domingo, 20 de agosto de 2006
Ideias luminosas no Bazar
Nossa filha costuma nos telefonar da Austrália aos sábados à noite. Lá, é manhã de domingo. Ela acorda, toma seu café e depois nos telefona. Fico sempre intrigado com essa história de ela já estar vivendo um domingo que só vou vivenciar daqui a muitas horas.
Ocorreu-me a ideia de pedir que ela me conte meu futuro. Ela, que já está lá, no futuro, pode certamente me antecipar qualquer coisa de interessante.
Sábado que vem faço a ela esse pedido.
Quem sabe. Quem sabe.
sábado, 19 de agosto de 2006
Achados e Perdidos
Li ontem, no Correio da Manhã, matéria sobre os objetos que acabam por ficar nos Correios por não se encontrar o destinatário, nem ser possível devolvê-los ao remetente.
Muitos desses objetos são curiosos. Mas, para mim, mais atraentes são as características dos destinatários não localizados. Há o "senhor Zé da mercearia em frente à linha de comboio" e há – delícia das delícias – a "menina que passa às quatro da tarde em frente ao café".
Contrário ao que pensa o senhor Pedro Villalva, chefe da Secção de Refugo Postal: "Há muitos malucos", entendo que malucos somos nós, aqueles cuja localização depende de nome de logradouro, número, complemento e código de endereçamento postal.
Experimente enviar para mim qualquer coisa, indicando a aldeia de Passos como destino. Basta dizer para entregar na casa de Alípio e Zelinda. Eles logo perceberão que se trata de correspondência para "os primos brasileiros" e guardarão para mim, para quando chegue lá.
O Asulado quis me dar de presente os cachecóis do Porto e do Olhanense. Enviou-os ao Brasil, detalhando meu endereço. Jamais os recebi. Se os enviasse a Passos de Lomba, Vinhais, eu hoje estaria com eles.
A primeira vez em que me aventurei a percorrer Portugal de carro, em 1.999, fui até Vinhais. Sabia que lá morava uma quase-prima, a Lídia. Ainda de Lisboa, telefonei a meu tio Paulo, aqui de São Paulo, para pedir o endereço da Lídia.
- Pergunte pela Lidia dos Correios.
- Mas tio, e o nome da rua, o número da casa?!
- Não precisa. Apenas pergunte pela Lídia dos Correios.
Meu tio Paulo é militar reformado. Logo pensei: a caserna não lhe fez bem aos miolos.
Ao entrar em Vinhais, chegamos a uma pracinha, o Largo do Arrabalde. Parei o carro. Avistamos um bar. Resolvemos tomar café e perguntar.
Café quentinho, atendente atencioso, criei coragem:
- Por acaso, o senhor conhece a senhora Lídia, dos Correios?
- Pois claro. Mora aqui ao lado. Vamos lá. Deve lá estar o Manoel, o marido.
E foi nesse dia nosso primeiro almoço em casa de Lídia e Manoel.
Como se não bastasse, Lídia me contou que eu tinha duas primas carnais em Passos.
Que eu não perdera porque sequer as havia achado.
E que contribuíram para que minha vida ganhasse novos significados.
quinta-feira, 17 de agosto de 2006
Praga de Ordisi
Meu amigo Ordisi e eu havíamos combinado um chopp pra hoje. Quando me lembrei da decisão da Libertadores, também hoje, não tive dúvida: telefonei pro Ordisi pra adiar o chopp. Afinal, meu criador é sãopaulino. Fazer o quê.
O Ordisi entendeu, mas ficou falando em Internacional pra cá, Internacional pra lá. Não deu outra. Só pode ser praga rogada por ele.
Como bom perdedor, aí vão algumas fotos do Beira Rio, a foto do gol dado de presente ao Internacional pelo – logo quem! – Rogério Ceni e a comemoração do Saci, símbolo do colorado.




Só um comentário ressentido, pra não deixar tão barato: a certa altura, a TV mostrou um santinho colocado atrás de um dos gols do Beira Rio. Disse o narrador que se trata de tradição do clube, a de colocar aquela estatueta atrás do gol. Mas não é o Internacional o clube que nasceu socialista (daí o nome, daí a cor)?
Será que isso é o tal de sincretismo levado aos campos de futebol gaúchos?
quarta-feira, 16 de agosto de 2006
Dúvidas insuportáveis
Se é verdade o que o Datafolha apurou - 47% do eleitorado, no Brasil, se diz de direita - por que diabos os motoristas insistem em dirigir sempre na pista mais à esquerda, qualquer que seja a velocidade desenvolvida?
Palpites
Pois é. Lembro quando Jorge Veiga fez uma letra de samba que rimava palmito com palpite. Foi criticado: pô, Jorge, palmito não rima com palpite.
E ele não se apertou:
Não rima no fim, mas rima no início.
Hoje acordei a fim de dar palpites.
Li um conto maravilhoso do Marcio e dei palpite (tira a última frase, Marcio).
Aliás, sempre fui meio assim, de palpites. Já critiquei poemas do Bandeira, do Drummond, do Vinicius.
Como dizem os baianos, sou abusadinho.
Aí, quando vem uma crise de bom senso:
Cara, que vexame! Esses nomes são consagrados. Você tem coragem (petulância é melhor, né não?) de criticar o que eles escrevem? E quando, já já, o Marcio virar escritor famoso? Onde tu vai enfiar a cara?
Eu, que (quase) sempre usei barba, resolvi – belo dia – raspar só o bigode. Logo depois de perpetrado o corte, chega em casa um amigo, poeta, e se espanta.
Me justifico:
- Por que não posso cortar só o bigode? O Soljenytsin é assim!
- O problema é que você não é judeu, muito menos intelectual.
Deixei crescer novamente o bigode.
Agora, parar de dar palpites. Nunca.
sábado, 12 de agosto de 2006
Era uma vez - XXXII
Chegada ao DOI-CODI
Depois de nos deixar no banheiro da casa durante alguns minutos, com um meganha a nos apontar uma metralhadora, minha mulher e eu ali, em pé, dentro do box, como quem premeditasse um banho e tivesse esquecido de despir-se, os homens da OBAN nos levaram para uma perua D20 (ou algo assim. Até hoje nada entendo de automóveis, imagina naquela época. Segundo a Maray, era C14).
Indicaram que nos sentássemos em um banco no meio da cabine. Não me lembro se nos algemaram. O tempo todo minha mulher e eu ficamos juntos.
Ao chegar à Delegacia de Polícia da rua Tutóia (São Paulo) pudemos constatar o que já sabíamos: ela havia sido transformada em fortaleza do DOI-CODI. A Delegacia ficara sendo apenas uma fachada para a estrutura repressiva meio clandestina que o Exército montara ali. A D20 entrou em um pátio e ali fomos convidados a descer e levados até uma sala de espera.
Até aí, descontadas as armas que nos apontaram, o tratamento que nos dispensaram foi quase gentil. Mais tarde aprendemos: as equipes de busca, que eram as que iam atrás dos terroristas e subversivos, eram formadas por profissionais menos boçais. Afinal, eles arriscavam a vida. Já as equipes internas, de tortura, reuniam a escória da humanidade.
Sentados naquela sala, minha mulher e eu, banco de madeira, comecei a imaginar saídas daquela situação. Afinal, eu tinha uma vida oficial. Era professor do Instituto de Matemática e Estatística da USP. Parecia-me que seria relativamente fácil convencer aqueles senhores um tanto agressivos que minha mulher e eu nada tínhamos a ver com o que eles imaginavam.
Queria sair, voltar pra casa.
Começava um intenso aprendizado.
segunda-feira, 7 de agosto de 2006
Parabéns, Bruna
Minha neta completou hoje seis anos. É típica mulher do século 21. Nasceu no ano em que – na minha infância – juravam que o mundo iria acabar. Como os pais foram viver nos USA, está a falar com sotaque. Hoje, quando telefonei para cumprimentá-la, teve nítida dificuldade para conversar em português.
Tenho saudade dela. Tenho – mais ainda – saudade de minha filha. Pergunto-me se essa globalização vai permitir que nos toquemos de vez em quando. Minha mulher tem uma filha que foi viver na Austrália. Meu filho premedita mandar-se para Londres. Barcelona, quem sabe.
Quando eu estiver em Bragança, Portugal, estarei mais próximo de tudo isso.
Como o mundo ficou pequeno, de repente. Ou imenso. Depende de como se olhe a questão.
E a gente precisa evoluir rápido. Pra não perder o pé e afundar.
domingo, 6 de agosto de 2006
Vocação
Na casa de meus pais havia um quadrinho pendurado em alguma parede que chamava minha atenção, em primeiro lugar, por ser tridimensional. Havia nele um cilindro a imitar um tronco de árvore. Nesse tronco, restava fixado um machado. Tudo, claro, em dimensões reduzidas.
O mais notável era a frase escrita no quadro:
Sê como o sândalo, que perfuma o machado que o fere.
Hoje, estava eu a saborear uma cachaça Boazinha e me dei conta de que a dita cuja é envelhecida em tonéis de sândalo.
Pensei que a frase do quadrinho poderia ser ligeiramente modificada:
Sê como o sândalo, que perfuma a cachaça que bebes.
Não. Decididamente não. Não tenho vocação para autor de livros de auto-ajuda.
Pathos
Nos posts de junho de 2.004, que agora estão neste blog, minha perplexidade diante da mulher que tornei impossível, igual assombro perante o Oceano Pacífico, que minha infância julgava diferente, o espanto – meu e de meu amigo Carlos Alberto – face à doce crueldade de nossas mães no trato com as galinhas do almoço dominical, a indignação frente ao hábito de valorizar-se o cedo despertar, a inelutável tristeza de uma despedida e a insubordinação face às complicações da vida moderna.
Etc.
sábado, 5 de agosto de 2006
Correr, corroer
Hoje é sexta. Amanhã é sábado. E assim por diante. Não se pode fazer nada contra esse correr do tempo.
Pode-se eleger uma Constituinte, pode-se nomear o irmão Raul como sucessor, pode-se bombardear o Iraque à vontade, pode-se destruir o Líbano com mil justificativas, pode-se ouvir Elvis, que não morreu, pode-se jogar porrinha no bar da esquina, pode-se torcer pelo Corinthians, pode-se ler Heródoto, pode-se jogar fora o lixo do dia, pode-se jogar fora o dia, um lixo, pode-se mergulhar na piscina, pode-se fazer um monte de sinais esdrúxulos, pode-se vender ambulâncias superfaturadas, pode-se ser candidato-presidente ou presidente-candidato sem saber de nada sabendo de tudo, pode-se morrer em paz.
Só não se pode fazer qualquer coisa contra o correr do tempo.
Não se pode fazer nada contra esse correr do tempo.
O correr do tempo é inexorável. Nada detém o tempo. A correr. A corroer.
Tempocorredor. Tempocorroedor.
terça-feira, 1 de agosto de 2006
Romantismo em Coimbra
Acabo de colocar neste blog todos os posts de maio de 2.004 de meu antigo blog no fatídico Mblog (que está de volta. Cuidado!).
Há posts interessantes. Em particular, um me emociona muito. Este.
domingo, 30 de julho de 2006
Cultura
Hoje dediquei parte do meu domingo a transpor para cá posts do meu antigo blog no Mblog, todos de maio de 2.004.
Quando transpunha o post Melhor que ambrosia (20 de maio de 2.004), percebi que vários links já não remetiam a sites existentes. Tive de substituí-los. Até aí, nada excepcional.
O surpreendente foi quando cliquei no link referente ao Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo. Ele remetia a uma página dentro do site do Teatro Municipal de São Paulo. A tal página já não existe. Mas o endereço
http://www.theatromunicipal.com.br
leva você a contemplar a linda fisionomia do Gabriel Chalita, um camarada folclórico, amigo do peito do Picolé de Chuchu, que era Secretário da Cultura do Estado de São Paulo e, ao que tudo indica, tomou conta do endereço do Teatro Municipal na Internet.Ele é autor de livros de auto-ajuda, já gravou discos com canções (acho que de sua própria autoria), coisas assim.

Portanto, ficamos assim: se o companheiro Lulla for reeleito, a Cultura Brasileira continuará entregue a Gil, dono de um dos mais rocambolescos blablablás já ouvidos em língua portuguesa.
Caso ganhe o Ai-de-mim, nossa Cultura será supervisionada por Chalita.
Na remota hipótese da vitória de HH...
Paremos por aqui.
Basta a cada dia seu mal.
sábado, 29 de julho de 2006
Sangue
“O sangue de Jesus Cristo nos purifica de todo o pecado.” (1º João 1:7)
Parece que os políticos evangélicos fizeram uma interpretação nada ortodoxa desse texto bíblico.
sábado, 22 de julho de 2006
Terra à vista?
Quando o PT revelou ao distinto público seu lado depois-de-tantos-anos-de-luta-a-gente-merece-uma-boquinha, sobrou uma coisa boa, pelo menos na minha opinião: saiu de cena o partido moralistão, cheio de éticas e princípios. Abriu-se espaço pra discutir o que fazer com este país.
Só que tem gente que não desiste. As viúvas do PT-vestal correram pro PSOL, da dona HH.
E dá-lhe discurso moralista. Como interessa aos tucanos inflar HH pra ver se cavam um segundo turno, começaram a jogar azeitona na empada da moça.
Vai ser engraçado (ou trágico, como preferir) se Lolô passar o picolé de chuchu e for pro segundo turno com o Não-sei-de-nada.
Continuamos à deriva.
Querido, vamos matar meus pais?
Todo o bla-bla-bla da sentença que condenou Suzane Richthofen e os irmãos Cravinhos pelo assassinato dos pais dela pode ser resumido assim:
O júri quase absolveu Suzaninha paz e amor. Foi condenada por 4 a 3. Um voto apenas que mudasse e pronto: estaríamos todos autorizados pelo júri a matar pais à vontade.
A pena, então, é uma gracinha. A doce mocinha vai cumprir uns três aninhos mais de tranca e pronto. Aos 26 aninhos, por aí, estará na rua.
Está certo que ela nunca mais matará os próprios pais. Isso eu garanto. Mas, por via das dúvidas, quando ela vier pra rua espero já estar a morar bem longe daqui.
sexta-feira, 21 de julho de 2006
Nojo do Itamaraty
Talvez por estar com uma gripe brava, daquelas de derrubar por mais de duas semanas, estou um tanto iracundo.
O que não significa que tudo que eu diga seja bobagem. Há verdade na raiva. Alguma.
Por exemplo: estou com nojo do Itamaraty. O tal Ministério das Relações Exteriores do Brasil.
Deixa esclarecer o seguinte: quando algum grupo de jovens resolve fazer uma excursão na Serra do Mar e se perde, várias unidades de bombeiros, salva-vidas e o scambau, vão procurá-los. Usam helicópteros, o diabo. Penso que, uma vez sãos e salvos os idiotinhas, o Estado deveria ser ressarcido das despesas pelas famílias dos aventureiros.
Agora. Quando brasileiros (tenham sotaque ou não) estão a visitar parentes no Líbano e surge uma guerra, repentina, penso que o Brasil deveria mandar aviões, navios, submarinos, o que fosse preciso, para garantir a saída incólume desses brasileiros do território libanês e sua volta ao Brasil. Tudo isso muito rapidamente, de preferência antes que morressem vários brasileiros nessa carnificina, como já morreram.
Ao invés disso, o que temos em nossas representações diplomáticas mundo afora é um bando de indivíduos acomodados, que mandam as pessoas desesperadas ligarem na segunda-feira porque a embaixada não funciona aos sábados e domingos.
São tão assassinos quanto os que jogaram as bombas que mataram os brasileiros indefesos que lá ficaram, desprotegidos.
quarta-feira, 12 de julho de 2006
domingo, 9 de julho de 2006
Uma Copa sem vencedor
Itália. Campeã? Pelo regulamento, sim. Meu pouquinho de sangue italiano também fica satisfeito. Mas futebol, futebol mesmo, nada.
Penso que Itália e França deveriam ser proclamadas vice-campeãs.
Zidane expulso por dar cabeçada no adversário, fora do lance. Final fantástico. Chega de heróis, mitos.
Aliás, acrescento: a seleção brasileira, aquela, é a equipe da CBF, Confederação Brasileira de Futebol, entidade de direito privado. Trocando em miúdos, uma empresa como qualquer outra. Aliás, a FIFA exige que as confederações de cada país sejam autônomas em relação a instituições nacionais. Já reparou no escudo brasileiro? Tem CBF escrito. Lá embaixo, um BRASIL, miúdo.
(tente conhecer o Estatuto da CBF. Eu não consegui)
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