sábado, 15 de abril de 2006
Floripa, outra vez, Floripa
Aqui estamos, desde ontem. Viemos visitar minha irmã, aproveitando o santo feriado santo.
Me dá um certo remorso. Talvez, por ser ateu, devesse eu trabalhar na sexta santa.
Por outro lado (sempre há um outro lado, quando isso nos convém), há o preceito constitucional contra a discriminação religiosa. Portanto, não posso trabalhar só porque sou ateu, enquanto os que acreditam em coisas tais como a eucaristia, a multiplicação de pães e peixes e a ressurreição de Lázaro ficam de papo pro ar.
Enfim, gozemos as delícias da Páscoa.
Desejo a todos continuação de boa vida.
Amém.
quarta-feira, 12 de abril de 2006
Caldeirada em São Paulo
Um grupo de amigos portugueses reuniu-se, dia 5, para uma caldeirada regada a vinho e fado. Essa reunião já é hábito de mais de vinte anos.
Os fadistas: Mario Rui, guitarra. Bonfim, violão. E a voz de Conceição de Freitas.
Alguns dos participantes do grupo também cantaram.
Fui convidado por meu (quase) primo Artur que, aliás, forneceu a caldeirada (maravilhosa).
Como não pedi autorização dos participantes para publicar as fotos, aqui vão apenas as que fiz dos músicos.


domingo, 9 de abril de 2006
Ordem na bagunça
Não concordo. Bush quer destruir o Irã.
E o Iraque?
O serviço vai ficar inacabado?
Uma coisa de cada vez, Bush. Acaba de destruir o Iraque primeiro.
P.S.: viu no que deu o Bush parar de beber, Laura.
sábado, 8 de abril de 2006
Assim não dá
Estão querendo acabar com convicções profundas.
Mais: acabar com expressões consagradas.
Por sugestão do Ordisi, fui ler o Jerusalem Post. Acho que o meu caro Ordisi já deu a ideia por pura sacanagem. É muito chato, o JP. A não ser por um artigo sobre o sucesso do teatro alternativo em Tel Aviv, mesmo assim graças ao maestro louco que ilustra o texto.

Em compensação, o Israel Insider está cheio de matérias interessantes.
Mas alto lá!
Depois de anos e anos de malhação do Judas, vêm me contar que Judas e Jesus estavam combinados?
Mais ainda: Jesus não pode mais ensinar o caminho das pedras. Ele andou sobre uma camada fina de gelo.
Durma-se, com todo esse barulho.
Perdoem a falta de escolha, os dias eram assim
A letra de Vitor Martins para a música de Ivan Lins brotou em mim logo que percebi, no Site Meter, que havia alguém, na Noruega, mais precisamente na cidade de Saksvik, região de Sor-Trondelag, sentadinho(a) na Norwegian University of Science and Technology, a ler meu blog durante o dia 7 de abril quase inteirinho. Foram 11 acessos ao longo de 13 horas.
Lembrei-me da década de 70. Era preciso assinar – a peso de ouro – o Le Monde e recebê-lo com uma semana de atraso, pelo correio.
Meus deuses. Como os tempos mudaram. E ainda há quem me diga: precisas colocar tudo isso em livro.
Livro?
Como deveria proceder eu, pra que alguém em Saksvik lesse meu livro?
(guardo um certo pudor de mencionar – aqui – os acessos a meu blog, suas características. Sinto-me, de algum modo, a invadir a privacidade do leitor. Mas, neste caso, a tentação foi irresistível. Perdoe-me o leitor norueguês).
sexta-feira, 7 de abril de 2006
Notícia sem hora nem vez
Segundo o Ghanaian Chronicle, tem um cara lá em Ghana (É. Ghana. Qual o problema?) que parece ser o Roberto Jefferson deles.
O cara era presidente de um partido político (o NPP – New Patriotic Party) e denunciou corrupção no governo.
Tomou um chega pra lá do governo e passou um tempo na moita.
O moço se chama Harona Esseku.
Diria o companheiro Nãossei Nada da Silva:
Esseku não conheço. Mas aquele, o cantor de ópera, me complicou a vida.
Entreouvido no bar
- O técnico do Corinthians é metrossexual. Você também?
- Que nada, cara. No máximo uns 15 centímetros.
***
- O Corinthians ganhou do Universidad Catolica, lá no Chile, com dois jogadores a menos.
- Pois é. Se tirar mais uns dois ou três cabeças de bagre, esse time fica imbatível.
***
quinta-feira, 6 de abril de 2006
Errata
Às vezes, as correções dos erros são mais terríveis - ou engraçadas, ou tristes - que os próprios erros.
Lembro da apostila de Geometria no Espaço em que estudei para o vestibular. Era de autoria do prof. Castrucci. Naquele tempo não havia Word. As coisas eram bem mais complicadas no mundo da edição de livros. Uma vez impresso o texto todo, mesmo após incansáveis revisões, descobriam-se erros. O que era possível: fazer uma folha a ser inserida no final, contendo as correções dos últimos erros detectados.
Foi o que fez o decano professor. E meu exemplar trazia - no alto da última página - o título: ERRETA. Não é de chorar?
Mas pra alegrar este post, aí vai um item da seção Erramos, da Folha de S.Paulo, de 23 de março deste ano (só para assinantes da Folha ou do UOL):
A espécie de tartaruga tigre-d'água-americano possui manchas vermelhas na cabeça, e não uma orelha vermelha, como informou erroneamente o texto "Tartarugas são retiradas da República" (Cotidiano, pág. C8, 9/3). Tartarugas não têm orelhas.
(grifos meus)
terça-feira, 4 de abril de 2006
Nozes a quem não tem dentes?
Vai daí que eu estava a ler o The Sydney Morning Herald, jornal australiano (por que? não posso?) e esbarrei com este artigo.
Se você prefere, eu resumo pra você:
Um economista neozelandês - ou, mais fácil, kiwi – que trabalha como jornalista no Dominion Post de Wellington, Nova Zelândia, ganhou uma bolada de 42,5 milhões de dólares (como o jornal é australiano, penso que são dólares australianos, o que nos leva a pouco mais de 30 milhões de dólares americanos ou 25 milhões de euros).
Como o sortudo ganhou tudo isso?
O filho dele é daqueles geniozinhos da informática e desenvolveu um software, o Kiwi (que, diga-se, eu não conheço). E o diabo do Kiwi (o software, não o neozelandês), foi vendido para a Fairfax pela bagatela de 670 milhões de dólares (novamente, australianos, penso eu). Como o papai do moço tinha 6,7% do negócio, recebeu o que recebeu.
Até aí, mais uma história de sorte.
Acontece que o Gareth (esse é o nome do papai, de 52 anos) sentou pra conversar com a Jo (que vem a ser a mamãe do garotão gênio) e chegaram à conclusão de que era muita areia pro caminhãozinho deles.
Disse o Gareth:
- Eu simplesmente não consigo pensar em quê fazer com isso.
E continuou:
- Eu trabalho porque gosto. Desde que você viva dentro do limite de suas posses, não interessa quanto é o seu salário.
Resumo: vão doar o dinheirão todo pra instituições de caridade.
O único problema deles, agora, é escolher quais.
Pode?
sábado, 1 de abril de 2006
Preces têm preço
Parece que o excelente Diário Ateísta ainda não se ocupou do assunto. Quando o fizer, certamente o fará a sério. Quanto a mim, não posso deixar de brincar com o assunto.
Está na Folha de S.Paulo de hoje (só pra assinantes da Folha ou do UOL).
Mas pode ser lido também no New York Times de ontem (em inglês).
Americanos (e quem mais faria um troço desses?!) fizeram uma pesquisa ao longo de quase uma década com mais de 1.800 pessoas em recuperação de cirurgias cardíacas para verificar o efeito de orações de terceiros na recuperação dos pacientes.
Chegaram à conclusão de que as orações não fazem efeito nenhum.
Pior: os pacientes que sabiam que havia gente orando por eles, esses tiveram mais complicações pós-operatórias, talvez (como sugerem os pesquisadores) graças à expectativa neles criada pelas tais orações.
Sendo assim, e como tenho muitos parentes doidinhos pra fazer oração em favor dos outros, sugiro o seguinte:
Quando eu tiver de operar o coração, desde que eu sobreviva, podem orar por mim à vontade. Pra mim, o máximo que poderia acontecer seria ter mais complicações pós-operatórias. Mas como não tenho nenhuma expectativa em relação ao efeito de tais orações, acho que nem isso vai acontecer.
Agora, pra vocês que estiverem orando, deve fazer um bem danado, né não?
Atualização (2/04/2.006): Pronto, o Diário Ateísta já escreveu sobre o assunto. Aqui.
sexta-feira, 31 de março de 2006
O rei está nu
(mas a rainha tem roupa pra chuchu)
O Chuchu começou sua campanha pra presidente deste país proclamando a necessidade de um banho de ética. Há muuuitos anos, um tal de Jânio se elegeu presidente com uma vassoura. Como a coisa piorou muito, de lá pra cá, parece que agora é preciso jogar água, também. Ou, quem sabe, o Jânio só falava em vassoura porque água não era propriamente o negócio dele. Como, aliás, no caso do atual. Deixa pra lá.
Vai daí, o Chuchu resolveu surfar na onda da moralidade. Só que surgiu um problema, digamos, caseiro (ops!).
Dona Lulu (a mulher do Chuchu) tem um costureiro. Sei lá eu por que cargas d’água (lá vem água, de novo), o designer resolveu botar a boca no mundo e disse que, durante os últimos anos, doou mais de 400 peças de roupa pra Lulu. Tudo de grátis.
Foi um perereco nas hostes tucanas e pefelistas. César Maia anunciou que aguardava explicações.
E, como a única coisa para a qual não cabe explicação é batom em cueca, o Chuchu e seus aspones imediatamente engendraram uma saída: todas as peças haviam sido doadas para uma casa de caridade, em lotes anuais, durante os últimos três anos.
Faltou combinar com a freirinha lá da casa de caridade. A dita cuja informou, candidamente, que faz alguns dias que ligaram pra lá pra doar algumas roupas. Mas que é a primeira vez que isso acontece.
Como candura fica bem em todo mundo, Lulu também resolveu esclarecer que não eram 400 peças, eram 40, só. Ah, bom.
Pra Lulu, não sei quantas peças foram. Mas, o que eu sei, é que em nós eles pregam peça toda hora.
quinta-feira, 30 de março de 2006
Paulo de Tarso Wenceslau
Não por nada, o rapaz devia chamar-se Perdeslau. Vai ser azarado assim no inferno.
Conheci PT (que não se perca pela sigla) na prisão, em 1.971. Na época havia uma controvérsia a respeito de quem teria informado a repressão sobre como encontrar Marighela. Os suspeitos, digamos assim, eram o Paulo de Tarso e os padres dominicanos presos em São Paulo, o Ivo e o Fernando.
PT jurava que não tinha sido ele. E, apesar de eu não me lembrar dos argumentos dele em sua própria defesa, parece que havia algum sentido em suas explicações.
Frei Betto parece que até escreveu um livro (que, óbvio, não li. Tenho mais a fazer) para provar que não foram os dominicanos.
Ficamos assim: parece – a julgar por tudo isso – que deve ter sido o próprio Marighela que ligou pro DOPS e pediu pra ser morto.
Mas voltemos ao nosso garoto, o PT.
Em função das dúvidas sobre quem disse, quem não disse, PT fazia de tudo para agradar a turma guardiã da alma revolucionária. Parece que obteve algum êxito. Alguns anos depois, lá estava ele, fundando o PT (agora sim, o nauseabundo Partido dos Trabalhadores).
Tudo estava a indicar que nosso garoto começava a ter sorte na vida. Mas a alegria durou pouco. Quando teve a ingenuidade de querer denunciar a roubalheira que corria solta nas prefeituras do PT, nosso PT tomou um chega-pra-lá do companheiro Lulla. Foi expulso e execrado.
Agora está aí, às voltas com tentativas de dizer o que sabe sobre Aquele-Que-Nada-Sabe.
PT jamais me pediu conselhos. Mas arrisco um: sai dessa, garoto. Por muito menos, uns tais de Celso e Toninho partiram desta pra melhor.
Não abuse da sorte que a tua já se viu que não é lá essas coisas.
quarta-feira, 29 de março de 2006
Amerai-vos!
Nim deraveis, nim comentóis. Serrimo-nos tercos.
Pátia coíbriga. Pir paledos, tur mansales, sejurnamente desverla-vos intorníveis rametráceos.
Cercônditos dotreitos arpúcios pertemperam mímias zazucréditas.
Tejemo-nos. Boleifas cárpais vocupletam amendos. Encruíveis fastúrias gastufletam solíficas.
Calta.
Habrerá ópegas qui intinedarão toifos us larápulos.
Nium pardem pur espriar.
terça-feira, 28 de março de 2006
Ideias do Meu Bazar
= Se você chuta o balde pra lavar a alma, derrama a água.
= Quando, ao final do expediente, o Palocci ia encontrar a misteriosa Carla na Casa do Lobby, ele não fazia mais do que treinar o que faria com a gente no dia seguinte.
= Se o Jorge Mattoso, por milagre, conseguir voltar à vida pública, sugiro que retorne como Jorge Ressuscittoso.
= Junta Palocci, Buratti, Poletto e não quer que acabe em pizza?
= Lulinha e Telemar: TUDO HAVER.
= LuLLa e Okamoto: o NÃOSSEI e o NISSEI.
= Tá bem. Fui companheiro de militância do Mattoso. Contemporâneo de presídio do Frei Betto (bem verdade que a contragosto de ambos). Dei umas aulinhas de marxismo pro Mantega. Daí a dizer que o culpado sou eu, vai uma certa distância.
Confusão
Confesso que estou confuso. Não porque Palocci pediu afastamento e ninguém sabe o que é isso.
Mas porque a raposa Mattoso (ou seria Jorge Rapposo?) foi lá na PF e entregou o chefe, com casca e tudo. E porque não sei o que faz o ingênuo Mantega no meio dessa história toda. E outros detalhes, pra mim significativos.
O Mantega é genovês. Meu filho, ao passar por Gênova, teve seu carro arrombado e suas malas roubadas. Acho que não tem a ver. Mas, como diria Sarney, parece mau agouro.
Sei lá.
Esse bando de gângsteres que assumiu a República é capaz de tudo e totalmente incapaz.
Dá pra entender?
domingo, 26 de março de 2006
Era uma vez - XXX
Jorge Mattoso, o Renato do POC
Já resumi aqui a formação do POC (Partido Operário Comunista) como junção de dissidência da POLOP com dissidência gaúcha do Partidão.
Essa dissidência gaúcha deu muito trabalho. Liderada pelo Emílio (nome de guerra de Fábio), vivia às turras com a direção nacional, que ficava em São Paulo.
Houve até um episódio divertido, no meio de tanta briga. Mas, pra falar dele, preciso fazer um rodeio antes. Quando comecei a participar de uma OPP (Organização Para-Partidária), adotei o codinome Eduardo. Já quando ingressei no POC, disseram que teria de escolher outro nome de guerra.
Nome de guerra? Escolhi Guerra. Pareceu-me adequado. Afinal, até sisudos revolucionários marxistas-leninistas precisam fazer uns trocadilhos, vez em quando.
Mas voltemos a nossos belicosos gaúchos. Iria haver um congresso regional do POC em Porto Alegre. A direção nacional temia que o pessoal do sul resolvesse romper com o restante da organização. Fui destacado pra representar a direção nacional no tal congresso.
Fui a Porto Alegre, encontrei-me lá com uma militante simpática e um tanto rechonchuda que me levou em seu carro até uma casa de classe média alta na qual ficamos fechados – em infindáveis reuniões – durante todo um final de semana.
Não tive muita dificuldade em aceitar vários dos pontos de vista do pessoal do sul, assim como eles se mostraram surpreendentemente cordatos em relação a minhas opiniões.
Resumo: acordo completo. Tudo resolvido na santa paz.
Voltei a São Paulo e fui encontrar-me com a Taís e o Nicolau na casa que eles ocupavam, no bairro de Moema, casa que eu viria a ocupar quando da viagem deles para a França. Quando lá cheguei, levado pelo Nicolau, estava presente, também o Emir Sader.
A Taís já havia recebido notícias do sul. E perguntou:
- Guerra, como você conseguiu não brigar com os caras?!
Tentei iniciar uma explicação. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, o Emir, que se balançava em uma gostosa cadeira de balanço, disse, como quem pensa em voz alta:
- Que concessões terá feito o camarada Guerra.
A ironia fina do Emir impediu que a conversa prosseguisse em tom sério.
Pois bem. Esse pessoal do sul tinha um representante que morava em São Paulo. Era um gaúcho que conhecíamos pelo nome de guerra de Renato.
Renato atazanava minha vida. Tudo ele contestava, nada estava bom pra ele, jamais. Não sei de seus antecedentes, de como ele foi parar na esquerda, mas tudo indica que teve largo treinamento em assembléias estudantis, pois usava de todos os conhecidos truques usados pelos líderes estudantis pra embaralhar qualquer assembléia e encaminhar as votações para o resultado por eles desejado.
Para cúmulo do meu azar, Renato fazia parte da mesma célula que eu ( o POC era organizado em células, que se reuniam periodicamente). Lembro de um episódio divertido, um dos poucos engraçados ocorrido em nosso tumultuado relacionamento. Combinamos, certa reunião, que todos leriam o 18 Brumário, de Marx, para ser discutido na reunião seguinte. Reunião seguinte, Renato chega eufórico:
- É aqui! É aqui!
Todos o olharam com ar de I beg your pardon.
E ele:
- Eu sempre ouvi essa de que a história se repete, uma vez como tragédia, outra como farsa. Não sabia de onde tinha saído isso.
Esse era Renato. Ingenuozão, porque meio garoto ainda. Mas sagaz na hora de criar chicanas.
Quando fomos presos, Emílio, por ter sido muito torturado e ter visto sua companheira praticamente enlouquecer durante as torturas, recolheu-se, tornou-se cordato. Perdeu, graças aos céus, aquela arrogância que antes exibia.
Já com Renato, passou-se o contrário. A estúpida morte de Nicolau já deixara os homens do DOI-CODI proibidos de utilizarem-se do pau-de-arara. Renato, logo nas primeiras cacetadas que levou, teve um braço fraturado. Foi levado ao hospital e não mais sofreu torturas.
Sentiu-se herói.
Se já era difícil suportar sua atitude quase sempre insolente, daí pra frente a coisa ficou impossível.
Nunca mais conversei com ele.
Entrou para o PT. Sei lá por quais caminhos, caiu nas graças da marquesa Suplicy e seu príncipe encantado Luis Favre.
Virou Secretário de Relações Internacionais da prefeitura de São Paulo durante a gestão da socialite. Foi acusado de gastar os tubos da prefeitura viajando adoidado, mundo afora.
Isso o levou, quando Lulla assumiu, a ganhar a presidência da Caixa Econômica Federal, que ele acaba de desmoralizar, com o affair da quebra de sigilo do caseiro que afirma que Palocci vivia na casa da esbórnia da turma de Ribeirão Preto.
Ao que tudo indica, continua mestre em chicanas.
Sai, satanás.
sábado, 25 de março de 2006
Era uma vez - XXIX
O Prata
Dia desses, alguém entrou em meu blog por meio de uma pesquisa no Google a respeito de Ricardo Prata Soares. Aliás, não é a primeira vez que isso acontece.
Fui olhar o resultado da pesquisa e encontrei isto.
Não consegui descobrir o que disse o tal Luiz Flávio Assis Moura a respeito do Prata. Só pude ler as reações indignadas de parentes e amigos. (ver Nota no fim deste post)
Resolvi, então, falar sobre ele. Para o bem ou para o mal. Espero que para o bem.
Meu interesse, em toda essa história, é iniciar uma conversa com o leitor a respeito da questão da tortura. E também da origem dessa canalha que dominou o PT. Conversa que nunca vai terminar, é claro. Mas que pode ser iniciada e lançada ao vento.
Quando entrei para a Direção Nacional do POC (Partido Operário Comunista) comecei minha convivência com o Hugo. Era um mineiro alto, magro, moreno. Apesar de todo o cuidado que tínhamos com a segurança, era impossível deixar de perceber que ele era mineiro. O sotaque o denunciava ineludivelmente.
As reuniões da Direção Nacional eram em minha casa, um aparelho (casa destinada a operações clandestinas da esquerda) situado em Moema, São Paulo, Avenida Chibarás.
Toda vez que marcávamos reunião (sempre em finais de semana) eu recolhia um a um os membros da direção em pontos (locais de encontro) previamente combinados. Levava-os para o aparelho dando um sem número de voltas, para despistar o destino. Eles, óbvio, de olhos fechados.
Passávamos o final de semana em reunião. A casa permanecia com as janelas fechadas. Ninguém podia saber em que local estávamos.
Nunca houve problema nenhum em relação à segurança, naquela casa. Só quem a conhecia, além de mim e minha mulher, eram o Nicolau e minha mãe (que não aceitara não saber onde eu morava. E eu, estupidamente, lhe dera o endereço). Os vizinhos só denunciaram à polícia alguma movimentação estranha na casa quando o pessoal do DOI-CODI a ocupou e lá permaneceu por quinze dias à minha espera.
Voltemos ao Prata, ou Hugo.
Enquanto eu passava férias em Ubatuba, discutindo com minha mulher nosso futuro, começaram as prisões de camaradas do POC. Prata e sua mulher, Eleonora (*), foram presos, torturados e sofreram ameaças de torturas na filha pequena (tinha uns quatro ou cinco anos, não me lembro bem). É óbvio que Prata resolveu dar algumas informações a seus algozes. Eu, em seu lugar, faria o mesmo. Neste ponto, há uma zona cinzenta.
Em paralelo, Nicolau fora preso ao voltar da França. Ele sabia onde eu morava (ele me passara a casa, antes de viajar). O que ouvi dizer é que Nicolau, pouco antes de morrer, teria dito onde ficava a casa. E que o Prata teria levado a repressão até lá, pois conhecia o local por ter aberto os olhos em alguma ocasião durante o trajeto (ou por ter aberto uma janela da casa durante sua permanência lá). Sei lá. O facto é que essas informações são meio desencontradas. Se o Nicolau disse onde ficava a casa, pra que diabos a repressão precisava que o Prata os levasse lá?
Nada disso me parece significativo, hoje (aliás, nem naquela época).
Para mim, parece mais importante falar a respeito do que aconteceu depois.
Prata e Eleonora ficaram marcados como traidores, colaboradores e outras besteiras que tais. Até aí, nada de tão terrível. Metade do pessoal preso era mais ou menos considerado dessa maneira pelos heróis da ALN. (Só ficou faltando explicar como tantos heróis caíram (foram presos) em seqüência. Coincidência, talvez.)
E aí começa minha divergência em relação ao Prata. Durante infindáveis banhos de sol conversamos sobre a situação da esquerda. Eu, totalmente desiludido, deixava claro que iria abandonar tudo aquilo. Prata me dizia:
Mas como você vai sobreviver sem a esquerda?
Talvez essa frase explique a atual degringolada do PT e do governo Lulla.
O pessoal passou a depender disso pra sobreviver. No começo, eram empregos arrumados aqui e ali em estatais, universidades, centros de pesquisa. Depois, com a criação do PT e a conquista das primeiras prefeituras, começaram os cargos nos governos. E não parou mais. Até atingir o ápice com a conquista da presidência da República.
Continuo admirando o antigo companheiro Prata. Foi sempre pessoa ponderada, equilibrada, dotada de bom senso.
Só que dependia – ou pensava depender – daquela rede de influências para sobreviver. E puxou o saco do pessoal o mais que pôde.
Adoraria sentar em uma mesa de bar pra papear com o Hugo, hoje. Nem sei se ele bebe. Tomaríamos umas cachaças mineiras, recordaríamos velhos episódios.
Bom caráter ele era. Diferente de Jorge Mattoso, o Renato, atual presidente da Caixa, segurando-se no cargo como carrapato, sobre o qual falarei qualquer hora dessas.
Por hora, vamos ficar só no Bem.
Hugo, se você estiver por aí, vamos conversar?
Nota (02/11/2014): Ao preparar a transcrição deste post para o Facebook fui verificar se o link que incluí com comentários sobre Ricardo Prata ainda estava ativo. Ainda está. Como se pode constatar, trata-se de alguns textos que procuram defender o Prata de críticas feitas a ele no número anterior a esse da revista (ou jornal) Revelação. Mas, ao procurar o artigo de Luiz Flávio Assis Moura na edição anterior à do link verifiquei que ele foi eliminado. O restante do conteúdo da revista está lá (http://www.revelacaoonline.uniube.br/2004/arquivo2004/281.html). Mas o artigo que criticava Ricardo Prata desapareceu (chamava-se Marcas da Ruína).
Parece que uma certa tradição stalinista persiste na esquerda brasileira....
(*) Eleonora Menicucci, atualmente (02/11/2014) - e desde 10/02/2012 - Ministra-Chefe da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres do Brasil (governo Dilma). Ela e Ricardo Prata separaram-se parece que já há muitos anos.
quinta-feira, 23 de março de 2006
Saber na ponta do lápis
Parabéns
Subscrever:
Mensagens (Atom)

