quinta-feira, 28 de julho de 2005

Era uma vez - XXVII
As organizações para-partidárias (OPP)


Faz parte do esquemão de um partido marxista-leninista. Organizam-se os simpatizantes que gravitam em torno do partido em grupos de estudo, as organizações para-partidárias (OPP). Nas OPP estudam-se O Capital, o Manifesto Comunista, o 18 Brumário, de Marx, o Que Fazer (cap 2), de Lênin, análises conjunturais publicadas em jornais do partido, coisas assim.
Antes de entrar no POC, fiz parte de uma OPP. Foi a parte mais fecunda de minha militância. Sob a orientação de Reinaldo Lobo, estudamos bastante. Depois, veio Luis Eduardo Merlino, o Nicolau. A ênfase passou a ser mais operacional. Pudera. Reinaldo era (e é. Hoje, como psicanalista) um pensador sofisticado, diria um intelectual, não estivesse essa palavra tão desgastada pelo uso abusivo. Nicolau era um homem de ação. Queria preparar a revolução. Não discutir seus pressupostos ou sua oportunidade conjuntural.
Depois que me tornei militante do POC, uma de minhas atribuições passou a ser a supervisão de uma OPP. Passaram-me um pequeno grupo (quatro ou cinco rapazes) que eu deveria orientar.
Como não havia onde reunir o grupo, passamos a fazer nossas reuniões na casa em que eu voltara a viver com minha mãe. Era um sobrado simples, em uma das muitas vilas características da Vila Olímpia, em São Paulo. Sala e cozinha no rés do chão. Dois quartos e um banheiro, no alto da escada. Na frente havia espaço para um carro, sob uma cobertura Zetaflex. Nos fundos, um quintal bucólico, diminuto.
Marcava encontro com o grupo em algum lugar da cidade e os levava até minha casa. Por se tratar de OPP, não havia maiores cuidados com a segurança. Ninguém ia de olhos fechados, todos sabiam onde estavam.
No final da reunião, alguns dispensavam a carona (/boleia) de volta. Saíam a pé, conversando.
Não me lembro quais eram os componentes do grupo. Só de um, me recordo. Era Guido Mantega, o atual presidente do BNDES, ex-ministro do Planejamento de Lula. E não me lembro dele apenas por ter se tornado notório. Já na época, Nicolau – que me passara o grupo – chamara minha atenção para a figura. Filho de industrial, era da estirpe de Eduardo Suplicy. Filhos da elite, preocupados com o social.
Era um misto de ingenuidade e indignação.
Espero que se tenha mantido incólume, nessa devastação em que mergulhou o governo.
Terá sido dos poucos.

NOTA TRISTE:(texto de 31/10/2014)
Como nesse texto, escrito há mais de nove anos, eu faço referência – e referência elogiosa – a Reinaldo Lobo, preciso dizer alguma coisa a respeito.
Ele e eu nos conhecemos há décadas. Mais precisamente desde o início de 1.968.
Durante esses quase cinquenta anos, contudo, conversamos pessoalmente durante uma dúzia de horas. Pouco mais, pouco menos.
Fomos, de início, colegas na turma de 1º ano do curso de Filosofia da USP. Assistimos às aulas sobre Descartes e sobre Rousseau ministradas, pelo saudoso Roberto Salinas e por Rolf Kuntz. Éramos, até então, apenas colegas de turma.
Quando pouco depois passei a frequentar uma OPP do POC orientada por ele, como digo nesse relato, tínhamos de fingir que não nos conhecíamos. Tratávamo-nos por nomes de guerra.
Reinaldo saiu do POC. Perdemos contacto.
Lá pelo final de 1980, começo de 81, como eu estivesse a viver uma crise pessoal, comecei a procurar antigos conhecidos, como tentativa de romper o isolamento em que vivia desde a saída da prisão. Um dos que procurei foi Reinaldo. Recebi com enorme prazer a visita dele e da esposa. Soube, nessa ocasião, que ele se preparava para tornar-se psicanalista e afastar-se do jornalismo.
Ele prestou-me, então, o primeiro grande favor: indicou-me três nomes de psicanalistas para que eu escolhesse um.
Escolhi – e fui aceito por – o dr. Luiz Meyer. Foram cinco anos de quatro sessões semanais que me ajudaram de modo inestimável.
Como logo em seguida me separei de minha primeira mulher, Reinaldo e esposa – que tinham filhos na mesma faixa de idade dos meus – passaram a ter mais contacto com minha ex-esposa. Eu o encontrava acidentalmente vez ou outra, como em uma ocasião em que nos esbarramos em Buenos Aires.
Já na primeira década deste século, por ter um sobrinho que é excelente repórter fotográfico mas estava desempregado, telefonei a Reinaldo para perguntar se ele poderia ajudar a arrumar emprego para meu sobrinho. Reinaldo foi de extrema gentileza e prontificou-se a redigir cartas de apresentação de meu sobrinho a vários amigos dele em postos de direção em meios de comunicação . Meu sobrinho foi ao encontro de Reinaldo e pegou com ele as cartas. Infelizmente, por razões que me escapam, não as utilizou. Esse foi o segundo grande favor que Reinaldo me prestou.

Independente do que digo no que segue, serei sempre grato a Reinaldo Lobo por essas duas grandes ajudas que me deu.

Voltamos a nos reencontrar no Facebook. Eu já morava cá em Portugal. Uma das coisas que me atraíram, no Facebook, foi a possibilidade de “conversar” amiúde com Reinaldo.

A nossa conversa, todavia, não começou lá muito animada. Escrevi um texto sobre assunto religioso (já não me lembro qual era o tema) e Reinaldo comentou que estranhava que eu perdesse tempo com assuntos assim. Fiquei surpreso. Nunca imaginei que um intelectual, mergulhado até a alma em uma civilização judaico-cristã (como é – queira ou não queira – qualquer pensador, ao menos no mundo ocidental), pudesse achar ocioso tratar de assuntos bíblicos.

Mal sabia eu que a procissão ia ainda no adro.
Desde que Reinaldo percebeu que eu não era mais de esquerda, a avalanche começou.
Toda vez que eu fazia comentários discordantes das opiniões dele, lá vinha insulto pessoal.
Tentei vez ou outra reclamar dessa agressividade. Entrava então em cena o psicanalista a afirmar que sabia ser eu uma pessoa excessivamente sensível.

Até aí eu relevei.
Meu limite foi atingido quando, em primeiro lugar, ele relatou no Facebook que – durante a ditadura – ficou em prisão domiciliar. Disse que até comemorou com um jantar entre amigos o fim de sua “detenção”.
Se a Esquerda reclamou imenso da Folha de SPaulo o uso do neologismo “ditabranda”, Reinaldo Lobo, com sua “prisão domiciliar” ofereceu o Quod Erat Demonstrandum de tal brandura.

Estranhei o absurdo da afirmação, mas cada um fica preso do jeito que pode ou do jeito que sonha.
Mas acendeu-se uma luz amarela. Algo de podre podia deduzir-se de tão esdrúxula história.

A luz vermelha brilhou quando, ao escassearem seus recursos de ofensa, resolveu dizer que minha militância na Esquerda ter-se-ia devido a que – cito – na época era moda.

Tenho visto que as agressões não se dirigem só a mim. Muita gente que comenta as coisas que Reinaldo escreve acusa os golpes que ele desfere. Deve ser gente muito sensível... Se continuam a tentar debater com ele, é problema de cada um.

Quanto a mim, não gosto de discordar da posição de alguém sobre qualquer assunto e receber como réplica alguma consideração pejorativa a respeito de minha personalidade. Não gosto de psicanálise vendida em armazém de secos e molhados.

Enfim, Reinaldo Lobo, sei que você terá argumentos contra mim. Para variar. Afinal, quem vive no mundo da lua trotskista no ano da graça de 2.014 explica qualquer coisa. Até batom em cueca.
E certamente toda esta minha conversa não afetará em nada suas convicções belicistas.
Mas, para mim, você foi a grande tristeza de 2.014.
Por sorte, um ano cheio de alegrias.

Continue firme em suas lutas. Mas vira essa lança pra lá.

quarta-feira, 27 de julho de 2005

Parabéns, Léa


Em 1.954 minha família foi morar em um sobrado novinho, situado na rua Dom Lara, em Santos. Rua nova, recém asfaltada, que alternava casas modernas com terrenos baldios e cortiços. Faltava iluminação pública.
À noite, depois do jantar, quase sempre, meus pais sentavam-se no sofá da sala. Minha irmã mais velha ia para o piano. Minha irmã Léa e eu ficávamos cada um de um lado do piano. Durante hora, hora e meia, cantávamos canções populares. Minha irmã mais velha, além de tocar piano, fazia o contra canto. Léa fazia a segunda voz, contralto que é. Eu cantava a melodia, fazia a parte mais fácil. Era um tal de Índia, Que beijinho doce, e vai por aí.
Um dia, ao terminarmos uma canção, ouvimos, da escuridão da rua, aplausos. Fomos até a janela e lá estava a garotada do cortiço vizinho, aboletada no murinho que fechava a frente da casa. Ficamos encabulados. Mas felizes, pelo reconhecimento popular.
Essas quatro pessoas foram as que me formaram o caráter. Meus pais e minhas duas irmãs. Claro que o resto do mundo participou dessa construção. Afinal, a culpa não podia ser só deles. Por exemplo, foi nesse sobrado que vi Regininha Evangelista, filha do ex-ponta esquerda do Santos F.C., Evangelista, da linha dos cem gols (Siriri-Camarão-Feitiço-Araken-Evangelista), a melhor que o Santos teve até Dorval-Mengálvio-Pagão-Pelé-Tite, chegar chorando e anunciar a minha mãe o suicídio de Getúlio. Notei minha mãe ficar com olhos vermelhos. Compreendi, naquele instante, a força do baixinho.
Mas esses quatro são os meus maiores heróis. Já falei, neste blog, de meu pai, de minha mãe, de minha irmã mais velha. Hoje quero falar de minha irmã Léa. Só porque – hoje – ela completa mais um aninho de vida.
Por mais que os outros três sejam fundamentais, nada se compara à importância da Léa em minha vida.
Por quê? Há montes de razões. Ela segurou minha barra, quando meu pai morreu. Se não fosse ela, não teria feito engenharia. Não teria feito nenhum curso superior. Teria de ir trabalhar em algum balcão e fim de papo.
Quando fui preso, ela arrumou um jeito de ir me visitar uma vez por semana, sob pretexto de estudar matemática comigo.
Para meus filhos, ela é até hoje a tia ideal.
E tem mais, muito mais.
Mas nada disso é o que importa. O essencial é que ela foi a minha grande amiga na infância. Eu morria de medo de dormir. Apesar de nós três, os filhos, compartilharmos o mesmo quarto, ela juntava a cama dela à minha, pegava em minha mão e dizia:
- Beto, boa noite. Faz oração e dorme.
Eu orava, segurando a mão dela. Pedia a Deus que nos protegesse. Em seguida, mergulhava no sono que aquela mão me propiciava.
Muitos anos passaram. Vivi situações limite. Nelas, segurava na mão dela, e ouvia dela
- Faz oração e dorme.
Não orava mais. Faltava-me um deus a quem orar. Mas dormia apertando aquela mão, que nunca me abandonou.
E que vou morrer segurando.
Parabéns, mana.

terça-feira, 26 de julho de 2005

As voltas que o mundo dá


Às 13:37 de hoje, entrou no Brasinha, restaurante popular do centro de Osasco, um acanhado João Paulo Cunha, na companhia de cinco indivíduos (assessores?), todos em trajes pra lá de informais. João Paulo vestia camiseta branca debaixo de um velho casaco jeans. A barba estava por fazer havia uns dias. Cumprimentou com leve aceno de cabeça algumas pessoas de mesas pelas quais passou até sentar-se ao fundo do salão.
Não esperei para ver que prato iria pedir. Mas deve ter sido espaguete, talharini ou capeleti. Algo assim. É o único contato com as massas que ainda resta à velha cúpula petista.

segunda-feira, 25 de julho de 2005

Era uma vez - XXVI
Os torturadores e Karl Liebcknecht


Os primeiros dias da tortura são sem palavras. No máximo gritos e imprecações. Pauleira pura.
Depois de alguns dias, começa uma grotesca mistura de tortura e interrogatório.
O torturador/interrogador (que obviamente mantém-se no anonimato, mas – sabe-se – é quase sempre um oficial do exército. Os investigadores de polícia não têm grau de cultura para interrogatório. Ficam restritos ao pau) senta-se de um lado da mesa. O preso do outro. Entre os dois, sobre a mesa, bloco de anotações e a rudimentar máquina de dar choque, com seus dois fios a serem ligados ao corpo do torturado e sua manivela que gera energia mecânica a ser transformada em energia elétrica que, por sua vez, se transformará em choques elétricos. Quando a resposta a uma pergunta não satisfaz, parte-se para alguns choques. E assim a coisa vai, até o torturador enjoar, terminar seu turno de trabalho ou sei lá qual motivo (nunca atinei com os critérios que determinavam a duração do interrogatório).
Certo dia, estava eu em uma sessão dessas, quando me perguntaram:
- Por que, afinal, um rapaz como você, engenheiro, professor da USP, se mete numa aventura dessas?
Lembrei-me de um livro que lera pouco antes de ser preso. Uma tradução francesa das obras completas do revolucionário alemão Karl Liebcknecht. Diga-se a bem da verdade que obras completas é expressão um tanto pomposa para o conjunto de panfletos escritos pelo dito cujo. Mas uma frase dele havia ficado em minha memória. E eu a utilizei para tentar explicar ao energúmeno que me dava choques e esperava por respostas a suas indagações imbecis, o porque de ter feito o que fiz:


O possível só é atingível através da tentativa de se atingir o impossível.


O estúpido nada entendeu, claro.
Eu, hoje, não a subscrevo. Mas que me emociona, ah. Isso sim.

domingo, 24 de julho de 2005

sábado, 23 de julho de 2005

Saques e sexos


Nos dias que correm, com dinheiros sendo sacados a rodo de bancos, de malas, de cuecas, já não dá pra falar de Caixa 2. Não é à toa que o companheiro Delúbio prefere falar em dinheiro não contabilizado. É porque agora há Caixa 2, Caixa 3 etc etc. Com o sexo acontece coisa parecida. Já não existem os quatro sexos tradicionais. Virou festa. Leia sobre isso na nova edição da Revista Engrenagem. É só clicar na figura aí e fazer sexo(s).

Se eu fosse do outro sexo

Qual é a moeda?


Brasileiro já se acostumou com mudança de moeda. É mais ou menos assim: cada presidente tem a sua. O Sarney tinha o cruzado. O Collor reinventou o cruzeiro. O Fernando Henrique criou o real. Até aí, já não me surpreendo.
Mas, vem cá: olha só a notícia que saiu hoje no Claudio Humberto:

Duas ordens de pagamento saíram das contas da agência DNA e foram parar na Fundação de Apoio à UFRGS (uma de R$ 512 mil, de novembro de 2003, e outra de R$ 256 mil, de fevereiro de 2004).

Isso ainda é Real ou já estamos falando de KBytes?

quinta-feira, 21 de julho de 2005

Há o que comemorar?


Está chegando ao fim o depoimento do Delúbio. É claro que vai sair da CPI e comemorar com seu advogado (o mesmo de Maluf). Devem ir jantar em algum lugar e brindar ao show que Delúbio deu na CPI. Tudo é festa, na cabeça deles.
Mas, terá valido realmente a pena?
Sei lá. Neste país, tudo é possível.

Dá dó


Os meliantes (disse meliantes? desculpem, quis dizer militantes) do PT estão a tentar a salvação da própria pele. Onde pensam que vão chegar? As provas estão brotando. Não há como postergar mais. O fim será o impedimento de Lula e o enterro do PT. A corrida ao pote foi muito exacerbada.
Agora, é o salve-se quem puder.
Triste, mas inevitável.

Déjà vu


Quando começou a CPI do PC Farias, nos idos de 1.992 (ou foi 91?), todos procuravam preservar o presidente Collor (menos o PT, é claro). Aos poucos, foi ficando evidente o envolvimento do presidente com todo o esquema de corrupção. Mas a chamada tropa de choque do Collor (que incluía Roberto Jefferson) procurou – desesperadamente – inventar explicações para o imenso roubo então em discussão. Surgiu a operação Uruguai, surgiram outras desculpas esfarrapadas.
Acontece que detalhes pequenos, insignificantes para quem – como os homens do Collor – sabia de tudo, derrubaram as bolações montadas pelos juristas a serviço do governo.
O Elba (Fiat) comprado por fantasmas do PC e utilizado pelos servidores da Casa da Dinda, do presidente Collor, serviu pra derrubar todas as desculpas. Um mísero Elba, diria Collor. Carrinho vagabundo.
Agora, as coisas se repetem. O tal Silvinho, do PT, ganhou um Land Rover de uma empresa beneficiada pelo governo. É uma titica. Como diria Bob Jefferson, uma peteca. Mas, convenhamos, melhorou o nível. De Elba a Land Rover, estamos melhorando. Mas o jipinho que o Silvinho ganhou de brinde pode ajudar a cavar seu túmulo político. E o de sua turma.
Da mesma forma, diria que o pessoal do PT não está levando a sério a lei da gravidade.
Depois que a crise começa, a bola de neve vai rolando morro abaixo e aumentando, aumentando.
Vão aparecendo os documentos, as secretárias, os motoristas, enfim, durante a queda vai passando o filme da sacanagem geral.
No tempo do Collor, dizia-se que não era bom derrubá-lo porque o vice, que teria de assumir, era uma figura caricata, um mineiro ridículo. Pois bem. O tal mineiro assumiu, presidiu o país, implantou o plano real e coisa e tal. Entregou o país ao dondoca Fernando Henrique, a Maria Antonieta do planalto.
Agora, diz-se que é melhor manter no poder um Lula desidratado do que entronizar um mineiro maluquete, o José Alencar.
Por que fui alugar um DVD com o mesmo filme que já tinha assistido? Estraguei meu fim de semana.

quarta-feira, 20 de julho de 2005

Problemas e problemas


Por essas e por outras é que não vejo a hora de morar lá no meu nordeste transmontano. Enquanto cá no Brasil temos de discutir se o Dirceu é mesmo o que se diz ser, se haverá sobreviventes do Delúbio, se o Marcos Valério pagava excesso de bagagem para as malas do mensalão, se o Genoíno é falso, se o Genro vai por ordem na casa da sogra em que se transformou o PT, se Lula ainda está no prazo de validade, lá pertinho da minha aldeia de Passos, numa cidade mais povoada, Macedo de Cavaleiros, a questão candente neste momento é:
Deve-se regar durante toda a noite a sementeira de relva plantada na rotunda de Travanca, considerando-se a época de escassez de água vivida por toda a região?
Sentiu o drama?

quinta-feira, 14 de julho de 2005

Era uma vez - XXV
Começo de vida no Presídio Tiradentes


O pavilhão 2 do Presídio Tiradentes tinha dois andares. No térreo ficavam os presos correcionais (corró) e as ratazanas. Depois da transferência do corró sobraram só os ratos. No segundo andar ficavam os presos políticos (a rigor, os presos incursos na Lei de Segurança Nacional. Isso incluía uns poucos indivíduos presos por motivos não políticos, por exemplo, porte de arma privativa das Forças Armadas).
O segundo andar consistia em um largo corredor (a “Ala”) com as celas ímpares de um lado, as pares do outro. A ala não era visível do início ao fim. Havia duas paredes que a dividiam em três partes. Claro, essas paredes tinham portas que permitiam a circulação por toda a ala. Porta de saída, mesmo, só na extremidade inicial da ala.
Talvez porque o forte de quem organizou o presídio não fosse a matemática, a cela zero ficava do lado das celas ímpares. Exatamente por esse detalhe, acho contraditória a existência de uma cela zero. Isso de começar a contar de zero, isso sim, é coisa de matemático. Sabe-se lá.
O facto é que a cela zero era grandona. Nela cabiam dezenas de presos, acomodados em beliches. Depois da saída do corró, quando conseguimos melhorias em nossa situação carcerária, uma dessas melhorias foi a transformação da cela zero em cela de artesanato. Nela, fazíamos trabalhos em couro com a técnica de batique
Quando cheguei ao Presídio Tiradentes, a norma era todo mundo recém-chegado ser levado para morar na cela zero (demorei pra me acostumar com essa história de dizer "moro na cela tal". Mas a gente se acostuma com tudo). Lá fui eu. Durante os dias em que lá fiquei, li Cento e vinte dias de Sodoma e Gomorra, do Marquês de Sade. Era o que havia disponível. A longa introdução (umas cinqüenta páginas) é obra prima. Pra quem ainda não leu, recomendo. Talvez não valha a pena ler o livro propriamente dito. Pelo menos quem tem estômago sensível.
Foi então que me convidaram pra ir morar na cela 12, lá no Fundão. O Fundão era a última das três partes em que se dividia a Ala. De um lado, celas 12, 14, 16 e 18. Do outro, 15, 17, 19. Acho que era assim. Já não tenho tanta certeza de quais eram as últimas celas. Talvez houvesse as celas 20 e 21. Também não faz diferença. A não ser, claro, pra quem nelas eventualmente morasse. Quem me convidou, não lembro. Só sei que moravam lá na 12 dois militantes do Partidão e o Ismael, um antigo militante sindical que passara alguns anos no Partidão mas depois aderira à luta armada. Fomos para lá Toninho, Melo, Jonas e eu, todos do POC.
Dos dois “velhos” do Partidão, um deles era retraído, quase não se manifestava. O outro, o “Vô”, tinha um estribilho pra expressar a idéia de que algo era óbvio:
- Isso é coisa já vista.
Quanto ao Ismael, vivia a censurar os luxos da alta burguesia de um modo que me levava a brincar com ele:
- Ismael, você não tem ódio de classe. Você tem é inveja.

quarta-feira, 13 de julho de 2005

terça-feira, 12 de julho de 2005

O mamute e o PT


No meu antigo blog (no fatídico Mblog) já tinha colocado a música do Mamute. Agora, a situação do Partido dos Trabalhadores me pede que volte ao Mamute.
Som na caixa.
(fora que é um barato, independente dos dirceus e genoínos e lulas et caterva).

segunda-feira, 11 de julho de 2005

domingo, 10 de julho de 2005

Feitiço contra feiticeiro


Essa é melhor do que tudo que a CPI mostrou até agora. O apresentador de TV João Kleber, indivíduo que, de amigo de Collor, virou açoitador da paciência alheia com seus programas de TV inimaginavelmente calhordas, tem um item (digamos assim) de seu programa de TV que se chama Teste de Fidelidade. Funciona assim: ele coloca no palco uma pessoa que desconfia que a(o) companheira(o) o(a) está traindo. Cria-se, então, uma situação na qual a(o) tal companheira(o) é colocada(o) em cheque, assediada(o) por um ator(atriz). É claro que tudo é arranjado. É tudo uma grande encenação. Mas a coisa dá audiência. Daí que ele já vendeu o programa para vários países do mundo, inclusive (e isso é que me dói) para Portugal. Já não bastam as novelas da Globo. Agora Portugal vai ter Teste de Fidelidade.
Eis que leio na coluna do Giba Um (09 a 11 de julho de 2.005):

Traição na justiça
Corre na justiça, sob sigilo, processo de separação do apresentador João Kleber de sua mulher, Wânia Guerreiro Barros. O apresentador descobriu que ela o traía com um ator do programa Teste de Fidelidade, chamado Roger. Kleber e Wânia eram casados há nove anos e ela chegou a dirigir o programa dele na Rede TV durante algum tempo. Antes de Kleber, Wânia foi namorada de Paulo César Farias.

Quem sabe ela, agora, não resolve namorar o Delúbio.

sábado, 9 de julho de 2005

Minhas crenças desmoronam


Até agora há pouco, acreditava piamente que:
"Tudo tem explicação. Menos batom em cueca."
Tenho que abrir mão de mais esta crença. Admito que os 100 mil dólares na cueca do assessor do irmão do Genoíno também não se explicam.
Paciência.

sexta-feira, 8 de julho de 2005

Depois do temporal



O número 12 da Revista Engrenagem já está nas e-bancas. Pegue seu e-xemplar aí embaixo.

É só clicar aqui
Como a chefinha me deixou de fora, desta vez (ou será que ela me confundiu com o Zé Dirceu e me mandou embora pra sempre?), meu texto vai aqui, neste post:

Depois do temporal
XR-173-14-03 saía da loja quando deu de cara com MH-45-123-01 que passava, distraído.
- Tudo bem?
- Beleza. E você? Fazendo compras?
- É. Vim comprar um pacote de contagem regressiva.
- De quanto?
- Oitenta.
- Ah. Eu prefiro os menores, de vinte, trinta no máximo. Pra mim, o melhor é quando chega em cinco, quatro, três ... com todo mundo gritando junto.

MH-45-123-01 despediu-se. Alegou que não queria correr o risco do temporal pegá-lo antes de chegar em casa.

XR-173-14-03 voltou a sua lista de compras. Não queria esquecer nada. Algumas quadras adiante, entrou na loja de TM-42-12-01. Gostava de lá. Era uma loja que vendia os melhores nadas do mercado. Insuperáveis. Pediu uma meia dúzia, já que, em casa, não havia mais nada. TM-42-112-04, a filha mais nova de TM-42-112-01, embrulhou os seis nadas com cuidado. Não fossem amassar no trajeto. XR-173-14-03 despediu-se de TM-42-112-04, não sem antes percorrê-la com os olhos, alto a baixo. Como era sensual, essa menina. Ainda bem que comprara umas camisinhas. Mais tarde, em seu quarto, poderia praticar masturbação segura.

Ainda teve tempo de comprar uns pacotes de gelo e chegar até onde estava o carro. A chuva começou. Forte como sempre.

Da avenida TM até sua casa, na rua XR, 173, demorava não mais que 35 horas. Era perto. Aproveitou o tempo para fazer o que mais lhe agradava, durante o temporal: pegou no porta-toalhas algumas bem quentinhas e pôs-se a enxugar gelo interminavelmente.

Uma vez em casa, desfez-se dos pacotes e beijou XR-173-14-02, sua mãe.

- Compraste nada? perguntou ela.
- Claro, claro. E também me lembrei de seus botões. Assim você tem com quem conversar, quando não há ninguém em casa.
- Obrigada. O temporal hoje demorou mais do que de costume, não te pareceu?
- Não notei. Penso que não. Enxuguei a mesma quantidade de gelo de sempre. Além do que, esse temporal só aconteceu por ser o tema da quinzena. Senão nem teria chuviscado.
- Então descansa um pouco. Vou preparar-te uns sonetos, de aperitivo.
- Prefiro alguns microcontos, se não se importa.
- Tudo bem. Pelo visto, estás todo prosa, hoje.


Se quiser ler esse conto com fundo musical, prefira Stand by me, clássico gospel, gravado por Elvis Presley, provavelmente depois de algumas carreiras de pó nada evangélico.

quinta-feira, 7 de julho de 2005

PROTESTO


O ex-tesoureiro do Partido Liberal, partido acusado de receber o "mensalão", chama-se Jacinto Lamas. Assim, não brinco mais. É muita piada pronta.
(quando será que ele começou a sentir a lama?)

quarta-feira, 6 de julho de 2005

Prova cabal


A CPI dos Correios, boa parte da imprensa e quase toda a população brasileira anda atrás de provas do comprometimento entre o tal Marcos Valério e o PT. Ao ouvir parte de seu depoimento agora de manhã na CPI dos Correios, cheguei à conclusão de que realmente ele tem tudo a ver com o PT e com o governo Lula:
Marcos Valério tem língua presa!!!

terça-feira, 5 de julho de 2005

Faz tempo


Belo dia de 1.989, já em clima de eleição presidencial, tive de almoçar no centro do Rio de Janeiro com dois lobistas da pesada. Eles conversavam, eu saboreava a conversa (além da comida, é claro).
Um deles estava preocupado com o futuro de seus negócios, caso Lula fosse eleito.
- Com o Lula não tem esquema.
O outro concordou com a afirmação mas tranqüilizou o parceiro:
- O que interessa não é o Lula. É o pessoal em volta dele. E, aí, tem muita gente de esquema. Não se preocupe.
E confidenciou:
- O X Y, por exemplo, é loooouuco por um esquema.


(como eu não fiquei doido, ainda, não digo quem é o X Y. Apenas pra aguçar os palpites: trata-se de petista respeitadíssimo, com algo em comum com os tucanos. Tucanos pássaros, não tucanos do PSDB).

Vê-se, agora, que há muuuuiiitos outros “loooouucos por um esquema”.

Genoíno, genuíno


No final dos anos 60, fui presidente do Centro Acadêmico da Filosofia da USP. Nunca fizera política estudantil. Detestava essa coisa. Mas fui escalado pelo POC pra essa tarefa. Lá fui eu. Tive atitudes das quais me arrependo. Chamei a professora Gilda de Mello e Souza (mulher de Antonio Cândido) de autocrática, em uma assembléia estudantil. Justo ela, de sensibilidade apurada, um doce de pessoa.
Também, graças a isso, tive de conviver com os 'donos' da UNE à época. Eram dois, graças a um acordo entre PCdoB e AP: Genoíno e Honestino. Tive menos contato com Honestino. Mais com Genoíno. Era uma múmia, pra dizer o mínimo. Ignorante, desinformado, um lixo. Mas - é evidente - bom de gogó. Afinal, ninguém chega a presidente da UNE sem gogó.
Depois, houve o assassinato de Honestino e a prisão (tanto a de Genoíno quanto a minha), o tempo de presídio (não nos cruzamos nesse período).
Alguns anos depois, Genoíno apareceu para a política convencional. Eu, na anônima condição de eleitor, comecei a votar nele, impressionado por aquilo que eu considerava evolução. Deixara de ser aquele panaca do movimento estudantil. Passara a demonstrar discernimento inimaginável, anos antes.
Durante muito tempo, admirei a evolução de Genoíno. Enquanto esteve no Legislativo, na oposição, me pareceu que exercia papel relevante. Chegado ao poder, deslumbrou-se, como outros tantos. É claro que tudo isso deve ter sido um processo, com etapas. Não as conheço. Só as imagino.
Hoje assisto a seu fim. Percebo que ele ainda acha que vai conseguir enrolar todo mundo e se manter na superfície. O político rolha que sempre foi. Afinal, sempre teve êxito em seus estratagemas.
Vai, Genoíno. Vai em frente. Ainda não percebeste que acabou.
É o fim, Genoíno. Genuíno fim.
A assembléia acabou.

terça-feira, 28 de junho de 2005

Isso é que é narração


O jogo Brasil x Argentina, sub-20, foi narrado no portal UOL, quase que minuto a minuto. Vejam só a narração dos três gols da partida (os argentinos venceram por 2 a 1):

1º gol (1º tempo):
5 min – Brasil pressiona a Argentina, que não consegue passar do meio-de-campo.
6 min – GOL DA ARGENTINA! Brasil sai jogando errado e a bola fica com Messi
etc etc etc.

2º gol (2º tempo):
27 min – Brasil toca a bola no meio-de-campo. Sem criatividade, não consegue chutar a gol.
29 min – GOOOOOL DO BRASIL!!! Rafael Sobis cobra falta
etc etc etc.

3º gol (2º tempo):
42 min – Argentina pressiona mais, mas não consegue chegar com objetividade ao gol.
(...)
47 min – GOL DA ARGENTINA!!! Messi faz boa jogada
etc etc etc.


Sem querer ofender ninguém. Mas que tal esse narrador procurar outra profissão?

segunda-feira, 27 de junho de 2005

44 anos sem ele


Pastor Alberto Augusto
Quando ele morreu, saí do velório direto pra garagem de casa. Tirei o carro e saí pra dar uma volta na Santos quase deserta do início dos anos sessenta. Ele não me deixava dirigir. Agora, esse era o primeiro sabor da fruta Liberdade.
Outros sabores vieram, com os anos.
Ao lado da Liberdade, cresceu a Falta. Cheia de sabores, também ela.
Hoje, tudo se funde em lembranças ricas. De lições, de saudade.
Como é bom, ter tido um pai assim.

sexta-feira, 24 de junho de 2005

Deus limitou a inteligência,
não a estupidez


E no meio dessa confusão toda em que se meteu a política brasileira, eis que o que me chamou mais a atenção foi o detalhe revelado pela briga entre um presidente de partido (o Liberal) e sua ex-mulher (ah, as ex):
Ele teria comprado todo o mobiliário para sua residência em Brasília com dinheiro do partido. Em particular, teria mandado gravar suas iniciais nos cabides de suas roupas.
Minha imaginação vai a mil. Cabides gravados com iniciais. Haverá mais requintes nesse mar kitsch?

quarta-feira, 22 de junho de 2005

Último desejo


Durante muitos anos, enquanto jovem, alimentei a convicção de que o ideal seria morrer transando.
Hoje, aos sessenta, me pergunto se não seria melhor morrer comendo uma atemóia.

Atualização: atendendo a pedidos, ei-la:

Não é uma gracinha?

segunda-feira, 20 de junho de 2005

A Coisa


Estava distraído. Mas percebi que o papel higiênico acabara. E percebi a tempo. Sorte minha. O que me chamou a atenção foi que haviam deixado bem visível o...

Qual o nome disto?
O... o quê?
Pensei que deveria haver um nome para isso. Afinal, o que se espera de uma linguagem é que ela contenha nomes específicos para cada entidade específica. Além, claro, de nomes para espécies, coletividades etc etc.
Lembrei logo de Gilberto Freyre, que em Casa Grande & Senzala anota o hábito brasileiro de chamar qualquer vegetal de mato e qualquer animal de bicho. Para ele, isso resulta da quase infinita exuberância de nossa natureza tropical.
Lembrei, em seguida, de José Carlos Barros, o poeta de Boticas, que fala em tílias e urze, colmos e giesta negral.
Não disponho de tal vocabulário. Visto está que não é culpa da língua. Tudo advém de minha composição urbana, absolutamente citadina.
Agora, cá entre nós: há algo mais urbe que um rolo de papel higiênico? Certo que não. Portanto, eu – habitante típico de burgos – deveria saber o nome de seu núcleo.
Pois é. Nossa familiaridade com os rolos de papel higiênico nos obriga a conhecê-los em todos os seus aspectos, detalhes. E sua utilização continuada nos leva a seu miolo, seu cerne. Como se chama essa coisa?
Cilindro higiênico?
Não.
Sustentáculo do papelório? Decididamente, não.
Canudo-indicador-de-fim-de-linha? Sem comentários.
Sugestões, se faz favor.

segunda-feira, 13 de junho de 2005

Engenheiro tem de ser engenhoso


Hoje há profissões aos montes. Mais que gente. Já cansei de ver, por exemplo, cientistas políticos aparecerem na TV para discutir os mais variados assuntos. E quem disse que política é ciência. Provavelmente, algum cientista político.
Quando eu tinha aquela idade em que a gente tem de escolher uma profissão, ou seja, aqueles 15 ou 16 anos em que a enorme experiência acumulada facilita bem as decisões, havia mais parcimônia nesse negócio de carreiras. Um fulaninho de classe média, no Brasil, tinha de ser médico, caso detestasse matemática, engenheiro, caso gostasse de matemática, advogado, caso detestasse todas as matérias.
Eu, de minha parte, via mais glamour na medicina. Minha irmã cortou meu barato:
- Como, medicina?!? Você tem medo de lagartixa!!
Bingo. Virei engenheiro. Quer dizer, sim e não. Sim, porque tenho um diploma da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, escola da qual tanto se orgulha o Paulo Maluf, por exemplo. Não, porque quando cheguei ao terceiro ano do curso de engenharia eletrônica descobri que aquilo não tinha absolutamente nada a ver comigo. Seria melhor dizer, eu nada tinha a ver com aquilo. Sei lá.
Fui levando ( ou tomando, também fico em dúvida) até o fim. Mas já com a decisão de cursar filosofia. No quinto e último ano, pra aliviar um pouco as tensões, resolvi retomar aulas de piano. Tinha estudado piano quando garoto. Mas aquele estudo quadradão, classicão. E eu, por gostar de jazz, fui parar no estabelecimento de ensino de piano do Johnny Alf. Não tive aulas com ele. Meu professor era o Nilton. Cheguei meio acanhado. Nilton perguntou qual era meu background no piano, sentamos e ele começou a me ensinar Misty. Em meio a essa primeira aula, vira-se o Nilton pra mim e sapeca a pergunta-afirmação:
- Você é engenheiro, né?
Se ele xingasse minha mãe não seria tão devastador. Apesar de tudo, tivemos uma relação amistosa, embora curta.
(um dia, Nilton me falou que Johnny Alf tinha composto uma música incrível pro festival que iria rolar dentro de uns meses na TV. Me levou até o quarto do Johnny. Ficava no fundo do casarão em que funcionava o curso. Acordou o dito cujo, conversamos um pouco e ele me mostrou Eu e a Brisa. Não me lembro se já tinha letra. Se já existia, ele não tinha decorado ainda).
Hoje, em comentário no post abaixo deste, a Laura me falou na Revista Engrenagem como revista de engenheiros.
Não, Laurinha. Não é de engenheiros. Engenheiro, só eu. Ou não.

domingo, 12 de junho de 2005

Mexe mexe


Acabo de ver entrevista de Jorge Ben Jor a Chico Pinheiro, na Globonews. Me impressionou a informação de Jorge: diz ele que mora até hoje no mesmo lugar do Rio de Janeiro em que morava quando começou sua carreira. Não sei se foi força de expressão. De qualquer jeito, isso acionou em mim uma porção de lembranças. Primeiro, lembrei da entrevista a que assisti, no início dos anos 60. Um tal de Jorge Ben foi entrevistado por Silveira Sampaio. Era, salvo engano, a primeira aparição de Jorge em TV. Cantou Mais que nada e Chove chuva. De lá pra cá, não parou de produzir música. Chamou o síndico, aconselhou a tia Léa a não ir de helicóptero, inventou o Patropi, cantou os gols de um Fio ingrato, que o processou em busca de ‘direitos de imagem’, esquecido de que a imagem dele foi criada por Jorge (a música Fio maravilha teve de transformar-se em Filho maravilha), enalteceu Charles, o Anjo 45.
Agora, sua música ‘de trabalho’ é Mexe mexe.

Reactivus Amor Est (Turba Philosophorum)
Vale a pena? Não, não vale a pena porque não há pena. Há, como sempre, liberdade, alegria, deslumbramento. Propõe que você se mexa. Nada de parar. Quem pára, apodrece. Vê se te mexe.
E volto à questão de Jorge continuar a morar no mesmo lugar de sempre. É claro, no caso dele, que isso não diz muito. Jorge é cidadão do mundo (Mais que nada é a música brasileira com maior número de gravações no exterior, umas duzentas. E eu, que pensava que era Garota de Ipanema). Mas lembrei dos meus tempos de Santos. Tinha um amigo de infância – o Luiz Carlos. Éramos inseparáveis. Desde muito pequenos, tínhamos namoradas definidas. Quando brincávamos com nossos carrinhos, imaginávamos que íamos visitar as respectivas namoradas. A imaginação voava. Pois bem. Minha vida deu mil piruetas. Fui jogado pelo destino de lá pra cá, de cá pra lá. Luiz Carlos não. Ficou em Santos. Construiu sua vida lá. Casou-se com aquela namoradinha dos tempos de infância. Teve filhos com ela. Enfim, virou árvore, enraizou-se.
Por muito tempo, confesso que desprezei essa postura vegetal de certas pessoas. Achava que viviam de modo muito provinciano, acomodado.
Hoje, entendo que há árvores e pássaros. Todos necessários ao (perdão pela má palavra) equilíbrio ecológico.

sábado, 11 de junho de 2005

Gostas de dançar?


Pra este baile não precisa de convite.

Clique para entrar no salão

Torre de Babel


Ano: 1.961 (depois de C): entro no restaurante/bar da avenida Ipiranga, perto da esquina com a São João (esquina que já existia muito antes do Caetano Veloso). Almoço e, por fim, quero um sorvete. Peço um sândei. O garçom me olha com cara de I-beg-your-pardon. Olho em volta, à procura de ajuda. Vejo um adesivo na parede, foto do sundae.

Delícia
Aponto o adesivo. E o garçom:
- Ah. Você quer um sundái.
Algumas semanas depois, mesmo lugar. Quero sundae de sobremesa.
- Garçom, me vê um sundái, simplifico eu.
O cara me olha com total desprezo e pontifica:
- Ah, você quer um sândei.

***

Na empresa de engenharia em que trabalhava, anos 70, emprestam um desenhista pro meu setor. Ele estava sem serviço na área dele. Eu precisava alimentar o computador com uma série de números para calcular já-não-sei-mais-o-quê. Computador assim, em time sharing, com terminais espalhados pela empresa, era novidade absoluta.
O desenhista vem para me ajudar. Procuro explicar a ele que, logo que fizer o log in, preciso dar run no programa e, aí, poderemos entrar com os dados no data base. Passo a ele a tabela que ele deverá me ditar para que eu a digite. O primeiro número é 55.
Logo que ponho o programa a rodar, peço que ele me dite os números da tabela. E ele, não querendo ficar pra trás, com tanto inglês na jogada, diz, solene:
- Fifty five.
É claro que o apelido pegou. Não sei o nome dele. Era só o fifty five.

Sinais


Agora há pouco, vi na TV: o bispo Edir Macedo deixou crescer a barba.
Que será que isso significa?

sexta-feira, 10 de junho de 2005

Táticas diversionistas


Ontem foi aniversário da baixinha. Era o caso de um jantar fora, clima romântico, coisa e tal.
Acontece que tinha Brasil e Argentina. Pode?
Aí mandei flores pra ela (essas aí) com bilhetinho:

Fala verdade, pegou bem, né não?
O arranjo é vermelho como nosso amor: às vezes vermelho de paixão, umas poucas vezes vermelho de raiva. Mas sempre tudo intenso, vermelhão. Beijinhos vermelhinhos.

Cheguei pouco depois da entrega das flores. Ela estava feliz, sorridente.
Assisti ao jogo na boa.
Pena que acabei vermelho de vergonha, com o resultado do jogo.

quarta-feira, 8 de junho de 2005

Dica para os exportadores


Outro dia, em meu trajeto cotidiano São Paulo-Osasco-São Paulo, fiquei um tempão ouvindo no rádio do carro uma entrevista de um representante dos exportadores brasileiros. Ele vociferava contra a queda do dólar. Mostrava que não era possível um empresário obter redução de custos da ordem de 20% em um período tão curto quanto aquele em que o dólar desvalorizou-se frente ao real nessa ordem de grandeza.
Em resposta à chiadeira dos exportadores, o ministro Palófi saiu-se com uma tautologia: 'Câmbio flutuante é aquele que flutua'.
Já tenho a solução para o problema dos exportadores. Toda vez que o dólar descer a níveis desconfortáveis para nossos humildes exportadores, sugiro que contratem alguma das várias reservas morais da nacionalidade - que as há sempre em disponibilidade, vide Roberto Jefferson - para que revele à nação alguma maracutaia tamanho família. Pronto. O dólar sobe que é uma beleza.

segunda-feira, 6 de junho de 2005

Sou um cara de sorte


Pelo menos em matéria de futebol.
Joguei futebol nas areias da praia de Santos com Gilmar dos Santos Neves, Zito, Ipojucã etc etc.
Ouvi, pelo rádio, a vitória do Brasil sobre a Suécia (5 a 2) em 1.958.
Vi os 'teipes' das vitórias do Brasil no Chile, 1.962.
Assisti pela TV, certo que em preto e branco, mas ao vivo, às notáveis vitórias do Brasil em 1.970. no México.
Vi, ao vivo e em cores, o Brasil perder dando show em 1.982.
E ontem, sábado, vi Portugal jogar vinte ou vinte e cinco minutos impecáveis no segundo tempo do jogo contra a Eslováquia.
Hoje, a seleção brasileira está a mostrar, em Porto Alegre (estamos no intervalo), que ainda não é, mas virá a ser, uma bela mistura de seleções: a de 70 com a de 82.
E ainda vou assistir a uma final da Copa de 2.006, na Alemanha, entre Portugal e Brasil.

Final de jogo no Beira Rio, Porto Alegre
Ele, Robinho

domingo, 5 de junho de 2005

Briga de vizinhos


Neste momento, estão a jogar a final de Roland Garros o espanhol Nadal e o argentino Puerta.
Os argentinos são os vizinhos que os brasileiros mais adoram odiar. Os espanhóis, bem, os espanhóis não deixam escolha aos portugueses: são os únicos vizinhos.
Para acompanhar a índole de meus dois povos, talvez deva torcer para que ambos percam.

Atualização: todos ganharam. Principalmente quem assistiu a esse jogo memorável.
Nadal ficou com o título.

segunda-feira, 30 de maio de 2005

Santo Antonio do Bundar


Como quinta foi Corpus Christi , fui de corpo e alma bundar em Santo Antonio do Pinhal, pouco menos de 200 km de São Paulo, quase em Campos do Jordão. Serra da Mantiqueira.
Ficamos em uma pousada aconchegante. Com muito esforço, fomos até uma cachoeira ali perto. Pena que era proibido fazer despachos de macumba.

E eu, que tinha levado galinha preta e velas
A cachoeira não é nenhuma coisa tipo Foz do Iguaçu, mas dá pro gasto.

Diz que não há trutas nessas águas
Em compensação, a pousada em que ficamos (vê só o chalé amarelo. É o nosso)

Bonitinho, né
fica em um pequeno vale e oferece um visual aprazível.

Essa é a construção central da pousada, vista do nosso chalé
A água da piscina devia estar gelada. A cachaça não
Amanhã, trabalho.
Bundar, só semana que vem (segunda é feriado em Osasco, onde trabalho e é - vejam a coincidência - dia de Santo Antonio).

domingo, 29 de maio de 2005

[Informe Publicitário]


Já está disponível o número 9 da revista Engrenagem. Aliás, já está disponível, imagino, desde ontem, sábado. Quem não estava disponível era eu. Estava em Santo Antonio do Pinhal, 200 km da minha casa, onde fui bundar desde quinta-feira.

E tem Edith Piaf, interpretada por Cássia Eller, segundo corrigiu a chefinha
Uma porção de gente escreve sobre o tema "E agora, lembra de mim?".

E tem a letra com a tradução
Eu gostei mais do texto da Lilly Rowan. E você?

quarta-feira, 25 de maio de 2005

Não chego mais atrasado


Agora sim. Problema resolvido.
Acontece que detesto chegar atrasado a compromissos. Considero falta de respeito deixar alguém a me esperar, passada a hora do encontro.
Mas sabe, a coisa é complicada. São Paulo tem um trânsito caótico. Além disso, os relógios apresentam diferenças importantes. Nem todos coincidem. E por aí vai.
Tudo isso é passado. E graças ao Hidetoshi Katori, da Universidade de Tóquio. Ele e sua turma bolaram um novo relógio que tem uma precisão da ordem de 0,000000000000000001 do segundo. Antes, os relógios mais precisos não conseguiam (vejam só!) medir tempos menores que 0,000000000000001 segundos. Que porcaria. Coisa de camelô.

sábado, 21 de maio de 2005

As virtudes da Psicologia


Houve um tempo em que fui casado com uma psicóloga. Ninguém é perfeito (me refiro à psicóloga, claro)
Ela me ensinava coisas muito interessantes.
Por exemplo: quando você freqüenta um lugar com alguma assiduidade, lugar no qual é constrangido a dar gorjetas (propinas, como se diz em Portugal), digamos, o estacionamento (parque, como se diz... será que não dá pra termos uma língua única, pô) de um restaurante, faça o seguinte:
Dê a gorjeta de modo aleatório. Um dia alta, noutro dia quase nada, depois nada, na próxima visita alta de novo. E por aí adiante. É a melhor forma de manter-se em bom conceito com os agraciados (ou não) por suas gorjetas.
Se você dá sempre gorjeta baixa, claro: imediatamente classificado como sovina, tratado como tal.
Se você dá sempre gorjeta alta, claro: tratado como perdulário, não se dá ao respeito.
Se você dá sempre gorjeta média, claro: trata-se de um medíocre usuário (utente, como se diz... chega!).

Qualquer coisa


A vantagem de ter péssima memória é... qual é mesmo?

sexta-feira, 20 de maio de 2005

Cante e Dance


Laura, Laura. Que descoberta mais a calhar.
Você que gosta de tangos e boleros (viu, Che Caribe) não perca.

Cante também
Ponha som na caixa e bola pra frente.
Bora cantar e dançar.

e-Deus


Já inventaram várias formas de comunicação com a(s) divindade(s). Há as que passam por rituais ou por intermediários. Há as que são diretas, pela simples oração.
Mas tudo isso vai virar passado. Chegou a web religion.

Delete seus pecados
Passe seu e-mail pra Deus. Entre no Messenger e bata um papo com JCristo. Se quiser, ligue sua web cam e veja João Paulo II face a face.

O que? Querias Deus? Aí não. Ninguém pode ver Sua face. Quando muito, leia Seu blog.
É a e-Bíblia.

quinta-feira, 19 de maio de 2005

A merda nossa de cada dia


Um monte de gente se escandalizou, só porque o Branco Leone confessou que come merda, ou melhor, chinchulines.
Se você é desses, dá uma lida nesse texto que copiei desta simpática página sobre as abelhas e seu incansável trabalho de fabrico do mel:

“...perguntei para uma abelhinha como se fabrica o mel, e ela me disse: - A fábrica é no meu estômago! Acredita? O néctar que retiro das flores, engulo e lá dentro, passa por diversas transformações químicas enquanto vôo de volta à colméia. À porta de nossas casas esperam-me as minhas irmãzinhas mais novas a quem eu lanço o mel pronto, do meu estômago. Elas o recebem e engolem também e vão para dentro depositá-lo nos alvéolos dos favos, onde permanece até amadurecer.”


Pois é. Adoro mel e chinchulines.

terça-feira, 17 de maio de 2005

Manda bala


O José Pimentel Teixeira, do Ma-Schamba, de Moçambique, adora terçar lanças por Dulcinéia. Eu acho ótimo. Cá, no Brasil, ninguém mais briga por nada.
Locupletamo-nos todos.

O Google e o Bazar


Fico aflito com as pesquisas que trazem o pessoal até meu blog. Quase sempre, o que o cidadão procura não tem nada a ver com o que eu escrevo. Imagino a enorme frustração do indivíduo ao chegar a meu Bazar. Hoje, por exemplo. Um esforçado colegial (ou terá sido um renomado pesquisador acadêmico? Um autor de samba-enredo? Um ?) colocou no Google a seguinte interrogação:
qual é o coletivo de médicos?
Veio parar aqui. É justo, isso? Só porque eu já falei em coletivo (dos presos, no Presídio Tiradentes) e já falei de médicos.
Então resolvi colaborar. Afinal, qual é o coletivo de médicos?
Primeiro, depende. Se o médico tem seu consultório já montado, clientela estabelecida, coisa e tal, nada de coletivo. Ele anda é de carro próprio mesmo. Mas se é daqueles médicos em começo de carreira, trabalhando em cinco hospitais ao mesmo tempo, aí então, haja coletivo. É metrô, ônibus, o scambau. Só não anda de bonde porque não existe mais (escrevo em São Paulo, lembra?).
Alguém poderia conjecturar: o coletivo de médico é hospital. Errado. Hospital tem um monte de médicos, é verdade. Mas também tem fisioterapeutas, enfermeiros etc – os tais paramédicos – funcionários administrativos, esparadrapo e por aí vai.
Pronto. O coletivo de médicos pode ser estraga-prazeres.
Não, isso não é coletivo. Isso é definição.
Sei lá. Acho que vou pesquisar no Google.

segunda-feira, 16 de maio de 2005

Pode?


Já não chega a turma pegar no pé o tempo inteiro com piada de português?
Agora, Portugal resolveu virar, também, país da piada pronta.
Olha só o que descobri neste post do O Traque:
O piloto português na Fórmula 1, o Tiago Monteiro, na realidade é:

Confira na Wikipedia

Tiago Vagaroso da Costa Monteiro

domingo, 15 de maio de 2005

P-CHUVA


Mal começo.
A dissidência do PT que resolveu montar novo partido político pra nos livrar de todo o mal, amém, começa por enviar spam pros possíveis eleitores.

Rindo de quem, dona Heloísa
Sem comentários.

[Informe Publicitário]


A IMPORTÂNCIA DO " P "

E O MELHOR DO CORPO HUMANO


engrenagem # 8


Revista Engrenagem



Bom, sempre tem aquela piadinha que só tem graça pra americano: a professora pede pro garoto recitar o alfabeto. O guri vai em frente: A, B, C ...... M, N, O, Q, R, S .....
E a professora:
- E onde está o P?
(que, em inglês, é “pi” e significa também xixi)
E o garoto, envergonhado:
- Escorreu pela calça, professora.
Gracinha de piada, né não?
Mas evidencia a importância do “P”, pô.
Agora. Falando sério. Quer dizer, mais ou menos. Estou no número 8 da Revista Engrenagem, junto com uma turma pra lá de maluca. Mas malucos que escrevem coisas deliciosas.

sábado, 14 de maio de 2005

Ainda vai dar Porto


Pouco antes de Benfica x Sporting eu conversava pelo Messenger com o Asulado. Reclamei que só tenho aqui um canal português, a RTPi, que insiste em só transmitir ao vivo jogos secundários do campeonato português. Hoje, por exemplo, enquanto todo mundo em Portugal está de olho no jogo de Lisboa, a RTPi transmite Rio Ave x Porto.
Já estava conformado em assistir aos jogos do campeonato espanhol quando – quase sem querer – descobri que o BandSports iria transmitir Benfica x Sporting.
Beleza. Só assim pude ver o Luizão levar na conversa o Ricardo e jogar o Sporting pra fora da disputa.
Mas não se entusiasmem, benfiquistas.
Ainda vai dar Porto.

sexta-feira, 13 de maio de 2005

O último gesto de Celina


Minha mãe jamais admitiu que tivesse câncer. Eu era a favor de abrir o jogo com ela. Minhas duas irmãs, contra. Em pouco tempo, percebi que tinham razão. Afinal, Celina, que de boba não tinha nada, já tivera mil oportunidades para perceber do que se tratava, todo aquele sofrimento. Se não se dera conta era porque não queria. Ponto.
Por não saber, vivia a fazer planos para depois que ficasse boa. E assim atravessamos o ano da graça de 1.992. No início de dezembro, ela me confidenciou:
- Se não ficar boa até o Natal, quero ir embora. Estou cansada.
Sábado, 12 de dezembro, chamei minha irmã que mora no Rio.
- Vem que ela está no fim.
Ao longo do sábado ela foi definhando. Lá pelo meio da tarde já não conseguia falar. Eu, inconformado, peguei uma pequena prancheta, papéis, lápis e fiz várias tentativas de dialogar com ela por escrito.
Consegui alguma coisa, mas depressa isso também se tornou impossível.
Começo da noite, os três irmãos estávamos abraçados, em pé, junto à cama.
Celina ergueu com dificuldade a mão direita, juntou o polegar ao mindinho, e mostrou três dedos retos, irmanados. E sorriu.
Dormiu e nunca mais acordou.

quinta-feira, 12 de maio de 2005

Per capita


Foram uns dez meses de relacionamento. Trezentos dias. Vamos exagerar: teriam sido trezentas, como dizer, vá lá, trepadas, mesmo.
Quinze milhões divididos por trezentos costuma dar (ops!) cinqüenta mil reais. Ou se preferirem, algo do tipo quinze mil euros.
Caro, né.

Santos 6 X O Bolivar


Parecia as peladas que a molecada jogava na praia do Boqueirão, em Santos, nos idos tempos. Como ninguém tinha relógio, o critério de duração do jogo era:
Três vira, seis acaba.

terça-feira, 10 de maio de 2005

Ordinais


Primeiro foi a paixão. Segundo, o amor.
Só bem mais tarde surgiu o terceiro, já que no quarto reinava a indiferença.
A relação tornou-se um quinto dos infernos.
Lá pelo sexto ano, ficou claro para todos:
Aquilo estava longe de ser o sétimo céu.
Para eles, há muito já não era a oitava maravilha.

Cardinais


Um dia, dois amigos se desentenderam por causa de três vinténs. Trocaram quatro ou cinco sopapos, meia dúzia de palavrões e ficaram sete ou oito meses sem se falar. Depois de nove meses, tempo adequado para curar as mágoas e permitir a gestação do perdão, fizeram as pazes.
Hoje, a amizade deles é dez.

domingo, 8 de maio de 2005

Era uma vez - XXIV
Bilhetes a Celina (4)


Já, já, vai ser dia das mães. Então, transcrevo aqui mais um bilhetinho enviado a minha mãe de dentro do Presídio Tiradentes. Como em outros bilhetes, ela é que anotou a data: 2/6/72.
Só retirei, do final, as menções ao pessoal da família. O resto, vai do jeito que foi escrito (ortografia mantida):


Oi, manhê!
Estou escrevendo de manhãzinha. São 7 e pouco. Dormi muito cedo (umas sete da noite) e acordei de madrugada, sem sono. Ontem estava lendo sobre Platão. Esta madrugada comecei a ler sobre Aristóteles e já me sinto diferente de ontem. É gostoso sentir-se como os pensadores que se estuda. Dormi platônico e acordei aristotélico. Mas em tudo isso predomina a idéia grega de “justiça”. Ela não significa, para os gregos da Antigüidade, o mesmo que modernamente. Para êles, era uma noção de equilíbrio: o justo é não ultrapassar os limites eternamente fixados. Na moral aristotélica, isso significa a valorização do meio-têrmo. Algo como: “a virtude está no meio”. A coragem, por exemplo, é virtude porque é o meio-têrmo entre a covardia e a temeridade. E daí pra frente.
Tudo isso me lembra uma frase de um companheiro de cela: “Quem acende uma vela a Deus e outra ao Diabo, acaba ficando no escuro”. Frase que, como se vê, nada tem de aristotélica...
Com tudo isso, aprendo coisas curiosas. Platão era a favor da dissolução completa da família. Os filhos deviam ser retirados dos pais ao nascer, tomando-se cuidado para que não se conhecessem (os filhos aos pais e vice-versa). Além do mais, as mulheres deviam ser desfrutadas em comum pelos homens do grupo. As crianças deveriam ser educadas pelo Estado. Se os donos da moral de nossa Terra ficam sabendo disso, o pobre Platão vai passar por maus momentos... A ignorância em nossa Terra é tão grande que seria cômica, não fôsse trágica. Mas como diz um escritor argentino, ao dizer quase o mesmo de sua Pátria: “isso é algo que se deve reconhecer com todo carinho”...
Ah! Aristóteles recomenda que as crianças sejam concebidas no inverno, e justifica falando em ventos que sopram não sei como... Eu nasci com a fôrça do calor, como diria o humorista luso...
Quanto ao cotidiano: tudo bom, esperando com inesperada calma a liberdade. O estudo da Filosofia é um ótimo sedativo. Roupas sujas, vasilhas e quejandos serão devolvidos sábado, como de hábito (bonito, né!)
Quanto ao mais não há nada a dizer. Como diz Eurípides: “o sofrimento em demasia torna-se ridículo”. E eu não quero ser ridicularizado.
(...)
Na senhora, um beijão grandão.
Té manhã! Tchau!
Beto

sábado, 7 de maio de 2005

As bananas azuis


Meu interesse pelo assunto vem de longe. Quando criança, minha refeição preferida era banana-com-aveia. Mas era coisa de profissional, nada dessas papinhas ridículas que fazem pras crianças, misturando uma banana triturada a uma colher de aveia, não.
Pegava um prato fundo, amassava nele cinco ou seis bananas nanicas. Depois vinha a questão do como adoçar a coisa. Às vezes, muitas vezes, era com açúcar mesmo. Em outras fases foi mel. Mais tarde, leite condensado. Tive a época do açúcar mascavo, da qual me redimi com alguma rapidez. Mas o ponto alto do preparo era o despejar de quase uma caixa de Aveia Ferla (nada de Quacker) em cima do mingau. Mexer bem, fundamental. Até obter massa homogênea e consistente. Dependendo do humor, punha Toddy ou não. O que gerou duas categorias: a banana-com-aveia clara e a banana-com-aveia escura.
Na família, todos concordam que só sobrevivi graças à banana-com-aveia. Cheguei até a planejar abrir uma franquia de banana-com-aveia. O nome seria n’aveia. Desisti. Não por culpa da banana-com-aveia. Foi por falta de espírito empreendedor, mesmo.
Portanto, nada mais natural que o tema das bananas azuis tenha me seduzido com facilidade. Primeira referência que tive sobre isso foi na fase em que me dediquei a ler os clássicos. Foi depois que saí do presídio. Não tinha o menor apetite para os assuntos do dia a dia da política, da economia, mesmo das artes e espetáculos. Fechei-me em Homero, Aristófanes, Horacio, coisas assim. Mas foi em Heródoto que achei a ponta do fio da meada. Na edição da Pléiade (ou você acha que eu lia os caras em grego) esbarrei em menção a povos da região dos Bálcãs nos quais a elite mantinha sua ascendência sobre a plebe graças aos extraordinários predicados das bananas azuis, cultivadas em estufas resguardadas da curiosidade geral.
Algum tempo depois, quando me interessei pela Cabala, descobri que a tradição das bananas azuis atravessou a Idade Média graças a abnegados cultores dos mistérios cabalísticos. Desconfio que Shimon Bar Iojai (Rashbi), em seu Sefer HaZohar, insinua qualquer coisa sobre os poderes fantásticos das bananas azuis. Parece mesmo que há relação entre elas e a expressão sangue azul, dedicada à nobreza.
A Renascença não conseguiu romper os mistérios que sempre cercaram o tema. Mas há poucas divergências entre os historiadores: Descartes certamente provou do fruto. O mesmo não se pode dizer do provinciano Kant. Ele não ia sair do seu pequeno mundo rotineiro para correr atrás de bananas. Ainda que azuis.
No mundo moderno, quase não há referências ao enigma. O que não significa que ele tenha deixado de existir. Ao contrário. Há raros documentos que parecem indicar que Hitler perseguia os judeus na esperança de captar-lhes os segredos milenares das bananas azuis.
De facto, o holocausto tornou mais difícil seguir as pegadas dos fiéis guardiães dessa tradição.
Nos dias atuais, o mistério não faz senão aumentar. Mas não. Michael Jackson nada tem a ver com isso.
Se alguém tiver alguma dica, por favor, deixe nos comentários.

Thiaguinho não. Thiago de Mello.


O Wilton, do blog Quitanda do Chaves, reproduz, em um post, os Estatutos do Homem, de Thiago de Mello.
Lá por volta de 1.965 ou 66, montei uma peça teatral com texto que era uma colcha de retalhos de tudo que eu andava a ler na época, imitando os espetáculos tipo Opinião, Liberdade, Liberdade etc etc. Tinha Vinicius, Drummond, Bandeira, o diabo. E tinha Thiago de Mello. E seus Estatutos do Homem. Eram, aliás, o ponto apoteótico da coisa toda. Foram muitos ensaios e uma apresentação um tanto canhestra para um público errado, no auditório do Colégio Baptista Brasileiro, em São Paulo.
Depois do fim de tudo, minha mãe me contou que conhecia o tal de Thiago de Mello. Fiquei surpreso. Ela explicou:
Nos idos de 1.935, recém casada com meu pai, fora morar em Manaus, Amazonas, tudo porque meu pai não queria ser um pastor baptista qualquer, queria ser missionário em lugares inóspitos.
Pois bem. Na Igreja Baptista de Manaus minha mãe conheceu a mãe de Thiago de Mello, na época um garoto. Mais: ganhou dele uma pequena pintura, escolhida entre seus primeiros esboços de arte.
- Pois é, disse minha mãe, era um quadro do Thiaguinho.
E eu, já aflito:
- Mãe. E onde anda esse quadro.
- Ah, filho. Acabei jogando fora em alguma mudança.

sexta-feira, 6 de maio de 2005

Desamores & Filosofia
(ou seja, conversa fiada)


A Laura foi cobiçada pelo Drummond. A Helô Pinheiro pelo Tom. Eu mesmo namorei uma menina que tinha sido assediada pelo Sérgio Ricardo. Aquele mesmo, que quebrou o violão no palco da Record, num festival de música popular. Ato que propiciou a manchete fantástica de um jornal sensacionalista de São Paulo: Violada em pleno auditório.
São desencontros, desamores. Como tantos pela vida, como dizia Vinicius. Vinicius, o mesmo que – segundo meu ortopedista confidenciou – participou de um cruzeiro Brasil – Europa junto com Neruda. Bebiam tanto que, passado o meio-dia, ficavam imprestáveis. Em uma escala, Neruda desembarcou, carregado em maca, acometido de uma crise de gota.
Por falar em imprestáveis após o meio-dia, há uma história de Passos que não consigo não compartilhar:
Uma irmã de meu pai, Carolina, veio para o Brasil ainda jovem. Anos mais tarde visitou Passos, sua terra natal. Lá encontrou seu meio irmão Zindo (do qual conheço os filhos, que continuam lá). Era quase o “dono” da aldeia. Ele é que chamava o padre para rezar missa e tomava todas as providências que a pacata vida social do local exigia. Sua rotina de vida era simples: durante a manhã, aboletava-se na varanda de sua casa, munido de uma peça de presunto, de uma faca afiada e de um garrafão de vinho. Tudo artesanal, claro, claro.
Ao meio-dia, estava como Vinicius e Neruda no cruzeiro a que aludi acima. Imprestável.
Minha tia Carola (que adotou esse nome ao invés de Carolina, que achava horrível, vejam só), para provocá-lo, perguntou-lhe um dia (antes do meio-dia):
- Zindo, como podes viver dessa maneira e ao mesmo tempo trazeres cá padre a rezar missa e coisa e tal? Como concilias tudo isso?
E tio Zindo sem se apertar, enunciando o que considero assertiva importante da filosofia pós-socrática:
- Veja, lá em cima está Deus.
-Aqui embaixo, é tudo a mesma merda.

domingo, 1 de maio de 2005

NOJO


Hoje acordei disposto a viver um dia ameno. Domingo, 1º de maio, dia cinzento em São Paulo, um pouquinho de frio.
Peguei o jornal, a Folha de S.Paulo, comecei pela coluna do José Simão e pelos quadrinhos geniais do Angeli, do Laerte etc etc.
Não deu pra escapar. Primeira página: ex-militares que combateram a guerrilha do Araguaia querem indenização. E contam, sem pudor algum, como torturavam e matavam os guerrilheiros. Não coloco link nenhum. Não acho que valha a pena ler isso.
O Brasil está cada vez mais assim: uns caras sub-humanos empunham seus certificados de reservistas e querem ganhar dinheiro por terem sido excelentes em sua vilania.
Se olhar mais uma vez essa foto, vomito.

sexta-feira, 29 de abril de 2005

O avesso de um blog


Minha irmã mais velha sempre foi muito crítica de si mesma. Aos 25 anos já se achava uma velha. Lá pelos 40 já reclamava dos terríveis efeitos da lei da gravidade etc e tal.
Belo dia, foi ao médico. Revisão geral. Levou aquele monte de exames e aguardou as péssimas notícias que o médico certamente lhe daria. Pra surpresa dela, o médico disse que ela estava ótima. Tudo funcionando maravilhosamente bem.
Ela não se deu por achada:
- Doutor, se estou tão bem assim, por dentro, não dá pro senhor me virar do avesso?

Foi nisso que pensei, agora há pouco, ao ler os comentários aos posts anteriores. Afinal, os comentários são algo assim como o avesso de um blog. Ficam escondidos da primeira leitura mas determinam muito do caráter do blog. Quase se poderia dizer de um blog:
Dize-me quem (e como) te comenta e te direi quem és.
Se realmente isso é verdade, estou muito bem. Só quero que saibam que nem sempre respondo aos comentários não porque não tenha o impulso de fazê-lo. O problema é que muitas vezes eles me embasbacam.
Mas adoro meus comentadores, pode crer.
Será que dá pra virar este blog do avesso?

quinta-feira, 28 de abril de 2005

Que significa 25 de abril?


Vanessa, a menina do Sopa de Letrinhas, nascida com o dom da escrita, pergunta (comentário no post aí embaixo):
- Eu não sei o que se deve comemorar em 25 de abril...
É o seu aniversário?
Vanessa: de certa forma, sim. O 25 de abril (de 1.974, você nem era projeto de gente ainda) foi o dia em que os portugueses resolveram que já bastava de uma ditadura que ocupara boa parte do século 20. O primeiro ministro, Salazar, foi causa e efeito de um certo espírito português que demorou a superar-se.
Nessa época, eu mal completara um ano de liberdade. Tinha saído da prisão no início de 1.973. Fiquei feliz ao saber do desmoronamento da ditadura de Salazar. Aqui, no Brasil, teríamos de esperar mais uns onze anos pra alcançar o regime democrático.
Duas historinhas me vêm à lembrança:

Uma, meu pai contava quando eu era criança (e eu já a repeti em algum blog por aí). Durante a segunda guerra (1.939-1.945), Salazar colocou Portugal em posição de neutralidade entre o Eixo (Alemanha, Japão e Itália) e os Aliados. Suas preferências eram claramente pró-Eixo mas Portugal não estava com essa bola toda pra entrar na guerra ao lado dos nazistas. Mas – dizia meu pai – o povo português torcia pelos Aliados, em silêncio (penso que isso deve ser meia verdade, mas deixa pra lá). O facto é que um dia, em uma sessão de cinema na cidade do Porto, era projetado na tela um noticiário sobre a guerra, a mostrar vitórias dos Aliados. A platéia ansiosa para aplaudir. Mas silente, com medo das possíveis punições em caso de manifestação contrária ao Eixo. Até que um gaiato acabou com o impasse:
- Viva o Futebol Clube do Porto!, gritou no meio da platéia.
E o cinema em peso:
- Viva! Viva!

A outra eu soube de fonte mais próxima. O Estadão, na década de 60, tinha um editorialista português, Miguel Urbano Rodrigues, comunista notório. Aliás, sempre que alguém lhe perguntava como um comunista podia ser editorialista de um jornal conservador como o Estado de São Paulo, Urbano contestava:
- Sou um mero linotipista.
Pois vai daí, em 61 um certo capitão Galvão, em Portugal, rebelou-se contra a ditadura salazarista e acabou por tomar de assalto um navio – o Santa Maria – levando-o para perto de Recife, em águas brasileiras. O doutor Julinho, dono do Estadão, destacou Urbano pra cobrir o feito. Imaginou que, como português e super anti-Salazar, conseguiria boas matérias para o jornal.
Urbano foi para Recife, entrou em contato com o navio e conseguiu que Galvão o recebesse a bordo, para entrevista. Doutor Julinho, em São Paulo, não continha o entusiasmo e a ansiedade pela publicação do furo jornalístico.
Passado um breve período de alta ansiedade, chega um telegrama do Urbano:
- Aderi.

terça-feira, 26 de abril de 2005

Três microcontos pra comemorar o 25 de abril


Amou daquela vez como se fosse a última. E morreu antes do final de Construção.

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Precisava esquecê-la. Colocou as cartas em uma caixa. Trancou a caixa. Jogou a chave no rio.
Mas as cartas não eram as dela. A caixa que trancou era outra. O rio estava seco.

**********



O menino, ao tentar embocar a bolinha de gude no buraco, nem imaginava em quantos buracos a vida o meteria.



segunda-feira, 25 de abril de 2005

Destino


Começou a experimentar a vida com cuidado. Aos poucos. Esticava uma aventura aqui, outra audácia ali. Não ousava exageradamente.
A partir de um certo ponto, as coisas se precipitaram. Ele deslizou na correnteza. Tentou planejar. Deu com os burros n’água. Tudo saía pela culatra.
Percebeu que era mais prático adaptar-se ao ocorrido. Foi o que fez.
Funcionou. Mais ou menos.
Aproveitou os bons momentos. Reclamou, baixinho, dos instantes desagradáveis.
E seguiu.
Depois do sexto dia, olhou pra trás.
E viu que era bom.
Descansou, então.

sábado, 23 de abril de 2005

sexta-feira, 22 de abril de 2005

Dicas da semana


Dê um pulinho à Rua da Judiaria e leia este post.
Depois de enxugar as lágrimas, leia o texto O primeiro dos óbvios no Querido Leitor, da Rosana Hermann. É um post do dia 20.04.2005. Mas você tem de rolar bem pra baixo, porque eu não sei como isolar o post e a menina escreve feito metralhadora. Mas vale o - digamos - esforço.

quinta-feira, 21 de abril de 2005

Notícias do céu


Nosso correspondente Fred Nietzsche traz uma notícia boa e uma ruim. Comecemos pela má:
Deus morreu.
A boa:
Não vai haver aquela chateação de conclave de papas defuntos (não confundir com papa-defuntos, que é outra coisa) pra escolher o novo deus. Nem fumacinha preta ou branca. Fumaça no céu é sinal de chuva ou neve.
Na realidade (ou seria na celestialidade?), ninguém sabe como será a escolha do próximo deus.
Os brasileiros acham que Fernando Henrique seria um luxo só. Pena que ainda não chegou lá.
Quanto aos portugueses, parece unânime o apoio à candidatura de Mourinho.
Já os americanos pensam que Bush deveria intervir no céu. Depois de instaurada a verdadeira democracia, aí os querubins, serafins, o diabo-a-quatro (epa!) escolheriam livremente o deus que o Bush recomendasse.
Tony Blair concorda.

Tiradentes


Hoje, no Brasil, é feriado. Comemora-se (!?!) o enforcamento de José Joaquim da Silva Xavier, o Tiradentes, ocorrido em 21 de abril de 1.792.
Se fosse hoje, considerando-se os avanços da odontologia, a alcunha dele seria algo do tipo Tratacanal.

Quase


Estava prestes a atingir a sabedoria quando morreu.

Notícias do Vaticano (extra)


Sem dúvida, essa receita de refeição infantil é abençoada:
Papa e água benta.
Ou será "Papa e água bentos".
Sei lá.
**********
O Zé Ratz disse alguma vez, em algum lugar, que as outras igrejas cristãs não podem ser consideradas irmãs da ICAR.
Isso porque a ICAR seria mãe das demais. Não irmã.
Fica a dúvida: e quem é o pai?
Se não foi Deus, pega mal. Passa imagem de uma ICAR um tanto promíscua.
Se foi Deus, fica provado que Deus f*@#% a ICAR para criar as seitas evangélicas. O que não deixa de ter lá seu sentido, em termos históricos.
**********
Obs: nosso cardeal infiltrado não agüenta mais esse negócio de conclave, urbi et orbi e o escambau.
Acho que ele vai cair fora e nós vamos ficar sem notícias. Enquanto rolou uma fumacinha ele estava na boa.

quarta-feira, 20 de abril de 2005

Notícias do Vaticano


(do nosso cardeal infiltrado)
Até que enfim! Desde a minha mais tenra infância (sempre quis usar essa expressão. Aliás, "tenra" é adjetivo que só serve pra qualificar certas infâncias e o baby beef do Rubaiyat). Mas como dizia, desde a mais tenra infância que ouço a pergunta: "Será o Benedito?". Minha mãe, por exemplo, a utilizava em situações de uma certa perplexidade e exasperação. Se um filho demorava muito no banho: "Será o Benedito? Não terminas nunca esse banho?"
Passados todos esses anos, tenho a resposta.
Sim. Será o Benedito. Dezesseis.
***********
Jura nosso correspondente no Vaticano que aconteceu: o Zé Ratz tava passando por um grupo de cardeais. Um deles, não muito simpatizante do dito cujo, sussurrou:
- Sebento.
Ratz pensou ter ouvido o Espírito Santo:
- Sê Bento.
Não deu outra.
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Mais besteiras a qualquer momento, em edição extra-ordinária.

domingo, 17 de abril de 2005

Videntes: onde estão vocês?


Todo final de ano é a mesma lenga-lenga: a TV é inundada por pais&mães-de-santo, quiromantes, astrólog@s, cartomantes, buziólog@s (devia haver essa palavra, né não?), o diabo. Explicam como vai ser o novo ano, dizem que vão morrer personalidades com tais e quais características (tudo sempre convenientemente vago), ameaçam com algumas calamidades tipo terremotos, coisa e tal. Informam que alguma estrela de primeira grandeza do mundo artístico vai ter filho e por aí afora.
Recebem seus cachês, fazem seu marketing e a vida continua.
Hoje me ocorreu o seguinte: a imprensa está perdidinha da silva em relação à eleição do novo papa. Ninguém consegue informação confiável. Por que não chamar essa turma do ramo da adivinhação? É simples: um famoso pai-de-santo ou uma famosa vidente chega no programa do Faustão (ou em outro qualquer) e diz: o novo papa vai ser o cardeal José da Silva. Sua eleição será concretizada no dia tal. Ponto. Problema resolvido.

MAKEPOVERTYHISTORY


Que me perdoem meus amigos Asulado e Baeta, que promovem em seus blogs esse movimento.
Pra mim, muito mais realista é POVERTYMAKEsHISTORY.

sábado, 16 de abril de 2005

Ex-Libris da Tugosfera


Não se recusa corrente passada pela saltapocinhas. Portanto, vamos a ela:
1. Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
Já que a Pékala, do Neurotic, queimou tudo do Paulo Coelho, só me sobraram os textos sociológicos do Fernando Henrique Cardoso, que talvez ele mesmo já tenha queimado.
2. Já alguma vez ficaste apanhadinha(o) por um personagem de ficção?
Muitas vezes. Pra citar duas, que deram nome a filhos meus: a Letícia, do conto Final del juego (que dá nome ao livro), de Cortázar. Dele também, mas no Rayuela, Horacio Oliveira, claro, claro.
3. Qual foi o último livro que compraste?
Cito três. Um comprado, dois ganhos. Todos de blogueiros. Estou digerindo os três aos poucos, como convém. Comprado: Contos de Oficina 33, de dezesseis autores, entre eles a Rosane Netto de Aguirre, a Ane Walker, do Cabezas - Egoísmo coletivo, no Cabeza Marginal.
Ganhos: O dia em que o mar desapareceu, do José Carlos Barros (Prêmio Manuel Teixeira Gomes - 2002, Conto - 2º prêmio). José Carlos é ele mesmo, o poeta de Presa do Padre Pedro.
Last but not least, Dezamores, contos e poemas de dez autores, entre eles o Branco Leone.
4. Que livros estás a ler?
Além dos que citei acima, estou digerindo História da Administração Pública em Portugal nos Séculos XII a XV, de Henrique da Gama Barros. Demora um pouquito porque são onze volumões. Me deleito, vez em quando, com o álbum que me deu minha mana Léa, Parques e reservas naturais de Portugal. E tenho o hábito de pegar livros a esmo nas prateleiras da biblioteca cá de casa, ler um pouquinho e parar. E assim se vai.
5. Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
Não dá pra instalar Internet banda larga nessa ilha?
Se não dá, cinco livros:
Camões, obra completa (Aguilar), Fernando Pessoa, obra poética (Aguilar), Borges, tudo que desse pra carregar, Grande Sertão:Veredas, Guimarães Rosa e Millor Fernandes (Millor Definitivo, A Bíblia do Caos).
6. A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e porquê?
Essa é fácil.
Primeiro, Ordisi, pra aprender a não passar dildos pros amigos.
Segundo, Branco Leone, que não escreve nunca o conto que pedi, sobre batom em cueca.
Por fim, Susana Paixão, só porque estou com saudade dela.
E chega de corrente.

sexta-feira, 15 de abril de 2005

Parabéns


Dizem que se cunhado fosse coisa boa não começava do jeito que começa.
Há exceções.
Faz anos hoje o Maurício. Sou cunhado dele. Até aí, nada. Mas é que, além de ser um papo excelente, o cearense Maurício é do primeiro time da Matemática no planeta. E, então, pra que os leitores desse blog conheçam algo de brasileiro além do Robinho, do Ayrton Sena e do Guga, lá vão algumas dicas sobre esse brasileiro:
Presidiu o CNPq de 1979 a 1980.
Presidiu a Academia Brasileira de Ciências de 1.981 a 1.991.
Conselheiro do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, de 1.996 a 2.000.
Resumo, o curriculum vitae dele é este aqui.
Hoje ele completa oitenta e quatro. Trabalha muito, produz muito. Mundo afora. E ainda encontra tempo pra plantar em seu sítio de Petrópolis.
Abração do cunhado corujão.

Era uma vez - XXIII
Baixinho e a Palhaçada


João Batista de Souza (pô, Baixo, será que ainda lembro direito teu nome?) foi militante da VAR/Palmares. Moreno, um metro e cinqüenta ou pouco mais, bigode cuidadosamente cultivado, sorriso de ironia pra lá de fina, aprendeu muita coisa na juventude. Esqueceu de aprender o que era medo.
Sei quase nada sobre sua vida. Sei que entrou pra militância política de cabeça, tronco e membros. Participou de uma porção de ações armadas. Trocando em miúdos, assaltou bancos, participou de seqüestros, o escambau.
À medida que a esquerda foi se desmilingüindo, Baixinho foi assumindo cada vez mais responsabilidades. Belo dia, Baixinho estava a morar em uma casinha minúscula, abarrotada de armas: revólveres, pistolas, muita munição, metralhadoras, bombas etc etc. Por caminhos que não vêm ao caso, a repressão chegou. Cercou a casa. Deu voz de prisão ao Baixinho. Ele respondeu atirando. Transformaram a casa em peneira. Baixinho resolveu apelar para as bombas. Pegou a primeira e lançou. Fez puuuf e nada. Lançou a segunda. Idem ibidem. Desistiu das bombas. Gastou toda a munição de que dispunha. Quando tudo acabou, saiu de mãos para o alto, melhor, de mão para o alto: com a outra segurava uma maçã.
Quando a VAR/Palmares foi a julgamento, em tribunal militar, o famigerado juiz Paiva no comando da pantomima, Baixinho era um dos menos importantes entre os militantes julgados. O julgamento cumpriu seu rito. Quando os juízes se retiravam da sala para deliberar sobre as penas, Baixinho virou-se para alguém a seu lado e comentou, em decibéis não suficientemente reduzidos:
- Isso aqui é uma palhaçada.
Não deu outra. Os juízes voltaram e o Paiva começou a ler as penas: fulano dois anos, beltrano três anos, cicrano dois anos etc etc, todos nesse diapasão.
De repente, pausa e:
- E, para deixar claro que isto aqui não é uma palhaçada, João Batista de Souza, DOZE anos.
Ô comentariozinho caro!
Baixinho pegou mais penas em outros processos. Aos poucos, chegou (se não me falha a memória) a qualquer coisa em torno de cem anos de condenação. Era resistência à prisão, ações armadas, tentativas de assassinato etc e tal. Só não sei se houve condenação pelo fato de ter se entregado comendo maçã. Particularmente eu, penso que deveria haver punição severa pra isso. Sempre deixei isso claro pro Baixo.
Resumo: o Baixinho era o cara que todo mundo achava que jamais sairia da cadeia. E o que mais doía na gente é que, quando chegava a visita de sábado, das famílias, o Baixo tinha de ficar na cela, sozinho. Era um dos poucos que não tinham parentes, não tinham ninguém. Portanto, não podia descer para o pátio.
Claro que a gente não ia deixar isso ficar assim, né mesmo? Começou o movimento pra arranjar visita pro Baixinho. Alguém arrumou uma menina que se dispôs a visitá-lo. Acho que se chamava Rosângela. Sei lá, sei que era a Rô. Não é que ela se apaixonou pelo Baixo?!? O cara era muito feio! Fazer o quê.
(se ele ler isto aqui ele me trucida)
E eis que o Baixinho virou rei. Recebia visita e bolos, tortas, doces, o diabo.
Mais: os processos dele subiram pro Superior Tribunal Militar (no qual os julgamentos eram menos políticos e mais técnicos) e ele foi sendo gradualmente absolvido.
Resultado: belo dia, chega o carcereiro e chama o Baixo.
Rua, meu. Rua.
Meu deus, até hoje dá vontade de chorar, tamanha a alegria que dominou todos na cela.
Beijo, Baixinho.

quarta-feira, 13 de abril de 2005

Era uma vez - XXII
Bilhetes a Celina (3)


Às vezes, o humor tem a função de aliviar a dor. Como neste curto bilhete de 24/01/72, véspera dos 418 anos da cidade de São Paulo:
Oi!
Ainda bem que amanhã é feriado! Assim posso descansar (piada fraca, né?) Tudo legal. Manda lembranças pra todo mundo e diz que o fato de eu não ir cumprimentá-los pessoalmente não deve ser considerado como falta de atenção. É que ando muito atarefado...
Tchau! Lá vão as sacolas de volta.
Beijão, com gripe e tudo.
Beto

Era uma vez - XXI
Bilhetes a Celina (2)


Este está sem data mas, pelo conteúdo, percebe-se ser de final de fevereiro de 1.972. Traz o inevitável "visto" do censor. Mantive a acentuação que se usava na época (pelo menos, a que eu usava). Minha letra era bonitinha, tá sabendo?
Deixa os auto-elogios pra lá e vamos ao texto. Reparem na preocupação em dizer as coisas de maneira a driblar a censura:
Oi! manhê!
É de manhã. Ficamos batendo papo a noite tôda aqui na cela, de modo que agora é que o pessoal foi dormir. O silêncio é quase total no presídio. Quando os “corrós” estavam aqui era uma barulhada de manhã! Agora a gente até estranha o silêncio. Acabei de ler mais um editorial do “Estadão” sôbre os presos correcionais (os corrós). Como todos sabem, tanto as senhoras como os senhores, os presos correcionais não existem. Uma pessoa, por lei, não pode ficar detida sem culpa formada por tempo maior do que um curto prazo. Na Justiça Comum, não sei exatamente qual é êsse prazo. Na Justiça Militar, são 30 dias prorrogáveis por outros 30. Isso em aritmética daquela que a gente aprende no grupo, dá dois meses. Depois, sempre segundo a lei, ou decreta a prisão preventiva ou solta o cidadão. Como eu já estou detido há sete meses, chega-se à límpida e insofismável conclusão de que eu não existo há exatamente cinco meses. Mas há pessoas que não existem há muito mais tempo. Napoleão, por exemplo, é uma delas.
As coisas chegaram e eu paro por aqui.
Apesar da inexistência, sábado eu estou lá no pátio. Inexistente mas assíduo.
Um beijão!
Tchau!
Beto

terça-feira, 12 de abril de 2005

Era uma vez - XX
Bilhetes a Celina (1)


Outro dia, remexendo nas tralhas aqui de casa, encontrei um pacotinho amarrado com uma fita amarelada pelo tempo e coberto com um papel em que a letra de minha mãe – inconfundível – definia: “Bilhetes do Beto”. São meus recados à “manhê”, como eu a chamava na época. Escritos no presídio Tiradentes, anos 71, 72 e 73. Minha mãe os guardou. Quando, em 92, ela morreu, minha irmã mais velha os achou entre os guardados da matriarca. Repassou-os a mim. Agora, ao reencontrá-los, constato como eram prosaicos. Pediam mantimentos, davam conta da roupa suja que eu às vezes mandava para casa de minha mãe, coisas assim. De vez em quando, raramente, escapa algum comentário menos banal. Afinal, os bilhetes eram cuidadosamente censurados na saída do presídio.
Transcrevo os que achar que merecem algum registro. Este, por exemplo:
Oi, manhê!
25/4/72
[data anotada por minha mãe]
Por ter sido a mais recente, a visita de hoje foi a melhor de todas. A próxima será melhor ainda...
O advogado não apareceu
[era o Dr José Carlos Dias, sobre o qual falarei qualquer hora], como era de se esperar... De resto, tudo às mil maravilhas. Espero que aí fora tudo esteja como no melhor dos mundos possíveis.
Mando a lista, alguma roupa suja e vasilhas limpas (ou quase). Estou chegando aos nove meses de prisão. Talvez nasça uma maturidade maior disso tudo. Mas pra usar aonde? Esse mundo está cada vez mais idiota. Quando a gente se enriquece internamente a gente se sente meio anacrônico, como naquelas historinhas de máquina do tempo em que um fulano de 2134 volta a 1972 e acha tudo estranho, esquisito. Mas, paciência. O homem ainda vai demorar pra descobrir que tem de ser homem nas horas em que se comporta como animal e animal nas horas noturnas em que o obrigam a ser civilizado pra que o mundo não se desorganize pelo efeito corrosivo da descoberta do prazer. Pensar, quando é tempo de pensar. Sentir, quando é tempo de sentir. Salomão já sabia disso.
Um beijão (e outros para os outros), e Tchau!
Beto

domingo, 10 de abril de 2005

O poder e a maçaneta


Reparei que alguém veio a este blog ao pesquisar no Google sobre maçaneta de porta. É que a expressão consta de algum capítulo do "Topologia Trivial".
Imediatamente lembrei de um comentário de não sei quem, que li não sei onde.
O aspone perguntou ao governador:
- Por que o poder político fascina tanto?
E o político:
- Não sabes como é bom passar quatro anos sem precisar segurar maçaneta de porta.

sexta-feira, 8 de abril de 2005

O desaparecimento gradual das (minhas) crenças


Quando eu tinha uns onze anos, perguntei a meu pai, que era pastor baptista:
- Pai, como fica o índio, no interior do Brasil, que nunca ouviu falar em Jesus. Quando ele morrer, vai pro inferno?
Minha dúvida fazia sentido. Afinal, os cristãos afirmam que só há salvação em Cristo. Se o indivíduo não aceitar a Cristo como seu Salvador, tá perdido. Só se salva (leia-se: vai pro céu) se aceitar a salvação em Cristo. Os evangélicos pensam assim (Os católicos já têm umas complicações, tipo purgatório etc e tal. Mas isso eu já não levava a sério mesmo aos onze anos).
Mas, e se ele nunca ouviu falar em Jesus? Vai pro inferno?
Meu pai deu de ombros. Disse-me pra que me preocupasse comigo e deixasse o índio em paz.
Começou aí, ao menos pelo que me lembro, meu processo de descrença gradual. Quando pude (isto é, quando cessou a pressão violenta da família) caí fora da igreja e passei a pensar por conta (mais ou menos) própria.
Passei por outras crenças. O marxismo foi uma delas. Devagar, debaixo de muita porrada, fui perdendo, uma a uma, todas as crenças.
Até hoje, mantive a crença na humanidade. Acredito na capacidade do ser humano de superar-se. De criar. De inventar.
Contudo, às vezes, essa última crença sofre abalos. Agora, por exemplo. Quatro milhões de pessoas tentam entrar em Roma para celebrar a morte do papa. Há confusão. Afinal, a cidade tem menos de três milhões de habitantes. Receber, de repente, a visita de quatro milhões é complicado. Falta água, falta tudo. Acho até que faltam ladrões para roubarem as carteiras dos visitantes. Normalmente isso abunda em Roma.
Fazer o quê. Essas pessoas querem ver o cadáver do papa. Já deve estar fedendo, já que dizem não ter sido embalsamado, o corpo. É um monte de ossos e de carne putrefata. Mas essa multidão quer ver isso.
Agora, diz pra mim: se eu perder minha crença na humanidade, vou acreditar em quê?!?!

domingo, 3 de abril de 2005

A arte de ser pai


Mesmo antes de ter o primeiro filho já eu havia adotado o lema:
Ser pai é a arte de se tornar desnecessário.
Nem me lembro onde li isso, muito menos sei quem inventou essa definição.
Sei que procurei seguir por aí. Não é que deu certo?
Ontem, minha filha mais velha e minha neta vieram despedir-se de nós. Vão viver em Westport, Connecticut, USA, onde já está meu genro, à espera das duas.
Já na sexta à noite, minha filha ofereceu uma festa a seus amigos em uma casa noturna da Vila Olímpia. Quase duzentas pessoas foram despedir-se dela. Em particular, lá estavam as três amigas que a acompanham desde os tempos de escola. A amizade das quatro já atravessou várias fases. Não há o que as separe. Nem a distância conseguirá isso.
Ontem, enquanto minha filha nos explicava a respeito de duas oportunidades de emprego que a aguardam em New York, eu prestava mais atenção em sua desenvoltura do que propriamente naquilo que falava.
Nada mais gratificante do que constatar que os filhos são beeem melhores do que a gente.
E verificar que – quando eles nos procuram – é por afeto. Não precisam de nós pra mais nada.
Ainda bem.