domingo, 8 de abril de 2007
Perdas
Hoje acordei angustiado. Acabara de emergir de um pesadelo. Nele, eu me preparava para uma viagem mas as coisas se complicavam. Ao tentar fazer a bagagem, notava que muitos objetos haviam sumido. Outros estavam desarrumados. Era preciso rearranjá-los. E o tempo corria. Vagamente, dava-me conta de que não sabia o caminho até a estação (de trem?). Iria perder o transporte.
Ao acordar, ficou claro que meu pesadelo tinha uma palavra chave: perda.
Comecei a recordar as minhas. Muitas.
A perda da minha primeira bicicleta. Furtada.
A perda do primeiro amor.
A perda do pai. Minha primeira experiência íntima com a morte.
A perda da liberdade. A prisão.
A perda de meus livros. Aliás, perdas. Foram três bibliotecas desfeitas ao longo dos anos.
Perdas. Perdas. Perdas.
De quase todas, sobra algum ganho.
Aprende-se muito com elas.
E – maravilha – me dou conta de que há perdas necessárias, fundamentais.
A começar pela perda do conforto do útero. É preciso perdê-lo para usufruir da vida.
A perda da virgindade, que nos abre o caminho do prazer. E nos oferece a eternidade, pela procriação.
A perda dos filhos para o mundo. Porque poucas coisas são tão tristes quanto filhos dependentes.
A perda da juventude. Tira-nos tanto para nos conceder maturidade.
Por fim, a perda da vida. A Morte.
Os homens inventam religiões para abatê-La a golpes de eternidade.
A ciência faz de um tudo para empurrá-La para o dia de São Nunca.
E Ela continua a nos matar para que a vida tenha sentido.
sexta-feira, 6 de abril de 2007
Anti-Congresso
Dado o quase infinito volume de leis federais vigentes no Brasil, a gente poderia eleger um grupo de anti-deputados para constituir a Anti-Câmara Federal. Sua atribuição não seria a de criar leis, mas a de revogá-las. Quanto mais, melhor.
Aliás, o salário dessa turma de virtuosos destruidores seria proporcional ao número de leis revogadas em cada mês.
Dúvida: precisaria existir um Anti-Senado?
Ou o sistema unicameral já estaria de bom tamanho?
Uma quinta-feira santa
Depois de trabalhar um pouco pela manhã, fui buscar minha filha para almoçar.
Ela me levou a um restaurante argentino, carne excelente.
Estava saboreando uma cachaça mineira, Boazinha (o nome é que é esse. A cachaça é ótima), quando aproximou-se um cidadão alto e barbudo:
- Você não é o Renato Santos Passos?
- Sim, sou eu.
E, antes que eu pudesse esboçar qualquer reação:
- Não sei se você me reconhece...
Como não poderia reconhecer Alfio Beccari !?!
A última vez que vi Alfio foi quando minha filha era um nenezinho. Ela acaba de completar 28 anos. Alfio e eu moramos juntos em um apartamento do quarto andar do Edifício Canadá, rua Maria Antonia, nos áureos tempos de 1.968.
Alfio era o aluno número um do curso de Filosofia da USP. Pairava acima dos mortais comuns. Quando me perguntou se poderia dividir o aluguel comigo, achei o máximo. Aprontei várias com ele, pobre Alfio. Mas isso é outra história.
Convivemos bem durante um tempo. Depois ele tomou outro rumo.
Mais tarde nos revisitamos, lá por 1.980.
Hoje, ao reencontrá-lo, tive de pedir mais uma dose da Boazinha, pra estabilizar as emoções.
Nos idos de 68 a gente bebia cachaça no gargalo, cada um com sua garrafa.
Hoje os gargalos são outros.
Depois de deixar minha filha na casa dela, fui à Fnac comprar uns DVDs. Elis e Tom Jobim.
Já em casa, assisti aos três DVDs da Elis. Elis canta Saudosa Maloca. A interpretação é em ritmo lento, maravilhosa. A imagem é a de Elis a passear com Adoniran pelos meandros do Bixiga. E mais. E mais.
Tive de tomar umas doses de Seleta (outra cachaça de primeira) pra equilibrar as emoções.
Haja emoção. Haja cachaça.
Tudo em uma quinta-feira santa. Santa Quinta.
Que venha a sexta. Da paixão.
quinta-feira, 5 de abril de 2007
Romário - o craque dos 999 gols
É claro que é só um sonho. Mas que eu acharia sensacional, lá isso é verdade.
Já pensou se, depois de toda essa enrolação de inventarem 999 gols pro Romário, o pretenso milésimo começasse a demorar pra acontecer. Vem jogo, vai jogo e nada. O Romário não faz o bendito gol. A imprensa começa a dar cada vez menos espaço pra história. Lá pelas tantas, depois de uns dez jogos tentando marcar o danado do Gol 1000, o Romário se machuca. Joelho, tornozelo, sei lá. Alguma coisa que o deixasse fora dos gramados por um bom tempo.
Considerando que ele já é quarentão, fim de carreira.
Romário, o craque dos 999 gols.
Fajutos, ainda por cima.
Talvez, então, marcassem um domingo pra ele ir ao Domingão do Faustão, ou ao Fantástico, para fazer o milésimo gol no palco.
E o país comemoraria com carnaval fora de época.
terça-feira, 3 de abril de 2007
Climas
Quando este outono acabar, virá o inverno.
Ou o verão, caso eu mude de hemisfério.
Gosto de embaralhar as estações.
Me dá a sensação de ser senhor do tempo.
Há já alguns anos vivo dois invernos e quase nenhum verão.
Este ano mudo: dois verões.
Isso se chama aquecimento global.
(eu disse chama?)
segunda-feira, 2 de abril de 2007
Passeio por Vinhais e por Blogs
Hoje descobri que a página de Vinhais do Sapo traz referências ao Meu Bazar. Mas o mais interessante foi descobrir blogs tais como o Malambas e, por meio dele, conhecer A Matéria do Tempo e, principalmente, Fátima Pinto Ferreira e seu Cão com Pulgas.
E tem mais. Quando tiver mais tempo, vou atrás das outras referências.
sábado, 31 de março de 2007
Questão crucial
Não me interessam os aeroportos.
Não dou a mínima aos mortos.
Não quero saber de etanol,
Pra mim, tudo isso é besteirol.
Só uma questão me angustia:
Será que há bicho-de-melancia?
Da série O Brasil acabou – III
É surrealista esse Waldir Pires não ter pedido demissão até hoje.
Enquanto não se decretar que os controladores de vôo não são culpados pela morte das 154 pessoas do fatídico vôo da Gol, eles vão continuar tentando matar mais gente.
O Lula pediu dia e hora pra acabar com o problema nos aeroportos. Mostrou-se furioso com o absurdo da situação. Ele agora vai fazer o quê. Quase certamente nada. Nada mais nada. Que é o que esse gênio sabe fazer.
Ninguém sabe o que deve ser feito pra resolver o problema.
Ninguém confessa isso. Ninguém pede demissão.
Somos um país de imbecis.
Todos nós.
Ponto.
Talvez a solução seja transformar o carnaval em festa contínua e permanente.
Outra idéia interessante é mandar mais prostitutas e jogadores de futebol para o resto do mundo. Quem sabe diminui mais o risco Brasil.
Somos o país do etanol. Do eta nóis.
Com licença que eu vou vomitar.
P.S.: Voltei. Agora estou melhor. Penso que deve ser formada uma comissão para enfrentar a crise. O diálogo com os controladores deve ser estabelecido. Saber de suas necessidades, carências, aflições. O ministro Paulo Bernardo, maravilhoso planejador do progresso brasileiro, é certamente a pessoa mais indicada para tentar acalmar os ânimos. Quem sabe a turma prefira passar a viajar de ônibus. É menos arriscado. As estradas são esburacadas? Basta andar devagar. Mais ou menos como o crescimento do país.
Em tudo se dá jeito. Não é mesmo, brasileirinho querido que me lê.
sexta-feira, 30 de março de 2007
Você Sobel de alguma coisa?
O que mais me impressiona nessa história da prisão do rabino Sobel pelo furto de gravatas é o fato de ele negar que tenha sido preso. Se ele dissesse que não foi bem assim, que ele pegou as gravatas mas ia pagar, vá lá. Mas não. Ele simplesmente diz que não foi ele. É tudo invenção de presumíveis inimigos. Do mesmo jeito que os neo-nazistas alegam que também não houve holocausto. Tudo invenção.
Logo em seguida, pede afastamento do cargo que ocupava na Congregação Israelita Paulista.
Ué. Mas se não foi ele. Por que pedir afastamento por causa de um sósia.
Vai daí, temos o católico Lula que não sabia de nada. A falcatrua comia (e come) solta no governo e ele por fora.
O apóstolo e sua bispa – da Renascer – são presos nos Estados Unidos por carregarem uns caraminguás dentro da Bíblia e alegam inocência. Mais: são tidos pelos fiéis da igreja deles como vítimas.
Agora é o curioso rabino de sotaque forçado que é pego com a boca na botija não graças a bravatas, como Lula, mas por causa de gravatas. De grife, claro, que de bobo ele não tem nada.
Nunca me orgulhei tanto por ser ateu.
sexta-feira, 23 de março de 2007
A vantagem da violência
Durante muito tempo acreditei que a violência era uma coisa totalmente ruim. Ledo engano. Ela tem seus méritos.
Vejam o Iraque. É bomba pra lá, bomba pra cá.
Justamente por isso, seus habitantes serão poupados de ouvir - ao vivo - as conversas do senador Suplicy sobre renda mínima. Ele desistiu de ir até lá para falar sobre o assunto, [só assinantes UOL ou Folha] por causa da (ou graças à) violência reinante naquelas bandas.
Se a gente caprichar um pouquinho mais por aqui, quem sabe a gente também se safa dessa?
domingo, 18 de março de 2007
Ladeira abaixo
Bertrand Russell dizia, com seu humor característico, que começou produzindo uma obra matemática (os Principia), depois passou à Filosofia, trabalho menos árduo, mais adiante escreveu sobre costumes (religião, casamento etc) e, já bastante cansado, na casa dos noventa anos, dedicou-se a escrever contos policiais.
Guardadas as gigantescas proporções, desci também minha ladeira. Matemática, Filosofia, Política. Esta última me meteu em enrascadas mas sobrevivi.
Recém saído do presídio, fui morar em um apartamento sem telefone nem TV. Se não me falha a memória, havia um rádio pouco usado. Jornais nem pensar. Computador pessoal não existia.
Mergulhei nos clássicos. Lia todo o tempo disponível. Homero, Heródoto, Platão, Aristóteles e o escambau.
Li Proust, Baudelaire, o diabo.
Cortazar, Onetti, Llosa, Márquez, Borges. Sim, tudo, absolutamente tudo de Borges.
Machado, Guimarães. De Guimarães Rosa também, tudo.
Chegava segunda-feira, volta ao trabalho. Próxima à minha mesa ficava a de um colega, o PT2 (havia dois PT no departamento). Invariavelmente, a primeira indagação dele, depois do bom dia, era:
- Viu o Fantástico ontem?
Muitas vezes me deu vontade de dizer a ele que sim, vira muito fantástico no final de semana. Mais precisamente, imaginara. A partir do que lera.
Acabava simplesmente por explicar que não tinha TV. Essa informação não ficava registrada no colega. Devia ser incompreensível para os códigos cerebrais dele. Semana seguinte lá vinha a mesma pergunta.
Anos mais tarde, três filhos depois, assisti a alguns programas Fantástico, da TV Globo.
Hoje, leio muitos blogs. Assisto a jogos de futebol, tênis, vôlei, basquete. Leio jornais todo santo dia. Desfruto certo prazer em assistir programas trash na TV. Já assisti a trechos de novelas. Reality show é coisa que ainda abomino. Mas isso passa.
Às vezes, ao passar pela prateleira do escritório na qual estão os livrinhos do Borges, dou-lhes uma piscadela cúmplice. Agrada-me pensar que eles me entendem.
Sabem que continuo tendo por eles um carinho enorme.
Apenas envelheci.
sábado, 17 de março de 2007
Direito de ser ateu
A Constituição brasileira garante até o direito à saúde. Ou seja, o governo não pode deixar que eu fique doente.
Já no que se refere à questão religiosa, o inciso VI do Artigo 5º da CF assegura o livre exercício dos cultos religiosos, garante a proteção aos locais de culto e a suas liturgias, mas é um tanto genérico (pro meu gosto) quando afirma que é inviolável a liberdade de consciência e de crença.
Não tenho nada a opor se alguém se despede de mim dizendo Vá com Deus. Nem que alguém deseje que Deus me proteja.
Gostaria, contudo, que me fosse assegurado, mais explicitamente, o direito de não acreditar em deuses, nem de a eles prestar qualquer culto.
Também não me faria mal se quem acredita em algum deus procurasse entender que não acredito em deuses porque entendo ser essa a atitude correta. Não porque tenha algum defeito físico ou mental.
De minha parte, sempre procurei me esforçar para não alimentar o preconceito contrário. Nem sempre consigo, é verdade. Mas tento.
Da série O Brasil acabou – II
A Rede Record (leia-se TV da Igreja Universal – IURD) comprou os direitos de transmissão da Olimpíada de Inverno de 2.010 e da Olimpíada de 2.012, em Londres.
Vai pagar, segundo o Outro Canal (Folha de S.Paulo, só pra assinantes Folha ou UOL), a baba de US$ 60 milhões.
No texto do Comitê Olímpico Internacional, a TV IURD é mencionada como “conhecida no Brasil por ser uma estação de TV a caminho da liderança em seu setor”.
A Globo caiu fora da disputa pelos direitos de transmissão porque não poderia dispor de tanta grana.
Como quase todo mundo sabe, dinheiro é o que não falta para a IURD. O povão vai aos templos e despeja os cobres.
A Globo, por sua vez, é aquela que fingiu durante o tempo que pôde que não existia o movimento pelas eleições diretas no Brasil. Hoje, o seu Jornal Nacional dá aulas de democracia.
Apesar de tudo, um dia – não muito distante – você ainda vai sentir saudade da TV Globo.
Espere só pra ver o que vai acontecer quando o bispo Edir Macedo assumir a liderança.
Da série O Brasil acabou
Já já nosso ministro da Cultura, o inefável Gil, vai dar grana pra pornocultura. Afinal, é - comprovadamente - o que mais atrai o brasileiro.
sábado, 10 de março de 2007
Notícias frias de um sábado quente
- Terminou a visita do presidente dos Estados Unidos ao presidente da Unidos do Estado.
- Já que a discussão é sobre etanol, reafirmo que o mais importante em qualquer debate é a presença de spirits.
sexta-feira, 2 de março de 2007
Quase lá
A Igreja Católica (ICAR) está discutindo se libera o uso de camisinha para relações entre casais casados nos quais um é portador do vírus HIV.
Devagarinho, devagarinho, a ICAR está quase entrando no século 20.
Eu disse 20.
Século 21 já seria pedir demais.
terça-feira, 27 de fevereiro de 2007
O Brasil acabou?
| Faz tempo. | |
| Não. Nem começou. | |
| Não sei. Mas vou até ali e não volto. | |
| Terra com nome de pau não podia dar certo. | |
| De jeito nenhum. Adoro o jeitinho brasileiro. | |
| Ainda acredito em mudança. Pro exterior. | |
| = veja os resultados= | |
segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007
domingo, 25 de fevereiro de 2007
Análise política
Estavam à mesa do jantar. Alguém disse alguma coisa a respeito da situação política do país dos comensais.
Ele, cientista político, pontificou:
- Isso é apenas a ponta do iceberg.
Foi nesse momento que o navio em que estavam começou a afundar.
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