quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Padrão Globo de Qualidade


Essa manchete está, pelo menos até esta hora, na página principal do G1, o Portal de Notícias da Globo:

CLIQUE PARA LER A NOTÍCIA, ou eu deveria dizer AS NOTÍCIAS?
Está certo: afinal foram presos vários indivíduos, em três Estados, por roubarem muitos veículos.
Tudo bastante plural.

Ouro Português


CLIQUE PARA LER A MATÉRIA DO PÚBLICO

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Era uma vez XXXVI -
Dilma Rousseff, odores e cores


Neste domingo fui a uma feijoada de comemoração do aniversário de minha nora. Lá, encontrei minha ex-mulher e ex-companheira de presídio de Dilma Rousseff.
O ambiente festivo não permitia muita conversa, mas consegui ouvir dela, sobre Dilma, duas coisas interessantes:
Aos 25 anos, Dilma já demonstrava claramente sua vocação para a vida política. O mesmo não era possível dizer quanto a suas habilidades com as tintas: resolvida a pintar as camas da cela em que vivia de cor-de-abóbora ou laranja, pensou que conseguiria a cor desejada misturando vermelho com branco. Resultado: as camas ficaram cor-de-rosa.
Quando da famosa greve de fome do pessoal da ALN, sobre a qual já falei aqui, as meninas que não aderiram à greve estavam um tanto acanhadas ao preparar as refeições. Algumas propuseram que não utilizassem ingredientes com cheiros fortes. As meninas que estavam em greve de fome sentiriam o cheiro e ficaria mais difícil agüentar o sacrifício.
Dilma não titubeou: nada disso. Vamos utilizar os ingredientes de sempre. Elas estão em greve de fome porque querem. Não temos nada a ver com isso.
E assim foi feito.

Prata Portuguesa

VANESSA FERNANDES

Vanessa Fernandes exibe a medalha de prata conquistada hoje em Pequim, a primeira de Portugal nestes Jogos [foto Reuters, obtida no site do Público]

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Ainda sobre Olimpíadas


Vou aproveitar enquanto os chineses dormem pra voltar ao tema do critério de classificação:
Arredondando, digamos que o Brasil tem 200 milhões de habitantes e que Portugal tem 10 milhões.
Se o Brasil ganha, digamos, quatro medalhas, isso vale 2 medalhas para cada 100 milhões.
Se Portugal ganha 1 medalha, isso vale 10 medalhas para cada 100 milhões.
E é assim que eu acho que se devam classificar os países nas Olimpíadas.
Por falar nisso, a classificação do dia de ontem em Pequim (dia 14, que acaba de terminar, lá pra eles) ficou assim, no meu critério de medalhas-por-100 milhões:

Clique para ampliar

Medalhas per capita


Tá bom. Já que todo mundo só fala em Olimpíadas, vamos falar também.

Entendo como totalmente injusto o critério de classificação dos países por quantidade de medalhas conquistadas.

A classificação deveria ser por medalhas per capita.
Não tem sentido comparar X medalhas ganhas pela China com as mesmas X medalhas ganhas por, digamos, a Finlandia.
Ora, a China tem mais de 1.300.000.000 habitantes. Já a Finlandia tem pouco mais de 5.000.000. São 260 chineses para cada finlandês.

Vai daí, até agora, início do dia 14 de agosto aqui em São Paulo, a classificação correta seria:

1° - Georgia
2° - Australia
3° - República Tcheca
4° - Finlandia
5° - Eslovaquia
6° - Suiça
7° - Azerbaijão
8° - Coréia do Sul
9° - Alemanha
10°- Itália

Onde estão os gigantes China e Estados Unidos?

Respectivamente, 21° e 15°.

Pra mim não faz diferença. Mas pra quem liga pra isso, deveria fazer.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Rainhas do Telemarketing


Tenho um celular português. Ou seja, tenho um telemóvel. Pré-pago.
Vai daí que costumo utilizá-lo, cá do Brasil, de vez em quando, para ligar para Portugal. Ele funciona, então, em roaming. Por meio da operadora TIM.
De ontem para cá, deixou de funcionar. Sempre que ligava para algum número, ouvia a mensagem, falada por voz feminina e brasileira:
- O número chamado não existe. Por favor, verifique o número discado e tente novamente.
Entrei em contato com a TIM. Expliquei à moça que me atendeu qual era o problema.
Pediu-me o número do celular português, fez-me esperar alguns minutos para verificar e retornou:
- Não consigo saber nada sobre seu celular. O senhor terá de ligar prazEuropa.
Foi o que fiz.
Liguei prazEuropa.

domingo, 27 de julho de 2008

Entrar no céu não é fácil


Ainda no assunto Hinos do Cantor Cristão, há um outro hino – o n° 257 – que continha a seguinte estrofe (a 3ª), que foi posteriormente modificada:

Quem vai debalde querer entrar
Lá no céu? Lá no céu?
Pois se dirá: “Não há mais lugar”
Vais tu? Vou eu?
Quem vai parar na miséria atroz,
Sem mais ouvir a celeste voz?
Vai, por desgraça, qualquer de nós?
Vais tu? Vou eu?


Clique para ver como era o hino, originalmente
Ora, o advérbio debalde significa em vão, inutilmente.
Quase não é utilizado.

Contudo para nós, garotada da igreja, essa estrofe evocava mais ou menos este quadro:

Assim ninguém entra

P.S: Se existir algo que se pareça com o que imaginamos ser o céu, é lá que ficará - felizmente daqui a muuuuito tempo - minha irmã caçula. Ela teve a paciência de escanear esses hinos a partir do Cantor Cristão antigo que ela guarda.
Justo hoje, dia em que ela completa mais um aninho. Beijinhos, mana.

sábado, 26 de julho de 2008

Problemas com a censura


Ontem, nem sei por que, lembrei vagamente de uma piada que minha irmã contava, quando eu era garoto, piada inspirada em um hino do Cantor Cristão.
O Cantor Cristão reúne hinos a serem cantados nas igrejas batistas. Não sei se outras denominações o utilizam. Os hinos têm títulos mas os fiéis costumam conhecê-los pelo número de ordem deles no Cantor Cristão.
Vai daí, pedi a minha irmã que me dissesse qual o número do hino da piada.
Ela, por sorte, mandou-me, além do número, a partitura escaneada do Cantor Cristão dela.
Digo por sorte porque, logo que vi qual era o número, ao invés de abrir o anexo do e-mail com a partitura, peguei o Cantor Cristão da Baixinha (presente de minha outra irmã, de edição bem mais recente do que aquele do qual minha irmã escaneou a partitura) e procurei o dito cujo: hino 472.
Li, reli, nada.
Não sei se vocês sabem, mas os hinos evangélicos são compostos, em geral, de algumas estrofes e um estribilho. Canta-se a primeira estrofe, seguida do estribilho. Em seguida, a segunda estrofe, também seguida do estribilho. Etc etc.
Fui então ao anexo do e-mail. Constatei, surpreso, que o hino 472, que no Cantor da Baixinha tinha quatro estrofes, no Cantor de minha irmã tinha cinco.
Adivinha qual a estrofe que falta no Cantor da Baixinha?
Acertou: a estrofe da piada. Censuraram a piada.
Pra não dizerem que minto, aí vão as duas partituras, para comparação.

Clique para ver a versão censurada
Falta só contar a piada.
Na nossa igreja, em Santos, existia uma senhora portuguesa, de algumas posses, chamada Generosa.
Conta a lenda que num belo domingo convenceu sua empregada doméstica a acompanhá-la à igreja. A moça era negra. Hoje seria afro-descendente.
Ao chegarem ao templo, o culto já começado, cantava-se justamente o hino 472. Sua 2ª estrofe:

Hoste negra vem chegando,
Temerosa, atroz;
Vêm fileiras avançando
Com ardor feroz.


A moça levou um enorme susto. Ela entendeu assim:

Esta negra vem chegando,
Generosa atrás.


Imagine ser recepcionado dessa maneira, num lugar desconhecido, por um coral de centenas de vozes.

Portugal e Brasil: paralelos históricos


Pedro I, que reinou em Portugal entre 1.357 e 1.367, ficou famoso – entre outras coisas – por sua paixão por Inês de Castro.

António Sérgio, em sua Breve Interpretação da História de Portugal, nos conta que:

D. Pedro, a ajuizar pelas descrições de Fernão Lopes, o grande cronista, foi uma espécie de semi-louco, plebeu de modos, galhofeiro, violentíssimo na cólera, com a mania da justiça, ou melhor, da punição, e preciosos dotes de administrador. Segundo o testemunho daquele escritor, “diziam as gentes que tais dez anos nunca houve em Portugal como estes que reinara el-rei D. Pedro”.

Parece-me já ter ouvido, deste lado do Atlântico, algo semelhante.

Terá sido por tais coincidências que Lulla, ao final do jogo com o Grêmio, no final do ano passado, quando o Corinthians foi rebaixado à segunda divisão do Campeonato Brasileiro de Futebol, teria exclamado:

- Agora, Inês é morta.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Essa velha humanidade


Em 2001, em Santiago de Compostela, enquanto encharcava de cerveja meu ateísmo, passei algum tempo a contemplar a estupenda fachada da Catedral.
Em minha imaginação, via os operários a erguerem aquela estrutura gigantesca, desacompanhados de tecnologias modernas, amparados em uma fé antiqüíssima.

Clique para ler sobre a Catedral
Já dentro da nave, desci ao túmulo do apóstolo.
Minha estupefação deveu-se aos degraus de mármore, gastos pelo pisar de peregrinos ao longo dos últimos nove séculos.

Clique para ler sobre o túmulo do apóstolo
Claro que os portugueses mais legítimos do que eu, aqueles que fizeram seus estudos básicos em Portugal, esboçarão um leve sorriso ao perceber minha admiração quase infantil diante de tradições de séculos tão remotos.

No entanto, para quem habituou-se a antigüidades não aquém do século 16, esses degraus machucados por quase uma dezena de séculos só podem embasbacar.

Por isso, é com prazer de quem saboreia um delicioso chocolate que leio sobre meu Trás-os-Montes, em Gama Barros (Historia da Administração Publica em Portugal nos séculos XII a XV, tomo XI, pág. 425):

Na ultima decada do seculo XI apparece um documento citando Pannonias como territorio onde existiam varias propriedades. Sob esse nome abrangia-se um terreno que podemos dizer vasto, pois as inquirições geraes de 1220 já registaram n’elle trinta e tres freguezias; mas não comprehendia todo o espaço que pertence ao actual districto de Villa Real.
Para designar todos os mais territorios que entestavam com o de Panoias, parece que não havia então um nome especial, e que tambem o não tinha o territorio do moderno districto de Bragança, que fórma agora, com o de Villa Real, a província de Traz-os-Montes. Era porém Bragança uma terra já de certo importante antes de lhe ser concedido o foral de 1187, que lhe chama algumas vezes villa, mas ainda mais civitate, e conclue declarando que por elle dá o soberano á cidade de Bragança e aos seus povoadores integralmente e para sempre a cidade e Lampazas com seus termos.
Foi isso mesmo que responderam os jurados nas inquirições de 1258 (4ª alçada) sobre os direitos fiscaes na villa de Vinas, dizendo que el-rei D. Sancho, o velho, dera por carta ao concelho de Bragança tudo que era regalengo na terra d’esse nome.


Valendo-me da generosa doação de D. Sancho, pretendo ocupar, em breve, um pequeno espaço que já foi de el-rei nas terras de Bragança.

domingo, 20 de julho de 2008

Ύβρις e Σωφροσύνη


Para a Grécia clássica, os grandes valores éticos eram Hýbris e Sophrosýne (fala-se Íbris e Sofrosine).
Hýbris é o excesso, o exagero, a sem-medida.
Sophrosýne é o comedimento, a moderação, a temperança.
Claro que Sophrosýne é o ideal grego, a excelência moral.
Quanto a mim, sempre fui Hýbris.
Mas devagar com o andor.
A coisa não é tão simples.
Neste sábado, chamou minha atenção o magnífico artigo de Drauzio Varella na Folha (aqui, para assinantes Folha ou UOL).
Em princípio, Varella é modelo de sophrosýne. Equilibrado, faz questão de dizer que curte uma cachacinha mas, por outro lado, é totalmente a favor da nova Lei Seca brasileira.
Um trecho de seu artigo, contudo, acendeu em mim uma luzinha amarela:

Aos sábados e domingos, quando estou de folga, tomo uma cachaça antes do almoço, hábito adquirido com os carcereiros da antiga Casa de Detenção. Difícil é escolher a marca, o Brasil produz variedade incrível. Tomo uma, ocasionalmente duas, jamais a terceira.

Esse jamais a terceira, a meu ver, já é Hýbris.
A fronteira entre os dois conceitos é muito sutil.
Todo cuidado é pouco.
Ou melhor, algum cuidado.
A Hýbris está sempre à espreita.

sábado, 19 de julho de 2008

Convenhamos


Minha irmã andou digitalizando fotos antigas.
Deu nisso.
Essa foto minha, na praia de Santos em 1.969...
É preciso reconhecer: eu tinha cara de terrorista.
Paciência.
O lado bom: como eu era magro!

sexta-feira, 18 de julho de 2008

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Ausências


Hoje, ao escrever um e-mail para um amigo com o qual não falo há tempos, lembrei-me do episódio.
Era uma dupla de colegas meus da Poli-USP.
Os dois fizeram ginásio e científico juntos. Quando entraram na Poli, um deles, o Paim, simplesmente passou a ignorar o outro, o Fábio.
Como o Paim sempre foi meio amalucado, o Fábio não se impressionou muito.
Um belo dia, já no segundo ano, pleno 1.964, golpe militar ainda fresquinho na praça, rolava uma assembléia estudantil no pátio da Poli velha, na Av. Tiradentes. Eis que, por acaso, o Paim postou-se junto ao Fábio, em meio à multidão de alunos atentos às arengas dos líderes. Mas nem uma palavra. A assembléia corria solta. De repente, alguns urubus começaram a voar mais baixo. Um deles passou bem perto dos dois.
O Paim vira-se pro Fábio e comenta, depois de dois anos de silêncio:
- Que rasante, hein!

P.S. Paim (engenharia eletrônica) faleceu pouco mais de uma década depois de formado, ao saltar de asa-delta em São Paulo, num dia de muito vento.
Fábio (engenharia química) faleceu anos depois, vítima de um câncer fulminante que o derrubou em pouquíssimos meses.

De Paim guardo lembranças agradáveis e engraçadas, dos anos de intenso convívio nos cursos de Engenharia Elétrica.
De Fábio recordo as muitas vezes em que nos encontramos na casa do amigo comum, meu irmão Luiz Brandão. Inesquecível seu estilo blasé, seu cachimbo, sua ironia.

Queria que ambos estivessem por aí.
Em certo sentido ainda estão.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

ConversAfiada


Depois de trabalhar durante anos na TV Globo, depois de produzir um blog no portal IG no qual defendia com unhas, dentes e o resto do corpo o governo Lula, eis que Paulo Henrique Amorim surtou. Pelo menos é a única explicação que encontro para a reviravolta que se operou em seus textos.
PHA, como ele mesmo se intitula, chutou e continua chutando todos os paus de todas as barracas.
Imperdível. Impagável.
Vá até , correndo.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Para Elsa Joana


O vídeo com a música de Edu Lobo e Chico Buarque na voz de Adriana Calcanhoto é minha homenagem à neta de minha prima Zelinda, Elsa Joana de Morais Nunes Ribeiro Alves ou, simplesmente, Elsa Ribeiro Alves.
Ela, que vive com os pais em Bragança, Portugal, acaba de conseguir a única vaga disponível para o seu nível na Escola de Dança do Conservatório Nacional de Lisboa.
Com direito a matéria no Mensageiro de Bragança (clique aqui).




E parabéns, também, pelo aniversário, anteontem.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Nove de Julho


Feriado em São Paulo. Dia de comemorar a revolta de São Paulo contra o resto do Brasil. Não é bem assim? Tá bom. Deixa pra lá. Quando tiver um tempinho, leia, por exemplo, 1932: A Guerra Paulista, de Hélio Silva, Editora Civilização Brasileira. Tem em tudo quanto é sebo. Meu exemplar é da 2ª edição, 1.976.
Bom mesmo foi comer a feijoada do Salada Record, ao lado do Brahma, esquina de Ipiranga com São João. Delícia de feijoada, acompanhada de caipirinha de cachaça Seleta. Magnífica.
Tudo incrivelmente barato. E servido pelo Chico, garçom impecável. Simpatia pura. Na companhia do amigo Amadeu. Melhor impossível.
Na onda da São Paulo moderna, fui sem carro, pra poder beber à vontade e não voltar dirigindo. Os vigilantes estão, agora, dando plantão nas portas de bares e restaurantes. O cidadão sai, pega o carro e eles logo se aproximam, bafômetro em punho.
É isso mesmo. Tá certo.
Depois, visitinha à tia Jessa, mergulhada em seu mal de Alzheimer, mas ainda em estado inicial da doença. Ela é o xodó da Clínica. Está sempre alegre. Canta, dança e conforta os outros velhinhos. Estar com ela me faz sentir a imensa maravilha que é estar vivo. De algum modo misterioso ela me transmite esse sentimento.
Obrigado, tia. Fico a dever-te isso.
Minha primogênita me envia e-mail: adivinha onde estou, pai. Num restaurante em Paris.
Pois é. Ela foi a trabalho por três dias. Claro, ficou maravilhada com a cidade que ainda não conhecia. E eu, que pensava que ela não gostaria de Paris.
Amanhã a roda continuará a girar.
E eu, quem sabe, me livrarei dessa gripe que me assola.
Assola mas não impede que me divirta.

(e não é que esse blog virou diário de adolescente!?)

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Matamos teu filho mas pedimos desculpas


A estúpida morte do menino João Roberto mereceu comentários do Governador do Estado do Rio de Janeiro, do Secretário de Segurança do Estado do Rio de Janeiro, do Comandante do 6° Batalhão da Polícia Militar, comandante dos assassinos.

O Secretário pediu desculpas.

Escárnio em estado puro.

O Secretário e o Comandante deviam simplesmente pedir demissão. No mínimo.

Mas isso nem passa pela cabeça deles. Eles falam em punir os subordinados que praticaram a lambança abominável. Quanto a eles, nada têm a ver com tudo isso.

Apenas pedem desculpas.

domingo, 6 de julho de 2008

Cassetada nos fatos


A sra. Bia Abramo, que escreve aos domingos na Folha de S.Paulo sobre TV, costuma cometer atentados contra a língua portuguesa aproveitando o clima de impunidade reinante em Pindorama.
Neste domingo, resolveu mudar de vítima. E feriu gravemente a história do Casseta & Planeta, programa fúnebre das noites de terça-feira na TV Globo.
Ensina a mestra:

O "Casseta" surgiu do "TV Pirata", que, por sua vez, é a aventura televisiva do "Planeta Diário", semanário que mudou os parâmetros de humor nos anos 80. De alguma maneira, todas as produções dessa linhagem inverteram a equação do humor a partir do final dos anos 70. Retomando, de certa forma, a esculhambação do "Pasquim", o "Planeta Diário" revolve o humor político em sentido quase que oposto ao da imprensa de resistência e, de quebra, revela um sentido de comicidade das contradições do cotidiano brasileiro, de forma menos edulcorada, mais "da rua" que seus antecessores.

(Assinante Folha ou UOL lê a íntegra aqui.)

Seja lá o que a moça quis dizer com essa ladainha gongórica, a questão é que a origem do programa de TV Casseta & Planeta é o jornal Planeta Diário mas é – também – a Casseta Popular.

O humor do Planeta Diário era bastante diferente do produzido pela revista Casseta Popular. Era muito mais sofisticado. A Casseta Popular fazia um humor mais grosseiro, ainda que nem sempre ruim.

Com a ida dos dois grupos para a TV, predominou, claro, o tipo de humor da Casseta Popular.

Antes de escrever, dona Bia podia ler, ao menos, este resumo da Wikipedia. Afinal, os atentados dominicais que ela perpetra são reproduzidos em mais de 400.000 exemplares da Folha.

sábado, 5 de julho de 2008

Wimbledon:
final sem sal nem açúcar


Antigamente, quando se queria dizer que alguma coisa era totalmente sem graça, dizia-se que era como dançar com irmã(o).
Agora talvez seja preferível dizer, de alguma coisa insossa, que é como final de torneio do Grand Slam entre irmãs.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

A Lei de Ricupero


Certa vez, nos estúdios da Globo em Brasília, um animado ministro do governo Itamar Franco, Rubens Ricupero, sem saber que sua conversa com o entrevistador Monfort estava sendo transmitida para todo o Brasil, confessou: “No governo é assim: o que é bom a gente mostra, o que é ruim a gente esconde”.

Isso parece valer também para os blogs de política. Sobre a libertação de Ingrid Betancourt, os blogs alinhados ao governo, ao PT etc, aqueles que se referem à grande imprensa pelo apelido de PIG (Partido da Imprensa Golpista: Folha, Estadão, Globo, Veja etc), passaram batidos. Para eles, nada aconteceu. Vejam, por exemplo, as últimas notícias no Conversa Afiada de Paulo Henrique Amorim:

Clique para ir ao Conversa Afiada
Já os pitbulls da direita chegam até a achar que a história de que Ingrid estava à beira da morte era contra-informação das FARC.

Engraçado, mesmo, é o blog de política (sic) de um tal Mello. No dia de ontem, o único post publicado foi sobre como enrolar os fios dos fones de ouvido sem se enrolar [com as notícias que não nos favorecem].

Resgate da verdade


Não nutro a menor simpatia pelas tais FARC.
Agora, passar anos ouvindo dizer que Ingrid Betancourt está à beira da morte e - de repente - vê-la saltitante e mais saudável que nunca é, no mínimo, estranho.
Parece que é pedir muito mas será que alguém poderia contar a verdade sobre todo esse episódio?

sábado, 28 de junho de 2008

Nossos heróicos bombeiros


Há alguns aninhos, ao olhar pela janela da sala de meu apartamento percebi o início de um incêndio no bosque existente próximo ao prédio em que resido.
Liguei imediatamente para o Corpo de Bombeiros. Dei os dados e recebi a informação de que as devidas providências seriam tomadas.
Passada uma meia hora, o fogo se alastrando, liguei novamente. Disseram-me que tudo tinha sido providenciado. Alertei-os para o fato de que não havia aparecido ninguém para conter o fogo.
- Fique tranqüilo. Já foram tomadas as providências.
Fiquei tranqüilo. Quem não ficou tranqüilo foi o fogo, que consumiu um pedaço nada desprezível do bosque.
Até hoje, aguardo – tranqüilo – que os bombeiros apareçam.
O fogo apagou, aparentemente sozinho, algum tempo depois.
No lugar das árvores, surgiu, uns dois ou três meses mais tarde, um belo empreendimento imobiliário.
Só então me dei conta de quais tinham sido as providências tomadas.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Humor afro-descendente


Minha caçula, que me superou em matéria de humor negro, garantiu que o Alexandre Nardoni, quando acabar de cumprir pena, já tem onde trabalhar:
Escritório de Advocacia Mattos Filho.

sábado, 21 de junho de 2008

Conclusões - 1


Chego, só aos 63 anos, à conclusão a que já chegara Capistrano de Abreu aos 48, ao explicar sua recusa em aceitar ser membro da ABL:

Ele conta, em carta a um amigo, que não quis fazer parte da Academia Brasileira de Letras por ser "avesso a qualquer sociedade, por já achar demais a humana".


Correspondência, Vol 1, 2ª edição, 1977, página 152

Desejos - 1


Talvez queira eu morrer ao cair de uma cadeira pouco estável que, por preguiça, tenha usado pra não ter de buscar a escada para pegar Grande Sertão: Veredas, lá na terceira prateleira, em meio a outras relíquias.
Seria talvez dolorido.
Mas, certamente, um dos poucos modos dignos de morrer.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

A falseta do padre Júlio Lancelotti


Faz algum tempo, o padre Júlio Lancelotti acusou um rapaz de tentativa de extorsão. A história era novelesca: envolvia possíveis relacionamentos sexuais do padre com o acusado, utilização de muita grana de uma ONG à qual o padre é ligado para comprar automóveis de luxo pro rapaz etc etc.
Como o padre é bem relacionado (seu advogado é o inefável Luiz Eduardo Greenhalgh, deputado pelo PT, ex-advogado de presos políticos (ah! essa turma!), ex-vice-prefeito de São Paulo, às voltas com histórias de suborno por parte da empresa Lubeca etc etc), o resultado líquido do imbróglio foi:
1. Decretaram segredo de justiça no processo;
2. Prenderam os acusados (o tal rapaz, sua mulher e dois irmãos envolvidos na acusação);
Agora, passados 7 meses, soltaram o rapaz, a mulher e os irmãos e caiu sobre o caso o mais ruidoso silêncio.
Vi uma discreta notícia na Folha de S.Paulo, dia 11, agora, quarta-feira. Um trecho dela:

Vinte quilos mais magro, Anderson Marcos Batista, 26, acusado pelo Ministério Público de ser o chefe da suposta quadrilha que teria extorquido dinheiro do padre Júlio Lancelotti, 59, foi solto ontem pela Justiça após sete meses preso.
"A Justiça mostrou que sou inocente", afirmou ele ao deixar o Centro de Detenção Provisória do Belém, na zona leste.
Além dele, sua mulher, Conceição Eletério, 44, também acusada, deixou ontem a Penitenciária Feminina do Estado.
"Estou revoltada. Ficamos presos sem nunca termos sido culpados", disse ela, que pretende estudar a possibilidade de entrar com uma ação indenizatória contra o Estado.
Anteontem, outros dois acusados, os irmãos Evandro, 29, e Everson Guimarães, 27, que estavam presos com Batista, já haviam sido soltos. Os quatro foram absolvidos pelo juiz Julio Caio Farto Salles, da 31ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça. Segundo o advogado Nelson Bernardo da Costa, seus clientes "foram absolvidos por insuficiência de provas".
No ano passado, o padre Júlio, que atua na Pastoral do Povo de Rua e é um dos principais defensores dos direitos de adolescentes infratores, procurou a Polícia Civil acusando Batista e os outros três por ameaças falsas de pedofilia. Procurado, o padre não quis falar. [...]

Assinante Folha ou UOL lê a íntegra da matéria aqui.

Não faltam, na imprensa, indignados defensores do tal padre. Só pra dar um exemplo, leia aqui o panegírico esculpido por um Walter Falceta Jr., merecedor do sobrenome que carrega, autor de um Guia Sexy de São Paulo. Aliás, espero que ele, em seu Guia, não tenha esquecido de incluir o padre entre as atrações do ramo na paulicéia desvairada.

Já pra cobrar uma mísera explicação quanto ao fato de deixarem presos cinco indivíduos durante 7 meses e depois soltá-los como quem vai às goiabas, só encontrei, na imprensa, a indignação de Barbara Gancia, aqui (para assinantes Folha ou UOL). Leiam dois trechos:

Quero saber se quem mentiu no caso do padre Júlio receberá o mesmo tratamento de quem disse a verdade

Não é possível saber os pormenores do julgamento, uma vez que o processo correu em segredo de Justiça. Mas ainda há algumas dúvidas antigas por esclarecer no caso do padre Júlio Lancelotti, famoso por defender os direitos dos adolescentes, que no ano passado acusou de extorsão o ex-interno da Febem, Anderson Marcos Batista, a mulher dele, Conceição Eletério, e os irmãos Evandro e Everson Guimarães.
Detidos desde outubro de 2007, o ex-interno, a mulher e os dois irmãos acabaram absolvidos e soltos.
[...]
Quero saber se a história fica por isso mesmo. Quero saber se quem mentiu neste caso receberá o mesmo tratamento de quem disse a verdade e, enxerida que sou, quero saber também de onde vieram os tais R$ 700 mil que o padre teria dado ao antigo protegido.


Eu também.

sábado, 7 de junho de 2008

Deus é fiel
(mas a Justiça, nos EUA, não quer saber disso)


A bispa Sonia, aquela que fala com voz de choro, foi solta hoje.
Mas ela e o maridinho apóstolo ainda têm de cumprir dois anos de liberdade vigiada, nos EUA.
No Brasil, o pessoal da igreja Renascer continua a acreditar que tudo não passa de armação do demônio.
Além da pergunta que o Zé Simão já fez em sua coluna na Folha de S.Paulo (por que a bispa Sonia não curou o joelho do Kaká?), resta o ridículo absoluto de todo esse imbróglio.

Mas se as pessoas preferem o engano, fazer o quê.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Que você fará com as cinzas de seu parceiro?


A cantora Courtney Love deu uma resposta fofa a essa pergunta: colocou (parte) das cinzas do marido - Kurt Cobain - em uma bolsa pink em forma de ursinho. A informação tornou-se pública porque parece que furtaram a tal bolsa.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Na cabeça


Os políticos, pelo menos no Brasil, são – cada vez mais – meliantes à procura da imunidade parlamentar. Parece ser bem melhor ser julgado pelo Supremo do que em primeira instância, por um juizinho qualquer. O trâmite é tão demorado que vale a pena, ops!, vale a não-pena.
Vai daí, lembrei-me de uma figura ímpar, que conheci em meados de 1.988. O obeso Moisés Lipnik.


Ele era filho de banqueiro de Miami. Parece que logo que alcançou a maioridade, o pai lhe deu uma grana e disse, a la Drummond:
- Vai Moisés. Vai ser gauche na vida.
E Moisés aportou no Brasil da ditadura militar, do general Golbery.
Contava ele que começou a – digamos – carreira intermediando um grupo de empresários japoneses que pretendiam estabelecer negócios no Brasil.
Vendeu a eles a idéia de que poderia obter entrevista com o general Golbery. Conseguiu marcar a audiência e lá foi ele, levando os japoneses a tiracolo.
Uma vez diante do general os japoneses expuseram suas pretensões e foram ouvidos com respeito, mas com distanciamento.
Ao saírem, Lipnik avisou aos japoneses que precisava retornar para entregar o cheque ao general. Cheque dos japoneses, claro. Voltou à sala do general, os japoneses olhando à distância, e entregou a Golbery um cartão de visita.
Manobrou, junto a assessores do general, para que os propósitos dos japoneses se realizassem.
Tudo deu certo. Ele, que dissera ter entregue o cheque ao general, ganhou seu primeiro milhão de dólares.
Não sei se esta história é fantasiosa ou não. Eu a ouvi do próprio Lipnik.
A questão é que, quando eu o conheci, ele já era podre de rico, casado com uma ex-miss Miami (meus amigos brincavam de adivinhar quanto ele teria pago por isso) e candidato a senador por Rondônia (ou terá sido Roraima?). Tanto faz. Ele nunca estivera em nenhum desses lugares.
Lipnik era virtuose do telefone. Isso no tempo do telefone de fio. Aboletava-se em uma cadeira do escritório em que eu trabalhava, agarrava o fone do telefone e começava a falar, sem parar. Segurava o fone com – digamos – a mão direita. Ao longo do diálogo, trocava de mão deslizando o fone ao longo de sua enorme barriga. Como dizem os locutores esportivos, o fone descrevia uma parábola e encaminhava-se à outra orelha do Lipnik. Isso não interrompia, de modo algum, a conversação. Ao contrário, parecia dar-lhe ritmo.
Vou já adiantando que Lipnik elegeu-se deputado federal (por Rondônia ou por Roraima?), nem sei por quantas vezes. Com isso, conseguiu empurrar com a barriga (e que barriga!) várias ações contra ele. Morreu ileso.
Mas, nessa época, no longínquo 1.988, ou 1.989, Lipnik era candidato a senador. Nada mais, nada menos. Seus cabos eleitorais esfalfavam-se, em Rondônia (ou terá sido Roraima?), para desenvolver sua campanha. Quase foi eleito.
Belo dia, estávamos no escritório, quando liga um desses cabos eleitorais. A dúvida: estamos confeccionando bonés para sua campanha. Vamos escrever o quê, nos bonés.
Lipnik não chegou a pensar 20 segundos:
- Lipnik na cabeça!

sábado, 24 de maio de 2008

International Red Flag Country


Tudo começou em fevereiro deste ano, quando nos preparávamos para ir visitar minha filha mais velha em New York. Temos primos em Bragança, Portugal, cuja filha estuda ballet. Eles já haviam comentado conosco a respeito da dificuldade de encontrar o equipamento necessário para os treinos da filha. Como parece haver de um tudo em New York, pedi a eles que me dissessem o que comprar. Meu primo, talvez para ser gentil e não responder que não era preciso comprar nada, pediu-me que, se possível, comprasse uma tal de Resistaband GM-503, da AllAboutDance.


Já em Manhattan, começamos a visitar – entre outras lojas – as especializadas em equipamentos para ballet. E nada. Uns nem sabiam do que se tratava. Outros diziam saber e indicavam outra loja onde certamente haveria o que procurávamos. Como as tais faixas acompanham um livro de exercícios, procuramos em livrarias, lojas de revistas etc etc.
Nada.
Em nosso último dia em New York, ao visitar uma enorme loja de equipamentos para ballet, consegui o endereço dos escritórios da Gaynor Minden na cidade. Não havia garantia de que, lá, eles vendessem os próprios produtos. Nem houve mais tempo de ir até lá.
Voltei ao Brasil injuriado. Ir a New York e não conseguir comprar uma única faixinha GM-503 para minha prima. Isso não se faz.
Resolvi encomendar pela Internet. Claro que não se tratava de atitude racional. Encomendar pela Internet eles mesmos poderiam encomendar, lá de Bragança. Mas não combinei com ninguém de ser sempre racional.
Feito o pedido, esperei que chegassem a minha casa, em São Paulo, as já famosas Resistabands.
O que recebi, ao invés de, foi um e-mail com um título igual ao deste post. Não sei bem como traduzir essa expressão. Mas “red flag”, no caso, tem cara de “lista negra”. Olha só o conteúdo do e-mail, seguido de uma tradução meia-boca mas que serve pra quem não entende patavina de inglês:

Thank you for your order. Unfortunately, we do not ship to Brazil at this time. We used to, but encountered numerous delivery problems. We are currently researching ways to guarantee the safe delivery of our packages to your country, while at the same time keeping shipping rates as low as possible. We hope to resume shipping to Brazil in the future. In the meantime, we have cancelled your order, and you have not been charged at any time.
Thank you.
AllAboutDance

Gratos por seu pedido.Infelizmente, não estamos fazendo remessas para o Brasil atualmente. Antes fazíamos, mas tivemos muitos problemas de entrega. Estamos buscando meios de garantir a entrega segura de nossos pacotes em seu país, tentando ao mesmo tempo manter taxas de envio tão baratas quanto possível. Esperamos voltar a fazer remessas para o Brasil no futuro. Nesse meio tempo, cancelamos seu pedido e você não foi cobrado por nada.
Gratos,
AllAboutDance


E quando eu digo que o Brasil acabou, tem gente que acha exagero.
Refiz o pedido, agora pedindo para fazerem a entrega em Bragança, Portugal.
As GM-503 já devem estar chegando lá, com a graça dos deuses.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Marcha para Jesus: apologia de crime


Vamos lá: muita gente fica cheia de dedos para afirmar que o pai e a madrasta da menina Isabella foram os seus assassinos. Mesmo depois da versão de uma terceira pessoa ter se transformado em piada. O argumento é sempre aquele: o cidadão só é culpado depois de sentença transitada em julgado. Beleza.
Agora, vem cá: o tal apóstolo Hernandes e sua bispa não foram já julgados, condenados e até já estão cumprindo pena? Então, pelos mesmos pesos e mesmas medidas, são culpados de crime. Se preferirem: são, sim, criminosos.
Vamos, então, ao artigo 287 do Código Penal:
Fazer, publicamente, apologia de fato criminoso ou de autor de crime:
Pena - detenção, de 3 (três) a 6 (seis) meses, ou multa.


O pessoal que participou da tal Marcha para Jesus fez exatamente isso: enaltecimento de um criminoso. Publicamente.
O fato de tratar-se de um milhão e meio de pessoas não as torna menos incursas no artigo 287. Como na piada do mexicano:
- Un loco no! Miles de locos!

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Tempo ganho


Hoje, ao passear pelo Orkut, descobri que minha sobrinha, Juliana Dantas, tem um blog.
Nunca imaginei ter uma sobrinha que lesse Proust.
Não percam tempo. Basta clicar na imagem.

E ela escreve como poucos

sábado, 17 de maio de 2008

Um poema de meu pai


No revirar velhos papéis guardados por minha tia, encontrei um poema escrito por meu pai. Está datilografado na arcaica Smith Corona dele, um dos poucos objetos que sobreviveram à minha prisão e dorme aqui em meu escritório. Talvez alguma de minhas irmãs tenha cópia desse poema. Eu o li hoje pela primeira vez. Lembro de minha mãe referir-se várias vezes a ele, mas nunca o havia saboreado.
Meu pai, nascido em Passos de Lomba, aldeia trasmontana, cedo partiu rumo ao Brasil. Teria, então, algo em torno dos 15 anos. Jamais retornou a sua terra natal. Nunca mais viu a mãe.
O poema, intitulado Mãe Querida, parece guardar em seu título uma ambigüidade. A mãe é a mãe biológica, mãe Amélia da Conceição, mas é – também – a mãe terra, a aldeia original. Não sei se a dubiedade foi proposital. Mas é evidente.


MÃE QUERIDA
[mantive a grafia original]

Alberto Augusto


É pequenina, um brinco de criança:
Tão linda jamais vi
Em serranias altas sobrepostas
A aldeia em que eu nasci

Ali há vida, há luz, prados extensos;
Riquíssimos jardins;
Campinas verdes, plurimatizadas;
Ribeiros em festins.

Um céu de anil puríssimo de estrêlas
Constantes no brilhar;
E a refletir-se em fontes cristalinas
Um pálido luar.

Vetusto casario guarnecendo
Vielas que só têm
Vestígios de mourama de outros tempos,
E curvas em vai-vem.

Há pardais, rouxinóis, há andorinhas:
Orquestra sem igual!
Bem parece viverem todo o dia
Em festa nupcial!

Os campos e os pomares enfeitados;
Grilada a cricrilar;
As searas imensas, brancacentas,
Ao vento a baloiçar.

Tal é a minha aldeia – se me lembro...
É linda para mim!...
Há muito... muito... que a deixei, chorando;
Chorando sem ter fim.

Deixei-a, sim; por lá ficou, saudosa;
E fui-me longe, além...
Também deixei a minha mãe sòzinha,
Da vida tôda o bem.

E nunca mais, oh não, tal voz ouvi
Ternuras a dizer...
Aquela face triste e desmaiada,
Não mais pude rever.

Lamento e me arrependo muitas vêzes
De um grande crime assim!
Padeço em cada hora, em cada instante,
A dor que não tem fim.

A minha mãe velhinha é todo o anseio
Meu, todo o ideal...
É todo o bem que anseio nesta vida;
Sim, ela é meu fanal.

Morando nesta terra linda e boa,
Feliz podia ser;
Mas minha alma, saudosa de outra alma,
Fugiu... quí-la rever...

Alçou em vôo de águia legendária.
Librando-se no ar,
Foi visitar a aldeia pequenina.
De lá não quis voltar!

Eu quero ir também, e não te esqueças,
Oh Deus do meu clamor.
Não te olvides de mim, que em ti confio
- Espero em teu amor.

Permite, ó Deus, consente eu veja ainda,
Mamãe querida, ali,
Por quem tanto chorei, tantas saudades
Eu sinto por aqui.

Não me deixes, Senhor, viver penando
Em tal separação;
Pois minha vida assim é um tormento
Que corta o coração.

Prossigo embalado na lembrança
- E o dia há-de chegar –
De ver-te a face imersa num sorrir
Mais doce que o luar!

Queres findar, bem sei, tua carreira;
Anseias o partir,
Mas para ver-me ainda, e abraçar-me,
Mais vida hás-de fruir.

E a aldeia pequenina e alcandorada,
Feliz há-de sentir
A ventura sem fim de duas almas
Unidas a sorrir.

Hei-de ver-te, e beijar-te muito, muito,
Dormir nos braços teus!
Hei-de sentir o teu amor profundo!
Cingir-te aos braços meus.

Não te eleves da terra, mas espera
Um beijo dêste amor.
Então demandarás o Paraíso.
Concede êste favor.


Minha avó Amélia não pôde esperar. Meu pai também se foi muito cedo.
De alguma forma, a ida dos três filhos de Alberto agora em setembro à aldeia em que ele nasceu será um reencontro dele com a mãe terra.
Por nosso intermédio.
Para minha alegria.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Lógicas não usuais


Estudei Lógica, durante alguns anos, sob orientação do professor Newton da Costa. Já falei um pouco dele, aqui.
Ele é um dos lógicos mais importantes do mundo. No Brasil, claro, não chega a ser tão reconhecido quanto Ronaldo, o Fenômeno, ou Hebe Camargo ou Ana Maria Braga etc etc. Cada país tem os ídolos que merece.
O professor Newton ficou conhecido internacionalmente por ter desenvolvido a teoria das lógicas paraconsistentes. São lógicas que admitem a contradição. Numa lógica convencional, se aparece uma contradição tudo desaba. É como um terremoto de nível 10 na escala Richter. Ele bolou uma lógica que permite a contradição sem que o mundo venha abaixo. Coisa de gênio.
Uma das minhas alegrias na vida é a de ter conhecido e convivido com o professor Newton. Esquisitão, exigia que os alunos o tratassem por senhor. Mas, ao contrário de muito professor titular, que entende ser depreciativo dar aulas para a graduação, Newton da Costa dava aula pra qualquer nível. Não se importava com essa história de majestade do cargo. Ao contrário de muito orientador de tese, propunha-se a ir à casa do orientando, à noite, pra discutir o trabalho.
É verdade que, na primeira vez que foi à minha casa, ao conversar comigo e com minha esposa, nós que havíamos acabado de sair da cadeia, perguntou:
- Como é que vocês podem ser marxistas? Isso é coisa de estúpidos!
Assim, na lata.
Algum tempo depois, ao voltar de viagem à Polônia socialista, à qual havia ido a convite para dar conferências, disse-nos, na mesma casa, sentado na mesma cadeira:
- O socialismo é maravilhoso!
Esse é o extraordinário professor Newton da Costa. Ou melhor, um pedacinho dele. Porque ele, em sua totalidade, é indescritível.
Tudo isso me vem à memória a propósito de uma tia minha, portuguesa que vive no Brasil há muitos anos.
Ela vai completar 80 anos semana que vem.
Já há algum tempo, começou a mostrar sinais de demência. Fomos com ela a uma médica geriatra. Orientados pela médica, colocamos para cuidar dela uma cuidadora. Minha tia sempre viveu sozinha. Vive em um apartamento de cômodo único. Ela adora o cantinho dela. Suportou a cuidadora durante uns três meses. Depois, expulsou-a de casa.
Como tínhamos de colocar outra cuidadora lá e sabíamos que ela não a aceitaria, meu primo e eu fomos até lá no domingo passado para tirar os trincos que ela tinha na porta de entrada. Caso contrário, ela não deixaria nenhuma cuidadora entrar.
Pedimos que uma amiga dela a levasse para dar um passeio enquanto arrancávamos os trincos.
Feito o trabalho, fomos embora e avisamos a amiga que já podia levá-la de volta.
Fiquei curiosíssimo sobre qual seria a reação dela ao voltar.
Soube, dia seguinte, ao falar ao telefone com a amiga de minha tia.
Ela entrou no apartamento, percebeu a remoção dos trincos e explicou à amiga, utilizando a lógica toda especial que a doença lhe proporciona:
- Meus sobrinhos estiveram aqui e consertaram a fechadura.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Einstein chuta o pau da barraca


A Folha de S.Paulo divulga, hoje (aqui, para assinantes Folha ou UOL), carta que Einstein escreveu a um amigo filósofo em 1.954, ano anterior a sua morte, na qual ele manifesta sua opinião sobre as religiões (aqui, parcialmente, traduzida para o inglês):

"A palavra Deus é para mim nada mais do que expressão e produto da fraqueza humana".

De quebra, ainda diz que não considera os judeus um povo escolhido. A religião judaica, “como todas as outras religiões, é uma encarnação das superstições mais infantis”.

Quanto à Bíblia: “uma coleção de lendas honráveis [ver nota], ainda que primitivas”.

A carta já era conhecida. A matéria da Folha se deve ao fato de que a carta, agora, vai a leilão. O surpreendente nela é que, segundo os historiadores, Einstein jamais havia manifestado muito claramente sua opinião sobre as religiões. A matéria da Folha acrescenta que a frase de Einstein mais citada sobre o assunto, até essa carta, era:

“A ciência sem religião é manca, a religião sem a ciência é cega”.

Claro que no mundo atual, politicamente correto, no qual jogam-se filhas pela janela ou escravizam-nas por anos em porões mas não se pode chamar ninguém de ceguinho, a frase dele teria de ser adaptada:

A ciência sem religião é portadora de deficiência motora, a religião sem a ciência é portadora de deficiência visual.

Claro, também, que os indefectíveis defensores das religiões dirão que, já próximo da morte, Einstein estaria gagá, ops!, seria portador de deficiência cognitiva.

Quanto a mim, sempre achei o gênio meio piradão. Talvez essa carta manifeste um de seus parcos momentos de lucidez.

- - - - - -

Nota: A palavra honrável não é registrada nem pelo Houaiss nem pelo Aulete. Existe honorável. Na tradução da carta para o inglês consta honourable, que o Merriam-Webster unabridged tampouco registra mas que o Cambridge on line dá como variante inglesa de honorable. Honorable poderia ser traduzido por admirável.

terça-feira, 13 de maio de 2008

A versão animal do
Estupra mas não mata


A Folha de S.Paulo publica, hoje (aqui, para assinantes Folha ou UOL),matéria sobre uma foca macho flagrada tentando copular com um pingüim. O cinegrafista filmou a tentativa (afinal frustrada) durante 45 minutos. O pingüim tentava escapar mas como a foca pesa até 120 quilos (dez vezes o peso de um pingüim) ele não conseguia.
Terrível, não é mesmo?
Acontece que na ilha Marion, onde a tentativa de estupro foi filmada, parece que o mais comum é que as focas comam os pingüins – literalmente.
O ex-governador de São Paulo, o inefável Paulo Maluf, ficou célebre – entre outras façanhas – por ter sugerido a estupradores em geral:
- Estupra mas não mata.
Seu conselho polêmico foi finalmente seguido pela tal foca.
Ou terá sido incapacidade da foca em discernir entre os vários sentidos do verbo comer.
Sabe-se lá.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

A incrível Lei Rouanet


Já comentei, há algum tempo, a utilização da tal Lei Rouanet por parte de artistas consagrados.
Não sei se todo mundo sabe: a Lei Rouanet, trocada em miúdos, permite que você apresente a uma empresa um projeto cultural qualquer para que a dita empresa arque com os custos. O pequeno detalhe, nessa história, é que a empresa paga o empreendimento com grana do imposto que ela deveria recolher ao erário.
Resumo: o distinto público, o contribuinte, paga a brincadeira.
Que artistas desconhecidos se valham da tal lei, ainda é discutível. Eu, por exemplo, sou contra. Mas admito que haja argumentos para defender esse subsídio.
Agora: o fim da picada é ver artistas famosos, já podres de ricos, usando a Lei Rouanet para encher mais seus cofres.
Falando português claro: é uma pouca vergonha.
Todo esse meu azedume vem de ter lido, hoje de manhã, na Folha de S.Paulo, matéria sobre o lançamento do songbook do cantor Djavan. São três volumes com as partituras de todas as músicas do cantor/compositor. Assinante Folha ou UOL lê aqui.
Muito bacana, muito interessante. Só que esse trabalho foi bancado pela Lei Rouanet. E tem mais: não satisfeita por mamar nas tetas do contribuinte, a turma que preparou o songbook ainda tascou-lhe um precinho camarada: cada um dos três volumes custa R$ 130,00.
E o compositor ainda teve a cara de pau de declarar:
"Nem sabia que custava isso. Pedi para que fizessem o preço mais acessível possível."
Como diria a Hebe Camargo: Não é uma Gracinha?!

sábado, 10 de maio de 2008

Foi uma terceira pessoa


Pois é. Não foi Pero Vaz e Caminha que pediu ao Rei de Portugal emprego para um parente. Foi uma outra pessoa. Ela se intrometeu na carta sobre a descoberta do Brasil e acrescentou trechos apócrifos.
Nem pensem que Pedro I proclamou a Independência. Ele apenas teve um pequeno desarranjo intestinal às margens do Ipiranga. Algum gaiato aproveitou-se do imprevisto e gritou o Independência ou Morte.
Já Deodoro da Fonseca, esse, todo mundo sabe que era monarquista. Foi empurrado para a História. Mas quem proclamou a República foi o cavalo.
Por falar em cavalo, a Revolução de 30 teve como ponto alto o tal cavalo que os gaúchos amarraram no obelisco, no Rio. Ou não.
Getúlio não se matou. Foi uma terceira pessoa, ou quarta, ou quinta, sabe-se lá, que entrou no quarto e atirou nele. Até mesmo a Carta Testamento, que tantas lágrimas suscitou ao longo dos anos, não se sabe bem por qual terceira pessoa foi escrita.
E o País continuou sempre dominado por terceiras pessoas.
No caso de JK, a terceira pessoa era uma amante. Ou várias. Menos mal.
O golpe de 1° abril de 1.964 foi patrocinado por terceiros. No caso, os EUA.
Mas nem precisava. A esquerda brasileira não precisa de inimigos. Bastam-lhe os amigos.
E os governos militares? Meu deus! Quanta estupidez! Claro, toda de terceiras pessoas. Afinal, Castelo Branco, Costa e Silva, os Três Patetas, Médici, Geisel, Figueiredo, todos (ou quase todos, sei lá) foram primeiros alunos de suas turmas no Exército. Imaginem os últimos.
Daí fomos parar nas mãos dos Marimbondos de Fogo. Que loteou (os marimbondos, são, no caso, singular) o governo entre terceiras pessoas. Todas foram muito bem remuneradas e o mundo continuou girando em sua órbita.
E veio Collor. E PC Farias. Mas tudo o que amealharam foi obra de terceira pessoa. Tanto é que foram absolvidos. PC Farias foi assassinado, é verdade. Mas nem tudo são flores neste país terceirizado.
Itamar Franco foi o menos ruim. Tá certo. Era – e é – muito caipira. Parece ter sido o primeiro presidente da República que nunca tinha viajado a São Paulo. Pode?! Mas assumiu seus ridículos sem intermediários. Só valeu-se de terceiras pessoas pra implantar o Plano Real. Afinal, o negócio dele era outro, nada real.
Fernando Henrique eu me recuso a comentar. Já tinha escrito um monte de asneiras e governou produzindo mais asneiras. O que de bom foi produzido em seus governos foi obra de terceiros. Sempre a terceira pessoa.
Lula tem uma vantagem: ele troca de terceira pessoa a toda hora. Primeiro era o Zé, depois o Palocci, depois a Dilma, depois quem?
Depois ele, claro. Prontinho pro terceiro mandato.
Vai daí, não entendo a incredulidade da imprensa em relação à versão dos Nardoni sobre o assassinato de Isabella. Se sempre há uma terceira pessoa em tudo que acontece de relevante neste país, por que não haveria uma terceira pessoa na cena do crime?
Aliás, um detalhe: a versão me parece não ser obra nem do pai nem da madrasta de Isabella. Tenho a forte impressão de que a versão é obra de terceira pessoa.
Como sempre, em tudo.

domingo, 4 de maio de 2008

Responda rápido:


Quem é pior:

o austríaco Josef Fritzl, que manteve a filha em cativeiro por longos 24 anos e a obrigou a ter sete filhos dele;

ou

a elite do Nordeste brasileiro (os Sarney, os Gomes et caterva), que mantém o povo inteiro em cativeiro há uns 500 anos e o obriga a ter filhos sem qualquer planejamento, para que a miséria não corra risco de acabar.

Hein? Hein?

sábado, 3 de maio de 2008

Portugal e Brasil


Lisboa e São Paulo.
Certamente, depois dessa Marcha da Maconha, Lisboa sucumbirá diante do Mal.
Ainda bem que São Paulo é terra de flores perfumadas e de pássaros gorjeantes.
Suas sábias autoridades não permitirão que Marcha tão malevolamente solerte perturbe a paz aqui reinante.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Sobre baianos


O coordenador do curso de medicina da Universidade Federal da Bahia, Antonio Dantas, atribuiu o mal desempenho do curso no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade) de 2007 ao baixo QI dos alunos.

E esclareceu: Baiano toca berimbau porque tem uma corda só. Se tivesse duas, não conseguia tocar.

É mais um dado a acrescentar à Mitologia do Baiano.

Sempre ouvi dizer que baiano é devagar, calmo, sossegado. Quando estive em Salvador pela primeira vez (e até agora única), aluguei um carro e fomos passear. Descobri, então, que os baianos são os sujeitos mais estressados que já vi na vida. Só um exemplo: numa avenida de três pistas, ao longo do mar, é comum ver um indivíduo colar o seu carro na traseira de outro que trafega pela pista mais à direita e buzinar alucinadamente. Por que ele não passa por qualquer uma das outras pistas permanece um mistério baiano, para mim.

Pra contrariar o tal de Antonio Dantas, há a música que aprendi quando moleque: “baiano burro garanto que nasce morto”.

Quanto aos grandes ídolos da música popular brasileira, de Caetano a Gal, de Gil a Bethania, todos adoram a Bahia. Todos moram no Rio ou em São Paulo.

Parece que, ao contrário da platéia da crucificação, no Calvário, todos sabem o que fazem.

sábado, 26 de abril de 2008

Para conhecer o Brasil


O livro de Nelson Werneck Sodré, O que se Deve Ler para Conhecer o Brasil, publicado no ano em que nasci (1.945), do qual tenho o exemplar n° 937 da 4ª edição (1.973), gasta pouco mais de 400 páginas para dar algumas dicas sobre como conhecer este país através da leitura.
Sempre que me solicitam orientação, recomendo o estudo desse texto.
Vou mudar de postura.
Por tudo que anda acontecendo, parece que para conhecer o Brasil basta estudar a vida e - digamos assim - a obra de Daniel Dantas.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Terremoto em Sampa


Há algum tempo transcrevi aqui o comentário que um amigo, engenheiro civil, fez a propósito de terremotos:
- Não é que o Brasil não tenha terremotos. O Brasil não tem é sismógrafos.
Pois bem. Já temos os tais sismógrafos. Agora há pouco tivemos um terremoto em São Paulo.
Deus seja louvado. A civilização está chegando.

sábado, 19 de abril de 2008

Pausa em Floripa


Demos uma chegadinha até Floripa. Ontem foi aniversário de meu sobrinho e saímos pra comemorar. Aproveito que aqui no prédio onde mora minha irmà há wi-fi dando sopa e consigo postar este aviso de pausa. Segunda-feira volto a Sào Paulo e à vida normal.
Bom final de semana a todos.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

À margem do caso Isabella


Um caso estarrecedor como esse, o da morte da menina Isabella, merece que se aprenda alguma coisa com ele.

A tira de hoje, na Folha de S.Paulo, do cartunista Adão Iturrusgarai, aponta para os resultados desastrosos da incapacidade de dizer Não:

CLIQUE PARA AMPLIAR
O sacrifício de Isabella me parece ter uma de suas raízes na leniência de avós que não souberam impor quaisquer limites aos próprios filhos.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

O caso Isabella


Não queria tocar nesse assunto, aqui no blog.
Mas depois de assistir à entrevista dada a Roberto Cabrini pela tia e madrinha de Isabella, a irmã do pai da menina, não consigo deixar de fazer dois comentários:

1. É constrangedor constatar a confusão que se instaura nos órgãos policiais sempre que algum crime tem de ser esclarecido através de investigação. Até agora, por exemplo, não foi feita a reconstituição do crime.
Simples: o método adotado normalmente é o de descer o sarrafo em algum suspeito e prestar bastante atenção a tudo que ele diz em seguida.
Se, por qualquer motivo, não é possível utilizar-se desse – digamos – método preferencial, as coisas se complicam.

2. Se algum filho meu me ligar dizendo que meu neto foi atirado da janela e morreu, minha atitude, depois dos primeiros momentos de desespero, vai ser a de sair tentando descobrir quem fez isso. Simples: sei que nenhum de meus filhos faria isso. Nem nenhum dos companheiros de meus filhos. Então, vamos atrás de quem fez.
No caso em questão: ou alguém foi até lá com a intenção de matar a menina ou alguém foi furtar e a menina atrapalhou seus planos e teve de ser morta. Em qualquer das hipóteses trata-se de alguém que portava a chave de entrada do apartamento. Mãos à obra: o universo das pessoas que têm a chave do apartamento e que teriam algum motivo para matar a menina ou para tentar um furto no local não é tão vasto assim. Um ciumento namorado da mãe? Algum tresloucado parente de algum desafeto da menina, colega de escola dela? Alguém que trabalhou recentemente no interior do prédio e que teve acesso às chaves dos apartamentos?
Não. Na entrevista a Roberto Cabrini, a tia da menina, quando perguntada se já havia questionado o irmão sobre quem poderia ser o assassino, respondeu que não haviam tocado no assunto. (Clique aqui, pesquise Nardoni e clique em Entrevista com a irmã de Alexandre Nardoni)
Ouvi também trechos de entrevista com o avô da menina: apenas uma rápida referência à questão.

Ou seja: tudo indica que ninguém, na família, está preocupado em descobrir o verdadeiro assassino. Estão todos ocupados em afirmar que não foi o pai, não foi a madrasta.
Mas, então, quem foi?!? Parece que esse problema não é importante.

Pra mim, o caso está resolvido. Uma criança foi brutalmente assassinada por ninguém.

domingo, 13 de abril de 2008

Bom apetite!


Tudo se resume a isso: que tenham todos um bom domingo. Com mesa farta e muita alegria.
Não tenho a capacidade do Lulla, que prometeu a todos os brasileiros três refeições diárias. Ofereço, quando muito, esse prato virtual. Na realidade, garanto, ele estava delicioso. Costeleta de porco, batata, cenoura e cebola. Meus amigos judeus que me desculpem. Não se consegue agradar a todos o tempo todo.
E viva a vida!

quarta-feira, 9 de abril de 2008

AVC (Derrame cerebral)


Há, no New Haven Register de hoje, um artigo sobre derrame cerebral que traz informações importantes:

CLIQUE PARA LER A MATÉRIA
Por exemplo: derrame cerebral mata uns 275.000 americanos por ano. Mais de 10 guerras do Iraque. A cada 45 segundos alguém tem um derrame em algum lugar dos EUA.
80% dos derrames são obstrutivos (isquêmicos), ou seja, alguma artéria fica bloqueada por coágulo ou por estreitamento. Os outros 20% são hemorrágicos.
Se o cidadão se liga que teve o derrame obstrutivo e consegue chegar a um hospital em menos de três horas, ainda dá pra aplicar um remédio chamado tPA.
Pra quem chega depois desse prazo (a grande maioria), está sendo experimentado um remédio preparado com uma enzima retirada de veneno de cobra. Essa enzima teria a capacidade de desmanchar o coágulo e restabelecer a circulação normal.
De qualquer forma, recomenda-se que o cidadão acometido de derrame corra para um hospital. O maior problema, no caso, é que tais derrames são difíceis de detectar. São indolores.
Vai daí, o pessoal inventou um método mnemônico pra que as pessoas consigam perceber se tiveram um derrame: um lado do rosto ficou caído? Um dos braços ficou meio bloqueado de repente? Problemas na fala? Em qualquer dessas circunstâncias, corra pro hospital. Tudo isso foi sintetizado na palavra FAST (face, arms, speech, time). Se você notar alterações como as mencionadas acima no rosto (face), em um dos braços (arms) ou na fala (speech), é hora (time) de correr pro hospital.
Tentei traduzir isso para uma sigla igualmente mnemônica em português e dei com os burros n’água.
Alguma idéia luminosa por aí?

P.S.: você dirá: Por que cargas d’água esse sujeito foi ler o New Haven Register?!? Simples, digo eu: é um jornal de cidadezinha próxima àquela em que mora minha filha, ora, ora. E é sempre bom saber o que anda acontecendo por aquelas bandas.

domingo, 6 de abril de 2008

Símbolos


Até há pouco o melhor símbolo da cidade de São Paulo era a estátua do Borba Gato, conhecida como monstrumento.

clique para ver a fonte da foto

Como parece que até já a retiraram de lá (de vez em quando passo pela confluência da Adolfo Pinheiro com a avenida Santo Amaro mas não prestei atenção se ela ainda está lá ou não), o novo símbolo de São Paulo será mesmo o Mãos ao Alto, na chegada da avenida Roberto Marinho na Marginal Pinheiros:


sábado, 5 de abril de 2008

De volta a São Paulo


A foto abaixo é bem representativa de São Paulo: à direita, favela construída à beira de uma movimentada avenida. Nada de planejamento, nada de controle. À esquerda, viaduto - mais um - que irá encher os bolsos dos administradores públicos. Quanto a investir em transportes públicos, nada. Ao centro, congestionamento resultante da falta de transportes públicos adequados.
Ao fundo, o novo símbolo de São Paulo: o monumento Mãos ao Alto.

Clique para ver a maquete da obra

sexta-feira, 4 de abril de 2008

De volta ao lar


Depois de uma ótima passagem pelo Bubble Lounge, na quinta à noite, pra despedir da filhota, lá fomos nós, sexta-feira de manhã, 21 de março, pro aeroporto JFK.

À espera da partida
Por melhor que seja uma viagem, sempre é bom voltar pra casa.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

As alegrias e confusões da quarta-feira


Na quarta-feira, 19 de março, combinamos uma visita ao sogro de meu filho. Ele está sozinho, atualmente, vivendo em New Jersey.
New Jersey é formado por cidades pequenas, todas emendadas umas às outras. Ele mora em South River mas vai-se de trem até New Brunswick. Ao contrário de minha filha, moradora de Westport, mais ao norte, o sogro de meu filho mora mais ao sul de Manhattan. A distância de Manhattan até lá é mais ou menos a mesma que até Westport: pouco menos de uma hora, de trem.
Marcamos um jantar. Ele nos orientou para pegar o trem na Penn Station, na rua 33. Minha filha não pôde ajudar muito porque não conhece bem essa estação. Fomos até lá, erramos um bocado mas acabamos conseguindo entrar no trem para New Brunswick, munidos de bilhetes ida-e-volta. Saímos da Penn Station um pouco antes das cinco da tarde e chegamos ao destino pouco depois das cinco e meia.
O sogro de meu filho nos esperava e nos levou em seu carro até sua casa. Apartamento de solteiro mas espaçoso e até que quase nada bagunçado. Trata-se de um sobrado que o dono dividiu em cinco apartamentos. Ele aluga um dos dois apartamentos no andar térreo. Cozinha, banheiro, quarto grande e sala enorme. Na sala, TV gigantesca, som envolvente, computador de última geração. Em suma, o sogrão vive bem. Tomamos um uísque enquanto púnhamos a conversa em dia.
Lá pelas sete e meia, oito, fomos a pé até um restaurante português junto à casa dele e jantamos costeletas de porco regadas a vinho do Alentejo.
Depois de muito papo, levou-nos até a estação para nosso retorno a New York.
A conversa prolongou-se por quase mais uma hora. O trem demorou a chegar. Seria o último?
Despedimo-nos. E a alegria terminou aí.

Já acomodados no trem, a Baixinha pegou no sono. Quanto a mim, baixei a guarda. Afinal, voltar para cidade grande é sempre mais fácil do que ir da grande pra pequena.
O trem parava em algumas estações pequenas. Quando o relógio já indicava que devíamos estar para chegar à Penn Station da rua 33, o trem entrou em uma grande estação e eu pensei: chegamos.
Por via das dúvidas, ainda perguntei a um senhor que se apressava para descer:
- Penn Station?
E ele:
- Penn Station!
Descemos.
Começamos a andar pela plataforma. A Baixinha observou:
- Por que ficaram tantas pessoas no trem. Não é o ponto final?!
Não. Não era. Mas, a essa altura, o trem já partia.
Só aí começamos a descoberta de que havíamos descido na Penn Station de Newark. Não na Penn Station de New York.
Paciência.
Uma dupla de policiais patrulhava a plataforma. Perguntei a um deles como fazer pra comprar bilhetes para New York.
- Logo ali, nas máquinas.
Fomos até elas. A que ocupei oferecia bilhetes simples, para uma semana, para um mês. Comprei dois simples.
Haveria outro trem?!?
A TV informava: sim. O próximo trem passaria às 12:47. Eram 12:10.
Para enfrentar essa espera, resolvemos entrar na sala existente no meio da plataforma, com bancos longitudinais. A Baixinha sentou-se. Fiquei em pé, em frente a ela. Já ficara sentado tempo demais no trem. Um pouco pra minha esquerda, no mesmo banco, um crioulo enorme dormia, estirado.
Logo a Baixinha sugeriu:
- Vamos sentar mais para lá.
Percebi que alguma coisa não corria bem, ali onde estávamos.
Deslocamo-nos para mais perto do dorminhoco. Olhei o mais disfarçadamente que pude para o banco do lado oposto ao nosso e percebi: um indivíduo já um tanto idoso, dentro de um paletó daqueles de mendigo, sebo puro, calça jeans aberta, masturbava-se ostensivamente.
Três mulheres jovens, toda a pinta de prostitutas, rodavam por ali, falando alto. Uma delas, ao menos, totalmente bêbada.
Resumo: estávamos bem acompanhados.
Mais algum tempinho e voltamos à plataforma. Faltavam só uns 15 minutos pra chegada do trem.
Eu sabia que, nesses trens, se você não tiver bilhete adequado para entregar ao funcionário picotador (sim, isso ainda existe) ele vai cobrar de você a passagem, só que por um preço maior do que aquele que você pagaria no guichê da estação ou na máquina de vender bilhetes. A dupla Cosme e Damião que me dissera como comprar bilhetes havia ido embora. Foi substituída por outra dupla: um bicho de goiaba enorme, dois metros de altura, um e meio de largura e mais ou menos isso de profundidade, americano típico, enfim, um Armário. O outro, um policial com cara de mexicano, grande mas nada comparável ao Armário. Quando os vi, caminhando em nossa direção pela plataforma, estavam tentando orientar as três mulheres espalhafatosas que giravam por ali. Na plataforma toda, o único branquela, a rigor, era o Armário. Nós, como se sabe, bem como o outro policial, não somos brancos: somos latinos. O resto, negros. Parecia o Harlem.
Pensei (ah! Como seria bom não fazer isso com tanta freqüência):
Vou perguntar a eles se meus bilhetes estão corretos. Caso não estejam, ainda há tempo pra comprar os certos.
Dirigi-me ao Armário, mostrei os bilhetes:
- Quero ir para New York. Estes bilhetes estão certos?
Pra quê.
- Come with me, disse o Armário, no melhor estilo Goulart de Andrade, aquele que tinha um programa de variedades durante a madrugada, na TV, cujo bordão era “Vem comigo!”.
- Mas senhor Armário, ou melhor, senhor policial, meu trem está pra chegar nesta plataforma. Faltam poucos minutos!
- Come with me!
Sinceramente: você teria coragem de responder “Não. Não vou” ?!
Pior: dirigiu-se às três moças de vida airada:
- Come with me!
Todo sorridente.
E lá fomos, em uma macabra fila indiana: o Armário, a Baixinha, eu, o policial mexicano e as três putanas.
Desce escada, anda, sobe escada. E eu, aproveitando que o mexicano atrás de mim parecia mais acessível:
- Eu quero pegar aquela trem lá da plataforma 1!
- Pra onde você quer ir? questiona o mexicano.
- New York, quero ir pra New York!
- Mas você está em Newark!
(diabo de pronúncias parecidas)
O Armário e o Mexicano dialogam:
- Afinal, pra onde ele quer ir?!
E eu, inteferindo:
- Manhattan! Rua 33.
- Ok. Come with me!
Passamos por uma escada rolante interditada para limpeza. Um indivíduo havia desmoronado naquela lateral da escada, meio morto meio vivo (isso com boa vontade). O Armário, impávido, pergunta pro semi-vivo:
- Ok?
O semi-morto consegue balbuciar um OK. Prosseguimos com nossa fila indiana, subindo a escada não rolante. Paradíssima.
Enfim, como não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe, chegamos a outra plataforma, a plataforma H.
O Armário pede o bilhete da Baixinha.
Eu continuo balbuciando tímidos protestos:
- Mas... e o trem lá da outra plataforma?!
- Me dá o bilhete.
Calmo, o Armário nos faz passar pela catraca e nos explica:
- Vocês pegam o trem que vai chegar aqui. Andam duas estações e descem. Aí, pegam o outro trem no outro lado da plataforma e ele os levará à rua 33.
- Duas estações inclusive ou exclusive?
O Armário perde a paciência comigo pela décima vez e se afasta. Sempre que isso acontece (é que eu estou resumindo, imagina a versão integral da catástrofe) o Mexicano entra de assoprador (no melhor estilo, “um bate o outro assopra”).
Fica esclarecido que o negócio é deixar passar uma estação e descer na seguinte.
Chega o trem. Começamos a entender alguma coisa: trata-se de trem do subway, metrô (os bilhetes que eu havia comprado eram de metrô, ora, ora).
Acima de cada porta, aquele mapa esquemático, típico de metrô, com a seqüência de estações a serem percorridas. Como o trem não parece querer sair tão cedo, ficamos examinando o mapa. Lá de fora, o Armário nos observa, pra lá de impaciente.
De repente, lá vem ele. Entra no vagão e nos explica (melhor seria, nos admoesta):
- Esse mapa que vocês estão olhando é o que vale durante o dia. O que vale à noite é este outro aqui (ao lado, menor, com letras miudinhas a indicar o horário de validade)
- Thank you, thank you. (não seria possível dizer outra coisa).
Ele desce do trem, espera que este saia e nos olha, entre aliviado e orgulhoso de ter conseguido orientar latinos tão estúpidos.
Claro, as três putas vieram no pacote. E berravam sem parar, pensando que conversavam.
Quando descemos na segunda estação e nos posicionamos do outro lado da plataforma para esperar o bendito trem que nos levaria à terra prometida, melhor, à rua 33, um rapaz com cara de coreano, que não parava de falar ao celular, interrompeu suas tele-conversas para nos dizer, amavelmente, que estávamos no rumo certo. Uma outra jovem, deslumbrante, saída do nada, interrompeu sua beleza também para nos confirmar que tudo estava correto.
As moçoilas estapafúrdias sumiram.
A viagem até a rua 33 foi tranqüila. Só não tive coragem de invadir a privacidade da menina maravilhosa , que aproveitou para dormir um pouco e ficar mais linda. Gostaria de fotografá-la. Seu rosto, cor de porcelana, rodeado de cabelos negros, tornaria este post incomparavelmente mais atraente.
Às três da matina chegamos de táxi ao hotel e tomamos cognac pra relaxar e começar a entender que o Armário e o Mexicano complicaram nossa vida, com a melhor das intenções.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Sobremesa


Em outro post, disse que havia jantado no Amaranth e que não lembrava do que havia comido por estar mais interessado na conversa com minha filha.
Pois bem. Vamos corrigir a injustiça. Voltamos lá no dia 20, quinta, e almoçamos vieiras (scallops). Estava divino.
A sobremesa era bonita. A gente fotografou. A foto da Baixinha ficou melhor (a hora, na foto, está errada):

Não adianta lamber a tela

NYC - instantâneos


Às vezes, baixa na gente aquela vontade de fotografar com arte. O resultado, em geral, é pobre. Mas não custa mostrar:





Copyright Baixinha
Copyright Baixinha
Ainda na segunda-feira, minha filha nos levou a um restaurante, o Buddha Bar:


domingo, 30 de março de 2008

St. Patrick's Day


Segunda, 17 de março, foi dia de St. Patrick.
Ainda bem que meu genro, no sábado, nos avisou: segunda-feira será tudo verde.
Já ao chegarmos de volta na Grand Center Station, sábado à noite, vimos em uma confeitaria da estação bolos verdes, biscoitos verdes etc etc.
Na segunda, por termos acordado um pouco tarde, achamos que perderíamos a parada na 5ª avenida.
Ledo engano.
A parada dura o dia inteiro, com dezenas e dezenas de grupos desfilando.
Nas ruas, quase todo mundo vestindo algo verde.
Nos bares, verde e mais verde.
Aí vão fotos do desfile. Todas elas tiradas na 5ª avenida, em torno das ruas 58 a 60, perto de nosso hotel.