ter tentado ser Lênin, recolhi-me à minha insignificância e já tenho quase idade para ser pai de meu pai. Chego aos 65 anos com a firme convicção de não mais possuir convicções. Será?
Lá pelo final da década de 50 do século passado, me lembro de presenciar a conversa de meu pai com um rapaz membro da Primeira Igreja Batista de Santos, o Américo, que foi até nossa casa para pedir sua exclusão da igreja por ter decidido tornar-se jogador profissional de futebol. Claro que meu pai tentou dissuadi-lo. Mas ele ficou firme. Nunca mais ouvi falar dele.
Já na década de 80 surgiram os Atletas de Cristo. Foi o primeiro passo para que, hoje, quase tudo quanto é jogador brasileiro de futebol atribua seus gols à graça de Cristo.
Agora, 2.010, surge a primeira (penso eu) escola de samba (ou bloco carnavalesco, sei lá) batista. É da Primeira Igreja Batista de São José dos Campos. Se você clicar na figura abaixo, de uma porta-bandeira, poderá ouvir o samba do grupo.
Me pergunto se viverei o suficiente para tomar conhecimento da inauguração do primeiro puteiro evangélico no Brasil.
Cantigas infantis encerram mistérios, ao menos para mim. Que dizer, por exemplo, desses versos:
Imagino o garotão, baile em andamento, a sugerir à menina: - Vamos brincar de escravos de Jó? E diante da ignorância dela: - É aquela brincadeira do "tira, bota, deixa ficar".
Quando chegámos com a Doga na aldeia, meu primo Alípio me fez conhecer esses versos:
Cu de mulher e focinho de cão não conhecem v'rão.
Diga-se, para quem não sabe, que "cu", ao menos no norte de Portugal, denota o que no Brasil se chama "bunda", ou mais pudicamente "nádegas". E "v'rão" é a estação do calor, ou seja, o verão. É assim que se pronuncia, da mesma forma que "peru" é "pru".
Ou seja, os versos afirmam que bunda de mulher e focinho de cão são sempre frios.
Doga adorou Portugal. Principalmente Bragança. Esbaldou-se na neve. É verdade que ficou um tanto cansada tendo que caminhar ida e volta do hotel, no Porto, até o Consulado Brasileiro, atravessando algumas quadras da Av. da Boa Vista. Mas, depois, descansou.
Finda a viagem, chegou à casa paulistana sem muito entusiasmo, para minha surpresa.
No hotel em que ficámos, no Porto, não existe o 13° andar. Imediatamente acima do 12° fica o 14° andar. Aliás, isso é muito comum em hotéis.
Nos elevadores o 13 não aparece nem no painel com os botões dos diversos andares nem no luminoso que indica os andares pelos quais os elevadores passam.
Acontece que o limite de passageiros, nos elevadores, é justamente... 13.
E o 13 conseguiu seu lugarzinho no painel do elevador.
Na quinta, 21, chegámos ao Porto e fomos logo ao Consulado Brasileiro pra saber se seria viável conseguir a autenticação do Certificado Zoossanitário na sexta. Disseram-nos que seria tranqüilo. O que não foi - nunca é - tranqüilo foi sair de Bragança. Há a enorme preocupação de não estar a deixar nada de fundamental para trás: passaportes, chaves (chaves de Bragança, para o retorno futuro, chaves de São Paulo para entrar em casa etc etc), tudo desligado (água, aquecimento etc etc). Ufa! Parece que nada foi esquecido. Tomara. A viagem, pela TAP, foi boa. Pouca turbulência. A Doga resistiu bem. Já havíamos passado pelo Nada a Declarar da Receita Federal e o fatídico Certificado Zoossanitário continuava ignorado pelo mundo burocrático em Guarulhos. Será que iríamos embora sem que ninguém o solicitasse?! Finalmente, uma veterinária solícita apareceu e o exigiu. Fez nele várias anotações e o seqüestrou definitivamente. Ainda bem. Que todo o esforço de quinta e sexta não tivesse sido em vão. Já em casa, toca a religar tudo: telefones, Net, computador etc etc. E a vida continua. Amanhã, avisar a todos que cá estamos. Segunda, de volta ao trabalho.
Pois é. Já há mais ou menos uma dúzia deles que conheço e que recomendo. Vamos a eles. Não darei links porque basta consultar mestre Google e pronto. Primeiro de todos: o requintado Solar Bragançano. Fica bem no centro, praça da Sé e serve pratos maravilhosos, acompanhados de música erudita e servidos pelo casal proprietário, de uma gentileza sem limites. Depois dele, o O Silva e O Javali são os melhores. O Silva é um restaurante tipicamente português, cozinha impecável, serviço idem. Uma refeição lá, para um casal, com vinho excelente, coisa e tal, fica na casa dos 40 e poucos euros. O mesmo é possível dizer de O Javali, que fica na saída para Portelo. Acrescente-se que a carne de vitela é maravilhosa. E o preço é da mesma ordem de O Silva. Já o Geadas é muito bom mas é mais pra turistas. Há o Acácio e o A Gôndola, restaurantes simples mas de relação custo/benefício excelente. A Taberna do Xastre, já em Rabal (mas muito próximo de Bragança, coisa de pouquíssimos minutos), se orgulha de sua carne grelhada apenas com sal. Lá em Casa, Dragão D'Ouro e O Pote são três restaurantes bem aceitáveis, acolhedores e de comida muito boa. Refeição para um casal, vinho e tal, na casa dos 20 euros. Caso à parte é o Abel, em Gimonde (pouquíssimos minutos de Bragança), onde o cardápio é só vitela ou carneiro, ambos divinos. Sempre lotado, o grande problema é o tempo de espera e o barulho infernal. Há, por fim, a Pousada São Bartolomeu, minha primeira hospedagem em Bragança há onze anos, com seu restaurante requintado, de serviço impecável mas de pratos nem sempre maravilhosos. E de preços um tanto exagerados.
São algumas sugestões. Mas há muitas outras alternativas. Voltarei a elas oportunamente.
E as férias estão no final. Só vamos embarcar para o Brasil no sábado, mas há a burocracia. Dona Doga Pitucha, apesar de ter conquistado os corações das doutoras veterinárias de Bragança, dela - a burocracia - não escapou. O Certificado Zoosanitário emitido pela Direcção de Serviços Veterinários da Região Norte necessita de autenticação do Consulado Brasileiro no Porto. Isso, apesar do Decreto nº 6.946, de 21/08/2.009, assinado pelo Presidente Lula, aquele, "o cara". O decreto determina que não é mais necessária a autenticação no Consulado. Ninguém dá a mínima para o tal decreto. Como me informou por e-mail o Consulado do Brasil em Lisboa, "Para que o animal possa entrar no Brasil sem qualquer problema, e é assim que até hoje se tem praticado, necessita obter, junto do ..."., É. Tem de autenticar o Certificado, independentemente do que determine Sua Excelência, o Cara. Para tanto, dado que eu já sei como funcionam esses consulados (número limitado de senhas por dia etc e tal), temos de ir ao Porto já na quinta, depois de amanhã, para saber a que horas devemos estar na porta do Consulado na sexta para ter uma chance de obter a tal autenticação.
Acaba por dar certo. Isso é verdade. Mas mais por sorte nossa que por competência da turma do Consulado.
Dizem que, se não levarmos o Certificado autenticado pelo Consulado, a Doga pode ter de ficar de quarentena em Guarulhos. O problema vai ser esse: ninguém vai querer devolver a Doga depois da quarentena.
Bragança fica à nossa espera.Ou melhor: nem liga pra nós. Nós é que ansiamos por ela.
Aqui em Bragança, Portugal, a passagem de 2.009 para 2.010 foi tranqüila. Ficámos os dois, a Baixinha e eu – perdão, os três: havia a Doga – a beliscar frutas frescas ou secas e a bebericar. O silêncio era total. Lá fora, claro. Cá dentro, não parávamos de falar.
Nem sempre foi assim. Em dezembro de 2.003 estávamos na aldeia (Passos de Lomba) quando minha prima Dora chegou à casa da irmã Zelinda um tanto agitada: Prenderam o sadame! Prenderam o sadame! Eu, às voltas com chouriços e alheiras, pensei que Dora se referia a algum salame. Não. Tratava-se de Saddam Hussein, que no Brasil tem o nome pronunciado Sadã.
Ano seguinte, mesmo mês de dezembro, foi o tsunami do Oceano Índico.
Enfim, quase todo final de ano acontece alguma desgraça de grandes proporções.
Desta vez a desgraça foi adiada pra janeiro. O Haiti quase desapareceu.
No fim do dia da grande tragédia de Port au Prince, passámos um bom tempo a ver e ouvir as notícias do desastre nos telejornais portugueses e espanhóis.
Quando fomos dormir, o vento que aqui costuma ser da ordem de 6 a 16 km/hora resolveu soprar em torno dos 90 km/hora. A noite – que é sempre absolutamente silenciosa, aqui – foi ruidosa pra ninguém botar defeito. Fiquei a madrugada toda, na cama, lembrando de minhas aulas de Resistência dos Materiais, nos idos de 1.964, e pedindo aos deuses que os calculistas do prédio tivessem sido conservadores nos cálculos da força dos ventos sobre a estrutura.
Ao contrário do que ocorreu em Port au Prince, o edifício – aqui – resistiu.
Não só o vento diminuiu seu ímpeto, nos últimos dias. O frio também. Agora, por exemplo, a temperatura lá fora é de 10º C. E já são quase oito da noite.
A última tragédia foi provocada não pela natureza mas pela Baixinha. Há pouco, deixou desabar uma lata de extrato de tomate no chão da cozinha. Lá fui eu, sem saber se limpava o chão ou acalmava a desesperada esposa.
Melhor assim. Desgraças localizadas e brandas. Que em 2.010, daqui pra frente, seja assim.
O Haiti já produziu desgraça suficiente para o ano inteiro.
Já há alguns dias que por ter a chuva parado à noite saímos a caminhar com a Doga em horários noturnos. Hoje, por exemplo, saímos às 11 da noite. Caminhar pelas ruas em tais circunstâncias me remete aos anos 60, nos quais se podia andar pelas ruas do centro de São Paulo em qualquer horário, sem sustos. Aliás, éramos meus companheiros de noitada e eu que muitas vezes perturbávamos a paz dos que corriam ao trabalho lá pelas 5 da manhã, quando saíamos de algum restaurante do Largo do Arouche, transbordantes de vinho.
Mas isso é passado. Já isto cá é presente. Presente dos deuses.
Sobe-se a Avenida das Forças Armadas:
Chega-se ao parque da Braguinha:
Há passeios de piso vermelhão que deslizam por entre os gramados:
Não sabia como desejar a todos um novo ano excelente, quando a tarde chuvosa em Bragança me proporcionou esse arco-íris lindíssimo, com o perdão do pleonasmo.
Tirei uma foto de uma extremidade do arco-íris:
e, então, dei-me conta de que a outra extremidade estava logo ali perto. Mas não conseguia fotografar todo o arco-íris por estar muito próximo dele:
Afinal, a neve não veio e o sábado amanheceu lindo e lindo ficou até à noite.
Apenas que o dia começou um tanto agitado. Eu, que imaginava dormir até tarde, acordei às 7 e pouco, sol a raiar, ainda tímido, com uns barulhos estranhos emitidos pela Doga. Percebi que ela estava com alguma coisa entalada na garganta. Depois de algum tempo, como o quadro não se alterasse, lá fomos nós à clínica veterinária. Mas a Doga já voltara à normalidade e desistimos de esperar atendimento.
O almoço foi no Lá em Casa, restaurante muito bom no centro da cidade.
Depois, passeio com a Doga pelas redondezas.
Fim de tarde na varanda, a saborear um vinho alentejano e um pôr de sol magnífico, com a neve a cobrir a Serra de Sanabria, ao fundo.
Depois de conferir, por Skype ou por telefone, que filhos e irmãs estavam bem, lá fomos almoçar em Passos, na casa da prima Zelinda.
A consoada passámos em casa, os dois e a Doga.
O almoço foi a confraternização de sempre, com a novidade da presença da Doga.
Tínhamos planejado passar no final da tarde na prima Maria Tereza, mas o receio de que a neve desabasse nos fez adiar a visita e voltar a Bragança lá pelas 4 da tarde.
No caminho de Passos a Vinhais não resisti à tentação: parei para fotografar o Rabaçal.
A Saltapocinhas, do blog Fábulas (aí ao lado) me manda e-mail a dizer o que todos me dizem aqui em Bragança:
Algum dia entendo porque é que um gajo abandona uma cidade onde começou o verão, por esta geleira!!
Explico:
Nasci em Santos, estado de São Paulo, Brasil. Santos é cidade de praia e de calor. Quando era garoto, tinha de fazer as lições de casa debaixo de quase 40 graus centígrados. Escrevia um pouco e quando levantava o braço do caderno este vinha junto, grudado pelo suor. Sempre achei isso horrível.
Quando fui estudar em São Paulo, capital, aos 16 anos, descobri a existência de frio com sol. Fiquei encantado. Em Santos, só fazia algum frio quando chovia.
Com o passar do tempo, São Paulo foi esquentando. Terá sido o tal aquecimento global? Ou terá sido a mudança de minhas condições econômicas, que passaram a me proporcionar um pouco mais de conforto?
O diabo é que odeio calor.
Aliás, também meu pai viveu algo assim. Tinha o sonho de ser missionário em regiões inóspitas. Foi para Manaus, Amazonas. Teve de voltar correndinho, para não morrer lá. Mesmo assim conseguiu que minha irmã mais velha nascesse por lá. Não sei se isso chega a ser uma coisa boa. De resto, minha irmã nunca teve a curiosidade de conhecer a terra natal.
Daí que adoro este frio cá de Bragança.
É certo que quando neva é complicado para circular. Hoje mesmo, ao sair de uma loja na qual fui buscar uma encomenda, escorreguei na neve e tomei um tombo daqueles.
É assim: você não cai na diagonal. Não. Seu pé escorrega, sobe, você fica - por frações de segundo - na horizontal, a uns cinqüenta centímetros do chão. Em seguida desaba vergonhosamente.
Tive poucas escoriações, com a queda. Mas prometi a mim mesmo que vou tentar ficar mais esperto. ' E vou continuar, é claro, a preferir o frio.
Ontem nevou muito, cá em Bragança. Mas, ao final da tarde, passou a chover e a neve foi se desfazendo. Hoje, o dia amanheceu um tanto chuvoso, mas foi possível levar a Doga a passear. Fui pela rua Amália Rodrigues até a Rotunda do Lavrador Trasmontano, mais conhecida como Praça dos Touros. As duas primeiras fotos foram tiradas da calçada entre a Amália Rodrigues e a Av. das Forças Armadas (elas são perpendiculares). Na segunda delas é possível ver o Hotel Ibis. É um hotel bem aceitável, a um preço razoável.
E aí está a Av. das Forças Armadas. Sobe-se por ela desde a Praça dos Touros até o túnel que leva ao Shopping, ao Teatro Municipal e à Av. Sá Carneiro, a principal da cidade.
Em frente ao Ibis, esta é a vista da Praça dos Touros:
Passando-se adiante, depois do Ibis, tem-se uma visão de uma parte de Bragança. São as duas fotos a seguir:
A continuação da Av. das Forças Armadas depois da Praça dos Touros é a novíssima Av. Cidade de Leon, inaugurada este ano.
Por essa nova avenida chega-se a uma pequena praça com dois grandes bonecos ao centro e algumas esculturas em pequenos pedestais à volta:
Se houver tempo, ainda vou querer saber mais sobre as esculturas dessa pracinha.
E a Doga foi muito paciente. Não reclamou do tempo que gastei com as fotos. Essa menina é de ouro.
As fotos abaixo eu as tirei lá pelas 10 horas. Agora já são 11 horas e continua a cair neve aqui em Bragança. As duas primeiras são planos gerais:
As seguintes são do movimento dos veículos na rotunda. É preciso dirigir com atenção e lentamente.
Na foto abaixo quase não se percebe mas há um rapaz a subir a ladeira com uma mota. Ele está se divertindo com a neve:
A saída da garagem do prédio não tem ainda muitas marcas de pneus. Pelo visto, meus vizinhos não querem se arriscar...
Já a Doga não se deixa intimidar pela neve. Foi só abrir a porta da varanda e lá se foi ela contemplar a paisagem deixando marcas de suas patinhas no pouco de neve que se acumulou na varanda:
Os institutos de meteorologia previam tempestade para sábado, em São Paulo. Nada disso aconteceu e embarcámos tranquilamente para o Porto. Desta vez com a Doga. Depois de passar umas 13 a 14 horas dentro de uma casinha apertada, ela foi recuperada por nós no setor de Bagagens de Formato Especial do aeroporto do Porto. Lá estava ela, abandonada dentro de seu kennel ao lado de um imenso pacote de pranchas que mais parecia um defunto embrulhado. Foi abrir o kennel e ela quase morreu de alegria. Corria em círculo, pulava na gente, cheirava tudo à sua volta. Em seguida, mais 2 horas e meia até Bragança. Agora de carro, com direito a uma parada pra andar um pouco na área de serviço de Penafiel.
Cá em Bragança, tudo para ela é novidade. Inclusive o frio. À noite, a temperatura baixou até -1,3 graus centígrados. Dentro de casa, claro, nada abaixo dos 19 ou 20 graus.
A segunda-feira amanheceu ensolarada e a temperatura subiu para uns 7 graus.
Há muitos anos, lá por volta de 1.973, 1.974, minha mulher tinha um colega de Faculdade de Filosofia que era de Curitiba. E ele contava – claro, era uma gozação, mas razoavelmente próxima da realidade – que em jogo de futebol em Curitiba a torcida não gritava gol, quando isso ocorria. A torcida aplaudia. Hoje, trinta e alguns anos depois, a coisa mudou.
De cara, dá pra perceber que a situação nunca foi lá essas coisas. O simples fato de o clube preferir chamar-se CORITIBA, ao invés de CURITIBA ( que é o nome da cidade), pra que o nome não comece por CU, já dá uma noção do nível da rapaziada.
Mas a evolução de palmas por um gol pra lutas corporais por um rebaixamento pra 2ª divisão é uma excelente metáfora para o que aconteceu com o país nos últimos 30 anos.
Do primitivismo à barbárie, sem o estágio intermediário da civilização.
Os políticos são corruptos? A população é que é. Os políticos são apenas uma amostragem. A imprensa é outra amostra. Além de corrupta, incompetente.
Dia desses (ontem ou anteontem) ouvi e vi a seguinte notícia na Globo News: A árvore de Natal inaugurada hoje na Lagoa [Rio de Janeiro] é a maior árvore de Natal flutuante do mundo, segundo os organizadores. Muito bem. Esse segundo os organizadores serve pra dizer alguma coisa sobre a tal árvore sem ter de pesquisar nada. Dizem que a árvore é a maior árvore flutuante do mundo, mas - na dúvida - atribuem a informação aos tais organizadores. E bola pra frente.