quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Festa em Passos


Os que costumam freqüentar este Bazar sabem que não sou lá muito chegado a religiões. Para ir direto ao ponto, sou ateu. Já houve época em que me dizia agnóstico. Mais recentemente cheguei à conclusão de que isso de agnóstico é dar muita importância à coisa. É mais fácil ser ateu e pronto.
Mesmo assim, fiquei feliz ao saber que ainda na minha geração produziram-se dogmas. Eu sempre pensei que essa coisa de milagres, dogmas, enfim, marcos realmente importantes da vida religiosa, tais como multiplicar pães e peixes, transformar água em vinho etc, era coisa de tempos passados. Pois hoje, depois de saber tratar-se – o dia 15 de agosto – de feriado nacional em Portugal, fui informar-me a respeito. Pois não é que fiquei sabendo que nos primeiros séculos da era cristã dizia-se de Maria que ela tinha dormido, não morrido.
Lá pelo século VIII, já que quem conta um conto aumenta um ponto, passou-se a dizer que Maria subira aos céus, de corpo e alma. Estava estabelecida a Assunção de Nossa Senhora. Pois bem, só em novembro de 1.950, quando eu já me preparava para freqüentar os bancos escolares, o Papa Pio XII resolveu transformar a história em dogma. Pronto. Maria subiu de corpo e alma aos céus e não se fala mais no assunto.
Toda essa conversa mole pra dizer que domingo, 12 de agosto, foi festa de algum(a) santo(a) em Passos.
Nunca vi tanta gente em minha aldeia.
Missa, procissão, comemorações completas.

Passam os andores
Todo mundo quer ver a procissão passar
Quase não consigo fotografar a procissão
Contudo, o grande furor do dia foi o novo Café.

Ninguém deixou de visitar o Café
De propriedade de Otavio Marcelo, a nova sensação de Passos foi prestigiada pelos irmãos de Otávio, Marciano e Isaías. (este post ameaça transformar-se em programa do Amaury Jr.)

Marciano à esquerda, Isaías à direita
Um montão de gente foi lá, tomar café ou saborear um fino (chopp), além de – claro – jogar conversa fora. Quase não havia mais lugar pra tanto automóvel.



Enquanto isso, crescem as uvas.





domingo, 12 de agosto de 2007

Salamanca e espirros


A viagem de Guarulhos a Madrid foi excelente. O avião saiu no horário (o que, no Brasil, hoje em dia, já é um milagre). Quase nenhuma turbulência. A Baixinha dormiu cinco horas seguidas, como pedra. Eu, dei minhas cochiladas.
De manhã cedo (em Madrid, 7 da manhã; no nosso organismo, 2 da madrugada), pegamos o carro alugado e rumamos para Salamanca. Era pra ser um Peugeot 307, mas nos deram um Toyota com cara de Rolls Royce. Coisas de japonês. Aliás, coisa de asiáticos. Eles vêem um carro que acham bonito, vão e fazem melhor e com o mesmo jeitão. Pra dar uma idéia, o Toyota já rodou de Madrid a Salamanca, daí para Bragança e não usou nem meio tanque (diesel). Deve usar ar de vez em quando, pra economizar combustível.
Mas vamos devagar com o andor. Vamos falar de Salamanca. Já na saída do aeroporto a Baixinha começou a espirrar. A crise de espirros só fez aumentar ao longo do caminho. Paramos algumas vezes em lugarejos à beira da estrada para comprar mais lenços de papel e qualquer remédio que servisse pra diminuir a malfadada crise. Aprendi, com isso, que dono de farmácia, na Espanha, é como dono de farmácia no Brasil. Receita com a maior tranqüilidade, sempre garantindo sucesso absoluto.
Já em Salamanca, fomos almoçar antes que todos os restaurantes fechassem. Não fomos felizes. Serviram-nos um Cogote de Merluza na grelha. Veio um tanto cru. Se o peixe soubesse falar, teria falado.
Como a crise de espirros da Baixinha continuava tão intensa quanto a crise do Renan no Senado, fomos para o Hotel dormir um pouco. Antes, passamos na Plaza Mayor (praça que parece que toda cidade espanhola tem).
Estava quase vazia, como você pode constatar pelas poucas fotos que consegui tirar durante o dia:

Lá ao fundo, entrada da Plaza Mayor
Plaza Mayor durante o dia
Foto tirada da rua Azafranal, onde fica o hotel que nos hospedou
Parcialmente refeitos do fuso horário e – principalmente – dos espirros da Baixinha, fomos jantar no El Zaguán. Desta vez a sorte ficou do nosso lado. Refeição impecável.

Cozinha e serviço impecáveis
Íamos voltar pro hotel quando percebemos que pequenas multidões nem pensavam em dormir. Partimos, então para a Plaza Mayor.
Fantástico.
Pessoas, muitas pessoas, sentadas no chão, nos bancos, conversando, tomando sorvete, curtindo o verão.

Lindíssima, a praça
Gente sentada no chão.
E gente...
...muita gente
Mais gente
Até que horas?
No verão, tanto em Espanha quanto em Portugal, pouco se dorme.
E é impossível não dizer: há uns quarenta anos atrás, pouco mais, pouco menos, a Espanha era uma droga. Brincava-se que Portugal e Espanha eram os países mais avançados de África. De lá para cá, os espanhóis resolveram valorizar-se. Reinventaram o país. Hoje, a Espanha é maravilhosa. Os espanhóis têm um padrão de vida invejável.

Se o Brasil tomasse vergonha na cara e começasse a mudar, quem sabe daqui a uns quarenta anos não seria um lugar maravilhoso. Quem sabe.

Amanhã, vamos falar sobre Bragança. Se as festas de Passos deixarem.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Para carregar baterias


Começa agosto. Dia 9, quinta da semana próxima, lá vamos, a Baixinha e eu, recarregar baterias. Destino: Bragança. Chegada a Madrid, dia 10, uma paradinha em Salamanca, para um primeiro contato com a cidade. Dia 11, imersão na terrinha. Já não é sem tempo. A energia está quase esgotada.

Uma vista de Bragança. Outras virão
Pena que seja só até dia 25, quando voltaremos a Madrid para voar de volta a São Paulo.
Minha irmã mais velha comentou que não entendia como nós podíamos gostar de lugares tão desertos. Por isso, vou fotografar Bragança de modo a mostrar a ela que a cidade é linda e dotada de tudo aquilo de que necessita uma cidade decente.
Por enquanto, fica o esperar pela festa que - como diz o ditado - é o melhor. Será?

terça-feira, 31 de julho de 2007

Notas de 30 reais
(ou, Notas reais de 30)


1. Muita gente reclama que os políticos, no Brasil, estão fazendo política pra eles mesmos. É verdade. Mas, agora, parece que os jornalistas também resolveram fazer jornal só pra eles.
Domingo passado, final do Pan Rio 2007, a Folha publicou – na primeira página do caderno do Pan – essa informação aí da figura abaixo:


Hoje, terça, em sua melhor seção – Erramos – a Folha faz a correção:

PAN RIO 2007 (29.JUL, PÁG D1) O Brasil ganhou no sábado, dia 28 de julho, 11 medalhas de ouro, e não dez, como descreve linha-fina em parte dos exemplares.

I beg your pardon: LINHA-FINA?!? Que diabo é isso?

Será que não seria melhor falar a linguagem do leitor?

Isso pra nada dizer sobre o sonho de superar Cuba.
Uma miserável ilhota, com pouco mais de 11 milhões de habitantes, que deixou o Brasil continental, com seus quase 200 milhões de habitantes, pra trás, no tal Pan.

2. Em um país no qual 99% dos motoristas de automóveis jamais passaram os olhos pelo Código Nacional de Trânsito, o tri-campeão de Fórmula 1, Nelson Piquet, é obrigado a assistir a aulas de trânsito, em Brasília.
País das maravilhas.

3. O candidato Geraldo Alckmin, candidato a tudo quanto é cargo eletivo (presidente, prefeito, governador etc), até onde sei não nasceu em família abastada. Já lá pelos 18 aninhos tornou-se político profissional. Durante toda a vida foi apenas isso: político profissional.
Dia desses, casou a filha com pompa digna de sultão.

Quase ninguém pergunta de onde vem a dinheirama.
Aliás, perguntar pra quê. Todo mundo sabe.

sábado, 14 de julho de 2007

Oi!


Assisti a boa parte da abertura do Pan. Pela rede Globo, com a narração do inefável Galvão Bueno.
Como todas as outras aberturas de Pans, Olimpíadas, Copas do Mundo e que tais, esta também foi cheia de luzes, cores, sons. Tudo bastante kitsch, bastante oba-oba.
Afinal, somos mestres em desfiles de carnaval.
Os dois pontos altos dessa abertura, para mim, foram:

1. A retumbante vaia recebida pelo Lula, que chegou atrasado 50 minutos (essa é uma das mais óbvias formas que ele descobriu de exercitar seu poder presidencial) e obrigou o Galvão a falar mais asneiras do que normalmente fala. Quando chegou a hora de o Lula declarar abertos os Jogos, mostraram o dito cujo se preparando pra falar, microfone junto à boca e... desistiram. O presidente do comitê organizador dos Jogos fez a declaração de abertura e o Lula simplesmente não apareceu mais. Deve estar se mordendo de dor no Ego.

2. Mas a melhor, de longe, dessa Abertura, foi a ocorrida no início do discurso do mexicano presidente de alguma coisa pan-americana esportiva. O cidadão, simpaticamente, começou sua fala cumprimentando o público em português:
- Boa noite a todos (ou algo do gênero).
Em seguida, propôs-se a iniciar um discurso em espanhol. A arenga começava assim:
- Hoje, bla bla bla etc etc.
Em espanhol, isso fica assim:
- Hoy, bla bla bla etc etc.
Tendo o pobre mexicano iniciado com um sonoro
- Hoy
ouviu o estádio do Maracanã – em peso – retribuir:
- Ooooiii!

Pra mim, essa vale medalha.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

PAN, Copa América e outras indecências


Depois que fiquei sabendo que o orçamento inicial para as obras do Pan era de 414 milhões de reais e que foram consumidos 3,7 Biliões (o correto, como se usa em Portugal, é mil milhões), fui conferir no dicionário de Grego ( o Bailly) o significado de PAN:


É isso. Pan é tudo. Transmite a idéia de algo que abarca tudo, o todo. Pan-americano, por exemplo, envolve todas as Américas.
Daí que, nesse butim de gigantes (o Maluf deve estar se remoendo de raiva. Isso é que é comissão. O resto é trocado), foram consumidos aproximadamente 9 orçamentos. Dava pra construir 9 empreendimentos iguais ao do Pan 2007 do Rio de Janeiro ao invés de simplesmente um – e mal acabado.
Que beleza!
Só vejo um senão: esses oito Pans que evaporaram teriam de ser distribuídos como manda a etimologia.
Por favor, senhores, mandem a minha parte, sim?

*****


Por falar em roubo, a seleção brasileira de futebol classificou-se para a final da Copa América em uma disputa de pênaltis em que o goleiro brasileiro desrespeitou claramente a regra de não adiantar-se antes da cobrança. Os ínclitos cidadãos que transmitiam o jogo pela rede Globo de TV chegaram à conclusão de que roubar a favor do Brasil é válido.

*****


E temos um presidente do Senado Federal esdrúxulo. De Verônica a Mônica e de volta a Verônica. De proparoxítona em proparoxítona, Renan avacalha a República. Por sinal, também esdrúxula.

terça-feira, 10 de julho de 2007

Lua-de-mel e aconchego


Dia desses a Margarida, a Saltapocinhas do blog Fábulas, mandou-me um e-mail com uma lista enorme de músicas brasileiras. É só clicar no nome da música e pronto: abre-se uma página da Internet e a música começa a ser tocada em sua versão mais famosa.
Aliás, os e-mails da Saltapocinhas são – sempre – excelentes. Aliás, ela é fantástica. Sou fã incondicional dessa professora de Aveiro. O pior é que estou a dever dois desafios que ela me mandou e eu deixei de responder. Paciência. Não será esse meu maior pecado.
Tudo isso pra contar uma história. Se você estiver lendo este post em computador sem som (ou se o momento não é apropriado para ligá-lo), paciência. Mas, se for possível, ligue o som e leia a história que vou contar com a página desta música em segundo plano. Quando a música termina, automaticamente ela começa de novo. Isso tem tudo a ver com a história.
Ajeitou tudo? Então vamos lá:

No início de meu namoro com a Baixinha, em 1.998 (quer dizer, do segundo namoro. O primeiro aconteceu 30 anos antes), ela morava em Niterói. Eu, São Paulo.
De vez em quando eu ia ao Rio. Outras tantas vezes ela vinha a São Paulo.
Até que resolvemos aproveitar um final de semana prolongado pra viajarmos juntos.
A Baixinha escolheu um lugar com todas as características de romantismo. Petrópolis, serra, pousada em lugar retirado, na Posse.
Lá fomos nós. Chegamos à Pousada do Aconchego em um final de tarde. Trata-se de uma casa de fazenda, muito simpática. Os caseiros nos receberam com muita hospitalidade. Disseram que a proprietária, a Regina, chegaria em breve.
Logo percebemos que éramos os únicos hóspedes.
Regininha chegou em seguida. Mulher madura, sua decadência física não impedia que se percebesse ter sido jovem bastante bonita.
Depois dos primeiros contatos, perguntou-nos a que horas gostaríamos que servissem o jantar. Concordamos em jantar lá pelas nove. Fomos para nosso quarto e Regininha começou a entornar um uísque ao som de Elba Ramalho e seu De Volta pro meu Aconchego.
Do quarto, notamos que ao final da música, Regininha não deixava que Elba partisse pra outra música. Levantava, ia até o cd player e retornava à faixa 1. E dá-lhe uísque.
Na hora do jantar, aconteceu o que temíamos. Fomos servidos em mesa única: a Baixinha, eu e – last but not least – Regininha. Ao fundo, Elba Ramalho, interpretando – talvez pela milésima vez – De Volta pro meu Aconchego.
Já totalmente de porre, Regininha usou o tempo integral do jantar para ilustrar, de inúmeras formas e maneiras, sua tese:
Homem nenhum presta.
Lua-de-mel melhor, impossível.
(pode desligar a Elba, agora)

domingo, 8 de julho de 2007

Quando reclamar é bobagem


1.988. Eu trabalhava em uma empresa nova, de informática. O dono, gênio maluco, já falecido, queria valer-se de incentivos fiscais para fazer negócios de grande porte.
Num sábado, que parecia que seria de descanso, me chamou e informou que no domingo viria do Rio de Janeiro um consultor jurídico para me passar toda a legislação importante sobre incentivos de informática.
Dia seguinte conheci Renato Kamp. Era um fulano alto, loiro, cabelo amarelo ralo, cara de alemão e alma integralmente carioca.
Perguntei a ele se não preferia escrever suas dicas. Começou por me esclarecer que um de seus princípios básicos, na área de consultoria, era não pegar em caneta ou lápis. Não escrevia uma palavra. Iria contar-me o que sabia. Eu que anotasse.
Ele, que além de consultor era o empresário do pianista Arthur Moreira Lima, gastou boa parte daquele domingo me transmitindo tudo o que valia a pena conhecer na área de incentivos à informática.
Com base nas informações de Renato Kamp, fizemos o primeiro negócio da empresa recém criada: 25 milhões de dólares. Nada mau.
Das várias coisas saborosas que aprendi com o carioquíssimo Kamp, uma delas jamais esquecerei:
- Há dois tipos de empresa com as quais não vale a pena brigar: concessionárias de automóveis e bancos.
E explicava: são todas tão ruins, que migrar de uma pra outra é pura perda de tempo.

sábado, 7 de julho de 2007

O bêbado e a concessionária


Dias atrás, mandei meu carro pra revisão em uma concessionária. Ficaram com o carro vários dias, me cobraram uma nota preta e me devolveram uma presumível perfeição.
Poucos dias depois, fiz uma viagem ao Rio de Janeiro. Na estrada, observei que toda vez que pisava no freio a mais de 100 km/h a direção tremia toda.
Ao voltar a São Paulo, telefonei para a concessionária e relatei o problema. Disseram que eu levasse o carro até lá para ser examinado.
Como o tempo estivesse curto, fui adiando. Sabia que – só um diagnóstico – demoraria uns dois dias.
Ontem, ao ir até o escritório em que trabalho, estacionei o carro a 45° em relação ao meio-fio. Quando retornei ao carro, havia um bêbado sentado no meio-fio, bem em frente a meu carro.
Antes que eu pudesse entrar no carro ele me chamou. Mostrou-me as rodas dianteiras do carro e diagnosticou:
- Seu carro está com as rodas totalmente desalinhadas. Estou bêbado mas entendo disso. Sou motorista de caminhão. Mande alinhar essas rodas ou você terá problemas logo logo.
Agradeci e fui embora, satisfeito.
Afinal, não sei explicar, mas me parece que um mundo em que um bêbado ainda é mais eficiente do que toda uma sofisticada empresa lotada de consultores técnicos é um mundo com esperança de salvação.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

De cocozinho em cocozinho
chega-se à barbárie


Já descrevi, aqui, o maravilhoso condomínio em que – por ter irmã proprietária de apartamento lá – volta e meia passo uns dias.
Da última vez em que lá estivemos, a Baixinha, a irmã dela - minha cunhada, a Doga e eu, fiquei decepcionado com a falta de educação de muitos moradores do dito cujo condomínio.
Pensei até em escrever sobre isso aqui no Bazar mas a falta de tempo me impediu.
Você vai passear com seu cachorro pelas alamedas do condomínio e constata que, em vários locais, há porta-saquinhos para que você tenha como recolher o cocô do dito cujo. Tudo muito civilizado.
Só não conseguiram civilizar, ainda, os seres humanos moradores do condomínio. Você precisa tomar cuidado para não pisar em cocô de cachorro, o tempo todo. Encontrei cocozinhos até junto a um dos porta-saquinhos.
Quando, agora, estourou a notícia da violenta agressão sofrida por uma empregada doméstica em ponto de ônibus, na Barra, por parte de jovens criados na atmosfera do sem-limite e vi na TV a imagem do condomínio em que fico hospedado às vezes, pensei:

Ainda bem que não escrevi sobre o cocô de cachorro no condomínio. Isso não é nada, perto de alguns monstros que nele moram.

Logo em seguida mudei de idéia. Esses adolescentes-feras, ou esses animais-de-classe-média têm tudo a ver com os cocozinhos de cachorro displicentemente largados nas alamedas dos condomínios da Barra.
A barbárie começa com os pequenos desrespeitos às mais comezinhas regras sociais.

E, como sabemos todos, nada de mais grave – em termos de punição – vai acontecer a esses crápulas, logo logo eles vão estar à solta, espancando transeuntes indefesos ou até a própria mãe, como parece que é prática costumeira de pelo menos um deles.

Enquanto isso, quase 1.500 policiais trocam tiros com marginais no Complexo do Alemão e provocam a morte de 18 pessoas em apenas um dia. Se isso não é Guerra Civil, então – como se dizia deliciosamente no meu tempo de criança – minha avó é bicicleta.

sexta-feira, 22 de junho de 2007

Aeroporto Brasil


Esta notícia – pra mim – foi a melhor dos últimos tempos.
É a cara do Brasil. Os aviões já não utilizam o aeroporto há quatro anos, mas o pessoal continua imperturbável. Todo mundo tocando pra frente sua rotina.
A casa caiu e ninguém se tocou.

terça-feira, 19 de junho de 2007

O combinado é o combinado


Durante dez anos trabalhei em uma empresa de engenharia, a Promon.
Uma das características marcantes dos donos da empresa (empresa que, diga-se, tem um sistema acionário muito interessante mas que não vem ao caso) era – pelo menos na minha época – a fidalguia.
A começar pelo presidente da empresa: Tamas Makray.
Indivíduo que se impunha pelo mérito, não por fortuna, criou os filhos no cultivo da simplicidade. Um pouco daquilo que os americanos chamam de low profile.
Em minha primeira semana de empresa, minha mulher à época, estudante de filosofia, participava de um grupo de estudos do qual também fazia parte o Almos, filho de Tamas. Eu já o conhecia, mas não sabia nada sobre sua filiação. Em uma reunião do grupo lá em casa, minha mulher comentou com os participantes que eu começara a trabalhar na Promon. O Almos – sem perceber as conseqüências – exclamou:
- Meu pai também trabalha lá.
E minha mulher:
- Em que setor ele trabalha?
Almos, embasbacado, saiu-se com uma mentirinha:
- No setor de informática.
Para azar dele, era o setor em que eu fora trabalhar.
Quando, mais tarde, cheguei em casa, minha mulher perguntou-me:
- Em teu setor há um Tamas? É o pai do Almos.
Rimos muito, claro.
Outro diretor, o Siffert, que viria a suceder a Tamas na presidência, era de uma ironia sutil. Algumas vezes o ouvi comentar, depois de alguém fazer exposição da qual decididamente ele não gostara:
- Fico muito infeliz com o que ouvi.
Tal manifestação de infelicidade substituía o que, para diretores comuns de outras empresas, seria bem provavelmente um murro na mesa e uma carta de demissão.
No início dos anos 80, se não me engano, ascendeu à Direção Geral um engenheiro extremamente dinâmico, o Abreu.
Para o momento de crise que a empresa (e o País) vivia, Abreu foi escolhido para impor trabalho duro, disciplina.
Em seus primeiros tempos como manda-chuva publicou e distribuiu a todos os funcionários um Decálogo de sua autoria.
Não me lembro dos nove mandamentos finais. Mas o primeiro, para mim inesquecível, transformaria para bem melhor este mísero País, se adotado em larga escala:
O combinado é o combinado.
A saber: se você combinou alguma coisa com alguém, cumpra. Ponto.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Um sábado comum


À tarde, fomos assistir à OSESP, na cracolândia, ou melhor, na Sala São Paulo. Na volta à casa, trânsito lento na Rebouças. Na faixa reservada a ônibus e táxis com passageiros, dezenas de carros particulares passam rápida e alegremente. O rapaz que dirige o carro à frente do nosso abre a janela e atira ao chão uma embalagem de chocolate enquanto conversa distraidamente ao celular.
Diante de minhas lamentações, a Baixinha comenta que logo, logo, vou ter de parar de dirigir:
- Você não tem mais paciência com o trânsito.
E eu concordo, apenas ampliando:
- A coisa é mais grave. Não tenho mais paciência com o País.

Não sei se foi alucinação, mas tive a nítida sensação de ver um boi do Renan passar voando nos céus da Marginal Pinheiros.

terça-feira, 5 de junho de 2007

Globalização


Quem costuma freqüentar este blog sabe que temos, a Baixinha e eu, seis filhos.
Vai daí, a caçula da Baixinha (a nossa Quinta) resolveu ir para a Austrália. Gostou tanto que decidiu ficar por lá.
De repente, gravidez.
Resultado: começo de novembro nasce mais um neto. Se for menina, Tereza (em inglês, Triza, em português de Portugal, Treza). Se for menino, Taj. Em resumo, como muito bem bolado pelos pais, Little T.
Estaremos lá, para dar as boas vindas a Little T e explicar que o mundo é redondo e a Austrália tem muito a ver com o Brasil, com Portugal, conosco. E dizer a Little T que vale a pena viver. Em qualquer lugar, de qualquer jeito.
Benvindo ao mundo, Little T.

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Morra ou viva sempre feliz


Hoje tive de ir a um Tabelião para representar minha filha e meu genro na venda de um imóvel. Eles, agora, moram em Connecticut e me pediram pra quebrar esse galho.
Ao voltar pra casa, mexendo em umas pastas suspensas de documentos dela, encontrei um bilhete com que minha primogênita me presenteou em meu aniversário, há vinte anos.
Vou já avisando: ela sempre foi ambígua nos cumprimentos. Pelo menos em relação a mim. Era um tal de "Te amo, apesar de...", coisas assim.
Mas penso não ter recebido cumprimento mais ambíguo que este, ao longo de meus já longos 62 anos.

Clique para ler o texto em letra de forma
Diante da alternativa que ela sugeria, preferi optar por viver sempre feliz.
Beijinhos, filha.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Assim não dá


O homem que vinha enganando todo mundo há muito tempo, segundo as investigações da Operação Navalha, chama-se Zuleido VERAS.

Já o presidente da presumivelmente respeitável Associação dos Docentes da USP chama-se Cesar MINTO.

Desisto.

terça-feira, 22 de maio de 2007

O piloto sumiu?


Ainda sobre a tal Operação Navalha: Reinaldo Azevedo acha que a Polícia Federal saiu do controle. E os policiais federais querem o aumento que lhes prometeram.
Ou seja, ninguém estaria manipulando a Polícia Federal. Esta é que estaria forçando uma solução para seu$ próprio$ problema$.
Façam suas apostas.

Operação Navalha rende dividendos


Painel da Folha de S.Paulo, 22 de maio de 2.007 (só para assinantes Folha ou UOL):

Silas e Dilma

O governo fará todo o possível para caracterizar Silas Rondeau exclusivamente como "homem do Sarney", esforço facilitado pelo fato de que a ligação entre o ministro colhido pela Operação Navalha e o senador é antiga e profunda. O objetivo de martelar essa tecla é manter no oblívio um outro aspecto igualmente verdadeiro: a proximidade de Silas com Dilma Rousseff, que ao trocar a pasta das Minas e Energia pela Casa Civil trabalhou tanto quanto Sarney para que o então presidente da Eletronorte viesse a sucedê-la.
No que depender do governo, memórias como a de que Rondeau "ganhou a confiança de Dilma" e "faz tudo o que a ministra pede", freqüentes no noticiário pré-escândalo, serão deletadas por completo.

Em campo. Dilma Rousseff conversou com muita gente no final de semana para tomar a temperatura do estrago provocado pela Operação Navalha no setor elétrico. Quem ouviu a ministra a descreveu como "apreensiva".


Coluna Giba Um, de 22 de maio de 2.007:

Maior defensor

A ministra Dilma Rousseff queria tirar Silas Rondeau do Ministério de Minas e Energia de qualquer maneira, aproveitando a reforma ministerial do segundo mandato de Lula. Mas, perdeu a queda-de-braço para o senador José Sarney, o maior defensor da permanência de Rondeau no ministério. O ex-presidente, inclusive, chegou a conversar, pessoalmente, com o presidente Lula sobre a permanência de Rondeau.


Alguém aí está lucrando com a tal Navalha.
Claro que não tenho provas para acusar ninguém. Mas, das duas uma:
Ou o Painel da Folha está decidido a incriminar a ministra Dilma,
Ou o tal de Giba Um é um dos encarregados de deletar por completo as relações entre a ministra e o famigerado Zuleido.
Uma breve pesquisa no Google, sobre o tema Dilma Rondeau, parece dar razão ao Painel.

sábado, 19 de maio de 2007

O Brasil que eu amo - 1


Direto ao ponto. O Brasil, de uns 30 ou 35 anos pra cá, eu abomino. Sempre que pretendi ser correto, fui perseguido. Sempre que quis ser civilizado, fui derrotado.
Graças a isso, quando em viagem no exterior, evito brasileiros. Quando aparecem por perto, a Baixinha e eu paramos de conversar, para que não nos descubram como brasileiros.
No último final de ano, em Madrid, fiquei feliz quando uma senhora veio até nossa mesa para nos desejar feliz ano novo. Era portuguesa. Perguntou-me se eu também era.
Sim!, disse eu. Ufa! Não precisei completar que era também brasileiro.
Triste.
Mas há um Brasil que amo.
E vou mostrar a vocês, aos poucos.
A começar de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião.
Quando eu era criança, toda terça-feira (salvo falha de memória, era terça, mas isso não tem importância) sentávamos junto ao rádio, meu pai, minha mãe, minha irmãs e eu, para ouvirmos o Lua, durante uma hora (era uma hora?).
Do Brasil de Luiz Gonzaga, desse, eu me orgulho.
Veja só.