quarta-feira, 6 de setembro de 2006
Quid rides?
Em 1.977, ano em que o presidente militar Ernesto Geisel baixou o pacote de abril, com o qual criou a figura do senador biônico, bolado para dar maioria ao governo no Senado (o mensalão só seria inventado mais recentemente). Ano durante o qual se esperava a abertura política e o que veio foi mais endurecimento (a anistia teve ainda de esperar dois anos). Ano em que recebi excelente proposta para mudar de emprego mas – como eu tinha meus direitos políticos cassados – a Lion, revendedora Caterpillar, desistiu de me contratar. Ano ainda de chumbo. Falta de liberdade. Vida intelectual relegada à sombra.
Em 1.977, ano em que minha primogênita começou a andar. Ano em que li Grande Sertão: Veredas, na tranqüilidade de São Lourenço.
Em 1.977, às vésperas de mais uma comemoração da Independência desta terra pra lá de dependente, nasceu meu único filho. Chamei-o Horacio. Por não ser nome de santo. Por ser nome de poeta.
Teve cólicas, nos primeiros meses. Berrava muito, logo depois de mamar.
Isso passou, como tudo passa.
Cresceu e construiu personalidade própria.
Hoje, é profissional de excelência em sua área de atuação.
Casou com seu primeiro, grande e único amor.
Quem sabe surjam daí alguns netinhos fabulosos.
Saboreamos juntos muitos e muitos churrascos. No tempo em que ele era carnívoro. Hoje, quase vegetariano.
Jogamos bola juntos.
Já nos demos fortes abraços em momentos intensos de nossas vidas.
Já reclamei dele. E ele de mim.
Espero que a vida nos permita o aconchego permanente.
E, como o poeta (mas sem ironia), digo a ele, a propósito deste post:
De te fabula narratur
(é de ti que se fala)
Formas de tratamento
Há pessoas – eu, por exemplo – que não gostam de ser tratadas de forma cerimoniosa. Não gosto de ser chamado de senhor. O Junior, do Frigideira, me trata por Sr. Renato. Paciência. Fazer o quê. Prefiro que ele visite Meu Bazar mesmo assim.
Quando eu comecei a fazer análise, com Luiz Meyer, ficava desconfortável com o tratamento de Senhor que ele me dispensava. Numa das primeiras sessões, das quase mil que mantivemos, pedi a ele que me chamasse de você, já que eu o tratava assim. Ele, calmamente:
- O senhor pode me chamar como quiser. Eu também o tratarei da maneira que eu preferir.
Só muitos meses adiante ele começou a me chamar de você.
Nas conversas com familiares, em Portugal, as pessoas estranham que eu as trate por você. Para um português, isso é cerimonioso. O normal entre familiares é Tu. E eu, apesar de ser santista, perdi o hábito de tutear (como dizem os de língua espanhola).
Por outro lado, há os que fazem questão de tratamento diferenciado. Meu orientador de Lógica, por exemplo, o fantástico professor Newton da Costa, costumava dizer aos alunos jovens que o tratavam por você:
- Se você não me chamar de senhor, vou chamá-lo de Juquinha. Está bem?
Meu pai, certa vez, em uma convenção Baptista na Igreja da Vila Mariana, em São Paulo, encerrou uma disputa acalorada entre pastores que exigiam tratamento mais formal, valendo-se dos famosos versos de Gregório de Mattos a respeito de um magistrado pretensioso:
Se tratamos a El Rei por Vós
E a Jesus por tu,
Como chamaremos nós
Ao juiz de Igarassu:
Tu e vós ou vós e tu?
ANA MARIA TEIXEIRA RANGEL
Eu só posso estar doido.

A dona Ana Maria – a respeito da qual não consegui obter maiores informações (a imprensa tem mais o que fazer do que ficar informando a gente) – resolveu candidatar-se tão somente à Presidência da República.
Dela, as únicas informações disponíveis são as de que tem 49 anos, é carioca, vive nos Estados Unidos, onde tem uma empresa de transportes. Estabeleceu como teto para os gastos de sua campanha à Presidência o valor de módicos cento e cinqüenta milhões de reais (pouco mais de 50 milhões de euros). Por outro lado, declarou que possui um único bem: um automóvel Volkswagen, no valor de quarenta e dois mil reais.
Onde está a firma de transportes?
Onde fica a minha sanidade mental?
Quais os reais objetivos da dita cuja senhora?
Vai daí: ainda bem que daqui a uns aninhos vou embora daqui. Quem ainda pensa que este país tem solução, fique com ele.
Tô fora. Com minha loucura. Com minhas alucinações. Sim, porque só pode ser alucinação.
Quando Collor candidatou-se, nem ele (e sua pequena turma) acreditava que seria eleito. Foi.
Agora, Lula vai ser reeleito.
Mas se elegessem a Ana Maria, eu não ficaria surpreso. Daria na mesma.
terça-feira, 5 de setembro de 2006
Inteligência não tem sexo
Acabo de ler, no fantástico renas e veados, uma referência à Lesboa Party.

Feliz ou infelizmente, lésbica é algo que jamais poderei ser. Também não sei nada sobre a tal festa. Mas o nome escolhido me seduziu.
Muito bom.
domingo, 3 de setembro de 2006
O dia em que ouvi o silêncio
Em 1.974, fui convidado pra dar um curso maluco de Fundamentos da Matemática na Faculdade de Ciências e Letras de Lins, interior de São Paulo.
O curso era nos finais de semana. Eu pegava um ônibus noturno na sexta. Chegava em Lins por volta das cinco da manhã do sábado. Dava tempo de dormir, na cama do quarto do hotel, até lá pelas sete porque as aulas começavam às oito (e iam até o final da tarde. Pobres alunos).
Eu me hospedava no Hotel Lins, bem na praça principal da cidade. Era uma praça toda arborizada. Quando amanhecia o dia, milhares (quase ia dizendo milhões) de pássaros começavam a cantar sem maestro (ou com Maestro, se você acredita n’Ele). Era deslumbrante.
Mas às cinco da manhã, quando eu chegava ao hotel, todos dormiam.
Foi na minha primeira ida.
O ônibus parava em frente a uma casa na qual funcionava a empresa de transporte. Desci e perguntei ao funcionário como devia fazer pra chegar ao hotel. Era muito fácil. Só dobrar a primeira à esquerda e seguir aquela rua por algumas quadras. Ela desembocava na praça do hotel.
Eu e minha pequena mala, com poucas roupas e alguns livros, seguimos a indicação.
Depois de caminhar umas duas quadras, fui tomado por uma sensação estranha. Parei. E foi aí que percebi a origem do meu estranhamento.
Não se ouvia rigorosamente nada.
Som de gente, som de automóveis, caminhões. Ônibus, trens. Som de animais. Som de vento. Som de chuva. Nada.
Me dei conta de que, beirando os trinta anos, era a primeira vez que me encontrava rodeado de silêncio absoluto.
Fiquei parado, ali, alguns minutos.
Admirando o silêncio.
Percebi, também, naquele instante, que jamais me esqueceria daquela sensação.
sábado, 2 de setembro de 2006
Felicidade
Bem no início do mês.
Estou muuuito feliz, hoje.
Nova etapa da vida a começar.
Um brinde a tanta felicidade.
Beijinhos transmontanos a todos: mulheres, marmanjos, velhos, crianças, mendigos, leprosos, políticos.
Espera aí. Políticos não. Felicidade também tem limite.
quinta-feira, 31 de agosto de 2006
O conhecimento da ignorância
Hoje de manhã conversei com uma vizinha sobre a reforma que o camarada do apartamento embaixo do meu está fazendo. Disse a ela que estava preocupado porque o fulano está derrubando tudo. Será que ele tem noção da diferença entre elementos estruturais e não estruturais? Será que ele sabe que derrubar uma parede não é o mesmo que arrancar uma coluna? Ou uma viga?
Depois, já com meus botões, lembrei: sou engenheiro. Tá certo que engenheiro eletrônico. E formado em 1967, época em que os circuitos eletrônicos estavam deixando de utilizar válvulas para começar a usar transistores. Coisa medieval, mesmo.
Mas percebi uma vantagem em tudo isso: não entendo nada de estruturas de concreto. Mas sei que não entendo.
E isso faz alguma diferença.
Pensando melhor, notei que – no fundo, no fundo – o que eu quero não é ser culto. Isso é cada vez mais complicado. Dizem que o último camarada que entendeu de tudo foi Leibniz. E ele já morreu há quase 300 anos.
Quero conhecer cada vez mais minha ignorância. Ter noção mais profunda de que não sei tudo que não sei. Aprofundar meus conhecimentos de meu desconhecimento.
terça-feira, 29 de agosto de 2006
Mercadante agora é do aerotrem
E não é que no debate de ontem na TV Band o Mercadante defendeu o aerotrem?!?
Isso não era plataforma política daquele pelintra do partido do Collor, o tal de Levy Fidelix?
Meus deuses, o ridículo é poço sem fundo?
Chute em cachorro morto
Diz o povo que não se deve chutar cachorro morto. Mas vou dar uma bica no Orestes Quércia (aliás, o nome dele devia ter trema, porque se diz "cuércia" e não "kércia". Mas ele não treme. Ao contrário, ele assusta).
Durante o governo Montoro (1.983-1.987), meus filhos estudaram em colégio público. De alta qualidade. Era a Escola Estadual Profª Marina Cerqueira César, na Vila Ipojuca, São Paulo, SP, Brasil.
Quando o Quércia assumiu o governo (março de 87), a coisa degringolou com tal rapidez que a mãe de meus filhos e eu decidimos que iríamos tirar nossa filha mais velha do Marina no início do ano seguinte e colocá-la em colégio particular (Rio Branco). E, de antemão, combinamos que no outro ano passaríamos o segundo filho pro Rio Branco. Pois bem. Não deu tempo. Nossa filha mais velha foi para o Rio Branco no início do ano seguinte. No meio do mesmo ano tivemos de transferir o filho. Assim, no meio do ano letivo. A coisa ficou tão terrivelmente ruim que não teve jeito.
Agora, nesta campanha eleitoral, o Orestezinho fala em fazer isso e aquilo em prol da educação.
Vamos fazer assim: já que você é rico pacas (e ficou rico na vida pública, como já foi demonstrado ad nauseam), devolve primeiro a grana que eu gastei nessa história toda. Aliás, a minha e a de todo mundo que teve de se virar pros filhos não ficarem analfabetos.
E, já que estamos no assunto: tenha dó, Quércia. Você, que já deitou e rolou, aceitar esse papel de coadjuvante do Mercadante. Brincadeira. Conta pra nós. Qual foi o mensalão, nessa história.
Pensei que você fosse mais esperto.
Pobre coitado.
domingo, 27 de agosto de 2006
Ainda a perfeição
sábado, 26 de agosto de 2006
Assim não dá
Quase todo mundo sabe que um dos mais consistentes argumentos contra a existência de Deus é a existência de moscas.
Se Deus existisse, ele certamente não teria criado um bicho tão desagradável.
Vai daí, o bicho homem, na sua incontida mania de grandeza, resolveu concorrer com o Criador.
Agora – justo em Juazeiro – tem fábrica de mosca.
quinta-feira, 24 de agosto de 2006
Planeta Terra no mundo da Lua
Hoje conseguiram me surpreender. O que não é pouca coisa por tratar-se – no meu caso – de cidadão a viver sua sétima década.
E não pensem que minha surpresa decorre de Plutão ter sido expulso do seleto clube dos planetas do sistema solar.
A ciência vive a mudar de opinião. A Terra já foi plana, passou a quase esférica e não duvidem que volte a ser tida como plana. Já há até best seller sobre isso.
Meu espanto vem da China.
Eu, que imaginava fazendeiros chineses como sisudos plantadores de arroz.
Pois fiquem sabendo que os velórios, no interior da China, são extremamente convidativos. Tudo porque... leiam o que publicou a Folha de S.Paulo, hoje:
Polícia prende strippers
em funeral de fazendeiro chinês
Uma tradição no leste da China, a homenagem com strip-tease em funerais, ganhou novas regras depois de cinco pessoas terem sido presas por organizar uma performance considerada "obscena" pela polícia chinesa, segundo a agência de notícias oficial Xinhua. As prisões ocorreram na semana passada, no funeral de um fazendeiro em Donghai, na Província de Jiangsu.
Segundo a agência de notícias, o desnudamento serve a propósitos nobres. "O strip-tease é uma prática comum nos funerais das áreas rurais de Donghai para atrair as pessoas", conta. "Os moradores acreditam que quanto mais cheio fica o funeral, mais honrado é o morto."
Autoridades locais emitiram novas ordens sobre "conduta em funerais". Agora, os planos para as pompas fúnebres devem ser comunicados às autoridades municipais até 12 horas após a morte do futuro homenageado. Também foi colocado em operação um número de telefone para receber denúncias de "delitos fúnebres".
Não sei o que as agências de turismo estão esperando.
quarta-feira, 23 de agosto de 2006
Aritmética da Impunidade
Belo dia descobre-se que o cidadão passou a mão no dinheiro público. Mensaleiro, sanguessuga etc.
Esse dinheiro, como bem disse certa vez o então presidente do Banco Central, Armínio Fraga (não confundir com Armando Flagra, que é coisa da Polícia Federal), é o meu, o seu, o nosso dinheiro.
Deveria, portanto, ser devolvido aos cidadãos todos, partindo-se da hipótese simplificadora de que todos contribuíram igualmente.
Então vamos lá. O sujeito passou a mão em, digamos, um milhão de reais. Somos 200 milhões de habitantes. Logo, caberia a cada um de nós, 0,005 reais.
Como quase todo mundo sabe, nossa moeda só admite centavos de real. Portanto, a parte que caberia a cada um de nós seria zero.
Além do mais, se o indivíduo roubou 100 milhões, cada um de nós deveria receber cem vezes o que receberia caso o dito cujo tivesse roubado um milhãozinho só. Ou seja, cem vezes zero, que como quase todo mundo sabe, é zero.
Pesca e peixe
terça-feira, 22 de agosto de 2006
O desespero da classe média
Deu paúra. A turma resolveu se mobilizar. Vez ou outra, isso ocorre. Desde quando esse Brazilsão foi pro brejo. Faz tempo. Mas agora o pessoal achou que deve fazer alguma coisa. Marcha com Deus, família, o que mais?
Desisti de tudo isso faz algum tempo. Décadas, talvez. Mas o povo vai nascendo, as coisas têm de se repetir. A garotada não viveu o que passou. Tem de viver tudo de novo.
Vamos lá. Gritem. Gretchen. Reclamem. Digam que não estão gostando.
Tudo vai continuar como está.
Falta é educação, mas educação daquele jeito que a pedagogia atual condena: decorar tabuada, aprender a recitar os afluentes do Amazonas, margem esquerda, margem direita.
Estudar Português. Saber geografia. Aprender outra língua. Espanhol, inglês, francês. História. Do Brasil e Universal.
Tem que botar a bunda na carteira e estudar.
E-s-t-u-d-a-r.
Fora isso, conversa fiada.
O PCC, o CV, já dominam tudo. Ou quase. Setores da sociedade vivem sob outro governo. O tráfico é comandado por setores ditos nobres. Só não cito nomes, aqui, pra não ser processado, pra não morrer. Mas é gente importante. Não tem bacuri nisso.
Vamos lá. Vamos reeleger o Lulla. Alguém duvida? Migalhas em forma de bolsa família e pronto. Tudo resolvido.
Quem tem grana, está realizando 2% ao mês, no mercado financeiro. Na Europa, é 2% ao ano, e olhe lá.
Isso é o que interessa.
De quem é o Banco Santos? Do pobre Edemar Cid Ferreira? Ou de algum senador importantérrimo? Daqueles que nascem em um Estado do Nordeste mas se elegem em outro lugar?
E o Pitta? Terá algum parentesco com o Maluf?
E se fossem irmãos?
Pense nisso. Afinal, você não sabe o que os ascendentes do Maluf andaram fazendo por aí.
A primavera vem aí.
Feliz primavera.
P.S.: Este post faz parte de uma blogagem coletiva, organizada pela Laura.
domingo, 20 de agosto de 2006
Di Tullio
Em 1.961, vim de Santos para São Paulo para fazer o restante do Científico (que era como se chamava o período de três anos que se seguia ao Ginásio, de quatro anos) mas – principalmente – para fazer cursinho pra engenharia, no curso Di Tullio.
O professor Mauro de Oliveira César, que além de dar aulas no Di Tullio também era professor da Faculdade de Engenharia de São Carlos, junto com minha irmã, me arrumara bolsa integral. Isso, mesmo sendo eu ainda aluno do segundo científico. Penso que fui eu que inventei essa história de treineiro. Essa garotada que presta vestibular ainda no final do segundo colegial, só pra treinar. Naquele tempo não era possível fazer o vestibular sem concluir o colegial. Mas fui fazer cursinho porque sentia que o colegial não estava me dando formação adequada. O Colégio Canadá, de Santos, já não era o mesmo de tempos passados.
Na década de 60, o cursinho por excelência era o Anglo Latino. Das 360 vagas na Escola Politécnica, quase 300 eram ocupadas por alunos formados lá. Mas o Curso Di Tullio tinha um papel qualitativo importante nessa história de vestibular para engenharia.
O professor Di Tullio era um italiano baixinho, de nariz batatudo, um pouco corcunda. Por ser de esquerda numa Itália dominada pelo fascismo na Segunda Guerra, fugiu. Parece ter sido um raríssimo caso de alguém que fugiu PARA a Sibéria. Em geral, as pessoas fugiam DA Sibéria.
Não sei como, nem por quais motivações, Di Tullio acabou por migrar para o Brasil como vendedor de vinhos, apesar de ser um matemático de alto nível.
Aqui, nesta terra de burocratas, tentou validar seus títulos acadêmicos para poder lecionar na USP. Exigiram dele que prestasse exames de Geografia e de História do Brasil.
Mandou tudo às favas e começou a dar aulas preparatórias para o vestibular de Engenharia para um pequeno grupo de umas dez pessoas. Ele ministrava todas as matérias menos Química, que era ensinada por uma professora também italiana, cujo nome agora me escapa.
O estupendo êxito de seus parcos alunos no vestibular da POLI (o ITA nunca foi o seu forte) levou-o a montar o cursinho, trazendo para ajudá-lo alguns de seus primeiros alunos.
Ele reservou para si as aulas de Álgebra. E foi nesses termos que conheci essa figura inigualável.
Comecei por entender para que servia aquela espécie de estribo na parte inferior do quadro negro. Certo, servia para colocar giz e apagador. Mas a função primordial era amparar o professor Di Tullio nos dias em que havia tomado um pouco mais de vinho ao almoço, seguido de algum cognac.
Ele detestava ministrar as matérias do programa do vestibular.
Logo de cara avisava: daria aulas extras, sem custo algum, ao final do horário normal de aulas, para quem se interessasse. Para ensinar tópicos da Matemática que eram do interesse dele.
Formou-se um pequeno grupo, do qual – óbvio – eu fazia parte, para assistir às aulas realmente inspiradas do extraordinário mestre.
Lembro-me, só pra dar uma palhinha, de um início de uma série de aulas sobre Teoria das Grandezas. Di Tullio começava por afirmar que Grandeza era conceito primitivo, não admitia definição.
Criticava, em seu português carregado de sotaque:
- Já vi livros que definem grandeza: grandessa é tudo aquilo suscetível de aumentar e diminuir. Ba. Conheço cossas suscetíveis de aumentar e de diminuir e que no som grandessa.
E mostrava o rosto iluminado por uma risada irônica, infantilmente malandra (ou malandramente infantil, sei lá)
Di Tullio tinha um apartamento no Embaré, em Santos. Passava lá suas férias.
Como minha mãe ainda morava lá, eu também ia pra Santos nas férias. Uma vez levei comigo meu amigo (até hoje) Brandão, pra passarmos lá alguns dias.
Um dia, lá pelas nove da manhã, fomos tomar café da manhã em um bar no Embaré. Entramos e pedimos dois Toddys. Não percebemos que o professor Di Tullio estava sentado ali ao lado, a tomar seu cognac matinal.
Ouvimos, depois de pedirmos nossos chocolates:
- Má quê. Quem toma chocolate é viado! Tem de tomar cognac!
- Mas professor, cognac às nove da manhã?
Di Tullio era fantástico até quando manifestava seus preconceitos.
Aprendemos, então, a rotina do mestre. Tomava um cognac logo cedo, entrava no mar e nadava até a Ponta da Praia, junto ao ancoradouro dos Práticos (alguns quilômetros). Lá já havia um taxista conhecido que o recolhia todo molhado e o levava de volta ao Embaré.
Do alto de nossa juventude, tentamos acompanhá-lo nessa empreitada. Desistimos no meio do caminho.
Quando saiu o resultado de nosso vestibular na POLI, corri ao cursinho pra saber se havia passado. Encontrei o professor Di Tullio, com seu sorriso maroto, sentado em frente a uma lista de aprovados.
Nem perguntei nada. Olhei-o interrogativamente.
E ele:
- Má quê papelão!
Pensei logo: bombei.
Ele prosseguiu:
- Tinha de ficar em 24º lugar?!?
Ideias luminosas no Bazar
Nossa filha costuma nos telefonar da Austrália aos sábados à noite. Lá, é manhã de domingo. Ela acorda, toma seu café e depois nos telefona. Fico sempre intrigado com essa história de ela já estar vivendo um domingo que só vou vivenciar daqui a muitas horas.
Ocorreu-me a ideia de pedir que ela me conte meu futuro. Ela, que já está lá, no futuro, pode certamente me antecipar qualquer coisa de interessante.
Sábado que vem faço a ela esse pedido.
Quem sabe. Quem sabe.
sábado, 19 de agosto de 2006
Achados e Perdidos
Li ontem, no Correio da Manhã, matéria sobre os objetos que acabam por ficar nos Correios por não se encontrar o destinatário, nem ser possível devolvê-los ao remetente.
Muitos desses objetos são curiosos. Mas, para mim, mais atraentes são as características dos destinatários não localizados. Há o "senhor Zé da mercearia em frente à linha de comboio" e há – delícia das delícias – a "menina que passa às quatro da tarde em frente ao café".
Contrário ao que pensa o senhor Pedro Villalva, chefe da Secção de Refugo Postal: "Há muitos malucos", entendo que malucos somos nós, aqueles cuja localização depende de nome de logradouro, número, complemento e código de endereçamento postal.
Experimente enviar para mim qualquer coisa, indicando a aldeia de Passos como destino. Basta dizer para entregar na casa de Alípio e Zelinda. Eles logo perceberão que se trata de correspondência para "os primos brasileiros" e guardarão para mim, para quando chegue lá.
O Asulado quis me dar de presente os cachecóis do Porto e do Olhanense. Enviou-os ao Brasil, detalhando meu endereço. Jamais os recebi. Se os enviasse a Passos de Lomba, Vinhais, eu hoje estaria com eles.
A primeira vez em que me aventurei a percorrer Portugal de carro, em 1.999, fui até Vinhais. Sabia que lá morava uma quase-prima, a Lídia. Ainda de Lisboa, telefonei a meu tio Paulo, aqui de São Paulo, para pedir o endereço da Lídia.
- Pergunte pela Lidia dos Correios.
- Mas tio, e o nome da rua, o número da casa?!
- Não precisa. Apenas pergunte pela Lídia dos Correios.
Meu tio Paulo é militar reformado. Logo pensei: a caserna não lhe fez bem aos miolos.
Ao entrar em Vinhais, chegamos a uma pracinha, o Largo do Arrabalde. Parei o carro. Avistamos um bar. Resolvemos tomar café e perguntar.
Café quentinho, atendente atencioso, criei coragem:
- Por acaso, o senhor conhece a senhora Lídia, dos Correios?
- Pois claro. Mora aqui ao lado. Vamos lá. Deve lá estar o Manoel, o marido.
E foi nesse dia nosso primeiro almoço em casa de Lídia e Manoel.
Como se não bastasse, Lídia me contou que eu tinha duas primas carnais em Passos.
Que eu não perdera porque sequer as havia achado.
E que contribuíram para que minha vida ganhasse novos significados.
quinta-feira, 17 de agosto de 2006
Praga de Ordisi
Meu amigo Ordisi e eu havíamos combinado um chopp pra hoje. Quando me lembrei da decisão da Libertadores, também hoje, não tive dúvida: telefonei pro Ordisi pra adiar o chopp. Afinal, meu criador é sãopaulino. Fazer o quê.
O Ordisi entendeu, mas ficou falando em Internacional pra cá, Internacional pra lá. Não deu outra. Só pode ser praga rogada por ele.
Como bom perdedor, aí vão algumas fotos do Beira Rio, a foto do gol dado de presente ao Internacional pelo – logo quem! – Rogério Ceni e a comemoração do Saci, símbolo do colorado.




Só um comentário ressentido, pra não deixar tão barato: a certa altura, a TV mostrou um santinho colocado atrás de um dos gols do Beira Rio. Disse o narrador que se trata de tradição do clube, a de colocar aquela estatueta atrás do gol. Mas não é o Internacional o clube que nasceu socialista (daí o nome, daí a cor)?
Será que isso é o tal de sincretismo levado aos campos de futebol gaúchos?
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