domingo, 30 de março de 2008

St. Patrick's Day


Segunda, 17 de março, foi dia de St. Patrick.
Ainda bem que meu genro, no sábado, nos avisou: segunda-feira será tudo verde.
Já ao chegarmos de volta na Grand Center Station, sábado à noite, vimos em uma confeitaria da estação bolos verdes, biscoitos verdes etc etc.
Na segunda, por termos acordado um pouco tarde, achamos que perderíamos a parada na 5ª avenida.
Ledo engano.
A parada dura o dia inteiro, com dezenas e dezenas de grupos desfilando.
Nas ruas, quase todo mundo vestindo algo verde.
Nos bares, verde e mais verde.
Aí vão fotos do desfile. Todas elas tiradas na 5ª avenida, em torno das ruas 58 a 60, perto de nosso hotel.



















quinta-feira, 27 de março de 2008

Um domingo na Igreja


Lá pelos idos de 1.995, Nelson Motta resolveu mostrar o coral da Igreja Baptista Mount Moriah, no Harlem, aos brasileiros. Sua intenção talvez tenha sido a melhor possível. O diabo é que ele contribuiu fortemente para avacalhar com a Igreja. Transformou-a em ponto turístico para brasileiros. O resto dá pra imaginar.
Produziu um CD, Harlem Sunday, com dez músicas do coral e trouxe o coral ao Brasil umas quatro vezes. Em duas delas eu estive presente.
Por não dispor de outra referência de igreja na qual pudesse ouvir música desse gênero, resolvi ir mesmo à Mount Moriah.


Sou ateu mas respeito a crença dos outros (apesar de serem raríssimos os crentes que respeitam minha descrença). Como sei que o culto de domingo em uma igreja baptista é cerimonioso, me enfiei em um paletó-e-gravata, a Baixinha caprichou na roupa e lá fomos nós. Procuramos chegar cedo. Em seu livro Nova York é aqui (Editora Objetiva), Nelson Motta explica que, apesar de o culto começar às 11 horas, os turistas fazem fila na porta da Igreja. Não chegar cedo poderia significar não conseguir entrar.
Talvez porque a moda já tenha passado, talvez por ser final de inverno, não havia ninguém lá quando chegamos, antes das 10 da manhã.
Aproveitamos para fotografar a fachada da Igreja, já que durante o culto não seria possível bater fotos.



Demos umas voltas pelos quarteirões próximos (a Igreja fica na Quinta Avenida, quase esquina com a rua 126). O bairro é simpático, parecido com tudo o mais que vimos em New York. A gente só estranha o fato de todo mundo ser negro. Não existe isso aqui no Brasil. Aqui há lugares de forte predominância negra. Lá, não. Todo mundo é negro.


Perto da Mount Moriah, uma Igreja Episcopal (na própria Quinta Avenida):


É mais caprichada. Os episcopais sempre me pareceram mais sofisticados que os baptistas. Prefiro os últimos. Questão de gosto.

Quinze pras onze entramos. Já havia um grupo de uns vinte turistas, todos bichos de goiaba. Ou seja, brancos. Haviam sentado na ala central, ao fundo.
Preferimos sentar na ala da direita, um pouco mais à frente.
No salão de culto, dos membros da igreja apenas umas seis mulheres, um rapaz e um senhor, todos do coral, um camarada ainda relativamente jovem e meio apertado dentro do terno, com cara de pastor, o baterista, um garoto prodígio de uns nove, dez anos na percussão e o maestro, Daniel Damen (salvo engano). Fiéis, sentados na platéia, nada.
Onze horas, começa o culto. O maestro toca o órgão, o pequeno coral canta, o menino prodígio substitui o baterista. Cantam algumas músicas, por exemplo, I’m blessed (que consta do CD).
Depois o rapaz-com-cara-de-pastor começa um sermão para os turistas. Fala e canta, à capela. Durante uma meia hora.
Chegam mais turistas. Provavelmente todos brasileiros. Vão lá pra frente. Muito à vontade, como se estivessem na praia. Aliás, pelas roupas, é onde deveriam estar.
O coral canta mais. Crianças passam com bandejas pedindo mais dinheiro (a entrada já custara 3 dólares por cabeça).
O pastor da igreja chega e assume o púlpito, todo paramentado. Fala pouco. Deixa o protagonismo com o maestro e o minúsculo coral (três sopranos, três contraltos, um tenor, um baixo).
Lá pelo meio dia, meio dia e pouco, os turistas – seguindo seus guias – começam a levantar e a sair. Despudoradamente. É assim. Afinal, turista não tem compromisso com nada, apenas com a agência de viagens.
Quando percorro a nave do templo com o olhar, só há negros. Mais a Baixinha e eu.
Logo tudo fica claro. Vai começar o culto. Os turistas já se foram.
Os diáconos vão para junto do púlpito.
O órgão começa a soar.
As senhoras, quase todas de chapéu, batem palmas. Uma delas trouxe seu pandeiro. E batuca.
O coral se amplia. O baterista reassume seu lugar e devolve o menino prodígio para a percussão.
O som se eleva. A alma vai junto.
Muita música. Muita alegria. Adoração.
O pastor dirige-se ao púlpito, fala durante alguns instantes e deixa que o maestro reassuma o comando.
O maestro começa a tocar. Em seguida, a cantar.
São uns quinze minutos de solo.
A emoção cresce. O solo é deslumbrante.
Tento segurar o choro. Pior. Ele vem com força, intenso.
Olho de esguelha pra Baixinha. Ela enxuga as lágrimas que teimam em não acabar mais.
Poucas emoções em minha vida foram tão intensas quanto à que vivi durante esses quinze minutos de solo. De lamento cantado. De enlevo e sublimação.

Termina o canto do maestro. A Baixinha e eu procuramos nos recompor. O coral recomeça. Os diáconos dançam e se movimentam de um lado a outro. Um deles se aproxima e pergunta se gostaríamos de almoçar com eles.
Problema: é claro que eles estão pensando que somos de alguma igreja baptista. Já pensou, chegar no almoço e ter de explicar que não, não somos crentes.
(Ah, se minha mãe estivesse lá. Abraçaria aquelas negras de chapéus, aqueles negros de ternos elegantes, suas irmãs e seus irmãos em Cristo. Chorariam juntos, sem razão. E conversariam na língua dos salvos.)
Agradeço o convite. Mas alego ter de ir embora logo.
Pouco depois, uma cena que não consegui entender. O pastor pega seu celular, finge discar um número. Quase todos se aproximam do púlpito, portando seus celulares. Todos fingem falar neles.
O Pastor desce do púlpito e caminha para a saída. Pára junto a uma cadeira vazia, deposita o celular aberto sobre a poltrona, ajoelha-se e começa uma oração. Os demais, lá na frente, continuam fingindo falar ao celular.
Terminada a oração, o Pastor recolhe seu celular, enfia-o no bolso e volta para o púlpito. Todos guardam seus respectivos telefones e a vida continua.
Adoraria saber o que isso significa.
Ficamos até o momento da ceia. Quando ela ia ser servida pelos diáconos, pedimos licença e fomos embora.
Com a alma em delírio.

Um delicioso peixe, em um bistrô do Upper East Side nos devolveu às preocupações do corpo.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Um sábado na casa da filha


Sábado, 15 de março do ano da graça de 2.008, fomos conhecer a casa de minha filha.
Acordamos cedo, coisa meio incomum para nossos preguiçosos hábitos. Não somos como uma amiga nossa que afirma dormir muito pouco em viagens ao exterior porque não suporta dormir em euro. Talvez agora, com o dólar meio acabrunhado, ela durma um pouco mais, ao menos nos Estados Unidos.
E lá fomos nós, num daqueles táxis desvairados de NYC, até Grand Center Station.

Estas duas fotos eu tirei já na volta, à noite

Foi fácil achar o guichê adequado para comprar duas ida-e-volta para Westport, CT. Minha filha tinha dado todas as dicas.

Clique para ler sobre Westport
O trem é bem razoável.


Depois de uma hora, lá estávamos nós em Westport, esperados por filha e neta.
Os três (elas e meu genro) moram em um condomínio muito bonito. Surgem por lá animais não muito comuns em cidades. Por exemplo, nesse gramado em declive que leva até a piscina e ao salão de festas do condomínio (foto abaixo), eles já viram uma raposa com seus filhotes.


Muito verde, muita tranqüilidade.

Minha filha, meu genro e eu
Depois de conhecer a casa e de tomar um uísque, fomos almoçar em um restaurante japonês. O cozinheiro dá um show de malabarismo durante o preparo da refeição:



O passeio pelo centro comercial de Westport foi tão animado que esquecemos de tirar fotos.
Mas sei que meus leitores têm imaginação suficiente pra preencher essa lacuna. Hehe.

No final da tarde, foi muito gratificante ouvir minha neta ler um trecho de um livro que ela está devorando. A escola pede que ela busque patrocinadores para a leitura. A coisa funciona mais ou menos assim: ela convence alguém a contribuir; a pessoa estipula quanto vai pagar por tempo de leitura. Por exemplo, 50 cents por hora. E estabelece um teto. Digamos, 30 dólares. Então ela lerá várias horas patrocinadas por aquele contribuinte. Arrumando vários contribuintes, ela fica estimulada a ler mais e mais.

O melhor de tudo isso é que ela, que ainda fará 8 anos em agosto, já lê com naturalidade e fluência espantosas.

Apesar da discordância do calendário, isso é o que se chama um sábado de aleluia.

Rockefeller Center


Fomos também dar uma espiadinha no Rockefeller Center. A famosa árvore de Natal não estava lá. Como quase todo mundo sabe, o Natal é em dezembro. Mas você pode vê-la aqui.
Nós nos contentamos com o "chafariz" e o rinque.


segunda-feira, 24 de março de 2008

The Virgin Mother


Estávamos passeando por Manhattan. Eis que surge, esquina de Park Avenue com 53rd Street, junto ao restaurante Lever House, essa estátua, de Damien Hirst.
Gostei.

Times Square


Na sexta-feira, 14 de março, depois do jantar, minha filha nos levou até Times Square, em seu pequeno descapotável. Chovia um pouco. Por isso as fotos não ficaram muito boas. Os fotógrafos (a Baixinha e eu) não serem lá essas coisas também ajudou. Ou atrapalhou. Ah, essas armadilhas da língua portuguesa.
Por via das dúvidas, lá vai uma foto de profissional, Dennis Flood, tirada em 2.002.
Seguem as fotos da Baixinha e, last and least, uma foto tirada por mim.


Olha minha filha aí!




domingo, 16 de março de 2008

Primeira semana em NYC


Os passeios no Central Park renderam algumas outras imagens.
Do Wollman Rink:




De uma passagem próxima a ele. Achei bonita:


De uma das charretes que proporcionam passeios ao longo do Central Park e empesteiam o ar da Avenida Central Park South com o característico odor de – digamos – campo:


Na quarta à noite fomos jantar em um restaurante italiano, o Osteria Del Circo.
Se você evitar o menu a preço fixo (US$ 35), come bem. As mesas são muito juntinhas umas das outras, mas parece que em NY a maioria dos restaurantes é assim. Afinal, o espaço é caro. Em resumo: meia boca.

Na quinta fizemos umas comprinhas, que ninguém é de ferro.
Conhecemos o metrô (subway). Se minha filha não tivesse dado umas dicas, teríamos passeado bem mais de metrô. Ou seja, ficaríamos perdidões. Primeiro: quando você entra, tem de escolher a plataforma Up ou a Down (se você vai pro norte ou pro sul). Aliás, em NY, tudo é norte, sul, leste e oeste. De norte a sul há as avenidas (numeradas de leste para oeste: 1ª, 2ª etc); de leste a oeste existem as ruas, numeradas de modo crescente de sul a norte. Mais fácil, impossível. Como em tudo na vida, há exceções. A Broadway também vai de sul a norte, mas um tanto em diagonal. Mas aí já são detalhes.
Voltando ao metrô: depois que você escolheu se vai pro norte ou pro sul, trate de verificar quais são os trens locais e quais são os expressos. Os primeiros param em tudo quanto é estação. Os expressos, só em algumas. Os tais trens são identificados por letras. Leia, já na plataforma, as placas com indicações para cada uma das letras e escolha a sua. Quando chegar um trem com aquela letra, vá firme. Se você queria ir só até umas duas ou três estações adiante e mete o focinho num trem expresso, prepare-se pra passear bastante.
De resto, as estações e os trens estão em estado lastimável. Confira:

Estação Columbus
Estação Columbus
Entre uma comprinha e outra, almoço no Tamarind, 41-43 East 22nd Street.
Esse é do balacobaco. Sensacional. Só espero que você saiba que comida indiana é picante. Prepare-se para beber muita água.

À noite, jantar com a filhota no Amaranth. Esse já na East 62nd Street, pertinho de nosso hotel. Muito bom, se bem que eu estava mais interessado na conversa do que na comida.

Não sei se já falei pra vocês, mas minha filha é simplesmente o máximo (cala-te boca! Hehehe).

Sexta-feira, por sinal, depois de muita caminhada, fomos visitar o escritório em que ela trabalha, no World Financial Center.

Ao lado, o buraco onde eram as Torres Gêmeas. Uma foto noturna do que estão fazendo lá:


Conhecido o escritório onde trabalha minha filha (não sei se já falei pra vocês... Psssiiii!!), jantar em um restaurante indiano ali por perto. Bom, mas nem sombra do Tamarind. Como na véspera, valeu o encontro, a conversa.

Depois conto sobre a volta que demos, depois do jantar, na Times Square, a bordo do descapotável de minha filha (não sei se já falei pra vocês...) e, principalmente, sobre o sábado e o domingo. Por hora, chega de New York.

quinta-feira, 13 de março de 2008

De esquilos, encontros e cognac


Ontem, durante o passeio pelo Central Park, a Baixinha fez questão de fotografar um esquilo. O bichinho, que procurava alimento, refugiou-se na árvore.




À noite, fomos ao Aquagrill, no Soho (210 Spring St), nem tanto à procura de alimento mas para matar a saudade da primogênita, com quem havíamos estado apenas nas férias do final de 2.006, em Portugal.
Ao contrário de Drummond, para quem essa lua, esse cognac o deixavam emocionado como o diabo, foi o estar emocionado como o diabo que me fez tomar alguns cognacs a mais e acordar, hoje, com uma certa ressaca que me fez viver o dia em câmera lenta.

terça-feira, 11 de março de 2008

New York - a chegada


É tudo um tanto assustador. Desde a alfândega em Guarulhos, há cuidados mil. Seu passaporte é olhado com atenção. Suas bagagens de mão, idem. Ao entrar na lagarta que leva ao avião, há funcionários para abrir suas bagagens de mão (que já passaram pelo raio-X) e verificá-las com certo detalhe. Dentro do avião, os comissários avisam a respeito de coisas proibidas quando da entrada nos Estados Unidos. Por exemplo, é proibido entrar com isqueiro.
Eis que, ao chegar a NY, passamos pela alfândega sem o mínimo de verificação. Durma-se com esse barulho. E se eu estivesse indo pra NY pra derrubar as Torres Gêmeas?! Tá bom, elas já foram derrubadas. Deixa pra lá.
Nosso hotel é o Park Lane, ao sul do Central Park. O senhor que nos levou ao quarto esmerou-se para abrir a cortina e mostrar a paisagem. Acontece que já estava escuro e só vimos breu.
Cansados, fomos comer alguma coisa perto do hotel. Uma porcaria. Azar nosso. O jeito foi ir dormir.
Ao acordar, agora sim, eis o Central Park.

Lado Oeste, onde moram, segundo Nelson Motta, Yoko Ono e Madonna
Lado Leste, onde - sempre segundo Nelson Motta - morou Jacqueline Kennedy
Claro, andamos por boa parte dele. À noite, vamos jantar com minha filha.
Esse reencontro vale vários Central Park.
E bota vários nisso.

sábado, 8 de março de 2008

Fazendo as malas


É verdade. Por mim, jamais iria a New York. Talvez porque durante muitos anos isso me foi impossível. Eu era cassado político no Brasil, não me deixariam entrar lá.
Acontece que minha primogênita foi lá viver. Deu-se, aliás, muito bem. É hoje diretora de multinacional, acaba de ganhar prêmio pelo desempenho em 2.007. Ganhou, como recompensa, viagem internacional e outros badulaques.
Minha neta joga soccer. Ou seja, futebol.

Leva jeito
Daí, tenho de ir lá. Certo?
Veremos o que vai ocorrer.
Conto pra vocês.

domingo, 2 de março de 2008

O gênio


Estava eu, hoje, a aguardar uma mesa no Fogo de Chão do aeroporto (o da avenida Santo Amaro está em reformas), quando chega Delúbio Soares, trajando camiseta do São Paulo F. C.. Senta-se ao lado de uma mulher, também à espera de mesa.
Peguei o celular e tentei disfarçar que o que desejava era uma foto dele. Ele percebeu, claro. Mas não esboçou nenhuma reação.
Só não tive coragem de pedir autógrafo.
Afinal, esse é gênio. Saiu de uma humilde função de professor em Goiás, interiorzão, e tornou-se o arrecadador das fortunas do PT.
Flagrado, não denunciou nenhum comparsa. Só profetizou que o mensalão ainda viraria piada de salão.
Não deu outra.
Hoje, vive livre, leve e solto.




Pra mim, trata-se do representante de uma era. Não houve a era Dunga?
Penso que vivemos a era Delúbio.

sábado, 1 de março de 2008

"Uma cicatriz no cotidiano"


Aline e o Prazer.
Indescritível enlevo...

Da rudeza amorosa das trasmontanas


Telefonei a uma de minhas primas de Passos, dia desses. Falei de nossa ida em setembro, minhas irmãs e cunhados incluídos.
Perguntou-me se tudo ia bem com mulher e filhos e netos.
Sim, tudo vai bem.
- Mas faleceu o primo Abílio, não? disse eu.
E ela, com a maior naturalidade:
- Sim, viste! Ele queria que levasses o garrafão de aguardente quando estiveste aqui. Não foste buscá-lo. Viste!


P.S.: que este post seja tributo à memória de Abílio, sem o qual Passos diminuiu um tanto.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Prestação de contas


No remoto ano de 1.961 afastei-me de Santos para estudar em São Paulo. Queria fazer cursinho pré-vestibular. Eu ainda ia fazer o 2° científico, como se dizia na época, mas inventei isso de fazer cursinho duas vezes: durante o 2° científico e também durante o 3° científico, como todo mundo. Hoje em dia, essa prática já está de há muito institucionalizada. Até os vestibulares das faculdades consideram os que fazem vestibular sem terem concluído o curso secundário. São os treineiros.
Pois é. Modestamente, quem inventou essa fui eu.
Na verdade, se tomei essa decisão por perceber que o ensino do Instituto de Educação Canadá estava muito ruim, também pesou o querer livrar-me um pouco da tutela paterna, muito rígida.
Se a idéia de fazer duas vezes cursinho foi excelente, o tiro me saiu pela culatra no que se referia ao desejo de fugir ao controle paterno.
Minha rotina, em São Paulo, era muito mais rigorosa do que qualquer vigilância de meu pai.
Por ser pastor batista, meu pai conseguira que eu ficasse alojado na Faculdade de Teologia, anexa ao Colégio Baptista Brasileiro, em Perdizes. Lá residiam alguns seminaristas. Fui morar com eles.
Acordava com o primeiro toque do sinal de início das aulas do Colégio. Ao terceiro toque, lá estava eu, entrando por um portão interno, que ligava a Faculdade ao Colégio.
Ao final das aulas, era o tempo de trocar o material escolar do Colégio pelo do cursinho, pegar um ônibus em direção à praça João Mendes, almoçar na cocheira de um bar quase na esquina da Conselheiro Furtado e dirigir-me à Conde de Sarzedas, onde me aguardava o Curso Di Tullio, do qual qualquer um que por lá tenha passado garanto que guarda saudade.
Ao final da tarde, ônibus de volta a Perdizes.
Fazia um lanche dentro mesmo do quarto, tomava um banho e estudava até meia-noite, uma da manhã.
Isso, de segunda a sábado, sem refresco. Nada de cinema, nada de nada.
O dinheiro que meu pai me dava pra enfrentar a semana era consumido nos seis almoços, nas doze viagens de ônibus e nas passagens de ida e volta a Santos, nos finais de semana (ia a Santos no final das aulas de sábado e voltava domingo à noite). Ah. E em algumas frutas, pão, coisas assim, para o lanche da hora do jantar.
Havia também o pasteleiro chinês da Conselheiro Furtado, na hora do intervalo. Lá, junto com dois amigos, me divertia pedindo pastéis e Crush e ouvindo o chinês repetir pra dentro da cozinha:
- Sai tlês pastéis e tlês Clushs!
Da semanada que meu pai me concedia, quase nada sobrava. Mas era preciso prestar contas. Todo sábado ao chegar em casa, em Santos, tinha de entregar a meu pai uma folha de papel com o balanço da semana.
Vai daí, houve um sábado em que esqueci de fazer a prestação de contas.
Meu pai mostrou-se irritado:
- Não se esqueça de trazer o relatório na próxima semana!
Eu, que já não agüentava mais ter de produzir aquilo toda semana, arrisquei:
- Pois o senhor quer saber como é feita a tal prestação de contas, da qual o senhor é tão cioso? Pois saiba que, antes de vir para cá, em algum intervalo de aula do sábado à tarde, enfio a mão no bolso, conto quanto sobrou e faço conta de chegada: tanto para os almoços, tanto para as conduções, tanto para os lanches, mais um tanto para as passagens ida e volta a Santos. Se o resultado não bate, aumento ou diminuo um pouco o valor de algum item e pronto.
Nada disse o venerando. Ficou em silêncio.
Domingo à noite, ao despedir-se de mim, sentenciou:
- Não precisa mais fazer o relatório.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Ainda o rabino Sobel


O rabino Sobel, aquele que andou furtando gravatas, vai lançar um livro. O nome provisório é Um Homem, Um Rabino.

Parece que o rabino partiu para uma tática estilo perdido por perdido, truco. Ou seja, vai tentar lucrar, com o episódio, algo mais além de gravatas. Se o trocadilho não fosse muito infame, diria que ele vai partir para o perdido por perdido, troco.
Aliás, já que estamos no perigoso terreno dos trocadilhos, sugiro outro nome pro livro:

Bravatas e Gravatas.