quinta-feira, 17 de abril de 2008

À margem do caso Isabella


Um caso estarrecedor como esse, o da morte da menina Isabella, merece que se aprenda alguma coisa com ele.

A tira de hoje, na Folha de S.Paulo, do cartunista Adão Iturrusgarai, aponta para os resultados desastrosos da incapacidade de dizer Não:

CLIQUE PARA AMPLIAR
O sacrifício de Isabella me parece ter uma de suas raízes na leniência de avós que não souberam impor quaisquer limites aos próprios filhos.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

O caso Isabella


Não queria tocar nesse assunto, aqui no blog.
Mas depois de assistir à entrevista dada a Roberto Cabrini pela tia e madrinha de Isabella, a irmã do pai da menina, não consigo deixar de fazer dois comentários:

1. É constrangedor constatar a confusão que se instaura nos órgãos policiais sempre que algum crime tem de ser esclarecido através de investigação. Até agora, por exemplo, não foi feita a reconstituição do crime.
Simples: o método adotado normalmente é o de descer o sarrafo em algum suspeito e prestar bastante atenção a tudo que ele diz em seguida.
Se, por qualquer motivo, não é possível utilizar-se desse – digamos – método preferencial, as coisas se complicam.

2. Se algum filho meu me ligar dizendo que meu neto foi atirado da janela e morreu, minha atitude, depois dos primeiros momentos de desespero, vai ser a de sair tentando descobrir quem fez isso. Simples: sei que nenhum de meus filhos faria isso. Nem nenhum dos companheiros de meus filhos. Então, vamos atrás de quem fez.
No caso em questão: ou alguém foi até lá com a intenção de matar a menina ou alguém foi furtar e a menina atrapalhou seus planos e teve de ser morta. Em qualquer das hipóteses trata-se de alguém que portava a chave de entrada do apartamento. Mãos à obra: o universo das pessoas que têm a chave do apartamento e que teriam algum motivo para matar a menina ou para tentar um furto no local não é tão vasto assim. Um ciumento namorado da mãe? Algum tresloucado parente de algum desafeto da menina, colega de escola dela? Alguém que trabalhou recentemente no interior do prédio e que teve acesso às chaves dos apartamentos?
Não. Na entrevista a Roberto Cabrini, a tia da menina, quando perguntada se já havia questionado o irmão sobre quem poderia ser o assassino, respondeu que não haviam tocado no assunto. (Clique aqui, pesquise Nardoni e clique em Entrevista com a irmã de Alexandre Nardoni)
Ouvi também trechos de entrevista com o avô da menina: apenas uma rápida referência à questão.

Ou seja: tudo indica que ninguém, na família, está preocupado em descobrir o verdadeiro assassino. Estão todos ocupados em afirmar que não foi o pai, não foi a madrasta.
Mas, então, quem foi?!? Parece que esse problema não é importante.

Pra mim, o caso está resolvido. Uma criança foi brutalmente assassinada por ninguém.

domingo, 13 de abril de 2008

Bom apetite!


Tudo se resume a isso: que tenham todos um bom domingo. Com mesa farta e muita alegria.
Não tenho a capacidade do Lulla, que prometeu a todos os brasileiros três refeições diárias. Ofereço, quando muito, esse prato virtual. Na realidade, garanto, ele estava delicioso. Costeleta de porco, batata, cenoura e cebola. Meus amigos judeus que me desculpem. Não se consegue agradar a todos o tempo todo.
E viva a vida!

quarta-feira, 9 de abril de 2008

AVC (Derrame cerebral)


Há, no New Haven Register de hoje, um artigo sobre derrame cerebral que traz informações importantes:

CLIQUE PARA LER A MATÉRIA
Por exemplo: derrame cerebral mata uns 275.000 americanos por ano. Mais de 10 guerras do Iraque. A cada 45 segundos alguém tem um derrame em algum lugar dos EUA.
80% dos derrames são obstrutivos (isquêmicos), ou seja, alguma artéria fica bloqueada por coágulo ou por estreitamento. Os outros 20% são hemorrágicos.
Se o cidadão se liga que teve o derrame obstrutivo e consegue chegar a um hospital em menos de três horas, ainda dá pra aplicar um remédio chamado tPA.
Pra quem chega depois desse prazo (a grande maioria), está sendo experimentado um remédio preparado com uma enzima retirada de veneno de cobra. Essa enzima teria a capacidade de desmanchar o coágulo e restabelecer a circulação normal.
De qualquer forma, recomenda-se que o cidadão acometido de derrame corra para um hospital. O maior problema, no caso, é que tais derrames são difíceis de detectar. São indolores.
Vai daí, o pessoal inventou um método mnemônico pra que as pessoas consigam perceber se tiveram um derrame: um lado do rosto ficou caído? Um dos braços ficou meio bloqueado de repente? Problemas na fala? Em qualquer dessas circunstâncias, corra pro hospital. Tudo isso foi sintetizado na palavra FAST (face, arms, speech, time). Se você notar alterações como as mencionadas acima no rosto (face), em um dos braços (arms) ou na fala (speech), é hora (time) de correr pro hospital.
Tentei traduzir isso para uma sigla igualmente mnemônica em português e dei com os burros n’água.
Alguma idéia luminosa por aí?

P.S.: você dirá: Por que cargas d’água esse sujeito foi ler o New Haven Register?!? Simples, digo eu: é um jornal de cidadezinha próxima àquela em que mora minha filha, ora, ora. E é sempre bom saber o que anda acontecendo por aquelas bandas.

domingo, 6 de abril de 2008

Símbolos


Até há pouco o melhor símbolo da cidade de São Paulo era a estátua do Borba Gato, conhecida como monstrumento.

clique para ver a fonte da foto

Como parece que até já a retiraram de lá (de vez em quando passo pela confluência da Adolfo Pinheiro com a avenida Santo Amaro mas não prestei atenção se ela ainda está lá ou não), o novo símbolo de São Paulo será mesmo o Mãos ao Alto, na chegada da avenida Roberto Marinho na Marginal Pinheiros:


sábado, 5 de abril de 2008

De volta a São Paulo


A foto abaixo é bem representativa de São Paulo: à direita, favela construída à beira de uma movimentada avenida. Nada de planejamento, nada de controle. À esquerda, viaduto - mais um - que irá encher os bolsos dos administradores públicos. Quanto a investir em transportes públicos, nada. Ao centro, congestionamento resultante da falta de transportes públicos adequados.
Ao fundo, o novo símbolo de São Paulo: o monumento Mãos ao Alto.

Clique para ver a maquete da obra

sexta-feira, 4 de abril de 2008

De volta ao lar


Depois de uma ótima passagem pelo Bubble Lounge, na quinta à noite, pra despedir da filhota, lá fomos nós, sexta-feira de manhã, 21 de março, pro aeroporto JFK.

À espera da partida
Por melhor que seja uma viagem, sempre é bom voltar pra casa.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

As alegrias e confusões da quarta-feira


Na quarta-feira, 19 de março, combinamos uma visita ao sogro de meu filho. Ele está sozinho, atualmente, vivendo em New Jersey.
New Jersey é formado por cidades pequenas, todas emendadas umas às outras. Ele mora em South River mas vai-se de trem até New Brunswick. Ao contrário de minha filha, moradora de Westport, mais ao norte, o sogro de meu filho mora mais ao sul de Manhattan. A distância de Manhattan até lá é mais ou menos a mesma que até Westport: pouco menos de uma hora, de trem.
Marcamos um jantar. Ele nos orientou para pegar o trem na Penn Station, na rua 33. Minha filha não pôde ajudar muito porque não conhece bem essa estação. Fomos até lá, erramos um bocado mas acabamos conseguindo entrar no trem para New Brunswick, munidos de bilhetes ida-e-volta. Saímos da Penn Station um pouco antes das cinco da tarde e chegamos ao destino pouco depois das cinco e meia.
O sogro de meu filho nos esperava e nos levou em seu carro até sua casa. Apartamento de solteiro mas espaçoso e até que quase nada bagunçado. Trata-se de um sobrado que o dono dividiu em cinco apartamentos. Ele aluga um dos dois apartamentos no andar térreo. Cozinha, banheiro, quarto grande e sala enorme. Na sala, TV gigantesca, som envolvente, computador de última geração. Em suma, o sogrão vive bem. Tomamos um uísque enquanto púnhamos a conversa em dia.
Lá pelas sete e meia, oito, fomos a pé até um restaurante português junto à casa dele e jantamos costeletas de porco regadas a vinho do Alentejo.
Depois de muito papo, levou-nos até a estação para nosso retorno a New York.
A conversa prolongou-se por quase mais uma hora. O trem demorou a chegar. Seria o último?
Despedimo-nos. E a alegria terminou aí.

Já acomodados no trem, a Baixinha pegou no sono. Quanto a mim, baixei a guarda. Afinal, voltar para cidade grande é sempre mais fácil do que ir da grande pra pequena.
O trem parava em algumas estações pequenas. Quando o relógio já indicava que devíamos estar para chegar à Penn Station da rua 33, o trem entrou em uma grande estação e eu pensei: chegamos.
Por via das dúvidas, ainda perguntei a um senhor que se apressava para descer:
- Penn Station?
E ele:
- Penn Station!
Descemos.
Começamos a andar pela plataforma. A Baixinha observou:
- Por que ficaram tantas pessoas no trem. Não é o ponto final?!
Não. Não era. Mas, a essa altura, o trem já partia.
Só aí começamos a descoberta de que havíamos descido na Penn Station de Newark. Não na Penn Station de New York.
Paciência.
Uma dupla de policiais patrulhava a plataforma. Perguntei a um deles como fazer pra comprar bilhetes para New York.
- Logo ali, nas máquinas.
Fomos até elas. A que ocupei oferecia bilhetes simples, para uma semana, para um mês. Comprei dois simples.
Haveria outro trem?!?
A TV informava: sim. O próximo trem passaria às 12:47. Eram 12:10.
Para enfrentar essa espera, resolvemos entrar na sala existente no meio da plataforma, com bancos longitudinais. A Baixinha sentou-se. Fiquei em pé, em frente a ela. Já ficara sentado tempo demais no trem. Um pouco pra minha esquerda, no mesmo banco, um crioulo enorme dormia, estirado.
Logo a Baixinha sugeriu:
- Vamos sentar mais para lá.
Percebi que alguma coisa não corria bem, ali onde estávamos.
Deslocamo-nos para mais perto do dorminhoco. Olhei o mais disfarçadamente que pude para o banco do lado oposto ao nosso e percebi: um indivíduo já um tanto idoso, dentro de um paletó daqueles de mendigo, sebo puro, calça jeans aberta, masturbava-se ostensivamente.
Três mulheres jovens, toda a pinta de prostitutas, rodavam por ali, falando alto. Uma delas, ao menos, totalmente bêbada.
Resumo: estávamos bem acompanhados.
Mais algum tempinho e voltamos à plataforma. Faltavam só uns 15 minutos pra chegada do trem.
Eu sabia que, nesses trens, se você não tiver bilhete adequado para entregar ao funcionário picotador (sim, isso ainda existe) ele vai cobrar de você a passagem, só que por um preço maior do que aquele que você pagaria no guichê da estação ou na máquina de vender bilhetes. A dupla Cosme e Damião que me dissera como comprar bilhetes havia ido embora. Foi substituída por outra dupla: um bicho de goiaba enorme, dois metros de altura, um e meio de largura e mais ou menos isso de profundidade, americano típico, enfim, um Armário. O outro, um policial com cara de mexicano, grande mas nada comparável ao Armário. Quando os vi, caminhando em nossa direção pela plataforma, estavam tentando orientar as três mulheres espalhafatosas que giravam por ali. Na plataforma toda, o único branquela, a rigor, era o Armário. Nós, como se sabe, bem como o outro policial, não somos brancos: somos latinos. O resto, negros. Parecia o Harlem.
Pensei (ah! Como seria bom não fazer isso com tanta freqüência):
Vou perguntar a eles se meus bilhetes estão corretos. Caso não estejam, ainda há tempo pra comprar os certos.
Dirigi-me ao Armário, mostrei os bilhetes:
- Quero ir para New York. Estes bilhetes estão certos?
Pra quê.
- Come with me, disse o Armário, no melhor estilo Goulart de Andrade, aquele que tinha um programa de variedades durante a madrugada, na TV, cujo bordão era “Vem comigo!”.
- Mas senhor Armário, ou melhor, senhor policial, meu trem está pra chegar nesta plataforma. Faltam poucos minutos!
- Come with me!
Sinceramente: você teria coragem de responder “Não. Não vou” ?!
Pior: dirigiu-se às três moças de vida airada:
- Come with me!
Todo sorridente.
E lá fomos, em uma macabra fila indiana: o Armário, a Baixinha, eu, o policial mexicano e as três putanas.
Desce escada, anda, sobe escada. E eu, aproveitando que o mexicano atrás de mim parecia mais acessível:
- Eu quero pegar aquela trem lá da plataforma 1!
- Pra onde você quer ir? questiona o mexicano.
- New York, quero ir pra New York!
- Mas você está em Newark!
(diabo de pronúncias parecidas)
O Armário e o Mexicano dialogam:
- Afinal, pra onde ele quer ir?!
E eu, inteferindo:
- Manhattan! Rua 33.
- Ok. Come with me!
Passamos por uma escada rolante interditada para limpeza. Um indivíduo havia desmoronado naquela lateral da escada, meio morto meio vivo (isso com boa vontade). O Armário, impávido, pergunta pro semi-vivo:
- Ok?
O semi-morto consegue balbuciar um OK. Prosseguimos com nossa fila indiana, subindo a escada não rolante. Paradíssima.
Enfim, como não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe, chegamos a outra plataforma, a plataforma H.
O Armário pede o bilhete da Baixinha.
Eu continuo balbuciando tímidos protestos:
- Mas... e o trem lá da outra plataforma?!
- Me dá o bilhete.
Calmo, o Armário nos faz passar pela catraca e nos explica:
- Vocês pegam o trem que vai chegar aqui. Andam duas estações e descem. Aí, pegam o outro trem no outro lado da plataforma e ele os levará à rua 33.
- Duas estações inclusive ou exclusive?
O Armário perde a paciência comigo pela décima vez e se afasta. Sempre que isso acontece (é que eu estou resumindo, imagina a versão integral da catástrofe) o Mexicano entra de assoprador (no melhor estilo, “um bate o outro assopra”).
Fica esclarecido que o negócio é deixar passar uma estação e descer na seguinte.
Chega o trem. Começamos a entender alguma coisa: trata-se de trem do subway, metrô (os bilhetes que eu havia comprado eram de metrô, ora, ora).
Acima de cada porta, aquele mapa esquemático, típico de metrô, com a seqüência de estações a serem percorridas. Como o trem não parece querer sair tão cedo, ficamos examinando o mapa. Lá de fora, o Armário nos observa, pra lá de impaciente.
De repente, lá vem ele. Entra no vagão e nos explica (melhor seria, nos admoesta):
- Esse mapa que vocês estão olhando é o que vale durante o dia. O que vale à noite é este outro aqui (ao lado, menor, com letras miudinhas a indicar o horário de validade)
- Thank you, thank you. (não seria possível dizer outra coisa).
Ele desce do trem, espera que este saia e nos olha, entre aliviado e orgulhoso de ter conseguido orientar latinos tão estúpidos.
Claro, as três putas vieram no pacote. E berravam sem parar, pensando que conversavam.
Quando descemos na segunda estação e nos posicionamos do outro lado da plataforma para esperar o bendito trem que nos levaria à terra prometida, melhor, à rua 33, um rapaz com cara de coreano, que não parava de falar ao celular, interrompeu suas tele-conversas para nos dizer, amavelmente, que estávamos no rumo certo. Uma outra jovem, deslumbrante, saída do nada, interrompeu sua beleza também para nos confirmar que tudo estava correto.
As moçoilas estapafúrdias sumiram.
A viagem até a rua 33 foi tranqüila. Só não tive coragem de invadir a privacidade da menina maravilhosa , que aproveitou para dormir um pouco e ficar mais linda. Gostaria de fotografá-la. Seu rosto, cor de porcelana, rodeado de cabelos negros, tornaria este post incomparavelmente mais atraente.
Às três da matina chegamos de táxi ao hotel e tomamos cognac pra relaxar e começar a entender que o Armário e o Mexicano complicaram nossa vida, com a melhor das intenções.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Sobremesa


Em outro post, disse que havia jantado no Amaranth e que não lembrava do que havia comido por estar mais interessado na conversa com minha filha.
Pois bem. Vamos corrigir a injustiça. Voltamos lá no dia 20, quinta, e almoçamos vieiras (scallops). Estava divino.
A sobremesa era bonita. A gente fotografou. A foto da Baixinha ficou melhor (a hora, na foto, está errada):

Não adianta lamber a tela

NYC - instantâneos


Às vezes, baixa na gente aquela vontade de fotografar com arte. O resultado, em geral, é pobre. Mas não custa mostrar:





Copyright Baixinha
Copyright Baixinha
Ainda na segunda-feira, minha filha nos levou a um restaurante, o Buddha Bar:


domingo, 30 de março de 2008

St. Patrick's Day


Segunda, 17 de março, foi dia de St. Patrick.
Ainda bem que meu genro, no sábado, nos avisou: segunda-feira será tudo verde.
Já ao chegarmos de volta na Grand Center Station, sábado à noite, vimos em uma confeitaria da estação bolos verdes, biscoitos verdes etc etc.
Na segunda, por termos acordado um pouco tarde, achamos que perderíamos a parada na 5ª avenida.
Ledo engano.
A parada dura o dia inteiro, com dezenas e dezenas de grupos desfilando.
Nas ruas, quase todo mundo vestindo algo verde.
Nos bares, verde e mais verde.
Aí vão fotos do desfile. Todas elas tiradas na 5ª avenida, em torno das ruas 58 a 60, perto de nosso hotel.



















quinta-feira, 27 de março de 2008

Um domingo na Igreja


Lá pelos idos de 1.995, Nelson Motta resolveu mostrar o coral da Igreja Baptista Mount Moriah, no Harlem, aos brasileiros. Sua intenção talvez tenha sido a melhor possível. O diabo é que ele contribuiu fortemente para avacalhar com a Igreja. Transformou-a em ponto turístico para brasileiros. O resto dá pra imaginar.
Produziu um CD, Harlem Sunday, com dez músicas do coral e trouxe o coral ao Brasil umas quatro vezes. Em duas delas eu estive presente.
Por não dispor de outra referência de igreja na qual pudesse ouvir música desse gênero, resolvi ir mesmo à Mount Moriah.


Sou ateu mas respeito a crença dos outros (apesar de serem raríssimos os crentes que respeitam minha descrença). Como sei que o culto de domingo em uma igreja baptista é cerimonioso, me enfiei em um paletó-e-gravata, a Baixinha caprichou na roupa e lá fomos nós. Procuramos chegar cedo. Em seu livro Nova York é aqui (Editora Objetiva), Nelson Motta explica que, apesar de o culto começar às 11 horas, os turistas fazem fila na porta da Igreja. Não chegar cedo poderia significar não conseguir entrar.
Talvez porque a moda já tenha passado, talvez por ser final de inverno, não havia ninguém lá quando chegamos, antes das 10 da manhã.
Aproveitamos para fotografar a fachada da Igreja, já que durante o culto não seria possível bater fotos.



Demos umas voltas pelos quarteirões próximos (a Igreja fica na Quinta Avenida, quase esquina com a rua 126). O bairro é simpático, parecido com tudo o mais que vimos em New York. A gente só estranha o fato de todo mundo ser negro. Não existe isso aqui no Brasil. Aqui há lugares de forte predominância negra. Lá, não. Todo mundo é negro.


Perto da Mount Moriah, uma Igreja Episcopal (na própria Quinta Avenida):


É mais caprichada. Os episcopais sempre me pareceram mais sofisticados que os baptistas. Prefiro os últimos. Questão de gosto.

Quinze pras onze entramos. Já havia um grupo de uns vinte turistas, todos bichos de goiaba. Ou seja, brancos. Haviam sentado na ala central, ao fundo.
Preferimos sentar na ala da direita, um pouco mais à frente.
No salão de culto, dos membros da igreja apenas umas seis mulheres, um rapaz e um senhor, todos do coral, um camarada ainda relativamente jovem e meio apertado dentro do terno, com cara de pastor, o baterista, um garoto prodígio de uns nove, dez anos na percussão e o maestro, Daniel Damen (salvo engano). Fiéis, sentados na platéia, nada.
Onze horas, começa o culto. O maestro toca o órgão, o pequeno coral canta, o menino prodígio substitui o baterista. Cantam algumas músicas, por exemplo, I’m blessed (que consta do CD).
Depois o rapaz-com-cara-de-pastor começa um sermão para os turistas. Fala e canta, à capela. Durante uma meia hora.
Chegam mais turistas. Provavelmente todos brasileiros. Vão lá pra frente. Muito à vontade, como se estivessem na praia. Aliás, pelas roupas, é onde deveriam estar.
O coral canta mais. Crianças passam com bandejas pedindo mais dinheiro (a entrada já custara 3 dólares por cabeça).
O pastor da igreja chega e assume o púlpito, todo paramentado. Fala pouco. Deixa o protagonismo com o maestro e o minúsculo coral (três sopranos, três contraltos, um tenor, um baixo).
Lá pelo meio dia, meio dia e pouco, os turistas – seguindo seus guias – começam a levantar e a sair. Despudoradamente. É assim. Afinal, turista não tem compromisso com nada, apenas com a agência de viagens.
Quando percorro a nave do templo com o olhar, só há negros. Mais a Baixinha e eu.
Logo tudo fica claro. Vai começar o culto. Os turistas já se foram.
Os diáconos vão para junto do púlpito.
O órgão começa a soar.
As senhoras, quase todas de chapéu, batem palmas. Uma delas trouxe seu pandeiro. E batuca.
O coral se amplia. O baterista reassume seu lugar e devolve o menino prodígio para a percussão.
O som se eleva. A alma vai junto.
Muita música. Muita alegria. Adoração.
O pastor dirige-se ao púlpito, fala durante alguns instantes e deixa que o maestro reassuma o comando.
O maestro começa a tocar. Em seguida, a cantar.
São uns quinze minutos de solo.
A emoção cresce. O solo é deslumbrante.
Tento segurar o choro. Pior. Ele vem com força, intenso.
Olho de esguelha pra Baixinha. Ela enxuga as lágrimas que teimam em não acabar mais.
Poucas emoções em minha vida foram tão intensas quanto à que vivi durante esses quinze minutos de solo. De lamento cantado. De enlevo e sublimação.

Termina o canto do maestro. A Baixinha e eu procuramos nos recompor. O coral recomeça. Os diáconos dançam e se movimentam de um lado a outro. Um deles se aproxima e pergunta se gostaríamos de almoçar com eles.
Problema: é claro que eles estão pensando que somos de alguma igreja baptista. Já pensou, chegar no almoço e ter de explicar que não, não somos crentes.
(Ah, se minha mãe estivesse lá. Abraçaria aquelas negras de chapéus, aqueles negros de ternos elegantes, suas irmãs e seus irmãos em Cristo. Chorariam juntos, sem razão. E conversariam na língua dos salvos.)
Agradeço o convite. Mas alego ter de ir embora logo.
Pouco depois, uma cena que não consegui entender. O pastor pega seu celular, finge discar um número. Quase todos se aproximam do púlpito, portando seus celulares. Todos fingem falar neles.
O Pastor desce do púlpito e caminha para a saída. Pára junto a uma cadeira vazia, deposita o celular aberto sobre a poltrona, ajoelha-se e começa uma oração. Os demais, lá na frente, continuam fingindo falar ao celular.
Terminada a oração, o Pastor recolhe seu celular, enfia-o no bolso e volta para o púlpito. Todos guardam seus respectivos telefones e a vida continua.
Adoraria saber o que isso significa.
Ficamos até o momento da ceia. Quando ela ia ser servida pelos diáconos, pedimos licença e fomos embora.
Com a alma em delírio.

Um delicioso peixe, em um bistrô do Upper East Side nos devolveu às preocupações do corpo.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Um sábado na casa da filha


Sábado, 15 de março do ano da graça de 2.008, fomos conhecer a casa de minha filha.
Acordamos cedo, coisa meio incomum para nossos preguiçosos hábitos. Não somos como uma amiga nossa que afirma dormir muito pouco em viagens ao exterior porque não suporta dormir em euro. Talvez agora, com o dólar meio acabrunhado, ela durma um pouco mais, ao menos nos Estados Unidos.
E lá fomos nós, num daqueles táxis desvairados de NYC, até Grand Center Station.

Estas duas fotos eu tirei já na volta, à noite

Foi fácil achar o guichê adequado para comprar duas ida-e-volta para Westport, CT. Minha filha tinha dado todas as dicas.

Clique para ler sobre Westport
O trem é bem razoável.


Depois de uma hora, lá estávamos nós em Westport, esperados por filha e neta.
Os três (elas e meu genro) moram em um condomínio muito bonito. Surgem por lá animais não muito comuns em cidades. Por exemplo, nesse gramado em declive que leva até a piscina e ao salão de festas do condomínio (foto abaixo), eles já viram uma raposa com seus filhotes.


Muito verde, muita tranqüilidade.

Minha filha, meu genro e eu
Depois de conhecer a casa e de tomar um uísque, fomos almoçar em um restaurante japonês. O cozinheiro dá um show de malabarismo durante o preparo da refeição:



O passeio pelo centro comercial de Westport foi tão animado que esquecemos de tirar fotos.
Mas sei que meus leitores têm imaginação suficiente pra preencher essa lacuna. Hehe.

No final da tarde, foi muito gratificante ouvir minha neta ler um trecho de um livro que ela está devorando. A escola pede que ela busque patrocinadores para a leitura. A coisa funciona mais ou menos assim: ela convence alguém a contribuir; a pessoa estipula quanto vai pagar por tempo de leitura. Por exemplo, 50 cents por hora. E estabelece um teto. Digamos, 30 dólares. Então ela lerá várias horas patrocinadas por aquele contribuinte. Arrumando vários contribuintes, ela fica estimulada a ler mais e mais.

O melhor de tudo isso é que ela, que ainda fará 8 anos em agosto, já lê com naturalidade e fluência espantosas.

Apesar da discordância do calendário, isso é o que se chama um sábado de aleluia.

Rockefeller Center


Fomos também dar uma espiadinha no Rockefeller Center. A famosa árvore de Natal não estava lá. Como quase todo mundo sabe, o Natal é em dezembro. Mas você pode vê-la aqui.
Nós nos contentamos com o "chafariz" e o rinque.